terça-feira, setembro 12, 2006

Labirintonáutica ou Teorias da Contra-Conspiração

Como eu não tenho muita paciência para essas diálises do benfica/sporting, esquerdo/direito, américa/dilúvio, nós/demónios e outras puericulturas que tais - até porque nesta idade, e dado que não me animam quaisquer apetites pedófilos (ou, ainda menos, pederásticos), entediar-me-ia mortalmente reingressar na creche ou no jardim-escola -, contorno a chinfrineira dos recreios e da fedelharia em disneylandesco rebuliço, e passo adiante.
Realizada essa higiene básica, e como aprecio mais a liberdade dum ponto de vista sujamente prático que imaculadamente teórico, é com toda a emancipação, sobretudo de preconceitos e onanismos infantis, que aproveito para sugerir uma visita a dois locais que me parecem de grande interesse:
Este, sobre as respostas do National Institute of Standards and Technology (NIST) às perguntas mais frequentes sobre a queda das Torres Gémeas;

E este, com um relatório bastante exaustivo sobre o incidente do Pentágono.

Quero com isto contribuir para uma ginástica muito simples: devemos partir de factos para teorias e não de teorias (vulgo preconceitos ou manias) para factos. E mesmo quando grande porção de factos apontam para uma determinada teoria, convirá discernir que teorias não são dogmas, mas sim sínteses dedutivas sempre abertas a novos factos. Por fim, é preciso não esquecer que, basicamente, neste caso, estamos diante de matéria do foro criminal.

Quanto ao problema de fundo, não existem teorias da conspiração nem teorias por comissão. Existem teorias verdadeiras, baseadas em factos; ou teorias falsas, ou fantasias baseadas em fábulas ou miragens. Há que primeiro distinguir os factos das fábulas. Cito alguns exemplos: Dois aviões embateram nas torres- Facto. As Torres, uma vez iniciada a derrocada, demoraram x tempo a cair - Facto. As leis da física (que, entre outras coisas, estruturam a arquitectura e a engenharia civil) - facto. 2+2=4 - facto.
Bin Laden organizou o evento - fábula. Tal qual: A Mossad e o Governo Americano organizaram as festividades -igualmente fábula. Ou os Pakistaneses e Bin Laden, por encomenda interna dos Estados Unidos, forjaram a coisa - outra fábula. Em qualquer destes casos, não existe uma assembleia indubitável de factos que sustente tal conclusão. Na verdade, em vez de se subir dos factos às conclusões, pescam-se factos a partir de conclusões premeditadas e convenientes a uma determinada estratégia. Seja esta governamental, sectária, difusa ou, como é o caso luso-liberdadeiro, um mero arraial de papagaios e pensadorzinhos de colo.
Portanto, tanto é "teoria da conspiração" qualquer enredo desses múltiplos que infestam a internet, como é "teoria da conspiração" a versão de conveniência dos poderes instituídos e seus amanuenses. À falta de uma investigação exaustiva, transparente e sérias dos acontecimentos, tudo o que existe são "teorias da conspiração". A começar na "teoria Bin Laden" e a acabar na "teoria Mossad". Não é certamente por acaso. Tal proliferação de enredos serve uma finalidade principal: fumigenação, labirintismo, em resumo: ocultação da verdade. O circo nem sequer é novo. Kennedy não foi assim há tanto tempo e Sá Carneiro também não. Quando se limpa o sebo ao presidente da nação mais poderosa do mundo, mais calmamente se limpa o sebo a três meia-dúzias de avulsos e outro tanto de anónimos. Antigamente, um homem podia dizer "o Estado sou eu". Agora existem pequenos bandos, uma "classe" que pode decretá-lo de igual modo. A partir daí há uma figura muito interessante que se chama "Razões de Estado". Que no presente caso, naturalmente, se confunde com "Razões de Classe". Sinceramente, não vejo onde reside o escândalo. O 11 de Setembro criou riqueza.
Por outro lado, a "teoria da conspiração" é utilizada como barragem de descrédito a toda e qualquer tentativa de investigação ou, melhor dizendo, de pesquisa ou apresentação de factos inconvenientes. Aí, propositadamente, confunde-se "teoria" com "facto". Quando, por exemplo, se fala nos israelitas detidos pela polícia que, segundo diversas denúncias, estavam a celebrar efusivamente as Torres em chamas, isso é, ou não é, um facto. Nunca uma teoria. E, sendo um facto, não gera per si uma conclusão imediata e necessária, mas constitui apenas mais uma peça no puzzle. Sabe-se que o dono da empresa a que esses indivíduos pertenciam liquidou rapidamente os negócios, encerrou a firma e emigrou em tempo record para Israel. É um facto. Apenas isso. Mas se o referirmos, a resposta, em jeito de descrédito e torpedeamento sumário, por parte de toda uma horda de plantão, é, ninguém duvide, "teoria da conspiração!..." Ou seja, maluquinho, pírulas, paranóico!... Este tipo de estratagema dialéctico é da mesma ordem que aquele do "fascista!", "nazi!", "anti-semita!" e seus derivados. 2+2=4 - e mesmo as regras elementares da lógica - são verdadeiros ou válidos, a não ser quando exercidos por um "fascista", "um "nazi", um "anti-semita" ou... um "teórico da conspiração". Se qualquer um destes casos sustentar 2+2=4, está, objectivamente, a mentir. Está a "conspirar". Aliás, para esta boa gente, tudo o que seja interrogar, duvidar, raciocinar é "conspirar". A Fé agora desce por decreto governamental (directamente da Casa Branca), os seus Autos são sumários e qualquer bufozito de meia tigela acumula os poderes de Supremo Inquisidor e Torcionário-em-Chefe.
De tudo isto decorre, sem grande surpresa, que muitas das "teorias da conspiração" injectadas na internet são-no por iniciativa de serviços ligados aos poderes instituídos. Da mesma forma que a grande maioria dos grupos chamados extremistas (de esquerda ou de direita) estão infiltrados -quando não são criados de raiz - pelos Serviços de Informação e policiais das mais variadas proficiências, potências e países. Isto não se trata duma novidade que me foi providencialmente revelada, há cinco minutos atrás, por um anjo benemérito que ia a passar: tem sido assim nos últimos cem anos. São essas as regras do jogo. A CIA e o KGB, por exemplo, fartaram-se de criar grupelhos maoistas por essa Europa fora. O Green Peace, tão ecológico, tão filantrópico, é controlado pelo MI6 e, a limite, é financiado pelas petrolíferas (BP) para fazer guerra à energia nuclear. Ora bolas, então, para os idílios verdejantes?! Welcome to the real world, isso sim! Não significa que a grande maioria dos militantes dessas organizações não sejam sinceros e não acreditem piamente na cartilha que abraçaram. Não; são e acreditam, com devoção profunda, ninguém duvide. Para os agentes dissimulados que manipulam e, geralmente, agitam na ponta dos canais de financiamento e orquestração, até é essencial que assim seja. Quanto mais fanatizados, mais crédulos: mais facilmente manobráveis. Mais prontamente disparáveis. Em inglês chamam-lhes "patsies", que em português corresponde a qualquer coisa como "otários", "papalvos", "marionetes". E o povo, no meio disto tudo? O povo, como o cornudo arquetípico e padroeiro, é sempre o último a saber, quando sabe (o que é raríssimo). E nessa altura tem as opções consignadas à espécie e anedoticamente expostas por Fourier, na sua "Théorie des Quatre Mouvements": ser Corno, Corneta ou Cornaças. E vale a pena recordar aqui as definições:
«1º. O corno propriamente dito é um ciumento com honorabilidade, que ignora a sua desgraça e se julga possuidor único da sua mulher. De modo que o público faz tudo para muito louvavelmente o manter na ilusão, e ninguém está interessado em o ridicularizar: será que ele se pode zangar com uma ofensa de que não tem conhecimento? Todo o ridículo cai sim sobre aquele que, subornador, lisonjeia e genuflecte frente a outro com quem conscientemente partilha a amante.
2º. O corneta é um marido que está farto dos amores conjugais e que desejando gozar suas folganças em sítio afastado fecha portanto os olhos à conduta de sua mulher e abandona-a aos amásios, com a reserva de que não perfilhará filhos dela. Um marido destes não liga a gracejos; tem, pelo contrário, todo o direito de discutir os cornos dos outros com o à vontade de quem os não tem.
3º. O cornaças é um ciumento ridículo que trata mal a esposa e que está bem informado da infidelidade dela; furioso, pretende revoltar-se contra o decreto do destino, mas a falta de jeito com que resiste torna-o objecto de risada devido às suas precauções inúteis, às suas iras e escândalos. Em matéria de cornaças, o Georges Dandin de Moliére apresenta-se como modelo acabado.»

Para adequar ao povo, como é óbvio, basta substituir a palavra "mulher" pela palavra "verdade".

22 comentários:

MP-S disse...

'devemos partir de factos para teorias e não de teorias (vulgo preconceitos ou manias) para factos. '

Tenho a impressao, o' Dragao, que acabaste de propor uma radical mudanca de paradigma metodologico para as ciencias (!!!, :O), LOL ) politicas.

MP-S disse...

sempre me saiste ca' um corneta, o' dragao!

dragão disse...

É preciso nunca esquecer que, antes duma explosiva formação filosófica, eu tive uma sólida formação científica. E para mestrado e doutoramento de tudo isso peritei-me em putaria e pândegas.

MP-S disse...

Ja' nao tinha duvidas que temos muito que aprender contigo, o' dragao. E entao agora que puxas pelos pergaminhos das qualificacoes academicas!...

ST disse...

'Kennedy não foi assim há tanto tempo...'

Esse senhor conseguiu fazer o pleno: desagradar a toda a gente, de todos os sectores, quase ao mesmo tempo.
Só me admira o facto de ter resistido até 1963.

' e Sá Carneiro também não'

Dizem as 'más línguas' que teve azar.
Não era para ele....mas enfim.

' a grande maioria dos grupos chamados extremistas (de esquerda ou de direita) estão infiltrados -quando não são criados de raiz - pelos Serviços de Informação e policiais das mais variadas proficiências, potências e países.'

Ora nem mais.

Aborda bem o tema, mas sobrevaloriza alguns sujeitos.
Essas 'cias-kg-não-sei-quê-e-éme-ai-seis' são apenas 'peões' de um 'jogo' maior.

Há quem acredite piamente no Arbusto?
Pois há!

Da mesma forma, há otários a granel que acreditam piamente no presidente do que antigamente era a Pérsia.

O general Oliveira Norte deve rir-se a bom rir.

dragão disse...

Agora que o Buiça já fez a correcção e acrescentou as notas, já posso mandar para o prelo. :O)

À falta de corrector ortográfico, este blogue, abençoadinho, tem corrector ortológico.

Lowlander disse...

Bons links.

Thoth disse...

A inspiração de um pensamento arguto deve-nos maravilhar...
Parabens pelo artigo!

Cumprimentos

Thoth disse...

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Parabens pelo artigo!

Cumprimentos

Thoth disse...

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Thoth disse...

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Parabens pelo artigo!

Cumprimentos

Thoth disse...

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Parabens pelo artigo!

Cumprimentos

zazie disse...

A minha relutância em relação a todo o tipo de explicações científicas que colocam em dúvida os ditos factos passa por um aspecto muito mais básico- apresentam uma série de impossibilidades técnico-científicas para eles(como sucede nestes 2 artigos) mas esquecem-se de negar o mais simples- a existência de voos normais de passageiros que teriam sido desviados.

Este é o facto mais fácil de se rebater.

Se houve ou não houve voos de passageiros desviados.

Enquanto não me apresentarem provas de que esses voos não se efectuaram e os testemunhos dos familiares que iam nos ditos voos foram fabricados, bem podem esperar sentados com as “provas técnicas”.

Tenho este vício da racionalidade e dos factos mais simples, só depois de ultrapassados esses é que vou para os “técnicos”.

E estes são tão primários e fáceis de mostrar se são verdade ou mentira que, para mim, quem nem sequer os não evoca, é aldrabão.

Uma das características dos aldrabões é precisamente essa minúcia nos detalhes científicos e a omissão dos factos mais simples.

Provem-me primeiro que não houve qualquer voo normal e depois digam-me que os vídeos do Bin Laden a festejar foram forjados e tudo o resto.

zazie disse...

Por exemplo- aquele artigo do Pentágono é minucioso e tem todos os ingredientes para passar por verosímil.

Falta-lhe um detalhe- provar que seria impossível o tal voo de avião normal a ser desviado, em virtude dos telefonemas cruzados e testemunhos serem falsos e até da inexistência de registo de qualquer voo que por ali tenha passado àquela hora.

Isto dos voos de aviões não é propriamente como as aves de arribação. Não hão-de passar em bando os de passageiros mais os de tanques de guerra ou de água e nem esbarrarem ou alguém ter olhado para cima na altura, né?

dragão disse...

Quando linkei aquilo, fiquei com a impressão que eles defendiam que foi um avião que chocou com o Pentágono... :O(
Até linkei precisamente com a intensão de apresentar uma "contra-conspiração".
Algum de nós atropelou o artigo, ó Zazie, minha flor. :O))
Espero que tenha sido eu.

zazie disse...

errata:

os 2 artigos não, apenas o que se refere ao Pentágono. O das torres gémeas é relatório oficial.

Mas é claro que isto para nós é chinês. Se fosse cá qualquer um tinha malta amiga no aeroporto que confirmava o voo que saiu e não faltariam vizinhos de quem lá ia a testemunharem em directo.

Resolvia-se o mistério com uma perna às costas.

zazie disse...

é, eu se calhar li mal. Mas o do Pentágono defende que tinha de ser outro tipo de objecto voador mais pesado, por assim dizer, não foi isso?

Li à pressa. Lá isso é verdade. Aquela história do buraco na parede que só acontece nos desenhos animados do coiote...

zazie disse...

Vou ler outra vez ehehe

beijoca

zazie disse...

Tens razão, tens razão! o artigo é mesmo uma contra-conspiração. Eu é que tinha lido à pressa. O que mostra é a inviabilidade de não ter sido um avião de passageiros.

Afinal pensámos os 2 da mesma maneira- mas eu aprecei-me nas conclusões por ler mal.

Não há dúvida que o mais elementar são os factozinhos.

";O)

dragão disse...

Nota que eu continuo a não ter teoria nenhum. Continuo atrás dos factos.
E, por princípio e formação, vou para as coisas, oficiais ou não-oficiais, contra-oficiais e etc, sem formatações prévias nem preconceitos.

zazie disse...

mas é precisamente o que eu faço. Teorias, népias. Só factos e críticas a tudo o que parece novela, propaganda, contra-factos, e efabulações para todos os gostos.

Eu vou sempre pelo que me parece mais viável e em cima do acontecimento.
Neste caso de história com personagens vivos (familiares) não vale a pena perder-se tempo com hipóteses malucas.
Eles existem, estão vivos, podem ser entrevistados.

As teorias só servem para um passado remoto em que não há fontes directas.

Ainda assim, mesmo com os factos a dizerem que houve desvios de aviões, há muitas coisas que ficam por explicar. É claro.

Diogo Vaz Pinto disse...

claro há sempre demasiadas coisas que ficam por explicar e a verdade é que há sempre margem para a dúvida razoável ou legítima se preferirem... Mas o problema desta consciência passiva-intelectualóide é que o sabe-tudo que passa os dias entre palavras não faz as somas menos complicadas e mais exigiveis - as coisas não acontecem por acaso, e se ouvimos um choque e nos apercebemos de que deve ter acontecido um acidente e se além disso se vê fumo nos céus então só quem não quer é que não dá com o local do sinistro. O fumo nesta história tem uma cor verde e também está impresso em papel, mas tem um valor amplamente mais reconhecido que a cultura das outras folhas onde vivem as palavras dos inteligentes... os espertos tão-se a cagar com as conclusões irredutíveis, bastam-lhes as presunções realistas... o mundo não precisa de gente informada, precisa sim de coragem. aposto que no tempo dos estúpidos e brutos mas corajosos, os ricos tinham mais medo dos pobres.