terça-feira, agosto 23, 2016

Acromiomancia Ultramarina - O lado escuro da treta

 
Em epígrafe (carregar no link, e espero que lá vão dar) está um filme raro, feito por repórteres italianos, em África, 1964. Imagens ao vivo da Tanzânia  (antigo Tanganica) e, depois, do Congo. Os massacres de Zanzibar e a Rebelião Simba, mais propriamente.
Já sabemos e estamos cansados de saber como os portugueses, por via daquele indivíduo pouco sensível a correntes de ar (e apenas vulnerável a certo tipo de mobiliário quadrúpede), se obstinavam em não descolonizar à pressão e para alta recreação das putências internacionais. Mas antes de prosseguirmos com a exposição específica das luso-singularidades mai-la sua contra-corrente no Ultramar, vejamos, duma vez por todas, como decorria e em que consistia a tão festejada descolonização  - que tanto enlevo e volúpia moral causava na "comunidade internacional" da época´e, ao retardadador, ainda tanta devoção papagueante instaura nos politicamente eunucos do presente.
Portugal, decididamente, e enquanto a traição, a estupidez e a cobardia não esboroaram tudo, não entregou os seus territórios ultramarinos e as suas populações.  Mas não entregou a quê e a quem? O que é que estava do outro lado para receber?  Que raio era assim tão urgente, indiscutível e moralmente superior (um nec plus ultra da civilização e do progresso, senhores e meninas, pois então!...), que só o estúpido do Salazar e a sua pandilha de malucos não viam?
Vamos lá olhar para dentro daquilo que está dentro do armário e que, invariável e convenientemente, se branqueia e passa a esponja. 
Vejamos, então, em paralelo, os anos sessenta num território triste, sombrio e colonizado pelos fassistas metropolitanos do ogre Salazar - Angola, e num território feliz, descolonizado pelas mais civilizados métodos e potentotes, soberano, risonho e finalmente entregue à liberdade, ao desenvolvimento e à democracia, naturalmente - o Congo. Eventualmente, dois dos mais ricos territórios de África e do Mundo. Ainda por cima, contíguos, unidos pela mesma fronteira e partilhando tribos comuns (os bacongo e os Lundas).
Vamos lá a descer das fábulas e das mitologias de jardim escola à puta da realidade.
Para já, de introito, o filmezinho aí acima. Depois, e ao longo das próximas semanas, conforme a exígua disponibilidade o permita, virá a explanação copiosa. E mais, muito mais dados e testemunhos documentais. Factos. Uma avalanche deles. Para mim com um duplo prazer: massacrar insectos rastejantes e recordar gente com eles no sítio que tive, nalguns casos, anos adiante, o privilégio de conhecer ou meramente avistar nos caminhos da aventura.

domingo, agosto 21, 2016

A Força do paradigma

Equação de Cline para avaliação do Poder Nacional (de qualquer nação):

Pp = (C+E+M) x (S+W)

Sendo,
Pp= Poder Nacional Perceptível
C= Massa crítica= população+território
E= Capacidade económica
M= Capacidade militar
S= Objectivo estratégico
W= Vontade Nacional de alcançar objectivo estratégico

É uma fórmula supostamente matemática, cuja validade é discutível tanto qualquer outra, mas que, para os avestruzes do costume, tem a mais valia indiscutível de ter sido formulada por alguém ligado às altas esferas da CIA e do State Department americórnio.

Esta fórmula aplicada aquando dos primeiros tempos da democracia portuguesa (pós-25 de Abril) deu uma classificação que nos colocava 39 pontos abaixo da Espanha e equiparados, na Europa, apenas à Albânia. A mesma fórmula aplicada nos dias de hoje dará uma classificação ainda pior.

Podemos ainda fazer o seguinte exercício: aplicar esta fórmula a Portugal no ano de 1967 e a Portugal no ano de 1973. Constataremos uma degradação óbvia, não tanto na primeira parte da fórmula, mas sobretudo na segunda. Que é duma importância capital. Ou seja, sem uma saúde efectiva desta, não há primeira que resista. Como, de resto, se verificou. E, cada vez mais dramaticamente, se continuará a verificar.

PS: Mais que a validade científica da fórmula, importa o facto da sua prática concreta pela principal superpotência do infeliz planeta. Para efeito geopolítico, o que conta não é tanto o factor verdade, mas sobremaneira a força de paradigma.  Isto é bastante óbvio e simples. Excepto para asnos militantes e moços de estrebaria intelectual.



 

sexta-feira, agosto 19, 2016

Imposturas, Sacanagens, Refolhos, Aldrabardas, Embustes & Logros, Inc (Parte 2)

 
 
Este novo acesso de incontinência  propagandística desatada da criancinha mascarada, mais os declarantes da treta, tem a fabricação do costume.  White Helmets, lembram-se deles?...

O nível de chutzpah e de desleixo destas campanhas já raia ultrapassa o obsceno. Mas o mais degradante é mesmo a orquestração ceguinha, monolítica e sabuja dos mass-merdia "ocidentais". Os telejornais do Portugalinha fazem coro com a macacada e debitam como se não houvesse amanhã (nem ontem, nem critério algum).
 
A ditadura mediática a presidir à democracia de carnaval em todo o seu esplendor.

quinta-feira, agosto 18, 2016

A Ponte Quinquagenária

 

 
«Lisboa, 20 de Junho  (de 1966) - Fui a Belém fazer o meu relato rotineiro, acerca da situação internacional, ao Presidente da República, e este anunciou-me que ia impor o nome de Salazar á ponte sobre o Tejo.»
(...)
Lisboa. 6 de Agosto - Inaugurada a Ponte sobre o Tejo. oficialmente, ficou designada Ponte Salazar. É uma construção que, além da sua grandeza, será moderna durante os próximos cinquenta anos.»
(...)
Lisboa, 8 de Agosto - Ao cair da noite, quando me encasacava para ir à recepção em Queluz, telefona-me Salazar. conversa morosa sobre matéria de política externa. Depois, falamos da Ponte. diz-me Salazar: "Então não viu o Presidente da Câmara de Lisboa comparar-me a Nuno Álvares!? Já outro dia os vereadores disseram coisas horríveis, e agora temos isto. Se soubesse, tinha-lhe dito para cortar toda a segunda parte do discurso. O que me salva é que não acredito em nada daquilo. O que nos salva a todos é que ninguém acredita.»
- Franco Nogueira, in "Um Político Confessa-se (Diário 1960-1968)"

E foi num portento destes, que eu e a família  logo adentrámos o monumento a fora, no segundo dia da sua tumultuosa existência:
Para os leigos, um Opel Olimpia Rekord Caravan de 1955 (exactamente igual, o do meu pai, ao acima exposto). Uma máquina infernal (semi-indestrutível e imune a avarias) que haveria apenas de sucumbir às inundações de 1967. Um tempo em que também os objectos tinham rosto...E experimentavam tragédias.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Praxis da manipulação

«Full list of Soros NGOs manipulating elections in all EU member states»

Também houve uns trocos para Portugalinha. Coisa exígua. Ao nível, nem direi do interesse que isto desperta nas altas esferas (que aliás são baixíssimas), mas da estatura moral dos políticos domésticos (uma verdadeira capoeira-canil-pocilga-estrebaria deles). Todos eles elegíveis, registe-se (pelo que dispensam apostas direccionadas) e todos eles mais que prontos e predispostos a consumarem, a título gratuito e por compulsão frenética, os interesses a aleivosias da "Open Society" (pelo que dispensam financiamento de todo). Em matéria de Portugal, o canibal está no céu: todos batalham em prol do desgoverno e todos se opõem à nação. Dinheiro? Basta atirar-lhes amendoins!... E, vá lá, uma ou outra bananita a um qualquer guinchador eleito. Ou em vias disso.

segunda-feira, agosto 15, 2016

Breve manicomioscopia

1. O que é que o canibal Soros e o General Estranho Amor têm em comum? Para além do mesmo e cornúpeto patrão, ambos foram "hackados". Abençoados "hackers"! Não obstante, cumpre dizer-se que, mais que um caso para "hackers", as duas bestas, constituem-se claramente como um caso para "snipers".

2. O canibal Soros sempre na brecha: patrocínio do Movimento "transgender ". Não é bem um movimento, no sentido da alteração de lugar, mas mais na alteração de estado, vulgo decomposição. A putrefacção social a todo o galope. Qual a novidade?
 
3.Entretanto, na Ucrânia, a reforma educativa implementada pelo Canibal Soros revela-se uma catástrofe. Como o objectivo era esse, o canibal está de parabéns. Um exímio reformador! Um verdadeiro Paizinho das Reformas ( e reformistas).
 
4. A Kilary Clinton faz o que o Canibal manda? Não precisa de mandar: basta sugerir. Ela vai a correr com a língua de fora e a dar à causa. Mas isto dos emails é tudo "teoria da conspiração". Pelo menos enquanto não for autenticado pelo "Correio da Manhã"...

sábado, agosto 13, 2016

Acromiomancia Ultramarina -IV. Da heterogenia à necrose , 3ª Parte



A heterogenia, todavia, não irrompeu subitamente e por geração espontânea ou ad nihil. A heterogenia sempre existira e palpitara, aos mais diversos níveis da sociedade tanto quanto do Império. Não só a dispersão territorial gerava singularidades, como o próprio rectângulo original, não sendo vasto, era, todavia, resultado de várias misturas e encruzilhadas culturais. Assim, nem as tribos metropolitanas - dos alentejanos aos transmontanos - eram homogéneas (a nível de costumes e mentalidades), nem, ainda menos, as tribos africanas o eram. Tão pouco a própria colonização em Angola era equiparável à de Moçambique, ou da Guiné. Em 1919, no "Brado Africano", a propósito duma comparação entre os ambientes de Luanda e Lourenço Marques, o Grémio Africano comentava, com pesar :
 "quanto á convivência entre o elemento nativo e o outro há, pelo menos pareceu-me, uma relativa harmonia, uma confraternização agradável [em Luanda], o que não sucede na outra costa (Moçambique/Lourenço Marques), onde o nocivo costume de copiar o que a União Sul Africana - os boers e os ingleses - tem de pior, levou aquela gente a uma situação intolerável de distinções odiosas e desacatos às leis da República".
Ora, este pequeno apontamento, reflecte logo duas características importantes: por um lado, a relativa vulnerabilidade das tribos portugueses às influências externas; por outro, e aqui muito curiosamente, o projecto da harmonização (ou seja, da homogeneidade) pluriétnica do Império como algo que não é original do Estado Novo, mas que o Estado Novo, como em tantas outras metas estratégicas, se limitou a dar continuidade e aprofundamento. Tudo isso, sublinhe-se, na construção daquilo a que poderíamos chamar, sem ponta de abuso, como uma "cultura portuguesa".  Tanto que mesmo em resenhas históricas insuspeitas de quaisquer simpatias "salazaristas", como seja a "Nova História da Expansão Portuguesa", pode ler-se:
«A legislação republicana, sobretudo o Código Civil, aplicado à colónia de Moçambique nas suas sucessivas alterações, espelhava uma sociedade harmoniosamente estratificada, onde as minorias tinham o seu papel, reconhecendo-se-lhes os seus direitos e a sua cultura, dando uma imagem de abertura e solidariedade.»
É indubitável que nesta adequação do Império à República está já a encetar-se o preâmbulo da "descolonização pela nacionalização" a que o Estado Novo procurará conferir corpo acabado. Ou seja, Moçambique, Angola e restantes partes dispersas do Império passam a estar -tendencialmente - unidas sob o manto homogéneo das mesmas leis, que, embora respeitando a idiossincrasia diversa de cada latitude, integram numa unidade territorial um povo único, embora pluriétnico. Já quase ao fechar da loja, Marcello Caetano (18 de Abril de 1969, em Lourenço Marques), ainda reformulará a receita: "A unidade nacional não prescinde das variedades regionais". Acrescentando, ainda mais liminarmente: "«não conhecemos barreiras de cor, não fazemos distinções de raças, somos, todos os que nascemos à sombra da bandeira verde-rubra, unicamente portugueses, radicalmente portugueses, portugueses iguais à face da Pátria e iguais à face da lei!» Em suma, nestas múltiplas e sucessivas acções homogeneizantes da heterogenia o que se verifica é uma consequente e perseverante  Portugalização do território ultramarino.
 
Porém, esta portugalização que se pretendia instaurar oficialmente encontrava resistências e desvios nas flutuações mentais no próprio terreno, expressão viva das heterogenias locais. No seguimento de texto atrás citado, pode ler-se:
«Mas, ao estudar as práticas de convívio social, a actuação das associações de classe e de profissão, das sociedades recreativas, da beneficiência e de socorros mútuos, dos clubes desportivos e recreativos, verifica-se que eram atípicos os fenómenos de aproximação inter-raciais ou inter-classistas.»
O que, repito, reaviva as diferenças reais entre a maneira de estar em Moçambique e a maneira de estar em Angola  (das quais, reforço, posso transmitir testemunho pessoal neste preciso sentido) e que, no âmbito das tais "influências" osmóticas pode ser explicada quer pela interacção com a cultura boer/inglesa em Moçambique, quer pelos  intercâmbios migratórios com o eixo Brasil/Lisboa em Angola.
O Acto Colonial, de 1930, objecto de críticas e polémicas várias, representa, em certa medida, pelo menos na terminologia, uma suspensão, senão mesmo um retrocesso. Contudo, não pode ser desligado do momento histórico, quer nacional, quer internacional, em que  vem ao mundo. O facto é que a vaga nacionalista (e não estamos agora aqui as espiolhar cabeludices a cada nacionalismo) que ganhava momento por todo o continente europeu eclodia como resposta a uma ameaça concreta de alienação e desintegramento das pátrias tradicionais (que, de resto, viria a triunfar). Nessa resposta, eram as próprias circunstâncias que impunham como que uma enérgica refundação e recentramento das nações, donde, entre outras características comuns, a emergência dum estado forte, representante e curador da nação, em contraponto a formas de  estados alienados, lassos e meros procuradores de lógicas e criptarquias internacionais.
O recentramento, em especial, traduzia a necessidade imperiosa de obstar com uma centripetia reagregante à força centrífuga permanentemente instilada pelos internacionalismos. A forma como cada povo procedeu remete para as suas idiossincrasia históricas e culturais. No caso Português, a inspiração, mais que numa qualquer contra-ideologia (o fascismo, sobretudo), radicou no pensamento tradicional católico, de que Quirino de Jesus, o principal arquitecto do Acto Colonial, era vivo exemplo e influência marcante de Oliveira Salazar.
A procura dum recentramento traduz, em concreto e exacto, no caso português, a busca dum (re)equilíbrio - das finanças tanto quanto das políticas; na maneira de ser na história tanto quanto na maneira de estar no mundo, ou seja, na harmonização entre um passado e um presente, entre um desígnio e um realismo.
Não deixa de ser sintomático que o Acto Colonial surja, em certa lógica e medida, como resposta a uma "federalização" que Norton de Matos propugnava. Tende a considerar-se esta, muito angelicamente falando, como um "momento falhado" para uma resolução milagreira e antecipada para toda a tragédia da descolhonização posterior. Que a terminologia do "Acto Colonial" foi tudo menos brilhante, serei eu o último a defendê-lo; mas é preciso não esquecer esse pormenor nada desprezível em como Norton de Matos deixou Angola: na bancarrota. Tal qual a primeira república tinha deixado Portugal. De tal modo que, não fora a excepção completamente excêntrica do consulado de Salazar e ficaríamos com a ideia altamente sustentada de que a "república", entre os portugueses, bem mais que forma de regime político duma nação é uma forma obsessiva de conduzir uma nação à bancarrota. Ou seja, em termos concretos, uma forma de conduzir um povo à servidão, por actos compulsivos e desvairados de desgoverno crónico. No que, verdade se diga, a república não deslustraria assim tanto da monarquia constitucional (ou seja, coroada ou ferrada, a república só a bancarrota perseguiria e almejava).
Podemos, ainda assim, imaginar a implementação formidável da bela e mimosa ideia de Norton de Matos no terreno: a federação duma Angola falida, dum Portugal mais que falido e toda a restante constelação de parcelas territoriais em pelintra órbitra republicana. Não é preciso dar grandes tratos à imaginação para orçar do cintilante porvir duma procissão dessas. Seguramente, há dois estados em que qualquer Estado não reúne condições para qualquer acto grandioso ou sequer de mui racional gestão: o estado de ruína e o estado de medo. Subjugado pela miséria ou pela cobardia, não há Estado que resista, nem, a médio prazo, que subsista.
Ora, se as políticas de Salazar demandaram, com perseverança, alguma coisa, foi precisamente levantar o país acima da ruína, não deixando nunca que o tolhesse o medo. Pode, quem quer que seja, obstar este mundo e o outro às políticas de Salazar: têm melhores ideias, possuem planos mais capazes, animam-nos clarividências superiores?... Que avancem! Que se apresentem! Que nos deslumbrem com os seus portentos!  Mas se depois o saldo prático, recorrente e consumptivo, por acção, apoio ou mera sabujice ideológica, é a ruína nacional, o estado permanente de desmoralização colectiva, o retrocesso anedótico aos tempos queirosianos,  não há mais tolerância nem paciência para palanfrórios que, mais que pública mostra de desfaçatez manhosa, constituem material prova de velhaquice criminosa e impenitente. Como não me canso de proclamar: não é caso de contra-argumentação, é apenas caso de camisa-de-forças. Camisa e, de reforço, fralda, dado o nível bastante sujo, incontinente e fétido da emissão. Senão, pensemos no glorioso grunhido de que o razão de cobertura para que se proceda assim ou assado é porque assim ou assado se faz ou fez lá fora. Como se já não bastasse a parolice intrínseca (e infelizmente atávica) dum tal critério , ainda por cima o que se fez lá fora é tudo menos abonatório - histórica, moral, política ou sequer economicamente falando-, e os resultados estão bem à vista (naturalmente, debalde pedir olhos na cara a quem se esmifra a ter visões pelo olho do cu, mas enfim...). Quando a Europa se entregou ao suicídio na 2ª Grande Guerra, Portugal, muito sensata e prudentemente, não alinhou (e não esteve orgulhosamente só, porque a Suiça e a Suécia também não perderam o tino). Depois, para corolário da javardice sanguinolenta, quando a Europa devidamente castrada, largou a consumar a sua antítese (e aqui ninguém mais que os britânicos desceu às regiões inferiores do lamaçal, afinal eram eles o Império do Sol Sempreviçoso), porque raio Portugal estava obrigado a segui-los no rilhafoles mundial? Fomos atrás de alguém para África ou para a Índia, em Quinhentos? Como diz o adágio, "a Antiguidade é um posto", e nessa qualidade éramos generais. Que a história acabe, já é cangaço mais que exuberante, agora que se apague ou se distorça e tripudie à conveniência do psico-marrequinho de plantão e respectivo bando mentecaptor, isso já ultrapassa, tanto quanto a fronteira do decoro, a da sanidade mental.
Não obstante, a ideia da "federalização" lusa irá ressurgir em vésperas do 25 de Abril. Era a tese, o "plano" fulcral de "Portugal e o Futuro", de António de Spínola. Para este, a sua solução era a "virtuosa", constituindo alternativa prendada ao "integracionismo" dos Ultras e ao "entreguismo debandante" dos marxizados. Não se sabe o que seria esse "integracionismo" dos tais ultras que, em boa verdade, fora as fábulas e narrativas misteriosas, nunca se avistaram em parte alguma. Apontado como figura de proa desta tribo, Kaúlza de Arriaga definia-se como um "McNamara português". E assim talvez se compreenda a distância de que Salazar o fitava. Mas mitos urbanos à parte, existia a situação de facto e direito (devidamente sustentado e pleiteado na ONU) do Ultramar português: era parte efectiva e concreta da Nação. Não eram apenas colónias de Portugal: era Portugal. O Acto Colonial, naquilo que de infeliz tinha, retornara à gaveta donde nunca deveria ter saído. Essa era a situação real. Contra ela fermentavam duas peregrinações aparentemente rivais, mas objectivamente cooperantes (e tanto que se apresentaram em híbrida fusão no dia da golpada:  o "federalismo" e o "entreguismo expresso". Ou seja, contra a realidade, duas fábulas a armar ao pingarelho. Ambas mistificando e endrominando o pagode com putativas "libertações" e "democratizações" de povos oprimidos - o português e os outros. O resultado prático, como se viu, não foi libertação nem democratização lavada que se visse. Dispenso-me de elencar o rol de selvajarias, misérias, atropelos, latrocínios, traições grosseiras e flausinices quejandas que se seguiram e têm escorrido até aos dias de hoje.
Entretanto, essa mesma "federalização" de Spínola, segundo Veríssimo Serrão, merece a Marcello Caetano, já no exílio, o seguinte balanço:
«Disse-me  em seguida que ao ler no ano de 1972 a reportagem de um jornalista da oposição sobre a Guiné, não tivera dúvidas de que se pretendia utilizar o general para aquele fim. No artigo defendia-se a urgência de um De Gaulle para activar em Portugal o processo da descolonização em África: Viu-se feito salvador, para mais com o peso do prestígio que julgou alcançar só porque tinha falado com a raposa matreira do Senghor. (...)
O general não abriu nenhuma porta para o futuro. A tese federalista, que podia ter sido uma solução nos anos 60, não o era mais no último quartel do século. Só por vaidade ou tontice poderia em 1974 ser aplicada com êxito.»  - (J.A.Veríssimo Serrão, "Confidências no Exílio", pp.272).

Portanto, para Marcello, o federalismo, tendo sido ponderável no passado (presumo, antes do conflito armado), tornara-se inviável (por via desse mesmo conflito). Isto ainda vai ter que ser descascado. Mas como a récita já vai longa, fiquemo-nos, para já, pelo óbvio indisputável: quer a realidade da nação ultramarina, quer a hipótese federalista requeriam o mesmo quesito fundamental: força para a sua salvaguarda e manutenção. A federalização só podia resultar enquanto medida implementada pelo regime e numa situação de força. Jamais poderia resultar (admitindo mesmo a mirabolância de que era viável) duma situação revolucionária, com as consequentes e fatais fragmentações, tumultos e incertezas internas.
Em contrapartida, o variante do "entreguismo expresso", não dispondo de força bastante para se impor per si, palpitava e fermentava na expectativa de um colapso da força nacional. Urdia-o e instilava-o na sombra. Sabia que a sua grande chance era conseguir que a força da nação se virasse contra si própria. Só por autodestruição Portugal era vulnerável: e Lisboa era o seu calcanhar de Aquiles. Spínola, esse, foi o cavalo de Tróia dos "entreguistas". E estes, decerto, eram os menos utópicos de todos: a debandada era apenas o mais lógico dos corolários. E nem precisava de grande força, apenas a da inércia. Como a bênção para tudo isto, nos dias de hoje, também não requer grandes ginásticas intelectuais, apenas o passeio canino da estupidez.
Em 1974, a última fracção da Europa por castrar, entregou-se, com trinta anos de retardo, à auto-flagelação e à zaragata-civil por tele-despacho. Dinamitado o centro, foi-se a centripetia que unia as partes e rompeu a centrifugação que dispersou em todas as direcções. O organismo vivo cedeu passo à máquina avariada, ao brinquedo escangalhado de fedelhos tontos ou à engrenagem de fankenstein em perpétua reconstrução. Não há pessoas. Apenas peças. Mecânicas. Abateu-se o velho regime mas em seu lugar nenhum regime foi implantado: apenas necrose. Não houve descolonização nenhuma: houve apenas descolhonização geral - desportugalização, em linguagem erudita. Que começou nas terras, mas continua nas mentes.

Lisboa, 3 de Abril de 1963...
«No fundo, não se trata de um conflito entre nações, mas entre princípios, e por isso o diálogo é impossível... Vamos ver: ou têm força ou não têm; e se não usam a força militar podem procurar destruir as forças políticas internas que apoiam a nossa política. Há muita gente que quer ser ministro, seja em que circunstâncias for. Não podemos ser demasiado optimistas.»
- A.O. Salazar

PS: Hoje em dia, acho que as ambições dos invertebrados já não são tão desmedidas. Alguns pobre-diabos contentavam-se em ser jornalixeiros. Parece-me aceitável, sobretudo porque dispensa da condição, tanto quanto vertebrada, racional.
 

sexta-feira, agosto 12, 2016

Entre Cila e Caribdis, já avisava Homero

«Nunca poderei comparar Gaidar a Lenine, por uma questão de escala. Mas eles têm de qualquer forma uma coisa em comum; tanto um como o outro se comportaram como o fanático que, obcecado pela sua ideia fixa, empunha sem a mínima hesitação o escalpelo e se põe a cortar e a retalhar o corpo da Rússia. Seis anos depois, a expressão de maliciosa auto-satisfação que se lê no rosto deste político não revela qualquer sombra de vergonha, quando foi ele quem precipitou na miséria dezenas de milhões dos seus compatriotas, levando a economia à ruína e, desse modo, reduzindo a nada os fundamentos da famosa "classe média" que jurava estar a criar. Seis anos depois continua-se a falar em criar essa "classe média", quando era precisamente a pequena empresa que era necessário encorajar, e não o surgimento de magnatas financeiros de apetite insaciável.
A propriedade privada é o meio justo e natural de favorecer a actividade humana; desenvolve o gosto pelo trabalho, o interesse naquilo que se faz; mas tem forçosamente de ser acompanhada de uma legislação muito rígida. É criminoso o governo que, na ausência de qualquer lei, deixa a riqueza nacional entregue à pilhagem e os seus concidadãos entregues às garras de predadores.
Na confusão e na pressa, começou-se a sacudir a economia até fazê-la partir-se em bocados. Esta devastação foi apresentada como A Reforma tão esperada, uma reforma cujos fundamentos teóricos não podiam ter ficado mais vagos, para não falar de um programa elaborado e coerente - de resto, como se soube mais tarde, não havia sequer qualquer programa. («Navegávamos com terra à vista, não tínhamos tempo de pesar as nossas decisões.»)  Admitiu-se que seria preciso passar por uma "terapia de choque" (expressão que se adoptou por empréstimo, sem se levantar  muitas questões, aos teóricos da economia ocidentais); no entanto, na véspera de ser posta em vigor (29 de Dezembro de 1991), o presidente comprometeu-se perante nós: «Vai ser duro, mas não durará muito tempo. Uma questão de seis ou oito meses.» (As previsões de Gaidar eram ainda mais cor-de-rosa: os preços iam baixar em três meses - mas de onde é que ele deduziu que os preços iam baixar quando ele os tinha liberalizado para os monopólios de produção, na ausência de qualquer concorrência?) Foi prometido que iriam até ao ponto de "pôr a cabeça no cepo" no caso de a reforma falhar.
Sob efeito destes electrochoques incessantes, incapaz de reagir, o povo foi como que vencido por esta trapaça sem precedentes. Não se pode explicar de outro modo (a menos que os resultados do referendo tenham sido falsificados) que o povo tenha podido aprovar, em Março de1993, «reformas» que o lançavam na miséria. (Pode ser também, enfim, que isso reflectisse a nossa confusão e a nossa inconsciência.) Naturalmente, o súbito confronto de um povo acabado de sair do comunismo com a dinâmica da economia de mercado era inelutável e não podia deixar de engendrar um efeito de choque, mas seria preciso, para isso, ter ido até à electrocussão?
Mas a multiplicação por cem, por mil, das taxas de inflação constituía apenas o início das provações. O povo recebeu com alegria o anúncio da distribuição equitativa entre todos os cidadãos da riqueza nacional através da atribuição a cada um de obrigações com um nome um pouco bárbaro de vouchers; munido destes documentos, cada um podia supostamente adquirir, se lhe apetecesse, dois carros de luxo, ou então garantir um rendimento vitalício. A confusão instalou-se nos espíritos, milhões de ingénuos deixaram-se enganar; outros, num número ainda mais elevado, deram cabo da cabeça a pensar nos meios de utilizar esses vouchers. De facto, esses meios não existiam: os infelizes que aplicavam as suas obrigações em quaisquer «fundos» ou empresas apercebiam-se de que tinham investido num utensílio de produção obsoleto que não trazia qualquer benefício. Quanto aos novos proprietários, gatunos ávidos desprovidos de qualquer experiência de gestão de empresas e que se estavam nas tintas para isso, não só não faziam qualquer investimento produtivo, como chupavam até à medula tudo o que a empresa ainda podia dar, prontos a abandoná-la de seguida. Um pequeno número de especuladores hábeis que dispunham de algum capital compraram grandes quantidades de vouchers a pequenos titulares desamparados, para de seguida adquirirem as partes dons bens nacionais que cobiçavam.
Mas, também aqui, era apenas o início das calamidades. Com efeito, como se pode facilmente adivinhar, a totalidade das obrigações emitidas não representava em valor mais do que apenas uma ínfima parte da riqueza de um país como a Rússia: a «partilha» anunciada ao povo referia-se apenas a menos de um por cento desta riqueza. Em meados do ano de 1994, o muito ouvido vice-primeiro-ministro Anatóle Tchubais, desejando demonstrar a sua «vontade de aço» a uma população que, no passado, tinha sido tão habituada a isso, torna oficial  a «segunda etapa da privatização» cujo objectivo era fazer passar os bens do Estado para as mãos de um pequeno grupo de financeiros (esta intenção era declarada abertamente  pelas pessoas que o rodeavam). Além disso, a palavra de ordem era que a privatização devia fazer-se de uma vez, quase imediatamente, apanhando toda a gente desprevenida, e declarou orgulhosamente na televisão: «O Mundo nunca viu uma privatização conduzida a um tal ritmo!» (Sim, sem dúvida nenhuma, um disparate de tal modo criminoso, o mundo nunca viu. Correndo com demasiada velocidade, muitas vezes espalhamo-nos.) A privatização foi posta em acção em todo o país com a mesma demência cega, a mesma precipitação destrutiva que a nacionalização em 1917-1918 e a colectivização de 1930. Tinha-se simplesmente invertido o sinal.
A «segunda etapa» começou portanto a partir do Verão de 1994 e, em poucos meses, procedeu-se à distribuição gratuita de todos os bens do estado em benefício de alguns intriguistas escolhidos a dedo. De longe em longe, a imprensa fez eco desta inacreditável pilhagem da riqueza nacional entregue a etes predadores. O povo, esse, embora não estivesse dentro do segredo das jogadas financeiras e combinações, adivinhou no entanto perfeitamente o que se estava a tramar e designou todo este processo pelo termo "predatização".
(...)
O entusiasmo internacionalista que conquistou, a partir dos anos 80, o meio intelectual de Moscovo, não teve praticamente nada a invejar ao entusiasmo dos primeiros bolcheviques. Os liberais e radicais-democratas russos acreditaram que, a partir de então e para sempre, se abria uma era de felicidade para o planeta inteiro: agora, todos os povos, todos os homens políticos se inspiravam exclusivamente nos valores universais, e todos, de mãos dadas, iríamos servir esta nobre causa. Daqui resulta que qualquer política externa mais firma da Rússia releva do imperialismo ou do contra-senso, e que um poder forte na Rússia tem de ser tirânico

- Alexandre Soljenitsyne, "A Rússia sob a avalanche" (trad. port. da Quetzal)

Depois deste testemunho sobre as tropelias de Yegor Gaidar e do frenético Tchubais (qualquer reencarnação ao vivo dos "Demónios", de Dostoievski continua a não ser mera coincidência), os leitores podem sempre confrontar com a elegia fúnebre que lhe é feita, ao Gaidar, no "The Economist". Naturalmente, para a seita do Big Nose o homem foi um herói, um palhadino contra o nacionalismo hediondo sempre em ganas de imperialismos ferozes.
Mas os Russos, decididamente, são o mais resistente dos povos. Foi isso, aliás, que os próprios alemães, na 2ª Grande Guerra, descobriram, quando encetaram experiências com prisioneiros de guerra. Faziam testes pera ver quem é que aguentava mais tempo emerso em água gelada.  (Fazia parte do programa de testes para equipamentos de pilotos em caso de queda oceânica). Conseguiam matar todos, com alguma rapidez até, menos os russos. E de facto, resistir 70 anos à peste comunista e depois mais vinte à lepra "reformista" mercantilheira não é para meninos. E conseguirem sair de todo isso vivos e verticais, como está a ser o caso, é obra. A povos que padeceram, e padecem, embora em quantidades menos industrias, tamanhos flagelos, o exemplo não deixa de ser animador. Mesmo para nós, entregues ainda ao repasto entre os inimigos e os traidores, que nos sirva de farol na tempestade. É certo que só tivemos ano e meio de comunismo, mas, em contrapartida, já vamos com quarenta anos de "reformas". Que Deus nos envie um daqueles Homens que só ele sabe como produzir. Porque do Demo (e respectiva cracia) já sabemos que só vem merda.
 
PS: A sabedoria da política externa portuguesa, no tempo em que havia Portugal, era perceber claramente que navegar era preciso, não por Cila nem, tão pouco, por Caribdis, mas, precisamente, no espaço bonançoso em que ambos se neutralizavam. Entre ambos fica a rota, a possibilidade da viagem - do odos (do caminho), em suma, da odisseia. De encontro a qualquer uma dessas monstruosidades fica apenas o naufrágio e a morte.

 

domingo, agosto 07, 2016

Acromiomancia revisitada - A Monotonia da História

 

A muitos títulos, são significativos alguns paralelismos entre este "25 de Abril" falhado na Turquia e o 25 de Abril triunfante em Portugal de 74. A nossa entrada para a Nato (uma fatalidade geopolítica que redundou num cancro a médio prazo) começou a alimentar também um "estado paralelo" entre nós. Os militares que desataram a ir  abichar ajudas de custo em peregrinações formativas ou adidáticas nos States começaram a regressar "virados do avesso", ou seja, insuflados de  febres democratizantes, de ímpetos descolhonizadores e de angústias reformadoras sob tutoria internacional. O caso mais emblemático foi um tal de Humberto Delgado, agora promovido a placa de aeroporto. Ora, esta gente constituia um problema bicudo, porque , ao contrário das simpatias pelos soviéticos, votadas necessariamente à clandestinidade e devidamente vigiadas e reprimidas pela Pide/DGS, estas simpatias "democráticas" iam germinando dentro do próprio regime e, de certa forma, sem qualquer antídoto evidente. Até porque já vinham dos tempos de Salazar e sobremaneira do teatro pós-2ª Guerra Mundial.  De tal modo que, por alturas do 25 de Abril, a maioria dos mais activos e até capazes oficiais por detrás do golpe são os chamados spinolistas. Aliás, o golpe do 25 de Abril, enquanto operação militar, é da autoria de dois spinolistas certificados: os majores Monge e Casanova Ferreira. E isto não é apenas declarado pelo próprio Spínola ("País sem Rumo", pp.101 ) : é igualmente um facto reconhecido até pelos seus competidores da esquerda radical ou comunista. Acabaram enrabecados  precisamente porque o golpe era completamente destituído de lógica nacional e de apoio popular real: a verdade é que estavam, pura e simplesmente, a cometer um acto de traição, um atentado grosseiro contra os interesses portugueses e a sua própria história. Ora, as forças comunistóides e esquerdinolentas tinham sobre eles uma grande e clara vantagem: podiam reclamar a golpada como o culminar da sua longa luta contra o regime. Ou seja, fazia sentido que os comunistas derrubassem o regime, representavam o inimigo declarado, sempre tinham porfiado por isso; em contrapartida, era absurdo que gente dentro do próprio regime atirasse com a sua própria habitação abaixo. Assim, para os comunistóides, era um presente tão inesperado quanto caído dos céus. Tinham além disso uma base de apoio mínima (que não chegava a 10% da população, mas que, adicionada à organização implantada, consolidada e adestrada do único partido estruturado, era imensamente superior  aos aluados da competição). O restante da população,  fora as franjas da patobravice urbana (mais ou menos tecnopata e estrangeirada por tele-inoculação), antes de ter tempo para se aperceber da calamidade que lhe estava a cair em cima, preferiria sempre alinhar com uma "gesta heróica e gloriosa" de "luta antifaxixista" do que com uma mera manobra de traidores peregrinos e alucinados, em delegação de obscuras receitas alógenas. E foi nesse cenário altamente fértil que a propaganda lançou a sua torrentuosa e ininterrupta sementeira. Feito o ninho, o cuco comunista avançou e instalou a sua postura.  A ironia do acontecimento: traidores a darem a golpada na nação, os inimigos desta a darem a golpada nos traidores. De resto, um golpe directamente desferido pelos inimigos estaria sempre condenado ao fracasso, por via de alarme social e internacional. Era necessária uma "barriga de aluguer".
Mas a verdade é que o golpe original era doutros (que não os comunas sovietizados) e tinha sido arquitectado e elaborado por outros. Para a generalidade dos efectivos das Forças Armadas envolvidos, a coisa mais não traduzia que um puro acto de indisciplina, canalhice e deserção perante o dever. Eram militares em negação da sua própria condição. E isso criava um problema psicológico de magna dimensão: havia que caiar o sepulcro não só perante o povo, como perante eles próprios. Não eram eles que estavam corrompidos, com a alma prostituída, a vaidade melindrada e o ânimo nauseabundo. Não, o regime é que estava podre e que clamava extirpação urgente. O que, por ironia das coisas, em parte até era verdade: na medida em que eles faziam parte do regime, eram eles, em bom rigor, os lídimos representantes maiores dessa putrefacção regimental. O tenebroso da história, assim, é que não foi exactamente o regime que caíu de podre: a parte mais podre do regime é que deu uma golpada no resto. Quer dizer, a parte mais podre do regime arrastou o país para o vórtice da sua corrupção, isto é, os traidores escancararam as portas ao inimigo. Àqueles que patrocinaram e instigaram os traidores não lhes interessava nem ocupava o "nosso bem". Bem pelo contrário, como se tem visto, ad nausea, por esse mundo e século adiante, interessava-lhes o "quanto pior, melhor": caotização, incêndio a esmo que justifique o "perpétuo bombeiro" mundial e toda a sua panóplia socorrista paga a preço de ouro.
No seu livro "País sem Rumo", a páginas 158, escreve o general António de Spínola:
« No dia 19 de Junho de 1974, reuniram-se, pelas 11 horas, numa sala da Messe de Oficiais da Base Aérea das Lajes, os Presidentes dos Estados Unidos da América e de Portugal, respectivamente Richard Nixon e António de Spínola. ».
Esta reunião foi um facto, não se trata de teoria da conspiração. Existe uma transcrição do sumário-relatório da mesma, que o próprio Spínola nos faculta em "País sem Rumo". Dizer que é penoso ler o que lá se escreve é escasso. Repugnante é o termo mais exacto.  Ficamos assim a saber  daquilo que lá se passou, pela voz de um dos intervenientes capitais. E o que se passou foi simples e resume-se a dois pontos principais:
1. A capitulação de traidores portugueses perante a "comunidade internacional"; 2. a confissão da cobardia e da impotência desses mesmos traidores perante o inimigo interno. A pretexto de acender a lareira, os cavalheiros deitaram fogo à habitação, e agora não sabiam como tirar a mobília do assado.  Apelavam, assim, ao Gangster chefe dos "bombeiros internacionais", para que lhes acudisse no aperto. Textualmente:
«Falou em primeiro lugar o presidente Português, o qual, depois de saudar o presidente Nixon e de lhe expressar o seu desejo de reforçar as relações com os EUA no quadro do comum interesse dos dois países, fez um breve resumo da conjuntura política portuguesa, salientando os objectivos eminentemente democráticos da revolução e expondo a razão do aparecimento de um Governo provisório de coligação e o significado da presença dos comunistas nesse governo. Afirmou que o Governo provisório não ultrapassaria as metas fixadas pela Junta de Salvação nacional, dado o facto de a nação ainda não ter feito a sua opção pela via eleitoral, e esclareceu que aquelas metas tinham sido fixadas á luz das tendências liberalizantes comuns a todas as ideologias progresistas do mundo actual (...)»

Permitam-me que abra aqui um parêntesis, mas não sei se estão a acompanhar a lógica esplêndida do declarante:  a nação ainda não tinha feito a sua opção pela via eleitoral, mas eles já tinham escolhido o menu e o restaurante, ou seja, acabavam de dar um golpe militar, tinham agranelado a esmo, e fixavam de antemão as metas "à luz das tais tendências liberalizantes comuns a todas as ideologias progressistas". Ora, o mais espantoso, é que para um diálogo daqueles, estaria muito mais autorizado e legitimado o professor Marcelo Caetano. Tinha efectivamente liberalizado e podia ao menos apresentar-se sem se encontrar refém da balbúrdia e com os comunistas à solta no governo, nas forças armadas, na imprensa e nas instituições. Nixon, não sendo um primor de inteligência, deve ter-se apercebido, ainda assim, com velada comiseração, do portento de inconsequência e imbecilidade que tinha pela frente...

Mas o eguariço (como lhe chamou, com propriedade, Manuel Múrias) prossegue:
«No campo da política externa, afirmou que Portugal seguiria uma linha de franca abertura ao Mundo, sublinhando o facto de o governo português ter aderido inequivocamente à política de descolonização preconizada pela comunidade internacional, nomeadamente na ONU.»

Portanto, Portugal "aderia" à ONU (mais tarde aderiria a outras estrebarias) e em contrapartida devia ser ajudado no seu estado de infantilização interna - infantilização, ou charilice, melhor dizendo, forçada, auto-inflingida e festiva. Requeríamos, assim, tutores e monitores de recreio, que convinha, Sua Bombeirice nos enviasse e pagasse a rigor (estava-se mesmo a ver...) . No texto:
«Seguidamente, denunciou (o "presidente" Spínola) que tanto as Forças Armadas como o próprio Movimento Revolucionário se encontravam minados pelo partido Comunista, considerando preocupante a situação, em consequência de a revolução haver destruído totalmente as estruturas de segurança do País e de este, em conformidade com um plano de  desagregação, de concepção e execução comunista, caminhar a passos largos para o descalabro económico e social. (seguem-se mais umas quantas confissões despudoradas de desnorte, incompetência e leviandade relapsa e contumaz, para se atingir o corolário que se segue:)
«E, após  algumas considerações de ordem estratégica, afirmou que, para suster o perigo comunista em Portugal e a consequente implantação de uma posição soviética na retaguarda da Europa, com todas as suas implicações na estratégia global de defesa do ocidente, o Governo português precisava de auxílio americano. Esse auxílio - sublinhou - poderia materializar-se da seguinte forma:
- Apoio económico-financeiro, domínio em que foi salientada a importância do Acordo das Lajes como instrumento eficaz para a concretização do referido auxílio e a necessidade do apoio da Banca Americana no fomento do desenvolvimento económico português.»

Neste ponto está, preto no branco, a essência da golpada abrileira (a original). Para orçarmos daquilo que efectivamente significa temos que remontar a um outro Março, o de 1963, quando Oliveira Salazar profere perante Franco Nogueira:
«Quero este país pobre, se for necessário, mas independente - e não o quero colonizado pelo capital americano»

Ora, com todos as suas imprudências e erros, a política de Marcelo Caetano era, no fundamental, a continuação da política de Salazar. Os interesses da nação preponderavam. Não havia plano alternativo porque não era possível nem viável qualquer outro plano alternativo. Ou se é independente ou não se é, não há meias tintas. É duro, é trabalhoso, requer perseverança e tenacidade, mas é assim. E é assim para todos nesse mundo cão. A ideia peregrina dum "plano alternativo", duma "receita milagreira" (de que a publicação de "Portugal e o Futuro" constituía requinte folclórico e manifesto partidário) não tinha qualquer fundamento nem avenida na realidade. O que, de resto, esta tratou de patentear às escancaras. Ou seja, o "plano alternativo" não era um plano para Portugal: era um plano contra Portugal, um pseudo-plano, um falso-plano. Era uma fórmula contra o Portugal que existia em nome dum Portugal de pura ficção, de manhosa fábula, que cumprir instalar em lugar do autêntico. Sob a cortina de fumo do varrimento do "estado novo", estava, na realidade, a varrer-se o Estado Português. Sob a máscara do saneamento das políticas irrealistas de Salazar, estava, de facto, a instaurar as políticas criminosas e destrutivas de estrangeiros.  E para o efeito os da "golpada original" possuíam, desde a génese primeira, a tutoria americórnia; e os da "golpada segunda" auferiam da tutoria soviética. A diferença, e a vantagem nada despicienda dos segundos, é que estes dispunham, com efeito, dum plano destruidor mais rápido e conveniente a todas as partes. Os outros, de tão tansos e azoinados, apenas queriam desfilar a vaidade no dia florido (o que vinha depois nem sequer lhes ocorria, fora do mundinho delirante que se haviam auto-impingido). Não espanta, pois, que a empreitada da destruição tenha sido adjudicada aos comunas.  Os quais, por idêntica e inexorável lógica, depois, na fase da colonização rectangular, foram pronta e calmamente afastados e substituídos. As joint-desventures funcionam assim. É preciso terraplenar primeiro para semear depois. Já qui o expliquei antes , era a nossa "desnazificaçãozinha de subúrbio", o "antifascismo" de papelão a que tínhamos direito.
Entretanto, o "plano" a que Spínola servia de emblema decorativo (e que alguém lhe tinha escrito e ditado amavelmente) era, no fundo, sem tirar nem por, o "plano" que os americanos tinham proposto a Salazar nos anos sessenta: nós entregávamos o Ultramar e eles recompensavam-nos com cornucópias de fundos e apoios desenvolvamentistas. Traduzindo:  permutávamos a nossa hedionda condição de potência colonial soberana pela esplêndida condição de colónia serôdia da Gamgsterolãndia pato-brava.  Trocávamos o Império de séculos pelo Império de Punheta. Lavava-se o sangue dos heróis com o cuspo das palradeiras e, no terreiro assim desatravancado, erigia-se, em vez do Portugal vetusto e obsoleto, um Portogalinha ou Portorriquinho de aviário.
E é essa a súplica rasteira, aflita, entalada, que Spínola dirige a Nixon: que este se digne conceder-nos a manjedoura sossegada cujo usufruto  os beneméritos e benignos revolucionários haviam, tão galhardamente, conquistado na heroica madrugada abrilampante (e que os perversos e malvados ameaçavam aos gritos). Quer dizer, o tanso do general ainda pensava, naquela altura do campeonato, que o "cavalo de Tróia" (cuja estrita utilidade e missão era derrubar um regime e uma nação) ainda podia servir de montada rocinante à pátria quixotosa lançada à conquista de moinhos progressistas num futuro todo ele festivaleiro. A verdade, porém, é que aquilo nunca fora plano nenhum: fora apenas um embuste, um expediente, um engodo para conduzir canalhas à servidão de facínoras.

«A minha raiva toda está em que daqui a vinte anos haverá portugueses amigos dos Estados Unidos e da Inglaterra, e estará esquecido que nos querem espoliar. E eu não estarei vivo para evitar isso dizendo simplesmente a verdade.»
 - A.O. Salazar

O "plano", esse, continua. Uma verdadeira Fénix da treta. Como continua a permanente zaragata e os sucessivos ajustes de contas entre traidores e inimigos de Portugal. Não é difícil reconhecê-los: normalmente, gastam o tempo a tentar limpar-se uns nos outros.





 

sexta-feira, agosto 05, 2016

Estados Paralelos




Um artigo a merecer leitura atenta:
«O Estado paralelo na Rússia».

Alguns excertos de aperitivo:


O parágrafo final, que enforma a conclusão, é especialmente assertivo:

Chamam-lhe o Quarto Poder. A sua influência, por via da dinâmica tecnológica dos tempos, chega a ser avassaladora. Refiro-me aos Mass media, naturalmente. A sua legitimidade  baseia-se  nessa inefabilidade do "direito à informação" da malta e do "dever de informação" dos jornalixeiros de plantão. O problema é que a maior parte do tempo, alguns a totalidade do tempo, desinformam, servem de correia de transmissão a interesses alógenos, cumprem agendas escusas, intoxicam, manipulam e falsificam a opinião pública. Pior: este Quarto Poder, na realidade, funciona como Quinta Coluna. Em nome da "liberdade de expressão", exerce a "expressão por encomenda", a liberdade de conspiração e a impunidade de contrafacção. A feudalização dos mass-media atingiu uma escala global. É como um cancro pervasivo, com especial incidência e agressividade, nos locais cujo impacto geo-estratégico o justifique. Antes do cripto-governo global (que algumas visões iluminadas preconizaram e múltiplos indícios incriminam), assiste-se a toda uma máquina global de embuste. De criação duma realidade paralela de conveniência. A chacina e a desterritorialização físicas são acompanhadas e precedidas do massacre mental e espiritual.
Como qualquer pessoa de bem, o Estado soberano, ou com legítimas e determinantes aspirações a tal, deve preservar a sua dignidade, a sua autonomia e a sua saúde.  Purgar-se e libertar-se de parasitas, envenenadores, traficantes e bacilos infecciosos nem sequer é um dever: é apenas um acto de higiene básica.