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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

Desumanidade social

Ser uma autêntica besta, nalgum país ou planeta que eu desconheça, poderá até ser um desprimor censurável. Mas neste, e  especialmente no  portugalzinho actual, é apenas a fórmula instituída de escapar à solidão.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Dos bois, dos otários e das galinhas




Bem, à falta gritante de ideias próprias, o cromo que nos pastoreia teve a humildade de apelar às ideias dos outros. Louve-se o público reconhecimento e auto-penitência deste vácuo cabeludo. O problema é que, para bucólico enredo, as ovelhinhas são de todo dignas do pastor. E como se tal monturo não  bastasse, sobram  umas regras ainda mais lazarentas que o presépio. Atente-se só neste detalhe formidável: a melhor ideia é necessariamente a mais votada. Supimpa! Fazendo fé nos últimos trinta anos, o resultado acabado e resplandecente duma série de votações maioritárias em determinadas "ideias" a concurso  é, entre várias outras maravilhas, a bancarrota, a perda da independência, a ruína moral e económica, a usurpação da república por seitas e séquitos, a administração da injustiça, a cleptocracia burocrática. Convenhamos que não abona muito do método. Tão puco o recomenda. Dizer que é assim porque assim é que é democrático não colhe como argumento. Mesmo que tendam, não significa que sejam forçosamente a mesma coisa - estupidez e democracia. Se não, atentemos na ideia que neste momento colhe maior número de votos: o que é que as corridas de Touros têm de prioritário para a resolução dos reais problemas da nacinha? Não seria mais premente propor a abolição das Corridas de Pessoas - para o desemprego, para o estrangeiro, para o limbo da impotência e da insignificância? Ou se insistem em dar prioridade às alimariazinhas que sofrem, mais dignos de piedade e socorro urgente não serão, bem mais que os bovinos cornúpetos, os otários contribuintes (sobretudo quando acumulam com assalariados)? Abolição por abolição, não seria imensamente mais profícuo acabar com as corridas de otários às urnas, às portagens, às bilheteiras e demais manjedouras de estupefacção e da lobotomia suavizada?
E quem nos garante que os mesmos que elegeram esta besta rigorosamente destituída de ideias (geminada por partogénese fecal da anterior) que nos atormenta, não acabam a eleger uma ideia qualquer peregrina que lhes lustre ao aleive? E depois o (des) governo faz o quê com ideia? Faz o mesmo que fez ao ror de ideias, cada qual mais milagreira que a anterior, com que se apresentou a votos: manda-a para a retrete. Que é o que trinta anos de desgovernos têm andado a fazer aos respectivos programas eleitorais. A seriedade deste tipo de "ideias simples"? Nula, zero, nenhuma. Puro arrelvamento propagandulo.  Enfim, mais do mesmo. Ao animal feroz sucedeu um coelho ilusionista. O circo continua.

PS: Mas a peste não se confina ao nosso território. Alastra pela Europa que nem praga de gafanhotos legisladeiros... Cá ainda vamos nos bois. Lá já estão de roda das galinhas:

«A Comissão Europeia abriu hoje um processo de infração contra 13 Estados-membros, incluindo Portugal, pelo atraso na aplicação da legislação sobre as gaiolas das galinhas poedeiras, que deveria estar em vigor desde dia 1.»



 



A 5ª Lei da Ratafísica (rep)



Antes de publicar a 6ª Lei da Ratafísica Desantropológica, convém recordar a 5ª  Lei da mesma ciência.
  
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- Então? Não corremos mais, agora?...

- Não, agora caímos.

- Então, mas se não corremos não existimos. Não foste tu que estipulaste o dromo-cogito, ou seja, o "corro, logo existo"? Afinal, em que é que ficamos? Desistimos (que é como quem diz: "des-existimos")?...

- Além de estúpido, crónico, tens acessos de burrice, aguda! As regras têm excepções. Esta é uma delas. Quando se cai, não se corre. Neste momento não corremos porque estamos em queda livre e quando se está em queda livre a corrida torna-se redundante e dispensável!...

- Ah, portanto, despenhamo-nos. Quer dizer, caímos num enormíssimo buraco, cratera, falésia ou abismo. É isso?

- Não, pá. Chama-se uma crise. Estamos a precipitar-nos por uma crise abaixo. Uma situação excepcional e complexa que não adianta explicar-te. Jamais entenderias.

- Mas assim, vista por dentro, deixa que te diga: parece um grande buraco. Poderá chamar-se crise, não discuto, mas é da cor dos poços imensos, tenebrosos. Todas estas trevas à nossa volta... mais parece que vamos pelo cano do infinito abaixo!... estou pasmado.

- Isso é porque estás a cair às cegas. Não compreendes. Ciclicamente, há quedas!...

- Foi pena que não te lembrasses disso antes de cairmos. Nós corríamos, num tal galope, como se nada mais houvesse, então e para todo o sempre, senão corrida e mais corrida!

- Se fossem previsíveis, as crises, não seriam crises. Nem teriam piada. A piada toda está em sermos surpreendidos por elas. É como nos filmes de terror! Toda uma volúpia do suspense, do frisson, do stress. Sem as crises, caía-se na monotonia!...

- Ah, finalmente, percebo: toda aquela correria era para nos despenhar-nos na crise!... Por conseguinte, "corro, logo existo, ou seja, vou prá crise." E, por outro lado, a queda na crise é boa porque é para nos salvar da queda má: caímos na crise para não cairmos na monotonia.

- Mais ou menos isso. A finalidade da corrida é a queda. Corremos para cair.

- Bem, então está alcançado o objectivo. Deveríamos comemorar. Todavia, estranhamente, toda esta escuridão está repleta de choro e ai Jesus-Deus nos acuda!... Em vez duma festa, mais parece um velório. Dir-se-ia que a surpresa não lhes agradou assim tanto.

- É porque são como tu: caem às cegas! De olhos fechados ou vendados.

- Bem, mas há uma certa lógica nisso, não?...

- Como assim?

- Então, uma vez que corriam às cegas, é natural que caiam da mesma maneira.

- Nem por sombras! Tu cais às cegas mas não corrias às cegas por uma razão muito óbvia e simples...

- Ah sim, qual é?

- Corrias atrás de mim. Logo não corrias às cegas: corrias atrás de mim.

- Bem, então eu corria doidamente, atrás de ti, é um facto. Tu é que corrias às cegas.

- Não eu também não corria às cegas: eu corria atrás deles.

- Óptimo, acho que percebo. Então ambos corríamos feitos doidos, eu atrás de ti e tu atrás deles: eles é que corriam às cegas.

- Nada disso. Eles corriam à nossa frente, nós corríamos atrás deles. E nós corríamos atrás deles precisamente porque eles corriam mais avançados que nós. Tornava-se impossível, portanto, não correr atrás deles. Já que eles corriam à nossa frente.

- Enfim, para não cairmos na monotonia, além da crise, caímos também na tautologia! Mas se ninguém corria às cegas, como é que agora um ror de gente cai às cegas?

- Pela mesma razão que tu cais às cegas embora não corresses às cegas: porque já não cais atrás de mim, mas à minha frente.

- Olha...pois é! Mal desatámos a cair, deixaste de estar à minha frente para passares logo para trás de mim.

- Pois, porque na queda as posições da corrida invertem-se, necessariamente. O mais avançado deixa de estar à frente para passar a estar detrás, ou seja, por cima. E o mais atrasado chega-se à frente, isto é, cai mais depressa, de modo a servir, entre outras coisas, de almofada, quando se bater no fundo.

- Muito bem, corríamos então para isto - para cair. E quando acabarmos de cair, quando batermos no fundo, o que é que fazemos?
- Batermos não: bateres. Tu é que bates no fundo; eu bato em cima de ti. Depois disso, é simples: corremos outra vez. Corremos para cair e caímos para correr de novo, é a lei das coisas. Tu, atrás de mim; e eu, à tua frente. Até à próxima crise.
- Francamente, não percebo porque é que depois desta crise não hei-de eu correr à frente. Até estou a ganhar uma certa perícia por aqui abaixo!... Só é pena esta escuridão toda que não deixa ver nada.

- Não podes correr à frente porque és um cegueta. Não terias discernimento para escolher atrás de quem é que haveríamos de correr, de modo a caírmos na crise e não na monotonia! Só eu possuo essa faculdade. Herdei-a dos meus pais, que a herdaram dos pais deles e por aí fora. Ou então comprei-a, vai dar ao mesmo. Seja como for, há prerrogativas que são pessoais e intransmissíveis. As ideias, por exemplo.

- Ah, pronto. Se assim é... Entretanto, quanto tempo é que vamos estar a cair, fazes alguma ideia?...
- Aí não há problema. Logo que iniciámos a queda, comecei de imediato a elaborar um cálculo exacto, complexo e meticuloso. A todo o momento estabeleço uma estimativa quase perfeita, que burilo, transmito e aperfeiçoo no instante seguinte!...
- Fico muito feliz. É bom saber que os mesmos que não foram capazes de prever minimamente o abismo, se sentem, em contrapartida, plenamente aptos para calcular a fundura e a duração do despenhamento. Despencados pela falésia abaixo é que se acham em excelentes condições para lhe adivinhar as medidas!...

5º Lei da Ratafísica Desantropológica: A finalidade da corrida é a liberdade. Através da queda.

Domingo, Janeiro 22, 2012

Balanço e (ajuste de) Contas. - I



O ano transacto foi pródigo em episódios  múltiplos, que oscilaram garridamente entre o caricato e o deplorável. O caso do vídeo dos americoisos a urinarem ufanamente em inimigos defuntos escapou, porém,  a essa lúgubre fatalidade. Comprova como nalgumas áreas da civilização sempre vão acontecendo sérios progressos. Nem pensem que brinco. Não há muito tempo, os americanos, com desenvoltura análoga, nem sequer esperavam que eles morressem.!... 
Abu não-sei-quantos, lembram-se?...

Sábado, Janeiro 21, 2012

Re-enter the Dragon



Há duas coisas, pelo menos, em que os chineses nos ganham de abada: a medicina e a astrologia. Ultimamente, parece que também na economia, mas isso não vem agora ao caso. O certo é que, segundo a astrologia chinesa, essa venerável e milenar sabedoria, termina hoje o ano do Coelho e inicia-se amanhã o ano do Dragão. Bem a propósito, convenhamos. Tratarei de agir em conformidade.
Assim, declaro solenemente encerrada a minha licença blogo-sabática. A bordoada - melhor dizendo: o churrasco - segue dentro de momentos. Há que aproveitar, tanto quanto o sorriso dos astros, a bênção dos planetas! Ou não nos ensinassem eles as virtudes da visão superior: a de cima... Lá muito de cima!


Quinta-feira, Novembro 24, 2011

Joint Desventure

Não sei qual será mais deprimente e penoso de assistir (e padecer) para o comum dos portugueses: se o ser tão alarvemente atacado por esta esquerda disfarçada de direita, se o ser tão javardamente  defendido por esta esquerda mascarada de esquerda. O certo é que sob o garrote da finança ou debaixo da canga da súcia, a economia real do país lá desliza pastosamente pelo esgoto abaixo.

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Deste, já posso dizer o que disse do anterior sem errar muito

A demissão do actual governo não é, em bom rigor, um caso de política, como se pretende fazer crer: é um caso de polícia. Mas não apenas do actual - o precedente, mais o precedente do precedente, a somar ao seu antecessor e a culminar, em retroactivo, ao Kavaquistão (já para não falar nos anteriores) - todos eles foram casos de polícia. O estado actual das contas públicas atesta-o soberanamente. O estado actual do património nacional revela-o às escâncaras. O estado actual comatoso do ex-Estado português brada-o aos quatro ventos!
Aliás, nem caso, nem crise - política? Rigorosamente nenhuma. Apenas de polícia.

Aliás, os putativos políticos outra coisa não fazem, nem têm feito ao longo destes anos, que convocar a polícia. Esta, porém, assim como a política genuína, séria, consequente, não se avista nem comparece. A nossa desgraça, por isso germina e floresce dessa dupla ausência: de política e de polícia. Tanto quanto do excesso galopante, triunfante e imperador dos seus contrários. Se apenas nos faltasse a política, mas nos acudisse a polícia, ao menos ainda haveria esperança. Ou se nos desfalcasse a polícia, mas nos valesse a política, sempre se poderia emendar o desfalque. Mas assim não. Sem política nem polícia, penamos sem esperança nem emenda. Sem política nem polícia, ficamos à mercê da contrafacção mixordeira de ambas, reféns sob inapelável sequestro do capricho, do apetite, em suma, da venalidade aleivosa de falsos políticos e falsos polícias. Falsos políticos que não nos representam por inteiro, mas apenas nos nossos defeitos e desqualificações; que não nos estimulam para nada, a não ser naquilo que temos de mais baixo e desprezível; que não nos guiam a lado nenhum, a não ser no caminho para o estrangeiro, para a servidão e para a penúria. Falsos polícias que não nos defendem, nem protegem; que não guardam nem investigam. Mas apenas defendem, e protegem, e guardam pretorianamente a falsa política. Mas apenas acolitam à missa negra onde o erário e a fazenda pública são imolados, sem dó nem piedade, aos ídolos tenebrosos da situação. Mas apenas zelam pela tranquilidade do latrocínio instituído e pela segurança comilona do cancro transplantado. Da falsa democracia, da falsa política e da falsa administração, que não servem à polis nem aos seus cidadãos, mas apenas se servem - abusiva e ferozmente - deles. Donde resulta um estado hipertrofiado e autofágico que devora o país; administrações burgessas e africanizadas que se locupletam e refastelam nas empresas; militares castrados e obedientes com mais amor à promoção do que à Pátria; e uma miríade de palradores, mais ou menos escritos, publicados e embrulhados, desatados e untados numa vaselina multiusos de importação, para lubrificar o mega-supositório (mais ou menos instantâneo, mais ou menos recorrente) com que se auto-empalam e, simultaneamente, com o maior escarcéu e espavento possíveis, se expõem à curiosidade pública e à estupefacção do incauto. Afinal, nada como o enxame da falsa informação para nos atestar dos poderes estupefacientes da contrafacção.

Em resumo, não nos promove nem melhora a falsa política: esbulha-nos, desanima-nos e confisca-nos sòmente;. Como não nos defende a falsa polícia: vigia-nos e ameaça-nos apenas. Não sendo política, de todo, a crise, é, sobretudo e até mais que moral, existencial. A questão íntima que se coloca doravante a Portugal, depois da abdicação forçada de império, é saber se se resigna a esta Liliput rilhafolesca em que pretendem interná-lo.

Seremos, infelizmente, tudo isto que nos torpedeia, intoxica e auto-mutila; mas não somos apenas isto. Nem podemos consentir que nos reduzam a tal. Sob pena de mais valer um maremoto ou super-furacão que nos varra duma vez por todas da face do planeta. Sempre era mais digno e meritório ser varrido pelo Mãe Natureza do que por uma chusma coleoptérica e concertada de burocratas, moços de frete, macacos de imitação e parasitas profissionais. Disse.





Balde de minhocas

O fóssil Soares manifestou-se preocupado com as perspectivas futuras da democracia. Por um lado, é enternecedor: um pai que vive do proxenetismo da filha  a angustiar-se muito com a falência técxnica desta. Por outro, é empolgante:  assistir ao despique frenético entre superstições: duma banda os da democracia; da outra, em tandem vertiginoso, os do mercado.
Como corolário, atente-se  no significativo detalhe: as guerras míticas, na antiguidade, exigiam para ignição o sacrifício de virgens; os apaziguamentos dos ídolos míticos, no presente, requerem a imolação de rameiras. Digam lá que não há todo um perfeito sentido e uma força de equilíbrio no mundo!...

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

Dilema, uma palavra genuinamente grega

Segundo garantem os papagaios de serviço,  é o caos global se os gregos saírem. Ou é o caos na Grécia se os gregos ficarem. Teria imensa piada, e seria de elementar justiça, ir perguntar aos gregos o que é que preferem. Eu, no lugar deles, nem hesitava. A bem da higiene, o mundo agradecia.

Quarta-feira, Novembro 02, 2011

Superstições de conveniência

Lendo isto:
«Líder mundial de banqueiros não perdoa dívida portuguesa»
avassala-me uma tremenda perplexidade... Mas afinal não eram os Mercados, essas destilarias inefáveis, os nossos sublimes credores?

Mas que Ixionismo vem a ser este?


Quarta-feira, Outubro 26, 2011

Da intrusão profissional

Claramente preocupada com os tempos sombrios que se avizinham, uma idosa senhora inquiriu-me sobre como proteger-se de eventuais larápios. Talvez reforçando as portas e janelas, alvitrou. 
"Sim, respondi, essa será uma medida que, com grande grau de probabilidade, a porá a salvo dos ladrões menos perigosos.
" Ah, espantou-se ela, então e os mais malfazejos e ferozes? "
"São os profissionais, minha senhora. Esses entram-lhe em casa a qualquer hora, sem passar por porta nem janela."
"Mas entram por onde, então?"
"Ora, é fácil: entram pela televisão."

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Vão acabar connosco se não acabarmos com eles

O que venho expondo em termos histórico-filosóficos não é fruto de delírio. Não que eu não cultive os meus delírios e fantasias, como toda a gente, mas porque pode ser facilmente comprovado, por qualquer ser medianamente inteligente e não auto-lobotomizado, na realidade circundante. Querem uma tradução nesta, e no nosso caso nacional específico, do que ficou exposto?
Basta recordar o que, já em Setembro de 2007, aqui ficou publicado (e, pelos vistos, profetizado). Intitulava-se "A Disfunção Pública". Nunca será demais reler  e rezava assim:


Fala-se muito em desembaraçar o Estado do seu número excessivo de funcionários. Ainda há dias, na entrevista à RTP, o ministro das Finanças apregoava não sei quantas centenas de funcionários em rampa de lançamento para um qualquer limbo ou aterro sanitário.


É evidente que o Estado, na medida em que se tornou refém de seitas e receitas partidárias (e não só), descambou numa espécie de cancro maior da Nação. Brada aos céus de escândalo a quantidade de mamíferos que por lá se recreia e locupleta. Mas, a bem do rigor, convém que sejamos sérios na análise destes problemas. Por isso mesmo, compete que se diga, com toda a clareza, que se há algo excessivo no Estado Português, e há, esse excesso, essa demasia não reside certamente no número de funcionários. Pelo contrário, os funcionários, tal qual o país, são poucos para tamanho Estado. Relembro até que no tempo em que ainda existia um Império para administrar, o Estado era menos de um quinto do que é actualmente. O País diminuiu, mas o Estado aumentou. Significa que o Estado vive a parasitar a Nação. Essa, de resto, é uma lei antiga e fatal em toda a parte do mundo, só que entre nós ganhou foros de regabofe épico. Porém, repito, e por estranho que pareça, não são os funcionários do Estado os responsáveis por tão descomedida voragem. Acreditem, espantem-se, arrepiem-se, façam como entenderem, mas não são. Querem a demonstração? Aí vai.
Os funcionários do Estado, efectivamente, são poucos: os disfuncionários é que são muitos. Este detalhe é sistematicamente escamoteado. E não devia. Pelo contrário, devia constituir ponto de partida para toda e qualquer diagnóstico sério da epidemia. Como é bom de ver, existe a Função Pública e existe a Disfunção Pública. O país está todo ele disfuncional porque o peso da Disfunção Pública é esmagador em relação à sua congénere. Querem exemplos?


Na educação (que é igual à Saúde, à Justiça, etc): lá estão os funcionários - os professores e os contínuos; e lá estão os disfuncionários - os administradores, os burrocratas do ministérios, a pandilha das DREs, os sindicalistas, os inspectores da pevide, etc. Os professores - isto é, os funcionários - padecem concursos, suportam nomadizações, aturam os educandos das televisões e dos futebóis (e na hora de tocar píveas aos orçamento, vão de charola para o desemprego, ou nem de lá escapam); os disfuncionários ninguém sabe como ali vão parar, mas, uma vez lá catrafilados, uma coisa é sabida: nunca mais de lá saem. A missão dos disfuncionários é impedir que os funcionários funcionem. Quanto pior os funcionários funcionem, ou seja, quanto melhor disfuncionem, mais disfuncionários são precisos para analisar, perceber e engenhar soluções para a disfunção dos funcionários. Invariavelmente, os disfuncionários, após grandes marchas e serões forçados, autênticas maratonas de fazer corar um kafka, descobrem que há funcionários a mais. A coisa não está a disfuncionar como deveria e inicialmente era previsto (por eles, naturalmente). É preciso espiolhar, avaliar e descobrir quem teima em funcionar. E pô-lo no olho da rua. A disfunção Pública só tem e cumpre um dogma inexorável: o único problema, fonte de todos os problemas, é a escassez de disfuncionários e o excesso de funcionários. Essa lei única, soberana e absoluta deriva do facto de todo o disfuncionário ter sempre um familiar, amigo ou confrade cujo contributo é imprescindível para a Disfunção Pública. Toda a Disfunção Pública será sempre pouca. Tudo isto pode parecer absurdo, mas não é: é apenas perverso.


E a perversão imbrica na mentalidade assaz cavilosa mas típica do disfuncionário: está convencido que ele é que é o funcionário e que a Função Pública é uma disfunção. Traduzindo para o concreto: o Estado não existe para servir os contribuintes; os contribuintes é que existem para servir o Estado. A escola não serve para instruir, nem educar; os tribunais não existem para ministrar a justiça; os hospitais não estão lá para zelar pela saúde dos cidadãos. Não, tudo isto existe para os disfuncionários brincarem às reformas, às experiências, às cobaias com o dinheiro e o coiro alheios -isto é: para os disfuncionários perseguirem, torturarem e sanearem os funcionários. A seguir ao 25 de Abril, faziam-no em nome da higiene política, agora fazem-no em nome da higiene económica. Não tarda muito e será em nome da higiene sexual.


Por outro lado, logo que se apanha na Disfunção Pública, o disfuncionário adquire a firme convicção que não é condignamente tratado: o dever do Estado é promovê-lo e subsidiá-lo em todos os seus caprichos e mariscadas. E ele não está ali para outra coisa. Desata pois a disfuncionar com todas as suas forças. Sabe que quanto melhor disfuncionar, tanto maiores serão as suas chances. Quando não andam a perseguir, torturar e sanear funcionários, os disfuncionários conspiram, insidiam, manobram e intentam ultrapassar-se uns aos outros. O pior, invariavelmente, vence e adquire poderes, privilégios e prorrogativas acrescidos.


De tudo isto, com é facil de calcular, resulta um panorama deveras pitoresco:


Há todo um Estadão a cavalo na Nacinha. Compõem-no um número cada vez mais reduzido de funcionários e um número sempre crescente de disfuncionários. Os disfuncionários apregoam o "estado mínimo", ou seja, um número mínimo de funcionários que sustentem laboralmente um número máximo de disfuncionários. Bem como um número máximo de contribuintes que paguem ambos, claro está. A tarefa dos funcionários é canalisar as receitas dos contribuintes para os disfuncionários e carrear as directivas e receitas destes para o país. Não há qualquer exagero em dizer que os disfuncionários são parasitas compenetrados de todo o restante dispositivo: parasitam laboralmente os funcionários e parasitam monetariamente os contribuintes. Alcançamos assim a demonstração inicialmente requerida: na verdade, o Estado não tem funcionários a mais, até tem a menos: o que tem a mais, disparatadamente, é parasitas. Consequentemente, o que qualquer governo sério precisa de reduzir, com a máxima urgência, caso pretenda impedir o fatal colapso de tamanho rilhafoles e rilha-orçamentos, é, sem sombra de dúvida, o número de parasitas, não o de funcionários.


Cito um caso emblemático e verídico: fulano X trabalha no Instituto Y. Não tem mesmo feito outra coisa na vida nos últimos 25 anos. Desunha-se todos os dias executando as tarefas de três mais a chefe e a chefe da chefe. Atura, além do som ambiente do galinheiro, os ralhetes e os humores pré-menstruais (ou pós-menopáusicos) da hierarquia. Ciclicamente, ainda contempla, a cada fim-de-mês, a passagem do cometa Z, um assessor/avençado/ou lá o que é misterioso, que só ali passa para receber a renda choruda inerente à sua condição fantástica (uma entre várias, manantes de diversos institutos, direcções e empresas). Pois bem, o Instituto Y já se desembaraçou de diversos funcionários, mas os cometas, esses, prosseguem inexpugnáveis. Cometas, plural, digo bem, porque, entretanto, de um passaram a dois. Lá vão surgindo, todo o fim-de-mês. São aos milhares, às constelações por todo esse país desgraçado. Provenientes e ioiozantes das galáxias partidárias. Dos buracos negros clientelares. Vão acabar connosco se não acabarmos com eles.


Este postal é caótico e a raiar o alucinante, mas não me culpem nem refilem comigo. Limitei-me a transcrever o mais cruamente possível a realidade duma terra lançada aos bichos.