segunda-feira, julho 04, 2022

A Lei geral da Riqueza (rep)

O postal que  se segue é a reposição de um postal de 2015. Nada como o futuro (agora presente) para avaliar da razoabilidade do prognóstico.


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 Segundo o mais recente cômputo, 1% da população mundial detém 50% da riqueza global. Ou seja, tanto quanto os restantes 99%.

Este singular fenómeno pode ser encarado de duas perspectivas substancialmente diversas:
Para  a esmagadora maioria dos humanos, há excesso de riqueza nas mãos de muito poucos.
Para os muito poucos, ou minoria possidente, há excesso de população para os recursos disponíveis.
Ora, como na actualidade, o poder político, mais que nunca, tende a submeter-se ao poder económico, a perspectiva dos muito poucos tende a prevalecer, senão mesmo, de alguma forma, a ver-se  implementada com carácter de necessidade absoluta.
Depois, como a dinâmica intrínseca da economia global promove a a reprodução do dinheiro pelo dinheiro (leia-se onanismo financeiro), a inclinação, cada vez mais vertiginosa, é que os 50% disponíveis para os 99% diminuam progressivamente. De tal modo que daqui por, digamos, 20 anos, apenas estará disponível 40 ou 35% da riqueza.  Até porque o aumento natural da população aliar-se-á ao acumulamento progressivo da riqueza.
Resulta então, de tudo isto, uma dedução óbvia: o grande e maiúsculo problema para a ultra-minoria possidente é, por um lado, ampliar a sua sempre escassa riqueza; e, por outro, reduzir o excesso de população que compete pelo restante bolo, de modo a contrabalançar o tamanho cada vez mais diminuto deste e a contrariar a erupção das tensões inerentes daquela. Quer dizer, como irá haver cada vez menos riqueza para cada vez mais pessoas, torna-se imperioso, na parte que pode alterar-se, promover essa alteração, ou seja, fazer com que os cada vez mais devenham cada vez menos, para que assim, de alguma forma, possam ajustar-se  ao cada vez menos a que podem aceder.
A lei geral que de tudo isto decorre, pode traduzir-se nos seguintes termos:
Para que o dinheiro se possa reproduzir cada vez mais é necessário que as pessoas se reproduzam cada vez menos.

Ferramentas evidentes para a realização e concretização desta lei, são já manifestas algumas, entre as quais:

1.- Mito do aquecimento global (não é a questão de haver ou não aquecimento, mas as causas que se pretendem implantar);
2.- Depressão colectiva artificialmente induzida (através de austerizações absurdas e meramente punitivas, por exemplo);
3.- Terrorismo global confeccionado;
4.- Desestruturação das sociedades tradicionais e normalização do caos;
5.- Desligamento ao passado e infernização do futuro, de modo a justificar e perenizar uma reclusão num presente absoluto;
6.- Instauração dum totalitarismo económico, império duma tirania financeira global, sob pretexto de combate  a despotismos nacionais, ou autocracias regionais.


A troco de ornamentos, confisca-se a vida.

domingo, julho 03, 2022

A trincheira dos Valores (oxidentais, entenda-se)




 Já todos sabemos, e estamos cansados de saber, o que significa toda esta iconoclastia russa que desabou sobre o Oxidente: como todas aquelas irrupções hediondas antes deles, os fulanos querem vir dar cabo dos nossos valores e do nosso paraíso a céu aberto - esse olimpo recauchutado  onde nos deleitamos com o néctar e a ambrósia do nosso extasiante modo de vida. É isso e nada mais que isso. A nossa tremenda felicidade que os rói e acicata. E se os ucranistões não os detêm, não sei o que será de nós. Ninguém sabe, o mercado nos proteja! Por isso mesmo rezamos, oramos com fervor e estridência: que eles, aqueles malignos imensos, se cansem de chacinar os cordeiros expiatórios que lhes enviamos em sacrifício a Azazel, o demónio-mor dos desertos, agora mascarado de Abominável Vladimiro das Neves, e, às tantas, empanturrados no sangue e na carniça dos carbonizados, se deitem a dormir a sesta, como os dragões malvados, e desistam de nos vir despejar deste Éden, como o Ihavé primitivo assestou, sem contemplações, nem dó nem piedade, no Adão ancestral. Mais até que em coma induzido, as massas aflitas aguardam, assim, a salvação em stress pré-traumático * telebombado.

Todavia, desenganem-se os menos pessimistas ou quaisquer cépticos na clandestinidade. Das inúmeras, múltiplas e incontáveis abominações que as hostes demoníacas contra nós perpetram, uma sobressai, excruciante, na hora actual. Horror, tragédia superlativos, se é que não elevados ao cubo! Temo até de mencioná-lo, tal a angústia!... Mas o dever informativo obriga-me. Estais preparados? Ora aí vai:

Envolve a ofensiva medonha da "masculinidade tóxica", sempre ela, como não podia deixar de ser (isto anda sempre tudo interligado). A sua maldade horripilante concentra-se, persignem-se, nos mais vulneráveis: os jovens. Os infantis, sobretudo. E traduz-se em quê, clamais, ó impacientes?!... Eu digo (tentei poupar-vos, mas debalde): pois, nem mais nem menos, do que em impedi-los de se evadirem, desesperadamente, dos seus corpos naturais!... Eles querem evadir-se, exfiltrar-se, desopilar, dar às de vila diogo, e vêm as turbas orientais, lá das estepes, empestadas de "virilidade tóxica", e pumba!, zás!, impedem-nos! Encarceram-nos! Encafuam-nos!...

A sorte, no meio de tanta desgraça e tenebrosa expectativa,  é que o presidente Mau Xéxé Dzong  não  dorme. Vigia atento. E acaba de autografar uma  executive order promoting the expansion of gender-affirming services, including for children and teenagers . Ai até dos terapeutas que façam perguntas!...
(Atenção que a notícia vem da Jewsweak, portanto é fidedigna).

Ah, os guardiões do paraíso não dormem. E nós, em contrapartida, já podemos dormir descansados.


* Direitos de autor da expressão a Gilad Atzmon, nunca será demais sublinhá-lo.

sábado, julho 02, 2022

Valores Oxidentais

 




Os valores do Oxidente, pelos quais os ucranistões se estão a imolar em barda - o arrebanhamento para forragem de canhão já atinge mancebas de 22 anos e incapacitados avulsos -, pois estes formidáveis e ultra sofisticados valores não primam apenas pela excelência, fascinam ainda mais pela peripécia. Uma destas, das mais recentes  e  edificantes, aconteceu na Califórnia. Anotem, sff:

O primeiro bispo transexual da Oxidente acaba de resignar. Pasme-sesob intensa barragem de acusações de racismo. Terá despedido um pastor acastanhado e proferido alocuções envergando um colete à prova de bala agravado dum  sorriso malicioso. Uma investigação entretanto encetada, ilibou-o desta última malfeitora: o esgar cínico, apuraram as autoridades (?), seria apenas um derivado natural do autismo do bispo. Ou ex-bispo; ou transbispo, como preferirem. E não se admirem nem escancarem a boca de espanto com isto de autistas treparem a bispos. No Oxidente já trepam a presidentes, ministros e secretários de estado, só para citar a ponta mais evidente do icebergue. Pergunto-me até se não se terá mesmo constituído condição cine qua non para o acesso à carreira.

Mas nada de excitações exageradas: o transbispo é apenas luterano, não é ainda católico. No dia em que os católicos oxidentais aderirem, se calhar já não andará longe, matam dois coelhos duma cajadada: extinguem os escândalos com a pedofilia; e ultrapassam os entraves à investidura de mulheres. Vem-me agora à lembradura um tal Marujo que ardia em frémitos destas conquistas civilizacionárias. A festa que ele não fará!...

Por outro lado, é todo um antigenesis fervilhante que testemunhamos, com os tumultos e confrontações inerentes. Antes da neo-hierarquia demonológica sedimentar, os valores competem pela respectiva posição no poleiro. Para já, só o cume está estabelecido: anti-semitismo uber alls. Daí para baixo, racismos, machismos, homofobias, transfobias, xenofobias, etc, têm ainda muito que fazer pela vida. Zaragata geral, enfim.

PS: Já me esquecia do mais importante, pecado meu: o transbispo optou pelo pronome "eles". Eita pluralidade, como diriam as brasileiras amigas do Ildefonso.

sexta-feira, julho 01, 2022

Noctambulia na obra

 

«Não há memória de um primeiro-ministro anular um despacho de um ministro», clama a notícia.

Se vamos falar de memória, então é melhor estarmos calados... por pudor. Não há memória de coisa nenhuma e, no que há, mais valia que não houvesse, de tal modo pervertida, distorcida e emporcalhada anda.
Mas também os actuais primeiro-ministros, não só aqui, como nos arredores continentais, constituem um marco inolvidável na degradação política, económica e moral. Portanto, onde mora o espanto?
Parece que o ministro, imbuído dalgum súbito entusiasmo, ou despertando inopinadamente do torpor característico da tribo, tomou uma decisão. Meu Deus, uma decisão!... Boa ou má, é irrelevante. Tal qual o ministro. Qualquer coisa como o novo aeroporto em Alcochete. Também é irrelevante. Em Alcochete, na Moita, no Montijo ou Sarilhos de Baixo, pouco interessa. Podia até ser na Baixa da Banheira. Ou em Alhos Vedros... No Fogueteiro, quiçá.  A questão, o busílis não é esse. Não é por aí. O horror, o lesa-imobilidade é que tomou uma decisão e agiu... moveu-se; fez qualquer coisa, além de palrar e responder às perguntas dos jornalistas. Ora, isso, em democracia, nesta dita democracia, não se admite. Os representantes são eleitos para posarem de estado e retrucarem às questões dos media; e do parlamento à boleia dos anteriores... E outra vez dos plumitivos acerca das respostas às anteriores questões. E aos comentários entretanto suscitados pelos respostas iniciais e pelas questões subsequentes. E às reacções  geradas, invariavelmente, pelas respostas às questões e aos comentários anexos. E às declarações às reacções. E às interpretações das declarações. E aos desmentidos às extrapolações das declarações. E às contestações às conclusões das comissões. E aos escândalos, entrementes, despoletados pelas nomeações prás comissões. E às manifestações contra as conclusões das comissões. E às remodelações nas nomeações para as comissões. E às investigações subitamente desencadeadas às relações. E à falta de pareceres e informações. E ... Estávamos mesmo a falar do quê?...

Ah, sim,  a decisão. Inadmissível está bem de ver. Desplante puro. Nunca se tal tinha visto, diz bem  a notícia e o respectivo órgão informativo. Lá de fora, onde se entrincheirou ambulante, o primeiro-ministro foi célere e peremptório: anulou ruidosamente o perigoso e audacioso surto. Desautorização acabada e nunca vista? Mas uma assombração nunca vem só: eis que o ministro, caso dispusesse de coluna, no mínimo bateria com a porta no instante seguinte; mas não, pelo contrário, assume o pecado e fica, roja-se em perdão. Afinal, não se tratara dum acto consciente, ponderado, decidido... Não, tudo não passou dum acesso involuntário, inadvertido, mero exercício de sonambulismo.

PS: Tudo regressou, por conseguinte, ao normal. Com os jornalistas, lautamente, poisados ou a zumbir à volta do governo da república.

PS2: O novo aeroporto, esse, por rescisão unânime, e à velocidade actual,  não será, quase seguramente, em Alcochete. Nem no Montijo. Nem em Rio Frio. Se depender do primeiro-ministro, será para aí em...Kiev.

quinta-feira, junho 30, 2022

Política lírica

 


«Johnson Claims Toxic Masculinity To Blame For Ukraine War»



Masculinidade tóxica, diz ele. Se em vez do Putin estivesse a Natalia, nada daquilo aconteceria. A culpa é da testosterona, portanto. O secretário da Defesa, se não estou em erro, da mesma ilha caquética, veio logo corroborar o soba, taxando de "machista" o odiado Vladimir. Em contrapartida, o anão Zelote mais seus telemanipuladores de plantão, entre os quais se destaca o esguedelhado e microcéfalo Johnson, constituem-se como exemplos acabados de delicadeza e pacifismo remeloso. Autênticas ovelhinhas, mansas, lanudas e seminaristas. Um enlevo de criaturas inofensivas! Além disso, não sei se já alguma vez assistiram à porta-voz  dos Negócios Estrangeiros Russo, a Maria Zakharova... Dá-me ideia que estivesse ela no topo e provavelmente Londres, ou Kiev, já teriam sido vaporizados. Acreditem: Putin é o mais moderado lá do sítio.
Em todo o caso, tenho uma ideia melhor. Para o Oxidente, claro, tudo para o Oxidente, nada contra o Oxidente. E no encalço do brilhante desarrincanço do Boris & Cª. Assim,  de modo a evitar estes riscos e tentações bélicas, por irrupção exacerbada da testosterona, faz-se aos políticos (os masculinos, bem entendido) oxidentais o que se fazia aos cantores líricos, em Itália, antigamente (os famosos castrati, de voz maviosa): capam-se. Capam-se muito bem capadinhos. E logo em pequeninos. Não que eles geralmente cresçam muito ou ultrapassem a altura do homúnculo - algo raquítico, por sinal -, mas mesmo assim...
Obstar-me-ão, mas castrados funcionais já eles são, em especial os europeus. Pois, objecção esmagadora e contundente, essa, caros leitores. Fico sem argumentos. Excepto este: restará sempre uma compensação: passam a dirigir-se às massas, igualmente descolhoadas e descerebradas em geral, com voz maviosa, de soprano alto, uma autêntica ópera bufa.  Pelo menos, na estética, sempre é um avanço. E, na política, uma transparência e verdade inauditas: não corremos mais o risco de se fazerem passar por homens, induzindo, quem quer que seja, em erro.

Mas ocorre-me, entretanto, outra solução talvez menos trabalhosa e complicada: condicionar o acesso à carreira política apenas a jornalistas. Auto-castrados militantes,  por natureza e vocação, estão logo à partida isentos de qualquer tendência masculina e, ainda menos, machista. 

PS: Parece que o Abominável Vladimiro das Neves já respondeu ao Boris fofinho, embora despenteado: lembrou-lhe a Maggie Thatcher (Dama de Ferro, prós amigos) e aquela operação nas Malvinas. E teremos todos que reconhecer: além de ultrapassar o Boris em matéria de testosterona, cumulava com uma quantidade imensamente superior de miolos. Simplesmente porque a senhora sempre tinha alguns.

quarta-feira, junho 29, 2022

A Nova-Esquerda do Arco-da-velha




Já o escrevi aqui, há um bom par de anos atrás: o prefixo neo (que, em teoria, pretende significar "novo"), na realidade do nosso tempo, e em aplicando-se aos diversos "ismos", traduz, outrossim, "não". Assim, onde se lê neo-liberalismo, neo-conservadorismo, neo-nazismo, deve entender-se não-liberalismo, não-conservadorismo, ou não-nazismo. Este "não" implica mais que um oposto, ou contrário, antes uma falsificação, uma contrafacção, um embuste. Na verdade, aproveita-se uma aparência de para traficar e impingir um conteúdo programático que pouco ou nada tem que ver com a essência original da coisa. Não é difícil perceber isto no caso mais extremo dos exemplos, o neo-conservadorismo, mas mesmo no exemplo neo-nazi, como já aqui postei e elaborei vastamente acerca do assunto, a distância que medeia entre o original e a pseudo-descendência é a mesma que vai do histórico ao carnavalesco. Em síntese, o neo-liberalismo é, propriamente dito, um pseudo-liberalismo, como o neo-conservadorismo é um pseudo-conservadorismo. Ou seja, respectivamente, um falso-liberalismo e um falso-conservadorismo.

Ora, posto isto, se pensarmos na famigerada Escola de Frankfurt, estaremos perante aquilo que, dum modo geral, é muitas vezes definido como o Neo-marxismo. E, da mesma forma que os anteriores, um pseudo-marxismo, propriamente dito. Passo a explicar com detalhe...

Cruzei-me um dia destes com um vídeo onde se pretendia expor em que consistia o "cultural marxism" (o vídeo era anglofónico). Apontava-se a Escola de Frankfurt, e a sua "teoria crítica", como a fonte para esse fétido manancial. De resto, este tipo de alegações e generalizações parece ser numeroso na internet, segundo me pude aperceber. Academicamente, a peça era muito pobre, como frágil  é, não raras vezes, a elaboração desses enredos. Os detractores, por isso mesmo, aproveitam, e taxam de "teorias da conspiração" e "anti-semitismo" os teorizadores, e estes, por seu turno, misturam alhos com bugalhos e limitam-se, no melhor dos casos, a alguma verosimilhança do estilo "si non é vero...".

Acontece que, de facto, "cultural marxism" é, com rigor, uma contradição em termos. A cultura não era exactamente o motor da explicação marxista, nem tão pouco o lubrificante da sua engrenagem teórica. Materialismo puro e duro, onde a economia é determinante e a dialéctica história o seu palco, a falta de consideração e respeito por, digamos assim, "questões culturais", consiste até numa das grandes críticas que se lhe pode fazer e, frequentemente, é feita. O marxismo, portanto, é uma coisa e aquela rapaziada  (todos ou quase todos da tribo especial, com efeito)  da Escola de Frankfurt é outra. Marx, de resto, e convenhamos, ter-se-ia quedado como um quase  objecto de fantasia  na feira do pensamento sociopolítico, ao estilo dum Fourier ou dum Saint Simon, caso não tivesse aparecido o cavalheiro Lenine e transformasse a receita num prato cozinhado com serviço de balcão e restaurante -  entenda-se, um método de conquista do poder. A partir daí, a acção do marxismo no mundo tornou-se efectiva, mas já com um novo élan e embalagem: marxismo-leninismo. Mais que marxistas, todos e quaisquer partidos comunistas são marxistas-leninistas. Ah, sim, mas também há os socialistas e sociais-democratas, mas aí o marxismo ou está na gaveta ou no armário, e se é do marxismo que falamos...

Ora, os pseudo-marxistas da Escola de Frankfurt, é verdade, arrogam-se a críticos tanto do "comunismo/stalinismo", quanto do capitalismo. No primeiro caso, porque depois de Stalin, e duma determinada purga deste, a União Soviética deixou de ser o paraíso  na terra; no segundo, por causa, sobretudo, dum determinado  conceito: cultura/civilização. E aqui entramos na análise do cromo mais destacado do bando, nesta matéria: Herbert Marcuse.

Marcuse arma, mais até do que ao neo-marxista, ao freudo-marxista. E trata de falsificar ambos. Quer dizer, o mesmo que Marx faz a Hegel, faz o nosso trampolineiro de arribação a Freud e a Marx. É verdade que Marx lança a zaragata na sociedade, Freud introjecta-a no próprio indivíduo e na família, mas ambos, apesar de tudo, apresentam um fim determinado: a cura, da sociedade e do indivíduo. Por mais delirantes que sejam, e são, partem de alguns princípios e alvejam determinados fins. Marcuse nem chega a pensador: mero propagandista,  empreende a zaragata perpétua, no indivíduo/família tanto quanto na sociedade - que se converte na mera projecção da esquizoforia (fragmentação imarcescível) do sujeito.

Para aí chegar, o ponto de partida é o conceito de civilização em Freud. Civilização ou cultura, nesta caso, são sinónimos. E Freud sustenta que civilização = repressão. É através da repressão dos instintos e pulsões primordiais, enfim, do inconsciente, que a civilização se vai construindo. É na construção e estabelecimento de tabus e proibições, que o homem deixa de ser canibal, incestuoso, homicida, infanticida, pedófilo, etc. Portanto, os aparelhos de repressão, da consciência moral aos códigos legais, mais respectivos tribunais e polícias, são necessários e constitutivos da civilização. Do mesmo modo, os excessos ou ausências de repressão conduzem à anomalia - psíquica ou social.

Logo a abrir, na sua obra mais conhecida, "Eros e a Civilização", Marcuse diz ao que vai: rever o tal conceito de civilização (cf. S. Freud, "Mal estar na Civilização") que, segundo ele, é o maior ataque, mas, ao mesmo tempo, a maior defesa da civilização europeia - patriarcal e autoritária. Trata-se então de adaptá-lo, retirando-lhe a parte "má", o carácter defensivo. Toda a repressão devém, assim, uma maldade que urge combater. A dialéctica marxista da classe dominada e classe dominante (trabalho/capital)  é transposta ad-hoc para a dialéctica princípio do prazer/princípio da realidade, isto é, reprimido/repressor.  O "dominado", vítima da repressão, transporta na sua própria consciência as estruturas da repressão aí projectadas pelo repressor. A neo-revolução principia, pois, pela remoção e recusa dessas "estruturas repressivas" na consciência e, a partir daí, na própria sociedade. Não admira então, como a questão da "produção", em Marx, descamba na questão da "sexualidade", em Marcuse. Toda a civilização europeia tem que ser criticada, desmantelada, negada, porque traduz todo um aparelho, percurso e estruturação  repressivos. Há uma realidade que inibe, criminosamente, o prazer. Debaixo da calçada, a praia. Mero retrocesso alucinado ao "bom selvagem", de Rousseau? Mais, muito mais: bilhete no TGV para o caos de Hesíodo.

E basicamente é esta a receita ou disvangelho da "nova-esquerda", mais as psicoses, neuroses e paranoias sociais - do estilo LGTBQQIA+&ETC, agendas esverdeadas, ateísmo, retorno ao paraíso perdido da pedofilia + ene diarreias mentais  associadas. E tudo isto com carácter de urgência, exigência e perpétua acção. Não é por acaso que, mais uma vez, o trotskismo teve uma descarga preciosa e aromática (tal qual como nos neoconas), só que agora a revolução permanente converte-se na perpétua fragmentação e na zaragata civil sempiterna. Os militantes deram lugar aos activistas - matéria ruidosa animada duma qualquer sobrexcitação neurótica. Um descontentamento, uma insatisfação para a eternidade, algures entre a frigidez incurável e o sadismo altruísta. O ser humano reduzido e confinado à sua dimensão mais estúpida: a adolescência. Entertain us, clama, sombria, a canção dos Nirvana, my libido... A imbecilização/infantilização que já profetizava Nietzsche e que, doravante, em termos freudeanos, se resume a uma cega regressão e feroz cristalização na fase sado-anal da psicogénese. O lema desta romaria em quatro palavras: regressão contra a repressão. Nada é poupado, muito menos a própria linguagem. Pré-história, aí vamos nós! 

Depois, a própria constituição de qualquer minoria é, em si, um efeito de iluminação e legitimação automática contra a repressão (a maioria, porque sempre estamos a falar no espaço "ocidental"). Quer dizer, toda a minoria é uma vanguarda e isso confere-lhe um estatuto de prioridade e superioridade (moral, legal, cultural) intrínsecas. E instantâneas. Basta activar a causa e ei-la soberana.

Porém, o mais sinistro e irónico de toda esta cegada é que todos os avatares e horrores da putativa repressão andro-patriarcal, isto é, civilizacional, são assumidos agora pelos bandos e comanditas anti-civilizacionais,  só que à avessas e em regime de kit tribal: toda uma nova-censura/polícia/delação/inquisição/legislação/vigilância preside à demolição do abominado edifício. Os novos-revolucionários mais não são que novos-torcionários, novos e exacerbados esbirros que operam auto-investidos das plenipotências do bufo, quadrilheiro e juiz, tudo esprimido e concatenado na mesma circunvolução histérica entre o umbigo e o olho do cu.


PS: Aqui há tempos deitei dinheiro à rua comprando uma porcaria intitulada "Critica da Razão Cínica", dum tal P. Sloterdijk. Consegui ler 130 páginas, o que foi um esforço considerável de estoicismo e parafilia. Uma merda absoluta, a transpirar iluminismo e não sei quê da tal "teoria crítica" como se fosse perfume de passerelle. Jamais me perdoarei pelo esbanjamento. Só para que saibam. Entretanto, uma última nota: onde esta caterva menciona "crítica" entendam "censura". Criticar, para estas comadres, é censurar e nada mais que isso. O maior alvo de todas as críticas é o passado. E os antepassados.

terça-feira, junho 28, 2022

Como destruir a Rússia

 O que se segue é retirado dum artigo de 2019, acerca dum documento, também de 2019, elaborado pela Rand Corporation, um dos principais tinque-tanques do rilhafoles americórnio. Se repararem bem, é a receita completa para o actual cozinhado no Leste Europeu.


«According to their analysts, Russia remains a powerful adversary for the United States in certain fundamental sectors. To handle this opposition, the USA and their allies will have to pursue a joint long-term strategy which exploits Russia’s vulnerabilities. So Rand analyses the various means with which to unbalance Russia, indicating for each the probabilities of success, the benefits, the cost, and the risks for the USA.»

1. Rand analysts estimate that Russia’s greatest vulnerability is that of its economy, due to its heavy dependency on oil and gas exports. The income from these exports can be reduced by strengthening sanctions and increasing the energy exports of the United States. The goal is to oblige Europe to diminish its importation of Russian natural gas, and replace it by liquefied natural gas transported by sea from other countries.

Comentário: Seguiram a receita à risca. Não está a resultar (tirando a parte da estupidez europeia, que correspondeu na perfeição), mas como só conhecem esta receita, insistem. E vão insistir ad nausea. A peça pode ser quadrada, o buraco redondo, mas o chimpanzé não desiste.

2. Another way of destabilising the Russian economy in the long run is to encourage the emigration of qualified personnel, particularly young Russians with a high level of education.

Comentário: As Pussy Riots? E mais quem?...A prole dos oligarcas entretanto falecidos?...

3. In the ideological and information sectors, it would be necessary to encourage internal contestation and at the same time, to undermine Russia’s image on the exterior, by excluding it from international forums and boycotting the international sporting events that it organises.

Comentário:  Mais uma vez, receita seguida com fervoroso fanatismo culinário. A questão é que, no fim do dia, a Rússia está a ficar mais popular no "resto do planeta", ou seja, perante três quartos da humanidade quem está cada vez mais isolado e mal visto é o arrogante e destrambelhado Ocidente.

4. In the geopolitical sector, arming Ukraine would enable the USA to exploit the central point of Russia’s exterior vulnerability, but this would have to be carefully calculated in order to hold Russia under pressure without slipping into a major conflict, which it would win.

Comentário: Novamente a receita. Armaram a Ucrânia, treinaram e zombificaram os ditos cujos, mas o conflito rebentou e, sim, como diz a receita, os Russos vão ganhar. Portanto, começa a cheirar já a esturro, o petisco. E como estão a escalar todos os dias, e tresloucadamente, corre-se mesmo o risco de deitar fogo à cozinha.

5. In the military sector, the USA could enjoy high benefits, with low costs and risks, by increasing the number of land-based troops from the NATO countries working in an anti-Russian function.

Comentário:   Sempre a receita... E os vassalos caninos, digo, aliados, estão lá para isso e mais que seja, e não param de ladrar ao urso.

6. The USA can enjoy high probabilities of success and high benefits, with moderate risks, especially by investing mainly in strategic bombers and long-range attack missiles directed against Russia.

Comentário:  Aqui a receita está um pouco a oeste da realidade de 2022: a tecnologia de mísseis/contra-mísseis, e a espacial dum modo geral, dos russos é superior à dos USA. 

7. Leaving the INF Treaty and deploying in Europe new intermediate-range nuclear missiles pointed at Russia would lead to high probabilities of success, but would also present high risks.

Comentário:  Deve estar aí a rebentar este passo da receita. Mas um tal excesso de picante, é mais que certo, tornará o prato intragável.

8. By calibrating each option to gain the desired effect – conclude the Rand analysts – Russia would end up by paying the hardest price in a confrontation, but the USA would also have to invest huge resources, which would therefore no longer be available for other objectives. This is also prior warning of a coming major increase in USA/NATO military spending, to the disadvantage of social budgets.

Comentário: Esta, de tão evidente, recorrente e verificada, dispensa mais comentários.


This is the future that is planned out for us by the Rand Corporation, the most influential think tank of the Deep State – in other words the underground centre of real power gripped by the economic, financial, and military oligarchies – which determines the strategic choices not only of the USA, but all of the Western world.


Falta apenas dizer que estes cromos da Rand Corp, como os da generalidade dos Tinque-tanques americórnios, percebem geralmente corno das questões geopolíticas que dissecam. O que fazem é corresponder a quem lhes paga (o Governo Americano e certos oligarcas lá do sítio) com fatos e receitas à medida dos seus aleives e fantasias. "Sai uma Rússia de fricassé?... Não está-me a apetecer antes em hamburguer!..."

Lendo um pantagruel destes, fica no ar um aroma que se resume numa palavra: Hubris.

domingo, junho 26, 2022

G7, ou Clube dos Balhelhas e Gagás

 O festival continua. Cada cavadela, cada minhoca. Agora vão sancionar o ouro. O Gerontossauro decretou e os servos do globo - os outros 6 do G7-, fazem como as focas: batem palmas e empinam bolas no focinho (à falta de as terem no sítio devido):

«Having sparked hyperinflation in European gas prices and record energy costs around the globe with their poorly conceived and implemented Russian energy sanctions which have backfired spectacularly, allowing Moscow to reap record energy export profits and China and India to buy oil far below spot prices while leaving US motorists paying record prices at the pump, on Sunday the Biden admin alongside the G-7 announced that they will ban Russian gold imports to "further impose financial costs on Moscow for its invasion of Ukraine."»

Acontece que os russos não têm como principais clientes do seu ouro os anormais do G7 (a maior parte deles nem dinheiro tem para mandar cantar um cego, quanto mais comprar ouro)... E o principal cliente do ouro russo é... o Banco Central da Rússia:

«the biggest buyers of gold in recent years have not been G7 countries (United States, France, Canada, Germany, Japan, the United Kingdom and Italy), many of whom naively sold much if not all their gold in the recent past and have refused or simply don't have the funds to restock; instead purchases have all been by developing nation central banks (like India and Turkey, and of course China which however has a habit of only revealing its true gold inventory every decade or so) who have been quietly preparing to do what Russia is doing by dedollarizing and instead allocating capital into a counterparty-free asset.»  (...)

«As for Russia, its central bank has been an aggressive buyer of gold, not seller, and if anything Biden's decision will only make the gold market the latest to follow the example of oil and bifurcate: cheaper for Russian-friends and much more expensive for Russian enemies.»

Mas a parte mais engraçada, e a minha preferida é mesmo esta:

»As for "punishing" Russia, here is a chart of the US vs Russian current account balance: guess who is at a record surplus and who is at a record deficit.



Isto já não é apenas decadência. Raios me partam, se não augura mesmo  o estado terminal dela.
(Olha, continuo inteiro... estamos lixados!)

sábado, junho 25, 2022

Weimar 2.0

 


«Energy Crisis: EU Passes Carbon Emissions Bill ...»


Redução de 55% nas emissões, ah valentes!
A escavação continua. O fundo ainda é dois andares abaixo...do fundo. Mas isto já não é apenas mais uma exuberante exibição de estupidez pura e dura. É, sobretudo, inútil porque redundante e, comprovadamente, desnecessário. Dado o cenário garantido das anteriores cavadelas, todo o festival de hara-kiri sancioneiro, as emissões reduzem-se por si, natural e automaticamente. É só fazer as contas: Fecham fábricas, colapsam indústrias (as poucas que restam), reduz-se garantidamente o tráfego - de mercadorias, de particulares no desemprego, na aflição, na ruína -, viaja-se menos em turismo; com a seca, ainda por cima, as vacas, coitadas, também se devem peidar menos, e por aí fora. Vai ser mesmo uma despoluição do caraças  e a todo o - não direi gás, porque entenderam amputar-se dele, mas, seguramente -  vapor. 
Brinco? Exagero? Lá estou eu?...
Pois, oiçam só o ministro da esquizofrenia da locomotiva europeia (transita mascarado de ministro da economia da Alemanha, mas isso é apenas a prova de que os doidos fanaram a chave do manicómio):

E de quem é a culpa? Claro, é do Putin. Vai ali um inimigo meu a correr, engatilho a arma para lhe pregar um tiro, um bem repenicado tiro e, pum, acerto na minha própria cabeça. A culpa é dele, está-se bem a ver (vocês, pelo menos, estão; porque eu, com o encéfalo desfeito, e a escorrer mioleira pelos olhos abaixo, tenho alguma dificuldade).

E chia ainda ele, sibilino, quase a terminar:

Pois, ó meu grande montículo ambulante de substância mole e fétida, até é capaz de ser assim mesmo. Reduz a população à miséria e vais ver onde eles te mandam enfiar a "liberal democracy" da treta. 
Weimar 2.0, aí vão eles!  E não se pode dizer que não mereçam.


sexta-feira, junho 24, 2022

Da Fake-meat à Fake-people e volta

 


a) «Supremo Tribunal dos EUA libera porte de armas em todo o país»


Olhando assim, de relance, para as duas notícias dir-se-ia que a mais assustadora seria a primeira. Afinal, se ponderarmos o gatilho fácil e o ímpeto massacrante endémicos à sociedade americana, caso lá vivesse, eu, pelo menos, com a perspectiva do arsenal à solta, não ficaria propriamente tranquilizado. Não que eu seja exactamente contra isso, apenas, muito provavelmente, trataria de adquirir um Javelin e várias granadas defensivas na dark web (parece que o preço tem vindo a baixar, dado o excesso de oferta)... Pelo sim, pelo não... Como diria Jarry, o facto de sermos prestáveis e civilizados, não impede que sejamos prudentes.
No entanto, o ex-presidente Barak Coiso (assim de repente até parece nome de drone), esse dumucrata fervoroso, irrompeu em lágrimas, clamando todo um terror apavarotado de "milhões de americanos", com as armas? Não, com a decisão do Supremo sobre o direito das mulheres a desembaraçarem-se. Quer dizer, o cenário dum tresloucado, digo, vários, de M16 ou pistolão em punho, não assusta. Mas uma portadora de embrião inconveniente, não poder entregá-lo, em modo expresso, para abate, isso, que horror, é apavorante. Quase de borrar as calças!...
Vejamos, o tal Supremo nem proíbe que as oclusas dêem cabo do minúsculo invasor das suas sacrossantas vísceras. Apenas transfere para a órbita dos Estados essa legislação. Por conseguinte, até estão a descentralizar, ou regionalizar, ou outsourcizar, o que decerto é mais democrático (e market friendly). Até porque o Texas, o maior estado de todos - e o mais importante, de longe, na minha soberana opinião, porque é a pátria dos ZZTop -, pois, o Texas, dizia eu,  já ameaçava referendo e secessão, à conta da agenda "dumucrata", sobremaneira, e fogosamente, aberrante. O Texas (e os Estados do Sul, dum modo geral), lá terão decerto muitos defeitos, mas ainda têm algumas virtudes (ao contrários dos restantes, exceptuando talvez o Montana). E se falarmos da música, então, são virtuosos como o caraças e jamais perdoarei aos russos se pulverizarem  aquilo do  mapa!... 
Consequentemente, os tais do Supremo, para variar, pesaram bem as coisas - dum lado a guerra civil, do outro a descentralização - e optaram como manda a prudência, o decoro e o interesse público. Detalhe de transcendente importância: o aborticínio continuará legal  na Califórnia e na Florida, as duas principais estâncias balneares da grande nação, pelo que as prenhas aflitas,  atormentadas em estados menos liberais,  poderão tratar, simultaneamente, do desembaraço e do bronze nas belas praias e resorts daqueles dois destinos turísticos de eleição.
Por outro lado, e nunca será demais realçá-lo, esta é já, sem sombra de dúvida civilijaxional (o x não é erro ortográfico; nem o J), uma questão obsoleta. Como as meninas, desde a mais tenra idade, devem passar a ser metodicamente educadas para mudarem ou abdicarem de sexo, o risco de engravidarem será cada vez menor, até que se chegue à solução ideal de se banir a reprodução biológica natural, dando lugar a reprodução sintética. De resto, não sei se os meus amigos já se aperceberam, mas vai de vento em popa a exploração  da carne artificial - cultural meat (ou fake-meat) . É mesmo, dizem, um dos negócios do futuro. Não é por acaso que o distinto e prognosciente Bill Gates, à semelhança da Monsanto, nele tanto tem vindo a investir. Depois, como, graças aos tremendos saltos anti-civilizacionais, tudo se resume e degrada a mera carne, produzir um hamburguer ou um cultural baby, qual a diferença?
Só coisas estupendas e maravilhosas ao virar da esquina.

PS: E notem um dos formidáveis milagres da fake-meat: salva-nos do apocalipse pelo flato bovino. Prostremo-nos em hossana, irmãos!...