sexta-feira, maio 20, 2005

Puericultura com todos

O Dragoscópio e o seu anacoreta residente têm a honra de apresentar, em primeiríssima mão, para todo o blogúrbio e arredores, a "Nova cartilha de João de Deus", futura sebenta das nossas escolas primárias e respectivas instituições prévias.
Atentemos numa breve passagem de tão transcendente obra, para aquilatarmos, em subtil relance, dos suculentos primores e guloseimas espirituais que aguardam os pequerruchos...



«Eugénia, (palpando os testículos de Dolmancé) -Oh!, minha boa amiga, como me irrita a resistência que opões aos meus desejos!...E estas bolas, para que servem, e como lhes chamam?

Senhora de Saint-Ange - O termo técnico é colhões...artísticamente, denominam-se testículos. Estas bolas encerram o reservatório da semente profícua de que te falei, e cuja ejaculação na matriz da mulher produz a espécie humana; mas deter-nos-emos pouco nestes pormenores, Eugénia, mais dependentes da medicina que da libertinagem. Uma rapariga bonita só deve preocupar-se em foder, nunca em engendrar. Deixemos tudo quanto se relaciona com o insípido mecanismo da população, e detenhamo-nos principal e unicamente nas voluptuosidades libertinas, cujo intento não é, de modo algum, povoador.

Eugénia - Mas, querida amiga, quando este membro enorme, que mal cabe na minha mão, penetra, pois que me asseguras que o pode fazer, num buraco tão pequeno como o do teu traseiro, isso deve provocar uma dor muito grande à mulher.

Senhora de Saint-Ange - Faça-se a introdução pela frente, ou por detrás, quando uma mulher ainda não está acostumada, experimenta sempre dor. Quis a natureza que só atingissemos a felicidade através de sofrimentos; mas, uma vez vencida, nada pode dar prazeres mais intensos, e aquilo que se experimenta quando este membro se introduz nos nossos cus é incontestávelmente preferível ao que resulta dessa mesma introdução, pela frente. Além disso, quantos perigos não são, deste modo, evitados à mulher? A sua saúde corre menos riscos e não há o menor perigo de gravidez. Não me alongo acerca desta voluptuosidade; o nosso mestre, Eugénia, analisá-la-á em breve amplamente e, juntando a prática à teoria, convencer-te-á, espero, minha muito querida, de que, de todos os prazeres de gozo, é aquele que deves preferir.

Dolmancé - Peço-vos, senhora, que não tardeis as vossas demonstrações; não posso suportar mais; vir-me-ei, ainda que o não queira, e este membro temível, reduzido a nada, deixará de ter utilidade para as vossas lições. (...)»

- Marquês de Sade, "A Filosofia na Alcova"

Convenhamos: se o desígnio nacional, na formação das novas gerações, é -por atacado- treinar putas e larilas, ou onanistas a duas ou quatro mãos, então, já que é a pornosofia que nos norteia, ao menos sejamos originais, bebamos nas fontes, abandalhemo-nos à grande e à francesa (o que neste caso até se aplica literalmente).
De facto, repito e reforço, se o intuito é perverter e conspurcar as criancinhas, se, pelos vistos, isso deveio imperativo categórico, não percamos tempo com réplicas sonsas e liofilizadas, frangos de aviário da sexologia, como o dengoso e murcho Doutor Vaz. Não; em vez destes palradores de alcova, desses micro-escafandristas do grelo, peregrinemos os verdadeiros "santuários", os baluartes imorredouros da sexopatia. É que, quer queiramos quer não, há toda uma diferença entre a sexopatia e a sexorreia.
Os petizes, não duvidem, hão-de persuadir-se na mesma que dar o cu ou o pito será a coisa mais imperiosa desta vida. Mas ao menos, com o Divino Marquês, aprendem a falar um português (assim a tradução o permita) de eleição. Dessa singular forma, ao menos, não se perde tudo: salva-se a gramática e com ela, se bem que ao preço de cunnilingus, annilingus e felatios em catadupa, também a Língua.

Tudo isto, claro está, nunca esquecendo que, assim como noutros tempos, mais obscuros, a educação tinha por propósito habilitar o juvenil para o mundo e a vida, agora, todos sabemos, compete-lhe pré-lavá-lo e desossá-lo para a televisão. Ou vice-versa.

Aliás, num país com obscenidades tão ubíquas como o futebol e a TV, outras tão nauseabundas como a política, e diversas tão pregnantes como a literatura-light e a música pimba, já era altura dos infantários e jardins de infância se adaptarem aos admiráveis tempos novos. Quem já deu novos mundos ao mundo, pode perfeitamente dar também o cu ou a racha. Somos um povo benemérito.

Quanto à prometida educação visual, o livro de pintar recomendado pelos psicólogos do Ministério, replecto de figurinhas para colorir... falarei no Kama Sutra numa próxima oportunidade.

quarta-feira, maio 18, 2005

Zazie em grande estilo

«E sabem que mais. O grande mal não é uma sociedade de gente com coluna vertebral bem forte e espírito aguerrido. É uma sociedade de frouxos que anseia por uma imagem de poder e de heroísmo que já não conhece. Os ideais torcionários sempre se venderam aos pobres e miseráveis e às massas embrutecidas que desejam a glória colectiva por não serem capazes de se bastar na coragem individual.»

Esta rapariga, claramente, anda em más companhias... Eu estimo-a muito e folgo ainda mais sempre que a vejo pelejar a esmo. Está visto: Têm que ser as mulheres a pegar em armas. Porque os "homens", ébrios de sensibilidade, andam muito ocupados com a lide da casa: a passar a história a ferro, a tricotar argumentos, a estrelar falácias, ou a fazer o inventário das mercearias. Isto, enquanto não aspiram a economia e limpam o pó às pratas e ao entendimento. Ou correm ao cabeleireiro, a cuidar da trunfa e das unhas. Se bem que em muitos casos, dado o vigor e a exuberância da copa, mais indicado fosse, em vez do coiffeur, um jardineiro - um intrépido e valente podador de sebes, pois claro.

Tem só uma coisa, ó Zazie: a nossa degradação turbo-moderna vai ainda mais fundo que isso. Nem sequer é já uma "sociedade de frouxos que anseia por uma imagem de poder e de heróismo que já não conhece": limita-se a uma récua de gastrópodes espumejantes, de casinha às costas, que se contenta com a gamela, a digestãozinha espiritual fácil, e odeia visceralmente tudo o que lhes cheire -já não digo a heróico - mas a vértebra ou resquício dela. Se há coisa que o pensamento rastejante não suporta é ver ainda alguém de pé.

Tudo isto, vá-se lá saber porquê, traz-me à memória um bêbado lendário e empedernido, freguês habitual e fanatizado lá na tasca do Armindo (o Caguinchas e a malta estão aí e não me deixam mentir). Viciado convicto em vinho a martelo, o tal seca-adegas, nutria uma devoção tal pela mixórdia que, conforme diz o povo, por um copo três até era capaz de dar o cu e oito tostões. Certa ocasião, caí eu na asneira de lhe oferecer um copo de pinga a sério (um "Colares Reserva", se bem me lembro; tinto). À primeira golada do precioso néctar, para minha grande perplexidade, rompe o gajo num tremendo vómito, no seguimento do qual golfa o líquido no chão e brada, indignado: "Foda-se, Dragão, zurrapa desta vai mas é dá-la ao teu pai! Ca ganda merda! Queres-me envenenar, ou quê?!!..."

Aquele cavalheiro que desaconselhou o desperdício de pérolas com porcos era um tipo sábio.

terça-feira, maio 17, 2005

Medidas Draconianas - I. O Deficídio

Passo a expor as medidas draconianas que urgem para este país. Se virdes por aí outras que não estas, berrai, protestai, queixai-vos à DECO: são pechisbeque, fancaria, contrafacção. Estão-vos a vender gato por lebre.



O português actual, verdadeiro calhau com olhos na sua grande maioria, quer lá saber da pátria, da cultura, do futuro, do passado, dos netos e da própria decência. Muito menos do défice. Peçam-lhe sacrifícios pela nação que ele, esfalfado de tanto proxeneta à bica dela, puxa logo dum valente manguito, cospe vários impropérios e desata num basqueiro de varina assanhada que só visto.
Agora, então, que o Benfica está quase campeão e o estio se aproxima, a grandessíssima besta, atarefada com os preparativos para as celebrações do título e as viagens às Caraíbas, Brasil ou Maldivas, está-se bem pouco maribando para o défice. Até porque, repito, já deita o défice, e conversas do défice, e ficções do défice pelos cabelos. E com razão, convenhamos.
Pois bem, se o que querem mesmo é acabar com ele, com essa abominação que não nos larga, com essa hidra medonha, a solução é simples. Atente-se:
Já sabemos que o Estado, dado o estado deplorável a que chegou, não é grande coisa no que toca a esmifrar o cidadão. Na verdade, a relação é complexa: não só o Estado não esmifra como devia o cidadão, ou seja, com alguma justiça, como, para espanto da galáxia, é ele, Estado, que se vê, não raras vezes, despudoradamente espoliado pelo tal cujo. Aliás, por sortilégio democrático, o Estado tem vindo a descambar num mero subterfúgio para uma certa classe de cidadãos viverem às expensas dos outros. Em suma: Tirando uns desgraçados e otários sem amigos na copa, ninguém paga impostos de jeito. Ou melhor dizendo: quanto mais deveriam pagar, menos pagam. O lema cínico do costume devém imperativo e princípio constitucional da república: "os pobres que paguem; são muitos e já estão habituados". Contudo, mesmo os pobres, esses beneméritos, já estão a ficar manhosos e, instruídos no exemplo alheio, começam também a eximir-se aos seus deveres, a desmazelar os seus encargos. Manifestam até má vontade, imagine-se; murmuram, rosnam, interferem com as sondagens. De facto, lá do alto até cá baixo, existe um consenso general: o país que se foda! Primeiro a casa, depois o carro, depois os telemóveis, depois as Caraíbas e depois, depois logo se vê.
Conclusão: com o Estado não vamos lá.
Então vamos como?
Com uma medida draconiana autêntica, genuína, de sucesso garantido, nem mais.
Repare-se: da mesma forma que não se sente minimamente vocacionado ao sacrifício pela pátria, pelo estado, pelo país, enfim, pelo que lhe queiram chamar, o matumbo do português está sempre, em contrapartida, numa ânsia e predisposição permanente, fervorosa, compulsiva de fazer sacrifícios pela Banca. Contra o Estado vocifera, mas contra a Banca nem um lamento. É a sua nova divindade inexorável, a Moira grega recauchutada. Aceita-lhe tudo: a fome, a humilhação, a escravatura e ainda agradece, ainda desfila todo inchado e vaidoso com as coisas que o Banco lhe aluga a preços dignos de pretos alforriados em loja de fazenda.
Portanto, para resolver o défice é muito simples: Liberalizam-se, desembaraçam-se completamente as mandíbulas e garras da banca. Que exerçam a seu bel-prazer. Traduzindo por miúdos: a Banca pode cobrar os juros que quiser e infestar- bem como armadilhar- os contratos com as letrinhas pequeninas todas que lhe der na real gana. Cláusulas omissas e cláusulas secretas, inefáveis, subentendidas, é à descrição. Assim mesmo. À bruta. À maneira da selva. À lagardére.
Acabemos, pois, com o faz que anda mas não anda, faz que cobra mas não cobra. A Banca, vampira queridíssima, ai Jesus dos meninos, que se entenda com os cidadãos, com os clientes, com esta choldra toda. Que lhes saque e sugue até ao tutano. Que os espolie até ao último cêntimo. Que os lobotomize e anestesie com publicidade onírica e paraísos artificias ao domicílio. Mais ainda do que já faz. À canzana! Hão-de pagar e andar felizes e contentes, ronronando e dando marradinhas nas sondagens. Todos ufanos e arruinados. Grávidos de sonho e volúpia consumista.
O Estado, calmamente, lá do alto, só tem que taxar a Banca. 60% sobre os lucros. Na ponta da espingarda, se for preciso. Vai ser um tesouro fabuloso, uma pujança financeira de fazer os luxamburgueses corar de inveja: Paga o défice, paga a horda residente na Função Pública e ainda sobram uns trocados para concluir aquele assuntozinho pendente desde a batalha de Toro.
Duarte de Almeida XX
aliás, Dragão

segunda-feira, maio 16, 2005

Exorcismo às trevas




O Problema de Portugal
não é falta de inteligência:
é, sim, a parvoíce ufana
diplomada, trolha, sacana
albardada de ciência.

O Problema de Portugal
não é a falta de herança:
é, sim, o vácuo promovido
a espírito santo de ouvido
a asno de Sancho Pança!

O problema de Portugal
não é falta de inspiração:
é, sim, a indistinta massa
que imita, bajula, grassa
esgoto d'ova em ovação.

O Problema de Portugal
não é a falta de Talento:
é, sim, a bosta que leveda
fermenta, incha, cega
e quase eclipsa o firmamento.

Repetir três vezes, antes de adormecer, para exorcizar espectros, avantesmas e aleijões mentais que possuem e assombram este país. Esses mesmo que aviltam, que degeneram uma pátria de sonhadores numa Quinta das Celebridades de pesadelo - um chiqueiro orwelliano, onde os comensais refocilantes se geminam e lambuzam: todos diferentes e todos iguais.

O Não-Burguês


O contrário do burguês, nada de confusões, não é o operário, o camponês, o insecto urbano. Esse, nos dias que correm, e nos que já correram também, não passa, na maior parte dos casos, dum burguês embrionário, em gestação, em fila de espera, à cata de boleia ou oportunidade. A sua grande fantasia existencial é que, senão ele, pelo menos os filhos dele se tornem burgueses. Ou os netos, alguém, enfim, que o represente. Não é um desejo de justiça o que o anima, mas de vingança, de desforra. A fome que o tortura, como dizia Pessoa, não é de pão, mas de sobremesa; não é de vida, mas de luxúria macaca e porcina. Tanto quanto odiar o patrão, odeia-se a si mesmo por não ser patrão. Por não refocilar nos recreios e desfrutes do outro.
Não, o contrário do burguês é bípede, na carne e na alma, de postura erecta, vertebrado, dotado de inteligência mais que de razão, omnívoro de corpo mas não de espírito, com os pés na terra e os olhos no horizonte, coragem mais que cálculo, riso, criança, leão, patíbulo, luz, caminho, ponte, deserto, abismo – espelho e tabuleiro onde o divino se vem espiar.
Nietzsche chamou-lhe "ubermensch". Talvez o mesmo que Cristo, quase dois milénios antes, personificara: o Homem Bem-aventurado. E de Boa Vontade.

domingo, maio 15, 2005

O Concurso de Micro-Contos


Através do caro R, no seu digníssimo blogue (dos não muitos que por aí há) , fiquei a saber dum concurso blogohistérico de micro-contos.
Antes de deixar, também eu, aqui, o meu fulgurante contributo (nada de modéstias, sobretudo nada de modéstias!...), cumpre-me proceder a um breve preâmbulo...
Pois bem, acho que são necessários, imprescindíveis mesmo, um micro-talento, uma micro-inteligência e uma macro-toinice para que alguém, na sua perfeita bacoragem, se lembre dum termo tão cretino quanto "micro-contos". Por que não "contos-gotas"? Até era mais poético... Mas não: Micro-contos. Micro-contos? - Liliputices, micro-gaitas, é o que é. Enfim, dá uma ideia de que a literatura se mede pelo número de palavras ou pelo peso do fascículo. Como se houvesse ficção ou prosa a metro ou ao quilo. Como se a puta da mercearia ou talho de fressuras onde o paizinho leccionava os obsidiasse pela vida fora. Como se quisessem bezuntar o Portugal dos Pequeninos com uma Literatura de anõezinhos. Para se ler à lupa ou ao microscópio. Um empreendimento de homúnculos aquartelados em frascos de drogaria.
Agrava a estapafúrdia paspalhice o facto de lhe associarem um nome digno, mas indefeso, de um escritor que nunca escreveu micro-coisa nenhuma, mas sim grandes páginas, fruto dum grande talento, como foi Mário-Henrique Leiria. Faço ideia dos vómitos com que o infeliz se rebolará na sepultura. Se ainda fosse a Margarida Rebelo Pinto, a Rita Ferro, a Helena Sacadura, o Manuel Goucha, o Luís do bigode não sei quantos Sousa, o João Baião, o Conde Castelo Branco, ainda se compreendia. O que não faltam para aí são génios da treta, da tanga, guias espirituais ao nível, dignos de apadrinharem ou amadrinharem tão microbichosa iniciativa. Mas não, a bosta, para não variar, estima de ir agarrada às solas de alguém, gosta de imaginar que viaja, que ascende, que vai longe...
Se não era muito mais bonito -e honesto!- chamar-se "concurso de Micro-contos Teresa Guilherme"!?...

Em todo o caso, o meu contributo:

Intitula-se:
"Para todos vós, micróbios".

Caguei.

Que vos faça bom proveito!...

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É suficientemente micro?
Agora, se não me atribuírem o primeiro prémio vou ficar chateado.

Twilight Zone


Nem a economia, nem a política, ou tão pouco a sociologia, conseguem explicar o que se passou neste país nos últimos anos. Dizer que entrou em crise, em recessão, em descrédito, em derrapagem, em autofagia, em pouco ou nada contribui para a serenidade e o esclarecimento do inquiridor. Porque, na verdade, onde tudo indica que Portugal entrou mesmo foi na Twilight Zone.
Não sei a que distância fica o Quinto Império. Mas, pelo menos, à Quinta Dimensão, alegrem-se: já chegámos.

sexta-feira, maio 13, 2005

Para uma Blogorreia com Regras

Investido de atributos divinos só ao alcance dos predestinados, decidi auto-nomear-me fiscal de blogues. É preciso -direi mais: é urgente -, torna-se mesmo imperioso acabar com este estado anárquico de coisas, esta ribaldaria em que mergulhou a blogosfera. Cada qual diz o que lhe apetece, não se respeitam as bichas, nem as filas, não se veneram os veneráveis anciãos, apupam-se as estrelas, desdenha-se das vedetas, especula-se, escrevem-se postes sem cobertura, não se obedece à autoridade, não se cumpre o protocolo e a etiqueta, o crédito anda mal parado, desrespeitam-se as castas, alguns vassalos fazem orelhas de mercador ao clamor dos respectivos suseranos, passageiros de terceira querem viajar em segunda, os da segunda irrompem nas retretes da primeira, os da classe VIP tropeçam em escarros nas suas passadeiras vermelhas, todos querem ser maquinistas, o povo salta para o colo dos ministros, afaga as trunfas e a bunda aos eleitos, os jornalistas são ridicularizados por mentirosos mais frenéticos que eles, vocifera-se, derime-se, tagarela-se, imita-se o parlamento, corrige-se Deus e a Natureza, deixam entrar animais, alguns deles chegando ao ponto de serem imaginários, mitológicos e até, calcule-se, extintos, enfim: um não acabar de liberdades e, pior que isso, familiaridades inauditas.
Assim, para devolver a ordem a este caos babélico e restabelecer a legalidade imprescindível a qualquer sociedade humana não-rilhafolesca, mesmo que virtual, passarão a ficar sujeitos a inspecção pela autoridade competente (neste caso, eu próprio, pelas inexoráveis razões em epígrafe) todos os blogues (e também blogs), que emitem para a via pública, devendo os mesmos apresentar, sem procrastinanços nem tergiversações, a seguinte documentação e equipamento obrigatórios:
  1. Alvará municipal
  2. Garantias bancárias
  3. Declaração do encarregado de educação (se for maior, corresponde ao Presidente de Conselho de Administração da TVI, SIC ou RTP)
  4. Carteira de jornalista (efectivo, frustrado ou anelante)
  5. -Licença de uso e porte de nome
  6. Boletim de vacinas em dia (vacinas contra a raiva, a cólera, a homofobia, a xenofobia, a febre anti-semita e a síndrome de imuno independência adquirida)
  7. Declaração veterinária de pedigree
  8. Vistoria dos bombeiros
  9. Declaração de conformidade com os regulamentos de segurança e higiene no blog
  10. Dentes tratados
  11. Cartão de dador/bebedor de sangue
  12. Cartão de incontinente mental crónico
  13. Coleira com o nome gravado a letras fluorescentes
  14. Ficha de inscrição nas seguintes organizações opcionais: Maçonaria, Opus-Dei, Opus Gay, Abraço, Ilga Portugal, APAV, Deficientes das Forças Armadas, Hospital Júlio de Matos, SLB, FCP, SCP, Liga Protectora dos Anormais, CIA, Bucólicos Anónimos, SOS-Invertebrado, Amigos da Bomba, Escuteiros de Portugal
  15. Pulseira de localização
  16. Fiador
  17. Equipamento regulamentar de manobra em perfeito estado de conservação e operação: espelho, escape respeitando os níveis de emissão de gases opinatórios, cinto de segurança e de castidade, camisa de forças, e preservativo em dia. Níveis de inflamação e radiação do ego não poluidores da atmosfera ou contaminantes do meio ambiente.
  18. Desodorizante
  19. Atestado de masturbador compulsivo do "sitemeter"
  20. Açaime e microship ou chocalho (conforme se trate de animal de guarda ou transumancia.
  • Fica também, e desde já, o sério aviso: Este fiscal não é subornável (quando muito, será apenas um pouco sensível aos encantos femininos...)
  • Alerta-se: A não apresentação, pronta, alegre e bonachã, da documentação e equipamentos acima designados determina a selagem inadiável do blog, acompanhada do respectivo auto de embargo, bem como a incineração imediata do condutor. Ou vice-versa, para os que preferirem.
  • Regimes de isenção poderão ser lavrados localmente, ao gosto do fiscal.

  • O presente diploma entra em função desde a presente hora. O sorteio para visita será aleatório.

  • Publique-se.
Júlio de Matos
Inspector Fiscal e Dragão

quinta-feira, maio 12, 2005

Bloga Barbie, bloga!...



Local de corte e costura, a blogosfera assemelha-se muito a uma passerelle onde desfilam, naquele jeito putéfio e escaganifobético, modelos. De virtudes.
No intervalo das variedades.

É o triunfo da mentalidade Barbie.

Moralidade Blogo-esférica II

- "Ó mãe, olha o senhor Asdrúbal está ali co's copos, todo nu a dizer asneiras no meio da rua!..."
- "Então, filho, isso não é decente: não se diz o nome do senhor. Diz-se que "estão c'os copos, nus, a dizer asneiras", mas não se diz quem. Se não ainda te acusam de estares a pessoalizar a questão."
-"Ah..."

quarta-feira, maio 11, 2005

A Razão e a Presunção

Na Igreja da Santíssima Razão e dos Santos dos Últimos Dias, como nas Igrejas em geral, perigosos não são os sacerdotes: são os beatos. E, de entre estes, uma categoria acima de todos: os sonsos.
Todavia, quando descemos ao nível da micro-seita - de umas Testemunhas da Lógica, ou de uma "Igreja Universal" do Reino da Certeza, por exemplo -, tudo se transfigura. Crentes, beatos e sacerdotes não se distinguem. É tudo ao molho e fé no bolso. Movem-se todos num rebanho uniforme, mergulhados numa espécie de êxtase contemplativo da verdadeira Crença, robôs peregrinos e auto-depurados de quaisquer dúvidas, perfeitas máquinas de calcular destituídas de vontade e emoções. É o pensamento automático. O Vending-thinking, mais que o wishful-thinking. Um modelo vanguardista de chafariz: metem-se moedas e saem bicas mal-cheias ou sandes de Locke com presunto. Ou de apóstolos.
Possuem a verdade. Mas não se contentam de possui-la, de emprenhá-la, de viver com ela em santo matrimónio e ter dela meninos. Precisam de ostentá-la, de dar com ela na cara de quem passa, de exibi-la em cinto de ligas e mini-saia. No fundo, sentem-se tanto maiores e mais soberbos quanto mais se confrontarem com a destituição e penúria alheias.
Mas ai de quem não goste do afago, ai de quem lhes diga que aquilo cheira a peixe podre e eles a varinas da ciência, bufarinheiros da objectividade, ciganos de esquina do silogismo!...
Heresia! Sacrilégio! Vilipêndio! Ó deusa, crime de lesa-Fé!...
Não, meus amigos, livrai-vos de criticar a superficialidade, a leviandade, a ignorância! Porque isso, com garantia ISO 9000, é irracionalidade, fujamos! E depois de vos darem com a Verdade inteira e absoluta nas trombas, pespegarem-vos com tamanha desfaçatez no focinho, vão por mim: não é pera doce.
Em resumo: há quem confunda razão com presunção. E presunção e água benta, cada qual toma a que quer.
Por muito que isto custe ao bispo Edir Macedo e aos seus pios emuladores na blogosfera.

terça-feira, maio 10, 2005

Babilónia e a Besta

Em discussões rendilhadas que por aí fora se vão exacerbando, ficamos a saber que uma cornucópia de peritos no nazismo fizeram os trabalhos de casa: leram atentamente as trepidantes aventuras do Major Alvega.
Podemos dormir descansados. Esta gente, capitaneada por um moderador intrépido, cristalizado algures entre Mamselhe X, Alô-Alô e Luís Delgado, velará pela nossa consciência. Depois da máquina de lavar roupa, da máquina de lavar loiça e da trituradora de cozinha, louvemos ao alto este novo engenho mirabolante que, em simultâneo, ao deitar e ao erguer, lava a consciência, lava a história e tritura quaisquer dúvidas. É uma verdadeira papa Milupa para desdentados mentais. Pena é só lavar para um lado, o zingarelho, mas resignemo-nos: não se pode ter tudo. O óptimo é inimigo do bom. E acima da História Boa, há a "História Bem", a história quéque, a história betinha, enfim. Calculam-se as playstations que não exauriram, os videocorders que não extenuaram, para alcançarem tamanha sapiência sobre a guerra e a geopolítica, a táctica e a estratégia. Os panzeres avançaram em 4-4-2 losango, ou em 4-3-3, com duas alas e um ponta-de-lança fixo? Os aliados apostaram no contra-ataque venenoso, ou no despejar de bombas para a grande área adversária? O guarda-redes russo era o Yashin ou o Stalin? Quem tinha melhor banco, o Eixo ou a Aliança? Os alemães descuidaram o jogo aéreo e foram goleados por causa disso? O Conde Drácula reencarnou no Adolfo ou no José Paizinho-dos-Povos, ou nos dois, por turnos? Se não fosse o John Wayne que seria de nós? Questões essenciais como estas, todas as que vos ocorram, perguntem-lhes que eles sabem. São tu-cá-tu-lá com a Wikipedia, as novas Páginas Amarelas da Erudição.
O nível é de tal modo elevado, que dá vertigens. A argumentação é tão profunda, que só de escafandro, ou submarino se alcança. A guerra, tranquilizemo-nos, é pim-pam-pum. Imita na perfeição um filme de bang-bang. Os maus são os que perdem. Vae victis, já diziam os romanos. Na essência, para esta boa gente, é essa a sua –deles, maus- maldade e, simultaneamente, a prova inabalável da mesma. Os bons, no cumprimento duma lógica inoxidável, são os que ganham, os que estão por cima, os que vendem mais; os que fazem as regras e remendam a história. É assim. Sempre foi assim.
Pela amostra de espírito presente, não custa muito adivinhar onde andariam todos estes eruditos da belzebuzição alheia, todos estes beatos remelosos que esmurram o peito imaculado, todos estes carneiros mal mortos, caso os que perderam tivessem ganho:
Com que idêntico afã e volúpia esbirra zanzariam por aí, de braçadeira rutilante em riste, à cata do judeuzinho lá do bairro, do comuna da paróquia, do entrevadinho e do panasca. E com que generosidade, sempre que o seu bem amado lucro e não menos idolatrado património beneficiassem, com que generosidade, digo-vos eu, que cheiro porcaria desta a léguas, não inventariam até judeus, comunas, ou larilas onde muito bem lhes conviesse. São escuteiros do status quo, virgens de lupanar, peritos na caça às bruxas. É uma escola antiga.
Não sei se o nazi é o mal absoluto. Nem sei se há mal absoluto. Sei que ele habita no fundo de todos nós. Emboscado, à espreita, à espera. Sei que se alimenta de medo, de ganância, de estupidez. Desconfio que se fortifica e desmesura com o poder, que galopa à rédea solta o autismo.
Desconheço igualmente as gradações exactas do mal. O que será pior: matar as pessoas ou matar a dignidade e os sonhos das pessoas? Também não sei se estarrecidos e desesperados diante do Péssimo não corremos o risco de acabar por vislumbrar no Mal um bem. Não é essa a vertigem que nos arrasta tantas vezes ao abismo? Vive-se perigosamente neste planeta. Cada vez mais.
Por outro lado, se o nazi é o mal absoluto, então as "democracias" que usam à exaustão os seus métodos de propaganda - que emulam mas cloroformizado, que não matam só lobotomizam, apenas mutilam -, estão longe de ser esse bem absoluto, sacrossanto, que uma mesma mentalidade "nazi" (só que disfarçada a desodorizante anestésico, a tintas e ouropéis de rameira) apregoa.
Não, francamente, não sei se o nazi é o mal absoluto. Sei que o burguês não tem ponta por onde se lhe pegue.

Vós todos que celebrais a Besta que matou deuses, achais que ela se compadece com essa ninharia que são os homens?

Como lidar com a opinorreia



Ocorre-me aquela fábula do "Velho, o rapaz e o burro". Fizessem o que fizessem, dessem por onde dessem –os dois a pé e o burro folgado; os dois a cavalo e o asno derreado; o velho montado e o catraio a penates, ou vice-versa -, havia sempre alguém na populaça que, arvorada de escândalo ou mofa, bramia de sua justiça, discordava ou corrigia.
Dizem que a moral da história se resume a "cada cabeça sua sentença".
Depois de ponderar no assunto, não concordo. Para mim significa algo substancialmente diferente. Ou seja: Que só anda aos palpites da malta, aos caprichos da turba, quem se insere nestas três categorias específicas: ou está gagá, ou é imberbe, ou é burro.

Dragão Felizardo

A Senhora Dragão...
Inteligência, beleza e um grandessíssimo mau feitio. Que mais poderia um Dragão desejar?...
Bem, talvez várias senhoras Dragão.

O Caguinchas e a Mulher Moderna

Contou-me o Caguinchas.

Ele:
-"Vivo num palácio em Sintra; aquele SLK ali fora é o meu; queres vir passar este fim de semana na Riviera?... "
Ela:
-"Querido!... (beijinhos, abraços, perninha aberta, contrato de promessa de casamento, etc...)"
Depois do acto. Ele, saciado, fumando o cigarrito da ordem, entre baforadas:
-"Sabes, afinal não moro num palácio; o meu passe é L1 e quanto ao fim de semana, desculpa lá mas tenho um pocker com uns amigos!..."
Ela:
-"Porco!, violáste-me!!..."

segunda-feira, maio 09, 2005

Moralidade blogo-esférica



- "Ó mãe, olha: o rei vai nu!..."
-"Está calado filho, que ainda te chamam invejoso!..."

O Ágape liberal



Eu, não me custa nada reconhecê-lo, tenho sido assaz injusto na minha síntese acerca de liberais, neoliberais, angloliberais e toda essa horda de metrossexuais do pensamento que para aí pulula, em permanente saldo e algazarra. Na verdade, toda esta gentinha que parece movida a caldos knorr da alminha ou a comprimidos de pensamento efervescente, não obstante a sua idolatria furiosa do Mercado, merece-me este acto caridoso de contrição. Animado desse remorso, reconheço como incorrecto dizer-se que a sua doutrina mirabolante pressupõe uma Humanidade a refastelar-se, alegremente, numa forma sofisticada de canibalismo. Corrija-se: não é canibalismo, é autofagia.
Mas, nada de menosprezos, é uma comezaina com regras, com rígidos preceitos: o catecúmeno-comensal deve iniciar o ágape com a entrada ritual: os testículos ; passar depois a uma sopa não menos protocolar: os olhos; tudo isto enquanto vai bebericando, em anteparo para a coca-cola principal, um batido espirituoso: a mioleira. Liquefeita.

O faranait de novo...

Estimada Lolita,

Eu jamais, em modo ou tempo algum, insultaria uma senhora. Não é debalde que me cognominaram (aquele cabrão do Caguinchas, se quer saber) "Dragão da Triste Figura". De resto, esse requinte -do insulto, do vitupério, do menoscabo -, reservo-o, como já deve ter reparado, aos cavalheiros. Se bem que, nestes cinzentos dias que correm, se torne cada vez mais difícil distingui-los umas dos outros e outros das umas -os cavalheiros e as damas, quero dizer. Acontecem-me mesmo desenlaces surpreendentes, assombrantes: julgo estar a injuriar um masculino, pelo menos é o que a cobertura indicava, e sai-me uma donzela, toda aos arrufos e birras. Doutras vezes, não menos aziagas, alvitro pelo aspecto que é uma dama que lá vem, afasto-me em vénia para ceder passagem e venerar o andor, mas eis que a mafalda vira bernarda e, sem qualquer pudor nem continência, rompe em chorrilhos e guturalidades dignas de carroceiro, ou guinchos ululantes mais próprias de varina ou mulher-a-dias, quando não remoques e piadinhas só ao alcance de bruxa encartada ou sogra de visita! Até as labaredas se me enovelam nas goelas e a bocarra - assaz descomunal e bem serrilhada de dentuças - se me escancara de espanto! O que vale, quando vale, é que Aristóteles atribuiu ao espanto a paternidade da filosofia ("Metafísica", livro Alfa, tenha a bondade de conferir). Nem imagina, vossa senhoria e minha senhora, as filosofias em catadupa, a prole irrequieta de ideias que este meu tremendo espanto tem gerado!...Vivo numa maternidade em sobrelotação permanente. Eu e o meu espanto já não temos tempo para mais nada senão andar de mãos atrás das costas na sala-de-espera. Isso e fumar charutos de empreitada. São uns atrás dos outros. Se não morrermos submersos por tão desarvorada progénie, aguarda-nos certamente, de emboscada, esse inimigo jurado de todas as chaminés humanas: o cancro de pulmão.
Ah, mas perdoe-me esta lastimável facúndia, esta destilaria de infortúnios! Descarrilei da coisa simples e rasa que tinha para lhe dizer: para esse peditório já dei. Encontra aqui a bela figura de parvo que então fiz.
Mas se lhe interessar um upp-grade, determine. Quem faz de parvo uma vez, faz duas ou três. Neste nosso país, também, já pouco mais há para fazer.
Um seu criado,
Dragão

sábado, maio 07, 2005

A Boa Acção do Dragão (Happy Birthday, dear Brutus...)

Bem, parece que houve para aí alguém que fez dois anos. Deve ser criança importante, o aniversariante, porque não se falava de outra coisa.
Para ser franco, vi muito paleio, a sabujice do costume, alguma inveja mal-disfarçada também (do "sitemeter", claro está), mas prendas úteis, como mandava a efeméride, é que não. Gente somítica, esta!...
Para que o infantil não contraia algum trauma à custa de tamanho desmazelo, ou desate nalguma birra de consequências imprevisíveis, acudo eu com a minha proverbial generosidade.

Toma lá, meu filho, e que faças muitos!... É pouco, mas é de boa vontade. E tudo coisas úteis, que tanta falta te fazem!...



O Melhor: Serem absorventes
O Pior: O preço
A meu ver, estas, são sem dúvida, as melhores fraldas. Tenho uma sobrinha com 2 anos e só usa destas fraldas porque são as que absorvem melhor e o material é bom. Já usámos de outras fraldas mas depressa voltámos às dodot porque as outras deixavam passar.



E ainda...



Agora, que estão salvaguardadas as duas extremidades problemáticas, já podes blogar mais à vontade e com bem maior conforto.

Não precisas de agradecer. Nós, os que ainda vamos tendo olfacto, é que te ficamos infinitamente agradecidos. Se doravante usares tão singelas prendas, bem entendido.

Parabéns a você...
(...)


Soneto a vós e ao Camões

Não sei porque me pedis que fale
Que diga, que conte, que encante...
Já basta o peso desta memória d'elefante
-pedi-me antes que me cale!

Não sei que ínvia morbidez vos aguça
ou que ânsia sádica de grotescos despistes.
Pouco me confortam vossos beiços tristes
ainda menos o arreganhar boçal da dentuça.

Não tenho artes de vate nem trovador
nem perícias de cura a debitar sermões.
E se de ratos nem serpentes sou encantador

deixai-me, pois, em paz com a minha dor,
com os meus enganos e frustrações.
Quereis poesia? -Ide chatear o Camões!

sexta-feira, maio 06, 2005

Nada de Confusões

Não tenho nenhuma receita infalível para resgatar ou redimir a humanidade. Tão pouco, para melhorá-la. Nem sei, sequer, se anda, a grande vaca, perdida, se precisa de recauchutagem ou verniz. Não faltam para aí maquilhadores, esteticistas, criadores de moda e cabeleireiras. Esses é que sabem. Pelo menos, mais que eu.
Ignoro o caminho para o paraíso. Não tenho mapa, nem rota, nem conheço, de fonte segura, pilotos e guias infalíveis. Mas eles apregoam-se a cada esquina. Pontapeia-se uma pedra e salta de lá um cabrão desses, de bússula e gps em riste. É escolher.
Tão pouco sei se o paraíso existe. A existir, seria uma calamidade económica: o que faríamos a todos estes funcionários e profissionais do inferno? Todos estes proxenetas da dor e da desgraça alheia, que seria deles, coitados? Todos estes moços de recados do ódio, porteiros e engraxadores da estupidez, comeriam de quê?
Não, nada de confusões: não estou aqui para salvar o mundo. É mesmo só para insultá-lo.

Cortesia e Desagravo



Estimada Lolita,

Vossa senhoria é de uma amabilidade exuberante. Será sempre bem-vinda, bem como o ilustre Besugo, a quem aproveito para felicitar pela magnífica proeza europeia das suas cores. Portugal saíu honrado.

Quanto ao digníssimo senhor Altino Torres, aproveito igualmente esta troca de galhardetes, para desagravá-lo dos impropérios que, claramente sob os efeitos de mau fígado e catadura, lhe lancei. Eram chistes que, não sendo inocentes, alvejavam estritamente as suas bizarrias clubisticas e não a sua mui elevada e preclaríssima pessoa. Não obstante, saíu o desafortunado senhor ofendido, sentindo-se encharcado por um lamaçal inaudito.
Em jeito de reparação, mando lavrar o seguinte:
O Senhor Altino, que assina com o seu próprio nome e não deve estar sujeito a flibusteiros tresloucados como eu, não é "um panhonha", nem "um lampião bacoco", nem um "talibanzinho vermelhusco de pacotilha", nem, tão pouco, um "Leonoro Pinhão dos blogues". Pelo contrário, estou disposto a acreditar e a jurá-lo publica e solenemente: trata-se do mais garboso dos cavalheiros, do mais extremoso dos chefes de família, do mais excelente dos adeptos e, nunca o esqueçam, um analista desportivo incomparável que desfila pelo mundo, em gloriosa mostra, derreado sob o peso duma constelação de virtudes.

Espero que isto constitua indemnização bastante aos danos causados a Vª.Excª. Caso contrário, queira enviar-me as suas testemunhas, de modo a combinarmos hora, local e armas. Acabo de lavar a minha alma e de modo algum quereria impedi-lo de lavar a sua honra.

Dragão

Pirata, Flibusteiro e Confrade da Costa

quarta-feira, maio 04, 2005

Os Grandes Problemas da Humanidade - I.


A fazer fé no meteorismo mediático, que a todas as horas ribomba e nos azucrina as orelhas, os grandes problemas da humanidade para o próximo milénio, pelo menos, resumem-se, se tanto, a meia dúzia. É uma lista pequena mas premente: diariamente, são feitas homilias, telejornais, e o espírito ruminante da manada é atafulhado com essa palha noticiosa. Ou melhor, é uma espécie de pó anabolizante, de engorda rápida, que lhe misturam na ração.
Mas enunciemos esses grandessíssimos e gravíssimos problemas:
1. Interrupção voluntária da gravidez
2. Eutanásia
3. Casamento entre homosexuais
4. Adopção de crianças por casais homossexuais
5. Legalização das drogas moles
6. O sexto é opcional. Uma espécie de sobremesa.
Se é certo que já vivemos no melhor dos mundos, uma vez resolvidos estes tremendos problemas é-nos garantido que passaremos a viver no mais excelente dos paraísos.

Sobre a questão 1., já falei aqui atrás e mantenho integralmente o que então bramei. Sobre a 2., elucubrarei brevemente. Por hoje, atenhamo-nos às duas que, de entre todas estas urgentes, são, sem sombra de dúvida, as mais importantes: a 3. e 4., pois claro.
De facto, não sei o que será da humanidade, do planeta, da civilização, se continuarem a vedar os altares e os nenucos vivos aos gays. É preciso acabar com esse resquício fascista. É, sim senhor! Até porque, atestam-no várias sumidades espertíssimas, pode nascer-se gay como se nasce preto ou branco ou mongolóide ( Trissonomia 21, para pessoas do jet-set).
Pois bem, eu hoje sinto-me liberal. Em conformidade com esse meu singular (e raro) estado de espírito, proclamo que os homossexuais devem poder casar. Mas casar com todas as regras: não só pelo registo civil como também pela Igreja. Especialmente, pela igreja. Já estou mesmo a imaginá-los no dia de Santo António, aos magotes cacarejantes, "elas" de vestido e véu, eles de fraque rosa choque, todos a posarem para a fotografia, os sinos a badalarem em júbilo cristão, e o padre, diáfano, a benzer e a abençoar a panelei..., quer dizer, os novocrentes.
Vão por mim: Deixem-nos casar pela igreja, permitam que se enpanzinem de hóstias e vereis que Deus ressuscita, o ateísmo passa de moda e até o Carlos Esperança corre a peregrinar Fátima. Mais: Até a Santíssimia Inquisição volta e ninguém protesta.
No capítulo do casório, se me permitem, vou ainda mais longe: além do civil e do religioso, também deveriam ter direito ao tradicional, aquele matrimónio típico das áfricas em que o noivo tem que pagar alambamento ao pai da "noiva". Uns cabritos, uns bacalhaus, umas latas de conserva e uns litros de gasolina sempre são alguma compensação para um pai que tenha o azar de lhe nascer um filho bichon..., quer dizer, homossexual. Ao menos, não é só prejuízo.
Quanto à adopção de crianças, logicamente, também estou de acordo. É deixá-los. Devem até ter prioridade em relação aos casais hetero. Basta que se equipem as crianças com (primeiro) fraldas (e depois) cintos de castidade. Pelo menos até atingirem a maioridade. Ou então, reune-se uma comissão de sábios especialistas, daquelas muito iluminadas e peregrinas, que apura, em menos de nada e sem margem para dúvidas, quais as crianças homossexuais e quais as heterossexuais, pois, segundo a novociência, elas já nascem com essas singularidades, coitadinhas. Uma vez determinada essa idiossincrassia inata, os casais homo adoptam crianças homo e os casais hetero adoptam crianças hetero. Já agora, se não é pedir muito, convinha que os americanos aperfeiçoassem a máquina das ecografias de modo a que a bendita prospecção pudesse ser feita logo no útero materno. Por lei constitucional, e em correcção judicial ao erro da natureza, os nascituros gays passariam a ser expropriados aos progenitores naturais e entregues a famílias homo. Poupavam-se, com isso, desgostos à família inicial e burocracias à adoptiva. Tinha ainda outra vantagem: se deixássemos os homos adoptarem bebés, todos, sem excepção, passariam a insurgir-se contra o aborto, e já não se gastava tempo nem dinheiro com refrendos. Em vez de abortarem, as mães preocupadas com o seu futuro nas discotecas e passereles, entregavam os empecilhos para adopção. Donde se depreende, mais uma vez, que resolver os problemas dos gays é resolver, por simpatia, todos os problemas da humanidade.
Todavia, não nos admiremos se daqui por uns tempos, resolvidos estes enormíssimos problemas, irrompam de pronto -e aos gritos - outros, talvez menores, sua prole, mas não menos candentes. Assim, precavendo desde já o iceberg que esta pequena ponta visível anuncia, o melhor mesmo é irmos adiantando serviço. Para o efeito, e acautelando futuras e fatais erupções:
* Autorize-se, desde já, o divórcio entre homossexuais;
* Reservem-se-lhes lugares exclusivos nos parques de estacionamento, como já existe para os deficientes (é justo e obedece à mesma lógica);
* Priorizem-se-lhes assentos nos transportes públicos, como já existe para grávidas, idosos e acompanhantes de crianças de colo;
* Instaure-se uma discriminação positiva na sociedade pró-Apartheid sexual, tal qual se fez na África do Sul no pós-Apartheid racial.
* Decretem-se cotas mínimas gays no parlamento, no governo, nas carreiras judiciais, nas forças de segurança e nas forças armadas. Sem esquecer os bombeiros, os hospitais e todos os serviços que impliquem o uso de farda; sobretudo a Marinha;
* Isentem-se de impostos;
* Obriguem-se as instituições bancárias a abrirem linhas de crédito Homo, como já existem outras como o "Crédito Sénior", ou "júnior", ou "crédito agrícola", etc;
* Criem-se bolsas de estudo para homossexuais;
* Subsidiem-se escolas, infantários, creches, liceus e universidades homossexuais;
* Instituam-se reservas e coutadas homossexuais, sobretudo na cultura e nas artes, isto é, legalize-se o actual comércio informal naquelas áreas; concedam-se alvarás;
* Converta-se a TV2 em canal gay;
* Nos restaurantes, aviões e espaços quejandos, além de áreas para fumadores e não fumadores, estabeleçam-se também áreas para homossexuais e não-homossexuais.
* Consigne-se na lei a homossexualidade como atenuante, senão mesmo alibi, para qualquer tipo de crime, sobretudo económico;
Em resumo, converta-se "homossexualidade" em critério prioritário. Seja daquilo que for.
Com isto, termino. Espero que este meu contributo para a paz social e a descompressão de jornais e televisões não caia em cesto roto. (Que é como quem diz...)

Entretanto, fica desde já a promessa: Numa próxima oportunidade, tenciono debruçar-me sobre os gordos e os feios. Também se nasce gordo ou feio, quanto a isso, então, é que não há mesmo dúvidas, e também se é discriminado negativamente por causa disso.

terça-feira, maio 03, 2005

Sanguessugas...

Dizem as notícias: «Portugal é o país europeu com menos dadores de sangue».

Esqueceram-se de acrescentar que, em contrapartida, é certamente dos países da Europa com mais chupadores de sangue por quilómetro quadrado.
Quer dizer, há pouco quem dê, porque, comprovadamente, há muito quem sugue.
Por isso mesmo, alguém lhes devia explicar, aos cientistas estatísticos, que por estas bandas a função até existe. Só que não se diz "dador": diz-se "hospedeiro".

segunda-feira, maio 02, 2005

Poesia.

Execro poesia efeminada, delicodoce, eunuca! Porcarias do estilo Eugénio de Andrade e quejandos. O defeito é meu, falta-me "sensibilidade", "ternura" pelas palavras pequeninas, chocas. O defeito é meu e eu assumo.
Em contrapartida, estimo a lucidez, a violência, o abismo - a vida, enfim.
Vem tudo isto a propósito dum poema que garimpei numa caixa de comentários algures. Reza da seguinte forma:

O POETA EM LISBOA

«quatro horas da tarde.
o poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
tem febre, arde.
e a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
pára. continua.
e olha a multidão, suavemente, com horror.

entra no café.
abre um livro fantástico, impossível.
mas não lê.
trabalha - numa música secreta, inaudível.

pede um cigarro. fuma.
labaredas loucas saem-lhe da garganta.
da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

fuma mais. outra vez.
e atira um braço decepado para a mesa.
não pensa no fim do mês.
a noite é a sua única certeza.

sai de novo para o mundo.
fechada à chave a humanidade janta.
livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. canta.

sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

seis da madrugada.
a luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
fiel, atenta a aranha
leva-o para a cama arrastado pelos cabelos. »

António José Forte

Mais palavras para quê? Isto, meus amigos... isto é poesia.

Agradecimentos ao Blitzkrieg, pela feliz lembrança.

A uma Senhora


O louvor, se bem que injusto por excessivo, provém duma senhora. Tal facto tem as suas implicações: o dever de cavalheirismo, voto sagrado e apanágio desta besta mitológica, é uma das primordiais.
Por conseguinte, minha senhora -(não me pergunte porquê mas imagino-a bela e de sorriso luminoso), quero expressar-lhe sem mais rodeios:
Muito me honra e quero dizer-lhe que também não escreve nada mal e certamente bem melhor que eu. O que torno extensível a esse réptil meu primo e desprovido de asas, esse lagartáceo militante, que, decerto por inefáveis e transcendentes razões, adoptou pseudónimo de peixe.
Já o ter-me associado a outras criaturas no mesmo encómio, não melindra em nada a sua clarividência indubitavelmente superlativa, mas deixa-me um tanto ou quanto baralhado nas emoções...
Quanto ao maradona, ainda vá que não vá: o fedelho tem talento e não é pouco, mas os amiguinhos dele, alguns pelo menos, fedem. Agora o outro que tal, com nome (nem sequer claramente assumido) de palavrão, francamente, ó minha amiga - colocar sequer na mesma frase que este seu criado um panhonha, um lampião bacoco daqueles, um talibanzinho vermelhusco de pacotilha, por amor de Deus, tenha misericórdia!...Com franqueza, excelentíssima senhora: aquilo é um Leonoro Pinhão dos blogues!...
Não me vou desbragar nos impropérios e abominações por reverência a vossa senhoria, srª Dª Drª Lolita, e creia que este não é um tributo de somenos. Mas, em todo o caso, o melhor mesmo é retirar-me de urgência, que estes meus maus fígados não são de confiança.
Retiro-me, pois, mas não sem que antes me curve e lhe oscule, respeitosamente, a nívea e esbelta mãozinha.


PS: E fique tranquila: do que depender de mim, caso os lagartos (que são quem merece) não consigam, voltaremos a ser campeões este ano.
Aquela escumalha cor de mênstruo (perdoe-me a grosseria) é que não!! Irra!!...

domingo, maio 01, 2005

Real Indignação

Reacção indignada de Sua majestade, o nosso primeiro rei, por email, à minha última disposição:

«Ah é assim?
Juntas-te, enfim, à brigada de engenharia de barragens retirando do teu blog acaixa de comentários? O garante da interactividade bloguística é,precisamente, a caixa de comentários. Capas a essência do blog quando ofazes, ó dragão.
Se te aparecer uma aventesma daquelas podes sempre apagar o seu comentário e,com isso, removeres a respectiva catadura.
Criticas Abruptos e quejandos mas estás morto por lhes seguires as passadas.
Daqui a nada também rasgas a faixa de links, não?
Foda-se!Caralho!
As minhas desculpas, os meus cumprimentos,
Afonso Henriques»

Caro Afonso Henriques, majestade,

1. Um blogue não é um fórum. Apesar dessa confusão se ter instalado e de se andar a vender gato por lebre, não é.
2. Sobre a "interactividade bloguística", é simples: quero que se foda!
3. Sobre a meia dúzia de leitores e leitoras que me concederam o privilégio da sua visita, desculpo-lhes a benevolência e estimo-os. Desenvolvi mesmo a seu respeito, com vergonha o reconheço, uma certa amizade. Por isso disponibilizei o email. Atendimento personalizado.
4. Prefiro capar eu o blogue que o blogue capar-me ele a mim.
5. Não censuro comentários nem, consequentemente, os retiro. Até os RIAPA que por aqui se aliviaram, nunca interferi com as respectivas diarreias putativamente engraçadas. Este é um país de engraçados e, por conseguinte, devemos respeitar os indígenas. O problema não são os comentários em letra, julguei que isso tinha ficado claro: o problema, o horror, é que agora passaram a adicionar as fuças. Essa é a tragédia. Daqui a pouco exibem-se de rabinho ao léu ou de pilinha na mão. Já faltou mais. A medida foi, pois, profiláctica. Não é depois da casa invadida que se põem trancas à porta.
6. Quanto aos "abruptos" e quejandos...a observação é, no mínimo, extremamente infeliz. É pôr o mundo de patas para o ar. Passe a imodéstia, é o mesmo que dizer a Mozart que gostava de ser Salieri. Aliás, minto, nem Salieri: Toino Pimba. Um Roberto Leal, um Emanuel dos blogues. Eu tenho vértebras, lembra-se?
7. Não rasgarei os linkes. Até porque me dá imenso gozo ter, como me apontava aqui há tempos um leitor intrigado, uma série de linkes "fassistas", que muito chocam a esquerda bem, a esquerda queque, a esquerda beata. Eu continuo na minha: linko quem me linka. E acho imensa graça ao cuidado que toda a blogosfera instituída, a high society emproada, coloca em fingir que eu não existo. "Quem é que este gajo pensa que é? Hum?"
E o problema até nem é esse, não é o que eu penso que sou: é, outrossim, o que eu sei que eles são.

Portanto, majestade, nada de dramas, escreva sempre. Que eu cá estarei para lê-lo com a maior atenção. Votos de melhoras para o seu reino, agora usurpado por republicanos vigaristas.

Um seu súbdito,

Dragão

sábado, abril 30, 2005

Pelo sim, pelo não...Nada de comentários.


Felizmente, na blogosfera, existem umas espécies de diques primários onde a porcaria mais grosseira encalha. Vagalhões de merda alucinantes, ameaçadores, que de outro modo ficariam por aí à solta, levando o fedor e a ignóbil matéria - de enxurrada - por caixas de mails e de comentários, são assim confinados a tranquilas albufeiras, onde a placidez, a concórdia e o cheiro nauseabundo se concentram...e imperam.
Nunca agradeceremos o suficiente aos "abruptos", "murcões", "ene merdas", "carapaus de corrida" e "queridinhos", todos da paróquia. O serviço que prestam à comunidade, estes paredões altivos, estes filtros colossais, é merecedor de público reconhecimento e justo louvor. Que as câmaras municipais, além de rotundas, mandassem erigir estátuas em sua homenagem não seria de depreciar. E que mesmo o PR lhes distribuísse comendas e o governo subsídios, só teríamos que saudar e aplaudir. De pé! Pedindo bis!...
Sei que podemos confiar neles. Que nunca esmorecerão na atracção fatal que exercem sobre esses exércitos de vil substância. Possuem um je ne sais quoi de irresistível que polariza toda uma providencial convergência desse imenso e inexaurível esgoto sideral (sideral porque sidera). Talvez uma força magnética única, escatotrípeta, sinal duma nova revolução destronadora do velho Copérnico: são, quiçá, a prova viva (ou melhor: zombie), de que afinal nem o sol gira à volta da terra, nem a terra de roda do sol, mas ambos, e tudo, gravitam em redor e adoração da trampa. Deus os abençoe e guarde pois, àqueles beneméritos, assim, utilíssimos, guichés da paloncice e da mentecapção apinocada, por muitos e longos anos!...
Mas não arrisco. Já sou capaz de conviver amenamente com massacres e envenenamentos a conta gotas, com presídios globais e paneleiros infestantes, com vampiragens e roubalheiras instituídas, mas há coisas para as quais ainda me falta estômago. Há náuseas para as quais ainda não me treinei. Nem acho, no tempo que me resta de vida, ter espaço remanescente para me adestrar. A possibilidade (absolutamente remota, eu sei – mas remoto não é impossível) de um belo dia abrir uma caixa de comentários deste blogue e dar de caras (as minhas, claro está) com as fuças (as deles) absolutamente toinas, asquerosas, em nojenta fermentação de cretinices, em bajuladouro desinsofrido, dum tal "Lobices" ou doutro não menos seboso "portocroft", ou a puta que pariu qualquer desses ciber-cucos que se instalam a verter bosta em ninho alheio, confesso: deparar-se-me uma tromba dessas e não a poder partir logo ali, materialmente, com patadas justiceiras, topar com um cabrão desses a fazer-me uma carantonha daquelas e não poder, no mesmo instante, corrê-lo a pontapés no fundo daquilo que não tem, era, proclamo-o sem quaisquer dúvidas, uma violência absolutamente insuportável contra mim e os meus legítimos direitos de ser vivo, erecto e pensante! Instauraria em mim um trauma, uma fúria arrepelante para o resto da vida. Escavacaria eu, em fruste sucedâneo, a mobília, deitaria fogo ao computador, atiraria cadeiras pela janela, dispararia às cegas sobre transeuntes, mas a honra continuaria suja, ignobilmente emporcalhada. Não haveria detergente ao cimo da terra capaz de extrair tão infamante nódoa. É daquelas coisas que não podem deixar de fazer-se, sob pena de perder-se a alma.
Por isso, repito, não estou disposto a correr riscos. Nunca se sabe. Se as limitações são tais e de tal modo cerceadoras da justiça, só me resta uma medida: aqui, no "dragoscópio", acabaram-se as caixas de comentários. Se tiveram alguma emergência, usem o mail. É drástico, mas é assim.
Digam-me que exagero. Digam-me que jamais essa choldra desaguará por aqui (precisamente pelas razões por mim inicialmente apontadas). Sim, sim... Digam-me, até filosoficamente, que a escumalha adora, sobretudo, espelhos. Mesmo assim.
Se bandalhos desses me irrompessem aqui no blogue, a gralhar em bandos, a guinchar em lianas, seria eu que nunca mais conseguiria olhar-me num espelho.
Foda-se!...

sexta-feira, abril 29, 2005

O Junkie e a Pastilha - Ballet em dois andamentos.

*
Junkie da existência pela propriedade, o gastador faz da coisa adquirível a sua dose urgente. Só que com o correr do tempo, em vez das delícias do paraíso, mergulha aceleradamente nos horrores da ressaca. A única solução que encontra para atenuar a aflição é aumentar paulatinamente a dose e a frequência da mesma. E, no fim de contas, ao invés duma suposta -e velhacamente apregoada - libertação, atola-se, doravante e tenebrosamente, na mais rasteira dependência. A indústria e a tecnologia só aos parolos ainda convencem de que alguma vez conduzirão à liberdade e ao ócio das massas. Pelo contrário, esmeram-se, cada dia que passa, na sua coisificação e apropriação. De facto, transportaram e escravatura e a exploração desenfreada da manada humanóide a requintes de psico-sadismo e sofisticação supliciante nunca antes experimentados. Controlo e manipulação são palavras de ordem: dos genes às consciências.
**
Aparentemente, o Consumidor diverte-se; mas, bem no fundo, entedia-se. Nada verdadeiramente o contenta. A velocidade do desgaste, das coisas e de si, por inerência e reacção em cadeia, aumenta de dia para dia. Aquilo que o seduz também o esgota. A sua avidez insaciável empurra-o e, simultaneamente, deixa-o cair no precipício. A caça à coisa degenera em chacina que, por sua vez, só conduz ao enjoo e ao aborrecimento. A "coisificação" tudo abrange -bens, matérias, pessoas -, e tudo dissolve na mesma melancolia enauseada e perversa. O Consumidor enjoa-se do carro, como se enjoa da mulher ou do marido, dos filhos, do animal de estimação, da mobília, do Hi-Fi, dos sapatos, das ideias, das políticas, das emoções, ou do próprio sexo e da cara no espelho. Para ele só o torvelinho infinito e insano da perpétua mudança do tudo o que o rodeia e habita parece aplacar -ou melhor dizendo: paliar, o fastio imenso que, ao mesmo tempo, lhe causa. Além do mais, e na essência, o Consumidor não tem sexo, idade, religião, ideologia ou sequer, em bom rigor, opinião. O seu deserto interior está permanentemente ressequido e ávido da chuva de coisas com que a publicidade o bombardeia. Compra e usa tudo o que veste, come, pensa, fala, sonha, acredita, etc, etc.
Tudo pode ser usado e descartado, comprado e atirado ao lixo, mastigado e cuspido fora quando perdeu o sabor. É um sub-cosmos buble-gum. E é toda uma canalha de olhar oco, desabitado, que masca sisificamente a pastilha e colecciona os cromos que a embrulham.

quinta-feira, abril 28, 2005

Xenofobia é que não! Fica mal numa puta.


A xenofobia é um vício muito desagradável. E não obstante, a nossa história, durante largos períodos dum passado infamante, é um cardápio completo de energúmenos afectados por essa alucinante mania. Uma vergonha! E o pior é que esses figurões, autênticos ferrabrazes trogloditas, não se ficavam pelos rosnidos, pelas bocas ao transeunte ou as cuspidelas da janela ao incauto. Não; em arruaças e batefundos que só visto, cismavam de implicar violentamente com as boas almas que nos visitavam, espancando-os não raras vezes até à morte.
Um D.Nuno Álvares Pereira, por exemplo, quereis exemplo mais gritante e escandaloso de xenofobia? Aquilo eram maneiras de receber turistas? Francamente!...E aquela padeira louca, desvairada, um estafermo boçal que em vez de servir almoçaradas e regueifas ao viandante, inventava de assestar com o utensílio de serviço nas trombas, certamente estupefactas, dos peregrinos?!...Irra, assim, com pergaminhos destes, não admira que enfileiremos na cauda das europas e do mundo. A tratar assim a putativa clientela, não há economia nem défice que resista!
O Viriato, lembram-se dele? Nada menos que outro xenófobo exaltado...Com tão bom queijinho que podia vender aos estranjas, teimava, ao invés, de lhes despejar calhaus e pedregulhos pelos costados, de lhes largar avalanches em cima. Em vez de boas tendas e feiras, como o sensato marketing aconselhava, obcecava-se era de lhes armar emboscadas e mortificantes recepções pelos desfiladeiros. Um rústico! Ainda por cima, movendo guerra aos romanos, gente sofisticada, bem falante, evoluída, enfim: os americanos daquelas épocas. O baguinho que não se delapidou com tais peraltices. As heranças e os proveitos de vindouros que não se esbanjaram assim. Ainda hoje penamos de tanga, por causa de madraços que teimaram de não arriar a dita.
Não, a mim ninguém me convence do contrário: Estas taras nacionalistas é que têm dado cabo de nós. Estas extravagâncias dispendiosas com a independência, os valores patrióticos, a língua mãe, os ilustres antepassados... Ilustres?! Broncos, isso sim. Dissipadores! Mentalizai-vos: Celebrar essa malta arruaceira, hostil ao desenvolvimento e ao paraíso global, é comemorar o atraso, a parolice, o obscurantismo. O sacana do Estado Novo, entre outros, essa pandilha castrante, andou cinquenta anos a intoxicar-nos, a induzir-nos em tremendo erro. A enxertar-nos de ilusões malfazejas. Cretinos!...
Felizmente que nos últimos anos todo um trabalho de descontaminação e lavagem tem sido levado a cabo por esta excelsa gente progressista -esta boa elite benemérita que faz o favor de nos guiar à redenção humanista e comercial. Graças à sua supervisão sempre benigna, por obra e graça duma indústria pedagógica desinfectante (verdadeira creolina do espírito, Deus os abençoe!), esses presumidos heróis que outrora nos impingiam (malditos sejam!) transparecem agora na sua verdadeira aura de traidores à pátria, retardadores maléficos do augusto mercado e do ufano nível de vida catita. Continuamos pobrezinhos mas já não somos estúpidos, já não enfardamos gato por lebre. Libertaram-nos dos antolhos, carago! Aprendemos a ter maneiras, maravilha! Assim, nem que seja a conta gotas, ao ralenti, como convém a gastrópodes, lá chegaremos!... É garantido. Pedalamos à retaguarda, mas vamos no bom caminho - e o importante, que diabo, é competir, é participar nesta fórmula 1 da ciganice.
Ardemos já não em xenofobia, essa peste, mas em xenofilia, esse enlevo. E clamamos deste rincão -a redimir-se, a saldar-se - doravante franco e sôfrego de alienígenas: Vinde, ó salvadores!, nada temeis: já não atiramos pedras nem azeite a ferver a ninguém!...Nem espetamos lanças nem piques nos excursionistas. Se dúvidas tendes, perguntais aos brasileiros, aos que nos embalam do alto das novelas e nos vistoriam por alturas de carnavais: eles atestar-vos-ão, em júbilo, o quão simpáticos e hospitabundos somos. Melhor não há. Até enjoa.
Ah, mas, graças a Deus, não tem sido em vão todo este esforço... Com que alacridade eles nos visitam e acodem de todas as bandas. E com que ainda maior alacridade, em formidável êxtase, nós, babosos, os recebemos: de sorriso alvar desfraldado nas ventas e a bisnaga de vaselina sempre pronta na mão.

quarta-feira, abril 27, 2005

Consultório Íntimo do Dragão - II. (1ª Sessão)


Está aberta a audiência. Preside o meritíssimo Dragão!...

É verdade, em parceria com a revista "Maria", agora a sério, em directo para todo o blogocosmos, passamos a emitir a primeira sessão do "Consultório Íntimo do Dragão".

Como podereis constatar no número desta semana, página 59, da revista mais vendida em Portugal, pergunta-me a A.G., do Porto:

P.- "Como estava sozinha em casa, resolvi ver um canal de filmes porno e senti vontade de me masturbar. Como não tinha nenhum objecto, utilizei o comando de televisão. Serei estranha?"
R.- Cara amiga, estranha não direi, mas certamente impetuosa. Impaciente, também. Calculamos que não tivesse a vassoura a jeito, nem uma garrafa qualquer à mão de semear. E as cadeiras, se bem que disponibilizem quatro pernas lascivas, não são facilmente manipuláveis. Vai daí, a cara amiga...
É claro que não nos fornece informações pormenorizadas sobre o perfil vulvodinâmico do aparelho de controlo remoto em questão. Convinha que o fizesse, senão deixa-nos para aqui um tanto ou quanto perplexos, senão mesmo intrigados. A fazer fé nos modelos usuais, somos levados a imaginá-la sob o efeito dum entusiasmo paranormal. Não terá confundido masturbação com possessão? Tem a certeza que era um filme porno e não o "Exorcista" 1? Reparou se, por alturas do transporte, a cabeça lhe andava à roda, num carrocel frenético, à medida que estrebuchava e esperneava no sofá? Por acaso não notou uma mudança drástica e cavernosa no timbre de voz, à medida que gemia e arfava? Lembra-se de urrar, de entoar roncos medonhos e horripilantes, de vociferar blasfémias inauditas e vomitar uma substância verde com um teor gosmoso e pestilento?
Se não registou nenhum destes singulares fenómenos, então temos que partir do princípio que se masturbou de facto com o telecomando. Repito: isso não faz de si uma pessoa estranha. Nem por sombras. Tranquilize-se. Quando muito indicia um carácter exigente, superlativamente fogozo: somos levados a supor que o telemóvel não a satisfez. Ou que o deixou cair lá dentro e, perturbada com o turbilhão de emoções inauditas, afogueada, empunhou o telecomando e prosseguiu a todo o vapor. Um desvario imperioso, esse, perfeitamente inofensivo.
Mentiriamos, não obstante, se não dissessemos que nos surpreende um pouco um certo estouvamento imprevidente da sua parte: caramba, não se resvala assim para um passatempo desses sem uma reserva de legumes apropriados, de piquete e prevenção. No mínimo, uns vegetais oblongos, que sei eu, uma courgette ou um pepino, a limite, uma banana, uma pera abacate, talvez não destoassem dessa sua vernissage. O rolo da massa, porque não? Ou será que a cozinha fica muito longe da sala, e o estado de urgência que de si se apoderou não lhe permitiria, em qualquer dos casos, o percurso, o preâmbulo, ou sequer o desvio?...
Em contrapartida, há que reconhecer-lhe uma certa prudência: nem o tubo do aspirador ou o secador de cabelo, qualquer deles a pleno sopro ou sucção, a seduziram. Talvez numa próxima oportunidade, se os apanhar ou predispuser a jeito, quem sabe. Longe de mim pensar, sequer, em desencorajá-la de tão trepidante aventura. Pelo contrário, aguardarei, em voluptuosa espectativa, pelo inolvidável desenlace e posterior relato (quiçá, no telejornal), de tão épica jornada. O mesmo, já agora, direi da jarra de flores ou do candeeiro da sala, claro está, sem o abajur. Mas...tem a certeza que a varinha mágica é uma boa ideia?...
Todavia, durma, durma descansada, cara amiga, porque quanto ao essencial bem pode descansar indemne às tensões e angústias: estranha é que não é. Nem bizarra. Apenas singular, tremendamente original. E - pela elastecidade vaginal veteraníssima que se depreende da sua breve mas reveladora missiva (já que durante o seu frenesim de êmbolo, ao contrário do que seria de esperar, da parte do vaivém nenhum zapping desaustinado resultou e o canal -como o seu bombear expedito e ininterrupto nos leva a pressupor - prosseguiu na sua emissão imperturbável e excitante) -também nada virgem ou sequer inexperiente. Nem, tão pouco, penaliza-nos intui-lo, nada pudibunda. Já viu se os seus netos a surpreendem num desarvoro desses?...

terça-feira, abril 26, 2005

Consultório Íntimo do Dragão -I (No princípio, era o fórum)

Com patrocínio da Rádio Vulva FM, da revista "Maria", da editora Oficina de Tretas e da Tasca típica (aliás, ciber-tasca) Cova-Funda, aqui vai a emissão inaugural para o blogocosmos (essa região acima da blogosfera) do Consultório Íntimo do Dragão.
Esta primeira emissão consiste numa reposição de consultas dadas, num tempo primordial, aqui há vários meses atrás, quando este vosso -nada- humilde criado assombrava um fórum de lampiões badamecos. Tem a curiosidade acrescida, especialmente para os arqueólogos destas coisas, de ter sido durante estas sessões terapêuticas que me ocorreu a ideia de constituir "blog". Se não sabiam, ficam a saber. De resto, se o gastrópode Machado Vaz se transferiu para os blogues, porque não me hei-de eu, animal mitológico inefabilíssimo, trasladar para a "astrologia genital"?...
Com licença, arreda, deixem passar...

«Pois é...Tenho recebido várias mensagens e emails de leitores sensibilizados onde, desde incentivantes "Força Dragão, põe essa lampionagem na ordem!", até indignados "Ó réptil voador, vai mas é pó c******!!", nada falta. Inclusivé alguns bilhetes bem curiosos, onde me são colocadas (os gajos devem julgar que eu sou algum guru) verdadeiras "Questões essenciais da vida". De tal modo essenciais que decidi partilhá-las com o fórum, bem como às respostas que me merecem. Vou começar por um muito sugestivo que me chegou enviado por Cândido C. Abrevio a história da sua vida, alguns percalços maiores e menores, e sigo directo para o corolário pungente da sua missiva. Termina ele:
P: "...abri a porta do meu quarto, com cuidado, para não acordar a minha mulher e dei com ela a dormir com o meu amigo Inácio. Será que isso faz de mim um corno?..."
R: Não necessáriamente, caro Cândido C., não necessariamente. Há várias opções: Cabrão, galhudo, boi, cornudo, entre outras. É só escolher a que mais lhe agrade. Escreva sempre.
Entretanto, do Birimbau, em tom perplexo, eis a pergunta:
P: "Dragão, após vários episódios frustrantes, cheguei à conclusão que não sou bom no cunnilingus. Será porque tenho os beiços demasiado finos? Será dos músculos bocais, será imperícia na língua? Deverei deixar crescer um bigode mais farfalhudo..."
R: Birimbau, amigo, o cunnilingus é um instrumento que requer muito trabalho de palheta (ainda mais que o saxofone). Se não se entende bem com o cunnilingus, porque não experimenta a tuba, o fagote ou o oboé? Mas se a sua atracção pelo cunnilingus é insubstituível, tente o método de treino Silvester: arranje uma daquelas ratoeiras de aço galvanizado (aquelas vulgares e mais baratas) arme-as com um pedacito de queijo de cabra fresco e depois tente retirar o queijo com a língua sem levar com o apetrecho nas ventas. No dia em que conseguir está apto pró Cunnilingus. Até lá...Bom treino, eh-eh!...

Para concluir a nossa sessão de hoje, olhem só as brutas questões que o "Afonso de Albuquerque" me envia...
P: " Dragão, tu que transpiras uma sabedoria que não há nenhum desodorizante que dissipe, vê lá se consegues resolver estes dois enigmas da história contemporânea:
1. Porque é que somos o país mais atrasado da Europa civilizada?
2. Como é que Portugal, o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte é agora o último da Europa em qualidade de vida?..."
R: Com essas é que tu me lixaste, ó Afonso de Albuquerque! Não fosse eu ser um gajo desenrascado, e agora mesmo, ficava aqui às aranhas! Se não és a esfinge, deves ser primo dela, um raio te parta! Mas não julgues que te ficas a rir...É só emborcar aqui um trotil ou dois e vais ver como as ideias se me desentorpecem...Pronto, aqui vai, segura-te... Sobre a primeira questão, é daquelas que se respondem com outras questões, a saber:
a) Há mais algum país na Europa com seis milhões de benfiquistas, pr'aí uns dois milhões de lagartáceos e uma meia dúzia de loureiros?
b) Há mais algum país na europa onde o futebol seja a religião nacional, e o árbitro o jogador principal e vedeta preferida dos adeptos?
c) Há mais algum país cujo regime político seja uma tão degradante tirania dos "media" (jornais e televisões), isto é, uma "mediocracia"? E onde tudo se fabrica, não em fábricas ou indústrias como nos outros países, mas nos jornais e televisões?
E então, já percebeste, ó Afonso de Albuquerque, porque é que somos o país mais atrasado da europa? Se não percebeste, és burro, porque melhor explicado que isto não encontras em parte nenhuma.
Quanto à segunda questão, só vem exemplificar e atestar da ancestral inconsequência, desorganização e bacoquismo das nossas iniciativas e legislações: aboliram a pena de morte, mas esqueceram-se de avisar o carrasco (a própria, a Negra Ceifeira, eh-eh)...Já passaram mais de cem anos e continua a executar-nos que nem tordos! Não escapa ninguém! Foda-se, e somos condenados à morte logo à nascença, sem processo judicial, culpa formada nem quaisquer quesitos de prova! Ainda mal piamos e já estamos fodidos, ai não! Processo mais ultra-sumaríssimo não conheço. Nem na Liga. Eu bem disse pra te segurares, ó Albuquerque!...»
E pronto, caros visitantes, por hoje é tudo. Escusam de implorar; amanhã há mais. A piedade nunca foi o meu forte.

Digam, injuriem, perguntem!... Aqui fica o Email.


A pedido de várias famílias (é mentira, mas não faz mal), passa a estar disponível nesta espelunca o mail da casa(dragolabaredas@hotmail.com). Recomenda-se, especialmente, a todos os que desejem injuriar-me em privado. Se for para encómios, ou apologias, poupem-se ao trabalho. Prefiro andar à porrada, que beber chá.
Acresce que, como vou reabrir aqui neste blog o "Consultório Sentimental" que, aqui há quase dois anos atrás, mantinha num fórum estranhíssimo, serve também -o tal mail- para todos/as interessados/as me enviarem as suas questões e problemas existenciais, ou quaisquer outras que os/as atormentem. Não ficarão sem correctivo, digo: resposta.

E não se esqueçam (parafraseando outras épocas):

O Vinho é que induca, o Dragão é que instrói!...

Ah, e já me esquecia: Doravante, este blog passa a estar em parceria com a revista "Maria". Quem é amigo, quem é?!...

Felizardos!...

A Verdade sobre as ADMs (em três actos)


«CIA dá por terminada busca sem êxito de armas no Iraque
O inspector de armas da CIA, Charles Duelfer, deu por encerrada na segunda-feira, e sem êxito, a busca das armas de destruição em massa no
Iraque.»


Estes gajos, claramente, andam na balda. Já nem os blogues americanofobos, como este, lêem. Senão teriam sabido, há mais de um ano, onde o Saddam, o verdadeiro, esconde as Armas de Destruição Maciça. Em Janeiro de 2004, já este blogue expunha toda a trama...

I
"É evidente que o Saddam Hussein estava carregado de ADMs (Armas de Destruição Maciça). Nem é preciso ir perguntar ao Luís Delgado: é uma coisa que ressalta à vista a olho nu. Só que as escondeu muito bem escondidas, é óbvio. É óbvio e é tipico destes tiranos doidos, megalómanos, lunáticos. E onde é que um tirano lunático esconderia esses tesouros adorados? Está bem de ver: se os piratas das Caraíbas corriam a enterrar as preciosas arcas em ilhas ignotas, o Saddam que é um megavilão, com meios formidáveis ao seu dispôr, socorreu-se da mais inacessível de todas as ilhas: a Lua, pois claro! Macacos me mordam, se ele, como super-lunático que é, não enterrou as ADMs no solo lunar!... Direi mais: quase que apostava que a própra AL Qaeda, a esta hora, já se transferiu também, de armas e bagagens, do Afeganistão para lá.
Porque é que vocês acham que os Norte-Bushianos, subitamente, desataram com aquele interesse pelo sítio, ãh?!... Não me lixem: O Bush não brinca em serviço. Chamem-lhe parvo!...Deliro? Mango c'o pagode? Então recapitulai comigo: Esses calhaus que todas as noites riscam a atmosfera, em queda lá dos éteres, chamais-lhes meteoritos? Isso é o que vos impingem os media e os cardápios das escolas: conversa pra adormecer papalvo. Racioinai, ó criaturas: Aquilo, é mais que evidente, são mas é os gajos, os terroristas e o Saddam original, com as catapultas balísticas de cruzeiro, as fisgas monumentais de longo alcance, à pedrada à nossa civilização!...Pedrada, meu amigos...pedrada da grossa!... Quereis maior prova de que há árabes por detrás?

II
Um leitor mais renitente aos portentos da razão e aos requintes da lógica, poderá obstar-me com a seguinte alarvidade:
-"Pois, pois, ó Dragão...Mas não nos queres dizer como é que eles, o Saddam Original e os terroristas AlQaidianos, faziam para chegarem à Lua? Não consta que disponham de naves espaciais para o efeito, ora essa!..."
E eu começaria por comentar para com os meus botões:
-"Foda-se, é com cada anjinho que um gajo atura nesta vida!..."
E depois, num salto ágil, de pantera filosófica, esmagá-lo-ia com a contundência afiada dos seguintes argumentos:
a) "Ouve lá, nunca leste ou ouviste as poesias do Luís Delgado, o inefável tradutor português do WC Bush, Rumsfeld, Powell e todos esses sábios do nosso tempo? (foda-se, deves ter lido, porque ele escreve e declama por tudo quanto é canto!...) Pois, se leste, ouviste, etc, certamente te arrepiaste com os prodígios (todos eles horríveis) de que esse Saddam e associados são capazes!...Quem desenvolve ADMs tão medonhas, que dificuldade terá em confeccionar, alugar, comprar ou meramente roubar Naves Espaciais sofisticadas? Ãh, não me dizes?!...Atrás das ADMs vêm fatalmente as NEs (Naves Espaciais Sofisticadas), toda a gente sabe. Muitas vezes, até em conjunto com os SEs (Satélites Espiões) e as SAs (Sociedades Anónimas)...
b) As alianças e parcerias estratégicas entre Saddam, Bin Ladden, Satanás, o Anti-Cristo e o Mancha negra já não oferecem dúvidas - a não ser que comecemos a duvidar da palavra de pessoas acima de qualquer suspeita como o Capitão América ou o Rato Mickey (o que, convenhamos, nunca nos passaria sequer pela cabeça!)
c) Assim sendo, qualquer um deles, o Saddam Original ou o AlQaidianos, poderia entrar na posse de técnicas tenebrosas aprendidas com o Conde Drácula, como transformar-se em morcego, neblina ou lobisomen, sendo que na forma de neblina poderiam viajar de ida e volta à Lua em menos de nada!...
d) Todavia, ( e aqui entra em acção a lógica transcendental e a jurisprudência macrobiótica), não terá sido nem de Nave Espacial, nem por neblinobolia que chegaram à Lua...Havia um método bem mais simples e familiar: Escavaram um túnel!...Aliás, escavaram oito túneis: o que já vinha profetizado na Bíblia, há mais de 2000 anos. Só um deles é verdadeiro e conduz à Lua. Os restantes são falsos e conduzem a nenhures, sendo guarnecidos pelos sete sósias do Saddam Original. Quem é que tu achas que os americanos apanharam, aqui há uns dias atrás?..."

III
Posto que, finalmente, já sabemos onde estão as ADMs, bem como o Saddam Original e o Bin Ladden, resta agora avaliar que planos maquiavélicos são os deles.
Mas antes da grande revelação, alguns pormenores significativos pra criar suspense:
1. Sabe-se que têm armazenado grandes paióis de ADMs e TNT avulso na face escura da Lua. Naturalmente, porque é a face que nunca se vê, estando portanto ao abrigo dos olhares indiscretos do telescópio Huble, dos satélites espiões e do Nuno Rogeiro; e, sobretudo, porque os americanos são de tal modo estúpidos e imprevidentes que se esqueceram de instalar faróis nos Vaivéns, sondas e módulos de alunagem.
2. Vários arrependidos da AL Qaeda são unânimes em denunciar aquela que é a série televisiva de culto de Bin Ladden e do médico louco com quem costuma jogar xadrez e planear demolições: "Espaço 1999". Ao que parece, passam tardes a visionar os dois primeiros episódios.
3. Furiosa com a ineficácia do Telescópio Huble para ver a face escura da Lua, a administração Bush já mandou cortar as verbas para a respectiva manutenção.
Por conseguinte...Somados estes dados, sopesados estes indícios, não é preciso ser-se um Einstein para orçar que caldinho tenebroso Saddam, o Original, mais os mega-terroristas, andam a cozinhar. Pois, é evidente:
Vão aplicar uma mega-explosão na Lua, de modo a retro-propulsioná-la para fora da sua órbitra natural, feita cometa louco, e lançá-la em voo picado, arrasante, sobre os Estados Unidos. Um verdadeiro meteoro terrorista e suicida!
E se dois aviõezitos já causaram aquele estardalhaço todo, nem quero pensar no que vai ser quando levarem com a Lua toda, inteira, em cima!...»

Caros Américas, façam como o Clark: quando não souberem, perguntem.

segunda-feira, abril 25, 2005

Hoje é Primeiro de Abril (o verdadeiro)


Vamos celebrar o quê?
Trinta anos depois, cansados de banha da cobra, bezuntados até à medula, lá vamos descobrindo suavemente, frouxamente, como convém, que tudo isto serviu para termos dois "primeiros de Abril" no mesmo mês. Só que o segundo com honras de estado e feriado nacional. Na verdade, ao contrário do anterior, que é mundial, este, o segundo, é só nosso. Gastámos trinta anos, um país, todas as vértebras, para conseguirmos um "Primeiro de Abril" só para nós.
Ali, na sala ao lado, a senhora Dragão, zangada com qualquer pintelhice, escuta o Nick Cave, que canta, semi-possesso: "Alleluia!..."
Juntemo-nos ao coro: "Alleluia! Oh, Lord...Oh sweet Lord!..."
A sério, querem saber o que eu penso da política portuguesa dos últimos trinta anos e do regime libertadeiro da denominada "Terceira República"?
É simples: Não fodem nem saem de cima!

sábado, abril 23, 2005

Antologia Caguinchiana


I
Ultimamente, aqui, na tasca -aliás, Ciber-tasca-, andam a contecer coisas estranhas; fenómenos deveras bizarros. O mais recente fez-se transportar na pessoa do Caguinchas, que, todo apessoado e decidido a uma pernoita excitante, me abordou com a seguinte trignometria:
-"Ó Dragão, estou aqui um bocado hesitante...Preciso da tua opinião!... Confesso que já não percebo nada destes anúncios!..."
Os anúncios em questão referiam-se àquelas páginas eróticas, onde hordas de gente voluntariosa se disponibiliza a todo o género de serviços corporais e prazeres de aluguer.
-"Pois, pá - continuou ele-, antigamente um gajo não tinha que tirar um curso superior pra perceber o que uma puta dizia, mas agora...foda-se!, é com cada equação do terceiro degrau!..."
Abreviando; em que consistia o problema do Caguinchas? Debatia-se, nada mais nada menos, que com uma série de termos esotéricos que lhe torpedeavam a avaliação das candidatas. Dizia uma:
"Sozinha...Trintona! Oral explosivo!! Rapadinha..."
E o Caguinchas interrogava-se, perplexo: "ouve lá, isto do oral explosivo quer dizer que a gaja é árabe, ou quê?! E a raspadinha, quer dizer que no fim temos direito a um cartão da lotaria popular?!..."
Como podem ver, no fundo o que Caguinchas requeria era um tradutor de putaguês para português. Como domino o idioma, não vi inconveniente em fazer de intérprete.
-"Nada disso, ó Caguinchas. - Acalmei-o. - Eu traduzo: "oral explosivo", quer dizer que a gaja é especialista em broches; e (rapadinha) que não tem pintelhos na cona!..."
-"Não tem pintelhos na cona?!! - Alarmou-se o Caguinchas. -"então tem-nos aonde: Debaixo dos sovacos?!...
-"Não pá. -esclareci-o. -Significa que rapou a pintelheira! Enfim, americanices!..."
-"Rapou a pintelheira?!! - Continuou a alarmar-se o Caguinchas. - Mas também há barbearias de conas?!...E agora, como é qu'um gajo distingue o buraco da cona do buraco do cu?..."
Enigma transcendental, de facto. O Caguinchas achava tudo aquilo muito suspeito. O caso não era para menos. Chumbou a candidata e passámos à seguinte, que arauteava desta maneira:
"Promoção Inverno. Lisboa...marisa...Loiraça, insaciável...Corpinho violão...beijinhos...natural...BotaozinhoRosa...Bumbum furacão...Oral natural...Alucinante!! Sem borrachinha...3ª oportunidade! Até rebentar!!"
O Caguinchas, pasmado, estava convertido num autêntico boi a olhar pra um palácio; e até eu, putanheiro moderno e encartado, com pós-graduações várias e cursos de actualização permanentes, dei comigo às aranhas para interpretar tal palimpsesto. Entretanto, enquanto eu relia o aforismo abstruso, o Caguinchas, como é seu estilo, disparava comentários a torto e a direito, cada qual mais brilhante que o anterior:
-"Loiraça insaciável?, isso quer dizer que a gaja deve ser uma alarve! mas se julga que eu lhe pago o jantar..."
-"Não, ó Caguinchas. - Meteu-se na conversa, o Dinossauro - Isso quer dizer é que a gaja te come todo!..."
-"Foda-se! - Trovejou o Caguinchas, visivelmente indignado. - Mas que merda vem a ser esta? Atão um gajo é que paga e a puta é que come?...Mas que putas vêm a ser estas?...Eu quero comer uma puta, caralho!... Um puta normal, com cona e pintelhos à volta da cona!...Como, limpo a piça, e pago! É assim. Foi assim que o meu pai me ensinou!...Isso de putas insaciáveis devem ser mas é putas canibais!..."
Mas o pior ainda estava pra vir. Uma aragem de sacanice começou a insinuar-se pela sala e tanto eu como o Dinossauro trocámos olhares furtivos de conluio avacalhador.
-"Pois, -intervi eu, disposto a conduzir o Caguinchas a novos abismos de desespero -, e não sei se estás a ver o que é isto do "BotaozinhoRosa"..."
-"Rosas?! - exclamou, o Caguinchas. - Não me digas que agora também temos que oferecer flores às putas, ou então que a gaja é socialista!...Foda-se, eu só quero mudar o óleo, não lhe quero pedir namoro, nem discutir política!..."
-"Nada disso. - Volvi, munido de toda a sacanice de que era capaz e antegozando já o efeito do que se seguiria. - Isto significa que a gaja te lambe o olho do cu e te enraba com a língua e tudo!..."
A cara que o Caguinchas fez, só vista. Parecia que os olhos lhe iam saltar pelo nariz abaixo, como nos bonecos de desenhos animados.
"Como?!!! Foda-se!, mas isso é puta pra homens ou pra panascas?!! - Bramou, escandalizado e ofendido.
-"Mas pensa nas contrapartidas... -Manobrou, o Dinossauro, pela outra banda. - "Bumbum furacão, oral natural, alucinante, sem borrachinha, ãh, um luxo!..."
- "Sim, -reforcei eu, - não te esqueças que se trata duma promoção de inverno!..."
Mas o Caguinchas estava-se pouco marimbando prás promoções, saldos ou rebaixas todas que houvessem. Aquilo cheirava-lhe mas era, a léguas, a uma liquidação geral: a dele.
-"Bumbum furacão"? - Arrepiou-se todo, antevendo já horrores atrás de horrores. - Isso, quase que aposto que quer dizer que a gaja dá peidos ciclónicos, não?!..."
-"Não. -Tranquilizei-o. - Isso apenas quer dizer que lhe podes papar a bilha. E mais: até te faz broches sem camisa!..."
-"Mas vocês julgam que eu sou maluco e analfabeto, ou quê?! - Atroou, qual Krakatoa, num arremedo altivo, de macho brioso. - Ainda sei ler, cum caralho!... Insaciável, furacão, alucinante, oral natural, até rebentar...foda-se, 'tá bem de ver que a gaja é mas é uma puta antropófaga, devoradora de otários!... e qual camisa qual carapuça!...Foda-se, eu, é que nem dentro duma armadura lhe confiava a piça!...E sabem que mais? É diante de putas destas, que um gajo proclama: "abençoada a punheta!"...
E não disse mais nada. Bazou porta fora, furibundo, à procura duma revista pornográfica, presumimos.
Ficámos, eu e o Dinossauro, a olhar um pró outro, meditabundos. Em tudo aquilo, havia um detalhe que nos intrigava: "3ª oportunidade!!" Que raio significaria aquilo?
Um verdadeiro mistério...Mistério que até à data não conseguimos decifrar.

II
O Caguinchas, com esta erudição toda das putas, mais as americanices adstritas, anda a ficar inconsolável. O alívio manual, decididamente, já não o satisfaz. Mas, por outro lado, a verdadeira fobia que desenvolveu em relação às novas modalidades de putaria, continua aguda. Como há vícios que só se podem combater com outros vícios ainda piores, refugiou-se no jogo. Não há tugúrio de batota clandestina que não peregrine, nem casino manhoso que não frequente. O problema é que está a ficar sem crédito em quase todos eles. "Sem crédito", é forma de dizer: na verdade, parece que tem mesmo é a cabeça a prémio.
Enfim, deve ter sido por causa dessas complicações todas que ontem chegou ao pé de mim, cheio de ares furtivos e solertes, reclamando paternidade para o seguinte projecto:
-"Olha-me só esta mina, ó Dragão!..."
Em simultâneo, ia-me mostrando a página de anúncios dum matutino nacional, onde rezava: "Mãe de santo brasileira, joga-se cartas e búzios...telef:...."
E ainda mal eu tinha acabado de ler e avaliar a tal mina, já ele rematava:
-" Pá, búzios deve ser assim uma espécie de dados... Tratas tu deles, que eu trato das cartas!...Depenamos aqueles patos, que é um ver se te avias! E no fim, com um bocado de sorte, juntamos o útil ao agradável e ainda papamos a brasileira!...Ãh?! que é que me dizes: ideia do carulho, não?!..."
E como eu tardasse a sair da estupefacção em que a sua arquitectura temerária me mergulhara, o Caguinchas, todo pintas, reforçou a dose:
-"Oh pá, o filho é santo, quer dizer que deve ser um g'anda anjinjo que até nos agradece por lhe comermos a mãe!... A não ser que não gostes delas maduras!?..."
-"Não, ó Caguinchas: gosto, gosto." - Reagi, finalmente.
E é verdade. Por isso lá fomos os dois, depenar os patos e comer a mãe ao santo. Sempre me ensinaram que nunca se deve contradizer um doido.

III
Acabámos por não comer a mãe ao santo. Isto, porque o Caguinchas, um raios o partam, pelo caminho, teve um momento de hesitação, expresso na seguinte dúvida existencial:
-"Ó Dragão, mas a brasileira mãe do santo não é daquelas que barbeia a cona, pois não?!..."
Aí, eu, diabos me levem, não resisti. E proclamei-lhe o seguinte:
-"Não, ó Caguinchas, fica tranquilo: não é dessas. Até porque, sendo mãe de santidade, para ela a cona é sagrada, portal beatificado! Só se lhe pode ir ao cu!...
"O Caguinchas começou logo a ficar desconfiado. Mesmo assim ousou uma segunda tentativa:
-"Mas fazem mamada, ou não?!..."
-"Sim, sim... - Acudi-lhe, pressuroso. - Fazem broches celestiais. Mas convém ficares-lhe atento aos olhos..."
-"Aos olhos?!!...- Espantou-se, o Caguinchas.
-"Mas porquê: hipnotiza-me?!..."
-"Não. - Retorqui, com o ar mais angélico deste mundo. - É para topares quando ela os começa a revirar..."
-"Chiça, não me digas que ela se vem a chupar!..." - Precipitou-se, incrédulo, o Caguinhas.
-"Nada disso. -Corrigi-o. - Quando os olhos começam a revirar-se não significa que está a ter um orgasmo: significa é que está a ter um ataque epiléptico!..."
-"Foda-se!!..." - Arrepiou-se todo, o Caguinchas. Que até os tomates (jurou ele no dia seguinte, quando lhe voltei a pôr a vista em cima) se lhe encarquilharam.
Por causa disso, claro está, já não fomos. Que querem, a sacanice é mais forte do que eu.

sexta-feira, abril 22, 2005

Melomania III

O que é que eu penso da "música pimba"? O mesmo que penso da "literatura light"; e exactamente o mesmo que me ocorre sobre "futebol entre tetraplégicos": apesar de tudo, sempre era preferível a natação.

Minhas senhoras, curvo-me...


Eu não devia dizer isto. Mas como amo mais a verdade que as conveniências, digo-o. Mesmo sabendo que no futuro poderá ser usado contra mim. Basicamente, é o seguinte: Eu, Dragão, porco machista, marialva dos quatro costados, último dos ferrabrazes, tenho levado uma bela ensinadela das senhoras mulheres aqui na blogosfera. Tenho mesmo descoberto nelas (com mágua o reconheço, pelo meu próprio género) mais coluna e valentia que em grande parte dos homens aqui do "blogbairro", uns verdadeiros nenúfares.

A começar na Zazie, por uma amizade bem temperada, e com destino especial à Laurindinha e à Margarida, pela amabilidade sempre imerecida que tiveram comigo, eu, num rasgo excepcional de humanidade, dedico-lhes o que se segue (tem 15 anos e foi escrito, algures, nas savanas de África):

GENESIS

Quando tudo era triste, negro, e a Terra poeira incerta
Olhos sonhadores nas trevas forjaram vida acesa;
Do caos informe, com a Palavra, arrancaram beleza
e, assim, criando, Deus se fez poeta.

Não será tudo realmente um poema -a Terra e os Céus?
E nós próprios, em vez de escravos, bons ou maus
não seremos antes misturas de Treva e Caos
com a desesperada poesia de Deus?...

Foi por a fealdade à sua volta se afigurar tão insuportável
a solidão tão amarga e o silêncio tão profundo
Que Deus teve essa necessidade desculpável

de tudo mascarar co'a beleza de versos seus.
E ainda hoje, amargamente, solitário, moribundo
o poeta sofre, recria o mundo e, assim, sem fantasia, se faz Deus.



PS: Não digam a ninguém que eu postei isto. Ainda me arruina a reputação.