segunda-feira, maio 06, 2024

A palavra e a escritura

 «Mas quando chegou a vez da invenção da escrita, exclamou Thoth:
 "Eis, ó Rei, uma arte que tornará os egípcios mais sábios e os ajudará a fortalecer a memória, pois com a escrita descobri o remédio para a memória."
- "Oh, Thoth, mestre incomparável, uma coisa é inventar uma arte, outra julgar os benefícios ou prejuízos que dela advirão para os outros! Tu, neste momento e como inventor da escrita, esperas dela, e com entusiasmo, todo o contrário do que ela pode vir a fazer! Ela tornará os homens mais esquecidos, pois que, sabendo escrever, deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras, e só se lembrarão de um assunto por força de motivos exteriores, por meio de sinais, e não dos assuntos em si mesmos. Por  isso, não inventaste um remédio para a memória, mas sim para a rememoração. Quanto à transmissão do ensino, transmites aos teus alunos, não a sabedoria em si mesma mas apenas uma aparência de sabedoria, pois passarão a receber uma grande soma de informações sem a respectiva educação! Hão-de parecer homens de saber, embora não passem de ignorantes em muitas matérias e tornar-se-ão, por consequência, sábios imaginários, em vez de sábios verdadeiros!"»

             - Platão, "Fedro"


Nos alicerces da civilização está muito mais a palavra enquanto rhetra (lalo; agorew) do que enquanto graphé, isto é, muito mais a palavra oral do que a palavra escrita. Num certo sentido, a distância entre a palavra viva e a letra morta. Os Poemas Homéricos foram transmitidos oralmente, durante gerações, até se tornarem texto. Jesus não escreveu: falou; e mesmo, antes dele, Sócrates também não deixou obra escrita. Tal qual Plotino, cujas lições foram compiladas por um discípulo seu, Porfírio. O que Platão refere, com o brilho característico, é que  o escrito é uma espécie de pensamento em segunda mão: a palavra falada diz a coisa (a dita coisa); a escritura dessa fala não é a (dita) coisa, mas uma aparência da coisa, um sinal dela - sema - uma semântica. E essa semântica, necessariamente, não responde nem se sustenta ou defende como o autor vivo. Até porque, ao nível escolar, resvala, em muitos casos, para uma "sebentica", quer dizer, a semântica confinada à sebenta. Uma sebenta, aliás, que, tanto quanto a apostila, acumula o manuseamento seboso, repetido e descuidado da escritura. A limite, portanto, a escrita degrada-se à "mal-dicção", não à dita coisa, mas à coisa mal-dita.

Segunda esta linha de pensamento, o texto duma obra, do próprio Platão (como de Aristóteles, Homero, etc) não é o "pensamento de Platão", pelo menos como seria, autenticamente, se ele no-lo transmitisse de viva voz na Academia. É apenas um vestígio desse pensamento. Tradução de uma tradução de ene cópias, comentários, migrações, etc. Donde se gera, não raramente, o tradutore como traditore; tanto como a face negra da tradição, enquanto falsa tradução ou traição. Grande parte da obra de Platão (nos seus vestígios mais antigos) só alcança a Europa ocidental por alturas do Renascimento. O mesmo pode dizer-se de Aristóteles, que só no século XIII, nas suas obras esotéricas mais importantes, por via árabe, cá chega. Ambos, naturalmente, apenas no seu legado escrito, enquanto texto. É evidente que, embora resumido ao possível, à escrita, possuem um valor inestimável, mas as consequências desses escritos, que constituem, per si, uma documentação problemática da palavra viva dos dois (e únicos) grandes filósofos, geram entretanto determinadas derivações, efeitos e sequelas, que resultam não tanto dos próprios escritos, mas, sobremaneira, das leituras que deles se fazem, fizeram e foram encetando. Quer dizer, escritos geram escritos, que, por sua vez, segregam outros escritos e, às tantas, numa qualquer "aula de Filosofia", nas novas pseudo-academias da universidade esterilizada e solenemente rasteira, "professores de filosofia" mais não debitam que uma espécie de "palha histórica da filosofia" debulhada sobretudo a partir de fardos de comentadores, explicadores, para-copistas e decoradores dos escritos dos autores originais (e o caso é tanto mais grave, quanto mais antigos estes sejam ); num verdadeiro labirinto de múltiplas bestas, às tantas, a letra morta, transvazada já noutras semânticas e para-fonéticas.  É claro que, entretanto, de alguma forma, acontece uma oralidade do "putativo mestre" que não ultrapassa, na maior parte do casos, o frete de funcionário burocrático penando, em duplicado, à maneira das Danaides: tentando encher depósitos sem fundo com odres furados. Assim, a retórica universitária, na maior parte dos casos, não revela: soterra. Também, convém dizê-lo, ninguém, ou muito poucos, vão ali á procura de qualquer espécie de sabedoria, mas apenas duma licença de emprego. O curso dos acontecimentos segue, assim, uma macaquice ao espelho: o enfado dos debitantes reflecte e ricocheteia na couraça enfadada dos recipientes. O desentusiasmo é mandatário e generalizado.  Quando lá passei, com este espírito rebelde que Deus me deu, taxei o necrotério de "Hades da Filosofia". Na ala dos suplícios absurdos e infinitos, mais concretamente. Sendo que, para cúmulo, aqueles que mais torturados e supliciados padecem são os próprios filósofos, na forma do seu fantasma completamente mutilado e desfigurado. O chamado "curso de filosofia", de resto e em boa analogia, processa-se, com requintes sádicos, numa forma particularmente perversa de voodu espírita. Da faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa trouxe comigo, não obstante, uma grata e imorredoura recordação: as alunas de línguas e literaturas!...

Além do mais, a biblioteca - ou seja, o depósito mortuário das letras -, pressupõe a mera visita e um afastamento cada vez maior da vida, funcionando como um "reservado" a excêntricos. Estes poderão até ser pensadores de mérito e digna vocação, e não apenas intelectuais de aluguer ou papagaios instituídos, mas a sua "excentricidade" atesta dessa distância ao "centro" vital; certifica não duma centralidade comunitária, motriz, mas duma marginalidade quase supérflua. Há um certo suburbanismo espiritual no academismo; qualquer coisa de tribal, de gangue das letras. Mas retomando o novelo...

Assim, uma determinada leitura pode conduzir a uma determinada apropriação, e, inerentemente, a uma determinada aplicação mais ou menos distorcida ou abusiva.  É desse modo que, por exemplo, a Politeia (República) de Platão pode surgir transfigurada em qualquer "paraíso socialista", embora grande parte, esmagadora mesmo, do pensamento platónico o desautorize. Sendo certo, em contrapartida, que Platão, depois de filtrado em Plotino e processado por Hegel, esse cocktail sim, poderá de algum modo inspirar o grande cerne dos pensamentos totalitários menores (fascismo, nacional-socialismo, comunismo); dado que o pensamento totalitário-mor, logo por azar o actual, vigente e ameaçador do  futuro do planeta, decorre, essencialmente, da protestatite anglo-saxónica e da desalmação antropológica e utilitária subsequente. Se quisermos, de resto, entrar em contrapontos, dir-se-ia que enquanto os totalitarismos menores decorrem de distorções ou desregulações de pensamentos, o totalitarismo-mor não corre esse perigo: deriva do cancelamento e liquidação sumária de qualquer hipótese de pensamento genuíno e credível. A começar pelas próprias faculdades do mesmo. Todo o seu aparato mental reduz-se a uma falácia: o reductio ad intendo. Terraplenam (e podam, à maneira de Procusta) a hierarquia psicológica, que vai da sensibilidade à inteligência (em degraus sucessivos: sensibilidade, entendimento, razão, prudência, inteligência - o que, transposto para formas de saber e agir, corresponderá a estética, ciência, ética e filosofia), a um rasteiro entendimento, numa epistemolatria sórdida encavalitada  num animismo mecânico e peada por um materialismo javardo. O que daí se destila, invariavelmente, não excede a propaganda, tenha esta a forma de "ciência", "filosofia", "política", etc. Não admira portanto que faça depender o seu próprio sucesso e prosperidade material  duma estupidificação global, massiva e absoluta. Uma humanidade reduzida e confinada a uma cosmovisão com antolhos e projecções cinematográficas ininterruptas eis a condição sine qua non do "mundo livre". Livre, sobremaneira, de inteligência, de memória, de prudência e de qualquer tipo de bondade. Apenas um sinistro interesseirismo, uma ubíqua mercearia, uma atroz e absurda lógica do lucro fácil, da vida fácil e da morte mais fácil ainda. Uma imensa pocilga a boiar no espaço. Aquilo a que chamam, pomposamente, "ciência", mais não excede que a Nova Circe com a respectiva varinha mágica.

Hoje em dia, não apenas a palavra, escrita ou falada, nada ou quase nada vale, como cada vez se fala menos. Falar pressupõe uma voz e um ser humano detrás da voz. Ora, a repetição, a regurgitação e a multiplicação simples de ruído não constituem fala, nem humanidade.  Pelo contrário, atestam da sua ausência, da sua erradicação sistemática, do seu silenciamento. E, todavia, aparentemente, nunca se palrou tanto. Enxames de comentadores explicam e digerem a cada hora o acontecimento, o fenómeno, o último rumor, a mais recente notícia. A rede social, por fim, mais não manifesta, no seu tsunami principal, que o megamplificador de ruído - a phoné é usurpada pelo megaphoné. Não estamos mais no âmbito da voz de Ulisses, mas descemos ao circuito de Polifemo. 

Os atenienses, para o falar em público (proclamar, etc) usavam o termo "agoreow", donde a ágora - espaço de reunião e debate de assuntos da polis. Em rigoroso sentido, a política principia por ser uma ágorafonia - uma linguagem da assembleia, espaço de reunião aberto a todos os polithes (hoje traduzimos, grosseiramente, por "cidadãos", uma francesice cabeluda). Ora, a evolução deste espaço de reunião, ao longo dos tempos, sobressaltos e episódios até ao presente "parlamentarismo", processa-se no sentido do "todos" para o, cada vez mais mirrado, "alguns". Dos polithes para os "representantes dos polithes", como da viva voz para a letra morta. Até porque, comprovadamente, para os "representantes", os representados são letra morta e voz apagada. Fundando-nos apenas no caso ateniense (pois Esparta, por exemplo, não estando nos antípodas, rege-se por outro enquadramento), é a degradação continuada e sistemática do "demos" ao "oligos", quer dizer, da democracia à oligarquia. Nunca esquecendo, entretanto, que a democracia ateniense nada tem que ver com a "pseudo-democracia" liberal (inglesa), que mais não camufla, invariavelmente, que uma criptoligarquia, ou seja, o controlo hermético dos muitos pelos poucos.

Por outro lado, se a ágora constituía um espaço de reunião aberta, pública, já todos os espaços do "parlamentarismo" hodierno pouco lhe devem ou remetem. O debate, que tem mais de combate do que de discussão, antes remonta ao Circus romano, enquanto mero espectáculo publicitário e recreativo; e longe de ser aberto é apenas reservado aos delegados da oligarquia partidária, segundo meras combinações aritméticas, desde a eleição ao voto. Aliás, para onde quer que se contemple, todos os espaços (mal-ditos) públicos são, na verdade, privados, reservados, restritos. Acaricia-se e brande-se a palavra "elites" para tentar dourar o fenómeno  e esconjurar a desconfiança natural dos "muitos". Mas, na realidade, esse esforço manhoso e mal atamancado apenas traduz a distorção semântica que preside e ordena os acontecimentos. Quer dizer, uma cultura da letra morta que se putrefaz e decompõe a mero húmus da conveniência potestativa dos "poucos". A palavra deixa de transmitir um vínculo de continuidade entre o passado e o futuro, enfim, uma coerência, para degradar-se a mero veículo da permanente ganância dos super-instalados. Donde a inversão, perversão e aversão do sentido, de tal modo que, por exemplo, todo um esquema mais ou menos óbvio de neo-feudalismo é propagandeado como o último e definitivo grito da democracia. E onde "os piores" passam pelos "melhores", a loucura passa pela razão, a extorsão passa pela justiça, o desgoverno sistemático passa pelo governo virtuoso, e o mal geral é vendido, a alto preço, como o bem comum.  Donde não espanta que esta "nova-ágora" (ou "ágora-virtual") prime na tripla negação da primordial, com especial ênfase na aversão. Não exprimindo já um espaço de reunião, mas de confusão, discórdia e difamação, dispõe até dum novo conceito de arremesso contra qualquer recaída ao sentido original: populismo. Resulta, assim, que esta "ágora virtual" é, essencial e militantemente, agorafóbica. Ao contrário do verbo "agoreow" helénico, a "publifonia" actual, vulgo telecomentarismo, radiocomentarismo ou cibercomentarismo, na sua esmagadora maioria (dos meros delegados dos "poucochinhos"), não responde nem debate (a qualquer tipo ou qualquer tipo de questão genuína do interesse geral), mas apenas se esmera e entrega ao abate: em primeiro lugar, de qualquer tipo de dúvidas ou cepticismo acerca da legitimidade santa da gestão perpétua dos actuais "poucos" sobre os sempiternos "muitos"; e em segundo lugar, de qualquer tipo de verdade inconveniente, ou seja, toda ela. Poderemos mesmo dizer, sem ponta de exagero, que, se a ágora ateniense patenteava um espaço de reunião e debate colectivo, esta nossa "praça pública" mais semelha (enquanto espaço não de debate, mas de abate), um matadouro municipal. Onde se processa o abate geral da esperança, do entusiasmo, da confiança, da justiça, do espírito, enfim, de todas as virtudes e anseios humanos, e para onde os cidadãos incautos entram perplexos e saem, invariavelmente, abatidos. Isto, diga-se, os mais afortunados deles, diga-se, ou sejam, aqueles que escapam, miraculosamente, à vulgar transformação industrial em chouriços ou qualquer outra variedade de enchidos. Os antigos despotismos reprimiam; este neo-despotismo, tanto mais camuflado quanto pervasivo, aprimorou o torcionarismo; já não reprime, apenas deprime. Descobriu que é mais eficaz enviar para a psiquiatria do que internar no presídio. Se acrescentarmos o requinte de cada indivíduo ser doravante a própria cela de internamento em regime ambulatório... Significa, entre outros prodígios, que, assim como a palavra viva descambou em letra morta, também a pessoa humana vai sendo processada e confinada a um estrito (e estreito) casulo. Abastecido e perpetuado através de écrans. Paz à sua alma!

sexta-feira, maio 03, 2024

Reparações

 Imaginem um prédio em ruínas, devoluto, onde junkies ideológicos se vão injectar e indigentes morais pernoitam e defecam. Não é difícil de imaginar, até porque corresponde à realidade, no último meio-século, da nossa História. A mesma e única, essa sim, que necessita de reparações. Urgentes e profundas. Para já não falar em desentupimentos...

quarta-feira, maio 01, 2024

O Esquema Perfeito

 A Dívida Norte Americana...  35 triliões e subindo.

Em comparação, a dívida rectangulosa: 287 biliões, mais coisa menos coisa.

Todavia, a diferença essencial entre ambas não reside na dimensão. Reside na autenticidade.

Eu explico: para haver uma dívida é necessário que exista um credor (ou múltiplos, como é o caso). Ora, isso é verdade no caso rectangular, mas não no caso americórnio. Os rectanguleses têm credores (e bem ferozes, por sinal) pelo que possuem de facto dívida que lhes compete pagar até ao último tostão do juro. Aliás, isto é tanto verdade no conjunto dos tais cujos, como na individualidade das suas ex-pessoas: vivem a crédito. Submersos em dívidas. E chamam a isso, com imensa piada, liberdade e regime democrático.

Já os americórnios, na medida  em que nada existe neste mundo que os obrigue ao pagamento, não têm credores, nem, consequentemente, qualquer dívida. A forma como agenciam numerário líquido, decorre, em parte, por doação, no restante, por ficção (ou contrafacção, sem eufemismos). Assim, aqueles que emprestam dinheiro ao pseudo-estado rectangular, são credores autênticos e a "vossa" dívida é uma verdadeira dívida. Em contrapartida, aqueles que emprestam dinheiro ao tesouro americano  são doadores de facto e a "dívida americana" é uma falsa dívida, porque aquilo que exprime, na realidade, é o saldo actual (ou balanço consolidado) dos lucros fáceis do estado norte americano, seja lá o que isso for. É até por isso que eles torram biliões como eu visto uma camisa: quanto mais torrarem, em empréstimos a esmo (à Ucracoisa, ao Israló, aos alienígenas da lua de saturno, ou quem quer que seja), mais lucram e acumulam. O que aquele relógio desarvorado que aparece no link em epígrafe certifica não é, de modo nenhum, um descalabro das contas públicas. Bem pelo contrário, é um triunfo retumbante.

Num certo sentido, a economia americana alcançou, mais até que a perfeição, a superação de todas as contrariedades e problemas tradicionais da contabilidade e arredores. Na medida, em que a dívida coincide com o lucro, a meta-américa, prodigiosa, tanto mais produz quanto mais gasta. O capitalismo, mai-la sua lógica do consumo e desperdício, há muito que foi transcendido: agora, persignemo-nos em êxtase, através do consumo absoluto, nada é desperdício e tudo é lucro.

Estou à vontade para passar o alvará: inventaram e implementam todos os dias o "esquema perfeito". Uma espécie de buraco negro das finanças planetárias? Sim, e depois?...