domingo, setembro 25, 2022

O Dinheiro - VI. A Palavra e a Moeda

 



Além das "Nuvens", três outras comédias de Aristófanes são emblemáticas (na verdade, quase todas são, mas por amor à síntese...) do estado de Atenas na Decadência: "As Vespas", "As Rãs" e "Pluto". As primeiras retratam a grande tara da cidade, autêntica mania furiosa desenvolvida a níveis de paroxismo: os tribunais e a retórica. Se temos a ideia grandiosa do "direito romano", ao pé dos Gregos os romanos, como em quase tudo, balbuciam num misto de infantilidade e pechisbeque. Basta dizer-se que os tribunais romanos, em bom rigor, mal-funcionavam. O direito soberano era o da força. O Patrício até cárcere privado tinha. E a quantidade de servos auto-arvorados beleguins media a justiça da demanda. Já em Atenas, o tribunal não apenas funcionava, a todo o vapor, como se constituía quase o mesmo que o Circo viria a significar para os romanos. Na Grécia, competia até, valorosamente, com o teatro, se é que não o excedia. A obsessão pública era de tal ordem que a cidade viu nascer um profissional típico: o sicofanta. Figura execrável e omni-detestado, fazia-se acompanhar por uma ou duas testemunhas e flanava, como um abutre, pelas ruas à procura de motivos e pretextos para delacção judicial. Um bufo? Completo, devoto e desabrido. Muitas vezes, à falta de matéria de facto, inventava calúnias e chantageava com elas os privados. Estes, para evitarem trabalhos e custas, bem como temerosos das falsas testemunhas, acabavam por pagar. O crápula vivia disso. Um pouco o predecessor dos jornalistas da nossa época. Apenas - e ligeiramente - menos trafulha.

Quanto à segunda peça, "Pluto", das últimas a ser escritas pelo autor, trata, como o próprio nome indica, das peripécias e aventuras da riqueza e dum mortal que a procura. Na mitologia grega, duas entidades respondem pelo nome de "Pluto": Hades, por cognome "Plutow", o Rico (Hades é o mais rico de todos os deuses, no sentido em que o seu domínio são as profundezas, depósitos imensos de ouro, prata, pedras preciosas (e mais eles ainda não conheciam o petróleo), etc; e Pluto, o filho de Demeter, deus da Riqueza. O Pluto da peça refere-se ao segundo caso.

Conta-se que numa primeira fase Pluto só favorecia quem muito bem entendia (suspeita-se que pessoas honestas), mas, como isso criou alguns problemas, Zeus (que ainda por cima não tinha fama de simpatizar muito com a raça antropoide), decidiu cegá-lo, de modo a torná-lo mais democrático, isto é, a não discernir entre bons e maus (e assim prejudicar a todos por igual, como adiante constataremos em detalhe. Até porque, no fundo, essa é a igualdade essencial e mobilizadora da Democracia: não saber distinguir entre o bem e o mal, já que é tudo igual - basta atentar na posição das pessoas perante o voto: votar no A ou no B é indiferente, é tudo a mesma merda; e lá dispara a abstenção). Desse modo Pluto, a Riqueza, adquiriu três características identificativas: é cego, é coxo e também voa. Com aquela sabedoria que ninguém sabe muito bem onde foram desencantar, os gregos diziam que Pluto, por ser coxo, demorava muito tempo até chegar a uma casa. Mas, depois de nela entrar, saía a voar. Ninguém poderá negar que o mundo terá mudado muito até hoje, mas Pluto continua o mesmo.

Por outro lado, e aqui importa reter bem isto, Pluto é filho de Demeter, a terra cultivada. A mesma dos Mistérios de Eleusis, pois. Se, ainda na mitologia, pensarmos na deusa protectora que deu o nome à própria cidade - Atena, sabemos que foi em concurso com Poseidon, o deus do Mar, que ganhou essa distinção. Porque foi considerada a sua oferta aos humanos - a oliveira - a mais útil e meritória. Ora, na história, embora se tenha tornado e destacado como potência marítima e comercial, Atenas começou por ser uma comunidade agrária. E é desse primeiro estágio que emanam os valores fundadores bem como as estruturas hierárquicas sociais. E, nesse conceito originário, a riqueza era filha do cultivo da terra. As grandes e mais poderosas famílias, descendentes da fundação, eram essencialmente grandes senhores agrícolas.

Nesse contexto, se imaginarmos os anos de grandes colheitas, não será difícil deduzir uma quantidade razoável de excedentes. Dentro destes, aqueles mais perecíveis (que se estragam rapidamente) teriam como destino, muito provável, a distribuição pelo séquito de dependentes laborais, a troca por serviços, a doação à cidade como forma de granjear prestígio, influência ou poder, etc. Há, pois, pela própria dinâmica natural das coisas, um certo paternalismo e familiaridade inerentes à sociedade agrária, quer dizer, fundada na terra. Passe a redundância, porque fundar implica terra sólida, como afundar implica mar, ou infundar implica ar (Voltaremos a esta trilogia deveras cucial). Todavia, a partir do aparecimento da moeda, acontece um fenómeno que não afecta apenas a vertente comercial de Atenas, mas também a agrícola. Os tais excedentes perecíveis, a partir do momento que se podem converter em moeda, tornam-se imperecíveis. O Aristoi, em vez de granjear mais fama, passa a acumular mais riqueza. A moeda não se estraga. Mais grave, instala-se a ideia da reprodução do dinheiro - o rendimento pela usura. O mesmo termo que designa filhos, designa juros: tokos. Aposta-se na reprodução do dinheiro (sabemos no que ocasionou). Onde outrora, trocava, doava, distribuía, agora o grande senhor empresta, a juros. Este novo negócio - da crematística - não invade apenas o comércio, o mundo dos negociantes e traficantes: insinua-se também entre a classe menos suspeita. Aristóteles, como já vimos, deplora como indigna essa actividade entre os nobres. Não que o aristoi não possa aumentar a sua riqueza dentro dos limites da propriedade e conveniência, mas fazer disso negócio essencial é contra-natura e contra a ética, entenda-se contra o bom costume. Não obstante, a verdade é que o dinheiro/moeda vem contender e transformar os costumes da cidade. Um dos resultados mais nefastos é o endividamento excessivo e a ruína de muitos dos endividados. Incapazes de cumprir com o pagamento, caem na escravatura. E, assim, se noutros tempos os escravos eram adquiridos através da guerra ou da "importação", agora são muitos cidadãos livres que, por insolvência, se tornam escravos do credor. Donde resulta que, ou entram ao serviço deste, ou são vendidos no mercado, em hasta pública. É evidente que a classe dos comerciantes se desenvolve e dedica a fundo a toda a espécie de expedientes monetários. Mas esse, tudo bem pesado, não é o pior mal. O grande problema e a causa mor da decadência social da cidade consiste em a) todos, de alguma forma, degeneram em "comerciantes" (tudo se compra, tudo se vende e mercadeja); b) todos os mercadores almejam o máximo e mais rápido lucro, e logo, por requinte, tornarem-se usurários (hoje em dia autodenominam-se "investidores"); c) um afluxo de riqueza rápida e desancorada dos bons costumes maligniza o tecido social e corrompe não apenas ricos e novo-ricos, mas, tanto ou mais, os outros, aspirantes a ricos quase todos eles, que passam a acreditar, piamente, que, por intermédio de expedientes, vigarices ou qualquer outro tipo de trampolim, logram uma ascensão rápida na vida.

Ora, ninguém como Aristófanes, para nos transmitir um fresco imorredouro da época. E em todas as suas peças há uma espécie de confronto, entre os tempos antigos, mais simples, piedosos e saudáveis, e os tempos "modernos", mais venais, cínicos e decadentes.

Em primeiro lugar, esta nova crença cega no dinheiro conduz ao materialismo tolo e à impiedade - à descrença nos deuses e modos elevados de outrora, isto é, à destruição da própria hierarquia consagrada e natural. Os filhos batem nos pais, o injusto leva a palma ao justo (cf. "As Nuvens"); a tagarelice e a frivolidade de Eurípedes destronam a grandeza austera de Esquilo ("As Rãs"); os ricos fingem-se de maltrapilhos para não pagarem contribuições inerentes à condição (mas depois "emergem no mercado do peixe", - local, como hoje, onde, dado o exorbitante preço do pescado, apenas os abastados se exibem e desfilam) ("As Rãs"); etc. A certa altura, em "As Rãs", onde, perante Dionisio, a Tragédia "moderna" de Eurípedes disputa com a Tragédia Antiga de Ésquilo, surge, num cúmulo de chiste, esta passagem particularmente sugestiva:

«Ésquilo - Em seguida, tu ensinaste-os a praticar o palavreado e a loquacidade que não só esvaziou as palestras e gastou o cu dos rapazinhos tagarelas, mas também persuadiu os Parálios (homens livres que remavam no navio almirante) a responderem aos seus comandantes (...) 
Dioniso - (...) Mas agora respondem e não remam: navegam para aqui e para ali, ao acaso.
Ésquilo - De que males não é ele culpado? Não apresentou ele em cena alcoviteiras e mulheres que davam à luz em templos, e se juntavam sexualmente com irmãos, e afirmavam que não viver é viver? Depois, como consequência, a nossa cidade ficou cheia de escribas e desavergonhados macacos públicos que sempre enganavam o povo, e já ninguém é capaz agora de levar a tocha, por falta de exercício físico.»
Porque a função do poeta, e ainda mais do tragediógrafo, é ética, pedagógica, elevadora dos costumes e dos espíritos da cidade. Funciona como purificação e catarse colectiva, acto de rememoração e respeito perante a catástrofe sempre à espreita, perante a fragilidade humana sempre implícita. Recapitula igualmente as regras da existência. Ora, o que a nova fórmula moderna de Eurípedes aporta é o contrário de tudo isso. Assenta mesmo em conceitos antitéticos: o escândalo, o arrazoado, a banalidade metida a importante. Não versa o extraordinário, mas o ordinário; não desvendas o elevado, mas o rasca, o venal. Ou seja, por um lado, a modernice transporta para a tragédia os princípios da comédia; por outro, e na essência a acusação principal de Aristófanes, pela personagem de Ésquilo, em termos actualizados, faz da Tragédia uma telenovela avant la léttre.

   «Eurípedes - Porventura não existia já a história de Fedra, ou fui eu que a criei?
     Ésquilo - Não, por Zeus, ela existia. Mas o poeta deve esconder o mal e não o exibir  nem ensinar. É que às criancinhas é o professor que as ensina, e aos adolescentes o poeta. Portanto, é absolutamente necessário que só tratemos do bem.»

Todavia, sendo mais histriónicas, mais espalhafatosas e venais, as peças de Eurípedes atraem enxames, têm mais sucesso popular, sobretudo entre as gentes já de si "desmoralizadas", aturdidas pelos "novos tempos e costumes". Esta "tragédia pop" é para o teatro o mesmo que a sofística é para a filosofia ou o sicofantismo é para a justiça: mera comercialização, pior ainda, mera especulação - da palavra. Pode parecer que, estando nós a investigar o dinheiro, que importância tem isso? Para os gregos, que nos ensinaram a pensar e a raciocinar, a palavra é fundamental: é para o pensamento aquilo que a terra é para a cidade. Sobre ela se edifica, sobre ela se é, vive e respira. Ora, façam o favor de registar, aquilo que a "modernidade" ateniense traduz em relação ao tempo antigo (tal qual todas as "modernidades/sofisticações" ao longo da civilização) define-se, sobretudo, num conceito: desvalorização da palavra. A palavra multiplica-se, prolifera, degrada-se: De valor fundamental e fundamentado a mera ferramenta, mecanismo, utilitarismo, desmesura... Labirinto. Esta degradação mascara-se de sofisticação, progresso, ascensão, mas, na verdade, é um coroamento e entronização nos infernos, o armazém da morte, como explica Aristófanes:

    

      «Criado - Ora, quando desceu, Eurípides mostrou-se aos salteadores, carteiristas e aos parricidas e aos escava-muros, de que há no Hades multidão, e eles. dando ouvidos às réplicas e truques e fintas, enlouqueceram e consideraram-no o mais sábio. E ele excitado, apoderou-se do trono onde estava sentado Ésquilo.
        Xântias - E não foi expulso?
        Criado - Não, por Zeus, mas o povo gritava que se fizesse um julgamento sobre qual dos dois era o mais sábio na arte.
        Xântias - O povo dos velhacos?
        Criado - Sim, por Zeus, com gritos até ao céu!»

        

E a desvalorização da palavra, como revisitaremos adiante, acompanhará, ao longo dos tempos, com retrocessos e processos, uma outra desvalorização: a da própria moeda. Também esta, dum valor fundado no metal (signo da riqueza terrestre), irá perdendo a nobreza metálica até descambar num simples papel volátil (não já convenção/ficção com fundamento, mas ficção pura, ao nível das notas dum jogo popular), onde ambas, moeda e palavra, se arvoram como pouco mais que um meio de transporte pornográfico. Ou seja, a desvalorização corporiza, em medida crescente, uma falsificação. Até ao paroxismo alucinado do nosso tempo em que é o próprio "Estado" a emitir moeda falsa.

Antes de Nietzsche, na "Origem da Tragédia", foi Aristófanes a encontrar os paralelismos íntimos entre Sócrates e Eurípedes, quer dizer, entre a "sofística" (alistava Sócrates entre os sofistas) e a pornonovela. Como cereja no topo do bolo, aqui deixo, tal qual ele nos legou:

  « Estrepsíades - Estás fartinho de ouvir o que é que eu pretendo: trata-se de juros... da forma de não pagar a ninguém.
    Sócrates - Vá lá, vá lá, tapa-te, faz por anatomizar o pensamento em fatias fininhas... Vai meditando nos assuntos em cada um dos seus pormenores, analisando e examinando como mandam as regras.»    - Aristófanes, "As Nuvens"
         «Eurípedes - Depois, eu ensinei essa gente (com um gesto para a assistência) a falar.
           Ésquilo - Eu que o diga. Mas antes de os ensinares, oxalá rebentasses pelo meio!
           Eurípedes - Ensinei-lhes a introdução de finas regras, a medir com o esquadro os versos, a reflectir, a observar, a intuir, a gostarem de voltear, maquinar, supor o pior, a esmiuçar todas as coisas...»  - Aristófanes , "As Rãs

       


sábado, setembro 24, 2022

Adenda ao Postal anterior




 Notem mais uma confissão dos mentirosos inveterados, obsessivos e militantes em reforço da mentecabra anterior: 


Repito: estão a ver quem fornece os semicondutores? Os mesmos que eles rosnam que cancelaram à Rússia.

Enfim, primeiro lançam sanções de fantasia (que mais parecem fatwas) sobre os russos; agora vão-se auto-sancionar ainda mais sobre os chineses. Isto é, depois de se auto-excluirem do fornecimento de energia, vão auto-excluir-se do fornecimento de peças, componentes e acessórios para a indústria. Realmente, com as fábricas paradas para que é que precisam de semicondutores? A limite, com o país atirado ao lixo, por fim, para que é que precisam de pessoas? Só se for para a guerra. Quando acabarem os ucraniosos, pegam nos alemães.
Está montado o manicómio. E os malucos estão na administração e na gestão técnica.

sexta-feira, setembro 23, 2022

O Ursulês explicado aos simplórios




 «À margem de uma visita à Universidade de Princeton, nos EUA, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que as sanções estão a atingir os objetivos.

"Vemos que o setor financeiro na Rússia está em estado crítico. A indústria russa está nas últimas. É muito interessante analisar o setor militar que tem agora muita dificuldade em repor o que é necessário para as forças armadas, têm falta de tecnologias atualizadas. Eram fornecidas por nós e deixaram de ser entregues porque há uma proibição das exportações", disse a chefe do executivo europeu.

"As peças sobressalentes estão em falta. Vemos agora que os russos estão a desmantelar os frigoríficos e as máquinas de lavar loiça para obterem semicondutores que possam ser usados no setor militar. Basicamente, o Kremlin colocou a economia russa no caminho para o desaparecimento", acrescentou von der Leyen»



Um autêntico balde de pérolas, meus amigos, o desarranjo mental da Doida. Por um lado, e logo à partida, denota a consideração que os europeus dum modo geral merecem a estes burrocratas instalados: gado suíno a quem se atiram baldes de lavagem rançosa e abjecta. Já não é rastejar, é imitação da minhoca e do miriápode sob as pedras. E também é, essencialmente, aquilo a que se chama projecção: projectamos a nossa infâmia e degradação moral nos outros, naqueles que por algum motivo esconso odiamos e caluniamos.
Depois, as pérolas... Um primor. Vamos uma a uma:

O rublo está forte; as exportações dispararam para lucros record; estabeleceram acordos com a China e a Índia, entre outros, para desvincularem as trocas comerciais do dólar; o nível de auto-suficência económica do país elevou-se substancialmente (forçado, em boa parte, pelas sanções, que já vêm de 2015); criaram uma rede alternativa ao Swift; etc. Portanto a economia vai bem, mas a finança estertora, segundo a bacoca loura. Óptimo, diria eu. Sinal de que estão a desintoxicar-se consistentemente. Em contrapartida, no oxidente, e sobretudo na europa, nem a economia, nem a finança (que com o rapinanço desavergonhado de fundos alheios se lançou no descrédito internacional - os sauditas, por ex. já estão a tratar de se colocarem a salvo...) vão coisa que se veja: uma está a ir pelo cano; a outra está a rebentar de tanta bolha. O euro, num ano, está semi-lixo; a libra para lá caminha. À data de hoje ia em qualquer coisa como 1.10 USD (tradicionalmente, valia 2.5). A inflacção disparou, a recessão já deita foguetes e as falência desfilam. É a cornucópia ao virar da esquina!

Deve estar mesmo nas vascas. Falta-lhe energia com que funcionar... Não tem gás, não tem petróleo, não tem carvão, não tem energia nuclear e abraçou suicidariamente a agenda verde da treta. Coitados dos russos. As sanções deram-lhes cabo da indústria. Já não fabricam aviões, nem carros, nem foguetões, nem electro-domésticos, nem fertilizantes, nem dispõem de metalurgias pesadas (também não têm depósitos de metais quase nenhuns, enfim, as sanções deixaram-nos tão deprimidos que eles já nem conseguem escavar), nem maquinaria agrícola, nem indústria militar (actualmente já só usam fisgas, lanças e arcos de flecha restaurados das campanhas do Czar de Moscovo), nem construção naval, nem indústrias transformadoras alimentares, etc, etc. Regrediram ao paleolítico inferior baixo. A mioleira desta gaja é que não está nas últimas porque, pura e simplesmente, nunca  foi sequer iniciada. É uma tostadeira avariada que jamais funcionou. Todavia, tenho que confessar: menti ali atrás. Quando escrevi que os russos já não fabricam electro-domésticos. A verdade é que fabricam e de empreitada. Que é para depois poderem retirar peças para os aviões, mísseis e sistemas de comunicações. Perguntem ao Rogeiro cabeçudo, essa espécie avantajada de super-girinostratégico, que ele explica. 

A culpa disto é do Putin. Se lhe acertasse com um daqueles ultrassónicos no toutiço quando vai fazer anilingus a Kiev, já não tínhamos que aturar com estas frescuras. Passava-lhe logo a cassete entalada. Os russos gastam os dias a despejar toda a espécie de engenhos voadores em cima da horda santa de pau carunchoso e ela acha que eles, coitados, experimentam as maiores dificuldades. Em contrapartida, os americórnios, que nem a porra dum foguetão conseguem levantar do solo, são a pujança em pessoa, o ídolo feroz a que cumpre sacrificar o gado inteiro se for preciso. Ou então venderam os componentes todos aos russos e agora, por amor ao lucro cego, ficaram descalços. Por outro lado, os russos têm tecnologias, de mísseis e contra-mísseis mais avançadas (nem me vou referir aos pigmeus europeus)... Mas têm dificuldades em "actualizar-se", diz ela; ou seja, em regredirem, em andarem para trás, em voltarem para a classe infantil. Calculo que sim. Mais até que dificuldade, apostaria mesmo numa completa falta de vontade. Renitência total. Ao contrário da Comichária Ursula e respectiva nomenklatura que estão danadinhos para retornar, em fogoso sprint, e levando com eles a "união" de rojo, à idade pré-industrial. Por mim, força. Tenho terra. Já organizei uma horta de valor e estou disposto a lutar, com engenho e competência, pelos meus legumes, frutas e hortaliças. E ai de quem se aproxime das galinhas!... 



Desde 2015. Tudo o que dizia respeito a semi-condutores já estava sancionado, isto é, bloqueado desde o referendo da Crimeia. Mas o "nós" é que é de levar às lágrimas. Nós, quem? O maior produtor de semicondutores, antigamente, era a Philips. No tempo em que os animais ainda falavam, mas ainda não eram destacados para a Comichão Europeia (porque a UE ainda não existia). O que resta disso, depois de várias peripécias, é uma coisa chamada Nexperia. Propriedade de quem? Claro: dos chineses. Então não tiveram a genial ideia da globalização? Já esqueceram, como esquecem geralmente tudo o que não convém. Mas eu avivo as memórias: deslocalizaram, filhinhos. Tudo para o oriente. Nem os americanos têm actualmente indústria de semicondutores que se veja. Quase nada. A TI (texas instruments) comprou quase tudo o que restava, fechou as boas, autêntico crime contra a história da electrónica, e deslocalizou também grande parte do que sobrou. Está quase tudo na China (continental e Taiwan), a indústria japonesa deslocalizou para a Coreia, Indonésia, Singapura... E a indústria Russa está, imaginem, na Rússia. Pois, existe. Não só existe, como a nível de transistores e diodos está ao nível da japonesa e é superior às restantes (quase tudo material "militar grade");  e em Circuitos Integrados produzem os de nível espacial, necessariamente resistentes à radiação (que são os essenciais para a indústria aero-espacial).  Quanto àqueles semicondutores que eventualmente precisem fora das linhas de produção próprias, imaginem onde vão buscá-los... Ao mesmo sítio onde os Europeus e americanos vão: À China. E se querem comprar japonês, ou taiwanês, compram através da Indonésia, ou da Índia, ou da Malásia, etc. Estão a ver o nível da charlatonice desta perua? Outra coisa, só a nível de curiosidade: quem produz actualmente quase todas as válvulas de qualidade para a electrónica mundial? A Sovtek. Na Rússia. Fabrica para as principais marcas de amplificadores ocidentais e para grande parte das outras marcas de válvulas que ainda restam.

Percebem agora? Isto é a toina a debitar directo da boca de esgoto da propaganda ucranistona. Omitiu, por piedade, os esquentadores inteligentes, os micro-ondas 5G e os tablets ou consolas das criancinhas. É tão mongo, tão anormal, tão abaixo de qualquer qualificação que nem tem comentário. Se não o próprio Zelento, só pode ter sido, de facto, o Rogeiro ou o Milhazes ou qualquer um destes saguins de plantão à causa que lhe podem ter segredado um portento destes. De qualquer modo, quero declarar o seguinte: se alguém acredita nisto, tenho ali uma ponte sobre o Tejo para vender a preço de ocasião. E um carro eléctrico 28, com guarda-freio e tudo! Em resumo: Dá-me a ideia que não é o Putin que está a ficar desesperado.

Gentileza deles. Por esse caminho, não restam dúvidas: Vão de visita à economia europeia. Acto de piedade também: vão ver o primo maluco ao hospício.

Em conclusão, diz o ditado que se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo.  Esta história dos semicondutores, estava-se ainda no fecho da Covid e já toda a indústria automóvel ocidental clamava em completa carência e desespero. Na Europa e nos States. Por causa dos confinamentos, paragens e até fechos de fábricas na China. Foi assunto repetido nos telejornais, e tudo.
À data actual, estamos mais ou menos assim:

«Crise dos semicondutores vai continuar a afetar a indústria automóvel em 2023»


Caso para dizer, quem semicondutores sanciona e stocks não tem, dalgum lado lhe vem. Da boca de esgoto, provavelmente. Da maluqueira turbo. Mas já estamos para lá do delírio: sanções imaginárias. Não são já apenas os resultados que mistificam e martelam: são igualmente os próprios golpes e arremessos. E nem vagamos sequer ao nível das cargas heroicas de quixotes contra moinhos: são mesmo Ixions a emprenharem nuvens. Pelos ouvidos.







quinta-feira, setembro 22, 2022

O triunfo das Sanções (ou serão dalilas?)

 E agora mais desenhos animados para se irem distraindo - enquanto se alambazam com as pipocas - durante o intervalo.

A Rússia malvada, após 6 meses de sanções justiceiras.

Chamo a atenção para as cenas de crueldade extrema, arrepiante ruína e indigência geral que preenchem grande parte das imagens subsequentes. Resvalam claramente para a idade da pedra lascada, os russos maus. Com o novo pacote de sanções que a Ursula Louca mai-los compadres já tiram do forno, meu Deus, estão completamente desgraçados.  Bem, completamente já eles estão, como as imagens documentam. Doravante vai ser mais que completamente: complementemente! Ao quadrado. É só eles atreverem-se a referendar e anexar, e vão ver cm elas lhes mordem ainda mais!.... Já devem estar borrados de medo. Das sanções.



A Roulotte, a esquerda e o burro



 Antigamente, aqui há um bom par de anos atrás, a esquerda correspondia a uma espécie da roulotte de farturas atrelada  ao PCUS (Partido comunista da União Soviética), ou  ao PCRPC (partido comunista da república popular da China). Ambas as roulottes vendiam farturas, mas, como competiam pela clientela, segundo as formosas leis do mercado, odiavam-se e engalfinhavam-se fanaticamente. Talvez com a mesma intensidade e rancor com que moviam batalha às mais básicas formas de racionalidade, memória e sentido de higiene. Confesso que nunca me despertou grande interesse, a esquerda, bem como qualquer roulotte em geral. Mesmo aquelas do caldo verde com chouriço, passo bem sem elas e evito o mais possível. Portanto, longe de mim ser um especialista na "esquerdologia" ou "sinistrolália", ou, dito ainda em bom grego, eskaioscopia . Não sou. E quanto a pornografia, sempre preferi a clássica pictórica à conceptual abstracta.

Só que, actualmente, mesmo para um tipo distraído com outras coisas, desinteressado militante e mirando de longe, a esquerda está - não direi virada do avesso (porque avesso do avesso quase que daria nem sei bem o quê), mas - completamente de pantanas. Isto é, a roullote de farturas, já não vende farturas, nem farturinhas, agora apenas oscila entre a sala de chuto assistido, durante o dia; e o WC para sem-abrigos mentais incontinentes, durante a noite. Dito de um modo mais simples, antigamente era um bombom com recheio de merda; agora é apenas merda sem cobertura alguma. Mas o espírito de roulotte, esse, continua: só que, doravante,  atrelada ao Partido Democrático americano. Deve ser por isso que agora já nem precisam de disfarçar.

PS: A razão porque nunca me aproximei muito da esquerda? Tenho um bom sentido de olfacto. E aquilo avisa a quilómetros. Então agora... mesmo ceguinhos voluntários e inveterados só pisam e se emporcalham todos se quiserem.

PS2: Já agora um pouco de erudição para amenizar o ambiente: esquerdo, no grego skaios (os etimologistas apontam ao basco, mas não estou a tratar da etimologia, refiro-me apenas ao termo grego), significava muito adequadamente, além de esquerdo (lado esquerdo), acidental, de mau agouro, parcial, inútil, ignorante, grosseiro. E referiam a "esquerdice" - skaiosyeh, como inabilidade, idiotice, loucura, estupidez, grosseria. De facto, os gregos sabiam-na toda!

PS3: E não me venham os toxicodependentes da treta e do mau costume com a objecção que a direita é a mesma merda. Aviso já, isso não vale como objecção: é mera constatação ao espelho. Coquetterie esquisita... Auto-ódio.

Sado-Masoquismo

« While political leaders — and their cheerleaders in academia and the bureaucracies — live comfortably on taxpayer-funded salaries, citizens suffer.»

«Edwards of Conwy, awarded the Best UK Butcher (2014-15), says, “Last year I spent 129,000 pounds on energy. I received this quote yesterday for 782,011 pounds — 2,500 pounds a week to 15,000 pounds a week! Any suggestions on how I move forward.” A small fish and chip shop in Oswestry, Shropshire, must pay an energy bill that has increased from 9,000 to 35,000 pounds. »

«In Germany, high energy prices have caused manufacturers to stop production. The countrys finance minister says that the trend in the manufacturing sector is alarming.” And there are dozens of other EU countries where small business owners have expressed their helpless situation on Twitter.»

O nível político actual da Europa é mais ou menos este: Passámos, em modo avalanche, da social-burrocracia e do narco-liberalismo para o sado-masoquismo. Puro e duro. Descer é fácil.

terça-feira, setembro 20, 2022

Da Pedagogia à Demagogia (rep)

 


Olhem, ó leitores, (isto sou eu a armar ao importante), mas o que é facto é que isto me dá um certo trabalho e eu, para não variar, toco mil instrumentos ao mesmo tempo (traduzindo: faço ene coisas de empreitada, e isto é no modo normal) ... Portanto, enquanto não descarrego o próximo capítulo, ainda na Grécia e versando sobremaneira Aristófanes, não perdem nada se forem desentorpecendo as meninges com a reposição que se segue (que é 2 em 1: tem um link para-trásmente sobre o sobredito Aristófanes e ainda, de bónus, um lampejo de Tácito). Ambos muito úteis ao que posteriormente virá. Ora fazem o favor de rilhar   ir rilhando...

                                                           ...//...

Por alturas da decadência grega, ficou-nos de Aristófanes uma das suas mais célebres comédias - "As Nuvens" -, onde se aponta à nova pedagogia (a dos sofistas), a responsabilidade pela ruína moral e, implicitamente, política de Atenas. Sobre este assunto, já aqui publiquei em tempos um postal, cuja leitura recomendo e me dispensa agora de mais elucubrações.


Todavia, o que é extremamente curioso é verificar como na Roma do tempo de Tácito, transparece exactamente o mesmo quadro:

«Dantes, efectivamente, cada filho que se tinha, nascido de mãe casta, era educado, não no quartinho de uma ama comprada, mas no seio e dolo de sua mãe, cuja glória principal era a de governar a casa e servir a seus filhos. Por outro lado, escolhia-se uma parente algum tanto mais idosa, a cuja moral, experimentada e conhecida, se confiava toda a prole de uma mesma casa; diante dela não era permitido nem dizer o que se considerava desonesto fazer. Regulava ela, com uma certa seriedade e pudor, não somente as ocupações e as obrigações, mas até os receios e os brinquedos dos meninos. (...)
Agora, porém, a criança. quando nasce, é entregue a qualquer criadinha grega, à qual se juntam um ou dois dos escravos, quaisquer deles, na maior parte das vezes ordinaríssimos e impróprios para serviços sérios. Das suas histórias e erros se impregnam os verdes, tenros, inexpertos anos; não há ninguém em toda a casa que se preocupe com o que diz ou faz diante do menino seu senhor. nem os próprios pais educam os pequeninos para a decência e a modéstia, mas sim para a ligeireza e a mordacidade, e por aí gradualmente se introduzem a impudência e o desprezo de si mesmo e dos outros. Parece-me até que os vícios próprios e peculiares desta Cidade, o gosto de histriões e o entusiamo por gladiadores e cavalos, se concebem quase no útero materno. Ocupado e obcecado por eles, que poucochinho de espaço deixará o espírito para as actividades sadias? Quantos e quais se encontrarão que falem de outra coisa em casa? Que outros discursos de adolescentes ouvimos nós quando entramos nos auditórios? Nem os próprios professores têm com os seus ouvintes assuntos de conversa que prefiram a estes; atraem os discípulos, não pela severidade da disciplina, não pela experiência do talento, mas pela solicitude nos cumprimentos e pelas atracções da lisonja.»
(Tácito, in "Diálogo dos Oradores")

Mas mais interessante ainda é constatar como esta mesma contraposição pode ser detectada e denunciada no nosso próprio Portugal pré e pós Ovulação de Abril. A descrição de Tácito cai mesmo que nem químico naquilo que poderia ser dito acerca do nosso caso. Ora, se em dois mil anos se realiza um prodígio destes, anda onde a evolução? Ao mero nível do equipamento, decerto (dos Ipodes, Iphones, tablets e outros gadgets que tais). Porque o cabrão do macaco, esse, continua o ogre de sempre. Não está melhor; está apenas mais perigoso.


Acrescentarei que o que define, por regra, a modernidade - nas suas sucessivas eclosões temporais: da Grécia antiga ao nosso tempo, passando por Roma e pelo renascimento medieval (das universidades, pois é) - consiste na substituição duma genuína pedagogia por uma falsa-pedagogia, isto é, a transformação da pedagogia numa demagogia. Ou dito ainda noutros moldes, o abandono duma cultura de princípios por uma estreita, cega e desenraizada obsessão de fins. E não aconteceu, por florescimento maravilhoso, com Descartes, Galileu e Copérnico, como tanto gostam de nos impingir os psico-magarefes de serviço. Tem acontecido, ciclicamente, ao longo da história, com o episódio mais remoto que se conhece a ocidente datando do tempo da sofística grega. E sabemos de ciência certa que assim tem acontecido porque, precisamente, os moldes se repetem.

The Thing

 



O U.S. climate envoy Kerry apela às nações africanas para pararem de poluir tão desenfreadamente o planeta. Convém que se moderem, que diabo! Uma ajudinha, não lhes ficava mal. Para além do mar de indústrias poluidoras que por lá infestam a céu aberto, há ainda a questão, deveras preocupante, de todas aquelas imensas selvas da África Tropical a exalarem CO2  toda a noite. Ou alguém acaba com aquilo, ou ainda morremos todos!... Não é brincadeira nenhuma.

segunda-feira, setembro 19, 2022

O Dinheiro - V. Retribuição e Piedade, ou Entre o Benefício e o malefício

 



O termo essencial do postal anterior, no que concerne ao texto de Aristóteles, é reciprocidade. Sem reciprocidade não existe comunidade. O próprio termo em grego - anti-poiew-  é revelador...  E lá voltamos nós à polissemia das palavras gregas: anti - frequente e correctamente conotado com "em oposição", ou "contra" , também significa "em troca de", ou "comparado a". Sendo que "poiew" (donde a nossa "poesia", por. ex.), significa fazer, criar, inventar, fabricar, produzir, etc.  teremos então que anti-poiew equivale a "fazer em troca", "fazer em comparacão". Donde a expressão: devemos responder com um bem ao bem que nos fazem. Ora, esta reciprocidade nas relações sociais deve ser transposta para as relações económicas, porque a economia, tanto no oikos (a casa) como na polis (a cidade) deve basear-se em idênticos princípios e almejando idênticos fins, ou seja, deve constituir-se um benefício prático tanto para os indivíduos quanto para a colectividade. A proporção é o garante do equilíbrio e a nómisma funciona como equalizador dos con-tratos. Todavia, se a relação política/social antecede e norteia a relação comercial (dito aqui no sentido benéfico do termo), há uma outra comunidade que antecede ambas: a comunidade com o divino - fundadora, garante e, de certa forma, paradigma para a própria existência e persistência da comunidade política e económica. E é com base nesta que tudo o resto funciona. Assim, qualquer benefício, de índole política ou económica, radica num benefício divino primordial. E, segundo a regra da reciprocidade, deve ser respondido na proporção. Daí o sacrifício de agradecimento: retribuição aos deuses, tributo aos deuses na parte que lhe compete.  Sem esta comunicação com o divino, periga a própria comunicação entre os homens. Isto é, sem a sociabilidade plena com os cosmos, nos seus mais elevados representantes, perde o próprio sentido e possibilidade a sociabilidade entre os homens duma polis. Sem o respeito pelos deuses, desaba o respeito pelos heróis, naufraga a tradição e, com ela, os princípios e valores que presidiram, constituíram e projectaram o ser da própria cidade.  Tudo isto é traduzido numa simples palavra: Hierarquia. Traduzido à letra, etimologicamente: fundamento consagrado. Toda a edificação assenta nele e na sua permanência.

Assim, toda a sociabilidade política é condição para a sociabilidade económica e ambas assentam e expressam uma hierarquia. Que significa, sobremaneira, a importância e o valor dos níveis comunitários; dito decrescentemente: o fundador, o político e o económico. Expressa igualmente a cadeia de benefício duma comunidade: a arché, a polis, o oikos. O maior bem reside na origem da própria cidade e patrocina e justifica todos os outros, isto é, todos os outros, políticos e económicos, decorrem dele, são-lhe vinculados. No caso de Atenas, por exemplo, a sua história e a vida dos seus cidadãos nunca se desligam do herói fundador -Teseu -, tanto quanto da deusa padroeira e protectora - Atena. São eles que conferem o sentido e a responsabilidade, que estipulam, tanto quanto um dever, uma dívida. O que os Aristoi (os melhores) representam é a herança mais antiga, a estirpe directa a esse fundamento consagrado. Por isso são eles o topo do poder político, da cadeia hierárquica na própria cidade. Esta, a limite, é mero fruto da charis do divino e do heróico: emerge como acto de benevolência, de favor, de benefício, mas, acto esse, que não se esgota nesse momento inicial e iniciante - tem que ser cultivado e mantido vivo na forma dum reconhecimento e agradecimento permanentes, dos quais resulta a própria permanência e sucesso da polis. 

Transpondo para os tempos de hoje, na minha infância, por exemplo, eram comuns expressões coloquiais do tipo: "até amanhã, se Deus quiser"; "estou bem, graças a Deus"; "que Deus me ajude"; "valha-nos Deus"; (a minha avó verberava também um tonitruante "um r-r-raio te parta", que demonstra, em certa medida, como a minha linhagem remonta a Zeus Pai), etc. Esta familiaridade com o divino, esta presença constante Dele no meio de nós e das nossas peripécias vitais é ainda herança cultural da Antiguidade Grega. Onde o divino era ainda, por assim dizer, duma maior familiaridade  porque os deuses eram mais próximos, interventivos e "humanos". Por outro lado, esse contínuo relembrar de Deus enforma a verdade básica da religião: Tudo provém de Deus, tudo para lá retorna. Nenhum benefício, empresa ou aventura seria possível sem o benefício primordial que Deus nos concedeu: a própria vida. Nenhuma é digna de mérito ou almejando bom porto, sem o seu favor e benevolência. (Vejam lá bem que eu ainda acredito nisto, que ridículo!...E ainda por cima, piamente.) Como podemos andar pelo mundo a reclamar, usufruir ou taxar benfeitorias, esquecendo o Benfeitor-Mor? Os contornos da religião na Grécia Antiga eram muito diferentes do catolicismo, como é óbvio, mas o mecanismo da charis nem por isso. Aliás, aquilo que constitui o algo a que chamamos "Civilização" traduz-se precisamente na manutenção de fórmulas essenciais que se vão transmitindo e trans-formando, mas que, no fundo, permanecem idênticas.

Voltando agora à moeda. Moeda boa, moeda má... Não exprime convenientemente o problema. A moeda é o contrário de estática; a sua natureza manifesta precisamente o contrário disso: é uma circulação, um movimento, toda uma dinâmica desatada. Mais próprio é falarmos em moeda enquanto benefício ou moeda enquanto malefício. Depois do que fomos mapeando atrás, não será difícil, nem me parece abusivo, se estabelecermos que é um benefício quando se insere na cadeia natural  dos benefícios; é malefício quando não a respeita e se investe de poderes excessivos ou, (na terminologia cristã, como depois trataremos) soberbos. E nisto limito-me a seguir Aristóteles.

Podemos, assim, dizer, à nossa data, que o dinheiro se tornou o maior malefício do Mundo, quando degenerou naquela Finança desbragada, ultra-especulativa e demencial. Uma autêntica super peste do planeta, inçado agora de bolhas, cada qual mais pustulenta e fétida que a anterior. No entanto, também existe o bom e regrado uso do dinheiro. Por diversas razões, uns porque a isso se veem obrigados, outros por vocação própria, outros por dura aprendizagem, mas, enfim, não anda tudo a dar na veia dos mercados e bolsas em modo turbo. Estaremos em vésperas alucinantes do Fim do Mundo?

Ora, a verdade é que aquilo que se está a passar connosco já se passou com os Gregos antigos. Por mim, não me custa imaginar a história do mundo como uma enorme cebola. As camadas vão-se sucedendo, desde um núcleo interior mais pequeno, até à camada exterior cada vez maior e, actualmente, já a raiar o descomunal. De Liliput a Megapolis. Mas, de certa forma, as camadas são todas semelhantes. Excepto nas proporções. Ou como diziam os medievais, o microcosmos é igual ao macrocosmos. Pelo que, tanto quanto a lógica, funciona a analogia.

Quem inventou a moeda? Quem precisou dela. A cidade. Troca não apenas de bens, mas de serviços. Uma operação reputada e reconhecida: os mercenários. O próprio nome o refere: combatem a troco de pagamento. Misthotes, a palavra para mercenário também significa jornaleiro. Misthos significa salário. Antes da moeda, recebiam em géneros?  Parcelas das pilhagens, eventualmente. Trabalhavam à comissão do produto angariado. Mas... e as cortesãs? Não eram também elas pagas? Porquê a guerra e não o amor? Na Babilónia, prostituíam-se no próprio templo e em prol dos próprios deuses. Mas é da Grécia que tratamos. Na Lídia, que não era bem a Grécia, mas ficava mesmo ao lado: pagou-se pelo amor antes de se pagar pela guerra - em moeda, quero eu dizer? O certo é que parece que eram elas as mais abonadas e contribuintes. Não há certeza para qualquer uma das hipóteses. 

Como qualquer benefício, a moeda inseriu-se na cadeia natural dos benefícios. Cumprindo a hierarquia. Creso cunhou, mas Creso, famoso pela sua riqueza, não era menos famoso pela sua piedade. O seu reconhecimento e ligação ao deus são proverbiais. Sebas, no grego: temor religioso, respeito, pudor, santidade, majestade, mas também fama, honra. Ora, a piedade diz-se: Eu-sebas (donde o nosso grande Eusébio, que Deus o guarde!); que pode traduzir-se por um "bom temor", "bom respeito", "boa majestade", ou "boa fama", "boa honra". Creso tinha uma boa fama, porque era uma majestade piedosa, uma "boa majestade". Ao respeitar acima dele fazia-se respeitar abaixo de si. Na tal cadeia hierárquica natural, que também podemos chamar de "cósmica". Depois, num momento terrífico de provação e à beira de ser queimado vivo, por quem brada ele? Por Solon. Vale a pena acompanhar o relato directo de Heródoto:

 « Este fê-lo subir, carregado de ferros e cercado de quatorze jovens lídios, a uma grande fogueira erguida para sacrificar a alguns deuses as primícias da vitória, ou para cumprimento de um voto, ou, talvez, para  comprovar se Creso, cujo espírito piedoso era tão proclamado, seria preservado das chamas por alguma divindade. Já sobre a fogueira, o rei dos Lídios, apesar da dor cruciante que experimentava, lembrou-se das palavras de Sólon, de que “nenhum homem pode dizer-se feliz enquanto respirar”, palavras que então lhe pareciam inspiradas por um deus. A esse pensamento, assegura-se ter ele, com um longo suspiro, saído do silêncio em que se vinha mantendo, exclamando por três vezes: “Sólon!” Ciro, ouvindo-o, perguntou por intermédio dos intérpretes a quem invocava o prisioneiro. Creso, a princípio, nada respondeu; mas, compelido a falar, disse-lhe: “É um homem cujo convívio eu preferiria às riquezas de todos os reis”. Parecendo aos persas obscura aquela resposta, eles o interrogaram de novo. Vencido pela insistência, Creso respondeu afinal, declarando que certa ocasião Sólon, de Atenas, viera à sua corte, e tendo contemplado todas as suas riquezas, nenhuma importância lhes dera. Tudo acontecera, porém, como Sólon previra, embora seu discurso não tivesse sido dirigido especialmente ao rei dos Lídios, pois era antes uma advertência a todos os homens em geral e, sobretudo, aos que se julgam felizes. Assim falou Creso. O fogo já havia sido ateado e a fogueira já começava a arder pelas extremidades quando Ciro, recebendo pelos intérpretes a resposta do soberano vencido, arrependeu-se do seu gesto. Lembrou-se de que também era um ser humano e que, não obstante, estava fazendo queimar um seu semelhante, que não se julgara menos feliz do que ele. Por outro lado, temia a vingança dos deuses; e refletindo sobre a instabilidade das coisas humanas, mandou apagar imediatamente a fogueira e fazer descer Creso e seus companheiros de infortúnio. Todavia, os maiores esforços já não conseguiam debelar a violência das chamas.  Então Creso, segundo relatam os Lídios, informado da deliberação de Ciro e vendo aquela multidão açodada, tentando extinguir o fogo sem consegui-lo, invoca em altos brados a proteção de Apolo, suplicando-lhe que, se as suas oferendas lhe foram agradáveis, o socorra e o salve de tão iminente perigo. Essas súplicas eram acompanhada de copiosas lágrimas. De súbito, num céu límpido e radioso, nuvens pardacentas se aglomeram; desaba uma tempestade, e a chuva, caindo em abundância, apaga o fogo. Tão prodigioso facto veio mostrar a Ciro o quanto Creso era querido pelos deuses por suas virtudes. (...)»

          - in Heródoto, "Histórias" (Cleo)

Apeemo-nos, mais uma vez, miseravelmente, no nosso tempo. Que fama têm os nossos nababos actuais - os Bill Gaitas, os Soros e outros falsários de alto coturno? Acham que é uma boa fama? Que majestade exalam? Que respeito pelo acima e pelo (ou do) abaixo? Eu digo-vos, caso não haveis reparado: estão nos antípodas. Impiedade pura e dura; desrespeito absoluto; impudor à solta. E porquê? Porque a hierarquia está invertida e o mundo está de patas para o ar. O mais baixo, o menos digno está por cima de tudo, pura e simplesmente, a conspurcar do alto. Mas é venerado, só que não é uma boa veneração: é a massa rastejante a remirar-se e estupefazer-se com a sua própria Hiper excrescência... O seu tumor sebáceo. Cenário digno dum Lovecraft.  Retirada a verdadeira hierarquia, sobra o merceeiro tiranete auto-arvorado a semi-deus, autofundação própria e balofa, entre a língua viperina, o miolo símio e o orifício anal roncante.  Na realidade? Não, pura ficção. Pura superstição económica, a limite. Completo desligamento da comunidade, de que se usam, mas em nada servem (a não ser no sentido de a perverterem e nadificarem ainda mais). Mas, repito, seremos nós o cúmulo do desfortúnio, o zénite da catástrofe, o desastre culminante de todos os desastres? Para já, uma pausa nos trabalhos, que a arenga vai longa. 

Antes da revisitação ao desastre grego, pela pena, entre outros, de outro gigante: Aristófanes.

PS: Lembram-se, no postal anterior, quando Aristóteles fala do bem que nos fazem, também fala do mal. E se não podemos retribuí-lo, ao mal, como é que nos sentimos? Como escravos. Que na "Política" ele define especificamente como: ferramentas, instrumentos. Só que transpondo, ainda, a estes nossos tempos, dá qualquer coisa como ferramentas de ferramentas de ferramentas... Do dinheiro? 


 

domingo, setembro 18, 2022

Censura retroactiva ou automutilação histórica


                                                  «O passado está ser reescrito tão depressa que não vamos saber o que                                                          vai acontecer ontem.»

                                                                - Piada soviética.


« Christian and Islamic scripture, including the New Testament of the Bible, should start carrying warnings for passages deemed “anti-semitic,” a coalition of Jewish groups has asked.

The European Jewish Congress, which represents several Jewish groups, asked for such changes in its Catalogue of Policies to Combat Antisemitism, released last week.

“Holy Writ such as the New Testament or the Qur’an, as well as the writings of authoritative religious authors, doctrinal texts and religious laws need to be scrutinized for antisemitic contents,” the document states.»

Os esquisitinhos têm muito que podar. Toda a civilização europeia, da Antiguidade Clássica à contemporaneidade e arredores está carregada de depreciações recorrentes (e curiosamente coincidentes) aos apartheidchiks milenares. Mas eles querem escrutinar. Fazemos assim: escrutinam os escritos das outras religiões; os das outras escrutinam os deles. O Talmud, por exemplo, vamos também colocar cordões sanitários ao racismo desenfreado, à misantropia impenitente, à pedofilia ufana, ao supremacionismo digno duma psicopatia paranóica. Temo bem que, no fim da poda, não reste quase nada.

Mas, já agora, uma questão cândida: afinal o que é um judeu?  - É uma religião? É uma raça? É uma língua? É um projecto geopolítico?

Sabe-se bem, por exemplo, o que é um sionista. Mas nem todos os judeus são sionistas. E o sionismo remonta ao século XIX. Ora, o judaísmo, enquanto religião, é milenar. Enquanto "raça", todavia, já ninguém percebe nada: os sefarditas, que são os judeus originais, semitas, nem são os dominantes, por exemplo, em Israel. Os outros, os tais askenazi, ultra-dominantes, que nem semitas são, olham-nos de cima para baixo, como se de inferior pedigree, e eles, os neo-eleitos, uma excelsa espécie de judeus arianos, passe o paradoxo. Isto é denunciado no próprio Israel. Não há apenas apartheid com palestinianos, há discriminação racial com sefarditas.

Portanto, como é que raio um anti-semita honesto e bem intencionado vai sequer orientar o seu preconceito? Complicado. No mínimo, vai cobrir-se de ridículo. Vai bradar contra judeus que, a limite, e bem vistas as coisas, não são sequer judeus de religião, nem de raça, nem de língua. São, portanto,  pseudo-judeus... Judeus postiços. De arribação. De judeus só têm o nome, a máscara. Em bom rigor, uma espécie de cucos que usurparam o ninho dos outros e que usam a identidade dos autênticos como disfarce e trampolim para sabe Ihavé que tranquibérnias. Aliás, algumas até são conhecidas e bem sangrentas por sinal.

Chegamos assim a um ponto alucinante e extremo em que o próprio anti-semitismo se torna uma impossibilidade. Até porque também foi usurpado pelos próprios cucos askenazi: odeiam semitas, sejam eles sefarditas sejam outros pencudos árabes quaisquer. Não obstante, são estes anti-semitas efectivos e fogosos que estabelecem, disseminam e financiam a nova superstição do "anti-semitismo" pandémico, endémico e sempre-viçoso. Mais, alimentam-se e vitaminam-se nisso. O que o define não é sequer uma religião, uma raça, uma língua, mas um ódio. Um ódio que precisam de projectar nos outros para justificar aquele que lhe corrói as entranhas, da tripa inferior à tripa mental que neles desempenha o lugar do cérebro. Um ódio que refinam num alambique de monomania convulsiva, cujas circunvoluções não se restringem ao presente, mas alastram e metastizam, em espécie de praga contaminante e infestante, pelo próprio passado. Não vão apenas reinventar e falsificar a história ou a cultura alheia, vão sobretudo, reinventar e recondicionar os "judeus", a sua história e a sua cultura. É a própria ideia e o próprio conceito da espécie "judaica" que urge refazer, recauchutar e reeducar. E um dos passos cruciais desse tenebroso empreendimento traduz-se na redução de todo e qualquer indivíduo judeu à espécie "judeu", isto é, cometem exactamente o mesmo abuso do anti-semitismo genuíno, só que agora com o intuito invertido. Poderíamos mesmo definir este pseudo/neo-anti-semitismo como o fato do anti-semitismo vestido do avesso. O orgulho ancestral é convertido na vitimização perpétua, inaudita, consagrante. Nesta nova pseudo-religião, o Holocausto representa a consagração mundana da super-vítima; o pacto, a arca da Aliança já não é entre Deus e o homem, mas entre uma "plutofacção iluminada e policiante" e o seu rebanho de portadores vitalícios de vitimização inoculada. Ser Judeu é ser a suprema Vítima, actual, potencial ou intemporal. Há neste pseudo-anti-semitismo qualquer coisa de método de vacinação compulsiva por injecção do agente patogénico: é nessa putativa imunização pela infecção, nessa permanente reacção ao vírus anti-semita,  que se segrega e consolida a nova identidade judaica. A supremacia da Vítima pedala em tandem sincronizado com a sua perpetuação, isto é, a suprema vítima é também a vítima perpétua.

Exagero? Nem um milímetro:

«Jewish Leaders Fear An End to Antisemitism Could Lead To A Loss Of Jewish Identity»/

«Anti-Semitism is strengthening the Jewish identity of young people»

Quando Gilad Atzmon diz, com imensa piada, que "antigamente, anti-semita era alguém que não gostava de judeus; mas agora é alguém de quem os judeus não gostam", está em parte a ser realista, mas num detalhe, penso eu, falta à verdade: quando refere "alguém de quem os judeus não gostam". Aqui devia corrigir para alguém  que os pseudo-judeus, por qualquer motivo, interesse ou pretexto geralmente sórdido, detestam. E cancelam; tendo sido daí, aliás, que brotou toda a pimpona cultura do cancelamento que, qual olho de Sauron, tudo perscuta e envenena. Também, invariavelmente, processa-se a um nível muito rasteiro. Porque o anti-semitismo, o autêntico, derivava de estereótipos, isto é, generalizações abusivas com base em actividades pouco edificantes de parcelas do conjunto - tratava-se, grosso modo, do exagero duma característica concreta, de modo a torná-la identidade absoluta (do estilo, ser judeu é ser, única e exclusivamente, usurário; transpunha, violentamente, do "alguns judeus" para "todos os judeus"). Em contrapartida, o pseudo/neo-anti-semitismo decorre da pura ficção, do mero auto-engendramento de conveniência, "qualquer judeu é agora todos os judeus", a mínima crítica ou mera alusão menos ultrapasteurizada é agora crime de lesa-holocausto, conspiração latente para judaicídio. O judeu é degradado novamente a insecto, só que doravante insecto colectivo: vespeiro, mirmipolis. Reage em bloco, em forma de nuvem zumbidora ou marabunta desfolhante. Mas não exactamente na realidade (a nuvem ou a marabunta não são concretamente pessoas, mas apenas ruído, sound-bit, débito megafónico, ultra-amplificado e repetido nos mass-media levados pela trela). Resume-se tudo a uma espalhafatosa encenação em contínuo feedback. E quem trata disto são os auto-eleitos representantes dos "eleitos". A tal plutofacção sequestradora e ventríloqua. Que agita, brande e dá voz ao espantalho. E o espectáculo dura enquanto durar o feedback ensurdecedor e o aturdimento generalizado que daí resulta. Mas também o medo que entretanto se vai instilando e impregnando as "massas". Sejam estas as judaicas genuínas, sob permanente ameaça fantasmagórica, sejam as gentias (sobremaneira oxidentais), sob constante escrutínio e culpabilização. 

Onde toda esta comédia bufa conduz, não sei exactamente. Sei apenas que, como tudo neste mundo, um dia acaba. E a fazer fé na lei geral, não vai acabar nada bem. E se já é péssima em vida, nem quero imaginar à hora da morte.

PS: quando eu escrevo, aí atrás, que o anti-semitismo, o autêntico, derivava de estereotipos fui incompleto. Derivou também, e bastante, especialmente no século XIX, no pré-nazismo, de arremedos. Macaqueações ao contrário. Os nazis e os sionistas são filhos da mesma cepa, para não usar uma palavra começada em p. São duas faces, opostas, da mesma moeda. Isso, aliás, está mais do que documentado.

sexta-feira, setembro 16, 2022

O Dinheiro. IV - A outra Face da Moeda




 Voltamos a Aristóteles. É a maior fonte da Antiguidade, por duas razões: é o maior colector e organizador de tudo o que está antes de si; é o maior influenciador de tudo o que vem depois de si. A sua sombra tutora não atravessou séculos, atravessou milénios. Foi a Autoridade do mundo até à Idade Moderna, e foi contra ele que se ergueu a modernidade. Da minha parte só posso dizer uma coisa sobretodas simbólica: de todos os humanos que de algum modo conheci, vivos e mortos, Aristóteles é o único com quem não me atreveria, em modo ou tempo algum, a discutir. É o mestre absoluto. E notem que não sou apenas um gajo de exageros e hipérboles: tenho, desde pequenino, uma noção feroz de justiça. E de saber reconhecer a grandeza quando a vejo. Diante de Aristóteles é como diante de Bach ou da catedral de Chartres. Perdão pela franqueza, mas sobre isto ficamos conversados.

A seguir, um pequeno tratado de economia, válido até aos dias de hoje. Leiam com atenção e depois meditem: isto foi escrito há quase 25 séculos. Do resto, falamos a seguir...


«Nas relações de troca que têm por quadro a comunidade, é este tipo de justo, o recíproco, é verdade, segundo a proporção e não na base de uma estrita igualdade, que mantém a dita comunidade. O que faz subsistir a cidade é o facto de dar na proporção do que se recebeu. Fizeram-nos mal? procuramos retribuir, e se tal não for possível sentimo-nos na situação de um escravo. Fizeram-nos bem? Se não retribuirmos, deixa de haver comunicação, e, no entanto, é a comunicação que nos liga inabalavelmente uns aos outros.

Eis também porque se ergue um templo às Graças (charites) num local onde esteja ao alcance de todas: é para ensinar a retribuir os benefícios recebidos. É isso que é próprio da graça: é preciso Não só pagar na mesma moeda àquele que deu prova de graciosidade, mas ainda tomar por si próprio a iniciativa dum gesto gracioso. O que torna esta troca conforme a proporção é a adição dos termos diametralmente opostos.

Um exemplo: seja A um arquitecto, B um sapateiro, C uma casa e D um par de sapatos. O problema é, pois, este:  arquitecto deve receber do sapateiro o trabalho deste e dar-lhe em troca o seu próprio trabalho. Estabelecendo, em primeiro lugar, a igualdade proporcional destes diferentes produtos e realizando, em seguida, a reciprocidade, obter-se-á o resultado acima mencionado. Senão o mercado não será equilibrado e a comunidade não subsistirá. Nada impede, com efeito, que o trabalho, de um tenha mais valor do que o mercado de outro, e, neste caso, é necessário restabelecer-lhes a igualdade [no sentido do equilíbrio entre os pratos duma balança*].

Isto é igualmente válido para os outros ofícios: estes estariam em perigo se o que o consumidor consome não fosse, em quantidade e qualidade, o mesmo que o consumidor produz. Pois, não são dois médicos que constituem uma comunidade, mas um médico e um cultivador, digamos em geral diferentes e não iguais, mas que é necessário equalizar entre si para que possam entrar em tratos.

Também todos os bens que são objecto de troca devem ser comparáveis, de uma ou de outra maneira. Foi por isso que se colocou em circulação a moeda, a qual se tornou de qualquer forma um meio termo (méson): mede todas as coisas e também, por conseguinte, o excesso e o defeito, permite igualmente estabelecer quantos pares de sapatos são necessários para fazer o equivalente a uma casa ou a uma dada quantidade de comida. É preciso, pois, que a relação que existe entre um arquitecto e um sapateiro se encontre entre tantos pares de sapatos e uma casa (ou dada quantidade de comida). De outro modo não haverá nem troca, nem comunidade. Ora, esta troca só poderá ter lugar se os produtos forem iguais de uma certa maneira. É preciso, pois, como dissemos mais acima, que uma única unidade possa medir todos os produtos. Ora, o que esta unidade comum mede é, de facto, a necessidade, que mantém tudo interligado. Supondo, com efeito, que não se tenha qualquer necessidade, ou que as necessidades não sejam idênticas, a troca seria então nula, ou efectuar-se-ia de maneira diferente. Mas foi como substituto da necessidade e por convenção [a tal "ficção"**] que se fez a moeda. Se ela tem o nome de moeda (nómisma), é justamente porque não existe de forma inata, mas por costume convencional (nomos), tendo nós o direito de mudar o seu valor ou de o suprimir. Haverá, pois, reciprocidade quando as mercadorias forem equalizadas, de forma que a relação existente entre um cultivador e um sapateiro se possa encontrar entre o trabalho do cultivador e o do sapateiro [...] É a necessidade que, ao fornecer de algum modo uma unidade comum, mantém tudo interligado. Isto é evidente: se a necessidade recíproca vier a desaparecer - por as duas partes ou unicamente uma delas não tiverem qualquer necessidade -, a troca já não pode efectuar-se. O mesmo acontece se alguém tem necessidade do que não possui pessoalmente - por exemplo, de vinho - e propõe em troca uma licença de exportação de trigo. É preciso pois chegar aqui à equalização das necessidades. É preciso, por outro lado, pensar nas trocas futuras. Se de momento não se tem qualquer necessidade, o dia virá em que tal acontecerá e em que a troca será possível; é preciso, pois, que a moeda seja para nós a caução, porque aquele que dá deve poder receber. Sem dúvida, mesmo a moeda está sujeita a variações, o seu poder de compra não é sempre o mesmo, mas tende, pelo menos, para uma grande estabilidade. É preciso, pois, que todas as coisas sejam apreciadas, é assim que se tornará possível efectuar a troca em qualquer altura e, por consequência, a comunidade. Na verdade, é impossível tornar comensuráveis coisas tão diferentes; mas pode fazer-se convenientemente se se tiver em atenção a necessidade. É-nos, pois, precisa uma certa unidade, e esta unidade não pode ser estabelecida a não ser por convenção. Eis porque se chama moeda. A moeda torna todas as coisas comensuráveis. Não há associação sem troca; não há trocas sem igualdade; não há equalização sem comensurabilidade. Seja A uma casa; B dez minas; C uma cama. A é metade de B, se supusermos que a casa tem um valor de dez minas, quer dizer, igual a cinco minas, e a cama C é um décimo de B. Quantas camas são necessárias para obter um valor igual ao da casa? É evidente que são necessárias cinco. É manifesto que era desta maneira que se operavam as trocas antes de ser instituída a moeda. E, de facto, trocar cinco camas por uma casa ou trocar o seu equivalente em dinheiro por essa mesma casa, acaba por ser a mesma coisa.»

  - Aristóteles, "Ética a Nicómaco" (V)


Dois mandamentos apenas fundaram a Civilização Grega e, decorrentemente,  a nossa, pelo menos até ao seu óbito: "Haja medida; e "conhece-te a ti mesmo".

Num dos diálogos de Platão, visita-se o sofista mais famoso da sua época - Protágoras. Dizia, de sua justiça, que o "homem é a medida de todas as coisas".

Neste texto, em epígrafe, Aristóteles afirma que a moeda (nómisma) é a medida (méson) de todas as coisas. É através dela que a comunidade equaliza/equilibra (pesa) as relações de necessidade recíproca que a congrega. Este será, dito num certo sentido, o emprego natural e justo da moeda. Realço que o Livro V, da Ética, onde o texto se insere, versa sobre a Justiça. Não menos curioso é o termo grego para a tal equalização: omoios. O mesmo termo, noutro contexto, com que os Espartanos se designavam entre si (os semelhantes). Se alguma vez vos interrogastes sobre a origem da palavra "homem", aí o tendes. Não vem do antropos, nem do andros grego. Vem do omoios (e viaja pelo Homo latino). O mapa do labirinto do Mundo está registado nas palavras. Tanto na sua face luminosa, como na sua face negra (que, na decadência, se mascara de iluminada). E não é por acaso que na língua grega as palavras, regra geral, eram ambíguas e dissemânticas: tem a ver com a tal medida - a coisa no seu defeito e no seu excesso. Aquele que mede busca, justamente, a justa medida da coisa. Sem isso não há, como diz o Filósofo, possibilidade de comunicação. Sociabilidade, entenda-se.

E não é isso que fazemos, aqui, à nossa medida: comunicação?  E que dou eu, e que recebo em troca? Releiam, sff, aquele parágrafo, lá acima, sobre as Graças. Um blogue também pode ser um acto de "charites".


* - Nota minha para ajudar à compreensão.

** - Idem



quinta-feira, setembro 15, 2022

Capitão América - New World Order

 Mais um breve intervalo para publicidade...



Entretanto, penitencio-me aqui, publicamente, desde já: Confesso a minha tremendas ignorância. desconhecia completamente a existência de Sabra, a super-herói israelita.

Meu Deus, como posso ter vivido este tempo todo na escuridão?!...

Por seu turno, a Universidade Yeshiva, fundada no final do século XIX "para promover o estudo do Talmud, em Nova Iorque, vejam lá bem, é a figura central desta notícia:

Quanto aos LGTrêta... pá, habituem-se. O excepcionalismo existe. Mas não é para todos. Poderão até estar acima dos humanos, mas ainda girinam muito abaixo dos semideuses.   Enfim, caso para dizer (destes tais LGTcoiso): Pelos vistos visto estudam, mas não aprendem. Se calhar, já que a teoria não entra, o melhor, mesmo, é passarem logo ao laboratório prático, do tal Talmud... E encetarem experiências de campo, como esta, por exemplo:

«Israeli settlers attacked a Palestinian man, breaking both his arms. Then the army arrested him.»

Tudo isto a não perder, num cinema perto de si:


O Dinheiro. III- Os Lídios, um povo heurístico

 


                                                                                                 «Riche comme Crésus»


«A Lídia não oferece, como outros países, maravilhas dignas de figurarem na história, exceto as palhetas de ouro arrancadas do Tmolus. Vê-se, entretanto, ali, uma obra bem superior às que admiramos em outras partes (salvo, naturalmente, os monumentos do Egito e da Babilônia): o túmulo de Aliata, pai de Creso. A base é composta de grandes pedras, e o resto, de argamassa. Foi construído às expensas de negociantes, artesãos e cortesãs. Cinco placas, colocadas no alto do monumento, subsistiam ainda no meu tempo, assinalando, por inscrições, a contribuição de cada uma das três classes para a ereção do grande monumento. Segundo uma dessas inscrições, a contribuição das cortesãs foi a mais considerável, pois todas as jovens, na Lídia, se entregavam à prostituição. Com isso formavam o dote e continuavam no negócio até casarem-se, cabendo-lhes o direito de escolher o esposo. Ao lado do monumento existe um lago que nunca seca, segundo afirmam os Lídios. É o lago Gigéia, como o denominam.

As leis dos Lídios muito se assemelham às dos Gregos, exceto no tocante à prostituição das jovens. De todos os povos dos quais temos conhecimento, foram os Lídios os primeiros a cunhar moedas de ouro e de prata, e também dos primeiros a se dedicarem à profissão de revendedor. Atribuem-se-lhes a invenção de diversos jogos atualmente em uso, tanto entre os naturais do país como entre os Gregos, afirmando-se que, na ocasião em que tais jogos foram inventados, enviou-se uma expedição à região hoje ocupada pela Tirrênia, para a formação, ali, de uma colônia. Eis como se narra o fato: No reinado de Átis, filho de Manes, toda a Lídia se viu flagelada pela fome, suportada com paciência durante algum tempo. Vendo, porém, que a situação não melhorava, o povo começou a procurar um remédio para minorá-la, cada um imaginando-o à sua maneira. Nessa ocasião foram inventados os dados, o jogo da péla e todas as outras espécies de jogos, exceto o das damas, do qual os Lídios não se consideram os autores. Vejamos o uso que os habitantes fizeram de tais invenções para enganar a fome cada vez mais premente. Jogavam alternadamente durante um dia inteiro, a fim de distrair a vontade de comer, e no dia seguinte comiam e não jogavam. Assim continuaram pelo espaço de oito anos; mas o mal, em vez de atenuar-se, mais se agravava. O rei, então, dividiu os Lídios em dois grupos e mandou-os tirar a sorte; um deveria permanecer, e o outro retirar-se do país. Aquele a quem coube a sorte de ficar tinha por chefe o próprio rei, enquanto que seu filho Tirrênio se pôs à frente dos emigrantes.»

- Heródoto, "Histórias"

Pois parece que, os Lídios, tirando o das damas, inventaram "todos" o outros jogos, e até aquele que se viria a tornar o mais popular o obsessivo da História da Humanidade: o jogo do Dinheiro. Ou seja, segundo Heródoto, inventaram a moeda cunhada e o comércio profissional. Como ele não refere a autoria concreta da cunhagem, uma coisa podemos alvitrar, sem grande margem de erro: na época de Creso (dois séculos adiante), seguramente era Creso. Como pano de fundo importa ainda relevar o enorme tesouro de Creso. Como contribuintes principais, à epoca e respectiva cultura/costumes da cidade (porque as cidades não são todas iguais, muito menos as regiões e os povos), são referidos os negociantes, os artesãos e as putas (comércio, indústria e serviços). Seria pois por aí que circulava mais moeda e fonte de colecta. Como se processaria o "espírito" do saque, isto é, a que título sua senhoria reclamava o tributo?

Há um episódio muito sugestivo, que o mesmo Heródoto conta acerca do mesmo Creso:

«Momentos depois, volvendo os olhos, viu os persas ocupados em saquear a cidade de Sardes.
 “Senhor, — exclamou, dirigindo-se a Ciro — é-me permitido dizer o que penso, ou minha situação obriga-me a calar?”  
Ciro disse-lhe que podia falar com franqueza.
 “Pois bem, — volveu Creso — essa multidão, que faz ela com tanto ardor?”
 “Saqueia tua capital e carrega-lhe as riquezas”.
 “Não, senhor, não é, absolutamente, a minha cidade que eles saqueiam; não são as minhas riquezas que eles estão pilhando. Nada disso me pertence mais. Eles agora se apoderam do que é teu”. 
 Chocado com a observação, Ciro ordena aos presentes que se retirem e pergunta a Creso qual a medida que deveria tomar em semelhante contingência. 
“Senhor, — responde-lhe Creso — como os deuses me tornaram teu escravo, julgo-me no dever de advertir-te sobre o que mais vantajoso me pareça, quando o percebo melhor do que tu. Os Persas, indisciplinados por índole, são pobres. Se permites que eles pilhem esta cidade e retenham os despojos, é provável que quem lograr o melhor quinhão se disponha à revolta. Se aprecias meus conselhos, ordena a alguns dos teus guardas que se coloquem à entrada da cidade e exijam de tuas tropas os despojos, sob o pretexto de que é preciso consagrar a décima parte a Zeus. Por esse meio não atrairás o ódio dos soldados, embora privando-os do produto da pilhagem; e quando eles souberem que não queres nada para ti, obedecerão de muito boa vontade.»

Creso era afamado pela sua imensa fortuna/tesouro, mas também por ser um soberano piedoso. Será que cobrava tributo em nome dos deuses, como recomendava a Ciro? E outra questão ainda mais pungente, e pertinente, será que o dinheiro/moeda, pai da crematística, e que se atribui ser filho do negócio/negociante, afinal é filho da puta/serviço? *

Estou perplexo.


* E do artesanato mais ou menos industrial, materialmente, sem dúvida; alguém forja e cunha as moedas. E sem isso, nada feito.