quarta-feira, janeiro 16, 2008

Intolerância ao cativeiro



Dragão menino, houve uma época em que me dediquei à colecção de pássaros. Pintassilgos, verdilhões, bicos-de-lacre, capturava-os em armadilhas de visgo e engaiolava-os durante uma temporada. Pardais, piscos, carriças, felosas era escusado. Ao contrário dos anteriores, não se aguentavam na prisão. Enmurchesciam, não comiam nem bebiam, por mais insectos ou incentivos que eu lhes desse, feneciam e morriam a breve trecho. Deixavam-se morrer, melhor dizendo. Antes a morte que tal sorte, deviam eles pensar. E, no meu modesto entender, hoje que penso nisso, pensavam bem.
Descobri assim que havia aves tolerantes e aves intolerantes ao cativeiro. As granívoras adaptavam-se com relativa facilidade, as insectívoras nem por sombras. As intolerantes eram as que tinham mais amor à liberdade. Não a uma liberdade qualquer, conceptual, inefável, retórica, mas uma realidade concreta, vital, irredutível: a sua.
Da mesma forma, apenas em palco diverso, quando os labregos caras-pálidas à conquista da Terra prometida deram com os Sioux e lhes infernizaram a vida, descobriram rapidamente que os pele-vermelhas não se aguentavam em cativeiro nem, pior ainda, serviam para trabalhar. Os índios, diabos os levassem, eram completamente intolerantes ao trabalho e à escravatura. Foi então que os colonos começaram a importar africanos, peles-escuras exóticos que, ao contrário dos pele-vermelhas residentes, eram duma tolerância magnífica à canga e ao chicote.
Uma tolerância semelhante, se bem que encoberta e edulcorada com balelas do Santo Mercado, é o que se procura e promove com a mão-de-obra emigrante destes nossos dias. É essa a tolerância-mor que se destila sob o adestramento frenético e obsessivo em todas as outras tolerâncias.
O mais engraçado disto tudo é que tinha mais civilização na unha dum pé um Sioux que qualquer um daqueles babuínos protestantes por todo ele todo abaixo. No entanto, acabaram com a civilização dos Sioux. E depois vieram acabar com a nossa. É nisso que andam.
Houve civilizações que caíram às mãos de bárbaros. A nossa, desgraçada maior, está a finar-se às patas de macacos engravatados.

PS: Os pássaros cativos da minha infância, não chorem as queridas leitoras, pois não morreram na prisão. Após um breve purgatório chilreante, devolvi-os à liberdade. Tal qual a morte, um dia destes, me há-de devolver a mim.

9 comentários:

assinado: anónimo disse...

«Tal qual a morte, um dia destes, me há-de devolver a mim.»

Hoje o Senhor Dragão acordou poético..., mas só para certo nicho de Leitoras... (não chorem as queridas leitoras), as que choram com a sua prosa!

Será que a Zazie vai por ai aparecer a chorar???

cds disse...

Nesse sentido, se formos a ver, os portugueses também são um bocado peles vermelhas. Deixam-se colonizar com respectiva facilidade e de braços abertos, e nem sequer servem para trabalhar. Com a diferença de terem unhas dos pés extra-longas, mas nem sombra de civilização. Muito menos nobre, morrer assim, açaimado e sem aspirações.

Mas concordo, a morte que nos devolva à liberdade, que em vida, está a ficar cada vez mais difícil...

Anónimo disse...

Olha!!!!!!!!!!!
o CDS agora virou também poético. É do Portas, é do Portas!

zazie disse...

mais outro excelente!

cds disse...

Alto lá: quanto a si, não sei, mas posso garantir-lhe que eu não virei, nem planeio fazê-lo.

Já quanto ao Portas, ele que zurra por si. Tal como o estimado anónimo: está no seu pleno direito.

acoral disse...

Fónix, é com cada um (postas do Dragão) que até ando de lado! Não entendo nada (muito pouco) do que escreve, é muito à frente, shame on me!!!

Mas vale sempre a pena, leio e releio e transleio e recontraleio, e lá retenho alguma coisita.

Mas é sempre muito bom cá vir lê-lo, juntamente com a cx de coments (sempre ajuda à compreensão das postas) fico com a sensação de que afinal ainda existem boas pessoas.

dragão disse...

Se é poético chamar queridas às leitoras então eu sou poético.
Desconhecia é que paravam aqui leitores que, pelos vistos, ficam com ciúmes das leitoras.
Lamento muito, mas, nesse singular departamento, não posso fazer nada por eles. Recomendo que se dirijam ao "Renas e Veados". Lá é que eles, segundo ouvi dizer, chamam queridos aos leitores.

assinado: anónimo disse...

Ah! Ah! Ah! o que é isso de "Renas e Veados"??? Chifres e mais chifres??? E fica no Largo do Caldas???
Se ficar então é o clube do Paulo Portas!!!
Á Bichas dum c...
Ah! Ah! Ah!

Anónimo disse...

Não percebi muto bem essa da mão-de-obra emigrante
Como país surrealista que somos(portanto quase inexistente)tanto exportamos como importamos mão-de-obra, toda ela devidamente nacionalizada pois que o carácter burocrático do anterior regime eles ainda não perdoaram.
Eu sinceramente acho exagerado e incompreensivel tanto movimento que deve dar cabo das contas da segurança social, impostos,etc por impossibilidade de controlo adequado desses cidadãos flutuantes/migrantes.Diria mesmo que estamos nos alvores do quinto império mas apesar disso já com a tradicional ameaça de bancarrota essa pequena palavra que sempre torpedeou grandes chefes Lusitanos.
Actualmente em portugal só se investe em obras públicas porque também era chato deslocalizarem a feitura de estradas, com as verbas UE.
Mas é sempre de admirar a ousadia do PR´s e 1ºs ministros em visitas exóticas a "convidarem" os capitalistas a investirem fora do rectângulo, quando afinal o carcanhol que por aí anda nem nacional é... tudo testas de ferro e a malta a fazer de país de 1º mundo quando navegamos rumo a sul...
Só gostaria que alguém me explicasse como é possível existirem cerca de 50000 Imigrantes à espera de legalização quando 10% dos outros 500000 legalizados já estão como os 500000 desempregados indígenas.
Deve ser só para manter a TAP a voar...