segunda-feira, outubro 03, 2022
domingo, outubro 02, 2022
Última geração?
No Arizona, um tipo doou o corpo da falecida mãe a um Centro de Pesquisa sobre Alzheimer. Posteriormente, descobriu que o Centro tinha vendido o corpo ao US Army, por 6000 USD. Os restos mortais da defunta senhora acabaram a sua macabra peregrinação atados a uma cadeira e rebentados num teste de explosivos. No fim, certamente, verificaram da eficácia do engenho deflagrante pelo estado de esfacelamento ou vaporização da falecida.
Metodicamente, eles experimentam primeiro em mortos, antes de usarem nos vivos.
A fonte donde retirei esta edificante história coloca uma questão deveras pertinente:
Chutzpah on steroids
«Blinken stated that the United States desires Europe to reduce its fuel use.
ISIS Bond 2.0, Toca a degolar
O ISIS 2.0, aka ukranistão, tentou degolar um jornalista francês em Istambul. Estava na lista negra (os psicos da SBU têm uma lista de abate - ou de espera, para os apologistas ululantes de plantão - onde até o Roger Waters aguarda pacientemente na fila). Suspeito que a zelentagem de Kiev, no auge da sua paranoia delirante, se imagina como uma espécie de Mega-Israel e a SBU como uma Super-Mossad, com todas as prerrogativas inerentes. Os cancros geopolíticos também metastizam?
sábado, outubro 01, 2022
Enought is (not) enought
É uma espécie de " (Já) Chega" para inglês gritar. Decerto com alguma organização "trabalhista", ou coisa que o valha, a tentar surfar a vaga. Mas o que é certo é que a vaga promete crescer... Afinal, ainda vamos no princípio do Outono.
«Britânicos protestam nas ruas de Londres contra medidas de Liz Truss»
Resultado ao Intervalo
Sanções - 7 Anexações - 5
Aguarda-se uma segunda parte muito intensa, plena de movimentações junto às áreas e o Sanções a ser levado ao colo pela equipa de arbitragem, os comentadores e repórteres ausentes no local. Ao colo e em maca. O jogo tem basicamente consistido no Anexações a massacrar o adversário e a equipa de arbitragem, altamente corrupta. a marcar penalties em série favorecendo o Sanções. Vai marcar agora o Oitavo. Sem pés nem cabeça, sem talho nem feiçalho.
sexta-feira, setembro 30, 2022
O Oitavo Passageiro
Pronto, lá foram anexados. No Donbass festeja-se. Em Kiev, o nano-títere está histérico e morde selvaticamente os tapetes. Quer aderir à nato, aos urros, rasgando as vestes, arrancando cabelos, em modo turbo-expresso. Não percebe que já aderiu tanto quanto à Nato convém: ele fornece a carne, a Nato fornece os espetos e os Russos disponibilizam o assador e o lume. Aguardo, com curiosidade, os próximos capítulos.
Que raio significa? Uma série de coisas. Mas, entre elas, uma que desde já me ocorre: a vingança come-se fria. Os Russos estão a cobrar o Kosovo e toda aquela cauboiada clintonesca na Sérvia. Com juros e alcavalas. E em segunda tranche. Porque a primeira já tinha sido a Crimeia.
Entretanto, a Hiena doida da Comichão já garantiu um novo pacote de sanções, o Oitavo. Ao escutar o número, não sei porquê, ocorreu-me a fita do Ridley Scott, o Oitavo Passageiro, e confesso que fiquei na espectativa de ver um neo-conas qualquer a brotar-lhe, em erupção sangrenta, do peito. Só que ao contrário do monstro alienígena, estes alienígenas straussianos, embora ainda mais assassinos, incubam e ficam lá dentro, em banquete demorado, que iniciam pela coluna e terminam, invariavelmente, na mioleira. O hospedeiro, neste caso, a hospedeira (que por acaso reflecte o nível intelectual da criatura), limita-se a transmitir e agir de acordo aos ditames do passageiro que transporta dentro de si.
Bem, e desta vez qual é o menu relampejante para a agressão auto-inflingida? Papel higiénico e outros apetrechos de lavatório. Nem mais. Devastador, no mínimo. Agora é que vai ser. Se pensarmos que o principal produtor alemão do género foi à falência, é de temer que, neste inverno, os germânicos corram seriamente o risco não apenas de morrerem congelados, como também de emigrarem para o Além num estado deplorável, de completa imundície. Eu acho que faz parte dum plano tenebroso da Comichão e da generalidade dos desgovernos europeus (todos eles incubados pelos aliões). Consiste em desarmar a generalidade da população, retirando-lhe o principal recurso com que removê-los. Porque nem nódoa são, donde não saem com benzina. É caca mesmo, pelo que o papel higiénico era fundamental.
PS: Notem, com estas sanções, uma coisa, para já, é certa: atentem no preço do papel higiénico... Vai disparar! Não desesperemos, todavia. Numa primeira fase, à velocidade a que se despenha, limpamos o cu às libras. Depois, provavelmente, limpamos aos euros. Ou isso ou vamos com o carro para o car-wash e aproveitamos o túnel das escovas para pôr o cu à janela. Somos um povo desenrascado, ou não somos?...
Políticos de conveniência
Agora os pós-britânicos estão a descobrir, da pior maneira possível, que os Tories substituíram um mongo por uma perfeita imbecil. A lengalenga de que a democracia é o menos mal dá nisto: a tendência e, por fim, a certeza, de que será sempre eleito o pior de todos (os menos maus).
quinta-feira, setembro 29, 2022
Eurasiofobia
Sham Ocidente
Kievita alucinado, em 2015:
quarta-feira, setembro 28, 2022
A Res-Pútrida
«No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.»- Fernando Pessoa
Há motivos para celebrar o 5 de Outubro?
Depende.
O de 1910, nenhuns. Bem podiam enfiar a república de volta donde a tiraram!
O de 1143, data do Tratado de Zamora, todos. Devia, aliás, ser o nosso principal feriado político: O da Fundação de Portugal (que não era uma nação: era um Reino. O conceito de Nação só nasce no século XVI). Portanto, faz imenso sentido celebrar o 05 de Outubro. Apenas, para não variar, estas bestas celebram sempre pelos maus motivos. Mais acrescento, coberto de razão: Pior que o 05 de Outubro de 1910, só mesmo o 25 de Abril de 1974. No primeiro caso, mudou-se, aparentemente, de regime; no segundo, mudou-se de regime e de país. Tudo num só dia.
Mas é engraçado como os trafulhas operam na lavagem ao cérebro das pessoas: sepultam o essencial sob o entulho do acessório. Isto é, celebram as sucessivas farpelas e farrapos com que mascaram a coisa - a Restauração, a Nação, a República, a Democrapulia - e não celebram a própria coisa. O dia em que nasceu solenemente.
Pseudo-soberanias e cripto-soberania
Essa aventesma acima é não sei quê duma qualquer mixórdia geopolítica, semicomatosa e em avançado estado de putrefacção que para aí estertora. Porque, convenhamos, a questão já nem se coloca entre facções ou contrafacções: é mesmo putrefacções em cadeia e correria lehmming. Fora isso, a tromba nojenta (ou não fosse ele, para cúmulo, espanhol), do escroque constitui, desde logo, um cartão de visita assaz emblemático. Para mais, o fulano apregoa-se como diplomata quando, ininterrupta e obsessivamente, outra índole não exibe que a do grunho arruaceiro, urrando vermelhusco e prometendo mocada à vizinhança!
O seu último arranque de gosma aracnídea, a propósito dos referendos com que a Rússia vai recuperar territórios historicamente seus, de séculos:
Tentemos decifrar e entender:
Um anormal burrocrata representante de patavina, empontado sabe-se lá por quem para um cargo fictício numa união de disfuncionais erécteis sem soberania nenhuma, vem apontar a intervenção de legítima defesa duma potência num Estado de Conveniência sem ponta de soberania alguma, como uma violação de algo que não existe. Porque se a União Europeia não tem soberania, e a Ucrânia soberania não tem, então que raio de soberania está a ser violada? Ora, a soberania que exerce de facto a sua garra quer na União Europeia, quer na Ucrânia. Tenho mesmo que dizer o nome?
Assim, dado que as soberanias nacionais foram canceladas, só existe uma soberania legítima e autorizada: a soberania internacional, ou melhor dizendo, supranacional. Que é a soberania da "Comunidade Internacional". Entenda-se, detrás do biombo, a soberania planetária dos Estados Unidos. Se bem que isto, dos Estados Unidos, é apenas uma forma imperfeita (e, em boa verdade, pouco rigorosa) de identificar o objecto. É que ninguém sabe muito bem quem é o soberano daquilo. Apenas se sabe que é o mesmo que se arvora e auto-investe como o soberano de tudo isto.
E o que torna brutalmente perigoso o actual estado de coisas, não é o caso de que esteja a fazer perigar a própria existência dos Estados Unidos, enquanto potência hegemónica; mas sim o estar a colocar em cheque, muito sério, o regime torcionário do cripto-soberano. Que não é eleito, não é escrutinado, não é responsável, não é removível, nem, tão pouco, identificável. Aliás, não é decerto por acaso que o mentor dum tal minotauro seja um falsário lapuz e rafeiro de Platão: um tal Leo Strauss. Um prodígio, no meio da trampolinice, todavia, consumou: sentou no penico do Poder, a imitar trono, o próprio Inefável. Isso, de ciência certa, é tudo o que sabemos.
O Caminho do Matadouro
O Ataque à Alemanha prossegue a bom ritmo. Lembra até um pouco uma espécie de Plano Morgenthau 2.0. Agora, os polacos (ou os americórnios) sabotaram, julgo que irremediavelmente, o Nordstream 1 e 2. Não me espanta que ainda cometam a chutzpah de descarregar as culpas nos russos. Propaganda de sargeta, vale tudo, especialmente tirar olhos. E a malta chupa tudo, avidamente. Mais palha lhe deem, mais manjam.
Tudo isto no mesmo dia em que o novo gaseoduto que vem da Noruega, via Dinamarca, é aberto na Polónia. Pura coincidência, está bem de ver. Em todo o caso, acções absolutamente terroristas deste jaez criam uma escalada deveras inquietante. Doravante, os Russos estão legitimados a sabotar também qualquer tipo de infraestrutura económica; os Ucranistões, pior um pouco, já que completamente inimputáveis, e por aí fora.
Caso para perguntar: quem é que tomou conta de Washington - o ISIS? A criatura subiu à cabeça do criador? Como eu já aqui referi, e quando a super-potência se torna, abertamente, um rogue state?...
E o mais impressionante - e vergonhoso - no meio disto tudo é que a Alemanha nem esboça um gesto de defesa. Desfila mansamente no patíbulo, a caminho do matadouro. Com uma fila penitente atrás.
terça-feira, setembro 27, 2022
Utopias de alguidar e método científico
(WEF - "own nothing, be happy") e outros bla-blas...
Sobre estas alucinacinhas do tal WEF (World Economic Forum) - que, curiosamente, não tem nada de World, muito menos de Economic e rigorosamente nada de Forum -, tenho a declarar, solenemente, o seguinte:
Nestas frankenstoinices sociais altamente revolucionárias e geomixordices paralelas, nunca é demais salientar, o exemplo deve vir de cima. Os grandes teóricos devem avançar à frente, abrindo caminho às massas e, desse modo intrépido e fulgurante, insuflar em todos a devida confiança. De seu natural, excepto desde a invenção da televisão, as multidões são cépticas à inovação rutilante.
Por conseguinte, quando o Bill Gaitas, o Canibal Soros, o Karl Swine e todas essas trepidantes luminárias não possuírem nada e forem felizes, então sim, as pessoas normais poderão arriscar e tentar, quem sabe, a sua sorte. Mas, em primeiro lugar, é preciso testá-los bem a eles. Aos arautos, aos videntes, aos profetas. Uma data de tempo bem jeitosa, que estas coisas, envolvendo utopias, são sempre muito manhosas. É, pois, essencial, a bem da ciência, extrair comprovações empíricas exaustivas, em laboratório e no terreno, durante, no mínimo, uns 10 anitos. Verificar mesmo, com muita atenção e critério, toda a felicidade irradiante. Medir, meticulosa e fielmente, os níveis de regozijo. Sim, testar impiedosamente, em múltiplos ambientes e condições. Tudo muito bem esmiuçadinho. Sob bom tempo, intempérie, em regime de catástrofe (para ver se se aguenta aos cataclismos). E, sobretudo, nada de privacidade: as câmaras de gravação sempre bem em cima. Para não deixar escapar nem uma gota do precioso néctar refinado por tão pressuroso alambique.
Por mim, sem esses mínimos de cientificidade metódica, nem me digno sequer considerar a ideia. Muito menos largar a minha estimada e preciosa horta. E aviso já que estou armado. O machado anda comigo para toda a parte.
Posto isto, tenham a bondade de assistir ao vídeo seguinte. Bebo os ares à moça, mas não é apenas por isso. Vejam, que vale a pena. Está bem que a alienação mental está mais que banalizada, sobretudo entre as auto-proclamadas elites. Mas, mesmo assim...
segunda-feira, setembro 26, 2022
Globopatia Inc
A sociopatia também se globalizou? Uma espécie de globopatia... Lendo o que se segue é com essa nauseante impressão que se fica.
«US “Nuclear Primacy” and “Blitzkrieg Nuclear War”: Russia Responds to America’s Plan to Win World War III»
domingo, setembro 25, 2022
O Dinheiro - VI. A Palavra e a Moeda
Além das "Nuvens", três outras comédias de Aristófanes são
emblemáticas (na verdade, quase todas são, mas por amor à síntese...) do estado
de Atenas na Decadência: "As Vespas", "As Rãs" e
"Pluto". As primeiras retratam a grande tara da cidade, autêntica
mania furiosa desenvolvida a níveis de paroxismo: os tribunais e a retórica. Se
temos a ideia grandiosa do "direito romano", ao pé dos Gregos os
romanos, como em quase tudo, balbuciam num misto de infantilidade e
pechisbeque. Basta dizer-se que os tribunais romanos, em bom rigor,
mal-funcionavam. O direito soberano era o da força. O Patrício até cárcere
privado tinha. E a quantidade de servos auto-arvorados beleguins media a
justiça da demanda. Já em Atenas, o tribunal não apenas funcionava, a todo o
vapor, como se constituía quase o mesmo que o Circo viria a significar para os
romanos. Na Grécia, competia até, valorosamente, com o teatro, se é que não o
excedia. A obsessão pública era de tal ordem que a cidade viu nascer um
profissional típico: o sicofanta. Figura execrável e omni-detestado, fazia-se
acompanhar por uma ou duas testemunhas e flanava, como um abutre, pelas ruas à
procura de motivos e pretextos para delacção judicial. Um bufo? Completo,
devoto e desabrido. Muitas vezes, à falta de matéria de facto, inventava
calúnias e chantageava com elas os privados. Estes, para evitarem trabalhos e
custas, bem como temerosos das falsas testemunhas, acabavam por pagar. O
crápula vivia disso. Um pouco o predecessor dos jornalistas da nossa época.
Apenas - e ligeiramente - menos trafulha.
Quanto à segunda peça, "Pluto", das últimas a ser escritas pelo
autor, trata, como o próprio nome indica, das peripécias e aventuras da riqueza
e dum mortal que a procura. Na mitologia grega, duas entidades respondem pelo
nome de "Pluto": Hades, por cognome "Plutow", o Rico (Hades
é o mais rico de todos os deuses, no sentido em que o seu domínio são as profundezas,
depósitos imensos de ouro, prata, pedras preciosas (e mais eles ainda não
conheciam o petróleo), etc; e Pluto, o filho de Demeter, deus da Riqueza. O
Pluto da peça refere-se ao segundo caso.
Conta-se que numa primeira fase Pluto só favorecia quem muito bem entendia
(suspeita-se que pessoas honestas), mas, como isso criou alguns problemas, Zeus
(que ainda por cima não tinha fama de simpatizar muito com a raça antropoide),
decidiu cegá-lo, de modo a torná-lo mais democrático, isto é, a não discernir entre
bons e maus (e assim prejudicar a todos por igual, como adiante constataremos
em detalhe. Até porque, no fundo, essa é a igualdade essencial e mobilizadora
da Democracia: não saber distinguir entre o bem e o mal, já que é tudo igual -
basta atentar na posição das pessoas perante o voto: votar no A ou no B é
indiferente, é tudo a mesma merda; e lá dispara a abstenção). Desse modo Pluto,
a Riqueza, adquiriu três características identificativas: é cego, é coxo e
também voa. Com aquela sabedoria que ninguém sabe muito bem onde foram
desencantar, os gregos diziam que Pluto, por ser coxo, demorava muito tempo até
chegar a uma casa. Mas, depois de nela entrar, saía a voar. Ninguém poderá
negar que o mundo terá mudado muito até hoje, mas Pluto continua o mesmo.
Por outro lado, e aqui importa reter bem isto, Pluto é filho de Demeter, a
terra cultivada. A mesma dos Mistérios de Eleusis, pois. Se, ainda na
mitologia, pensarmos na deusa protectora que deu o nome à própria cidade -
Atena, sabemos que foi em concurso com Poseidon, o deus do Mar, que ganhou essa
distinção. Porque foi considerada a sua oferta aos humanos - a oliveira - a
mais útil e meritória. Ora, na história, embora se tenha tornado e destacado
como potência marítima e comercial, Atenas começou por ser uma comunidade
agrária. E é desse primeiro estágio que emanam os valores fundadores bem como
as estruturas hierárquicas sociais. E, nesse conceito originário, a riqueza era
filha do cultivo da terra. As grandes e mais poderosas famílias, descendentes
da fundação, eram essencialmente grandes senhores agrícolas.
Nesse contexto, se imaginarmos os anos de grandes colheitas, não será
difícil deduzir uma quantidade razoável de excedentes. Dentro destes, aqueles
mais perecíveis (que se estragam rapidamente) teriam como destino, muito
provável, a distribuição pelo séquito de dependentes laborais, a troca por
serviços, a doação à cidade como forma de granjear prestígio, influência ou
poder, etc. Há, pois, pela própria dinâmica natural das coisas, um certo
paternalismo e familiaridade inerentes à sociedade agrária, quer dizer, fundada
na terra. Passe a redundância, porque fundar implica terra sólida, como afundar
implica mar, ou infundar implica ar (Voltaremos a esta trilogia deveras
cucial). Todavia, a partir do aparecimento da moeda, acontece um fenómeno que
não afecta apenas a vertente comercial de Atenas, mas também a agrícola. Os
tais excedentes perecíveis, a partir do momento que se podem converter em
moeda, tornam-se imperecíveis. O Aristoi, em vez de granjear mais fama, passa a
acumular mais riqueza. A moeda não se estraga. Mais grave, instala-se a ideia
da reprodução do dinheiro - o rendimento pela usura. O mesmo termo que designa
filhos, designa juros: tokos. Aposta-se na reprodução do dinheiro (sabemos no
que ocasionou). Onde outrora, trocava, doava, distribuía, agora o grande senhor
empresta, a juros. Este novo negócio - da crematística - não invade apenas o
comércio, o mundo dos negociantes e traficantes: insinua-se também entre a
classe menos suspeita. Aristóteles, como já vimos, deplora como indigna essa
actividade entre os nobres. Não que o aristoi não possa aumentar a sua riqueza
dentro dos limites da propriedade e conveniência, mas fazer disso negócio
essencial é contra-natura e contra a ética, entenda-se contra o bom costume.
Não obstante, a verdade é que o dinheiro/moeda vem contender e transformar os
costumes da cidade. Um dos resultados mais nefastos é o endividamento excessivo
e a ruína de muitos dos endividados. Incapazes de cumprir com o pagamento, caem
na escravatura. E, assim, se noutros tempos os escravos eram adquiridos através
da guerra ou da "importação", agora são muitos cidadãos livres que,
por insolvência, se tornam escravos do credor. Donde resulta que, ou entram ao
serviço deste, ou são vendidos no mercado, em hasta pública. É evidente que a
classe dos comerciantes se desenvolve e dedica a fundo a toda a espécie de
expedientes monetários. Mas esse, tudo bem pesado, não é o pior mal. O grande
problema e a causa mor da decadência social da cidade consiste em a) todos, de
alguma forma, degeneram em "comerciantes" (tudo se compra, tudo se
vende e mercadeja); b) todos os mercadores almejam o máximo e mais rápido
lucro, e logo, por requinte, tornarem-se usurários (hoje em dia autodenominam-se
"investidores"); c) um afluxo de riqueza rápida e desancorada dos
bons costumes maligniza o tecido social e corrompe não apenas ricos e
novo-ricos, mas, tanto ou mais, os outros, aspirantes a ricos quase todos eles,
que passam a acreditar, piamente, que, por intermédio de expedientes, vigarices
ou qualquer outro tipo de trampolim, logram uma ascensão rápida na vida.
Ora, ninguém como Aristófanes, para nos transmitir um fresco imorredouro da
época. E em todas as suas peças há uma espécie de confronto, entre os tempos
antigos, mais simples, piedosos e saudáveis, e os tempos "modernos",
mais venais, cínicos e decadentes.
Em primeiro lugar, esta nova crença cega no dinheiro conduz ao materialismo
tolo e à impiedade - à descrença nos deuses e modos elevados de outrora, isto
é, à destruição da própria hierarquia consagrada e natural. Os filhos batem nos
pais, o injusto leva a palma ao justo (cf. "As Nuvens"); a tagarelice
e a frivolidade de Eurípedes destronam a grandeza austera de Esquilo ("As
Rãs"); os ricos fingem-se de maltrapilhos para não pagarem contribuições
inerentes à condição (mas depois "emergem no mercado do peixe", -
local, como hoje, onde, dado o exorbitante preço do pescado, apenas os
abastados se exibem e desfilam) ("As Rãs"); etc. A certa altura, em
"As Rãs", onde, perante Dionisio, a Tragédia "moderna" de
Eurípedes disputa com a Tragédia Antiga de Ésquilo, surge, num cúmulo de
chiste, esta passagem particularmente sugestiva:
«Ésquilo - Em seguida, tu ensinaste-os a praticar o palavreado e a loquacidade que não só esvaziou as palestras e gastou o cu dos rapazinhos tagarelas, mas também persuadiu os Parálios (homens livres que remavam no navio almirante) a responderem aos seus comandantes (...)Dioniso - (...) Mas agora respondem e não remam: navegam para aqui e para ali, ao acaso.Ésquilo - De que males não é ele culpado? Não apresentou ele em cena alcoviteiras e mulheres que davam à luz em templos, e se juntavam sexualmente com irmãos, e afirmavam que não viver é viver? Depois, como consequência, a nossa cidade ficou cheia de escribas e desavergonhados macacos públicos que sempre enganavam o povo, e já ninguém é capaz agora de levar a tocha, por falta de exercício físico.»Porque a função do poeta, e ainda mais do tragediógrafo, é ética, pedagógica, elevadora dos costumes e dos espíritos da cidade. Funciona como purificação e catarse colectiva, acto de rememoração e respeito perante a catástrofe sempre à espreita, perante a fragilidade humana sempre implícita. Recapitula igualmente as regras da existência. Ora, o que a nova fórmula moderna de Eurípedes aporta é o contrário de tudo isso. Assenta mesmo em conceitos antitéticos: o escândalo, o arrazoado, a banalidade metida a importante. Não versa o extraordinário, mas o ordinário; não desvendas o elevado, mas o rasca, o venal. Ou seja, por um lado, a modernice transporta para a tragédia os princípios da comédia; por outro, e na essência a acusação principal de Aristófanes, pela personagem de Ésquilo, em termos actualizados, faz da Tragédia uma telenovela avant la léttre.
«Eurípedes - Porventura não existia já a história de Fedra, ou fui eu que a criei?
Ésquilo - Não, por Zeus, ela existia. Mas o poeta deve esconder o mal e não o exibir nem ensinar. É que às criancinhas é o professor que as ensina, e aos adolescentes o poeta. Portanto, é absolutamente necessário que só tratemos do bem.»
Todavia, sendo mais histriónicas, mais espalhafatosas e venais, as peças de Eurípedes atraem enxames, têm mais sucesso popular, sobretudo entre as gentes já de si "desmoralizadas", aturdidas pelos "novos tempos e costumes". Esta "tragédia pop" é para o teatro o mesmo que a sofística é para a filosofia ou o sicofantismo é para a justiça: mera comercialização, pior ainda, mera especulação - da palavra. Pode parecer que, estando nós a investigar o dinheiro, que importância tem isso? Para os gregos, que nos ensinaram a pensar e a raciocinar, a palavra é fundamental: é para o pensamento aquilo que a terra é para a cidade. Sobre ela se edifica, sobre ela se é, vive e respira. Ora, façam o favor de registar, aquilo que a "modernidade" ateniense traduz em relação ao tempo antigo (tal qual todas as "modernidades/sofisticações" ao longo da civilização) define-se, sobretudo, num conceito: desvalorização da palavra. A palavra multiplica-se, prolifera, degrada-se: De valor fundamental e fundamentado a mera ferramenta, mecanismo, utilitarismo, desmesura... Labirinto. Esta degradação mascara-se de sofisticação, progresso, ascensão, mas, na verdade, é um coroamento e entronização nos infernos, o armazém da morte, como explica Aristófanes:
«Criado - Ora, quando desceu, Eurípides mostrou-se aos salteadores, carteiristas e aos parricidas e aos escava-muros, de que há no Hades multidão, e eles. dando ouvidos às réplicas e truques e fintas, enlouqueceram e consideraram-no o mais sábio. E ele excitado, apoderou-se do trono onde estava sentado Ésquilo.Xântias - E não foi expulso?Criado - Não, por Zeus, mas o povo gritava que se fizesse um julgamento sobre qual dos dois era o mais sábio na arte.Xântias - O povo dos velhacos?Criado - Sim, por Zeus, com gritos até ao céu!»
E a desvalorização da palavra, como revisitaremos adiante, acompanhará, ao longo dos tempos, com retrocessos e processos, uma outra desvalorização: a da própria moeda. Também esta, dum valor fundado no metal (signo da riqueza terrestre), irá perdendo a nobreza metálica até descambar num simples papel volátil (não já convenção/ficção com fundamento, mas ficção pura, ao nível das notas dum jogo popular), onde ambas, moeda e palavra, se arvoram como pouco mais que um meio de transporte pornográfico. Ou seja, a desvalorização corporiza, em medida crescente, uma falsificação. Até ao paroxismo alucinado do nosso tempo em que é o próprio "Estado" a emitir moeda falsa.
Antes de Nietzsche, na "Origem da Tragédia", foi Aristófanes a encontrar os paralelismos íntimos entre Sócrates e Eurípedes, quer dizer, entre a "sofística" (alistava Sócrates entre os sofistas) e a pornonovela. Como cereja no topo do bolo, aqui deixo, tal qual ele nos legou:
« Estrepsíades - Estás fartinho de ouvir o que é que eu pretendo: trata-se de juros... da forma de não pagar a ninguém.Sócrates - Vá lá, vá lá, tapa-te, faz por anatomizar o pensamento em fatias fininhas... Vai meditando nos assuntos em cada um dos seus pormenores, analisando e examinando como mandam as regras.» - Aristófanes, "As Nuvens"
«Eurípedes - Depois, eu ensinei essa gente (com um gesto para a assistência) a falar.Ésquilo - Eu que o diga. Mas antes de os ensinares, oxalá rebentasses pelo meio!Eurípedes - Ensinei-lhes a introdução de finas regras, a medir com o esquadro os versos, a reflectir, a observar, a intuir, a gostarem de voltear, maquinar, supor o pior, a esmiuçar todas as coisas...» - Aristófanes , "As Rãs"
sábado, setembro 24, 2022
Adenda ao Postal anterior
Notem mais uma confissão dos mentirosos inveterados, obsessivos e militantes em reforço da mentecabra anterior:

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