quinta-feira, janeiro 18, 2024

Anabismotomia da Revolução - 3. Da revolução das estrelas ao caos perpétuo






 «Quanto mais se estuda a Idade Média, mais se nota o polimorfismo da influência platónica. Platão mesmo não está em lugar nenhum, mas o platonismo, em todos; digamos antes, que há platonismo por toda a parte: o de Dionísio, o Areopagita, e de Máximo, o Confessor, que passa por Escoto Erígena e cuja presença acabamos de perceber em Bernardo de Chartres; o de Santo Agostinho; o de Boécio, que comanda a obra de Gilbert de la Porrée, enquanto não aparecem os do Liber de causis e da filosofia de Avicena, que logo iremos encontrar. Esse parentesco platónico de doutrinas, de resto bastante diferentes, explica certas alianças, de outro  modo incompreensíveis, que por vezes contraíram. O facto reproduziu-se tantas vezes que quase poderíamos falar, na Idade Média, de uma lei dos platónicos comunicantes.»

      - Etienne Gilson, "A Filosofia na Idade Média"

A passagem do Logos grego para a Ratio latina é tudo menos pacifíca. Digamos, para sintetizar, que esta constitui uma redução daquele, um estreitamento. Todavia, é sobre a ratio latina que se processa todo o pensamento medieval, fundamentalmente teológico, que desagua na Razão de Descartes e, posteriormente, nos enciclopedistas e nos revolucionários de Paris. Ratio significa sobremaneira cálculo. Já se adivinha onde é que isto vai dar... Certo é que os gregos não dispunham de algarismos. O número - arythmos - era figurado por letras. A letra alfa, por exemplo, também simbolizava o número 1. Portanto, o mesmo alfabeto servia para a poesia e para a aritmética. Os romanos, posteriormente, terão um sistema de numeração diferente, que ainda existe, e no meu tempo (não sei se ainda assim é) aprendíamos na escola primária. Mas nem os gregos nem os romanos dispunham do "zero" (0). A linguagem, literária ou aritmética, designava necessariamente alguma coisa. Ora, o nada (qualidade ou quantidade) é ausência, coisa nenhuma: nada tem para relatar ou contar. Consequentemente, também não dispunham da noção de "infinito", uma vez que esta decorre da própria sucessão inesgotável dos algarismos. E daí transvasa para o mundo. Pior, consideravam, quer o nada, quer o infinito, a serem ponderados, como aberrações e monstruosidades do próprio pensamento. Extravasavam do Logos, careciam de sentido, como um buraco sem fundo. A perfeição significa qualquer coisa de excelentemente acabado, terminado, pleno, completamente definido e belo. De resto, o próprio termo Kosmos traduzia universo mas também beleza, adorno (donde ainda hoje a arte da cosmética). Conceitos como indeterminado ou ilimitado eram pensáveis para um grego, aparentavam-se até ao caos primordial, existiam mesmo na tradição filosófica - o apeiron, de Anaximandro. Porém, o infinito, como foi entendido a partir do fim da Baixa Idade Média, seria absurdo, no mínimo. Naturalmente, estamos a falar do pensamento grego na sua dimensão tradicional, da Mitologia a Aristóteles, no seu edifício principal, cujas ruínas, palimpsestos e fragmentos sustentaram ainda a Idade Média. Todavia, como em tudo, há sempre uma zona de sombra, marginal, exótica, de videntes de vão de escada e nihiloscopias fulgurantes. Encontramo-los no chamado período pré-socrático, da protofilosofia. Todos os pré-socráticos são, de um modo geral, "naturalistas", isto é, mais investigadores ou propectores da "fysis" do que pensadores sistematizados e conceptuais. Os principais são conhecidos: Heraclito e Parménides; Pitágoras. Deles sobreviveram à Antiguidade raros fragmentos. O que se foi sabendo e transmitindo a seu respeito foi mais por versão relatada de outros autores - Diógenes Laércio, Aristóteles, alguns outros. Dois deles, Empédocles e Anaxágoras, levantam já questões que beiram o "infinito" e falam já mesmo no "vazio", enquanto princípios causais da natureza. Porém, aqueles que mais impacto causarão num certo tipo de pensadores pré-modernos e modernos - Giordano Bruno e Espinosa, designadamente - são os atomistas - Leucipo e Demócrito. O que deles ficou foi exclusivamente por relatos de terceiros, Aristóteles em boa medida, que os cita e refuta. Um seu seguidor (dos atomistas), Epicuro, ecoou através de Lucrécio, nessa obra fetiche dos Murchos e ateístas militantes cá da praça: De rerum natura. Portanto, é uma moda com pernas para andar. Ao tempo deles, foram amplamente gozados por Aristófanes, nas "Nuvens", enfileirando com toda a sofística de estalo (aqui, entre nós, os proto-nihilistas e proto-advogados) na tribo dos corruptores de Atenas e apaniguados do "adikos logos" (o logos injusto). Platão, por seu turno, execrava-os; a Hélade nem os reconhecia como filósofos; e valeu Aristóteles  que, com a magnanimidade dos sábios (que dizia, logo a abrir, na sua "Metafísica", que "ninguém erra totalmente uma porta"), nos transmitiu considerável parte das destilações atómicas destes visionários. Pois bem, como raio, mesmo sem ferramentas, se enfiaram eles pelo buraco da Alice? A acusação de Aristófanes, em nome da Hélade, reverbera: adikos, injustiça. Haja medida, lembram-se?, prescrevia e avisava o Oráculo de Delfos. Pois, para eles, não há medida que resista: esfarelam-na até ao átomo. Estilhaçam e aspergem o cosmos de descomedidos multimundos e astrodesertos, numa efabulação cosmofórica não totalmente descabida de engenho. Diógenes Laércio dá-nos uma ideia:

«Leucipo sustenta que o todo é infinito... parte dele é cheia e parte vazio... Daqui surgem mundos inúmeros, e são dissolvidos de novo nestes elementos. Os mundos nascem da seguinte maneira: muitos corpos de todas as espécies de formas movem-se por "abscisão do infinito" para dentro de um grande vazio; aí se juntam e produzem um redemoinho único, no qual, colidindo uns com os outros e revolvendo-se de todas as maneiras... começa a separar-se, semelhante do semelhante. Mas quando a sua quantidade os impede de continuar a rodar em equilíbrio, os que são finos saem em direcção ao vazio circundante como que peneirados, enquanto os restantes "permanecem juntos" e, emaranhando-se, unem os seus movimentos e fazem uma primeira estrutura esférica. Esta estrutura está à parte como uma "membrana" que contém em si todas as espécies de corpos; e à medida que rodopiam, devido à resistência do meio, a membrana circundante torna-se fina, enquanto os átomos contíguos continuam a correr juntos, devido ao contacto com o redemoinho. Assim a Terra se gerou, permanecendo juntos nesse ponto os átomos, que tinham sido levados para o meio.»

De Hipólito, temos um testemunho complementar igualmente sugestivo:

«Demócrito defende o mesmo ponto de vista, que Leucipo, acerca dos elementos, cheio e vazio... ele falou como se as coisas que existem estivessem em movimento constante no vazio; e há mundos inúmeros que diferem em tamanho. noutros mundos não há Sol nem Lua, noutros eles são maiores que no nosso mundo, e noutros mais numerosos. os intervalos entre os mundos são desiguais; nalgumas partes há mais mundos, noutros menos; alguns estão a aumentar, outros no seu auge, outros a decrescer; nalgumas partes eles estão a surgir, noutras a desaparecer. Eles são destruídos pela colisão de uns com os outros. Há alguns mundos desprovidos de criaturas vivas ou plantas ou qualquer humidade.»

Não, caros leitores, isto não foi retirado duma notícia ao minuto na abertura do MSN: foi mesmo escrito há mais de dois milénios. E, a limite, não podemos em absoluto afirmar que não se fundava em nada  da tradição grega. Na verdade, até fundava, só que não era muito mais que uma perífrase da primeira frase da Teogonia, de Hesíodo. Aquela mesmo que serve de motivo à glosa do subtítulo deste blogue: "No princípio era o Caos". Eles atiraram-se ao dito e, bem calafetadinhos, trataram de divagar e viajar mentalmente nele (numa antecipação arcaica do método Júlio Verne, ou seja, em modo ficção científica avant la lettre). O que, em contrapartida, não foi o caso de Empédocles, um alucinado mais audaz, que à teoria juntou a experimentação da hipótese... Num infeliz mas coerentíssimo ensaio primogénito do método científico: saltou, inteiro e completo, na sua pessoa, para dentro do Etna. Entre perplexo e enjoado, o vulcão cuspiu uma sandália. Algum significado profundo isto deve ter tido. Que, já no caso dos atomistas gregos até nem era difícil de entender: não havia princípio, nem meio nem fim - continuavam no Caos e nunca de lá tinham saído (no que, de certo modo, até o próprio Dragoscópio pressagiavam, embora às avessas).

Humor não à parte, nada surpreende que Aristófanes, nas "Nuvens", fosse direito ao ossário da questão: 

« - Qual Zeus, nem meio Zeus!... Não digas asneiras: pura e simplesmente, Zeus não existe. (...)
   - Mas, então quem é que chove? (...)
   - São elas (as nuvens) que chovem, obviamente. (...)
   - E quem é que as faz mover? Não é Zeus?
   - Nada disso... é o Tornado [o tal redemoinho] etéreo.»

Não apenas a Teogonia corria, assim, o risco de ser substituída por uma simples meteorologia: era a própria religião dos gregos, desde os antepassados fundadores que ia no vórtice; e com isso toda uma nova moral e dinâmica social em acção. A partir duma nova religião, puramente materialista, ateia e delirante:

    « -  Ora bem, estás disposto, de agora em diante, a não aceitar qualquer outra divindade que não sejam as nossas, isto é, o Caos, as Nuvens e a Linguagem, estas três e só estas? »

Através dum Sócrates de conveniência, Aristófanes estava a ridicularizar a "ficção atomista".  O próprio termo "átomo" - a-tomos -, isto é,  não cortável, não mutilável, (em suma, não mais divisível) diz quase tudo acerca do meta-odos (na verdade, um para-odos) peregrinado. Mas se a matéria não é divisível ao infinito, como pode ser então ampliada ao infinito? Estaremos a falar do infinito vazio, a saber, o infinito nada? 

Não se pretende aqui, de modo nenhum, discutir os méritos ou deméritos absolutos de quaisquer destes pensadores. Mas apenas as diferenças - fundamentais e constitutivas - no modo como influem ou revelam uma perspectiva da realidade e, para o que nos interessa, do papel do divino e do cosmos nesta. Em resumo: Qual era a diferença paradigmática entre a cosmotomia dos atomistas e a Teogonia, de Hesíodo? É que esta relata e estabelece uma hierarquia, isto é, um processo na vertical, da profundeza insondável até à luz etérea - desde o Caos, as regiões tenebrosas, a Geia (terra mãe), onde habita toda uma variedade poética de seres divinos, semi-divinos, os heróis, os homens, e, por fim, o Olimpo, onde habitam os imortais, livres da morte e da Necessidade. O pensamento grego não é creacionista, na medida em que o cosmos não é obra demiúrgica (excepto no Timeu, de Platão), mas também não precisa: é criativo no sentido poético do termo. Ao pé da mitologia grega, qualquer outra mitologia oscila entre a pobreza e a miséria, estéticas, éticas e filosóficas. O Cosmos resultante dessa poesia é o que o próprio nome indica: Beleza, ordem.  Contrapondo a isto, que representa "o Todo é infinito, parte dele é cheia, parte dele é vazia" de Leucipo? Mais que uma mera incongruência intelectual, representa o varrer da hierarquia: em vez da verticalidade, a horizontalidade subterrânea duma qualquer astro-esvisceração; um chafurdar no caos e no absurdo; uma sopa de átomos em perpétua confusão e conflito, onde as causas e os princípios se resumem a uma estrita e obsessiva causa eficiente que incha, desincha e passa. Em vez dum cosmos, dir-se-ia, uma borbulha descomunal, exorbitante. A limite, um furúnculo infinito. Ora, nesta  regressão da bela e conveniente ordem orgânica a uma mera balbúrdia mecânica  onde o acaso impera mascarado de necessidade, acontece que não é apenas o sagrado, o simbólico, o mythos originário, a arché fundadora, que são apagados: é também a beleza, a poiesis (Arte) que desaparece. É também em nome desta que Aristófanes zurze. E esta dupla catástrofe constitui, digamos assim, o primeiro paradigma de metabolia (transformação) que importa reter. O Cosmos já não se funda no Caos: afunda-se nele. Dissolve-se. Não esqueçam este primeiro momento da zaragata inorgânica. Iremos revê-lo séculos adiante, no pós-Tomismo, quando, mais uma vez, os panteísmos imanentistas e ébrios do infinito se lançarem, contra Aristóteles, contra a Hierarquia Celeste e Terrena (onde a Teogonia foi doravante cristianizada), lançando-se na revolução das estrelas, que consuma a passagem do "Mundo fechado ao Universo Infinito" (Koyré dixit). A qual, de resto, com Descartes, marca também uma outra passagem deveras radical: do cosmos orgânico, vivo, ao mundo mecânico, antecâmara da máquina (o Homem-Máquina ou o Homem-Planta, de La Mettrie, manifestam já o claro sintoma do que virá adiante).

Voltando agora ao platonismo que a citação de Gilson, em epígrafe, documenta. Platão é duma vastidão imensa, não só no que influencia, mas, sobremaneira, na sua própria obra. Há, por assim dizer, vários Platões. Todavia, aquele que mais impacto terá na Idade Média - através de Santo Agostinho, Escoto Eriúgena, Santo Anselmo et al - será o Platão do Timeu (o diálogo onde se explana o principal da cosmologia platónica). O mesmo Timeu que ocasionará, em larga medida, o neoplatonismo de Plotino; as Enéadas deste (com o seu Ser e respectivas hipóstases) que desencadearão, adiante, momentos sumptuosos como  o "De divisione naturae", de Escoto Eríugena e momentos menos edificantes com Nicolau de Cusa, o seu derivado Giordano Bruno, posteriormente, Espinosa e, deste, um ramal para Locke e outro, mais adiante ainda, para Hegel (da linha directa de Heraclito, via Plotino). É um bocado como as redes ferroviárias e viaja-se muito, com alguns descarrilamentos, colisões e trucidamentos por suicídio à mistura.

Disto tudo (e perdoem o manancial de referências), que questão capital está em jogo (que, mais à frente, estará na base do trampolim para o "assalto revolucionário"?  Dois conceitos: a transcendência ou imanência de Deus, ou do Divino, como preferirem.  Significa que ou o Divino está fora e acima do Mundo, separado dele; ou está nele e, latente, subjazendo ao mesmo. Portanto, ou age como espírito puro e perfeição absoluta (Aristóteles/S.Tomás de Aquino), ou age do interior da matéria, bancando o infinito (em rigor, o nada). Com Espinosa, é mesmo substância única do Universo infinito, e, em simultâneo, res cogita e res extensa, isto é, coisa pensante e coisa extensa. Para o mesmo pensador, que parte de Descartes para ir ainda mais para baixo, o corpo humano é, como certos insectos colectivos, o corpo da espécie; e a alma humana a mesma coisa. A limite  - qual limite!, de facto, não existe indivíduo único - entenda-se, pessoa (com todas as letras) - nem enquanto corpo, nem enquanto alma, e liberdade também não. Pois se até Deus está dissolvido na matéria, numa espécie de chá do infinito, faria agora o homenzinho armado em pessoa humana!... Compreende-se perfeitamente o fascínio que Hegel tinha por ele. E de como Locke por lá prospectou.

Entretanto, é preciso pesar bem as consequências que este ataque à transcendência implica. Começo por uma breve e simples analogia para facilitar a compreensão: imaginem um jogo, duas equipas, no campo e nas bancadas, e, claro,  regras. No primeiro caso, necessariamente, há um árbitro, acima das equipas e dos adeptos, imparcial, soberano, com a função de zelar pelas regras, punindo faltas, marcando o tempo de jogo, assinalando os golos. No segundo caso, não há juiz, nem tempo de jogo, nem limites do campo, ou das balizas, e uma Coisa  que é também equipas, adeptos e brinca sozinho com um tabuleiro infinito pela eternidade. No primeiro caso, temos a divindade transcendente ao jogo; no segundo, a divindade imanente. E a repetição da metabolia paradigmática que já tínhamos visitado com os atomistas gregos: a terraplenagem da aristocracia orgânica pela república ou democracia (já podemos começar a chamar-lhe assim) mecânica. Onde se começa a acreditar, piamente, que o jogo pode e deve funcionar, à maneira dos relógios, regido exclusivamente por leis automáticas (sobre cidadãos autómatos em estágio para anjos). Mais que a uma ideia, o ataque dos iluministas a Deus, representa o ataque a uma hierarquia, a um princípio de autoridade e a um referencial - de justiça e liberdade - fora do sistema. Doravante o que se pretende implantar, na ponta duma carnificina inaudita que inaugura a era industrial, por via duma máquina soberana e triunfante (a guilhotina) é, exactamente, isto: um sistema que se auto-regula. Simultaneamente, um panteísmo jurídico, um mecanicismo absurdo, uma desordem autofágica e retroprodutiva. É vendido e mercadejado, na aparência, como um progresso inaudito. O leitmotif mais apregoado consiste na transplantação e enxerto das leis naturais triunfantes para o mecanismo socio-político, segundo esse farol específico com que a Santa Natureza  algures brindou e mimou o homem: a razão.

Hoje já sabemos que o sistema auro-regulado culminou no mercado em auto-regulação. Já vimos no que deu a tolerância e o humanismo após 1789. Mas na época houve também alguém que passou a factura integral das novas "ideias" - que, aliás, tanto quanto a factura proforma, apresentou o espelho às suas últimas,  materiais e fatais consequências. E o curioso é que esse espelho foi ficando cada vez mais nítido e actual. Mesmo hoje...

« - Estes sistemas são espantosos, padre - retorqui a Clément; -conduzem a gostos cruéis, a gostos horríveis.
    - E que importa? - respondeu o bárbaro. - Acaso somos donos dos nossos gostos? Não devemos ceder diante da ordem que recebemos da Natureza como a cabeça orgulhosa do roble se inclina perante a tempestade que o fustiga? Se a Natureza se sentisse ofendida por estes gostos não os inspiraria; é impossível que recebamos dela um sentimento feito para a ofender, e nesta extrema certeza podemos entregar-nos às nossas paixões sejam de que espécie e violência forem, convencidos de que todos os inconvenientes resultantes do choque produzido nos ignorantes não são mais do que desígnios da Natureza, dos quais somos os involuntários veículos.(...)
Que importa essa ignomínia a quem não tem princípios? Quando se fez tudo o que havia a fazer, quando a honra não é mais do que uma palavra sem sentido, quando a reputação é uma coisa indiferente, a religião uma quimera e a morte um aniquilamento, não será a mesma coisa morrer-se no cadafalso ou na cama? Há duas espécies de malvados neste mundo, Thérèse: os que, por serem muito ricos ou se encontrarem muito bem colocados dentro da sociedade, estão ao abrigo deste fim trágico e aqueles que não o evitarão se forem detidos. O indivíduo que faça parte deste último grupo não tem senão um desejo se for inteligente: ser rico de qualquer maneira e infiltrar-se na sociedade que inicialmente o perseguiu. Se tiver êxito, consegue o que ambicionava e deve sentir-se contente; se falhar e for preso, de que poderá lamentar-se se nada tinha a perder? Se as leis não atingem o poderoso e se são ignoradas pelo desgraçado, que conclusão há a tirar? Que são nulas, minha querida Thérèse.»

               - Marquês de Sade, in  "Justine" 

Como eloquentemente assinala Alexandre Koyré, acerca da destruição do cosmos e da centrifugação da Terra e do homem, «no final desta evolução encontramos o mundo mudo e terrífico do "libertino ateu", o mundo desprovido de sentido da filosofia científica moderna. No final encontramos o nihilismo e o desespero.»

terça-feira, janeiro 16, 2024

Anabismotomia da revolução . 2. Incisão preliminar: Entre o húmus e a substância purulenta.

Aviso: Este postal é uma espécie de adenda ao primeiro capítulo. Funciona como relance do acontecimento a partir das suas repercussões futuras, antes mesmo da análise das causas anteriores. Serve para documentar como, ao longo dos acontecimentos políticos de determinada índole, há algo que muda e há algo que permanece, servindo de substracto a toda a mudança. As grandes e efectivas transformações ou roturas sucedem não ao nível do transitório/acessório, mas ao nível do substracto, daquilo que suporta e permanece. Assim, perguntar pela génese daquilo a que a História chamou Revolução não é debater ou mercadejar as diversas formas em que o materialismo se manifesta - do liberalismo ao comunismo -, mas, antes, investigar, a fundo, pela origem e estrutura hegemonizante desse materialismo. E o primeiro dado que podemos e devemos anotar é que funciona como uma contra-tradição e uma contra-cultura que reagem como avesso, quer da cultura, quer da tradição.


 

 «A social-democracia construiu toda a sua filosofia sobre as bases do socialismo científico, ou seja, sobre o marxismo. A base filosófica do marxismo, como Marx e Engels disseram repetidas vezes, é constituída pelo materialismo dialéctico. O materialismo dialéctico aceita inteiramente as tradições históricas do materialismo francês do século XVIII e do materialismo alemão de Feuerbach da primeira metade do século XIX, que são absolutamente ateus e decididamente hostis a qualquer religião.» (...)

O marxismo é materialismo. Como tal, é tão irreconciavelmente oposto à religião como o era o materialismo dos enciclopedistas do século XVIII ou como o foi o materialismo de Feuerbach. (...)

Tanto em França como na Alemanha existe uma tradição de luta burguesa contra a religião, uma luta iniciada muito tempo antes da aparição do socialismo (por exemplo, os enciclopedistas e Feurbach). Na Rússia, mercê das condições da nossa revolução democrática-burguesa, esta tarefa recai quase por inteiro sobre os homens da classe operária. (...)

Não tem, portanto, nada de surpreendente que os sociais-democratas europeus se desviem e cheguem mais longe que os anarquistas. Isto é natural e, até certo ponto, desculpável; mas nós, os sociais-democratas russos, não devemos esquecer as condições históricas do Ocidente.»

                -V.I. Lenine, in "A Atitude do Partido Operário perante a Religião" 


Deixem que resuma o essencial da obra citada em epígrafe: quer a revolução francesa, quer a revolução russa inserem-se no âmago das lutas burguesas contra a religião (e estruturas sociais subsidiárias, do feudalismo ao capitalismo), caracterizando-se ambas, segundo o profeta, pelo "materialismo constitutivo". A diferença essencial está na base e no motor da cada uma delas. A revolução francesa é puramente burguesa e tem como agente motriz a burguesia (isto, como veremos, não é completamente verdade, sobretudo na primeira acepção); a revolução russa é democrático-burguesa, quer dizer, a burguesia acciona-a e participa nela, mas a classe operária - entenda-se o "partido operário"- transforma-se no seu motor determinante e exclusivo. Relevo ainda para o substracto refinado da social-democracia russa, graças a uma fórmula avançada de materialismo: o materialismo dialéctico. De certo  modo, este arroga-se o intérprete e depositário duma "tradição" (afinal, isto não é novo: o avesso procura sempre parodiar o direito).  Por outro lado, os sociais-democratas russos do partido operário adoptam um método  pragmático de conquista do poder  e transformação consequente e objectiva das condições sociais, bla-bla-bla, em contraponto aos sociais-democratas europeus, mais inclinados e enredados no abstraccionismo ideológico (fruto da hereditariedade iluminista), bem como a certas eclosões radicais, inconsequentes ou contraproducentes - leia-se, anarquismos e outros radicalismos burgueses. Pronto, basicamente,  para o que aqui interessa, é esta a postura do cavalheiro.

O que importa reter disto é a assumpção da herança genética do materialismo francês e, posteriormente, do alemão (Feuerbach, da ala esquerda hegeliana, terá mesmo forte influência em Marx). Há um trajecto afectivo e concreto, que não é segredo de ninguém, entre a revolução de 1789, a Comuna de Paris e a Revolução Russa (que começa até antes de Outubro de 1917; aí apenas culmina). Depois, como atrás ficou exposto, a consequência necessária - tanto quanto a causa eficiente - do materialismo é o nihilismo. E seja quem for que conduza o cabresto-povo: a burguesia, o partido operário (hoje mais conhecido por comunista), ou os aliões ou glutões da galáxia gutenberg. Podemos lá chegar com mais ou menos bugigangas, mais ou menos portagens, mas o aterro é fatal.

Por outro lado, já que estamos com a mão na massa, vamos dar um saltinho à nossa Nano-Revolucinha dos Cravos. Um belo dia, chovia materialismo a cântaros, o país acordava  encharcado e mirrado até aos ossos, e eis senão quando os neo-portugueses se deparam, entre embrutecidos e aparvalhados, com uma oferta inaudita de três partidos social-democratas no cardápio: O social-democrata marxista (aka PS), o social-democrata marxista-leninista (aka PCP) e o social-democrata não marxista mas progressista (PPD). Ou seja, tínhamos social-democracia para todos os gostos; à franco-germana, à salada russa e â Zé do Pipo. Pouco tempo depois, por via dumas tricas quaisquer, rectangulizado Portugal, a primeira meteu o marxismo na gaveta, a segunda aderiu ao parlamentarismo burguês e a terceira assumiu a essência na sigla, devindo Social-Democrata só (excepto para um maduro qualquer que insistia numa sigla pomposa PPD-PSD (Não ML)). 

E, para a história, um pormenor deveras excitante: «Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota apresentam aos portugueses os estatutos do PPD, um Partido de centro-esquerda, de cariz social-democrata»  .... E prestem atenção aos princípios:

Liberdade, Igualdade e F..., perdão, Solidariedade

Não foi bingo por um triz.


PS: Convém apenas relembrar que este novo "partido progressista" que arribava na Revolucinha era constituído pelos mesmo que corporizavam a "ala liberal" da anterior situação.

segunda-feira, janeiro 15, 2024

Bom Asno Novo!

Ando um bocado arredio das efemérides. Até me esqueci de desejar, em forma, aqui na montra principal, um Bom Ano  a todos os heróicos leitores do Dragoscópio. Aqui fica, pois, sanada a falta. Bom Ano!

Entretanto, para os restantes habitantes do rectângulo - nomeemo-los, doravante, de rectanguleses -, e dado mais um certame eleiçoadeiro que está por aí a rebentar, aqui ficam os meus sinceros votos de um Bom Asno Novo!  Tenho a certeza que saberão eleiçoar em conformidade. E, convenhamos,  é mesmo impossível falhar.


domingo, janeiro 14, 2024

Da aletofobia contemporânea

 




Acreditar que o jornalismo subsidiado pelo estado (e quem quer que seja que lá se hospede na hora a correr) não é isento, nem missionário, nem sindicativo é uma sonsice tão grande como acreditar, piamente, que uma vez controlado por obscuros grupos privados e cumprindo agendas óbvias internacionais já oferece garantias supimpas de todas essas virtudes. Acontece que o jornalismo., na generalidade, não ultrapassa o jornalixismo, seja quem for que o controle. Entre os Pravdas soviéticos e os actuais Pravdas amerdicanos, Washington Posts ou New York Times (só para citar os mixordeiros de meta-referência) a diferença é nenhuma (a limite, os soviéticos até eram mais honestos: não vestiam a pele de cordeiro). Acontece que, no nosso peculiar caso nacinhal, não são necessários jornalistas para sindicar uma coisa que não existe: poder político. Daí que o que se passa, em bom rigor, é um bando de moços de frete em voyeurismo ruidoso dum bando de impotentes. Daí que o que ocorre é que os mesmos que controlam os borra folhas também manipulam os murchos soberanos, pelo que, a bem da economia e do lucro que os iluminam, dispensam a redundância dos primeiros (no jargão actual: reajustam). Virtudes da internet: dois ou três Pravdas oxidentais  bastam; a seguir é toda uma reverberação online, que a proliferação da guilhotina moderna (vulgo, televisão) ao nível de bolso, garante em modo ininterrupto e ubíquo. Ironia amarga: o medo ao desemprego que transportou os jornalixeiros a todo um serviço forçado numa fábrica de aldrabice industrial e compulsiva culmina no sado-tálamo  desse cagaço motriz. Dizer que tenho pena seria mentir descaradamente. Como não sou jornalixa, estou dispensado desse preceito. Parece que não há por aí falta de trabalho: na construção civil ou nos campos, a servir à mesa ou a conduzir turistas, é toda um cornucópia de ofertas. Experimentem trabalhar honestamente, para variar.

Quanto à minha posição nesta matéria (o tal jornalismo), e já que falamos nisso, é, acreditem, de meridiana e proverbial sensatez: se o estado serve para alguma coisa, e a única coisa que ele pode servir é a nação que o abriga e sustenta, então o estado deve controlar o jornalismo, de modo a que este não seja controlado por outros estados meramente proxenetizantes e extorcionionários; isto é, o jornalismo deve submeter-se ao interesse nacional e não ser correia de transmissão de interesses alógenos, escusos, e esses sim, de modo nenhum escrutináveis.  Longe de ser uma utopia, esta modalidade já foi mesmo praticada entre nós, durante quase meio século, com censura e tudo, abençoadinha seja. Adianto ainda, que controlar não significa formatar ou reprimir sistematicamente. É mais da ordem do controlo de qualidade. Pretende-se que haja informação, não deformação. Portanto, alguma repressão será necessária e justa: a repressão da aldrabice, da escandaleira, da obscenidade, do boato, da corrupção intelectual, da estrangeirite torcionária, da esbirrite ideológica, da gonorreia sectária, do inquisicionismo laico, etc, etc.  De  resto, no estado actual da arte, uma questão dupla e pungente a colocar seria:  se esta paródia de estado e esta paródia de jornalismo seriam de algum modo corrigíveis e recuperáveis? Inclino-me pela dupla negativa. E se, no primeiro caso, alguma possibilidade, particularmente violenta, possa ficar sempre em aberto, já na segunda, despejá-los numa lixeira afigura-se mesmo como o corolário lógico, legítimo e exclusivo. Se viveram do lixo, natural é que sejam despejados nele. Cá se fazem, cá se pagam.

Por fim, algumas considerações de ordem técnica. Os jornais sempre foram veículos não apenas de propaganda, mas também de publicidade (no fundo, dupla acepção da mesma essência). Aliás, enquanto empresas com intuito lucrativo, procuravam na publicidade a sua principal fonte de subsistência. Portanto, a questão determinante que se coloca, em relação ao jornalismo, dado que a deontologia profissional não passa de mito urbano assaz rasca, prende-se com a gestão e administração dos fluxos e vias publicitárias. Ora, ao longo do século passado, foi-se assistindo, gradualmente, à internacionalização acelerada da publicidade e da informação (passe, em larga medida, a redundância). Até que se entrou naquilo a que se chamou "globalização". Podia, na aparência, alardear uma dispersão e disponibilização, à escala planetária, duma variedade e cornucópia de produtos publicitários; porém, na realidade, outra coisa não materializou (e vem solidificando) senão a concentração, monopólio e afunilamento do empório, numa espécie de cérebro centralizado que despeja, quase em tempo real, toda uma pasta monocórdica e monocromática, através dum sistema metastizado de vasos comunicantes e capilaridades anexas. Ora, esta exorbitação megalómana da Agência Central implica necessariamente o fecho e extinção duma miríade de agências e sucursais regionais entretanto tornadas obsoletas e desnecessárias. O consumidor, cada vez mais conectado à matrix, absorve directo da Cloaca Mater, sem delay nem ferrugem. Há mesmo, em toda esta metalambicagem, uma espécie de concretização tardia da imanência pródiga do bento Espinoza.

Em resumo, o jornalismo é aquilo que se sabe e que não vale a ponta dum corno. Mas não é tudo. Resistem, todavia, alguns jornalistas. Aqueles que sempre existiram e porfiaram, apesar do jornalismo. Na porção que lhes compete, também eles, dignos e raros heróis do nosso tempo. Na TSF, por exemplo, não se avista nenhum. E isso - não a lixeira mas o deserto -, isso sim, é que dá pena.


PS: Para os jornalixeiros ofendidos e, sobretudo, desdenhosos dos ofícios alternativos recomendados, têm bom e sobrejusto remédio: na Ucrânia estão a aceitar matrículas para as heróicas brigadas defensoras da democracia e dos "vossos valores". É, por uma vez, serem bravos e coerentes, correndo  a apostar o coiro onde, até aqui, só arriscaram a treta.

PS2: Aletofobia - aversão/fobia à verdade.

sexta-feira, janeiro 12, 2024

A revolução continua

 Só para irem rilhando no intervalo:

Numa das mais recentes peripécias do Oxidente, foi nomeado como primeiro-ministro em França um tal Attal. Acumula uma trindade de mais valias às avessas: é jovem, é judeu e é gay. Fosse o encargo destinado ao management duma qualquer banda pop, eu diria que a aventura estaria prometida aos mais retumbantes sucessos. Os pergaminhos da família são mesmo auspiciosos nesse campo (o pai cineasta, a mãe produtora).  Relembro até, a propósito, um tal de Brian Epstein. Mas como é duma paródia de estado que se trata, embora no domínio dos entretenimentos e variedades, tenho que admitir algumas reservas. Mas a coisa promete. Agora nomeou para ministro dos negócios estrangeiros, da paródia de estado, o ex-marido (ou sem ex, não está suficientemente apurado). Se é para nos fazer rir, vai bem lançado. Se é para convocar a nova revolução, não precisa: julgava-se que era um filme épico, mas afinal é mais uma série televisiva. Vamos agora na quarta ou quinta temporada, episódio não sei quantos. O facto do recém-nomeado pelo recém-nomeado não possuir qualquer habilitação para o cargo é discutível: convém averiguar, com detalhe, se é judeu ou não. A recém-demissionária, que o primeiro recém-nomeado nomeador do segundo-nomeado veio substituir, também era judia. Com a distinção e super-habilitação de ter um pai sobrevivente do holocoiso. 

Sugiro, seriamente, que se estabeleça quanto antes um critério soberano para eleições a Oxidente: o estatuto obrigatório de dupla eleição. Quer dizer, que o eleito pelo voto popular seja previamente eleito pelo pedigree. Nada como uma garantia reforçada da boa governança e dedicação canina ao interesse das populações.

A propósito disso, escusado será dizer que o primeiro acto que o recém nomeado Stéphane, mal investido no cargo, ensaiou... foi, a correr, de avião, a Kiev. Só lamento que não tenha ido a pé, descalço, de baraço ao pescoço, em solene peregrinação. 


quinta-feira, janeiro 11, 2024

Breve pausa para aferição semântica

 Imaginemos a seguinte experiência de campo: um dos meus caros leitores, Deus o proteja, era confinado durante 12 meses à ala de furiosos dum hospital psiquiátrico. Deparava-se com toda uma fauna característica: dois ou três Napoleões, um luso Elvis, meia dúzia de esquizofrénicos consumados, uma pitada de borderlinners e outros tantos paranóicos compulsivos. Constataria de pronto toda uma profusão de ideias, concepções e até teorias que o deixariam estupefacto. Repararia também, não sem uma certa dose de espanto, que, per si, até nem seriam destituídas de lógica e coesão interna. Algumas regras silogísticas seriam até menos maltratados do que pelos jornalixeiros e politiqueiros do momento. Não obstante, o ambiente de delírio, fantasia assanhada, em suma, de loucura completa seria, mais que evidente, penoso e deprimente de partilhar e assistir. Ora, a questão é esta: ao fim de um ano de convívio intenso e estrénuo debate, admitindo que sobrevivia ao internato, escapando de algum modo ao homicídio ou ao suicídio, o que é que acham que aconteceu - o leitor, heróico e pundonoroso, conseguiu recuperar os doidos para a realidade, ou tornou-se num deles, aderindo, por contágio e cansaço mental, à alienação?

E todavia, a parte mais engraçada disto é que, na verdade, os furiosos da ala psiquiátrica protagonizam, em rigorosos termos, a completa privatização da realidade. São, dito à boa maneira das bestas protestantes, consciências absolutas. Foram mais longe que a simples desnacionalização dos meios e indústrias de produção de ideias: instalaram-se, de armas e bagagens, na desrealização. Em suma, não comunicam nem comungam de qualquer realidade colectiva, comunitária. Assim, o que vou dizer a seguir nem sequer é apenas sarcástico e irónico (é literal!): constituem, acima do grau avançado que todos os dias se escava e burila mais um pouco no Oxidente, o estado de perfeição do liberalismo. A realização em acto pulcro das suas totais potencialidades. Tanto mais quanto, para cúmulo da virtude, conseguem o atávico prodígio de viver completamente desligados da realidade pública, mas totalmente subsidiados, cevados e vestidos por ela. Quero com isto sugerir que para contrabalançar à via do socialismo, que é o caminho da servidão, os liberais (neo, paleo, puto, xuto, etc, o que queiram), nos oferecem o caminho do hospício? O que é que acham?

E vem isto a propósito de quê? Ah, permitam que aponte: a "profusão de ideias", de que fala um estimado comentador amigo dos poetas. Pois, meu caro amigo: as ideias dos malucos não são as ideias da filosofia. E quando eu refiro ideias são mesmo ideias fundadas na realidade, o tanto menos privada e particular que consigo conceber. Ou seja, Universal... melhor ainda: Cósmica. No grego "falso" diz-se "pseudo". Este é, pois, um critério muito simples, óbvio e inegociável: pseudo-ideias não são ideias. Falta-lhes o Ser. 

E fazem favor agora, os caros leitores, todos, de terem para comigo a caridade de não cobrar em excesso a maldade de encerrar alguém, feito cobaia, numa ala furiosa do manicómio. Até porque, hão-de fazer-me justiça, podia ter sido muito pior, o laboratório... Calculem idêntico estágio na actual administração dos Estados Unidos. 



quarta-feira, janeiro 10, 2024

Anabismotomia da Revolução - 1. No princípio era o nada; e no fim também.



 

 

«No princípio, quando a Revolução libertou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito das leis movia-se sobre a superfície do cuspo».

                         Livro do neo-génesis, 1,0-1 (segundo Ya-ya-vu, demiurgo dos yahoos)*


«É fácil afinal a matança! Toda uma classe aniquilada! Toda uma classe vindimada! É só arrombar portas abertas, e como elas estão comidas do caruncho!...»

                             Céline, "Mea Culpa" 


Comecemos pelo título. Conforme os leitores mais antigos sabem de ginjeira, nesta casa criam-se palavras. Criam-se, desmontam-se, investigam-se, inventam-se, escarafuncham-se, etc. Que significa então "anabismotomia"? Significa abrir as entranhas da coisa e espreitar lá para dentro, para o abismo. Posto isto, avance o bisturi!...

Eu ia, naturalmente, começar pelas ideias que terão estado na génese do portento. Locke, Rousseau, Montesquieu e todas essas lamparinárias de vão de século. Seria até fácil, para mim, dada a minha especialização, digamos assim, académica. Poderia até remontar a coisa aos sofistas do tempo de Aristófanes. Armava seguramente um lindo fogo de artifício, digno quiçá dum réveillon moderno, desses sempre prontos a engodar turista e basbaque paspalho, passe a redundância. Acontece, porém, um fenómeno muito simples: tenho infinitamente mais amor à verdade do que ao espectáculo. E mentiria descaradamente se repetisse aqui essa ladainha rançosa acerca das  ideias por detrás da Revolução. Porque, em primeiro lugar, jamais, em tempo algum, as revoluções germinam de ideias - resultam essencialmente de carências - económicas, morais, políticas, estéticas até -, e de desordens - mentais sobretudo, sociais eventualmente, criminais quase sempre, religiosas enfim; e, em segundo lugar, porque se fossemos à procura de ideias em Locke, Rousseau ou Montesquieu, debalde o faríamos. Debalde e alguidar, dado que mais fácil seria, sem sombra de dúvida, desencantar peixes no deserto ou virgindade num serralho geriátrico. Aliás, poderíamos até classificar, dum modo genérico, a história da filosofia ocidental como a história duma sucessiva e crónica falta de ideias, na Europa e colónias. Calcula-se que o stock ficou praticamente esgotado na antiguidade clássica. No melhor e mais radicalmente caritativo dos casos, poder-se-ia dizer dos filósofos da idade moderna e seus afluentes prévios o mesmo que Marcello Caetano terá dito da tese doutoramentosa de Soares Martinez: que em matéria de  ideias, as originais não eram boas e as boas não eram originais. Com a agravante de, para cúmulo, no caso da filosofia moderna, as boas na aparência serem geralmente más na essência.

As revoluções tratam de deitar abaixo qualquer coisa, edifício social ou situação política. Isto, segundo o folclore e teses derivadas. Na realidade, não é bem assim. Como Céline muito bem aponta na citação em epígrafe, os revolucionários, sem excepção, operam como arrombadores de portas abertas. Quer, dizer, a revolução não arromba, irrompe. Longe de qualquer acto de coragem ou valentia, antes manifesta um mero expediente de oportunismo. Todos nós, seres humanos, experimentaremos uma espécie de revolução no fim da nossa vida: na hora em que o nosso corpo entrar em falência, os vermes, micróbios e bactérias, secundados por toda a espécie de insectos subterrâneos limpa-sepultura, armarão sobre ele uma completa revolução. Acamparão em festiva assembleia. Resumindo, sempre que um organismo, biológico ou social, entra em decadência, colapso ou putrefacção, eis que a revolução se apresenta para tomar conta dele. Pode ser mais ou menos espectacular e aparatosa, mas será fatal. Acontece que o que leva séculos a criar e desenvolver, como é o caso, por exemplo, duma civilização, leva ainda algum tempo a extinguir e dissolver-se. Embora rápidos (note-se que rápido e rapace são da mesma família, primos íntimos) e sempre apressados, bem como tomados de seiscentos diabos e urgências, os revolucionários ainda levam o seu tempo. Os canibais sociais também cumprem preceitos, ora essa!... Até porque têm sempre mais olhos que barriga, mais cobiças que bandulho (não obstante toda a desarvorada gula que os preenche, locomove e resume). Todavia, e de certo modo, os revolucionários são um bocado como os homens do lixo: desempenhariam até uma função útil, se, a pretexto do lixo, não levassem, por arrasto e vandalismo infantil, tudo o resto. Apresentam-se a título do município, mas funcionam à maneira das catástrofes. A crise (por etimologia, a crivagem) descamba invariavelmente em enxurrada. Tudo isto engrinaldado com coroas duma salvação em saldos: o salve-se quem puder, que nunca vai além do safe-se quem puder. Por outro lado, voltamos ao início: nada daquilo expressa qualquer tipo de ideia, mas unicamente um arremedo de instinto, pulsão ou mero aleive. Não é fruto dum exercício mental, mas apenas duma gana visceral. Um bocado como certos mecanismos automáticos para as bandas do vómito ou da diarreia social. Escancarados os portões, desvalidas as muralhas, é todo um rebate geral à pilhagem, ao saque, ao massacre bíblico do indigenato. Sim, porque convém nunca esquecê-lo, o revolucionário é, invariavelmente, por delegação e fantasia alienada, o estrangeiro. Mais que o heróico implantador dalguma virtude endógena, desempenha o magarefe transplantador de qualquer éden recalcado e exótico. Lá bem nos fundilhos do íntimo, protagoniza a vingança iahvédica, isto é, alienígena, sobre as inesgotáveis Gomorras de ocasião. A revolução, caso nunca tenham reparado, é um subproduto, uma excrescência fétida do evangelismo de sargeta mai-los seus apocalipses de alguidar em loja de conveniência.  

Então, convém interrogar: como envelhecem, adoecem e colapsam as civilizações? Olhai à volta, que diabo! Estais a assistir ao vivo e a cores a qualquer coisa do género. Mas, de todo, há que reconhecê-lo, não é por uma qualquer indigestão, envenenamento ou abuso de ideias. Bem pelo contrário, germina dum alastramento, duma devastação, do vazio delas. A revolução, reforço e negrito, não germina da selva das ideias, mas do seu deserto.  E da lixeira entretanto nele instalada, em forma de aterro sanitário, a céu aberto. Sendo que o vazio não se manifesta apenas pela ausência, como também pelas suas comparsas do coro:  a frivolidade, a futilidade e a ninharia.

Aquando da segunda "Grande revolução" europeia - a revolução de Outubro, na Rússia - os agentes dissolventes já não precisavam de máscara angélica: nihilistas de focinho descoberto e mandíbula ostensiva, apresentavam-se como realmente eram, sem pejo nem rebuço. Por alturas de 1789, todavia, na Paris em véspera de açougue, o nihilismo era o mesmo, mas disfarçado de procuração em arreganhos de  tutoria... Do povo, claro; essa repentina abstracção da cobra. Era o nada na mesma, só que de peruca e intelecto postiço. Em Paris era ainda a não-classe; em Moscovo era já a classe eleita.

Mas que em que consiste, afinal, o nihilismo? Poupemo-nos a perífrases e paleios técnicos. No fundo, a coisa resume-se numa fórmula básica: nada é sagrado. E, bem pesada, compendia duas acepções: nenhuma coisa ou entidade neste mundo é sagrada, resumindo-se tudo a um presente, material, funcional e aparente; e sendo que nenhum sujeito ou objecto da ordem do Ser é sagrado, resulta uma espécie de consagração do nada, através do vazio moral, social, estético, espiritual e político. Sim, desembocamos no completo mundo às avessas, onde a pura criação cede lugar à pura destruição, onde o nada devém tudo. Por outro lado, o "nada é sagrado" resulta no "tudo é insignificante". E é aqui que, por assim dizer, as coisas começam a ficar (ainda mais) interessantes. É que erradicar o sagrado do mundo implica o esvaziá-lo, ao mundo, de todo e qualquer significado. Entramos no império da banalidade, da vulgaridade, ou, como é já apanágio do nosso tempo, do lixo adiado que se idolatra e trafica (numa espécie de pseudo-sagrado efervescente, instantâneo e turbo-descartável). Tudo na vida deixa de ter um valor real e passa a ter um preço. O cosmos nanifica-se e nadifica-se a um mercado; o mundo a uma loja; o homem a um forçado consumidor de efemerdas e efemérides.

Ora, como é óbvio não se chega a este extermínio completo do sagrado duma assentada. Foi coisa para séculos, gradual, insidiosa, perversa, até porque a inversão também cumpre uma lógica, também tem um itinerário, também deixa uma pista. Não se salta, por exemplo, duma natureza  sagrada, enquanto fruto da criação divina, ou do cosmos vivo, para o nada (e o neo-caos seu avatar) de modo instantâneo. Não foi por golpe de mágica apenas, por muito negra ou delirante que fosse. Disso, desse processo esboroante, trataremos nos postais seguintes. Ou seja, do tal caruncho que corroeu os portões e carcomeu as vigas, os pilares e as traves mestras. Pensem, não obstante, na Reforma, em Espinoza, Descartes em larga medida, o mecanicismo subsequente, e por fim, Locke com Rousseau a cavalo, mais os ceguinhos iluministas em romaria de luze-cus... De que trata de cuidar, afinal, toda essa peregrinação dos aflitos? Varrer o sagrado da cidade; e da igreja, nem mais. Urbe et orbi. Por um rasgo grandioso de filosofia? Precisamente o contrário: por um despejo, reiterado e aleivoso, de filosofobia. Com todas as sacholas, pingarelhos e escova-pentelhices disponíveis e imaginárias!... Aliás, fazer o inventário exaustivo das farândulas e trampolinices que conduziram à Revolução de 1789 (e derrocadas subsequentes, até ao oxidente actual), além de requerer um estômago de ferro e uma paixão de entomólogo, constituiria, por pleno direito e forma, bem como coroa de louros para o Hércules que a lograsse, uma História da Filosofobia Ocidental.  Sim, e em Apêndice ao Compêndio, com toda a legitimidade clínica, uma Monografia psiquiátrica intitulada: "Esquizocidência, uma regressão mental colectiva." 


* - Conferir "As Viagens de Guliver", de Jonathan Swift 

PS: Filosofobia não é exactamente um sinónimo de sofística, mas não anda muito longe. 

sábado, janeiro 06, 2024

Não falamos a mesma Língua


 


Como dizia um antigo e excelente professor meu (o melhor de todos, que eu me lembre, esse, que ainda tinha sido aluno de Heidegger), a palavra não é apenas um dis-curso, é também, e sobretudo, um per-curso. Transpondo para a nossa Língua, ela não exprime apenas uma forma de palrar; contém em si, sobremaneira, a memória e a história dum povo. Guarda consigo um mapa do caminho através do Tempo e do Mundo, um fio de Ariadne - as palavras, em suma, e aqui sou eu que há muito digo, sinalizam um rasto, uma pista, um horizonte (de partida e chegada, de entrada e saída do labirinto da existência). Mesmo a "comunicação" supõe e subentende uma "comunidade". Quando se degradam a mera dicção (e como é hoje regra, dictatum absoluto de amnésia, vazio e imbecilidade), pouco mais representam que tagarelice, num aglomerado ruidoso de cuspo. A palavra vale ouro. Mas, como a moeda, nestes dias, já não vale nada. Não por acaso, a palavra é o baluarte primeiro e escudo principal duma nação. Ora, o escudo, onde anda ele? O escudo moeda e o escudo palavra, pois...  Portugal degradou-se a "euro"... euro qualquer coisa. O que não deixa de ser irónico: um povo que colonizou meio mundo para angariar fonte de subsistência, agora degradou-se a colónia como fonte de esmola. Já não usamos o escudo, e ainda usamos a Língua Portuguesa? A Pátria do Pessoa e, por sinal, a minha, é também a vossa?

Não me habitam grandes ilusões. A maior parte daqueles que se fazem passar (e passear) com BI (agora "cartão do cidadão") português não entendem o que eu digo, nem eu, tão pouco, registo o que eles dizem, porque, na maior parte do tempo, não dizem nem significam porra nenhuma. São meros repetidores de antenas difusoras, sem qualquer ligação ao passado, nem perspectiva digna ou sequer racional de futuro. E notem que racional já é algo muito básico. Ao alcance de qualquer máquina de calcular. A verdade é que nunca um situacionismo tão balofo e desenfreado foi tão patente o obsessivo. A situação, aliás, resume, por completo, o assunto. O país degradou-se e nanificou-se  - ou melhor, nhanhificou-se -  a um mero "sítio"... De resto, particularmente mal frequentado. As mais recentes vagas, quer de imigrantes, quer de turistas, só culminam e agravam a deterioração da comunidade. O situacionismo imbrica e decorre  dum sitiamento invertido: os pseudo-defensores indígenas são os primeiros a abrir os portões, a demolir as muralhas e a convocaram, entre meneios e arrulhos de cio, a invasão e a colonização alienígena. Não se trata já apenas dum regime de alterne, mas também de envaselinamento compulsivo e generalizado. 

Ora, como já aqui atrás expus, quando visitei o paralelismo entre palavra e moeda, a palavra  homem radica no omoios grego, ou seja,  no significado de semelhante: o homem é o meu semelhante. Mas, mais a limite ainda, é a semelhança enquanto comunidade/polis (no caso fundador de Esparta, onde os espartanos se autodenominavam como omoios) que importa assinalar. Há uma omoios-génese que prevalece e predetermina quando enunciamos "os portugueses". Onde essa homogénese principia por estar consagrada é na Língua Portuguesa. Outros factores, digamos assim, naturais - como território, etnia, clima, etc - seriam inconsequentes se não lavrados nesse "con-trato colectivo", ou seja, se não vertidos e documentados na palavra. É a forma como falamos, entre nós e para os outros, que nos faz humanos e portugueses, isto é, que nos semelha e diferencia. Isso e o partilharmos e tripularmos uma História. Que é sempre, por pertença a uma cultura, a manifestação  de uma Odisseia. Dis-curso, per-curso, a palavra, é também con-curso. A odisseia - o caminhar -  é um caminhar entre outros povos e com outros povos. Todavia, não em modo amalgamar ou tumultuoso, mas como num jogo, num certame, numa competição. Da mesma forma que numa sociedade ou comunidade, os membros se procuram diferenciar e distinguir, pela manifestação e conquista da sua individualidade, da sua autonomia, ou, no melhor dos casos, da sua excelência. Ser semelhante não é o mesmo que ser igual; quer dizer, a equalização é o ponto de partida, não é o ponto de chegada. Ainda segundo o paradigma homérico, partimos todos com as mesmas armas, mas a própria vida/batalha se encarregará de mostrar os mais valorosos - aqueles que se distinguem não só pelas suas virtudes, feitos e faculdades, mas também pelos desígnios superiores que transportam ou representam; e, sobretudo, pela beleza, firmeza e justeza como tudo isso exprimem através da fala. Afinal, são peões dos deuses, os homens. E a limite, no tal zénite da excelência, onde aponta a semelhança? Homero revela-o sem meias palavras: Aquiles, semelhante a um deus. E quem diz Aquiles, diz, simbolicamente, qualquer herói. Então o "homem" - o semelhante, o meu semelhante - é na medida em que realiza essa semelhança... a Deus. Quer dizer, na medida em que se eleva, em que se perfaz e manifesta. Não estamos assim a falar duma "abstracção" - o "homem" enquanto ideia, conceito, teoria; bem nos antípodas, estamos a falar duma realização, duma concretização efectiva, dum modo de ser nesta vida - nesta vida que é já o átrio da eternidade. Age como se agisses perante Deus, para Deus e Nele inspirado.

Não é fácil. Pois não, é dificílimo. Raia - digo mesmo: constitui, cada vez mais - o heróico. Pouco ou nada valeria se o não fosse. Mas ao  contrário do ouro, da moeda e da palavra, não se tem desvalorizado nem vulgarizado com o decorrer e discorrer dos tempos e da História. Bem pelo contrário, deveio tesouro cada vez mais precioso. Porque, tão simplesmente, cada vez mais raro. A Lanterna de Diógenes continua a sua demanda no pino do dia. Onde está o Homem - um homem? A luz do sol, que Platão comparou ao Bem e à Verdade, é treva densa se o acto não realiza o ser. O ser, só que não o ser em abstracto, em absoluto, mas o ser humano enquanto indivíduo e enquanto relação: Aquele que é meu semelhante na exacta medida em que mais se distingue de mim. Porque ambos nos emulamos, como as árvores na floresta, pela luz da vida que nos guia e atrai do alto. Na Ilíada que é o mundo, segundo Homero, somos na medida em que nos distinguimos uns dos outros; na proporção em que não somos a cópia, o símile, a mera repetição ou emissão ordinária, mas o invulgar, o único, o extra-ordinário. Quer dizer, enquanto nos semelhamos aos heróis - aos nossos heróis.

Os gregos, na língua mãe da civilização, chamaram ao "raro" (neste sentido que aqui conferimos) paradoxos. Ora, o Homem é, tanto quanto um enigma esfíngico, um paradoxo. Porque  se semelha na medida em que se distingue; porque escapa e ultrapassa a vulgaridade da opinião, da aparência ou da mera reputação -que são as várias acepções do termo "doxa" no grego;  e porque, inerentemente,  é/está através mas também para lá da linguagem. Quer dizer, não se distingue pela palavra se esta não estiver escorada e enraizada na acção. Um exemplo, talvez um dos mais emblemáticos da nossa civilização é a resposta de Jesus Cristo à pergunta de Pilatos: "O que é a Verdade?" Não respondeu por palavras. Mostrou-lhe a verdade na cruz. Conforme está escrito e nos lega e transmite a Palavra. 

No texto original, aqui à minha frente: "ti estin aletheia? (O que é a Verdade?)

Ora, Lethe é um dos cinco rios que, na mitologia grega, medeiam entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos (Hades) . Lethe significa esquecimento - o rio do esquecimento. Uma vez bebida a sua água não mais a alma humana recordará a sua vida anterior. Tornar-se-á então a sombra melancólica e asténica daquilo que outrora foi. Aletheia - verdade, em grego - é, de facto, uma negação: a-lethes, ou seja, não-esquecer. É esse também o paradoxo: saber é não-esquecer. Mais que aquisição é recuperação; mais que progresso, é retorno. Não decerto por acaso, quando o pai Platão entende o caminho para a sabedoria como uma reminiscência, está a inserir-se numa tradição; se depois se evola e desancora para um "mundo das ideias", isso, à partida, constitui uma fuga à realidade, um desequilíbrio, uma arrogância desprezativa da matéria/corpo (a inversão disso, mas aproveitando-lhe o andaime, traduz o materialismo escatofórico actual - na demanda rastejante do "corpo ideal").  A barbárie ocidental, entretanto, significa essa morte da memória, esse assassínio compulsivo, venenoso, premeditado do passado, da fundação, da origem. Corporiza não apenas uma amnésia compulsiva, mas também uma afasia funcional - a incapacidade de relembrar implica a impotência em falar - o apagamento do passado determina a morte da história e, nesse velório sórdido, a impossibilidade do dizer, do mostrar o valor (a semelhança tanto quanto a diferença, do tal paradoxo humano). Ao reduzir a existência a um mero e perpétuo presente regurgitado, são as referências que se perdem, para qualquer tipo de discurso, percurso e concurso dignos desse nome. Um tempo destituído de passado mais não representa que um simulacro ruidoso de êxtase, uma repetição insensata do absurdo em curto-circuito e do absoluto em microgotas, em suma, uma informe estagnação.  Um tempo que despreza o passado é um tempo que se descarta da própria essência do Tempo: um sentido. 

Ao contrário dos primórdios dourados da civilização em que a sabedoria emerge da negação do esquecimento, nestes tempos tenebrosos e tanatológicos, o pseudo-conhecimento  sustenta-se na sua afirmação peremptória e pesporrente. A cultura genuína pagava a sua dívida às suas origens, a barbárie oxidental apaga-a. Nada deve e tudo cobra, decreta ou confisca. E confina. A ninguém serve, porque de todos e de tudo se serve e avia. Encontra-se e esmera-se nos antípodas e na negação da odisseia. Não é o odos que respeita ou demanda, mas o para-ódos, entenda-se, a mera paródia da vida e do ser, do natural e do artificial. Da mesma forma que sacrifica o noos  no altar do para-noos, ou seja, que imola o espírito  aos caprichos da paranóia. A simples ratio, por implicação e gala, já nem sequer visita. Distrai-se, diverte-se o mais longe possível da mesma... aborreceu-se dela. É como o passado. Apenas entende o mundo como um afastar-se, repugnado, de ambos. Este extraviamento  da odisseia se tivermos que resumi-lo a uma palavra não será difícil. Basta seguir-lhe o rasto ao próprio latim de origem. Do verbo aberrô - afastar-se, desviar-se do caminho, extraviar-se -, aberratio denomina isso mesmo: extravio, distração, diversão, alívio. Por conseguinte, um Tempo da Aberração. Que, repito, não frequenta nem o passado, nem o sentido, nem a razão, mas apenas se alivia - com estrépito e desplante - neles.




sábado, dezembro 30, 2023

Da Falácia à falência

 Do verbo falio (falis, fere, feleli, falsum) - enganar, induzir em erro, trair, etc - radica o termo latino "fallãcia" e o português "falácia". Falácia e falso são da mesma família.

A falácia começa por ser retórica, enquadra-se ao nível da linguagem, da "comunicação". O termo surge entre aspas porque, na realidade, veicula o oposto - na medida em que falsifica  a mensagem, a falácia nadifica o discurso, erradica o sentido; não existe troca, apenas despejo.  É uma emissão unilateral que pressupõe o cancelamento da resposta. Não admira, por conseguinte, que a falácia constitua, na essência, o vocabulário do totalitarismo.  Enquanto sofisma, na lógica mais ou menos filosofóbica, a falácia traduz dois embustes principais: concluir do particular para o universal; confundir o acidental com o essencial, ou, dito doutro modo, fazer do acessório o fundamental.

Podemos enunciar algumas falácias ribombantes e completamente despudoradas da actualidade. 

1. A falácia dos "nossos valores". Consiste em promover os nossos particulares valores a valores universais; em fazer de conta que a nossa presente acidentalidade (que, ainda por cima, traduz a inversão, perversão e transgressão de quaisquer axiomas ou axiologias antepassadas) conforma e contém a absoluta essência ética da história e do mundo. Quer dizer, valores que não existem ou ninguém sabe exactamente o que sejam subsituem-se a todos os valores. Fora do nada é o abismo.

2. A falácia da "democracia como melhor dos regimes". Trata-se, a limite, dum leibnitzianismo recauchutado - o argumento do melhor dos mundos, que já Voltaire, com imensa graça, desmantelou. E Voltaire, convém nunca esquecer, no meio da sua imensa constelação de defeitos, arvorava uma virtude cintilante: desprezava olimpicamente Rousseau. Mas atentemos na fórmula mais usual da falácia, pela voz do bipolar psicopata que a garatujou: "a democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras". Isto tem tanto ponta por onde pegue como um monte de bosta fumegante. Nem no domínio da abstracção pura, ou seja, da lógica proposicional, é defensável, quanto mais na realidade concreta. Volta a concluir do particular para o universal, reincide no fazer do acidental o essencial. O silogismo aciganado é mais ou menos este: Todas as formas de governo são más, a democracia é a menos má; logo, a democracia é a melhor. Da melhor à única aceitável é um passe de mágica. Da única aceitável ao paraíso na terra que urge defender contra todas a horda de papões e gambozinos que imaginar se possam, um instantinho. Nem se trata sequer duma falácia, mas dum monturo delas. Sendo que até o monturo é falsificado.

Logo à partida, no expediente duma suposição tresloucada: a forma de governo como forma de flagelo. A democracia é santa porque nos flagela menos. Que reconforto! Que conquista civilizacional! O Marquês de Sade, lá das profundezas, sorri, embevecido. E preside ao panteão dos taumaturgos padroeiros da nova-religião. Embora algo contristado com a clara cedência desta Justine sodomita aos escrúpulos retrógrados: a vaselina institucional.  

Depois, a sarrabulhada a priori, isto é, a experiência dispensada pelo preconceito. O passado é reduzido aos seus defeitos, reais e imaginários - uma mera sucessão de males, desgraças e opressões; o presente promove-se como um cancro benigno. Comparam-se duas vigarices, de modo a impingir a actual. O facto, é que não sabemos exactamente como se processou o passado e ainda menos como se processa o presente. Baseado nesse desconhecimento geral e agudo, somos levados a crer, por toda a espécie de dogmas de ocasião e preconceitos de conveniência, na benignidade do cancro. Os preconceitos da tradição são simplesmente usurpados pelos preconceitos da abstracção. Isto é, os preconceitos que lavavam séculos a criar são substituídos por preconceitos de aviário, semi-instantâneos e de consumo massificado. Desemboca-se assim numa espécie de vazadouro geral do preconceito, ou ETAR (estação de tratamento de angústias residuais): a Ciência. Com uma estirpe a vapor à cabeça: a Ciência política. Outro sofisma, já que não é ciência nem é política. Entretanto, outra má notícia: no império do preconceito passou-se da república à tirania.

Por fim, a transfiguração do "nosso regime" como o "único regime". Fora dele é o caos, o indiferenciado, o "todos os outros". Donde que, na verdade, não acontece sequer uma comparação, mas uma pressuposição, uma assumpção unilateral e ditatorial duma determinada circunstância arvorada em verdade exclusiva e indiscutível. Daí ao dogma não vai distância nenhuma: já se lá está hospedado, de armas e bagagens. Não existe dedução, apenas redução - a falácia ou estratagema do reductio ad vicarium (redução á vigarice). 

Mas falácia não significa, na nossa língua, apenas sofisma, engano, arteirice. Significa também falatório, ruído de muitas vozes. O que nos remete para a fala e o falar. Curiosamente, falar não partilha a mesma raiz de falácia. Falar devém do latino fabulor. Fabula, em latimtraduz conversa, conversação,  ou narrativa, lenda, peça teatral. Nas fábulas, no sentido mais importante que a nós chegou, acontecem conversas entre os animais. Por exemplo, na conversa fabulosa entre o cordeiro e o lobo, este procura recorrer a várias falácias, mas a moral da própria conversa é tudo menos falaciosa. Todavia, o cordeiro tenta falar com o lobo, tenta comunicar com ele, convocando-o até a uma certa razão. Numa certa medida, o cordeiro demanda colocar-se num plano moral, real, do direito até. Debalde o tenta. A fera está confinada ao seu próprio aleive. Não comunica, não debate: apenas informa; e decreta. Vem para expropriá-lo da sua vida. Quer simplesmente apropriar-se da sua carne, para mera cevadura dum apetite.  Uns anos depois, um outro Cordeiro, mais sábio, prescindiu da argumentação. Com César não se discute.  Dirigiu-se, em silêncio, para o suplício. Um silêncio que ainda hoje reverbera e repercute... pelo menos nesta página. 

Em todo o caso, o domínio da fala e da falácia não são coincidentes. Longe disso. E precisamente pela razão apontada no início deste postal: é que a falácia exclui a fábula no sentido original de conversa, porque implanta a falsidade pura no sentido da propaganda corrente como consagração estrita da vontade. Assim, embora a fala demande algo mais que uma simples manifestação de ruído, dado que base de comunidade e comunicação, o facto é que a falácia  mais não urde que o confinamento da fala aos seus desígnios particulares. Ou dito noutras palavras, o controlo absoluto da fala pela falácia. E, com isto, eis que aportamos à 3ª grande Falácia do nosso tempo: a equivalência entre democracia e estado de direito.

Em primeiro lugar, a democracia é um estado falaz, ou seja, não de direito mas de falácia. Aliás, a própria embrumação da "democracia" mais não corporiza que a falácia com que um determinado estado trata com as pessoas, doravante abaixo de súbditas: apenas "legalmente subjugadas". Direito pressupõe uma qualquer justiça a montante e a jusante, enquanto princípio e finalidade, sendo o direito apenas a causa eficiente. Ora, na ideologia democraticóide, o direito desliga-se da justiça e arvora-se como princípio e causa absolutos, necessários e auto-suficientes; sustentando-se num  aviário jurídico, onde a monstruosidade apenas se perpetua e consagra através da proliferação artificial, por partenogénese burocrática, da falácia. O que administra não é o bem comum, mas o mal comum, único vínculo e elo de ligação entre as partes. O que implementa não é a comunidade nem, tão pouco, a comunicação: mas exclusivamente a contrafacção de ambas na forma da chamada "comunicação social" - a qual, sem excepção nem pausa, apenas desagrega a sociedade e envenena a comunicação. Deste modo, em vez de estimular a fala e, nela, a cultura, a democracia, de falácia em falácia, alcança o seu estado final: o de falência. Falência moral, cognitiva, histórica e, por fim, económica. Quer dizer, o título pelo qual se abdicou duma ética, duma memória, duma essência, finalmente, desvanece-se, como a mera ilusão de qualquer vítima duma grandessíssima vigarice. Como antes os paraísos socialistas, também agora os infernos climatizados dos neoliberais se esboroam numa mar de corrupção, miséria e caos social. Sim, estou a falar, objectivamente, e brada à evidência, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Na fábula actual, em directo e a cores, o Estado lobo não comunica - tão pouco fala - com os cordeiros abaixo de seus súbditos: decreta-lhes apenas as suas necessidades de consumo, estipula-lhes unicamente os sacrifícios que as modas do instante a ferver com que mascara os apetites requerem deles.

Era Chesterton que dizia, com muita propriedade, "que não é por uma falácia se tornar moda que deixa de ser uma falácia". No tempo de Chesterton, porém, a falácia talvez ainda aspirasse apenas a moda; nos nossos dias já se ensoberbece armada em realidade, história, mundo. E quanto mais esfarrapada, esboroada e falida se arrasta, mais ruidosa, arrotante e propagandeada se manifesta. A algazarra como cura para o vazio; o estrépito gasoso para dissimular o óbito.

Entretanto, lá mais ao fundo, no dealbar grego, o rasto é ainda nítido: faylos já preconizava o que lá vinha. Significava feio, defeituoso, malévolo, frívolo, vil, grosseiro, insignificante, inferior, fácil, cómodo. Enfim, bem visto, tudo aquilo em que este nosso tempo de falácia se destaca e refina. Já a falácia os gregos diziam-na apathe.  Logro, engano, cilada, artimanha, astúcia. Num certo sentido, uma decorrência de a-pater, ou seja, algo indigno de um pai. Ou, como diria o meu amigo Ildefonso, uma genuína filha da putice.

segunda-feira, dezembro 25, 2023

Parabéns, querido Irmão!


 


Parabéns, querido irmão, Menino Jesus!
Goza bem o dia, a pausa nas impiedades...
Porque a seguir, dia 26, já sabes:
voltamos a pregar-te, bem pregado, na cruz.

domingo, dezembro 24, 2023

Rogai por nós

 Não faz sentido falar na "existência" de Deus. Deus não pertence ao domínio da existência: transcende-a, na medida em que a precede e supera. Também o domínio da linguagem, enquanto mero adereço da existência, não O alcança. 

Poderemos, talvez, falar da presença de Deus. No domínio daquilo a que chamamos Arte. Com A maiúsculo. Aí, a presença de Deus, transparece no sentimento - ou pressentimento - de Deus.

Para mim, o Caminho para Deus manifesta-se não através da Religião, mas da Arte. É como eu O sinto.



Deus não existe fora de nós. Deus está em nós. Na medida em que nós não estejamos fora de nós; na medida em que nós não nos abandonemos.

sábado, dezembro 23, 2023

sexta-feira, dezembro 22, 2023

Um Feliz Natal!

 Uma pausa nas hostilidades em honra ao Menino Jesus. 

Aproveito para deixar aqui, bem expressos, os sinceros votos de um Santo e Feliz Natal a todos os leitores!




terça-feira, dezembro 19, 2023

Agora a sério: 20 anos a virar frangos!...




 Auto-esqueci-me. Fez ontem 20 anos, efectivamente, o Dragoscópio. Se não o mais vetusto dos blogues, seguramente um dos mais antigos. E como a antiguidade é um posto...

Porque é que raio ainda o escrevo?

Por duas razões muito simples: para não descurar a ginástica mental; para não ceder à minha tendência avassaladora e atávica para o eremitismo. Não é fácil. Quem me tira a caverna, tira-me tudo.

Por outro lado, como Cristo e Swift, nunca acreditei em multidões. Muito menos em massas e respectivas modas, lavagens e cevaduras. Nunca acreditei, nem, ainda menos, apreciei. Pelo que me dispenso de critérios quantitativos. Ou volúpias popularuchas. Já nem direi, à maneira de Nietzsche, um blogue para todos e para ninguém. É mesmo uma página  para poucos. Para alguns indivíduos. E senhoras inteligentes. Como sempre foi. 

Posto o passado, vamos ao futuro. No próximo ano, 2024, se Deus quiser e a Musa amparar, proponho-me as seguintes campanhas & churrascarias:

1. Prosseguir a série sobre "O Dinheiro" (estou em falta aí com um dos tais indivíduos);

2. Completar e concluir, bem a propósito do Quinquagenérico  das Petas, a "Acromiomancia Revisitada";

3. Para meu especial gozo e recreio, expor uma Anatomia a Fundo da Revolução - a de 1789, dos Corta-cabeças.  Vai ser coisa digna de se ver. Nada como ir ao original.

E pronto, não é que me esteja a meter em sarilhos porque, na verdade, nem preciso. De meter-me neles, entenda-se. Eles é que andaram sempre à minha procura. Este meu magnetismo animal...


Democracia consolidada

 

«Portugal tem o dobro dos estrangeiros de há uma década, mas ganham menos e têm maior risco de pobreza»

Tudo indica que estão a ficar cada vez mais parecidos com os portugueses. É bom sinal. Não estão apenas a habituar-se, estão sobretudo a diluir-se.

segunda-feira, dezembro 18, 2023

Descese

 O negócio que a ciganice moderna nos propõe é, mais coisa menos coisa, o seguinte: trocamos o sobrenatural pelo contra-natural. 

domingo, dezembro 17, 2023

A Regressão puguessista

 Mais uma pitada de Chesterton:

«O problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas.»
E é por isso mesmo que, por exemplo, o ateísmo frenético dos nossos dias e o puguessismo em geral, ao contrário duma qualquer lucidez ou exibição racional de ponta, apenas exprimem uma credulidade exacerbada - uma infantilização perversa, dado que descabida, rançosa e senil. Em bom rigor, portanto, uma imbecilização desatada. Pois, de facto, todo o puguessismo patenteia uma regressão -  na estrita acessão psiquiátrica do termo. Uma fuga à realidade que se tenta compensar através dum delírio "objectivista", quer dizer, uma diarreia de coisificações mais ou menos efémeras, inúteis ou fetichistas para compensar e preencher um crescente vazio vital e espiritual. Em síntese, o expediente da objectivismo contra a cultura personalista. Todo o sujeito é banido: no cosmos, no mundo, na vida e na gramática. O artificial, o acessório, o acidental, o predicado simulam e contrafazem a realidade. Traduzindo: as pessoas (de Deus ao Homem) são o problema; a solução está nos objectos. Trata-se do problema atirando objectos para cima das pessoas  - objectos, entenda-se,  não apenas coisas fabricadas  enquanto aparelhos ou utensílios, mas também coisas fabricadas enquanto leis, programas, ficções, modas, superstições, ou, no jargão mais recente e liberabundo da banca inefável, produtos. Note-se, aliás, a esquiso-competição entre os dois projectos votados à desagregação humana: os socialistas arvoram a resolução na forma de atirar dinheiro para cima do problema; os liberalóides alardeiam que se resolve com o despejo de produtos financeiros. O efeito prático é o mesmo comunismo - o da miséria mental; no primeiro caso, reforçado pela penúria económica; no segundo, agravado pela indigência cultural e social. O socialismo acaba por nunca exceder a incubadora do liberalismo; o liberalismo redime, recicla e ressegrega o socialismo e ambos, em tandem, apenas servem de veneno dissolvente à trans-oligarquia  e ao cancro financeiro global.

sábado, dezembro 16, 2023

Psico killing

 

«Exército israelita mata três reféns por engano»

Não foi engano. Não matam porque é certo ou errado: matam por vício. E, sobretudo, cultivam  uma especial predilecção por alvos desarmados. Quanto mais indefeso, mais apetitoso. E então, se ainda por cima, a agitar uma bandeira branca, devém irresistível.

Em remate, algum acompanhamento musical, para as incontinentes IDF:





sexta-feira, dezembro 15, 2023

Democracia de ponta...pum

 



Devo dizer que, enquanto democracia avançada e laboratório experimental de novas metodologias argumentativas e técnicas parlamentares, nada tenho a apontar-lhes. Já no que concerne aos "vossos valores", trata-se, seguramente, duma flagrante - e, mais ainda, deflagrante! - exposição dos mesmos. Melhor que isto, só na Palestina. Eita democracia!...

quinta-feira, dezembro 14, 2023

Da rara mania à convulsiva tara

«A grande tradição intelectual que chegou até nós, desde Pitágoras e Platão, nunca se interrompeu ou perdeu com bagatelas como o saque de Roma, o triunfo de Átila ou todas as invasões bárbaras da idade das trevas. Apenas se perdeu após a introdução da imprensa, o descobrimento da América, a fundação da Royal Society e todo o progresso do renascimento e do mundo moderno. Foi aí, se o foi em qualquer parte, que se perdeu ou se quebrou o longo fio, fino e delicado, que vinha desde a antiguidade remota. O fio dessa rara mania dos homens - o hábito de pensar.»
                              - G.K. Chesterton


Passou-se da rara mania dos homens ao popular desporto dos anti-homens: a obsessão de dispensar. Dispensar Deus, dispensar o Homem, dispensar a Realidade, dispensar a memória, dispensar a Inteligência, dispensar a postura vertical e, sobretudo, a maçada de envergar qualquer tipo de vértebra ou ossatura vagamente ética. Esqueci-me da Verdade?  Está implícito.

quarta-feira, dezembro 13, 2023

A certeza do erro

 Chesterton, em 28 de outubro de 1922, escreveu: "O reformador está sempre certo sobre o que está errado. Geralmente, está errado sobre o que está certo".

À data de hoje, eu acrescentaria  que o reformador desenvolveu uma quase toxicodependência da certeza. Já excede a simples mania. Assim, o modo invariável que encontra para lidar com o problema é converter o certo em errado, ou seja, como para ele o que está errado está certo e o que está certo está errado, quanto mais errar mais acerta. Deste modo, quando tudo estiver errado, teremos a reforma perfeita e acabada. Quer dizer, teremos alcançado aquele ponto em que, por um automatismo perverso, rebentam coros indignados a clamar por nova reforma. É que, tal qual a estupidez não tem fim, também um erro nunca é bastante nem plenamente satisfatório. Pelo que, por dinâmica inerente ao sistema, a reforma nunca estará acabada. Mesmo quando tudo o que estava certo já esteja errado, descobrir-se-á, fatalmente, que o errado nunca está suficientemente errado. Donde decorrerá, então, o processo de transformar o que está errado em algo mais errado ainda. Isso é certo.



terça-feira, dezembro 12, 2023

A volúpia da modéstia

 Depois que descobriram a modéstia, os neo-israelitas, não querem outra coisa. De tal modo que, no exercício sôfrego dessa volúpia recém-revelada, assinalam, com solenidade, a descoberta do centro de treinos do Hamas numa mesquita... Omitindo, todavia, o principal: a Padaria Portuguesa recentemente inaugurada ao lado do centro de treinos.


segunda-feira, dezembro 11, 2023

Dr. Strangehate, ou Lapso freudiano





 

«Netanyahu garante que "guerra está a todo o gás"»

A todo o gás, diz ele... Bem, assim de repente, não soa lá muito judaico, pois não?...


Faz até lembrar aquele braço automático do Dr. Strangelove, que lhe estava sempre a fugir para a verdade.


domingo, dezembro 10, 2023

Apocalipses de alguidar

 Mais um episódio da Stand-up ciency. Ora oiçam:

«A humanidade acabará antes do final do século».

O humorista de serviço, neste caso, é William Rees (o pai da "pegada ecológica, pois).

Duas breves notas:

1. A dita "humanidade" vai continuar a cheirar dum modo esquisito. Talvez ainda mais esquisito. Mas duvido que acabe. Pelo menos, toda.

2. Alguma dela, de certeza absoluta, vai acabar. O professor William Rees, por exemplo, acabará antes do final do século. Não se pode dizer que a Humanidade perca grande coisa.

Pensamento final: é um facto que a desumanidade pretende a exclusividade do planeta.  A coabitação e a convivência com a Humanidade é-lhe intolerável. A tese do William Rees gargareja  basicamente nesse sentido: há humanidade a mais. Convém acabar com ela. A bem do planeta. E da desumanidade que o ambiciona todo para si.

PS: o ideal era que se acabasse com a desumanidade antes do final do século? Talvez. Se eu responder que sim, chamam-me utópico.

sexta-feira, dezembro 08, 2023

Uma dicotomia com barbas

 Perdoem-me a longa citação, mas  vem muito a propósito:

«Portanto, há um populismo que é bom, sofisticado, ultra-pasteurizado (um popelitismo, chamemos-lhe assim), e um populismo que é péssimo, imundo e odioso (odioso, porque atestado de ódios, sobretudo aquele que os "populistas" benignos e beneméritos com o dinheiro alheio -chamem-se eles socialistas, sociais-democratas ou democratas não sei quê, no que concerne, por exemplo, às questões da agenda globandalhista - lhe devotam e desferem a todas as horas e oportunidades). Quanto às diferenças, manifestas e comprovadas, entre ambos parece que se resumem a uma (todavia, capital): os populistas benignos, ou popelitistas, só exercem a demagogia em período eleitoral, como forma de sedução (uma vez eleitos, nada do que prometeram cumprem); os populistas maus exercem a demagogia em período eleitoral e mesmo antes ou depois (segundo os seus detractores) e, uma vez eleitos, executam (ou são suspeitos de virem a executar) grande parte do prometido. Ou seja, em bom rigor, os populistas maus são aqueles que, na verdade, não são populistas nem demagogos profissionais. A limite, e no pior dos casos, é o velho desprezo da indústria pelo artesanato, ou do amor ao lucro pelo amor à arte

 

Ora, a moral, sobretudo o seu simulacro geo-político, tem muito que ver com esta dicotomia indústria/artesanato. Assim, o terrorismo é imoral, ou seja, artesanal, da mesma que o super-terrorismo (ou supraterrorismo, dito com mais propriedade) é supramoral, ou seja, industrial. O primeiro é destituído de moral, da mesma forma que o segundo está acima dela. Um atentado ou mesmo uma chacina quando executada pelos terroristas - no presente caso do Hamas, por exemplo - é imoral porque não ultrapassa o nível do artesanato, nem, fenomenologicamente, a dimensão da física - é estrito efeito num processo causal... Os terroristas matam por causa de. Em contrapartida, o genocídio ou o massacre industrial, promovidos pelos Estados Unidos, pela Nato - ou, na vertente cegada e acima de todos - por Israel não se insere numa fenomenologia e transcende as próprias regras da física. É, por essência e vocação, metafísico, transcendente, sobrenatural. Não exterminam por uma causa, mas, pura e simplesmente, por um poder, um aleive, ou vício atávico. Exercem nunca "por causa de", mas "em representação de". Da Razão,  da Democracia, de Deus, ou do quer que faças as vezes do "sagrado" na ocasião. A distância que medeia, assim, entre o artesanato e a indústria é exactamente a mesma que vai  da natureza à mecânica. No caso dos neo-israelitas, importa dizê-lo, já ultrapassou mesmo a tendência ou o vício: já deveio tique. Um bestial automatismo.

quinta-feira, dezembro 07, 2023

Zombipolis, ao virar da esquina do puguesso

 Uma viagem ao mundo da panaceia liberalizante. O resultado é basicamente o mesmo que o do seu gémeo socializante: só que leva muito menos tempo. De notar como, para não variar, a sanitarização avança de mão dada com a liberdinarice..




quarta-feira, dezembro 06, 2023

segunda-feira, dezembro 04, 2023

Panopticum e outras distopias



 «As taxas de criminalidade Americanas sempre foram mais elevadas do que a maioria dos países europeus. O que é novidade é o recurso nos Estados Unidos a uma política de encarceramento maciço, em substituição dos controlos comunitários enfranquecidos pelas forças do mercado desregulado. Ao mesmo tempo, os americanos ricos estão, em número crescente, a afastar-se da co-habitação com os seus concidadãos, recolhendo-se a propriedades comunitárias muradas. Cerca de 28 milhões de americanos -mais de 10% da população - vivem hoje em prédios ou condóminos com guardas privados.

Nos fins de 1994, mais de 5 milhões de americanos viviam sob uma forma ou outra de restrições legais. De acordo com os números do Ministério da Justiça (Department of Justice), cerca de 1,5 milhões estavam encarcerados - em prisões estaduais, federais ou municipais. Isto significa que 1 em cada 193 adultos americanos está preso, o que corresponde a 373 em cada 100.000 americanos. Este número era de 103 em 100.000 quando Ronal Reagan foi eleito presidente. 3,5 milhões de americanos estavam em liberdade condicional.
A taxa de encarceramento dos Estados Unidos no fim de 1994 era quadrúpla da do Canadá, quíntupla da da Grã-Bretanha e catorze vezes superior à do Japão. Apenas a Rússia pós-comunista tem uma percentagem maior dos seus cidadãos atrás das grades. Na Califórnia, cerca de 150.000 pessoas estão presas. A população da Califórnia na cadeia é agora oito vezes superior à de 1970. Excede a da Grã-Bretanha e a da Alemanha juntas.(...)
A confluência de divisões e antagonismos étnicos e económicos nos Estados Unidos não tem equivalente em nenhum outro país desenvolvido. O mercado livre produziu uma mutação no capitalismo americano, em consequência da qual ele se assemelha mais aos regimes oligárquicos de alguns países latino-americanos do que à civilização capitalista liberal da Europa ou dos próprios Estados Unidos em fases mais recuadas da sua história.(...)
Os níveis de todos os crimes de violência, excepto homicídio, são consideravelmente mais elevados na América do que na Rússia pós-comunista. Em 1993 houve 264 roubos por 100.000 habitantes (contra 124 na Rússia), 442 assaltos (comparados com 27 na Rússia) e 43 violações (9,7 na Rússia). (...)
O assassínio de crianças é particularmente comum nos Estados Unidos. Cerca de três quartos dos assassínios de crianças no mundo industrializado ocorrem nos Estados Unidos. Entre os 26 países mais ricos do mundo,os Estados Unidos têm de longe as maiores taxas de suicídio infantil e de homicídios e outras mortes relacionadas com armas de fogo.(...)
Em 1987, a mortalidade infantil no Harlem oriental e em Washington DC era praticamente a mesma que na Malásia, na Jugoslávia e na antiga União Soviética. Um bebé nascido em Xangai em 1995 tinha menos probabilidade de morrer no primeiro ano de vida, maior probabilidade de aprender a ler e uma esperança de vida dois anos mais longa (até aos 76 anos) do que um bebé nascido em Nova Iorque.
As elevadas taxas de encarceração e de crime nos Estados Unidos estão acompanhadas por números igualmente excepcionais de litígios e de advogados. A América tem pelo menos um terço de todos os advogados do mundo.(...)
Os condóminos privados, murados, fechados e vigiados electronicamente que protegem os habitantes dos perigos da sociedade que abandonaram são a imagem das prisões americanas. Erguem-se como símbolos do esvaziamento de outras instituições sociais - a família, a vizinhança e mesmo o emprego - que no passado suportavam o funcionamento da sociedade. A combinação de prisões de alta tecnologia e empresas virtuais pode tornar-se o emblema da América dos inícios do século XXI.
Na América do fim do século XX, o mercado livre tornou-se o motor de uma modernidade perversa. O profeta da América de hoje não é Jefferson ou Madison. E ainda menos Burke. É Jeremy Bentham, o pensador iluminista britânico do século XIX, que sonhava com uma sociedade hipermoderna reconstruída segundo o modelo de prisão ideal
                                     - John Gray, "False Dawn"

É deveras sintomático que muito antes do Big-brother na hiper-vigiada distopia de Orwell, o paradigma da engenharia ultra torcionária tivesse germinado com Jeremy Bentham, no seu famigerado Panopticum. Tratava-se, basicamente, duma arquitectura de vigilância perfeita - uma construção circular em volta dum "óculo central" que tudo perscrutava em modo permanente e subtil (nunca sabiam os vigiados quando o "olho " os contemplava activamente). É difícil imaginar uma "utopia" menos livre ou natural (quanto a "humana", o termo é seguramente discutível, dadas as estarrecedoras evoluções do mesmo). A mim, pelo menos, dá-me volta ao estômago. Todavia, e muito compreensivelmente, o Panopticum foi mandado traduzir e publicar, como obra mui educativa, em 1791, pela Assembleia Nacional, dos revolucinhários franceses. Mas estas bestas vão ainda mais longe: em 1792, concedem mesmo a cidadania a Bentham - e a mais 17  outros insignes  estrangeiros, "amigos da liberdade e da fraternidade universal que empenharam os seus braços e as suas vigílias no banimento dos preconceitos da terra», todos eles. É claro que para tão distinto prémio, não terá contribuído menos o seu peregrino cunhamento do termo "internacional" no seu "Plan for an Universal and Perpetual Peace", onde preconiza a "criação duma Dieta europeia, a redução das forças militares e a emancipação das colónias". Esta ideia duma "paz perpétua", segundo os princípios da razão, já a encontramos em Kant (tanto como, noutros moldes e variações, em Herder, Proudhon, Fourier, Saint-Simon et al) e o seu alcance profundo alveja, a limite, um "governo mundial" supranacional, ou melhor dizendo, "um estado federal planetário" panoptimum (e panopticum), ao leme duma "cosmopolítica". Esta ideia fervilha durante a própria Revolução Francesa que, a partir dum dado momento, já se antevê como o episódio inaugural duma Revolução Universal. Um dos seus principais arautos é um barão alemão convertido à nova cegada, um tal Cloots, deputado à Convenção (que se auto-alcunhou, entretanto, de Anacharsis). Palhadina furiosamente, com o fervor dos esquizofrénicos, pela república universal (qual Trotsky avant la lettre). Do mal o menos: imaginem só, será o próprio Robespierre a acabar-lhe com o circo. Eventualmente irritado não sei se tanto com a ideia alucinada, se com o  inusitado protagonismo. Mas a semente fica. E não mais parou de desabrolhar.
Do Panopticum, falta apenas referir que foi congeminado pelo autor como modelo ideal para prisões, hospitais e escolas. O futuro é o principal cúmplice das distopias. 

domingo, dezembro 03, 2023

Super pigs

 





Que novo flagelo ameaça a Holly América? Depois dos kosher pigs, em epígrafe, escalavrando, sem dó nem piedade, a economia, a política e a diplomacia, eis a iminente invasão dos super-pigs, dispostos a devastar a agricultura e a paisagem: