quarta-feira, julho 19, 2006
And justice for all...
Naturalmente, segundo a lógica fulgurante do momento, a Turquia também tem todo o direito a defender-se, ou não?
15 soldados e polícias turcos mortos pelos terroristas curdos é de fazer perder a paciência a um santo. Menos que isso fez Israel desvairar-se e Israel é, como todos sabemos, super-santa.
E o que é pior é que os Turcos podem acusar os Estados Unidos de estarem por trás dos curdos. O que, numa qualquer reunião importante, pode levar o presidente Bush, interpelado pelo seu fiel escudeiro, ao seguinte desabafo:
-"Alguém devia dizer à CIA para parar com aquela merda!..."
Bem, mas neste caso, tudo o indica, os terroristas afinal são guerrilheiros. E mesmo que a Turquia, por justo e soberano "direito à defesa", quisesse escavacar o Iraque, depararia com uma gritante falta de infraestruturas . Operação mais frustrante seria difícil de conceber.
terça-feira, julho 18, 2006
Leviatã e o Paraíso
Mas não se pense que esta maravilha do "terrorismo de Estado" é uma exclusividade deste cluster imperial hodierno. Os Assírios, se não me falha a memória, foram os primeiros peritos em "terrorismo de Estado": Não só conquistavam as cidades, como, por doutrina de vida, faziam empalar prisioneiros, chacinar mulheres, crianças e animais domésticos. Um serviço completo, pois claro. Porque idolatravam deuses cruéis e sanguinários? Porque eram uns selvagens idólatras e impiedosos? Leiam o Livro de Josué (logo a seguir ao Deuterónimo, na Biblia Sagrada) e constatareis que os Hebreus fizeram exactamente o mesmo, em nome de Ihavé (futuro Deus-Pai), aquando da primeira constituição de Israel.
O "terrorismo de Estado" conheceu posteriormente dias gloriosos sob as flâmulas e estandartes do Império Romano. De tal ordem que este viria a tornar-se uma espécie de paradigma para todos os exercícios ulteriores - de ambos: império e terror. O Império Britânico, cujo gestação começa na república puritana de Cromwell, usou e abusou do Terror de Estado. Desde a Irlanda à Guerra do Ópio, passando pelas quatro bandas do planeta, nunca se poupou a esforços nem expedientes. O Império Americano nada mais pretende ser que um seu digno sucessor. Basta recordar a forma como, ainda bebézinho, esbulhou, brutalizou e exterminou os autóctones da América do Norte, para orçarmos a que ponto estava vocacionado para os mais altos voos. Pelo caminho, a República Francesa, as duas tentativas de Império Alemão, sobretudo a segunda, a patética tentativa de Império Italiano (por Mussolini), o Império Russo, dos Czares e dos Sovietes, o Império Japonês, o Império Espanhol, só para citar os mais emblemáticos, nalguns casos com a gana própria dos novo-ricos, entregaram-se a sangrias e hecatombes deveras notáveis e apenas um pouco menos engenhosas tão somente por força duma menor durabilidade.
Todos eles se sentiram animados das mais inadiáveis lógicas, creditados das mais humanas (e transcendentes) procurações, armados dos mais angélicos arsenais. Resistir-lhes, a tais portentos de luz e progresso, francamente, só por pura e acintosa maldade. Os demónios, todos sabemos, opõem-se ao progresso e expiam invariavelmente a derrota. Já a vitória santifica e consagra, peremptoriamente, os deuses. Glorifica as suas panóplias e devastações.
O Imperialismo Alemão do III Reich foi julgado por inúmeros crimes de guerra em Nuremberga, apenas por via da derrota militar dos seus mentores. Caso tivessem vencido, os virtuosos seriam eles e os criminosos demoníacos seriam os outros. A propaganda cantá-lo-ia em hinos celestiais, os historiadores alfaiatariam os factos à medida das conveniências e a bem da carreirinha, os castrados e eunucos mentais de todas as épocas, masturbadores activos das "glórias do momento a ferver", peregrinariam e venerariam sem descanso a sua memória.
Portanto, o que Israel está a fazer, à sua pequenina escala, infelizmente, não nos exibe nada de novo, nem, tão pouco, de subitamente ignóbil. Bem pode Israel abrir a gabardine à vontade, que não nos escandaliza. Não é menos desculpável, mas também não é especialmente condenável, por causa disso. De facto, em toda esta sua peripécia mais recente outro não faz que participar em toda uma tradição que reflecte uma lei muito antiga - uma que já as fábulas comemoravam: a lei do mais forte. Que ao longo dos tempos, de resto, e a começar em Caim, se confunde com a "lei do mais bem armado". Nesta perspectiva atávica - fria e tecnocêntrica mas sinistramente eficaz e, raios a partam, real -, o mal e o bem, o melhor e o pior derivam predominantemente da qualidade do sistema bélico, da capacidade agressiva e predadora de cada agremiação excursionista galvanizada de projectos imperiais ou meramente campeoníssimos (pode ir desde os benfiquistas aos americanos, passando por evangelistas, muçulmanos, comunistas, sionistas, arianistas, globalistas ou o diabo que os carregue!). O "pior" acaba por redundar sempre no que tem as piores armas, entenda-se: aquelas que falham clamorosamente em certificar no terreno a superioridade das suas ideias, a justeza dos seus desígnios, manias, ideiais, caprichos ou fulgurantes apetites. Ao contrário da água apaziguadora das mitologias, as auto-proclamadas civilizações baptizam a ferro e fogo e têm na arma o fundamento e o garante do seu "sistema de valores". Quando não os próprios pilares ontológicos.
Assim, no cumprimento de tão insigne tradição, é na sua superioridade bélica que Israel fundamenta e sustenta o seu direito inalienável, tanto quanto a sua sobranceria moral; e é ela, essa mesma superioridade bélica (de arsenal próprio e de apoio) que a transforma num Estado dotado de prerrogativas unilaterais, bem como credor das maiores compreensões e beneplácitos internacionais. Não é por ser especialmente maléfica que brutaliza exemplarmente, embrulhado em papel de punição, as populações do Líbano. Aí estamos apenas ao nível da propaganda e contra-propaganda. Israel apenas mata mais que os seus inimigos porque dispõe de meios que o permitem e potenciam. Em termos estritos de vontade e maldade, provavelmente, os lados equivalem-se: os Hezzbollahs e Hammas seguramente desejariam matar mais e os Israelitas, obsidiados, encantados e seduzidos pela sua formidável panóplia sempre crescente, quase de cetrteza que não resistirão a dar-lhe excitante uso e, necessariamente, fatalmente, tenderão a ocasionar, de futuro, superiores morticínios. Desçamos pois à realidade: mais que moral, a questão é técnológica. Não são apenas os fins que justificam os meios; são previamente os meios que determinam e insuflam os fins. Desde há uns tempos a esta parte (posso escrever-vos um tratado sobre isto), mais que o homem utilizar a arma, dir-se-ia que é a arma que arrasta o homem. Eu, pelo menos, estou capaz de dizê-lo, alto e bom som. Por conseguinte, Israel faz o que faz não por singular perfídia, mas, principalmente, repito, porque tem armamento para o efeito. Quer dizer, tem ferramentas para a tarefa, meios para a empresa. Ou, pelo menos, acredita que os tem. Além de oportunidade, pretexto, cobertura e, em larga medida, impunidade, bem entendido. Os riscos de comparecer num tribunal Internacional, ao estilo de Nuremberga, são, convenhamos, no panorama actual, praticamente negligenciáveis. Antes deles, sentar-se-iam os americanos e os ingleses, em catadupa.
segunda-feira, julho 17, 2006
Armagedão ou Rilhafoles?
Pergunta: Quem é NORIO HAYAKAWA
Resposta: Consultem o Google. Posso adiantar que é capaz de ser divertido.
Em Fevereiro de 2005, o Norio (não confundir com o Noddy) concedeu uma série de depoimentos solenes intitulados "MY THOUGHTS ON "UFOs" AND MY PERSONAL RELIGIOUS BELIEF", onde, a determinada altura confidencia (em resposta à inefável pergunta: Do you believe in the coming Rapture and in the coming Millenial Reign of Christ?) :
Pobre humanidade! Pobre planeta!...
domingo, julho 16, 2006
Aforismo do dia
- Mark Twain
Bankruptcy is for assholes
sábado, julho 15, 2006
Tragédias colaterais
In Wester Europe, the shock of the oil price rise and the embargo of suplies was equally dramatic. From Britain to the Continent, country after country felt the effects of the worst economic crisis since the 1930's. Bankruptcies and unemployment across Europe rose to alarming levels.(...)
But for the less developed economies of the world, the impact of an overnight price increase of 400 per cent in their primary energy source was staggering. The vast majority of the world's less developed economies, without significant domestic oil resources, were suddenly confronted with an unexpected and unpayable 400 per cent increase in the cost of energy imports, to say nothing of the cost of chemicals and fertilizers derived from petroleum. (...)
India in 1973 had a positive balance of trade, a healthy situation for a developing economy. But by 1974, India had total foreign exchange reserves of $629 milions with which to pay -in dollars - an annual oil import bill of almost double that, or $1.241 million. (...)
But while Kissinger 1973 oil shock had a devastating impact on world industrial growth, it had an enormous benefit for certain established interests - the major new York and London banks, and the Seven Sisters oil multinationals of the United States and Britain. By 1974, Exxon had overtaken General Motors as the larges American corporation in gross revenues. Her sisters, including Mobil, Texaco, Chevron and Gulf, were not far behind.
The bulk of the OPEC dollar revenues, Kissinger's "recycled petrodollars", was deposited with the leading bank of London and New York, the banks which dealt in dollars as well as international oil trade.»
- William Engdahl, "A Century of War"
Em Abril de 1974, catalisado pelo choque petrolífero em epígrafe (que eu próprio testemunhei, não estou a falar de cor), Portugal engrenou numa estranha negociata: para comprar uma rifa da democracia de pacotilha, penhorou, senão entregou mesmo numa bandeja, a independência nacional.
E o resto é conversa para boi dormir. Agarrado à chucha da ideologia (e não estou apenas a falar da garotada de esquerda).
Entretanto, nos gloriosos tempos que correm, contabilizem o preço do petróleo em 2002, antes da invasão do Iraque e o preço em que ele flana agora, após a "invasão do Líbano" e o que mais virá. Quanto às fantasias, florilégios e hooliganismos psicopolíticos, poupem-me. Já sei que a vossa matilha é a melhor do mundo e a vossa claque a campeã vitalícia.
sexta-feira, julho 14, 2006
A cabeçada
É preciso não esquecer que Zidane é de estirpe argelina, ou seja, um derivado muçulmano altamente suspeito, um portador sabe-se lá de que ínvio determinismo. Portanto, tem mais é que penitenciar-se, ser humilde, compreensivo, tolerante e bebedor compulsivo de coca-cola.
Se fosse de parentesco hebraico, se participasse dessa herança excepcional, desse pedigree inefável, ah bom, aí seria não só completamente diferente como plenamente razoável, angeliníssimo, pulquérrimo. Não uma cabeçada - que seria uma retaliação indigna, escassa, exígua para tamanhos pergaminhos -, mas um tiro, uma granada de mão, uma saraivada de facadas, no mínimo. E nunca negligenciando, claro está, toda aquela vingançazinha suplementar - mas indispensável, protocolar -, sobre a família, a raça e a nação do ofensor: demolição da domicílio da mãezinha com buldózeres justiceiros; assassínio selectivo e aleatório de vários compatrícios, pela Mossad bendita; e bombardeamento do aeroporto de Palermo, uma hidroelétrica, duas praias e várias pontes, com mísseis e bombas geniais (inteligentes são os americanos e os ingleses; os israelitas, como é público e notório, são todos, sem excepção, geniais – o que se transmite, por pregnância mística, às suas próprias ferramentas e utensílios).
E nem era preciso, notem bem, que o safardana lhe depreciasse a mãe, a irmã ou a esposa. Sequer que insinuasse coisas ramificadas sobre o pai, o avô ou os primos da província. Nada disso; bastava que lhe rosnasse, por exemplo, e ainda que entredentes,“pencudo!”.
E que espectáculo edificante não seria, então, para todas as crianças do mundo!...
quinta-feira, julho 13, 2006
Por um Sorteio Universal (rep.)
Sempre é preferível uma escolha aleatória, que uma escolha alienada. E, francamente, antes apostar na extracção da lotaria, que em políticos de baixa extracção.
quarta-feira, julho 12, 2006
Da Neo-Pornografia, ou a Neo-Gina para neoconinhas e outros atlanticonas cá do burgo

Um tanque israelita supervisiona, atentamente, a travessia da rua por uma perigosa (e sabe-se lá capaz de que actos tresloucados de terrorismo, genocídio bárbaro e voodu islamofassista) velhinha palestiniana. É assim mesmo, rapazes: há que trazê-las sempre debaixo de olho! Quer dizer, de mira.
Big-noose is watching us! And her, by the way.
E não se vê, o que é pena, mas atrás dela segue já o buldózer para lhe vasculhar o domicílio.
Não foi em vão que «Lamec disse às suas mulheres: "Ada e Cila, escutai a minha voz; mulheres de Lamec, ouvi a minha palavra: Matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete."» (Genesis 4, 23-24)
Imaginem agora os mirianetos do Lamec!...
É uma gente violenta, mega-rancorosa, desapiedada, esta, a dos descendentes de Caim.
domingo, julho 09, 2006
Apologia e difamação - Breve anatomia comparativa
Isto, caros senhores, é difamação (difamação com todas as letras!):
« Dragoscópio é pura e simplesmente o melhor blogue português.»
«O Dragão é genial!»
«Quando disse que o Dragoscópio era o melhor blogue português não o fiz por questão de "amizade virtual".»
«O dragão é (a par do desfazedor de rebanhos) o melhor blogue português».
E isto é apologia (apologia da mais purinha!):
«Para o Vasco Graça Moura ainda há memória, mas para si Dragão, nunca haverá. Aquilo que escreve é tão mau, tão redutor, tão imbecil e vulgar, que acho espantoso como é tem espaço GLQL. Com a Eremitocracia, você pratica a Estúpidocracia, com ares de Grande Educador de não sei o quê. Já esperimentou lavar a cara? Um bom banho ajuda muito.»
«A Zazie á uns tempos atrás recomendou-me a leitura de um post do Dragão, no "Dragoscópio", e eu com fui ver o blog, ler o post e óbviamente avaliar o blogger. Fiquei horrorizado.»
«Para terminar e como é óbvio,respeito a 100% a sua opinião, mas francamente e para além de tudo o que escrevi sobre o Dragão, ele até na componente estética é um desastre absoluto.»
Agora, o leitor - algo confuso, admitamos-, perguntar-mo-á: "Gaita, Dragão, mas como é que sabemos, de ciência certa, num mundo tão destrambelhado como este, que se trata de apologia ou de difamação?
E eu, sempre prestável, como é meu timbre e apanágio da minha família desde Vlad, o Empalador, responderei:
- É simples, caro leitor amigo (ou inimigo, tanto faz): o que define a coisa, já diagnosticava Aristóteles, é, entre outros mistérios que seria agora fastidioso elencar (e aumentaria consideravelmente o número de saloios hostis), a origem da mesma. Transposto para o vertente caso, resulta no seguinte: quando pessoas inteligentes, racionais, minimamente lidas e viajadas, se bem que dadas à fantasia, aos cogumelos alucinogéneos e à auto-mistificação, como são a minha cara Zazie e o estimado Timshel, desatam nestas categorizações, não tenhamos dúvidas - é de todo evidente o intuito menoscabante, depreciador, liliputosfórico. Afirmar que eu sou o "melhor blogue português" -ou mesmo, por absurdo, jurar a pés juntos que eu sou o "melhor blogue do planeta" - quando sabem perfeitamente, os sacanas, que eu sou "o melhor blogue da galáxia e arredores", é, no mínimo, achincalhante. De resto (e eles sabem-no bem) por uma questão de princípio, tradição e coerência, o facto de ser, de facto e sem espinhas, "o melhor blogue do Universo" obriga necessariamente a que seja o "pior blogue de Portugal". Por conseguinte, estou a pensar seriamente em processá-los e argui-los por danos irreparáveis -e contumazes! - à minha péssima reputação (apesar de, em absoluto, e passada a fronteira e as camadas mais baixas da estratosfera, ela ser sublime).
Já quando um auto-denominado Sniper -a quem, por caridade e gratidão, poupo adjectivos, mas que presumo tratar-se dum frango-atirador furtivo-, desembesta a ungir-me de injúrias, pedradas virtuais e outras ventosidades estrepitosas, cada qual mais perfunctória que a anterior, isso só pode ser, com toda a certeza, o maior panegírico, o mais gratificante encómio e o mais glorioso lustro de que há memória, pelo menos no último mês (o que, convenhamos, para um roedor de notícias, blogues e jornais destes, deve equivaler a uma verdadeira eternidade).
quinta-feira, julho 06, 2006
Os Avatares do Escritor
Mas como agora estamos num daqueles interstícios severos por onde o fariseu, ocasionalmente, espreita e salmodia, não duvidemos: é o escritor. Quiçá mortificado ou descompensado por alguma síndrome de privação, dá gosto vê-lo a verberar contra o petisco, a denegrir no refogado, a escarnecer do pitéu. Quando não está ocupada com a mama, foge-lhe a boca para a verdade. Não obstante, nos trinta anos em que andaram a confeccioná-la, à monumental mixórdia, a maior parte do tempo, ele, o mija-versos, o besunta-formas, passou-o nas cozinhas. Desde o PREC que lá anda: ora de roda do Chef, a acolitar ao forno, ora de faxina ao lava-loiça, a resmungar e a branquear os tachos.
De secretário de Estado no lendário Gonçalvismo do IV Governo Provisório a Comissário Político no não menos épico Cavaquistão, foi vê-lo sempre a aviar-se, numa azáfama de videirinho a reboque duma pança insaciável de comensal.
domingo, julho 02, 2006
Favores, Factores e Feudalismos (part. II)
Bem, que se lixe! Imaginem, então, Vosselências, que vivíamos numa monarquia. Cruzes, credo, compadres! Por uma vez, sem exemplo, abençoada seja a república. Mesmo de bananas, louve-se! Não fosse ela, e em vez de “adjunta do Ministro”, tínhamos que tratar a lambisgóia “despachada” por “princesa” – a princesa Vera Ritta.
Assim, ao menos, na sua mordomodiceia acidentada, de “filha do presidente” já resvalou para “adjunta do Ministro da presidência”. Com um bocado de sorte, a este ritmo apesar de tudo animador, daqui a oito ou nove gerações, pode ser que a medonha descendência já participe em concursos públicos, nem que seja por mera fachada.
Quanto ao critério inefável do Ministro Silva Pereira, permitam-me alguns alvitres - apesar de, à primeira vista, um só se avantajar bastante: pediu uma lista de candidatos sorteados aleatoriamente nas páginas amarelas e ao ver uma Ritta com dois “tês” – portanto uma Rita TT ou T2, ainda por cima recheada de um “de”*, não hesitou, requisitou tão cintilante inteligência para adjuntar à sua.
Ou então reparou argutamente que, além de TT, era BdS, ou seja, Branco de Sampaio e, como é típico dos crânios sofisticados, com desembaraço fulminante, vislumbrou uma série de potencialidades e mais valias que –a nós, vulgares mortais e servos - nem nos passam pela cabeça.
Claro que nisto, como em tudo, há sempre a questão da raça, do pedigree, da eugenia, enfim, da fidalguia. O ministro com certeza que, em precisando dum cão, não vai resgatar um rafeiro ao canil municipal, por mais habilidoso e diplomado em artes circenses ou marciais que lho apregoem ou ajuramentem. Da mesma forma, se precisar dum automóvel, dum telemóvel ou duma amante – e decerto precisa, como de pão para a boca -, não vai apetrechar-se dum chaço em segunda mão, duma raquete que nem fotografias tira, ou, Deus o livre e guarde, duma Katia qualquer alternadeira cuja mãe vendia peixe na praça e cujo pai permanece incógnito, quando não se sorteia, pelas más línguas do bairro, entre um proxeneta, um polícia, um taxista e um limpa-chaminés marrequinho. Ninguém lhe perdoaria, sabemo-lo bem. A começar nos eleitores das classes mais baixas, devoradoras de telenovela e revistas cor-de-rosa, que, nestas tranquibérnias, são de um snobismo feroz e prefeririam mil vezes partir uma perna em vários sítios a ver os pergaminhos alheios ao nível das próprias patas – excepção feita e ressalvada a uma Katia com dois “tês” (uma T2, portanto) cujo progenitor, após grandes peripécias e dramas, se viesse a revelar, nem mais nem menos, como sendo o Conde do Cadaval, o padre Melícias ou o primo legítimo do Pacheco Pereira. Ora, se para escolher cão, veículo ou concubina já é este sarilho todo, todas estas burocracias e protocolos, fará agora uma “adjunta de gabinete”.
Naturalmente, há que respeitar padrões, que burilar paradigmas. Um Ministro, como acabo de demonstrar, não vai decerto adjuntar-se com uma qualquer. É um representante do povo e o povo, se puder, também deita a fateixa e despeja a espermatália numa baronesa, numa viscondessa ou, superlativo enlevo, numa princesa boiarda. Maior gulodice não se lhe reconhece. Vai daí, em nada nos pode surpreender que o “ministro” se tenha adjuntado com a “filha de um ex-presidente da República”. Não é grande coisa, todos sabemos, (principalmente se levarmos em conta o ex-presidente em questão) mas sempre é melhor que nada. Aliás, pela ordem actual das coisas, segundo a hierarquia de importâncias, acreditamos que tenha tentado a “filha de um ex-presidente da Federação Nacional de Futebol”, mas, pelos vistos, não havia nenhuma disponível. Já se se tratasse do primeiro Ministro, o mínimo aceitável – aquele que o protocolo reclamaria - seria a “filha de um ex-presidente de um clube de futebol” (dos três grandes, logicamente). E no caso do próprio presidente da República sentir vontade duma “adjunta”, não vejo outro nível adequado senão a “filha de um presidente do Benfica”. Afinal, sempre estamos a falar do mais alto magistério da nação.
*Nota : Eu, sem querer estar a gabar-me (até porque cago nisso de mui elevado altor), também tenho um “De”. No meu caso sou um “de Aragão e Tal”. Mas como verdadeiro e antigo aristocrata, que já o meu enesimavô cavalgava com D.Afonso Henriques, não sou dado a peneiras nem Pacheco-pereirices. Por conseguinte, e por facilidade de trato, a malta –capitaneada pelo Caguinchas, esse amotinado profissional - começou a tratar-me por D’aragão e, finalmente, por força da elisão do “a” (que claramente lhes ofendia o palato e complicava com as dentuças), resultou no D’ragão por que todos me tratam e, a maior parte das vezes, destratam, a pretexto do meu anti-benfiquismo vociferante.
sexta-feira, junho 30, 2006
Senhora Dragão dixit
«Tu bates à esquerda e à direita, esmurras a torto e a direito! Mentaliza-te: não és simpático. Admira-me sinceramente como é que ainda alguém te lê!...
Digo-te mais: como queres que te entendam? Eu que sou uma mísera “dona-de-casa”, esse cúmulo da ignomínia do nosso tempo, tenho mais cultura que a maior parte dessa gente. E, pior que isso, havias de constatar se fosses à Europa: o nível cultural ainda é mais baixo! Eu, que andei por França, o melhor que lá encontrei foi uma alemã que me notificou do seguinte: “quem escolhe pensar tem um caminho solitário pela frente. Às vezes dói. Aguenta Maria!...”
A tua sociedade, as tuas conversas são com gajos que já morreram. O presente é a única dimensão do tempo que não conseguimos usufruir. É um emaranhado de instantes de que ninguém se dá conta sequer que existe. As nossas amélias sociais são cretinos que não entendem nada, fora a flatulência instantânea e efervescente dos jornais. Comentam e opinam sobre factos desgarrados de cujo sentido nem suspeitam. Que interessa o Pacheco Pereira assoberbado com dois ou três computadores a desovar, em directo e em frenesim, patranhas sobre tudo e um traque celeste. Interessante, mesmo, de facto, é saber porque raio existem Pachecos Pereiras, actuais, potenciais e virtuais. Não são agentes, são produtos, esses servos do momento.
Ao contrário de tudo isso, um pensador está à margem, como alguém que olha para um rio a passar »
Foi exactamente isto que ela me disse. Juro. O toque literário é meu, mas as ideias são exactamente as dela. Além de bonita, é inteligente. Há tipos com sorte. Na verdade, como profetizaram os antigos, “a dita protege os audazes”.
quarta-feira, junho 28, 2006
Favores, factores e feudalismos (part I)
-"Faz broches e massagens ao ministro, ora essa!" - Rir-se-iam todos com a candura do alienígena.
Agora vou ali armar uns canteiros, pôr canas nuns feijões, regar batatas e, mais lá para o fim da tarde, se estiver para aí virado, voltarei a este assunto. Assim Deus e a gleba o permitam.
sexta-feira, junho 23, 2006
Bilderberg 2006
quinta-feira, junho 22, 2006
Timoratices e timoralidades
segunda-feira, junho 19, 2006
A América em 1873, pelos olhos de Eça de Queirós
«V.poderia querer que eu lhe falasse de Nova iorque e dos Americanos. Mas esta carta vai longa e quem sabe o que o correio francês -esse pirata - lhe fará pagar por ela!
- Eça de Queirós - Carta a Ramalho Ortigão - in "Correspondência, 1ºVolume"
Reconheçam: Há coisas que só mesmo no Dragoscópio.
domingo, junho 18, 2006
The horror...
Ouvir uma tal garantia da boca do carrasco, convenhamos, é tudo menos animador para as vítimas.
sexta-feira, junho 16, 2006
Em breve um Novo Eixo, num cinema perto de si...
«US outflanked in Eurasia energy politics».
Aperitivos:
«Late last month Russia and Algeria, the two largest gas suppliers to Europe, agreed to increase energy cooperation. Algeria has given Russian companies exclusive access to Algerian oil and gas fields, and Gazprom and Sonatrach will cooperate in delivery to France. Putin has canceled Algeria's US$4.7 billion debt to Russia and, for its part, Algeria will buy $7.5 billion worth of Russian advanced jet fighters, air defense systems and other weapons. »
«On May 26 Russian Defense Minister Sergei Ivanov also announced that his country would definitely supply Iran with sophisticated Tor-M1 anti-aircraft missiles, reportedly as a prelude to supplying even more sophisticated weapons. »
«Then, in one of the more fascinating examples of geopolitical chutzpah, the Kremlin-controlled Gazprom gas monopoly entered quiet negotiations with Israeli Prime Minister Ehud Olmert through his billionaire friend, Benny Steinmetz, to secure Russian natural-gas supplies to Israel via an undersea pipeline from Turkey to Israel. »
Entretanto, registem-se as fascinantes declarações de um dos mais proeminentes e influentes neo-conas das américas:
«Kagan declared, in reference to Russia and China, "Until now the liberal West's strategy has been to try to integrate these two powers into the international liberal order, to tame them and make them safe for liberalism. If, instead, China and Russia are going to be sturdy pillars of autocracy over the coming decades, enduring and perhaps even prospering, then they cannot be expected to embrace the West's vision of humanity's inexorable evolution toward democracy and the end of autocratic rule." Kagan charged that China and Russia have emerged as the protectors of "an informal league of dictators" that, according to Kagan, currently includes the leaders of Belarus, Uzbekistan, Myanmar, Zimbabwe, Sudan, Venezuela, Iran and Angola, among others around the world, who, like the leaders of Russia and China themselves, resist any efforts by the West to interfere in their domestic affairs, either through sanctions or other means. "The question is what the United States and Europe decide to do in response," wrote Kagan. »
Ou eu me engano muito, ou a Al-Qaeda está a passar de moda. Andaram a brincar ao "vem aí o lobo" e agora, depois de tantos falsos alarmes, vem lobo, vem urso, vem um bestiário completo. Aliás, minto: vem o urso e as outras bestas, porque o lobo já cá estava. É precisamente aquele que se entretem a acagaçar-nos com o "vem aí lobo"!...
quinta-feira, junho 15, 2006
Como "Eles" treinaram a Al-Qaeda
Quando o essencial coincide com o sublime, ou The Great Clown Show on Earth
O relatório completo do GAO pode ser lido aqui. Não percam. É de rir até às lágrimas.
Termino, fazendo completamente minhas as palavras sempre sábias, experientes e lapidares de H.L.Mencken:
quarta-feira, junho 14, 2006
Tiranossócius Rex?...
U.S. Financial Aid To Israel: Figures, Facts, and Impact
«Benefits to Israel of U.S. AidSince 1949 (As of November 1, 1997):
Foreign Aid Grants and Loans - $74,157,600,000
Other U.S. Aid (12.2% of Foreign Aid) - $9,047,227,200
Interest to Israel from Advanced Payments - $1,650,000,000
Grand Total$ - 84,854,827,200
Total Benefits per Israeli - $14,630
Cost to U.S. Taxpayers of U.S.Aid to Israel:
Grand Total - $84,854,827,200
Interest Costs Borne by U.S. - $49,936,680,000
Total Cost to U.S. Taxpayers - $134,791,507,200
Total Taxpayer Cost per Israeli - $23,240 »
Provavelmente, a América vê em Israel o seu cão de fila. E Israel vê na América o seu Golem. Amor com amor se paga.
terça-feira, junho 13, 2006
Uma motorização revolucionária made in Europe?...
MDI, the air car. Um automóvel a ar-comprimido. Se funciona com as armas, porque não heveria de funcionar com os carros?
Vale a pena visitar as FAQ...
O principal - o preço: MiniCAT custará à volta de 6 .860 Euros
CityCat " " " " 9 .460 Euros (sem Iva)
Faço votos dos melhores auspícios para tal maquineta. Sobretudo, espero que chateie e incomode o mais possível esse cancro planetário que são as Petrolíferas.
O Turismo ideológico (rep. com adenda)
Travel junkies aos suspiros por uma disneylândia qualquer.
domingo, junho 11, 2006
No Lumiar da realidade
« Escola EB1 S. Gonçalo, no Lumiar, estará encerrada segunda-feira, por decisão dos professores, depois de uma professora ter sido agredida sexta-feira por um casal familiar de um aluno do estabelecimento».
sexta-feira, junho 09, 2006
O Super Cowboy metido em comboios?...
Só nos faltava mais esta. Agora é um tal Leola McConnell, candidato Democrata Liberal ao cargo de Governador do Nevada, que acusa o nosso estimado George W. Bush do seguinte:
«In 1984 I watched George W. Bush enthusiastically and expertly perform a homosexual act on another man, one Victor Ashe.»
Longe de mim por-me para aqui com considerações morais acerca da vida íntima do presidente W. Tão pouco faço a mínima ideia se isto é verdade ou mera chicana política, tão ao gosto da palhaçada eleitoral americana.
Apenas registo e acho piada ao teor da descrição: a putativa performance gay do Global CowBoy - ao melhor estilo Brokeback Mountain-, desenrolava-se, segundo a presumível testemunha, com "entusiasmo" e "perícia". George entregava-se fogosamente ao passatempo. E com desemparaço eloquente.
O Leola, entretanto, não especifica mais detalhes: não esmiuça que modalidade congregava o entusiasmo e a perícia do W. Bush. Oral? Anal? Manual?
Apenas refere, logo de seguida, que «Other homo-erotic acts were also performed by then-private citizen George W. Bush. I know this because I performed one of them on him myself.»
A coisa, meus amigos, se isto é verdade, foi complexa. O cardápio, vasto. A ménage, pelo menos, a três. (Chamo a atenção para os dois anacolutos seguidos, de rajada; não é para todos...)
O cowboy, em resumo, deve ter andado em comboios!...
quinta-feira, junho 08, 2006
Mediatações
quarta-feira, junho 07, 2006
Meditações
Freak-show
segunda-feira, junho 05, 2006
Perguntas Popularuchas de Papa
- terá perguntado o Papa Bento Não-sei-quantos, de visita ao principal resort do turismo macabro.
Olhe, caro senhor, porque o Altíssimo tem certamente mais que fazer, respondo-lhe eu: Deus está onde sempre esteve e onde espírito tão rasteiro, venal e frívolo como o nosso não alcança. Mais até que Aristóteles, Jesus ou mesmo Nietzsche, as árvores, os céus, o sol, os mares, as estrelas, enfim, o cosmos inteiro fala-nos dele. Mas nós não escutamos, nem queremos escutar e temos raiva a quem escuta. Porque estamos muito ocupados com o nosso descomunal umbigo, cada vez mais absortos nesse pináculo absoluto do mundo, razão de ser e medida de todas as coisas. Isso e galopar a nossa opiniãozinha de merda, tocar pívias ao nosso intelecto de pulga ou congeminar revoluções que esvaziem de putativos demónios as paróquias e nos encham de vil metal os bolsos. Ou, pela outra banda, a reforçar barreiras contra esses demónios da paróquia que nos querem saquear os cofres e tesouros.
Então Deus não nos deu a liberdade, ó senhor Papa Cura? Nunca leu Santo Agostinho e toda a santa tradição subsequente? Que responsabilidade tem Deus nas nossas canalhices, da nossa permanente lua de mel com os infernos? Do nosso gozo mórbido em nos pisarmos e massacrarmos uns aos outros? Da nossa mania que somos deuses impiedosos, cada qual mais especial e eleito que o outro? Deus é polícia? É agente de seguros? É psiquiatra? É esgoto moral? Deus, enfim, é Papa?
A pergunta, por conseguinte, tudo o indica, não é “onde estava Deus, nesses dias? Porque ficou silencioso?” A pergunta é, outrossim: “Onde estava o Homem, nesses dias? Nesses e nestes e nos últimos vinte séculos! Porque está ele cada vez mais cego e surdo?"...
Não nos limpemos a Deus. Fazer dele nossa fralda, ainda por cima descartável, só aprofunda o estágio esterquilínio onde nos atascamos e teimamos em chafurdar. Não sei se Deus, que em absoluto me transcende, me criou “à Sua imagem e semelhança”. A mim, certamente que não, Exm.º Sr. Papa, não tenho essa vaidade, nem nunca me atreveria a apregoá-la diante Daquele que me deu a Vida. Mas a si, por deferência para com o seu rebanho, admito que sim. Que até lhe terá passado procuração, alvará, senão mesmo franchising. Mas se Ele, em todo o seu Misterioso Desígnio, teve para consigo essa caridade - de o criar à imagem Dele, não vá agora Vossa Benta Santidade, pagar-lhe com rasteira ingratidão, amesquinhando-O à sua. Que é o mesmo que dizer "à nossa".
sexta-feira, junho 02, 2006
Acefalus Universitarius
Quando chega a canícula, aqui no meu eremitério, tenho por hábito assar sardinhas. Chegam-me geralmente, esses saborosos peixes, trazidos por mão benemérita - desse povo simples que ainda venera os anacoretas - e embrulhados em folhas de jornais diários (que finalidade mais louvável e apropriada não se lhes reconhece).
Enquanto decorre o assado, para entreter a espera, calha, por vezes, deitar uma vista de olhos às letras impressas no papel que escapou ao atear do braseiro e aguarda expedição garantida para o caixote do lixo.
Ora, a embrulhar o pitéu de hoje, dei com o seguinte naco de prosa de ontem:
- Sim, sem dúvida... O futebol e o haxixe, a televisão, a masturbação, a bebedeira, os best-sellers e até as drogas pesadas... Abençoado argumentário!
«O futebol é um entretenimento e um dos poucos redutos onde ainda podemos cultivar instintos básicos sem consequências: apoiar os “nossos”, detestar os “outros”...»
- Outro desses redutos nenucos, verdadeira creche para adultos, depreende-se, é escrever colunas de opinião no DN. Finalmente, torna-se compreensível o que vácuos exibicionistas do gabarito deste fulano, mais a Côncio, a Lopes, o Beato das Neves, o Bacoco Resendes, o Casse-tête Ruben, o João Miguel, o Pedregulho Lomba, o Comissário Político Graça Moura, o Vicente à Rasca, o Estrabo-Medeiros, o Micro-Vitorino, a filha do Amaral Dias e o necas-plus-ultra Luís Delgado por lá fazem: entretêm-se. Ululam. Brandem as mocas. Atiram pedradas às nuvens. Ou seja, “cultivam instintos básicos sem consequências", com realce para aquela modalidade que consiste em, com invariável chinfrim, apoiar os “deles” e detestar os “dos outros”. Espero que o jornal lhes cobre generosamente o recreio, o desporto radical, porque se a administração do diário - que de referência já não tem nada, mas de indigência tem quase tudo-, então a administração ainda é mais patega que os colunistas e mais lorpa que ela só mesmo os infelizes que desembolsam dinheiro por um tal desperdício de papel. Está bem que a maior parte das pessoas apenas o compra por causa dos anúncios, mas mesmo assim...
«Dizer umas asneirolas de cerveja numa mão e a piza encomendada na outra...»
-Já todos tínhamos percebido que este bestunto, à falta duma merecida sachola, mantinha invariavelmente as mãos ocupadas com outras coisas e escrevia os seus artigos com os pés. Os detalhes sórdidos do malabarismo, não obstante, eram, de todo, desnecessários. São certamente habilidades dignas de um circo Chen qualquer, mas nada abonatórias de um pretenso escriba-a-dias. Além de que fomenta a nossa percepção, tanto ou mais do que a nossa suspeita, de estarmos diante dum quadrúpede eventualmente amestrado, ou, o que ainda é mais inquietante, dum molusco octópode cuja proveniência extraterrena é de ponderar. Eles escrevem... Este, pelo menos, tenta.
«É um programa um bocadinho primitivo?»
- De modo nenhum. Os primitivos, nossos venerandos ancestrais –nossos, note bem, não seus -, dispensam olimpicamente os seus menoscabos. Não fossem eles e não estaríamos nós aqui hoje. Além de que não consta, está mesmo fora de hipótese, que os primitivos jogassem à bola e, ainda menos, que se babassem, em delírio pacóvio, defronte de tão repetitivo espectáculo. O futebol, rezam as crónicas, foi inventado em Inglaterra, não haverá mais de dois séculos. Por conseguinte, a futebolosa mania - a grunha compulsão para espreitar marmanjões em calções aos chutos num pedaço de ar forrado a cauchu e couro -, não tem nada de primitiva. Pelo contrário, é fenómeno típico dos tempos modernos, das eras industriais. O que até a lógica atestaria, caso um Zé Chimpo destes (e as manadas congéneres que infestam o território) toscasse minimamente o que é a lógica: Um desporto de massas só é possível a partir do momento em que existam as massas. Os primitivos, mesmo os trogloditas lendários, tinham coisas mais sérias e essenciais com que gastar o seu tempo. Manterem-se vivos era uma delas. Conseguir fêmea em tempo útil, de modo a reproduzirem-se, era outra. Aliás, como meta principal das suas ocupações figurava o tentarem esforçadamente distinguir-se dos chimpanzés e não, como o hooliganesco articulista recomenda, o regredirem neles com gana permanente, denodo sempre-viçoso e uma veemência a raiar o frenesim.
« Pois é, mas já agora deixem-me também socorrer-me da minha cauçãozinha intelectual...»
- Isso, caro símio vagamente alfabetizado, temo bem, já exorbita as competências de qualquer instância. Tamanho e tão crónico desvio, já não vai lá com cauçãozinha ou, sequer, com cauçãozona. No melhor e mais piedoso dos casos, justificaria uma daquelas pulseiras de localização e a apresentação regular às autoridades. Ou neurolépticos dos fortes, em doses maciças, pela goela abaixo, com internamento compulsivo durante as crises mais agudas. Sem nunca esquecer, é claro, um açaime e trela reforçada sempre que trotasse na via pública. Decerto não me enganarei muito se presumir que, nos intervalos de emborcar cervejolas e assolar pizzas de anchova, o caro aspirante a cro-magnon desça aos povoados, soltando urros e arrotos, disposto a sabe Deus que vandalismos e implicâncias.
« Mas porque haveríamos de querer ultrapassar o primitivo em nós?»
- Realmente, caro Pan-Zé. Tomara a vosselência alcançá-lo, ao primitivo - quanto mais não fosse na postura erecta! Ora, se não o alcança como poderia ultrapassá-lo? É, portanto, um risco que jamais corre e uma experiência que, creio bem, lhe permaneça interdita pela vida fora. Há todo um processo evolutivo que, dado o estágio recém-reptiliano onde ainda se encontra, se adivinha lento, penoso e complicado. Passar-se-ão ainda alguns séculos, por certo; os seus descendentes terão ainda que desenvolver, com base nessa sua gelatina mental embrionária, um cérebro. Autêntico trabalho de Hércules, o que os espera, coitados, mas tenhamos fé.
« Vem aí a bola? Sejamos primitivos.»
- Isso, para si, naturalmente, deve ser muito excitante. Compreende-se. Mas para nós (impossível fazer-lhe entender), não. É que (caso o equipasse a faculdade de entendimento decerto avaliaria sem dificuldade de monta) o que para si constituiria uma promoção, para nós, lastimavelmente, mais não estadearia que um vergonhoso retrocesso.
Porém, agora reparo, o mais fascinante é o título com que este primata antropóide condecora, em rodapé pomposo, a fronha nitidamente patibular que serve de espanta-pardais ao asneário: “professor universitário”...
Dá para fazer uma pequena ideia do que penarão os desgraçados alunos dum tal gorila maguila.
(E agora vamos ao pitéu, que já cheira. É deveras pacata, mas salutar, a vida de um eremita.)