segunda-feira, abril 26, 2004

O 26 DE ABRIL. HOJE.

Quem tenha vivido e assistido, durante os meses que se seguiram ao 25 de Abril, à tentativa de terraplenagem histórica acompanhada de lavagem ao cérebro ideológica que os revolucionários de pacotilha da época encetaram, não pode deixar de experimentar uma sensação de dejá-vu diante de idêntica mania, só que agora invertida, por parte dos reaccionários de trazer-por-casa do presente. Naqueles dias era a demonização (fascização) do anterior regime (o 24 de Abril) e o paraíso socialista; nestes dias, é a demonização (comunização) do 25 de Abril e o paraíso capitalista (de preferência em clima económico neo-liberal e a toque da caixa ideológica do neo-conservadorismo). A cada esquina, tropeçamos em redentores empedernidos, de cuspo pronto e manguito armado, à volta dos altares da pequena-história, atirando lostras e impropérios aos residentes. Mas vamos a reparar bem, nestes resmungões e biliosos profissionais, e no resto do tempo andam, à laia de ciganos, a vender banha da cobra e emplastros milagreiros, em frasquinhos mal-cheirosos com a efígie de oligofrénicos desarvorados e empórios da infâmia. É a marca Bush/USA, em versão de feira; a caca-cola retórica de braço dado com o hamburguer mental, em combinado do dia no restaurante fast-food do espírito. Come-se à mão, como os macacos; dispensa talheres e prato (quer dizer: dispensa a civilização). Subentende patas habilidosas.
Mas a piada maior não são estas anedotas onde a barba ainda mal desponta, ou mal se nota. O mais engraçados são os seus gurus e luminárias
Eu explico. Não custa nada.
No 26 de Abril só havia um partido organizado em Portugal: o PCP. (A União Nacional não era um partido: era mais uma agremiação de parasitas, como o PS ou o PSD dos nossos dias, por exemplo). Bem, o tal PC tinha ideias e projectos muito concretos pró país. Era outra ordem (uma Nova Cuba, ou coisa que o valesse), mas não era propriamente uma desordem. Até porque seria tão ou mais controladora e severa que a ordem que se propunha substituir. Enfim, tinham lá as manias deles e acreditavam nelas piamente. Acresce que, na altura, a União Soviética estava em boa forma e os cow-boys digeriam o Vietnam e Watergate.
A ideia dos comunistas para o exército colonial, provavelmente, era transformá-lo em exército internacionalista, libertador e grande camarada, bem como instrutor, dos exércitos e quadros revolucionárias dos futuros países e nossas ex-colónias. Isto deve ser inserido no quadro teórico de revolução global prescrita por Marx e na forma de religião daí resultante.
Mas estes cândidos propósitos chocavam com um problema: as tropas operacionais no terreno e, especialmente, os "Comandos". Eram tropas de fortes convicções, vínculo de lealdade ao regime deposto e a uma ideia tradicional de pátria.
A solução: desmobilizar os cães de guerra e substitui-los por jovens cabeludos, amigos das flores e do povo. Depurar os quadros e chefias; purgar as hierarquias. De seguida, proceder a uma revolução também nas ex-colónias, em tudo semelhante à metrópole, mas com as agravantes inerentes às pendências étnicas.
Recapitulando. Objectivos do PC:
a) Tomar o Poder na Metrópole;
b) Substituir a velha ordem por uma nova ordem;
c) Consolidar o novo estado e estruturas centrais;
d) Propagar a nova ordem ao resto do território sobre controlo português;
e) À semelhança de Cuba, colocar-se sobre a alçada soviética para se defender da contra-revolução e das ingerências americanas.
Para alcançar estes objectivos era fundamental ao PC "instrumentalizar" o MFA. Este, através dos seus quadros aderentes, funcionaria como uma espécie de "Vanguarda revolucionária dos trabalhadores".
Já no que não interessava ao PC, por colocar em risco óbvio estas metas, destacam-se, pelo menos, duas condições :
a) permitir que a instabilidade nas ruas se prolongasse pra lá da sua tomada do poder;
b) receber no país, em fase ainda de fraca sedimentação administrativa do "novo regime", cerca de um milhão de pessoas traumatizadas, desesperadas e profundamente anti-comunistas, derivado à hecatombe que acabavam de experimentar.
Ou seja, a descolonização*, tal qual acabou por acontecer, mistura de abandono militar e debandada civil, caos promovido, não foi nada favorável aos planos da "nova ordem", nem faz qualquer sentido que estivesse contida neles. Pelo contrário, só vem conspirar contra eles e contribuir, necessariamente, para a sua derrocada a breve trecho.
Porque acontece, então, a descolonização daquela forma?
Há uma frase chave, em muros e cartazes da capital e, sobremaneira, junto ao cais da Rocha, onde embarcavam as tropas: "Nem mais um soldado para as colónias". Montam-se plantões, hordas teoricamente espontâneas, efectivamente da extrema-esquerda. É o grão de areia na engrenagem.
Desmobilizam-se os cães de guerra, mas os alegres, hirsutos e festivos internacionalistas nunca mais vão chegar. O esboço da "nova ordem" é combatida, a partir do exterior, com a disseminação da desordem. A CIA aposta na desordem da Metrópole; a CIA e o KGB apostam no distúrbio das colónias; os franceses, aliados militares do ex-regime, deixam correr o marfim e contam com Soares e o PS para largar as colónias e inflectir o rumo de séculos atlânticos (sul) na direcção europeia. Hoje sabemos que ganharam todos. Só perdemos nós.
Ah, e onde estão hoje os grandes activistas da desordem e consequente descolonização à bruta, sem piedade, daquele tempo?
Um até é primeiro ministro. Outros são gurus e luminárias destes novos redentores da pátria e vociferadores encartados contra a "bandalheira" de Abril: O Pacheco, o Pulido Valente, o JMF, (o Delgado não, estava escondido debaixo da cama) etc, ou sejam: Os campeões da bandalheira real de então.
O saldo das revoluções, mesmo em versão softcore, é sempre favorável ao oportunismo rapace e ao calculismo interesseiro. E venal.
Quando procurarem traidores, investiguem quem recebeu a paga. É uma regra básica, mais que da história, do bom senso.

* A forma como decorreu a descolonização -reflexo duma desordem artificialmente promovida e implantada a partir do exterior -, é, quanto a mim, razão essencial para a desestruturação social, económica, ética e política que ainda hoje, e cada vez mais, padecemos. E não adianta dar transfusões a um doente que está em hemorragia permanente. Os subsídios, como se tem visto, não resolvem o problema: só aumentam a delapidação - a sangria. Esta deveio esquema, vício. Da cúpula até à base. Hoje, num 26 que nunca mais acaba, somos um país estilhaçado, esquizoide, a africanizar-se. Amanhã?...Amanhã, logo se vê.

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