Em termos aristotélicos, poderíamos enquadrar a dicotomia "cultura/aculturação" na dicotomia fusis/téchne, ou dito em termos mais compreensíveis, natureza/aritificialidade. A cultura é qualquer coisa que radica na natureza dum povo; a aculturação prende-se com uma artificialidade ou sofisticação introduzida ou adquirida de uma forma não natural, mas técnica (comercial, publicitária, sobretudo). Os projectos da esquerda traduzem sempre essa artificialidade contra a própria natureza lusa - a cultura lentamente adquirida ao longo de séculos é, invariavelmente, substituída ou avassalada por aculturações importadas -, desde a "república" dos jacobinos ao paraíso socialista dos marxistas de arribação, trata-se sempre duma "revolução", isto é, uma imposição abrupta, apressada, urgente, quase instantânea. Acredita-se numa nova espécie de milagre: o milagre socio-político. O que denota como (mesmo quando possesso do furor aculturante) o indígena não escapa, completamente incólume, à cultura. Também, a "a-cultura" de esquerda reflete um descontentamento permanente e mais ou menos radical com o presente e, por arrasto, uma culpabilização invariável do passado. É sempre contra um passado mau e criminoso que urge construir um futuro bom e salvífico. Daí o conceito predominante do "progresso", ou seja, a certeza de que a linha recta temporal (herdada do cristianismo) constitui um percurso inequívoco (infrascendente e necessário) do pior para o melhor. Daí, igualmente, a putativa superioridade moral destes peregrinos. Quanto mais não seja, por decreto: porque o "estado de direito", enquanto superstição totemística de arremesso, garante superpoderes apofânticos, e não se submete à realidade: engendra-a. E não apenas a contrafaz como trata de bombá-la a todas as horas por todos os meios e sulfatações. Por outro lado, a origem do descontentamento é intrinsecamente material, ou dito em termos de jargão: produção e distribuição da riqueza. (Produção pelos do costume - os otários, distribuição por eles, os representantes estabelecidos e respectivos séquitos). No que se defrontam com a seita rival, de putativa direita (mas, em bom rigor, esquerda mascarada de direita), que professa a produção e apropriação da riqueza (produção pelos do costume - os otários; apropriação por eles, os instalados em cima, familiares e amigos ). Donde deriva a inveja/ganância como força motriz do processo. São os teres e haveres, os trecos e matrecos, que estão em causa (não essências ou coisa que o valha). No âmbito interno, a esquerda (no seu duplo avatar de serviço) inveja as posições privilegiadas da classe dominante e da "elite instalada"; no âmbito externo, inveja este ou aquele país mais rico e anafado, que apregoa como padroeiro da sua demanda e modelo a decalcar. A luta política, entretanto, jamais excede a disputa pelo poder, pelo estatuto, pelo pedestal/trampolim; e o poder é apenas visto como apropriação da regalia, ostentação da vaidade, usufruto do mero poleiro na gaiola. De tal modo, que o poder, doravante, é apenas "estar no poder". Já não é sequer meio para determinado fim segundo preliminar causa: É, mais uma vez, fim e causa em si mesmo - uma forma estritamente burguesa de conforto, uma masturbação social, um fetishismo político. Em bom rigor, nada mais que bacoco desfile, show-off, exibição. Não há qualquer projecto ou projecção para lá do "estar no poder". Tudo se esgota nesse aparecer enquanto se pode, e nesse tudo fazer para estar o mais possível. Esvaziado da sua essência, fica o poder reduzido a mera aparência de poder, simulacro de governação, fazer de conta. Assim, o Poder "Democrático", tal qual se exibe - de imitação barata (mas financiada a peso de ouro) - nas nossas paragens, constitui dupla vacuidade e redundância: ambos, o poder e a sua forma (a "democracia") na ausência mútua, reiterada e compulsiva de princípios e fins, confinam-se a meios absolutos, e tornam-se não modos de servir à comunidade, mas expedientes para se servirem dela. Pelo que, a finalidade do poder não é fazer qualquer coisa em prol do país: é apenas fazer do país estância. Albergue. Hospedaria. As eleições pouco ou nada definem (e ainda menos implementam), de qualquer programa minimamente efectivo para a vida do quadrienalmente lambuzado povo: apenas determinam quem vai "estar", e de que modo, hospedado no erário público nos próximos quatro anos. Claro que há diferenças, no domínio do acessório, entre os candidatos da esquerda e os da esquerda a fazer de direita, mas essas diferenças nunca são 1. de ordem genuinamente cultural; 2. de poder. Porque uma coisa é garantida: Ambas as procissões, quais cortejos carnavalescos (mescla de matrafonas, carros alegóricos e cabeçudos), são, invariável e compenetradamente, aculturadas e impotentes.
PS: Porque o Poder é cada vez menos uma forma de fazer e cada vez mais uma forma de estar, redunda, crescente e perigosamente, numa mera forma de parasitagem. Tanto quanto a bancada parlamentar se confunde, quase sempre, com a bancada de feira ou de secos e molhados. E um partido mais não é, na actualidade, que misto de trampolim de classe e estabelecimento comercial. De esquina.







