terça-feira, fevereiro 06, 2024

Ostracismo às avessas

 Segundo as últimas notícias, Tucker Carlson está na Rússia para entrevistar Vladimir Putin. Carlson é, actualmente, o jornalista com maior audiência nos Estados Unidos, Com duas agravantes: parece que  é mesmo jornalista, e não é de esquerda (quer dizer, liberal à maneira americana, isto é, à presente data, completamente nuts). A intrépida viagem está a causar grande mal-estar entre os actuais parasitas sequestradores do poder americano, neoconas à cabeça. Um deles, e dos mais venenosos, um fulano auto-alcunhado de  Bill Kristol (todos estes badamecos têm nomes de fraude, inventados, para mero uso criminal, como qualquer vigarista ou carteirista profissional, só que, para cúmulo, dão-se ao desplante de estabelecer até linhagens e apelidos hereditários), já veio bolçar o seguinte axioma bestialmente democrático:

«Perhaps we need a total and complete shutdown of Tucker Carlson re-entering the United States until our country's representatives can figure out what is going on.»
Já nem se trata de censura. Ou sequer cancelamento. É mesmo, por estranho que pareça, toda uma nova modalidade de auto-tuperware à escala nacional, ou ostracismo às avessas: o parasita okupa a concha, barrica-se lá dentro e proíbe a reentrada à ostra nativa. Pior: convocando a polícia, o exército e o FBI para o efeito... Chutzpah é mesmo isto e é mesmo assim.

Podem acompanhar o folhetim no vídeo abaixo. Na caixa de comentários ao mesmo, garimpei uma observação impagável:

«Tucker will be the only person not allowed to enter our country. Everyone else just walks across our open border.»

 




segunda-feira, fevereiro 05, 2024

Um método ancestral




 

 «Contei-lhe que no reino da Tribnia, Langden para os seus habitantes, onde vivera durante uns tempos largos, a grande maioria do povo era composta de descobridores, testemunhas, informadores, acusadores, perseguidores e blasfemadores, assistidos pelos seus vários agentes e colaboradores subalternos, todos sob as cores, direcção e a soldo de ministros e seus deputados. As conspirações neste reino eram geralmente obra daqueles que desejavam dar largas às suas tendências políticas, restaurar novo vigor numa administração decadente; abafar ou distrair descontentamentos gerais; encher os seus cofres de confiscos; e fazer subir ou descer o valor d crédito público, conforme melhor conviesse aos seus assuntos particulares. Primeiro, assentava-se entre eles quais as pessoas suspeitas a acusar de conspiração e, em seguida, apreendiam-se-lhes todas as cartas e outros papeis e eles eram enviados para as masmorras. Esses papéis eram submetidos ao exame minucioso de uma série de artistas bastante habilidosos em descobrir os significados misteriosos das palavras, sílabas e letras. E deste modo eles decifravam, por exemplo, um cubículo fechado como significando um conselho privado; um rebanho de carneiros, o senado; um cão coxo, o invasor; a peste, um exército; uma cigarra, um ministro; a gota, um padre; uma forca, um secretário de Estado; um penico, uma delegação de ilustres; uma linguareira, uma dama da corte; uma vassoura, uma revolução; uma ratoeira, um emprego; um poço sem fundo, o tesouro; um barrete de bobo, uma favorita; uma caneta partida, um tribunal de justiça; um tonel vazio, um general; uma chaga sangrenta, o estado dos negócios públicos.
   Caso este método falhasse, tinham a possibilidade de recorrer a outros mais eficazes, que os entendidos designavam por acrósticos e anagramas. O primeiro consistia em decifrar significados políticos nas letras iniciais das palavras: assim, N significaria uma conspiração; B, um regimento de cavalaria; L, uma frota de mar; enquanto pelo segundo, por meio de uma transposição das letras do alfabeto numa carta suspeita conseguiam fazer transparecer os desígnios mais profundos e recônditos de um partido descontente. Assim, se eu escrevesse, por exemplo, numa carta a um amigo, "O nosso irmão Thomas está com um ataque de hemorroidal", um habilidoso descobriria neste conjunto de palavras banais algo como "Resistam,...prepara-se uma conspiração... a viagem". E este é o método anagramático.»

                       - Jonathan Swift, "As viagens de Guliver" (III, vi)


O texto em epígrafe foi escrito no século XVII, naquela que é, quanto a mim, uma das mais memoráveis obras da literatura de todos os tempos. Se repararmos bem, não perdeu qualquer actualidade - esta passagem, aliás, como tantas outras.  Devia arrepiar-nos e esclarecer-nos, sobretudo acerca das fantasias bafientas em redor do santíssimo progresso e da demo-evolucinha. Como se, afinal, mais não lográssemos, com todo este circo material e tecnopentelhífico com que nos aturdimos, diária e ininterruptamente, que tripular uma distopia através de séculos e chacinas (físicas, jurídicas, culturais). O trecho acima constitui mesmo a descrição dum método, tanto quanto dum processo mental, ainda hoje muito em voga.  E não apenas no Ministério Púdico.


Regime de Passerelle

 Um diálogo numa qualquer comissão do Congresso/Senado Norte-Americano:

Senator Josh Hawley: "You're doing a terrible job as Secretary of Homeland Security." 



Actualmente, como brada à evidência, não se é eleito para funções de topo nos Estados Unidos por currículo, mas apenas por pedigree. E o exercício da função não consiste em desempenhar uma qualquer tarefa, trabalho ou missão de índole administrativa, em modo ou tempo algum, mas apenas em exibir, ostensiva e jactantemente, esse sinal superlativo de raça primorosa e apurada. O portentoso pedigree não serve apenas de alibi total e salvo-conduto plenipotenciário, mas, sobretudo, e cada vez mais, como novo solipsismo absolutista. O portador age, arrotantemente, como um top model em desfile da última chutzpah outono-inverno ou primavera-verão, consoante o calendário da moda. O regime americano já não é de república ou sequer de banana: é mesmo, pura e simplesmente, de passerelle.


PS: São às pazadas, os vídeos sobre o cromo em exibição absoluta da mais completa cara de pau e refastelada (senão criminosa) incompetência. E no entanto, segundo alguns declarantes, o fulano era altamente condecorado. Adivinhem, já agora, qual terá sido (e é) o critério de condecoração... 



 


domingo, fevereiro 04, 2024

Duelo na ogro-pecuária

 

«Zaluzhny on eve of his expected firing by Zelensky shows his backing from far-right, which has power to overthrow Zelensky. Zaluzhny takes selfie with leader of far-right Right Sector & commander of Right Sector brigade of Ukrainian military in front of portrait of Nazi collaborator & far-right OUN leader Bandera & red & black flag of OUN-UPA & Right Sector.»


Zelento ou Zalujo?  

Aceitam-se apostas.

O judeu que ruge ou o nazi fofinho?  Vai o  anão despedir o ogre, ou o ogre defenestrar o anão? A Democracia (e bota demo nisso) ucranicoisa no seu melhor. Duelo na pocilga. O vencedor fica com a Ursula Vanessa e os 50 biliões dos otários tele-lobotomizados.


PS: Para contrabalançar o apoio dos extremamente nazis ao Zalujo, Zelento não é de modas e condecora militares que abateram corveta. A seguir vai condecorar militares que afundaram aviões ou helicópteros. O MSN não perde pitada.

sábado, fevereiro 03, 2024

Comendador, no mínimo!...

 «está acusado de falsificar 500 milhões de dólares em títulos financeiros da reserva federal dos EUA.»

Um homem destes devia  ser homenageado em praça pública e, além duma comenda, receber uma cátedra vitalícia nas faculdades de economia cá da paróquia. Em vez disso, a esbirraria persegue-o e ostraciza-o. Anda em fuga, há sete anos, imagine-se, acusado de falsificar títulos falsos. É impossível o crime, inválida a acusação e puramente arbitrária e, ela sim, ilícita e fraudulenta, a violência do estado.


PS: aliás, deixo aqui um alerta muito sério a toda uma sub-classe de mega-otários deste país: livrai-vos de ir pedir o reembolso dos títulos do tesouro americano em que,  acometidos de singular imbecilidade, investistes!  No minuto seguinte, as autoridades americanas vão declarar que não passam de falsificações. E eles sabem disso na perfeição: foram eles que os falsificaram na emissão. Portanto, o melhor mesmo, para evitar trabalhos e penas de prisão, queimem mas é isso e enterrem as cinzas. Em lugar recôndito. E que ninguém veja! Com a bufaria premiada que agora zanza por aí, nunca se sabe. Quem vos avisa...


Estes também se lembram do velho Portugal




A fuga de uma guerra não deveria acontecer nunca para ninguém. Nunca. Muito menos para uma família com 12 filhos e as dificuldades que isso acarreta.

« O que faziam profissionalmente os seus pais em Angola?

                     - Luís Vidigal



 

Eram portugueses, fugiram para Portugal. Em fuga duma guerra, refere ele (pasme-se!). E nós que nos contaram (e repetem ad aeternum) que se tratava duma libertação e da inauguração de mais um paraíso terreal. Gente ingrata, enfim. Ou obtusa, que não sabe aproveitar uma boa oportunidade. Como aqueles que, agora, emigram daqui, com uma mão atrás e outra à frente, incapazes de desfrutar das delícias que a democracia abrileira, em regime de imarcescível cornucópia, lhes proporciona...todos os dias.

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

Prostituição virtuosa e hagio-retaliação

 

«BMG dispensa Roger Waters por declarações consideradas antissemitas»


A parte mais alucinante da notícia é quando se entorna o seguinte: "nomeadamente da Liga Antidifamação, uma organização judaica sem fins lucrativos."


Convenhamos, uma organização judaica (pseudo-judaica, neo-judaica ou cripto-judaica), sem fins lucrativos é como um bordel de luxo sem intuitos comerciais. Mas, enfim, que sei eu da forma mais sublime e veneranda da actualidade de agência da virtude!... 

Entretanto, mais a sudeste...

quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Força, agricultores de Portugal!

 A procurar alguma réstia do velho Portugal, só já a encontraríamos, muito provavelmente, entre duas classes profissionais: os agricultores e os pescadores. Como é sabido, são olimpicamente desprezados por estes urbano-parasitas que constituem a partidarite incrustada. E, todavia, no caso dos agricultores, até protagonizam aqueles que possuem  um conceito mais apurado destas bestas que nos desgovernam. Porque lidam, convém reconhecê-lo, com bestas úteis: alimárias de tal modo benignas e produtivas que até a sua bosta é aproveitável,  possibilitando, na forma de estrume, um excelente fertilizante dos campos e um estimulador natural das culturas. Ao contrário destas que nos desgovernam: apenas fazem merda. E a merda que fazem só serve para nos prejudicar a todos - esterilizando os solos, envenenando as águas, conspurcando os céus e atrofiando as culturas (e as mentes tanto quanto os horizontes). Defenestrá-los seria atentado grosseiro ao ambiente... Na realidade, era atirar lixo à rua!

quarta-feira, janeiro 31, 2024

O Bom Selvagem, ou Rousseau e a Esquerda

 



Foi trasladado para o Panteão Nacional de França durante a Revolução.  Foi, estou em crer, o espírito guia de Robespierre. Foi considerado um dos patronos espirituais da Revolução. A sua "vontage geral" serviu de modelo, em grande parte, ao imperativo categórico kantiano. É, ainda hoje, um dos santinhos de pau carunchoso da Esquerda. É, ainda hoje, um dos grandes fetiches inspiradores da "educação". E, sim, caros leitores, é o autor mistério do postal anterior:

   Jean-Jacques Rousseau

Na sua famosa obra "O Contrato Social". E notem que eu apenas citei um pequeno número de teses pouco abonatórias para aqueles que o reclamam como baluarte. São abundantes. Percebe-se até porque é que a generalidade dos iluministas, a culminar em Voltaire, o detestavam. 

Na gravura em epígrafe, em forma de alegoria, encontramos - figurado na culinária indígena - Rousseau; e - figurado nos palhaços cativos e intragáveis - a esquerda contemporânea. Aliás, eu nem me dignei citar as posições altamente anti-feministas do Jean-Jacques, por piedade. Não tarda, vão despejá-lo do panteão; os wokes e os liberais, passe a redundância.


E mais não digo. Vamos falar mais dele a propósito da Revolução, naquela série em exibição actual neste blogue. Mas vamos falar a fundo...

Adivinhe o Autor e ganhe uma Viagem a Lapúcia (em voo FAP)

 



Um desafio à perspicácia dos leitores do Dragoscópio. Quem escreveu as citações que se seguem (a negritado) acompanhadas de comentários meus (para agravar o delito)?... 

Aposto que ninguém adivinha  (não vale ir ao google). Mas leiam com atenção, que vale a pena. Uma pequena ajuda: não é Hayek, nem Hobbes, nem Hitler.


«A tomar o termo em rigor da acepção, nunca existiu verdadeira democracia nem nunca existirá. É contra a ordem natural que o grande número governe e que o pequeno seja governado .(...) Acrescentemos que não há governo tão sujeito às guerras civis e agitações intestinas como o democrático ou popular, porque não há nenhum que tenda tão forte e continuamente para mudar de forma (...) «Se houvesse um povo de deuses, governar-se-iam democraticamente. Um governo tão perfeito não convém a homens.» (...)

- Contra-natura e inclinada à zaragata, à peixeirada, a democracia  é, segundo o autor, uma pura e insanável utopia. Até porque, geralmente, tal qual, por exemplo, os últimos 50 anos da nossa história documentam, em nome duma putativa "democracia abstracta (de conto do vigário representativo)", perpetra-se, na realidade, uma cacocracia (o governo pelos piores), cada vez mais baixa e medíocre, que invade e infecta a sociedade a todos os níveis. Centrada num parasitismo estatal segregado a partir duma partidarite devoradora.

«Dado que a liberdade não é um fruto de todos os climas, ela não está ao alcance de todos os povos. (...) Quanto mais se contesta esse princípio, tanto mais se lhe dão novas oportunidades de ser comprovado. Em todos os governos do mundo, a pessoa pública consome e nada produz. Donde lhe vem então a substância  consumida? Do trabalho dos cidadãos. É o supérfluo dos particulares que produz o necessário do público. Donde se segue que o estado civil não pode subsistir senão enquanto o trabalho  dos homens produz  além das suas próprias necessidades.»

- Segundo o autor,  não só a liberdade não é o suco duma panaceia universal (como querem fazer crer os demo-fundamentalistas do momento), como a existência efectiva e funcional dum Estado Civil depende da disponibilidade económica da própria sociedade civil. O Estado é supérfluo,  por definição.

«Por outro lado, nem todos os governos têm a mesma natureza; há-os mais ou menos devoradores, e as diferenças fundam-se neste outro princípio de que quanto mais as contribuições públicas se afastarem da sua fonte mais pesadas se tornam. Não é a partir da quantidade de imposições que se deve medir este encargo, mas no caminho que elas têm de percorrer para voltarem para as mãos de quem saíram; quando esta circulação está completada e bem estabelecida, pouco importa que se pague pouco ou muito: o povo é sempre rico e as finanças estão sempre bem. Pelo contrário, mesmo que o povo dê pouco, quando este pouco não reverte em seu proveito, pelo facto de dar constantemente, em breve se esgotará; o Estado nunca é rico e o povo é sempre miserável. (...) A monarquia, portanto, só convém às nações opulentas, a Aristocracia aos estados medíocres, quer em riqueza, quer em grandeza, a democracia aos estados pequenos e pobres.(...)»

- Quanto menor o excedente orçamental, digamos assim, menor a capacidade de sustentar um estado forte. Assim, a força deste é proporcional, de certa forma, à grandeza e riqueza da nação. Ora a debilidade do estado, tanto quanto a pequenez da nação, suscitam a democracia. Neste sentido, após 50 anos, o Retângulo, pequeno e pobre, está cada vez mais pobre e com um estado cada vez mais impotente e ineficaz, mas apenas devorista. Na maior parte do tempo, por isso mesmo, nem sequer dispôs (ou dispõe) dum estado soberano, mas apenas duma comissão de gestão, ou liquidatária, se quisermos entrar em rigores.

«O povo inglês pensa que é livre; está muito enganado, só o é durante as eleições dos membros do Parlamento; logo que eles estão eleitos, é escravo, não é nada. Nos curtos momentos da sua liberdade, o uso que dela faz merece bem que a perca.(...) Em qualquer circunstância, no instante em que um povo se entrega a representantes, já não é livre; deixa de existir.»

- A democracia representativa não realiza qualquer tipo de liberdade digna desse nome, segundo o autor. Não passa dum completo embuste.

«Segue-se daqui que a censura pode ser útil para conservar os costumes, nunca para os restabelecer. Instituí censores enquanto as leis têm vigor; logo que elas o perderem, deixa de haver remédio possível; tudo o que é legítimo deixa de ter força quando as leis já não a têm.»

- Segundo o autor, a censura é, simultaneamente,  um coadjuvante e uma manifestação da saúde  ética e legal da nação.


Portanto, leitores, renovo o repto: quem foi o proto-fascista que escreveu tudo isto (e na mesma obra, por sinal)?...



terça-feira, janeiro 30, 2024

A Concentração Judite do Funchal

 



Arrisco alvitrar que começo a perceber, se bem que ainda um tanto ou quanto difusamente, qual o motivo altamente operacional que levou toda aquela expedição armada à Madeira, em frete (ou charter?) da Fraqueza Aérea. 

Após breve consulta, debelei a minha dúvida inicial: sim, existe um departamento da polícia judiciária na Ilha  jardim. E tem uma sede e tudo, num edifício todo bem aparelhado (suponho), onde nem sequer chove como, por exemplo, no Museu de Arte Antiga. Basta consultar a página da PJ: Departamento de Investigação Criminal da Madeira – Polícia Judiciária (policiajudiciaria.pt)

Portanto, se existe, das duas uma: ou não são de confiança; ou são escassos para despachar o volume - autêntica avalanche - de indícios e ilícitos de índole corruptiva naquele pequeno território insular.  Logo à partida, isto é problemático. Se a esmagadora maioria é corrupta - entre corruptores, corrompidos, acólitos, estagiários, candidatos, coristas e assistentes - então deixa de ser crime: é costume. Se é costume devém direito de facto; o de jure é logo a seguir. Portanto, agora, das três uma: ou o corpo expedicionário foi proceder à evacuação dos seus colegas da Madeira, em sério risco de ficarem moralmente submersos; ou foi, em força e aparato, perpetuar o colonialismo jurídico do Continente (o que, só de raspão, pode ocasionar alguns onerosos processos de indemnização ao Estado rectangulês, por parte do Pingo Doce ou do grupo Auchan, entre outros); ou, hipótese mais arrepiante ainda, foi cometer um holo... digo, genocídio processual e galfarro  sobre a população excessivamente descontraída (ou libertina?) da singular ilha.

Há ainda uma quarta hipótese. Se calhar, até a mais plausível... E reconhece-se logo na abertura do site da PJ, quando, em Espaço Institucional, abrimos o atalho (link, em barbarês) para Unidades Orgânicas: se repararem com atenção constatam logo acima Direcção Central, à direita Unidades Centrais de Investigação Criminal; e, logo abaixo, as... prestem atenção e soletrem devagarinho: Unidades Orgânicas Desconcentradas de Investigação Criminal.

Ora, o Departamento de Investigação Criminal da Madeira é uma dessas Unidades Desconcentradas.

O que, eventualmente, explica todo o alvoroço e emergência: falta-lhes concentração, foco, baliza... em suma, não se concentram devidamente na pesquisa e investigação prioritárias (a do mar de prevaricantes).  Dispersam muito a atenção, andam muito distraídos, sabe-se lá, com o oceano Atlântico -  redes internacionais de prevaricadores à vela; tráficos diversos e avulsos, nomeadamente de pimba caribenho em paquetes de cruzeiro gay; denúncias de desembarques anti-género e de activistas diesel pró-apocalipse em turbo-tunning, submarinos russos em voyeurismo lavagante, iates de falsificadores de cocaína, burlões por drone e balão, nudismos antissemitas, enfim, entretenimento não falta. Ora, os do Continente, que são concentrados por natureza e organigrama (e devidamente enquadrados por diáconos e curandeiros do Ministério Púdico), foram lá recambiá-los à concentração. E isto, para efeito desse novo desígnio nacinhal, o Turismo, é de crucial e estratégica importância: Já tínhamos a Concentração Motard no Algarve; temos agora, além do fogo de artifício, a Concentração Judite no Funchal (também aberta a magistrados e outros espíritas de cabedal). O que, por falar nisso, até dava um bom nome de baptismo toino para um ciclone em digressão: o ciclone Judite da Madeira... (Sem limite de velocidade, desde que ligada a sirene e o pirilampo azul). Horror!, vão dar cabo dos bananais. Mas ao menos, rapazes, tende piedade das anoneiras!...


PS: Outra coisa que me preocupa: com todos estes palhadinos da lei e da justiça de férias, digo, em deslocação com ajudas de custo, na Madeira, quem sobra para enfrentar a terrível e tentacular Máfia Bengali, na Mouraria?... 

segunda-feira, janeiro 29, 2024

A Expressão contra a opressão


E já está aí, em forma de lei. Mais uma usurpação da instância familiar pelo "estado absoluto". Ora, anotem bem:


Lei n.º 15/2024, de 29 de janeiro


 «Artigo 176.º-C

Atos contrários à orientação sexual, identidade ou expressão de género

1 - Quem submeter outra pessoa a atos que visem a alteração ou repressão da sua orientação sexual, identidade ou expressão de género, incluindo a realização ou promoção de procedimentos médico-cirúrgicos, práticas com recursos farmacológicos, psicoterapêuticos ou outros de caráter psicológico ou comportamental, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa, se pena mais grave não lhe couber por força de outra disposição legal.

2 - Sem prejuízo do disposto no número anterior, não são puníveis os procedimentos aplicados no contexto da autodeterminação da identidade e expressão de género, conforme estabelecido nos artigos 3.º e 5.º da Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, e que forem levados a cabo de acordo com as leges artis.

3 - Quem, no âmbito das condutas descritas no n.º 1, desenvolva tratamentos ou pratique intervenções cirúrgicas, farmacológicas ou de outra natureza que impliquem modificações irreversíveis ao nível do corpo e das características sexuais da pessoa, é punido com pena de prisão até 5 anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.

4 - A tentativa é punível.»







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Enfim, é todo um execrável mundo novo.







Registem mais um requinte catita ao nível do léxico destas bestas: a expressão contra a opressão.  Se bem que no fundo é a velha questão da vertigem atomizante: a zaragata social (marxista), tanto quanto a zaragata sexual (freudo-marxista via Frankfurt), terminam pelo ralo da pura mixórdia. Que, para todos os efeitos, vale como o "fim da História": a mixordização absoluta. 










PS: Começo a achar que a involução para macacos raia o excesso optimista. É mesmo para hienas, a fazer fé nestes reformistas celerados.














domingo, janeiro 28, 2024

Ruínas à beira-mar plantadas



Escuto por aí, em comentários avulsos, nas mais diversas cloacas de notícias, o mantra recorrente da "justiça como um pilar da nossa democracia". Não sabia que o entulho também tinha pilares. Mas, enfim, suponho que os outros três sejam, deixem-me adivinhar: os partidos, os mass-media e a banca. Portanto, não temos uma  forma de governo, mas sim uma contradição em termos.

Em todo o caso, coloquei a questão ao meu mestre. Respondeu-me, entre o pragmático e o sibilino: "Discípulo, todo o templo tem pilares. Esse de que me falas não foge há regra. Possui-os, não duvides: mas são muito baixos... baixinhos...minúsculos. Debalde os vislumbrarás com o entendimento, só mesmo com a imaginação!»


sexta-feira, janeiro 26, 2024

Anabismotomia da Revolução - 5. Do Fundamento ao a-fundamento (antifundamento)




 De modo a melhor entender o que se segue, não perdem nada em ler, como introdução, este postal de 2008: "Palavras com raiz - Regra."

Uma das grandes tragédia de Sofocles, e um dos grandes textos da nossa cultura, versa o confronto entre a lei da cidade e a regra divina. Ou dito em termos de justiça: aquilo que a pretende e aquilo que a fundamenta. Por outro lado, as leis da cidade, bem como a justiça a elas inerente, varia com as próprias flutuações históricas (políticas, económicas, sociais) da polis. Todavia, aquilo que a fundamenta, não: permanece e perdura enquanto houver cidade, ou memória dela. Antígona (é esse o título da tragédia) versa sobre esse valor superior, porque mais profundo, determinante e precedente, que é a regra. E afirma uma verdade insofismável e eterna: uma lei que não observe, que não respeite, que atente contra essa validação fundamental, superior, presidente, manifesta uma justiça não legitimada, uma autoridade ilícita, falsa, meramente opressora. Ou seja,  conformando não uma justiça, mas uma injustiça.

Este predomínio do fundamento - a arqhé - (numa analogia actual para melhor compreensão: da arquitectura sobre o edifício) é o que sobremaneira se traduz no termo "hierarquia" - que significa "consagração do fundamento". É isso que na antiguidade, como ainda na Idade Média, reflecte toda e qualquer construção legal: O Divino como zénite e fonte da hierarquia, isto é, Deus antes e acima. Tudo Dele e Ele acima de tudo; as monarquias na terra como concessionárias e réplicas da monarquia celeste.  De resto,  o Olimpo é uma monarquia, tanto quanto o cristianismo o é. Aliás, seguramente, não foi ao judaísmo que os cristãos foram buscar a ideia de "Deus Pai", ou, posteriormente, o Cristo Rex. Mas o fundamento, desde a antiguidade, cuja excelência reside no divino, possui também um carácter duplo: o divino e os heróis fundadores humanos, raiz primordial e principal da existência da própria cidade. Foram eles, sob os auspícios divinos (ou a Graça de Deus, como dirão os medievais), que a fundaram e é deles que provém a génese e o poder  ser enquanto expressão do exercício da justiça, da autoridade, do significado e duma história. A cidade, como o cosmos, é um organismo vivo, cuja nobreza superlativa coincide com o seu nascimento. Assim, o genos (a estirpe) e a dynasteia (a potência) manifestam, enquanto história, enquanto caminho, trajecto e projecto comunitário, esse actualizar permanente do acontecimento fundador. O significado do divino e dos fundadores traduz esse continuado permanecer e perdurar duma raiz que sustenta, nutre e revigora. (Veremos adiante, num próximo capítulo, como o fito visceral da revolução é "erradicar" - isto é, arrancar pela raiz - as fundações da cidade. Passa-se assim da cidade fundada, terrena, para a cidade flutuante, voadora, aérea, da distopia).

Pois bem, se retirarmos o divino do sistema, teremos qualquer coisa como o esquecimento e apagamento da "arché", e a sua falsificação/substituição pela "techne´" - o artificial.  A lei deixa de estar precedida e submetida a uma regra perene e imutável.  Doravente, auto-funda-se, isto é, começa por estabelecer o seu próprio fundamento artificial (uma constituição, por exemplo), e é simultaneamente lei e regra, mudando e "evoluindo" ao sabor das as modas, volúpias e caprichos dos mandarins da cidade, ou civinautas. É um facto que deixa de haver possibilidade de conflito entre a regra e a lei, porque deixam de existir planos diferente de justiça. E não tendo o plano inferior de responder ou respeitar quesitos acima, antes e fora dele, pura e simplesmente, desregula e regula conforme lhe apetece.  Por um lado exorbita, por outro disparata. Deixa de haver autoridade legítima, mas apenas autoritarismo;  deixa de acontecer justiça, mas apenas uma forma mais ou menos grave  de injustiça.  A techné de que se servem o falsificadores, tiranetes e creontes de serviço à mixordeira legal tem agora o nome solene de "ciência do Direito".  O esquema redutor da polis que serve de abrigo a todas estas tranquibérnias e parlapatices responde pelo pomposo epiteto de "estado".  Que o seu último grito (grunhido ou guincho, vá-se lá saber) se autoproclame "estado de direito" diz tudo acerca da peça.  Significa que o estado se arroga fundamento, seguimento, estabelecimento e acabamento de si mesmo.  Ou seja, que o autoritarismo está a atingir o seu êxtase: o totalitarismo. E que a injustiça está a alcançar o seu extremo: os  fundilhos da aberração. 

Seria fácil, de tão ostensivo e evidente, apresentar exemplos práticos actuais de tudo isto, sobretudo entre as novas legislações woke, os mil e um decretos sanitarizantes e securitários, os climo-códigos apocalípticos,  previamente os desconstrutivismos ocidentais, a panóplia holocáustica, etc, etc.  Tudo isso vertido em letra de lei mosaica, numa verdadeira orquestração de sargeta global a que eu costumo taxar de "oxidente".  Mas o problema é que a coisa já vem com o balanço e a embalagem de séculos, não apenas contínuos, mas também numa espécie de cronofacção quântica, de aleação, flashback, e saltos.

O que transportou a este "estado de coisas" foi, em larga medida, aquilo que conduziu à Revolução Francesa. Esta funcionou como uma espécie de ventoinha para todo esse excremento pseudo-redentor do mundo, obra  industrial dum exército remeloso e mirmitónico de reformadores de vão de escada, visionários de piaçaba e proxenetas da virtude, todos eles, sem excepção, almocreves e amoladores da salvação de pechisbeque ao domicílio para autómatos acéfalos, porno-puritanos e danados militantes. A salvação do povo pelos representantes do povo.  As juntas e os tribunais de salvação nacional, pública, cívica. Auto-fundação e auto-digestão... Em suma, todo um pseudo-fundamento: um povo a quem se cortou previamente a cabeça e espoliou da alma. Um povo que, de ora em diante, já não tinha justiça alguma a quem recorrer, nem a do Rei, nem a de Deus. Nem neste mundo nem no Outro. Que se via, sem apelo nem recurso, remetido a caos, matéria, ruído, vazio, agonia, exaspero puro, de mera vítima ou cúmplice do Libertino-rex, do sado-sacerdote ou ministro de plantão presidencial ao açougue. Num certo sentido, é uma refundação ao Caos e é uma refundação ao puro e neo-verbo de... encher.  Mas, de facto, é como dizer que o fundamento doravante é a matéria. Que é o mesmo que proclamar que é tudo e coisa nenhuma, ou seja, é o que for. Ninguém se espante: os representantes do povo emergiram no mesmo instante, e do mesmo veneno dissolvente, em que o povo deixou de ser um povo e passou a ser uma massa amorfa em fermentação automática e destino efervescente.

Só que a destruição também segue um método, também cumpre uma lógica. Pode ser o avesso, geralmente é o contrário, a adversão tanto quanto a aversão, mas um par-odos, não obstante. O fio de Ariadne que permite escapar ao labirinto também pode servir para  voltar para dentro dele. Só que, desta vez, precisamente, para queimar e refundir o fio, apagando a memória e liquidando qualquer hipótese de regresso. É preciso voltar para reanimar a Besta. E adorá-la em banquete. Simpósio, como diziam os gregos.  

O Rei, como o Papa, não valia por aquilo que era enquanto mera e humana existência. Houve Reis bons e Reis maus, Papas bons e Papas péssimos, enquanto humanos que eram e foram. A sua essência todavia estava acima da sua mera existência física: antecedia-os e superava-os. Aquilo de que eram símbolo e representavam verdadeiramente estava antes deles e prosseguia depois e para lá deles. Corporizavam um vínculo a algo acima que os subordinava enquanto poder temporal e poder espiritual - a verdadeira separação de poderes, como vertido das próprias palavras de Cristo: "A Deus o que é de Deus, a César o que é de César". O trono e a coroa régios, a cadeira e as chaves papais transcendem a mera pessoa do rei ou do pontífice. São eles o príncipes, quer dizer, os primeiros e os principais de todos nós a cumprir em nome de todos nós um dever e uma obrigação, estes sim, soberanos. Porque, na realidade, há uma dupla representação no Papa, como no Rei: aquele representa Deus sobre toda a Igreja, tanto quanto a Igreja perante Deus; o Rei representa Deus sobre o reino e os súbditos perante Deus. Por muito mau que seja o representante, o representado e a representação não desaparecem nem diminuem. São eternos e superiores a tudo isso. Pretender o contrário equivale a imaginar que se faz desaparecer a mensagem porque se  mata ou menoscaba o mensageiro.

A ideia da morte de Deus é tão frívola quanto inútil. Se O matámos por via da Revolução não estávamos a ser nada originais: já O tínhamos morto antes, na cruz, rodeado da mesma saliva, alarvidade e peçonha. A preferência ululante por barrabazes e borra botas mentais também não foi nova. Poderemos até matá-Lo todos os dias, tanto quanto proclamar a nossa soberba napoleónica em cada novo mundo transformado em hospício. Não diminui nem altera nada daquilo que é eterno e soberano. Tem quase infinitas voltas, o labirinto; mas apenas uma entrada e saída. Não importa o quão afastado -ab-ratio - nos projectemos, o quão para longe fujamos para nos espojarmos na imundície. Podemos até apagar todos os símbolos e, no fundo, aquilo que verdadeiramente somos junto com eles. A Eternidade tem todo o tempo do mundo e a salvação, bem vistas as coisas, consiste simplesmente em não nos perdermos. Em não seguirmos o canto das sereias, as tentações do deserto ou os flautistas da revolução.

O que a ciência moderna, os enciclopedistas e todo o racionalismo exacerbado e antroponanista que, desde as entranhas da idade média até ao vulcão dos iluminados, porfiaram, com insídia metódica, foi o ataque à hierarquia cósmica, fundada na Terra e apontada ao Céu. Em nome duma terraplenagem tecno-eficiente, sustentada no dinheiro, apontada ao império do deus da morte e encetada por uma não-classe, de párias, réprobos e resgatados à sordícia medieval, agora metidos a vanguarda imarcescível da panturra demiúrgica, em perpétua feira e fétida romaria pelo enxurdeiro dos séculos. Plutocracia, ou o triunfo das pseudarquias.

Da ascensão desta não-classe, bem como da sua metamorfose em pantaclasse (ou classe única) -neonobreza (financeira), neoclero (científico) e neopovo (publicitário), é o que trataremos de seguida. 


PS: Não deixa, entretanto, de ser curioso que também a cultura dita judaica, já lá vão uns séculos, passou dum tempo de fundamentação divina (de acordo às regras básicas da Torah), para uma época, que dura até aos dias de hoje, de rabinização jurídica e pseudo-fundação legal (sob controle apertado e hermético dos técnicos e psicomassagistas do Talmude). Na Europa, a partir da Revolução, ocorre, se calhar não apenas por analogia, uma "rabinização" da justiça,  cedendo, as regras ancestrais, lugar a um talmudismo laico e balalaico, de que a declaração universal dos direitos do homenzinho constitui marco particularmente fariseu.


quinta-feira, janeiro 25, 2024

Turismo judicial?




 Quando já não se percebe muito bem onde acaba a investigação e começa o turismo.

Presume-se que esta gente viajou gratuitamente, com alojamento e estadia em hotel, três refeições e piscina,  para uma temporada magna (que a fazer fé na usual lerdice das autoridades de justiça, será coisa, no mínimo, para duas semanas, senão mesmo um mês. Ou dois.).

Se adicionarmos ao batalhão de esbirros paraquedistas (entre magistrudos, inspectantes e amanuenses), o enxame prévio de jornalixas e alcoviteiros profissionais com que aqueles, invariavelmente, se recheiam e fazem escoltar, não é difícil adivinhar o clima de festa que neste momento se vive entre os empresários hoteleiros da Pérola do Atlântico.  Subitamente, já é época alta na época baixa. Ou o carnaval chegou mais cedo. Tudo a bem da democracia, pois claro.  Que, entretanto, assinale-se, já passou da separação de poderes ao divórcio conflituoso, com peixeirada e violência doméstica na praça pública. Por outro lado, para os corruptos do poder executivo, isto dos caça-gambozinos do poder judicial requisitarem aparelhos da Força Aérea para efeitos de operação em forma de raid a Entebe não deve ser nada tranquilizador. Qualquer dia, nos raides continentais, ninguém lhes garante que não passem a usar blindados e auto-metrelhadoras. Sempre pensei que isto da democracia, a resfolegar civis e paisanos fofinhos, fosse uma coisa bem mais pacífica e choninhas. Confesso e dou a mão à palmatória: isto começa a ficar interessante. Aguardo, com expectativa, uma série da netflix, no mínimo.

Já o contribuinte, esse, entre ir sujando a vista de cima com aquilo que nem para limpar a vista de baixo se recomendaria (entenda-se, jornais e revistas), lá vai, igualmente resignado,, entre dichotes e manguitos, pagando a corrupção de uns, real e imaginária, e o turismo judicial de outros, com pernoita e bar aberto.

Lembram-se daquele queixume crónico e generalizado entre os rectanguleses, seja qual for o serviço, da "falta de meios"? Estou cada vez mais convencido que o que invariavelmente revela, de quem o protagoniza, não é essa falta: é a de princípios. E fins.  Princípios, enquanto indivíduos; fim, enquanto espécies. A bandalheira, por exemplo, neste retângulo, já beira o infinito.

Para terminar, sugiro que passem a definir o "regime" como tendo evoluído para um grau superior de civilizacinha: de estado de direito para Estadia em hotel de direito.

segunda-feira, janeiro 22, 2024

Anabismotomia da revolução - 4. O poço dos heterozelos


Heterozelo  significa  Parcialidade. De "hetero" - outro, contrário, oposto; e zelos - ebulição, zelo, ardor, inveja.

Da parcialidade resultam vários fenómenos: o partido, a partidarite, o partidário, por exemplo, só para citar alguns casos decorrentes da revolução. Em França, como na Rússia, como em Portugal. A fórmula mais conhecida e, ainda hoje, operante dessa fenomenologia chama-se "direita" e "esquerda", isto é, uma mundovisão horizontal e rasurante da política. O edifício reduzido ao rés-do-chão. Eufemismo para entulho.

Filosofia é uma palavra grega e a sua essência também. E não pode ser desligada dum veículo seu determinante: a própria Língua Grega. Ora, nesta acontece um fenómeno muito curioso e significativo: as palavras são, não raro, polissemânticas - ambivalentes e ambíguas. O exemplo sugestivo que costumo citar: pharmacon - significa remédio, mas também significa veneno. Idea, de igual modo, significa ideia (forma do pensamento), mas também aparência, forma exterior. Ou seja, de certa forma, sentidos opostos coexistem no mesmo termo. Dir-se-ia, pois, que a própria linguagem transporta consigo a virtualidade de equilíbrio ou desequilíbrio, de excesso ou temperança. Se tomarmos o termo apenas num dos lados da acepção, estaremos a ser parciais; se o abarcarmos por inteiro, estaremos a ser completos; ou imparciais. Se o determinarmos apenas como "remédio", esquecendo que também é um veneno, correremos sério perigo por imprudência; se determinarmos que é apenas um veneno, corremos o risco de cometer um desperdício por ignorância. Assim, se eu disser que um significado é mau e outro é bom, fharmacon será absolutamente bom ou mau consoante o significado que eu lhe atribuir. Em contrapartida, se eu entender que fharmacon é bom ou mau, na sua inteireza, conforme o equilíbrio ou tempero que eu fizer das suas faculdades (de veneno ou remédio), então será bom se não houver nem excesso de uma componente nem doutra, mas um equilíbrio adequado. Deste modo, no primeiro caso estaremos nas imediações duma posição dualista; no segundo de uma atitude realista. A primeira é, simultaneamente, parcial e abstraccionista - porque se abstrai da realidade integral do objecto (neste caso, a palavra), para a submeter a um pre-conceito ideal (que se ajusta ao seu particular interesse) do sujeito (o que classifica) - bom, ou mau. É igualmente uma posição totalitária porque toma a parte pelo todo (coincidindo, assim, este todo abstracto com uma redução ou mutilação do todo real). E é, identicamente, uma posição absoluta (sendo que absoluto - ab-solto - significa desligado) porque desliga a parte do todo, divinizando aquela e demonizando este.
Ora, a posição dualista, que se manifesta geralmente nos racionalismos/idealismos, de Platão ao idealismo alemão (desde Kant a Hegel e seus derivados), habita também, por regra, os territórios das utopias, tanto quanto algumas terraplenagens alternativas (entenda-se, "libertinismos" ou ego-deificações). Ao contrário, a posição realista integra e manifesta, invariavelmente, uma ordem, estrutura ou hierarquia funcional. Não se trata aqui também de incorrer numa estreita esquemática dualista, considerando uma posição especialmente boa e outra especialmente má. Convém que se retenha apenas que cada uma delas revela determinadas tendências e determinadas apropriações.  E que o desequilíbrio acentuado para qualquer uma das posições ocasiona problemas específicos. Como a História tem demonstrado à exaustão.
Assim, para efeito do que aqui tratamos, a Revolução e os seus avatares, (Paris, Moscovo ou, em modo sórdido e nano, Lisboa) enferma, por dinâmica intrínseca e atestado por exaustiva comprovação empírica, desse dualismo e é, em simultâneo, absoluta e totalitária. Primeiro, porque se justifica num Todo absolutamente mau e corrompido com o qual a parte revolucionária rompe, rasura e propõe recriar ad nihil - "para trás de nós, o abismo; em frente,  a salvação e o paraíso reconquistado!". Não por acaso, o absolutismo revolucionário imita, perversamente, a Divindade do génesis, edificando a partir da treva, seja a treva do feudalismo, da religião católica, do czar opressor, ou do obscurantismo salazarífico. Em segundo lugar, porque a parte revolucionária, ao assumir-se como a representação exclusiva da totalidade, destitui o restante de qualquer direito, legitimidade, ou, sequer, dignidade histórica. Tanto quanto destrui-lo materialmente, procura apagá-lo mentalmente. Liquida-o no presente e liquida-o no passado, no terreno e na memória. Tudo passa a resumir-se a uma lenda negra, onde a demonização perpétua devém sustentáculo essencial e justificação sempiterna para todo o processo revolucionário e pós-revolucionário subsequentes. Assim, quaisquer falhas, desilusões ou descarrilamentos destes serão  sempre compensados com o recurso ao papão do passado, ao fantasma do putativo horror de recurso. Cumpre os quesitos de branqueador, tira-nódoas e bode expiatório com retroactivos. Demais,  o revolucionário é sempre, por necessidade operacional, um demagogo, isto é, um condutor do "povo", um demonauta. Triunfa na medida em que transmite e multiplica - melhor, prolifera - o seu transtorno ( a sua mania) ao maior número de pessoas. Poderíamos até dizer que, desde a revolução francesa, o revolucionário constitui, muito provavelmente, o primeiro modelo de empresário do espectáculo. No caso de Paris, 1789, avulta mesmo a hipótese de  o grande catalisador (e sucesso) para a agitação e mobilização popular terá passado por converter uma pequena exibição ou happening ocasional - a execução pública -, cada vez mais rara e frouxa (os suplícios e execuções vinham diminuindo preocupantemente nos últimos tempos do ancient régime), num autêntico festival pop (quiçá o primeiro de que há memória) - uma trepidante feira-matadouro,  em alucinante ritmo de abate ininterrupto, entrada gratuita, vários palcos (do tribunal ao cadafalso) e decapitações ululantes, precedidas de cortejos festivos, sob algazarras de dichotes e vitupérios. Iremos mesmo testemunhar, entre enojados e perplexos, como, rapidamente, a revolução e os seus artistas (entre funâmbulos, prestidigitadores, contorcionistas, trapezistas e palhaços) se entrega por completo ao mero entretenimento popular, à diversão e afagamento espalhafatoso da turba. A certa altura, vai alto o Terror, e percebe-se até uma certa angústia entre os animadores culturais de serviço: entram a suspeitar seriamente que a sua própria sobrevivência depende da manutenção e avivamento da excitação lúdica da plateia. É visível como entram em pânico quando principiam a avistar-se os primeiros sinais de tédio, enjoo e cansaço da parte desta. Fora o espectáculo, não havia (nem eles tinham) mais nada. Adivinhava-se o anticlímax e as vociferantes e descabeladas reclamações pelo esgotamento dos efeitos intoxicantes, pela droga decepcionante. O fiasco, a pateada, o linchamento, enfim... E o mais curioso deste teatro do absurdo a céu fechado para balanço é que o efeito  narcótico duraria enquanto os magarefes empresários conseguissem manter o público na ilusão de que era também o actor principal, o protagonista da mise-en-scène. Eis, pois, a lógica suprema e absoluta: the show must go on! Uma proto-broadway de carniceiros. Reis, nobres, clérigos, cabeças avulsas, toutiços aleatórios já não bastam: os magarefes desatam a matar-se uns aos outros. O parcialismo, tanto quanto absolutista, tende à atomização. Princípio desagregante do Todo inicial, não demora a descobrir todos seus sucedâneos em toda a parte. A depuração, a purga social é sempre uma peregrinação do infinito, esse totem tribal dos novos tempos antropófagos. De resto, a Revolução é como Cronos: devora os próprios filhos, tanto quanto arrota os próprios pais. Mas é também como Erisícton: uma fome perpétua que, depois de ingurgitar meio mundo, culmina na autofagia. Arvorada em nome da Natureza, atenta contra ela e acaba levada à loucura, por castigo dela, Deméter, de seu verdadeiro nome.

Mas esta carne-oficina e esta carnofacção não vinha apenas das filosofias e arredores. Tal qual o racionalismo e o dualismo não resultava apenas da postura platónica e neo-platónica. Lá muito de trás, da herança persa, posteriormente pelo maniqueísmo, cruza-se, numa espécie de síntese, com o platonismo e o Apocalipse de João, esse livro de cabeceira da Idade Média. Não será apenas o sono da razão que povoará de monstros: é a razão monstruosa que povoará o homem, à conquista dos céus. E dos infernos. Essas dimensões a que alguns chamavam, coxeantemente, infinitos. Só que agora com contornos de infinita dor e infinito prazer (engodando e atraindo a hiena farejante que é o libertino, lá ao fundo)... Ganhará contornos bem definidos, no estertor da Antiguidade e romper da Idade Média, com Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), na sua Civitas Dei (Cidade de Deus):
  «Porque os que estarão nas penas (do inferno) não saberão do que se passa dentro do regozijo do Senhor; mas os que estiverem nesse regozijo, saberão o que se passa lá fora, nas trevas exteriores.»
Regozijo, alegria, felicidade, o que quer que se traduza, fica um estranha e inquietante  pergunta: parte do regozijo celeste dos corpos bem-aventurados e ressuscitados no Céu tem alguma coisa a ver com ao suplício eterno de outros corpos reencarnados no inferno? A dor duns que gera prazer noutros... Confesso que não sei responder.
Mas o certo é que o Inferno cristão, à semelhança das execuções públicas, foi-se amenizando na sua severidade dualista...Foi-se tornando mais realista e equilibrado: congeminou-se e introduziu-se o Purgatório. O paroxismo desiludido com o Ano Mil, acabou por desviar o "medo do Fim" para a "demanda do milénio". As seitas milenaristas, e de algum modo revolucionárias, atravessarão a Europa. Encontramos a última já em pleno século vinte, algo exótica e auto-denominada de III Reich. Mas esta não é decerto a principal correnteza da Revolução.
Diz-se que o mundo, mais que a política, tem horror ao vácuo. A verdade é que à medida que o Inferno celeste e as suas penas e terrores, aparentemente, se iam desvanecendo e suavizando nas memórias, na essência, iam-se apenas transferindo. Aliás como tudo o que outrora morara no Céu. Foi-se mudando para a Terra. Pervertido, nanificado, absurdizado, às parcelas, mas não obstante... E assim o inferno não desapareceu: materializou-se. Parece que, segundo as sensibilidades da época, era a única parte interessante da Cidade de Deus. E como disse mais tarde um filósofo: vale mais um mau sentido do que sentido nenhum, então nada como carregar no mau até ao péssimo. E se para cima não se vislumbra sentido nem caminho, então vamos para baixo, para o averno das profundezas. É a torre da Babilónia na mesma, só que na direcção oposta, dos subterrâneos, como certos poços maçónicos. Toda a vertigem da Queda agora erigida a vingança, a desforço, não já despejo mas tomada, reocupação por arrombamento.  Imitatio Lucifer. O senhor das Luzes. Civitas Demo (ou Civitas lex). Que vai, finalmente, moldar, a barro, cuspo e sangue, o seu cidadão. Em forma de marionete. Mecânica, amoral, impiedosa. 


 «É preciso então preferir a dor, cujos efeitos não podem enganar e cujas vibrações são mais activas. Mas, objecta-se aos homens encasquetados nesta mania, esta dor aflige o próximo; será caridoso fazer mal aos outros para se deleitar a si mesmo? Os velhacos respondem-nos a isto que, acostumados, no acto do prazer, a importar-se consigo em tudo e nada com os outros, estão persuadidos de que é muito simples, segundo os impulsos da natureza, preferir o que eles sentem ao que não sentem de modo nenhum. Que nos fazem, ousam dizer, as dores ocasionadas sobre o próximo? Sentimo-las? Não; pelo contrário, acabámos de demonstrar que da sua produção resulta uma sensação deliciosa para nós. A que título lhe evitaríamos uma dor que nunca nos custará uma lágrima, quando é certo que desta dor vai nascer um prazer muito grande para nós? Já alguma vez experimentamos um único impulso da natureza que nos aconselhe a preferir os outros a nós, e cada um não está para si no mundo? »
          - Marquês de Sade, in "Filosofia na Alcova"

E talvez mais uma redução a considerar na farmacopeia revolucionária: a redução da luta pelo poder a uma luta pelo prazer... Entendido este como acima diagnosticado: como o poder fazer mal/causar dor aos outros.