terça-feira, abril 04, 2006

Chocar o macaco



O MP-S, um ilustre e venerando leitor desta espelunca assaz sinistra, malfazeja e também lúgubre, a propósito do postal anterior, coloca uma questão que, pela sua suculência, reclama honras de primeira página. Pergunta ele, Deus o abençoe:
«Mas estará o Dragoscópio a transformar-se numa barraquinha de feira?!?!»

Acredito que esta seja uma preocupação que atenazará muitos passantes. Por isso mesmo, de modo a tranquilizá-los e, de caminho, também a esclarecê-los -espero bem que duma vez por todas! -, tenho a depor o seguinte:
O Dragoscópio sempre foi uma barraca de feira. Com uma singularidade muito especial: aqui não é o basbaque que atira ao alvo, mas o dragão residente que atira ao basbaque. O que se perde em receita monetária, ganha-se em desopilanço espiritual, em desanojo retemperante da figadeira. É, direi mais, uma catarse esplêndida. Uma perpétua primavera! Bem melhor que chá de urtigas.
Desde que se respeite sempre, claro está, o método Jarry, nas suas famosas duas fases: primeiro provoca-se o basbaque; depois dá-se-lhe nas trombas!

Por outras palavras, e numa síntese mais filosófica: aqui choca-se o burguês! E para chocar esse grande filho da puta, meus amigos, que ninguém duvide: VALE TUDO!!
Pena, mesmo pena, só tenho de uma coisa: que esta merda, em vez de caixa de comentários, não tenha um ringue de boxe.

Hagiografia revisitada



As fotografias em epígrafe?
Não, não são judeus num campo de concentração alemão, entre 1939 1945: são comunistas num campo de concentração inglês, entre 1945 e 1947.

Diz-nos a teologia que os demónios são uma espécie de anjos caídos. Parece que alguns anjos, sobretudo nestes enxames modernos, afinal, são demónios mascarados.
Os antigos resumiram a coisa em duas palavras: Vae Victis!

segunda-feira, abril 03, 2006

Sgt Pepper's Luso Hearts Club Band



O professor Fernando Rosas, ícone publicitário itinerante das camisas Lacoste, insurge-se contra a presença, em regime de privilégio, do Cardeal Patriarca de Lisboa na cerimónia de investidura do novel PR. Segundo ele, um tal despautério atenta contra a Lei de Liberdade Religiosa, Artº4, nº2, R/ch esq, ao Saldanha. Além disso, o referido eclesiasta trajaria uma Ives Saint-Laurent que muito escandalizou e vexou o reputado académico.
Por sua vez, o Timshel insurge-se contra o professor Lacoste, Fernando Malvas, taxando-o de "neoliberal e anticlerical." Mas como o Timshel é um cripto-nazi, não tem direito a insurgir-se seja contra quem for. Nem direito, nem razão.
Eu próprio, justa e publicamente celebrado como paradigma de moderação, sensatez e jurisprudência, e vencedor de várias maratonas copofónicas, bem como medalha de prata olímpica em Putaria sincronizada (aquele filho da puta do Caguinchas, dopado de merda, bateu-me ao sprint!), sou forçado a concordar com o Nando Narciso, digo Malvas, aliás Malmequerer, vulgo Rosas. De facto, não há como contornar tamanha apófise: se lá estava o Cardeal Patriarca, porque não estavam também, em democrático colégio, o Imã da Mesquita, o Pastor Tadeu, o Bispo Edu, o presidente do Sport Lisboa e Benfica, o professor Karamba, a Linda Reis, o beato Portas, o camarada Álvaro Cunhal (em efígie), o João Miranda, o Anti-papa Gay, o Mulah Ateísta, a Madre Lésbica, a Lili Caneças, o pontífice Pacheco Pereira, o Grão-mestre, o grão-amestrado, o Mini-Mestre, o Mestre-de-Obras, o Patriarca Trolha, as Testemunhas de Jeová, o Rabi Oculto e a Esther Mitszchnickstichrvruumm, o Carlos Caifás Amorim, o Grão-bufarinheiro dos Holocaustos e Caixeiro-Viajante da Cabalah, o Vidente Delgado, o Abade Metálico, o telepadre Borga, Manuel Luís Gouxa, o profeta Carvalho Rodrigues, o presidente do ACP, a mulher do presidente do ACP, o professor Alexandrino, frei Louçã, o sumo-sacerdote Satanista, o microfuhrer skinhead, o rothweiller sagrado do microfuhrer skinhead, a secretária-geral Abortista, o rei dos Ciganos, a bruxa Agustina, a arquibruxa Maria Belo, a aprendiz de bruxa fernanda Coice-o, a Magda Patalógica, o chefe Silva, a múmia da diva Amália, o Coordenador-geral da Associação de Amizade Portugal-Lobotomia, e eu próprio, Bastonário Hermético da Casta Irmandade dos Anacoretas Empaladores?...
Realmente, ou há moralidade ou posam todos.
E, um raio me parta já aqui, se não dava uma nova e superlativa capa para o Sgt. Peper's Luso Hearts Club Band!...

PS: Se não cabem todos ao mesmo tempo, então estabeleça-se uma escala!

domingo, abril 02, 2006

The Great Texas Chainsaw Massacre ou Lenha com fartura



«É natural que seja muito difícil penetrar na chave da velha história de quarenta séculos de um povo como os Hebreus; não sei. Mas sei, sim, e muito bem, uma coisa: que no Mundo todo não há outro povo que tanto se lamente do seu destino, que tão constantemente, a cada passo e a cada palavra, se esteja queixando da sua degradação, das suas dores, do seu martírio, como o povo hebreu. Qualquer pessoa acreditaria que não são eles que dominam a Europa. Ainda que apenas o façam da Bolsa, é um facto que governam a política, os assuntos internos, a moral dos Estados. Poderá ter morrido Goldstein pela ideia eslava; mas há muito tempo que a questão estaria resolvida já a favor dos Eslavos se a ideia judaica não tivesse tanta força no mundo. Disposto estou a acreditar que é possível que lorde Beaconsfield haja esquecido a sua ascendência judaica-espanhola (com certeza que a não terá esquecido); mas que nos últimos anos conduziu a política "conservadora" britânica do ponto de vista judaico, isso está fora de questão.
Mas suponhamos que tudo quanto eu disse até aqui sobre os Hebreus é uma objecção sem importância...; eu próprio o concedo. Apesar de tudo, não posso crer sem repugnância nesse clamor dos Hebreus; não posso acreditar que os tenham humilhado e atormentado e açoitado tanto quanto dizem. Na minha opinião, o mujique russo e em geral o povo baixo russo têm de carregar aos ombros fardos mais pesados do que os Hebreus. Numa segunda carta, escreve-me o autor da primeira que transcrevi:
"Antes de mais é absolutamente necessário que nos concedam a nós (os Hebreus) todos os direitos civis (pense que até hoje se nos nega o principal direito: a livre eleição do lugar de residência, de onde resulta um nunca acabar de consequências terríveis para a grande massa dos hebreus), direitos civis iguais aos de que gozam todos os alienígenas na Rússia e depois disso já poderá pedir-se-nos que cumpramos com todos os deveres tanto com o Estado como para com o povo russo..."
Mas eu peço-lhe a si também, meu caro senhor, que tenha em conta que na segunda página dessa carta é o senhor mesmo quem escreve que lhe "inspira mais carinho e compaixão do que o Hebreu esse povo russo que tanto trabalha" (o que não é pouco na boca de um hebreu), não se esqueça o senhor de que na época em que o Hebreu não tinha direito a eleger livremente a sua residência, vinte e três milhões desse "povo russo que tanto trabalha" vivia e sofria em escravidão, o que, na minha opinião, era um pouco pior. E ter-se-iam apiedado alguma vez os Hebreus? Creio que não; no Oeste e Sul da Rússia poder-lhe-ão responder com toda a espécie de pormenores. Também por aquele tempo clamavam os Hebreus por direitos que o povo russo não tinha; punham o seu clamor no céu e chamavam-se mártires e diziam também que, quando lhe tivessem concedido plenitude de direitos, então poderiam pedir-lhes "o cumprimento de todos os deveres para com o Estado e o povo Russo". Mas veio o libertador e emancipou os camponeses russos e quem foi o primeiro a precipitar-se sobre eles como sobre uma vítima? Quem soube aproveitar-se tão bem das suas fraquezas e defeitos em proveito próprio?... Quem se deu pressa em envolvê-los nas suas eternas redes de oiro?... Quem se precipitou enquanto pôde, a suplantar os seus antigos senhores, com a diferença de que os proprietários fundiários de outrora, se era certo que exploravam e bastante o mujique, tinham, contudo, o cuidado de não arruinarem por completo os seus servos, como faz o Hebreu, ainda que fosse por interesse próprio, para não esgotar a sua capacidade de trabalho? Mas o Hebreu que se lhe importa de esgotar a força russa? Desde que obtenha o que pretende, o resto é o menos. Já sei que quando lerem isto os hebreus se porão a protestar, dizendo que não é verdade, que os calunio, que minto, que dou crédito a todas estas calúnias, porque não conheço os seus "quarenta séculos de história", a história desses anjos puros, que são incomparavelmente mais morais que todos os outros povos juntos da Terra, para nada dizermos do russo deificado por mim. Extraio isto da carta que cito mais acima. Pois muito bem; poderão ser mais morais que todos os outros povos juntos da Terra, para nada dizermos do Russo; mas eu acabo de ler no número de Março do Mensageiro Europeu que na América do Norte (nos Estados do Sul) os hebreus se lançaram sobre os recém-emancipados negros e agora os dominam de uma maneira muito diferente da dos antigos donos das plantações. Naturalmente que o fazem valendo-se da sua eterna "rede de oiro"... com uma arte excelente para se aproveitarem da ignorância e dos vícios do povo que tratam de espoliar. Ao ler isto pensei que há cinco anos atrás esta notícia me teria colhido de surpresa: "Agora já estão emancipados os negros dos donos dos engenhos; mas, como irão eles quedar-se imunes no futuro, se, em seguida, cairão sobre o tenro cordeirinho pascal os hebreus que no mundo tanto abundam?" Assim pensava eu há cinco anos, e garanto-lhe que de há cinco anos para cá me perguntei a mim próprio com frequência: "Porque será que na América do Norte não se fala dos judeus, que os jornais não dizem nada dos negros? E no entanto esses escravos são um verdadeiro tesouro para os hebreus. Como é que eles os irão respeitar?" Pois muito bem, eles aí estão. E vai para dez dias lia eu no Novo Tempo uma informação de Kovno, que é também muito característica:
"Os hebreus -dizia esse diário - arruinaram quase toda a população lituana com a aguardente, e, só graças aos padres católicos, com as suas admoestações e as penas do inferno e a formação de associações de temperança se conseguiu salvar essa pobre gente de desgraças maiores". O culto correspondente envergonha-se de que o seu povo continue a acreditar nos padres e nas penas do inferno e sem mais aquelas acrescenta que, além dos curas, se uniram também os capitalistas para fundarem bancos agrícolas "a fim de libertar o povo das garras do usurário hebreu", bem como mercados, onde "o pobre camponês que tanto trabalha" possa comprar as coisas necessárias por um preço módico e não pelo que o Hebreu lhes impõe. Limito-me a reproduzir o que li; mas de antemão sei o que me vão responder: "Tudo isso não demonstra nada e é apenas o resultado de os Hebreus serem pobres e estarem muito oprimidos; tudo isso mais não é que "luta pela existência" - coisa que só um leitor de curtas vistas deixará de ver -, e se os israelitas, em vez de serem tão pobres, fossem ricos, mostrar-se-iam tão humanos que todo o mundo se espantaria." Mas, em primeiro lugar, tanto esses negros como esses lituanos são ainda mais pobres do que os hebreus que os espremem até mais não poderem, e no entanto - leia-se a informação citada - abominam esse género de comércio a que é tão dado o Hebreu.
Aliás, não é nada difícil portar-se uma pessoa moral e humanamente quando está farta e quente; mas, quando intervier um poucachinho de "luta pela existência", não se aproximem do Hebreu!
(...)Mas os hebreus queixam-se sempre de ódio e perseguições. Ainda que eu não conheça a maneira de viver dos hebreus sei, em compensação, uma coisa, e disso quero dar testemunho diante de toda a gente: que o nosso camponês ingénuo não está animado de um ódio apriorístico, surdo, religioso, baseado nisso de que "Judas vendeu Cristo". Quando muito, poderão ouvir-se algumas vezes essas palavras na boca de crianças ou de bêbados; mas o nosso povo, repito-o, olha para o Hebreu sem ódio preconcebido.
Eu vivi com o povo num mesmo pavilhão e dormi nos seus próprios catres. Havia ali alguns hebreus e ninguém os desprezava, nem os repelia, nem os perseguia. Quando rezavam - e os Hebreus rezam com grande espavento e vestem-se para isso de forma especial - ninguém se admirava ou se sentia incomodado ou se ria, o que, afinal, podia acontecer, nada mais natural, penso eu, da parte dum povo tão "inculto" como o russo. Pelo contrário, ao verem rezar os Hebreus, diziam: "Rezam desta maneira porque assim o manda o seu credo", e com toda a calma, quase com assentimento, passavam de largo. Em compensação esses mesmos hebreus comportavam-se como estranhos para com esses mesmos russos, não queriam comer com eles e olhavam-nos quase de cima do ombro. E isto onde? Pois num presídio siberiano. Sobretudo mostravam sempre asco e repugnância pelo povo russo "indígena". O mesmo acontece nos quartéis e em toda a parte, por toda a Rússia. Averigue-se se o hebreu nos quartéis, enquanto hebreu, a propósito da sua fé ou dos seus costumes, é objecto de algum vexame.
Posso garantir que nos quartéis, como em todas as outras partes, o russo da classe baixa compreende de sobra que o Hebreu não quer comer com ele, que tem desprezo por ele e o evita quanto pode (os próprios Hebreus o reconhecem). E que sucede? Que em vez de se dar por ofendido de um tal comportamento, o russo do povo diz consigo, tranquila e discretamente: "procede assim, porque assim o manda a sua religião", quer dizer, não porque seja mau. E assim que se capacita dessa razão profunda logo o absolve de todo o seu coração. Pois bem: mais do que uma vez me tenho perguntado a mim próprio o que aconteceria se na Rússia houvesse três milhões de russos e oitenta milhões de hebreus, ao contrário do que actualmente acontece. Que fariam os últimos aos primeiros, como os tratariam? Conceder-lhes-iam sequer, aproximadamente, os mesmos direitos? Não os reconduziriam pura e simplesmente à escravidão? O que ainda seria pior: não lhes arrancariam a pele? Não os exterminariam por completo, nãos os destruiriam pela raiz, como, segundo a sua velha história, o fizeram com outros povos? Não, garanto-lhe que o povo russo não tem nenhum ódio preconcebido contra os Hebreus. (...)
Oh! Evidentemente que em todos os tempos fez o homem um ídolo do materialismo e sempre tendeu a ver e a cifrar a liberdade na sua segurança própria mediante o "ouro com todas as suas forças invocado e por todos os meios defendido". Mas nunca se viram esses sentimentos elevados tão franca e dogmaticamente à categoria de princípio supremo como no nosso século XIX. "Cada um para si e só para si, e toda a comunidade dos homens só em meu proveito"; eis aqui o princípio moral da maioria dos homens de hoje em dia e não já os piores, mas dos homens que trabalham e não matam nem roubam. E a falta de piedade para com as massas inferiores, a ruína da fraternidade, a exploração do pobre pelo rico -oh!, isto, naturalmente já existiu antes e sempre! -, mas não se tinha convertido numa verdade e numa filosofia, pelo contrário, o cristianismo deu-lhe constantemente batalha. Enquanto agora, pelo contrário, está erigido em virtude. Por isso pode supor-se que não deixou de influir neste estado de coisas o facto de os Hebreus dominarem ali (na Europa) as Bolsas e manejarem os capitais a seu talento, e concederem créditos, e, repito-o, serem os amos de toda a política internacional.
E o resultado de tudo isso é que o seu reino se aproxima, o seu reino completo! Inicia-se o triunfo daquelas ideias ante as quais deverão inclinar-se os sentimentos de amor à humanidade, de ânsia de verdade, os sentimentos cristãos e os nacionais e até o orgulho étnico dos povos europeus. Triunfa o materialismo, a cega, voraz, cobiça do bem-estar material para a própria pessoa e o empenho de entesourar dinheiro com o mesmo fim - tudo isso reconhecido como finalidade suprema, como razoável, como liberdade, em lugar da ideia cristã de salvação, apenas pela união rigidamente ética e fraterna dos homens. Talvez me respondam a isto com um sorriso, que isso se não deve de maneira nenhuma aos Hebreus. Claro que não apenas aos Hebreus; mas, tendo em conta que os Hebreus da Europa, a partir precisamente do dia em que esses novos princípios obtiveram ali a vitória, preponderam, inclusivamente, na massa e que as suas normas foram erigidas em princípio moral, pode muito bem afirmar-se que o judaísmo teve em tudo isso uma grande influência. Os meus contraditores vêm sempre com a mesma cantiga de que os hebreus são pobres e isso em toda a parte, ainda que de forma especial na Rússia; que só a rama dessa árvore popular é rica, os banqueiros e os Reis da Bolsa, enquanto quase as nove décimas partes dos outros são literalmente uns mendigos, que se guerreiam por um pedaço de pão e por um copeque lutam até mais não poder. Sim, tudo isso está certo; mas que quer dizer no fim de contas? Não quererá dizer precisamente que até no trabalho dos hebreus, até na sua exploradora actuação, há seja o que for de injusto, de anormal e antinatural que em si mesmo traz o seu castigo? O Hebreu procura o seu lucro em negócios de agiotagem... e comercia com o trabalho alheio. Mas nada disto altera um ápice o que fica dito; em compensação, os hebreus ricos dominam cada vez mais a humanidade e esforçam-se com zelo crescente por imprimir ao mundo uma face hebraica e comunicar-lhe a sua essência. Quando se traz à colação esta qualidade dos Hebreus, sempre acabam por dizer que também entre eles há pessoas boas. Santo Deus! Mas trata-se aqui disso? Eu não me refiro a homens bons e maus. E não há também entre os Hebreus homens bons? Teria sido um mau homem o falecido James Rothschild! Eu falo aqui em geral do judaísmo e da ideia judaica, que invade o mundo todo em lugar do "fracassado" cristianismo.»

- Dostoievski, "Diário de um escritor"

Dostoievski, aproveito para informar, viveu entre 1821, data em que nasceu, e 1881, data em que morreu. Por conseguinte, vai ser um pouco difícil catalogá-lo como nazi. É que, conforme tenho aprendido por estas bandas, entre eruditos na matéria, o termo anti-semita está implícito na definição de "nazi". Ora, como toda e qualquer crítica a actividades de pessoas de etnia judaica, segundo as mesmas luminárias, traduz um acintoso e repugnante anti-semitismo...
Em todo o caso, aceitem uma sugestão benemérita: que tal "proto-nazi"?...
Realmente, torna-se problemático o catálogo destes factos e testemunhos pré-históricos, quer dizer, pré-holocáusticos.

sexta-feira, março 31, 2006

Super-MacGyver ou Mais Lenha... (Adenda ao postal anterior)



Neto e bisneto de ferreiro, está-me na massa do sangue o gosto de malhar enquanto está quente. Por conseguinte...

Quem é David Wurmser?

«David Wurmser, Dick Cheney's Middle East adviser, is a neocon ideologue who has participated in several key reports outlining the neoconservative agenda in the Middle East. In 1996 he helped write a report for Israel's Likud party that urged Israel to break off then-ongoing peace initiatives. The report, which was titled "A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm" and was published by the Institute for Advanced Strategic and Political Studies (an Israeli- and DC-based think tank) advised then-Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu "to work closely with Turkey and Jordan to contain, destabilize, and roll-back" regional threats, help overthrow Saddam Hussein, and strike "Syrian military targets in Lebanon" and possibly in Syria proper. Coauthors of the report included Richard Perle, Meyrav Wurmser, and Douglas Feith.»

O tal "Clean Break:A New Strategy for Securing the Realm", não perdem nada em lê-lo integralmente. Basta seguir o link.

Também a propósito de Lobbies, convém não esquecer um certo "Lobby Hollywoodesco".
Quem, entre outros, o enunciou cruamente foi Marlon Brando, numa entrevista a Larry King, em Abril de 1996:
«"Hollywood is run by Jews; it is owned by Jews--and they should have a greater sensitivity about the issue of people who are suffering. Because...we have seen...the greaseball, we've seen the Chink, we've seen the slit-eyed dangerous Jap, we have seen the wily Filipino, we've seen everything but we never saw the kike. Because they knew perfectly well, that that is where you draw the [line]."»

Uma análise exaustiva sobre o assunto, por Ben Stein, pode ser lida aqui.
Logo a abrir pode ler-se:

Já a "Moment Magazine", na sua edição de Agosto de 1996 (e numa espécie de resposta às afirmações de Marlon Brando) exibe na primeira página: "Jews run Hollywood - So What?"
O autor do artigo, Michael Medved, judeu, reconhece: ""Não faz senso algum tentar negar a realidade do poder judaico e proeminência na cultura popular. Qualquer lista dos mais influentes executivos de produção em qualquer um dos maiores estúdios de cinema irá produzir uma grande maioria de reconhecíveis nomes judaicos."
Outras perspectivas sobre o assunto, podem ser lidas aqui, aqui e aqui.

Entretanto, a especial pedido do Timshel (na vida real, WILLIAM DONAHUE, presidente da liga católica), aqui fica a sua opinião sobre hollywood:
«Who really cares what Hollywood thinks? All these hacks come out there. Hollywood is controlled by secular Jews who hate Christianity in general and Catholicism in particular. It‘s not a secret, OK? And I‘m not afraid to say it. That‘s why they hate this movie. It‘s about Jesus Christ, and it‘s about truth. It‘s about the messiah.
Hollywood likes anal sex. They like to see the public square without nativity scenes. I like families. I like children. They like abortions. I believe in traditional values and restraint. They believe in libertinism. We have nothing in common. But you know what? The culture war has been ongoing for a long time. Their side has lost.
You have got secular Jews. You have got embittered ex-Catholics, including a lot of ex-Catholic priests who hate the Catholic Church, wacko Protestants in the same group, and these people are in the margins. Frankly, Michael Moore represents a cult movie. Mel Gibson represents the mainstream of America.»

Nota: O Timshel não gosta de cinema. Por conseguinte, é um cripto-nazi (um anti-semita encoberto). Daí, igualmente, o seu fascínio pelo JCN.
Agora que ando a ter lições nesta lógica-canivete-suiço, estou em vias de me tornar Super-MacGyver.

The Lobby Strikes Back

Em democracia, um governo é eleito no pressuposto de representar os interesses da maioria do povo que o elegeu, em matérias de política interna, e os interesses do país que representa, em assuntos de política externa.
As acções dos lobbies, ou grupos de pressão - que podem ser nacionais, internacionais, autárquicos, coorporativos, religiosos, desportivos, etc,etc -, processam-se, no mínimo, a um nível paralelo, numa espécie de mercado negro das influências. A obscuridade, a revelia e o alcance em que todo o processo decorre deveria, no mínimo, a nós, moléculas dum povo supostamente soberano, preocupar-nos, sob pena de acabarmos enclausurados numa sociedade putativamente aberta, mas, na realidade, telecomandada a partir de núcleos secretos e fechados a qualquer escrutínio. Por outras palavras: uma democracia meramente superficial, decorativa, aparente, a mascarar uma criptocracia profunda. E efectiva.
Todos sabemos de alguns lobbies famosos, quer entre nós, quer lá fora, entre os outros. Para consumo interno, a Maçonaria, a Opus Dei, o lobby-gay, o "grupo de Macau", o Sport Lisboa e Benfica, a Liga dos empreiteiros-ao-assalto-da-paisagem, etc, lá vão facilitando acessos e ascensões, sinecuras e mordomias aos respectivos acólitos e associados. E lá vão distorcendo, com efeitos bem notórios (que chegam a ser desavergonhados), as escolhas e expectativas do elitorado. Podemos criticá-los a todos, com contundência à descrição, excepto o lobby gay: se o ousamos é porque somos homofóbicos e sabe-se lá que outras monstruosidades e aberrações soturnas.
Lá fora, nos Estados Unidos, por exemplo, a fauna é bem mais vasta e complexa: o filão justifica-o. Cito alguns exemplos mais notórios: a Mafia, as Petrolíferas, a Indústria de Armamento, as Farmacêuticas, os Think tanks neoconas, os talibãs evangélicos, os sauditas, os ingleses, os cartéis de vários tráficos que pagam eleições e lavam dinheiro em Wall Street, os judeus, etc.
Do mesmo modo, podemos criticá-los a todos, com escândalo e indignação aos molhos, excepto os judeus. Desaba-nos logo o labéu em cima, o pior de todos: anti-semita e, necessariamente, nazi, neonazi, criptonazi, turbonazi, meganazi, islamonazi e por aí adiante.
A argumentação dos patrulheiros de guarda ao tabu assenta em duas linhas predominantes: 1. ou não há lobby nenhum judeu, é tudo teoria da conspiração; 2. Ou, se há, é absolutamente inofensivo, imaculado e angélico, o pobre coitado.
Bem, para se constatar que existe pelo menos um, basta visitar a página da AIPAC (The American Israel Public Affairs Committee) - onde, entre outras preciosidades e apelos enérgicos, em subtítulo, pode ler-se: "America's Pro-Israel Lobby". Outra página interessante a visitar talvez seja o JINSA (Jewish Institute for National Security Affairs). Depois, se não for pedir muito ou constituir tremenda ofensa, basta investigar as relações privilegiadas (para não lhe chamar promiscuidades de vária ordem) destas instituições com os think-tanks neoconas e destes com a Administração Americana, para se ficar com uma panorâmica deveras sugestiva do idílio melífluo que para ali vai.
Uma mera revista pelas notícias dos últimos tempos também nos fornece alguns dados significativos:

Ainda sobre a putativa "inocuidade" do Lobby Santo, um simples relance sobre a política externa americana dos últimos anos, mais as respectivas obsessões com Iraque, Irão e Síria, adicionado à política descarada de dois pesos e duas medidas num conflito (o da Palestina) em que era suposto servir de árbitro (ou polícia), suscitará, no mínimo, sérias dúvidas. A não ser àqueles que partem de preconceitos antecipados e de prévia má fé. Sendo judeus, compreende-se e tolera-se: afinal, estão a pleitear pelos interesses da sua "nação". Não o sendo, só se justifica por um voluntarismo recenseável em três géneros hipotéticos: mercenarismo, ingenuidade ou imbecilidade (passe, num certo sentido, a redundância entre estes dois últimos).

Em todo o caso, o que é sobremaneira bizarro em todo a complexa lógica apologética dos rino-magníficos, cuja aberração se torna cada vez mais evidente, é porque carga de água há-de ter o Lobby Judeu privilégio de excepção. A justificação mais corriqueira flagela-nos com o seguinte: porque foram massacrados pelos nazis, alcançaram uma santidade indubitável e usufruem de prerrogativas únicas. Ora, outros também foram chacinados pelos nazis, ainda em maior quantidade, e, no entanto, ninguém parece disposto a conceder-lhes idênticas benesses. A Humanidade, por todos os continentes e séculos, tem-se entretido, alegremente, com toda a casta de carnificinas e morticínios recorrentes, cíclicos, ignóbeis, e nenhum conjunto de vítimas até à data conseguiu tão providencial estatuto. Regra geral, varre-se para debaixo do tapete. Porquê, então, este carinho especial, este remorso inesgotável, este carpideirismo permanente e descabelado para com o povo eleito? Os mortos deles são mais valiosos que os dos outros?... Grande mistério.

É bem feita. E já vai com sorte. Quem o manda meter o nariz onde não era chamado?
Em suma: O Big-Nose Empire strikes back. A Cabala Anti-semita Mundial (na qual, pelos vistos, eu também milito), que se cuide.
Fiquem atentos aos Protocolos dos Nabos de Arião, que lá vem tudo bem explicadinho.

quinta-feira, março 30, 2006

Explicação para o boneco



"Quando espreitas no abismo, o abismo também espreita para dentro de ti.» - Este sempre foi um dos aforismos nietzschieanos que mais me fascinaram. Até há bem pouco tempo eu contemplava o enigma, como Édipo diante da Esfinge, e estasiava-me, perplexo. Até que uma noite destas, por concessão da musa Insónia, a mais generosa de todas as musas, percebi. Acho que percebi... Eis a tradução: "Tu és o abismo."
"Conhece-te a ti mesmo", prescrevia o Oráculo de Delfos. Quer dizer: "Abisma-te."
"O espanto é o pai da filosofia", reconhecia Aristóteles, na sua "Metafísica". Haverá maior espanto que debruçados no abismo, ou seja, diante de nós próprios?... Tragédia mais terrífica e digna de piedade?...
Tudo está ligado. Tudo eternamente passa e retorna. Tudo. E nós em tudo. Quem tiver olhos que se abisme.
Entendeste, boneco?

quarta-feira, março 29, 2006

Conversas com as paredes

Decorria o ano de 1755. Como é sabido, e há provas, as forças da Natureza acabavam de terraplenar Lisboa. Eu não vi, mas dizem que foi um grande espectáculo. Não sei se sensibilizado por isso, Voltaire, um tipo particularmente cínico, escrevia a Jean J. Rousseau, um indivíduo distintamente simplicio, o seguinte:
-"Nunca nos esforçamos tanto como quando nos queremos tornar bestas. Ficamos com vontade de andar nas quatro patas quando lemos a sua obra."
Nem Voltaire, nem Rousseau foram filósofos que mereçam grandes créditos ou encómios. O que não invalida que não tenham escrito coisas admiráveis. Como literatura, bem entendido. Isto não é uma depreciação: Se pensarmos que grande parte da Filosofia nem sequer boa literatura é, um conjunto de disparates estar bem escrito já é motivo para regozijo e foguetório.
Rousseau escreveu uma quantidade monumental de asneiras, sem dúvida, mas -ao contrário da maior parte dos badamecos de vasta trunfa que hoje -em coro pastoral - o menoscabam, escreveu-as com talento e fino recorte literário. Expôs-nos imensas burrices, mas sem ser aos zurros. Nos antípodas, ainda e sempre, destes jovens hodiernos, que nos debitam conhecimentos invariavelmente geniais, mas num tom, e sobretudo num dialecto, que nos dificulta o entendimento e a eles a clareza, pois em tudo revelam o asnoguês mais arreigado e tonitruante.
Não obstante, extravio-me. É de Voltaire e da sua resposta a Rousseau, em epígrafe, que queria falar.
Pois bem, estou absolutamente em desacordo. Acho mesmo que, para armar em engraçado, o Voltaire mandou o rigor e - embrulhado nele - a verdade às urtigas. É claro que os nossos jovens de capilaridade pujante levantam-se e riem. Acham muita graça e, à semelhança das focas do circo, desatam a bater palmas. Mas quem não tenha ficado refém desse idade da imbecilidade que é a adolescência, nem se deixe embarcar nesta enxurrada modernaça que porfia de transformar todos em adolescentes, não.
De facto, o querer tornar-se besta - na generalidade da raça humana - não requer qualquer esforço. Eu diria mesmo que é um instinto natural e atávico. Uma tendência semi-compulsiva. Tendo a natureza na parcimónia uma das suas leis fundamentais, tem também no homem um dos seus alunos mais aplicados. Só que, neste, a parcimónia degenera em preguiça, lei do menor esforço, ser com a manada, ir na correnteza, convergir para a sargeta. Por isso, não admira que não requeira qualquer esforço. Esforço, e um esforço cada vez mais titânico, requer a essa tradicional besta, que as religiões, políticas e até grande parte das filosofias não se cansam de celebrar enquanto tal, o tornar-se humana. O levantar as patas anteriores do chão, os olhos da lama e apontar a coluna ao céu e os olhos a um horizonte mais elevado.
Gosto muito de falar com as paredes.

terça-feira, março 28, 2006

Questões simplórias para debate



Se não há problema nenhum com os chamados "lobbies", se são instituições perfeitamente legítimas e naturais de influir obscuramente nas decisões dos Executivos, porque diabo gastam os países tanto dinheiro com campanhas eleitorais e sufrágios públicos?...

Numa suposta democracia, os lobbistas são eleitos e legitimados por quem?

Numa tão apregoada democracia liberal, quem é mais soberano: o povo ou os lobbies?

Definição de Deputado (ou Congressista, ou Senador) (segundo o Dicionário Shelltox Concise do Dragão): s.m, dignitário que o povo elege e um lobby dirige. É incorrecto, isto?

Anti-semita por correspondência

De qualquer modo, cara Helena, a última coisa que eu desejaria é que a estimada senhora passasse vergonhas ou fizesse figuras tristes por minha causa. Diabos me levem, se hei-de permitir que a tomem por alguma paranóica descabelada ou harpia de plantão à redoma da Fé.
Ainda para mais quando todos sabemos que foi por via daquele tremendo impropério meu, - de chamar “pencudos” aos semideuses que fazem lobby lá nas américas, um raio me parta!-, que a Helena, alma sensível e facilmente sugestionável, mergulhou nesse lastimável estado de choque, deveras consumptivo e calamitoso, pobrezinha!... Aquilo prostrou-a. Mergulhou-a num transe entre balhelhas e esperneabundo. E o caso não era para menos, uma obscenidade blasfema de tal ordem é de arrasar com os nervos e transtornar o juízo a qualquer um. Mesmo um estivador das docas experimentaria, no mínimo, vertigens; fará agora uma intelectual superior da sua categoria, um baluarte vivo da moral e dos costumes modernos! Dos delírios subsequentes, das alucinações e pesadelos que a atormentaram nem quero falar - a consciência pesada, um sentimento avassalador de culpa não mo permite.
O que lhe posso garantir, à guisa de indemnização, se bem que nenhuma reparação será bastante, é que, no que depender de mim, não passará por tolinha ou desaparafusada. Entrego-me já a estudos e catequeses rápidas nessas manias em que me fantasia, de modo a poder corresponder, plena e condignamente, às suas expectativas, tanto quanto às suas profecias. Hão-de felicitá-la e premiá-la pela sua aruspiciência, vai ver. Clamarão embevecidos: “Ah, a Helena, a nova pitonisa de Delfos?...Que vidente, que vidente!...”
Assim, com toda a abnegação e temeridade de que sou capaz, encomendei já os “Protocolos dos Sábios de Sião” a um alfarrabista esotérico meu conhecido; o “Mein Kampf”, dum tal Adolfo Hitler, e o “Manual dos Inquisidores” já os tenho ali prontinhos para, em jeito de sobremesa, com eles calafetar o espírito; e, neste instante, com uma volúpia que nunca suspeitei, entrego-me avidamente ao repasto da Bíblia Sagrada. Faço questão de me industriar, esmerada e proficientemente, nestes mistérios. Nestas coisas, de resto, sou um metódico, um meticuloso. Diante dum edifício novo, estimo sempre de cognoscê-lo a partir dos alicerces. Agora mesmo, refastelo-me nesta passagem deslumbrante:
«Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão dizendo: “Estou inocente deste sangue. Isso é convosco”. E todo o povo respondeu: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” Então soltou-lhes Barrabás. Quanto a Jesus, depois de o mandar flagelar, entregou-o para ser crucificado.»
Isto sim, isto é estimulante, didáctico, educativo. Já sinto o ódio a essa gente a impregnar-me os ossos, a tetanizar-me os músculos, a espadanar-se, em perfeito crol, pelas veias. A custo, larguei o Antigo Testamento, sobretudo o Pentateuco. Era capaz de acampar ali pela eternidade. Que ginásio para a alma! O próprio Yahvé, o Deus deles, passa o tempo a urdir planos para lhes dar cabo do canastro. Um mimo! Uma delícia!... Se quem os criou os detesta e destrata daquela maneira, como não havemos nós, simples mortais, de armar pogrooms e churrascoss?!...
E nada tolerantes, ao contrário do que apregoam e exigem aos outros, os tais. Repare só neste salmo (o 137), a letra deste fado judeu intitulado “junto aos rios da Babilónia”:
«Cidade da babilónia devastadora
Feliz de quem te retribuir
Com o mesmo mal que nos fizeste!
Feliz de quem agarrar nas tuas crianças
E a esmagar contra as rochas!»
Não rima, mas é duma grande força evocativa, não acha?
Portanto, pode Vossa Senhoria ficar descansada: a este ritmo, em menos de uma semana, estou um racista, um anti-semita e, espero bem, um nazi diplomado. Não há-de ser por minha causa, que não há-de fazer um figuraço junto dos seus amigos.
Até porque isto não parece nada difícil. Estes cursos por correspondência são canja.
Mais fácil mesmo só os de democratas talibãs e virtuosos exibicionistas on-line. Isto, segundo consta, porque, ao contrário da justiça ou da verdade, a hipocrisia há-de estar sempre na moda.

segunda-feira, março 27, 2006

Idiossincrasias

«Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja - e eu não creio que a disciplina seja boa - por força que há-de ser prejudicial.
Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.
Parecemo-nos muito com os Alemães. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco. Como os Alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade - acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os Alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou.
Diferimos dos Alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência!
Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma "revolução" foi para implantar uma cousa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento.
Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira cousa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.»

- Fernando Pessoa, trecho de um artigo - "O Jornal", 8 de Abril de 1915

domingo, março 26, 2006

Uma questão de humanidade

Um pouco tardiamente, espero que não demasiado, apercebo-me deste apelo do Altino.
Duas palavras: Divulguem e ajudem!...
Nós, humanos, não somos grandes espingardas, mas, bem vistas as coisas, só nos temos uns aos outros.

PS: Vá lá, não custa assim tanto. Se até um pulha como eu consegue, imaginem os prodígios que umas excelentes pessoas (como todos vós) serão capazes.

PPS: Mas não me agradeças, ó lampião desgraçado! Ai de ti. Gosto pouco de publicidade. Além de que não tem nada que agradecer.

Não compliquem



Não elaborem muito. O Bloco de Esquerda não é uma maneira de pensar: é uma maneira de vestir.

sábado, março 25, 2006

À beira do clister



«William Kristol of The Weekly Standard now demands the firing of Donald Rumsfeld. William F. Buckley, whose National Review branded the antiwar Right "unpatriotic conservatives" who "hate" America, now calls upon Bush for an "acknowledgement of defeat."»

«Written by Weekly Standard Executive Editor Fred Barnes, the piece urges Bush to begin the "rejuvenation of his presidency by shocking the media and political community with a sweeping overhaul of his administration."
The purge Barnes recommends would have caused Stalin to recoil. »


Os Neoconas em debandada?... Ou nada que uma valente purga, em tributo aos bons velhos tempos, não resolva?...
Bem vistas as coisas, penso que a mensagem é mais ou menos esta: "Senhor Presidente, já está para lá de meras reformas ou cosméticas: o que a sua Administração precisa é de um bom clister!..."
Já se pensarmos nos idólatras dela por esse mundo fora, sobretudo em Portugal, o aparelho de clisteres será exíguo. Para dar conta do recado, com um mínimo de eficácia, só mesmo uma cisterna chupadora de fossas sépticas. Das grandes.

sexta-feira, março 24, 2006

O Lobby dos Proeminentes Nasais - Chapter 2

Acerca do Lobby dos Proeminentes Nasais, instalou-se mais abaixo uma discussão diversificada. A Helena falou em ruído racista, que eu, diga-se, em abono da minha proverbial estupidez, fiquei sem perceber muito bem se se referia ao tal documento produzido pelos académicos norte-americanos, ou ao meu singelo (e, a certa altura, sussurrado) postal. Outros falaram de outras coisas, o Nelson debulhou-se na retórica filopinóquia do costume, mas o que me ficou aqui a pairar na mente foi o tal ruído racista. Em calhando, se por aqui passar, agradecia muito à Helena que me iluminasse um pouco mais sobre tão tenebroso conceito.

Entretanto, para juntar gasolina ao lume e petróleo à fogueira, fiquem-se com este suculento extracto dum artigo cuja leitura integral, desde já, vivamente recomendo. No meu modesto entender, uma peça de análise fascinante. Do melhor que tenho lido por aí.
Aqui deixo o aperitivo:


Agora, digam lá se não é um belo pitéu!... Aposto que até o Buiça está banzado. Capaz mesmo de, ofuscado por súbito clarão, cair da montada abaixo e abraçar o apostolado. A Estrada para Damasco irrompe, milagrosa, onde menos se espera. Fariseu um minuto antes, santo peregrino o resto da vida depois.

Outra forma de colocar a questão anterior


A China vai ser o bombo da festa?...

quinta-feira, março 23, 2006

Uma breve questão de geopolítica



A China vai ser a Alemanha do século XXI?...

Vão lendo isto, depois isto, mais isto, e vão pensando sobre o assunto.

Fiquem atentos à retórica, cada vez mais estridente e lastimosa, sobre os "direitos humanos" para lá da Grande Muralha. (Estilo coisas destas...)
De caminho, registem no caderninho: O Irão é uma das principais fontes energéticas da China. Escrevam vinte vezes para não esquecer.


À semelhança da globalização, a industrialização frenética e maquinejante do século passado também prometia o melhor dos mundos. Até que a Alemanha começou a dar muito nas vistas... Tudo é excelente enquanto corre de feição à anglo-seita. Releva, essa peculiaridade, duma lei ancestral cuja origem se perde na noite dos tempos: os deuses são, por natureza, invejosos. Os semideuses também. Minto: os semideuses são-no ainda mais.

O Cristo de Grünewald



«Tinha sido na Alemanha, à frente de uma crucificação de Mathaeus Grünewald.
E teve um arrepio ma sua poltrona, e fechou os olhos quase com dor. Agora, que evocava o quadro, voltava a vê-lo com uma extraordinária lucidez à sua frente, e enquato o Cristo ali se erguia no seu quarto, formidável na cruz de tronco atravessada por um ramo de árvore mal descascado a fazer de braço, e se curvava sob o peso do corpo como um arco, ele voltava mentalmente ao grito de admiração que tinha dado ao entrar na pequena sala do museu de Cassel.
Esse ramo parecia prestes a reerguer-se e a atirar condoidamente a pobre carne para longe deste terreiro de ultrages e crimes, a pobre carne que os enormes pregos, trespassando os pés, mantinham presa ao solo.
Deslocados, quase arrancados dos ombros, os braços do Cristo pareciam garrotar-se a todo o comprimento pelas correias enroladas dos músculos. A axila fracturada estalava; as mãos completamente abertas brandiam dedos bravios mas que assim mesmo benziam com um gesto confuso de preces e recriminações; os peitorais tremiam, untados por suores; a marca da caixa das costelas raiava o torso com círculos de aduela; as carnes inchavam, salitradas e pisadas, com salpicos de mordedelas de pulga, como que mosqueadas pelas picadelas de agulha da ponta das vergastas que, por terem sido partidas debaixo da pele, ainda a lardeavam aqui e além com as suas lascas.
Tinha chegado a hora das sanies; a chaga fluvial do flanco escorria mais espessa, inundava a anca com um sangue parecido com o sumo escuro das amoras; serosidades rosadas, leites pouco abundantes, águas que lembravam pardos vinhos de Moselle corriam do peito, encharcavam o ventre que tina a bandeira enfolhada de um pano a ondular por baixo; depois, os joelhos undos à força faziam as rótulas chocar-se, e as pernas torcidas encurvavam-se até aos pés que se alongavam e sobrepunham, cresciam em plena putrefacção, esverdeavam em jorros de sangue. Estes pés esponjosos e cogulados eram horríveis; a sua carne dava rebentos, subia à cabeça do prego, e os dedos crispados contradiziam o gesto implorativo das mãos, amaldiçoavam, quase arranhavam com o chifre azul das unhas o ocre do chão carregado de ferro, parecido com as terras púrpureas da Turíngia.
Por cima deste cadáver em erupção aparecia a cabeça tumultuosa e enorme. Cercada por uma corroa de espinhos em desordem pendia, muito fatigada, mal entreabrindo um olho pálido onde um olhar de dor e assombro ainda estremecia; o rosto era montanhoso, a testa desmantelada, a face estava exangue; todas as feições desfiguradas choravam enquanto a boca desselada ria, com o maxilar contraído por espasmos tetânicos, atrozes.
O suplício tinha sido horrível, a agonia aterrorizava a jovialidade dos carrascos em fuga.
Agora, no céu de um azul nocturno a cruz parecia achatar-se, muito baixa, quase ao rés do solo, velada por duas figuras que se mantinham de cada lado do Cristo: uma delas a Virgem com capuz de um rosado de sangue seroso, que caía em ondas planas sobre um vestido azul celeste de longas pregas, a Virgem rígida e pálida, inchada de lágrimas e que soluçava, com o olhar fixo, cravando unhas nos dedos das mãos; a outra São João, uma espécie de vagabundo, de campónio bronzeado da Suábia, alto de estatura e com a barba frisada em pequenos caracóis, vestido com tecidos de panos largos e como talhados em em casca de árvore, um trajo escarlate, capa de um amarelo-camelo cujo forro, dobrado junto às mangas, se transformava no verde febril dos limões por amadurecer. Esgotado pelas lágrimas mas assim mesmo de pé porque mais resistente do que Maria quebrada e rejeitada, juntava com fervor as mãos, alteava-se virado para o cadáver que contemplava com olhos vermelhos de fumo, e sufocava e gritava em silêncio no tumulto da sua garganta surda.
Ah! perante este Calvário esborratado de sangue e enturvado de lágrimas, ficávamos longe dos Gólgotas bondosos que a Igreja adoptava desde o Renascimento! Este Cristo com tétano não era o Cristo dos Ricos, o Adónis da Galileia, o galã de bomaspecto, o rapaz bonito com madeixas ruivas e barba dividida, com feições cavalinas e insulsas que desde há quatrocentos anos os fiéis adoradoram. Era o Cristo de São Justino, de São Basílio, de São Cirilo, de Tertuliano, o Cristo dos primeiros séculos da Igreja, o Cristo rasteiro, feio porque tinha assumido toda a soma dos pecados, e por humildade a vestia nas suas formas mais abjectas.
Era o Cristo dos Pobres, O que se identificava com os mais miseráveis que vinha redimir, os isentos de sorte e os mendigos, todos os que têm a cobardia do homem acirrada sobre a sua fealdade ou a sua indigência; e também era o mais humano dos Cristos, um Cristo de carne triste e fraca, abandonado pelo Pai que só tinha intervindo quando nenhuma nova dor era possível, o Cristo só assistido por aquela Mãe que ele provavelmente chamava com gritos de criança, como todos os que sofrem a tortura, pela sua Mãe agora impotente e inútil.
(...) nunca um pintor abarcara assim o ossário divino, e tão brutalmente molhara o pincel nas placas dos humores e nos cadinhos sanguinolentos das feridas. Era excessivo e era terrível. Grünewald era o mais arrebatado dos realistas; mas quando olhávamos para este Redentor de vadiagens, este Deus de morgue, era outra coisa diferente. Da cabeça exulcerada filtravam-se clarões; uma expressão sobre-humana iluminava a efervescência das carnes, a eclampsia das feições. A carcaça de asas abertas era de um Deus, e sem auréola, sem nimbo. Com o adorno banal daquela coroa eriçada, semeada de grãos vermelhos pelas pontas de sangue, Jesus surgia na sua superessência celeste, entre a Virgem siderada, ébria de prantos, e o São João de olhos calcinados e já incapazes de fundir lágrimas.»

- J.-K. Huysmans, "Là-Bas" ("Além", na trad. portuguesa de Aníbal fernandes)

Mais palavras para quê? Isto, meus amigos, é raro: chama-se literatura. Visita-nos muito esporadicamente.

Este postal é especialmente dedicado à minha apóstola Zazie.

terça-feira, março 21, 2006

Em tese nunca fede


Então, para comemorar os três anos de guerra no Iraque, com uma dedicatória especial a todos os think-tanks a soldo cá do burgo, mais respectivos patsies e wannabes, aqui fica esta breve e singela notícia, deveras sugestiva:

«A BRITISH SAS soldier has refused to fight in Iraq and has left the army over the "illegal" tactics of US troops and the policies of coalition forces.
After three months in Baghdad, Ben Griffin told his commander that he was no longer prepared to fight alongside American forces.
He said he had witnessed "dozens of illegal acts" by US troops, claiming they viewed all Iraqis as "untermenschen" - the Nazi term for races regarded as sub-human.»

É preciso estômago para o açougue. Há uma diferença abissal entre um soldado e um carniceiro. Tanto no campo de batalha dos exércitos, quanto no das ideias. Pormenor nada despiciendo, mas quase impossível de explicar num subúrbio como o nosso, onde pululam e vicejam, em regime de engorda e toinopólio, seitas de magarefes intelectuais. Podem parecer grandes pensadores, peregrinos inefáveis, às cabeleireiras, sopeiros e contabilistas que os idolatram, os JPPês, Helenas Matos, Ratos e seus supervisores atlânticos, mas, de facto, sob o verniz da fábula, não passam de ajudantes de talho. Daqueles sebosos e anafados que carregam carcaças às costas. Sempre prontos para acudir com gáudio alarve às piadas obscenas do patrão.
E a esquerda tartufa, ai jesus, não me toques que me desafinas, com a trunfa oxigenada, um perfume que tresanda e beiças besuntadas a vermelho?... Bem, essa, velha puta de boulevard, faz bicha à entrada do estabelecimento. E obsta, com voz coquete, ao boçal talhante: "Ai, senhor Leôncio, que só me está a dar gordura!...Olhe o meu colesterol...e a linha da minha filha que, se deus quiser, há-de ser modelo!..." De virtudes, digo eu.

As galinhas loucas de novo



Uma questão para o nosso especialista residente -o sempre inexorável Lowlander-, dirimir e autopsiar:

«According to University of Ottawa flu virologist Earl Brown, lethal bird flu is entirely man-made, first evolving in commercially produced poultry in Italy in 1978. The highly pathogenic H5N1 is descended from a strain that first appeared in Scotland in 1959.»

Mais uma frankenstoinice? Será possível?... Aguardemos o veredicto.