segunda-feira, março 06, 2006

Blogoscopia com Todos

Até aqui, dizia-se (e eu confirmo), sempre que Pacheco Pereira espirrava, a blogosfera constipava-se. Pois bem, louvemos ao Alto, parece que, finalmente, surgiu uma alternativa - ou reforço na dose, para os menos optimistas. É isso mesmo que estão a pensar: Agora, de cada vez que Vasco Pulido Valente, numa das suas inexoráveis e frenéticas patrulhas púbicas, descobre um chato (Phtirus pubis), a blogosfera coça-se.
A moral desta pequena fábula parece evidente: mesmo a elite dos papagaios precisa de um mote. Ou duma audiência, vai dar ao mesmo.
Isto, acrescido a um fenómeno muito simples e sobejamente diagnosticado: não é o país que é pequeno; as inteligências é que são minúsculas. Já que pelas colunas vertebrais não adianta perguntar: são desprezíveis. Em termos de atrito, entenda-se.

United States of Amnesia



Não sendo escritor com cujas obras eu alguma vez tenha perdido o meu tempo, Gore Vidal lançou, todavia, um novo livro. É o título que eu acho uma delícia. Ora oiçam:
"Imperial America: The United States of Amnesia."

"United States of Amnesia"... Se o resto do livro estiver à altura do título, é desta que o homem ganha a imortalidade.

domingo, março 05, 2006

A Genealogia do Matadouro - II. Irlanda

«Por volta de 1155, o papa Adriano IV teria concedido um direito de suserania sobre a Irlanda ao rei de Inglaterra, Henrique II. Os ingleses começaram, assim, a conquista da ilha, mas o seu domínio limitou-se durante longo tempo ao Pale, a costa oriental dos arredores de Dublin. Foi necessário esperar os Tudor para que os ingleses empreendessem a submissão de toda a ilha. Mas o ódio dos irlandeses, provocado pelo monopólio das terras, encontrou um novo alimento quando Henrique III tentou impôr o protestantismo. As lutas contra as novas confiscações de terras e a instalação dos colonos escoceses agravaram-se e tomaram o aspecto de uma verdadeira guerra religiosa.
EM 1641, novas ameaças de confiscações provocaram uma grande rebelião que durou mais de 10 anos e foi esmagada por Cromwell. Em 1649, este massacrou as guarnições irlandesas de Drogheda e de Wexford e empreendeu o extermínio total da população. Ao fim de 11 anos de lutas insurrecionais e de repressão, numa população inicial de 1 466 000 pessoas, 616 000 tinham sido mortas e as suas terras confiscadas tinham sido distribuídas pelos soldados de Cromwell ou por “empresários” que as obtiveram por adjudicação. O trabalho dos chacinadores foi prolongado pela instituição de tribunais especiais a que foi dado o nome de “tribunais de matança”. Entre 30 000 e 40 000 irlandeses emigraram para a Europa ou para a América. Por seu lado, os Ingleses venderam como escravos à Jamaica e aos Barbados 60 000 crianças, mulheres e raparigas. Os irlandeses sobreviventes foram acantonados numa única província do Oeste, o Connaught, para onde os ingleses os empurraram aos gritos de: “into Hell, into Connaught!” A restauração manteve este sistema e o Establishment Act de 1660 sancionou oficialmente as mudanças de propriedade.
Em 1704, Guilherme III promulgou leis penais terríveis, que proibiam aos irlandeses a compra de terras e decidiam igualmente sobre a partilha das que eles possuíam quando da sua morte: os mesmos textos fechavam aos irlandeses toda a hipótese de acesso a uma função pública.
Em 1800 a dominação inglesa agravou-se com o Acto de União que retirou toda a autonomia à Irlanda, não lhe deixando mais do que o direito de ter deputados na Câmara dos Comuns. Esta dominação apoiava-se igualmente na Igreja Anglicana, a única oficial, a quem os Irlandeses, católicos, deviam pagar a dízima, e na estrutura agrária resultante da conquista: a maior parte da terra pertencia a grandes proprietários ingleses, que tinham o direito de despedir como lhes aprouvesse os seus rendeiros irlandeses.
O ódio contra a Inglaterra ia aumentar durante a terrível fome de 1846-1848, que provocou a morte de 500 000 irlandeses e a emigração para a América de outros dois milhões. O liberal Gladstone tentou resolver o problema: fez votar o desestablishment da Igreja Anglicana (1869) e as leis agrárias de 1870 e 1881; mas foi derrotado em 1886 no seu próprio partido quando propôs o Home Rule que fez finalmente aprovar em 1912, 1913 e 1914, apesar da oposição de lordes, de conservadores e dos ulsterianos protestantes. De resto, o Home Rule já estava ultrapassado, em 1914, pelos independistas do Sinn Fein que, após o fracasso da insurreição da Páscoa de 1916, chegaram ao poder em 1918. Em 1921, a Inglaterra reconheceu a independência de uma Irlanda amputada do Ulster, onde os irredutíveis do IRA se refugiaram no terrorismo activo.»

- Guy Richard, “A História Inumana, massacres e genocídios das origens aos nossos dias”


Registem-se algumas tipificações do processo: etnocídio ou purga étnica; extermínio planeado e executado ao longo de séculos; motivação essencialmente espoliadora; pretexto religioso. Julgo que os ingleses -os diligentes funcionários dos "tribunais de matança", por exemplo-, durante todo esse tempo, não padeceram de grandes interrogações morais ou angústias metafísicas acerca da justeza dos seus propósitos, bem como das proezas e preceitos inerentes. Aliás, nesse departamento, convém que nos vamos desde já habituando a uma espécie de paradigma: questionar essa boa gente sobre tão extravagantes escrúpulos faria o mesmo sentido (e obteria certamente a mesma resposta) que colocar equivalente problema aos zelosos funcionários dos nossos matadouros municipais.

A Genealogia do Matadouro - I. Introdução



«Somos virgens no horror como na volúpia. (...)
Era então uma criança e fazia-me medo, a prisão. É que não conhecia ainda os homens. Agora nunca mais acreditarei no que eles dizem, no que eles pensam. É dos homens e só dos homens que devemos ter medo.
E quanto tempo será preciso durar a sua loucura para que parem finalmente esgotados, esses monstros?»
- Céline, "Viagem ao Fim da Noite"


O massacre –o extermínio em massa -, não é património exclusivo de nenhuma época, civilização, povo, nação, regime, seita, classe ou ideologia. Varia nos métodos, nos motivos, nas ferramentas, nas razias, nas peripécias, nos saldos contabilísticos e até nos léxicos, mas porfia na constância com que acompanha, em lúgubre comitiva, as evoluções invariavelmente sanguinárias da espécie humana. Recanto sinistro, cruel e desapiedado do homem, a carnificina, como a história universal atesta à exaustão, não o larga para onde quer que ele vá (e, desde Caim, ele tem ido a muitos sítios e cirandado por todo o lado). É mesmo, dir-se-ia, o seu mastim de serviço, o seu mais fiel cão de fila, o sabujo predilecto, sempre fogozo e disponível, nas suas depredações e caçadas. Isto, à primeira vista, para quem, sensível ou enauseado, guarde uma certa distância. Mera ilusão! Um olhar mais atento e perscrutante não tarda a dissipar tal conceito. Na verdade, o mais íntimo companheiro da alma humana não é um cão: é uma hiena.
A viagem pelos abismos que ora se inaugura é uma digressão fria e desapaixonada à hiena que habita as entranhas de todos nós, seja qual for a indumentária ou maquilhagem em que esse abençoado “todos” –nunca duvidem - se reveste. Ou melhor, se mascara.

sexta-feira, março 03, 2006

Chigalevices

«Chigalev continuou então o seu discurso:
- Tendo consagrado toda a minha energia ao estudo da organização da sociedade futura, que virá substituir o estado de coisas actual, cheguei à conclusão de que todos os autores de sistemas sociais, começando pelos antigos até ao nosso ano de graça de 187..., não passam de uns fantasistas, de uns tolos que se contradizem e não compreendem nada de ciências nem deste animal estranho que se chama homem. Platão, Rousseau, Fourier, tudo isso é bom para os pardais e não para uma sociedade humana. Como, porém, é necessário definir esta nova forma de sociedade neste momento em que nos preparamos para entrar em acção, proponho o meu sistema de reorganizar o Mundo. Aqui está -disse, batendo com o punho sobre o caderno. - Gostaria de espor o resumo do seu conteúdo perante esta assembleia, mas sei que teria de acrescentar várias explicações verbais; a exposição não poderia ser feita em apenas dez noites, conforme o número de capítulos. (Ouvem-se risos.) Quero, além disso, declarar já que a minha obra ainda não está concluída. (Novas risadas.) Embaracei-me com os elementos colhidos e as conclusões estão em oposição com a ideia inicial: comecei pela liberdade absoluta e cheguei a um absoluto despotismo. Acrescentarei, todavia, que fora da minha solução a sociedade não pode achar outra fórmula.
Os risos aumentavam cada vez mais, principalmente da parte dos jovens. O rosto da senhora Virguinski, o de Liputine, o do coxo reflectiam uma espécie de despeito.
- Se o senhor não conseguiu elaborar o seu sistema, se chegou a uma decepção, que quer que a gente faça? - observou prudentemente um dos oficiais.
- Tem razão - respondeu Chigalev, em tom categórico. - Em especial quanto ao emprego da palavra "decepção". Sim, cheguei a ela e contudo o que exponho no meu livro é justo. Não há outra saída, ninguém será capaz de a inventar! É por isso que me apresso a convidar a sociedade a escutar o meu trabalho durante dez noites consecutivas e a exprimir em seguida a sua opinião. Se não querem ouvir, separamo-nos já. Os homens voltarão aos seus negócios, as mulheres aos seus afazeres domésticos, pois que, rejeitando o meu livro, repito que não há outra saída. Ne-nhu-ma! E se se perde o tempo, prejudica-se a causa comum, porque se voltará inevitavelmente ao mesmo sistema!
A reacção foi diversa. Houve quem perguntasse com os seus botões: «O homem estará doido?»
- Em resumo, tudo se reduz à decepção experimentada por Chigalev - concluiu Liamchine. - A questão primordial é de saber se sim ou não ficamos decepcionados.
- A decepção de Chigalev é assunto pessoal - declarou o aluno do liceu.
- Proponho que se vote para saber a que ponto a decepção de Chigalev está relacionada com a causa comum e ao mesmo tempo escutar ou não - lembrou o oficial, irónico.
- Não é isso - interveio o coxo. Costumava acompanhar as palavras com um riso escarninho, de modo que era difícil concluir se falava a sério ou se estava a brincar. - Não é isso. O senhor Chigalev mostra muita devoção pela sua obra e também muita modéstia. Conheço o livro dele. propõe como solução final dividir a sociedade em duas partes desiguais. Um décimo dela gozará da liberdade pessoal e terá o direito de domínio absoluto sobre os nove décimos restantes. Estes devem perder a sua individualidade para se transformarem numa espécie de rebanho. A obediência cega conduzi-los-á de transformação em transformação até à inocência primitiva, no género de paraíso terrestre, se bem que fiquem obrigados a trabalhar. Os meios que o autor nos apresenta para arrancar aos nove décimos da humanidade o seu livre arbítrio e os transformar em seguida num rebanho como processo de reeducação de gerações inteiras, são deveras notáveis. Baseados no estudo de elementos naturais, têm perfeita lógica. Pode-se não estar de acordo com certas conclusões do autor, o que não se pode é duvidar da sua inteligência e do seu saber. É pena que a cláusula das dez sessões seja incompatível com as circunstâncias; doutro modo, poderíamos ter ensejo de aprender muitas coisas interessantes.
- Isso é verdade? - perguntou a senhora Virguinski, um tanto inquieta. - Este homem, como não sabia o que fazer do povo, reduziu-o em nove décimos à escravidão. Há muito tempo que eu desconfiava disso.
- Refere-se ao seu irmão? - volveu o coxo, admirado.
- São parentes? Estão a troçar de nós?
- E além disso -acudiu a estudante - trabalhar para os aristocratas e obedecer-lhes como se fossem deuses é uma cobardia.
- O que proponho não é cobardia, mas um verdadeiro paraíso terreal. Não pode haver outro - retrucou Chigalev, com autoridade.
- Quanto a mim - disse Liamchine -, em lugar do paraíso eu teria dado cabo desses nove décimos, se não se sabe o que se há-de fazer deles; e conservaria à face da terra um grupo de pessoas instruídas, capazes de organizar a sua vida segundo os termos da ciência.
-Só um lobo é que pode falar assim - disse a estudante.
- É um lobo, mas um lobo útil! - segredou-lhe a senhora Virguinski.
- E essa seria talvez a melhor solução! - retorquiu Chigalev prontamente, voltando-se para Liamchine. - nem calcula que ideia profunda conseguiu exprimir, senhor chocarreiro! Mas como a sua ideia é pouco mais ou menos irrealizável, temos de nos contentar com o paraíso terreal, já que assim o designámos.
- Que súcia de disparates! - comentou Verkovenski, ainda ocupado a cortar as unhas e sem levantar os olhos.
- Disparates, porquê? - replicou o coxo, como se estivesse à espera desta frase para entabular discussão. - O senhor Chigalev é evidentemente um fanático da filantropia; mas lembre-se que se encontra em Fourier, em Cabet, e até em Proudhon, grande quantidade de soluções das mais despóticas e fantásticas. O senhor Chigalev propõe-nos uma solução mais prática. Depois de ler o seu livro, não se pode deixar de concordar com certas coisas que lá vêm. Talvez ele esteja mais próximo da realidade do que qualquer outro! O seu paraíso terrestre é quase igual àquele que a humanidade perdeu, se é que existiu.»

- Dostoievski, "Os Demónios"

quinta-feira, março 02, 2006

Metafísica

«Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas ideias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence. É por isso que ninguém compara a grandeza ruidosa de Roma à super-grandeza da Grécia. A Grécia criou uma civilização, que Roma simplesmente espalhou, distribuiu. Temos ruínas romanas e ideias gregas. Roma é, salvo o que sobremorre nas fórmulas invitais dos códigos, uma memória de uma glória; a Grécia sobrevive-se nos nossos ideias e nos nossos sentimentos.»
- Fernando Pessoa, "A Nova Poesia Portuguesa"

Um pequeno reparo: não sou tão optimista quanto àquilo que Roma fez com a Grécia. Basta atentarmos na distância praticamente insuperável entre o circo e a tragédia. Ou entre o amor à terra e o amor às riquezas.
Não há nada mais metafísico que o amor à terra. Esse abismo donde provimos e que espera toda a vida por nós. Essa fundação primordial e derradeira...
A minha igreja são árvores. E a minha terra foi fundada por Ulisses.
A Pátria não se discute: ama-se, sente-se, padece-se. Herda-se como se herda esta carne de condenados ao patíbulo da vida. Não é um objecto da nossa faculdade mais pobre -o entendimento, mas um suspirar do nosso órgão mais profundo - o coração. Um "suspiria de profundis". Por isso mesmo, muito mais que a facilidade rasteira e peçonhenta de odiarmos outros, quaisquer outros e por quaisquer razões, é a coragem de gostarmos de nós. Sempre. E sobretudo nos piores momentos, quando tudo parece perdido, quando a derrota e o desalento alastram, quando a cobardia triunfa e a traição viceja, quando a estupidez e a inteligência se geminam e o espelho nada mais teima em devolver-nos que reflexos execráveis, relances ominosos de aleijões, prostrados, rastejabundos e malquerentes. Porque é nos precipícios da fraqueza, nos abismos da descrença, da exaustão e até do horror que o ordálio acontece. É aí que se separam as águas e se joeira a colheita. Coragem não têm aqueles que fazem do coração tripa e mendigam reboque na força alheia, hospedaria em vigores a crédito. Não, coragem têm-na aqueles que são capazes de fazer das fraquezas forças. E das próprias tripas, coração.
Tem uma pátria quem a merece. Conceitos, lógicazinha de passerelle para modelo de virtudes em desfile de modas, qualquer maltrapilho mental ou indigente moral alcança. É uma questão de indumentária, penteado, maquilhagem - cosmética, enfim. Nenhum maldizer ultrapassa o excremento se não servir de máscara -de epiderme - a um bemquerer profundo. Ciência de palha, fantasia de espantalhos se não houver um coração a bater e a amar lá dentro. Não se pensa, nem se diz, a pátria: quer-se.
É quando tudo parece perdido que um homem se encontra. Como é na descida -suja e tenebrosa - da raiz ao fundo do abismo que a árvore encontra a força que lhe permite erguer os ramos à luz e ao ar límpido dos céus.
Quanto ao corpo, esse tão sobrecantado altar dos umbigos canoros do nosso tempo, desenganem-se os acólitos do jardim das delícias: é uma mera oportunidade que o cosmos nos dá... de utilizarmos uma coluna vertebral. Chama-se, a esse prodígio, verticalidade. E, curiosamente, aprende-se com as árvores. Muito mais que com os sacerdotes de todas as doutrinas. E jamais em concursos de beatos ou fariseus.
A Pátria, esta a que eu pertenço, que não entendo e apenas pressinto, é janela para o cosmos, para lá da mundanidade, para lá dos apetites e dos cansaços, centelha de grandeza em toda esta minha quase infinita irrisão, irredutabilidade e luta perpétua do bemquerer contra as amarras tentaculares do bem-estar. À bênção de quem a esquece, hei-de sempre preferir ir ser maldito com ela.
Há, de facto, uma vontade que me ata ao leme. De algo muito maior que eu.

quarta-feira, março 01, 2006

Lost Dragon



As buscas prosseguem. Uma coisa é certa: ele dorme algures por aqui.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Sursum corda



Peço desculpa por esta interrupção. O Dragão segue dentro de momentos.

A Deus o que é de Deus, ao Dragão o que é de César.

A caverna - pois, esse tugúrio!- tem deveres.

(Quanto à estima que vos devoto, ó amigos virtuais, subentendam-na. Manifestá-la aqui por palavras arruinaria de vez a péssima reputação e o mau nome que tanto me custaram a granjear.)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

REQUIEM

Dizem que a morte ceifa, mas o tempo ensinou-me que não. Não ceifa, escava, vai escavando. Um fosso à nossa volta. Os poetas chamam-lhe solidão. Eu, que sou um bruto, chamo-lhe desolação. Desculpem lá isto não estar a sair muito literário, mas ontem ela veio escavar mais um pouco em meu redor. Um pouco, para ela, um quase nada; mas um muito para mim.
Mais que o erro, disso não tenho dúvidas, é a estupidez que é humana. Prova eloquente dessa triste condição é que só quando as perdemos, às pessoas, é que descobrimos o quanto gostamos delas.
Estou de luto. E nos próximos tempos, que me perdoem os meus amigos virtuais, mas não terei cabeça para estas nossas tertúlias. Até porque tenho que ir fortificar e cerrar fileiras com as poucas pessoas reais que me restam.


TRÊS CANÇÕES DE DESPEDIDA

I

Porque é que tudo aqui
tem que ter um Fim?
Já gastei os meus olhos
ainda mal te vi.

Porque é que tudo aqui
tem que ter um Fim?
Já lá vem a morte
ainda mal vivi.

Porque é que tudo aqui
tem que ter um Fim?
Já me fechas os olhos
ainda mal os abri.

II

Agora a montanha perdeu o sol
agora o rio desaguou no mar,
e Deus acendeu outra estrela no céu
lá longe, onde só o coração pode chegar.

Agora o dia perdeu a luz
agora a lágrima abandonou o olhar,
e tu entregas a tua cruz
Àquele que ta ensinou a carregar.

III

Requiem

Nasce-se para morrer
Começa-se para acabar;
Quanto mais a vida te der
mais, no fim, te vai tirar.

Entra-se para sair
corre-se para parar;
Quanto mais alto subir
de mais alto se vai despenhar.

Ganha-se para perder
vive-se para tentar,
Do fundo do meu Ser
está o Abismo a reclamar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O Vale dos Lobos ou das Lágrimas


Nos anos trinta, Joseph Goebbels, o génio do mal por detrás do III Reich inventou a receita: O cinema como a mais poderosa arma de propaganda. Posteriormente, os Estados Unidos, através duma indústria à escala global, desenvolveram e aperfeiçoaram a técnica. Agora, do lado muçulmano -na Turquia, mais exactamente-, querem mostrar que também são capazes.
O filme chama-se "Valley of the Wolves", e está a causar furor e lotações esgotadas.
A história desenrola-se a partir de um episódio factual: o aprisionamento de forças especiais turcas no Norte do Iraque pelos americanos (peripécia que até hoje foi considerada uma humilhação nacional e, pelos vistos, está longe de estar esquecida).
Ao longo da fita, rezam as crónicas, os americanos são exibidos como autênticos ogres, "que disparam à queima roupa sobre crianças e sacam órgãos aos prisioneiros Iraquianos, que enviam depois para Israel, Estados Unidos e Inglaterra", entre outras proezas meritórias.
Depois da histeria com os cartoons e da revelação do vídeo britânico, aí está mais gasolina para a fogueira.
Por regra, não gasto o meu tempo com cinema, seja ele propaganda americana, como é habitual, seja agora outra qualquer. O que isto tem de sintomático é o estado de espírito que esta América do "New American Century" tem andado a semear pelo mundo.
Ora, se num dos aliados tradicionais dos Estados Unidos na região os pensamentos são estes, não é de acreditar que os Turcos engulam histórias como as que o director geral da CIA, Porter Goss, lhes andou a tentar impingir há umas semanas atrás:
«1- Que o Irão já possuía armas nucleares e, por conseguinte, constituía uma terrível ameaça regional;
2- Que o Irão patrocinava o PKK e ALQaeda;

3- Que o Irão tencionava exportar o seu "regime" para o Turquia.»

Acho que os Turcos não são assim tão parvos e não devem ter apreciado muito o insulto à sua inteligência. Tanto eles, como a generalidade dos países independentes deste mundo, se não sabem, seguramente desconfiam de quem é que possui armas nucleares (e outras) que constituem uma permanente chantagem global; de quem igualmente patrocina o PKK e a AL Qaeda; e de quem tenciona "exportar" o seu "regime" não só para a Turquia como para o mundo inteiro. Não quer dizer que o Irão não alimente projectos mirabolantes, só que não dispõe nem dum décimo dos meios, do alcance, da vontade expressa e assumida, nem, tão pouco, do know-how que só a múltipla e exaustiva experimentação permite.
A Turquia, há cada vez mais indícios disso, está a inclinar-se para o seu vizinho gigante do Norte. Junte-se-lhe a Síria, o Irão, a Índia e agora, para cúmulo, a China (e, off the record, até França e Alemanha), e perceba-se no que deu o caldo de geo-imbecilidades cozinhado pelo bando de noeconas que tem andado a brincar à geoestratégia com neoliberalismos asselvajados, revoluções coloridas e exportação de caos e bandalheira (a título de democracia) por mero frete aos interesses e caprichos de Israel... É isso mesmo: Os Russos estão de volta. Agora com o espírito Czarista enxertado no património genético da KGB.
Mesmo que os Americanos cometam a estupidez de atacar o Irão, imaginem para que preços o petróleo vai disparar, e imaginem quem vai ser um dos principais beneficiários disso. E já agora, se não for pedir muito, imaginem quem vai pagar...
PS: Também pode dar-se o caso de eu estar para aqui a delirar. Oxalá.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Provincianismo e coloniofilia

«O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sindromas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grande meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a inacapacidade de ironia. (...)
É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. (...)
O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, a "relíquia", Paio Pires a falar francês, é um capítulo dolorosos. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.
Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido.»
- Fernando Pessoa, "O provincianismo Português"

Testemunhasse Pessoa esta nossa actualidade asnopédica e constataria, com alguma amargura por certo, que não só não melhorámos da doença, como a síndrome degenerou num palindroma particularmente virulento: mais até que a província dum qualquer império, o lugar, a chicote da chusma que o infesta, regrediu a colónia duma qualquer metrópole. Vire-se do direito para o avesso, de cima para baixo, da direita para a esquerda, ou vice-versa para qualquer uma dessas modalidades, o resultado é exactamente o mesmo: uma horda de pato-bravos, em acto ou potência, em cirurgia plástica ou lista de espera, sociais e mentais, entusiasmadíssimos com a sua própria dependência, viciação e imbecilidade redentora. O único debate visível e particularmente assanhado prende-se com a escolha da trela, arreio, sela e cabresto que melhor lhes fica. Qual dos patronos confere melhores condições aos seus lacaios. Raça de sabujos cujo maior sonho, doravante, é ser novo-cafre das europas ou das américas, porque entretanto as rússias deixaram de aceitar inscrições e as chinas estão ainda a ultimar os critérios de matrícula.
É toda uma massa amorfa, caótica, adesiva, em efervescência ruidosa, a clamar por molde e olaria. Já não portugueses e sem resquício de vértebra, valor ou dignidade para americanos ou europeus, não excedem o saloio beberolas, atrelado a uma pança tirana ou levado de rojo por um umbigo despótico, vomitando o passado na sargeta para dar lugar à zurrapa -mixórdia de futuro canoro de eleição - que, em turismo alcoólico, bufarinhou num qualquer caixote do lixo das estranjas.
Desde o "orgulhosamente sós", conseguiram rastejar intrepidamente para um degrau mais abaixo: "Orgulhosamente totós". É daí que clamam, em mescla de fado vadio com SOS de Titanic a afundar-se, o seu novo slogan auto-estimulante: "Alguém que venha tomar conta de nós!"
Serem uma província de Espanha já não lhes basta, nem preenche as fantasias. Agora só mesmo uma colónia. Se possível, de férias.

sábado, fevereiro 11, 2006

Babilónia

«Ó Zaratustra, esta é a Grande Cidade; aqui nada tens a buscar, mas tudo a perder.
Porque virias chafurdar nesta lama? tem piedade dos teus pés. Mais vale que cuspas na porta da cidade, e sigas o teu caminho.
Aqui é o inferno para os pensamentos dos solitários; aqui os grandes pensamentos são fervidos em vida e reduzidos a caldo.
Aqui apodrecem todos os grandes sentimentos; aqui apenas se autoriza o leve tinir de sentimentos menores, inteiramente descarnados.
Não sentes, já daqui, o cheiro dos matadouros e das espeluncas do espírito? Não exala esta cidade um aroma de espírito massacrado?
Não vês as almas como trapos moles e sujos? E desses trapos ainda fazem jornais!
Não ouves que o espírito não passa aqui de um jogo verbal? Aqui, ele vomita uma repugnante zurrapa de palavras. E desse vómito ainda fazem jornais!
Perseguem-se mutuamente sem saberem para onde vão. Excitam-se uns contra os outros sem saberem porquê. Fazem tinir as suas latas, tilintar os seu oiro.
(...) Cospe sobre esta cidade das almas aviltadas e dos peitos estreitos, dos olhos penetrantes, dos dedos gordurosos - sobre esta cidade dos importunos, dos impudentes, dos escribas e dos vociferadores, dos ardentes ambiciosos - onde fermenta, numa mesma purulência, tudo o que é cariado, desacreditado, lascivo, turvo, sorvado, purulento clandestino - cospe sobre esta Grande Cidade e segue o teu caminho!»

- Nietsche, "Assim falava Zaratustra"

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

A montanha que pariu o Rato



Nem Maomé veio à montanha (e foi pena), nem a Montanha compareceu ao Maomé ( e foi azar). Limitou-se a parir um rato. Um rato, não obstante, capaz de parir montanhas. De excremento intelectual e sabujice transatlântica. E ontem lá estava, na crista da micro-manifestação, o Rato, que é Vasco e também papagaio, a exibir-se às câmaras da RTP em toda a sua magnificiência de polichinelo. Um mister, este Rato! Da estupidenza doméstica, benza-o Deus...enquanto o Diabo não o carrega.

Ritalina news



Mais curiosidades acerca da Ritalina...

Como já aqui foi exposto, a subministração de Ritalina em crianças -a partir de idades tão tenras quanto 4 anos -, encontra justificação "científica" no "Attention Deficit Hyperactivity Disorder" (ADHD) .
Existem sérias dúvidas que esta proclamada "síndrome" sequer exista. Críticos do programa, como o Dr. Fred Baughman, afirmam tratar-se duma pura invenção da American Psychiatric Association (APA).

Quer dizer, a "pseudo-doença" tornou-se uma fonte de receita orçamental para as escolas. Quantos mais casos, mais fundos federais.
Suponho que é o Mercado a funcionar. Business as usual.

Slogans para futuras manifestações islamo-libertárias . I



Para que não restem dúvidas da nossa supremania, digo supremacia, civilizadoira.

ABAIXO A BURKA! VIVA O BOTOX!!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Feira do Relógio



Olha o ML, olha o ML! Olha a banha da cobra e o canivete suiço das ideias! À dúzia é mais barato! É comprar, é comprar! E ainda leva um cobertor, um faqueiro e um jogo completo de cama. Mais um despertador e três alguidares de plástico! E ainda: seis pares de ceroulas e um saca-rolhas!
Os Marxistas-Leninistas de ontem são os Mercantilistas-Liberais de hoje. E vice-versa.

O Perpétuo PREC (Processo regurgitador em Curso)



Cada vez mais, fica a impressão que andamos há trinta anos a regurgitar o PREC . É sempre a mesma pasta avinagrada e escumosa, só o que muda são os slogans e as palavras de ordem - os gatilhos do espasmo. Até os gargarejadores são os mesmos. Eles e a filharada, porque entretanto reproduziram-se.
Enfim, é toda uma revolução das tripas que nunca mais acaba. Nem temos tempo para pensar... Ainda estamos a salvar as baleias e já nos convocam larilas em apuros; ainda mal apoiamos as abortadeiras e já há uns pretinhos a morrer de fome em Darfur (pena não ser nas Caraíbas, que aproveitávamos e de caminho bronzeávamos o coiro). Agora, para cúmulo, são os muçulmanos, esses fassistas, que nos querem vir dar cabo das amplas liberdades.
Mas será que esta luta nunca mais acaba?...

Todos ao Rossio! A Luta continua.

Hoje, às 15 horas, uma manada de zombies saiu à rua numa manifestação em prol da Liberdade de Expressão.

Em defesa dos vossos valores



Em resumo, abaixo os muçulmanos, bombardeiem-nos urgentemente, porque ameaçam o que de mais sagrado tem o vosso mundo "ocidental": as feministas, os gays e os judeus. Mais sagrado ou mais ruidoso, o que, nestes fascinantes tempos, é a mesmíssima coisa.
Esse vosso nazismozinho ao contrário...de patas para o ar.