quinta-feira, março 17, 2011

Um Postal Incorruptível.


Lembram-se? Está sempre actual. Postei-o pela primeira vez em Maio de 2005. Repostei-o em Abril de 2006 e em Maio de 2008. Recoloco-o agora, em Março de 2011 e, não queiram lá ver, permanece viçoso que nem uma alface, absolutamente incólume aos anos e às canseiras.

OS OTÁRIOS QUE PAGUEM A CRISE. É PARA ISSO QUE ELES EXISTEM.

Estou de acordo: "Os ricos não devem pagar a crise".

Em primeiro lugar, porque os ricos são o esteio da sociedade e do mundo. Se acabássemos com os ricos, para que farol guia olhariam os pobres, bem como os remediados e os quase nababos? Ficariam às escuras, pois claro, sem saberem para onde se dirigir nem que paradigma imitar. Naufragariam irremediavelmente de encontro aos escolhos, traiçoeiros e pontiagudos, da existência.
Nenhuma sociedade funciona sem um regime, e nenhum regime se aguenta sem paradigmas orientadores. Depois de inúmeras peripécias que seria fastidioso enumerar, o mundo ocidental arfa sob os primores duma plutocracia vigorosa. Não adianta fazer grandes ginásticas mentais à procura de mundos alternativos; é assim. A História, à boa maneira hegeliana, porta-voz do "Espírito", determinou-o.
Por conseguinte, sendo uma plutocracia, tem nos ricos o vértice da pirâmide – tal qual como se fosse uma monarquia, teria no rei; ou, uma teocracia, encontraria em Deus. Ora, se retirarmos o rei à monarquia, ou o Deus à teocracia, lá ruem ambas, a monarquia e a teocracia, sem apelo nem agravo. O mesmo acontece se retirarmos os ricos à plutocracia. Resulta no caos, na anarquia, desatam-se todos a comer uns aos outros. Descamba o carrossel numa depredação intra-específica sem regras, bestialmente destrutiva e causadora dos piores atropelos e sevícias à ordem pública e não só.
Assim, tal qual vamos, há uma ordem: os ricos comem todos os outros; os pobres são comidos por todos os outros; entre os ricos e os pobres existem uns terceiros que comem e são comidos. Se não é o melhor dos mundos, anda lá próximo. É como na selva: há um equilíbrio natural, racional, que visa a perpetuação do sistema ecológico. Têm que existir poucos ricos e muitos pobres, da mesma forma que devem existir poucos lobos para muitas ovelhas. Se existissem muitos lobos para poucas ovelhas, os lobos exterminariam as ovelhas e, depois, definhariam até à inanição por falta de alimento. A não ser, claro está, que os lobos mais fortes despromovessem os mais fracos a ovelhas e desatassem a pitar neles. Em todo o caso, isso não passaria duma solução de emergência e apenas adiaria o colapso inevitável do sistema.
Portanto, sendo os ricos o que de mais precioso tem o regime, convém preservá-los e protegê-los de todos e quaisquer percalços. Ora, um rico não é rico porque paga crises ou o que quer que seja. Pelo contrário, é rico porque lhe pagam inúmeras coisas: é rico porque recebe. Viaja isento, à borliu.
Também, ao contrário do que se pensa, o rico não é rico porque investe o que quer que seja: é rico porque acumula. Se o rico gastasse o seu precioso dinheiro –a sua essência, e substância inefável do sistema -, em negócios e fabriquetas, corria o risco de ficar pobre. Ora, esse é um risco que nenhum rico que se preze pode correr.
É claro que o pobre, e especialmente o pobre de espírito, cisma que assim é. Isso, porém, não nos deve surpreender: É conveniente ao sistema e ao rico que ele assim pense. Tratam até, ambos, de mimar-lhe essa imbecil convicção, de mantê-lo nessa ilusão mentecapta. Mas, na verdade, o rico apenas se dedica a multiplicar o seu dinheiro, velando, desse modo, pela própria saúde do regime e pelo equilíbrio do ecossistema.
Quer dizer, o rico nunca investe o "seu" dinheiro. Investe, isso sim, o dinheiro que o banco lhe confia para investir. O "seu" dinheiro significa apenas"crédito" junto da banca, funciona como uma espécie de brevet para "piloto de capitais". Porque o rico é essencialmente isso, um piloto de capitais, que se faz pagar a peso de ouro pela crematonáutica que exerce. O "seu" dinheiro é apenas aquilo que antes da operação a garante e que, terminada a mesma, resultará ampliado. A função do rico é tornar-se cada vez mais rico. O ser rico, bem mais que um estatuto, é uma dinâmica: cega, obsessiva, inexorável.
Então, com que dinheiro investe o rico? – Com o dinheiro dos outros, é evidente; precisamente aquele que a banca extrai à grande maioria.
E o que é uma "crise"? – É uma época de desequilíbrio financeiro, em que, por um lado o Estado através de impostos e taxas, e por outro a banca e seus associados, através de "empréstimos" (que mais não são que formas encapotadas de cobrar "taxas" e "impostos" muito acima dos do próprio Estado), deixaram ou ameaçam deixar a grande parte da população na penúria, senão mesmo à beira do colapso enquanto sociedade.
Se o dinheiro deixa de circular com a quantidade necessária a manter um fluxo de oxigenação saudável do sistema, isso só pode significar hemorragia algures.
Quando, em plena crise, a banca apresenta lucros fabulosos, isso significa que esse dinheiro foi sacado à população e entregue nas mãos dos tais "pilotos". O que estes fizeram, obedecendo à sua lógica intrínseca, foi ir investi-lo noutras paragens mais rentáveis. O objectivo do investimento não é criar postos de trabalho: esse é o simples meio. A finalidade é multiplicar o capital inicial. O resto é supérfluo e, em bom rigor, descartável, logo que a finalidade esteja alcançada.
Entretanto, o país de regresso à sua penúria tradicional, do ponto de vista dos ricos e seus acólitos, é positivo: quer dizer que o país, de volta ao terceiro mundo e à realidade, está a transformar-se num país mais competitivo, com mão de obra mais barata e menos esquisita. Para os pobres, os verdadeiros, também não faz grande diferença: abaixo de pobres não passam, e já estão habituados. Concentram-se no futebol, na pinga e lá vão. Os únicos que, de facto, têm motivos para se preocupar seriamente são aquela classe heteróclita e intermediária – daqueles que vivem digladiados entre a angústia de regredirem a pobres e a ilusão de, num golpe de asa, ou por qualquer súbita lotaria do destino, ascenderem a ricos. Esses, temo-o bem, vão ter que sacrificar-se, mais uma vez, pela competitividade do país. É, aliás, urgente que desçam do seu pedestal provisório e se compenetrem dos seus deveres atávicos. São para isso, de resto, que, cíclica e vaporosamente, são criados.
E dado que os pobres não pagam porque não têm com quê, e os ricos também não, por inerência de função e prerrogativa sistémica, resta-lhes a eles, os tais intermédios (ou otários, se preferirem), como lhes compete, chegarem-se à frente. Está na hora de devolverem a sua "riqueza emprestada", o seu "estatuto a prazo"; de se apearem do troleibus da ficção e retomarem o seu lugarzinho na horda chã, em fila de espera para o próximo transporte até à crise seguinte.
Não sei se campeia a justiça neste mundo. Duvido. Mas que reina uma certa ironia, disso não restam dúvidas.



Do Calvário colectivo



Em resumo: após trinta e tal anos de "salvação nacional" e de marchas forçadas para fugir à pobreza salazarista e ao obscurantismo não sei das quantas, o país está falido, a crise moral (como lhe competia) deveio crise económica e o "estado português", após engordar porcina e desmesuradamente, degenerou em puro junkie do crédito. Agora, à torpe semelhança de qualquer agarrado ao vício, a solução é vender ao desbarato todo o património da família, herdado, emprestado ou surripiado, findo o que, se recorre à prostituição, à venda de órgãos e, finalmente, depreende-se, ao parqueamento improvisado de automóveis. Talvez uma vasta auto-europa, quem sabe. Sempre é uma promoção: de retrete (como dizia Mestre Almada) a parking-car.
No meio de toda esta crise de fundo, estão agora preocupados com uma crise na maquilhagem, digo crise política? Se demos nisto, e nada mais que isto, se os nosso filhos e netos já estão fadados e prometidos a isto, ok, tudo bem. Não vamos agora acobardar-nos. Tragam lá o cálice colectivo. Se Cristo aguentou, porque é que nós não havemos de aguentar?... A nossa cruz chama-se agora "dívida soberana". Muito bem, alombemo-la encosta acima. O chicote romano está em mãos germanas, mas vai dar ao mesmo. A judiaria internacional (e seus derivados domésticos) cospe-nos e renega-nos, agora que já não fazemos milagres nem hidrobulismos, mas isso é mesmo assim, faz parte do pacote. Em frente, irmãos! Antes do galo cantar, não sei quantos pedrados, pedreiros e pedrosos hão-se dizer que nos desconhecem e nunca nos viram mais gordos. O que, em boa parte, até tem os seus laivos de verdade. Deus lhes perdoe a todos, porque não sabem o que dizem, nem dizem o que fazem. Mas se, afinal, é só isto, esta tarefa tão básica e inequívoca, mais que sabida , prometida e ensaiada, então, sinceramente, porque raio se discute ou disputa o governo? Competente, incompetente?... Qual quẽ!, nem uma coisa nem outra: redundante, isso sim. Completamente supérfluo e redundante. Já nos basta a "dívida" por cruz. Dispensa-se, de todo o coração, um pseudo-Simão Cireneu cujo entendimente de ajuda é montar a cavalo no madeiro. Como se para curar-nos da exaustão, nos submetesse, em impiedosa cavalgada, ao derreamento.

terça-feira, março 15, 2011

Sinais do tempo - II. A Corte do Exturquistão




Vamos supor que existe de facto, e não como mera fachada operativa de oligarquias, plutocracias e neo-feualismos rococó. Refiro-me, obviamente, à democracia. Faz-me confusão que se faça dela uma finalidade e não o simples meio que ela efectivamente não é, mas devia ser. Como se a democracia, em vez de mera forma de regime político se transformasse, simultaneamente, em mandamento e fundamento teológico. Em que é que esta democracia, nessa singular essência, se distingue do fascismo, do comunismo ou de qualquer outro totalitarismo moderno ainda está para nascer quem consiga o milagre de me explicar. Por outras palavras: mais que uma opção, entre outras, a democracia virou superstição. Dourada de fetichismos vários: o voto, o sufrágio universal, a alternância democrática, a soberania popular. Regredimos ao nível dos animismos africanos, mas com a pompa e circunstância de ideologia religiosa.
Ora, ideologia não enche barriga; nem alma, tão pouco. Esta treta da democracia para toda a obra tresanda a supositório paliativo universal de carregar pela orelha, lembra a vaselina multi-uso ou a banha-da-cobra para massajar o papalvo: "tendes fome? Mas sois democráticos!"; "Não tendes emprego? Mas tendes democracia, que diabo!"; "O futuro desaparece pelo ralo? Mas resplandece e eleva-se no firmamento a democracia, ora essa!"; "Perdestes a independência? Mas ganhastes o parlamento!"; "falta-vos tudo isso e ainda os sonhos, mas tudo isso são acessórios; o essencial é a democracia." Tudo pela democracia, nada contra a democracia!
Porque em havendo democracia, garantem-nos a todas as horas, o resto, mais tarde ou mais cedo, há-de jorrar em cornucópia. O problema é que não há, e a que há não jorra, a não ser para o meio-milhão de super-mamíferos (ou seja, as mesmas 200 famílias do antigamente mais as centenas de arribadores de agora). A que há, para a generalidade da população, só pinga um fel intragável que, em cada dia, vem azedando mais e mais. A que há não serve ninguém, a não ser aqueles que se servem dela para reduzir o povo à servidão absoluta.
Foi um mimo ver como, mal se anunciou uma manifestação não engendrada pelos alfobres e tutores do costume, logo os gansos da situação - os Pachocos pereiras e outras rameiras canoras- desataram no alarido manhoso (e típico da agitprop onde mentalmente se cevam e vegetam) de "atentado à democracia", "conspiração contra a democracia", "ensaios protofascistas, nazis, stalinistas, nihilistas, draculianos em gestação". E tudo isto por uma razão muito simples: Porque a manifestação (como sublinhou e ressublinhou com fotorreia exaustiva à posteriori, o Pachoco) era contra a classe política e a política tripulada e açambarcada pela classe política. Ora, este grasnar crónico nada revela da identidade da manifestação (que acabou, como se viu, por estilhaçar com todos os preconceitos e antecipações) mas estadeia em quase tudo da estirpe destes gansos profissionais. Para eles a democracia significa, em exclusivo, a classe que a exerce profissionalmente, e não a generalidade da população para quem (e em nome de quem) é exercida. E quando esta se manifesta, à revelia e contra aquela, eles malsinam que a população tem intuitos anti-democráticos. A "Democracia somos nós", é, no fundo, o que proclamam e ameaçam, lá das entranhas do seu rosnido. Estar contra eles é estar contra a democracia, porque, mais ainda que interpretá-la ou exercê-la, personificam-na. Consubstanciam-na. São a sua encarnação absoluta. Ora, este conceito solipsista de democracia não é exactamente liberal, por muito tartufo e troca-tintas que o liberalismo consiga ser, e consegue. Na verdade, a estes cucos ideológicos, o ninho liberal serve-lhes apenas como incubadora dos seus ovinhos armadilhados. A sua permanente e recorrente elitose revela bem da sua efectiva génese - a dos polipríncipes de vão de escada, das nomenklaturas recauchutadas, das vanguardas esclarecidas da classe operária, mais chinesas até que soviéticas. Basta atentarmos na extracção e proveniência de cromos hiperactivos e ubifónicos como esse tal Pachoco Pereira.
Só assim se explica como padecemos sob sequestro duma casta parasita que dirige à revelia e contra os interesses da população hospedeira que, apenas em tese, é suposto representar. Mas lá está: não têm tempo para representar as pessoas, porque estão atarefados, absorvidos, ocupadíssimos a representar a democracia. Em suma: a auto-representar-se. A fazer de conta e por conta. A mirar-se e remirar-se ao espelho, crocitando: "espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais democrata do que eu?"
Porém, enquanto tudo não passou dum esquema típico do Exturquistão - enquanto foram subtraindo apenas as contribuições, os impostos e os fundos putativamente destinados às pessoas, mais os cargos, os subsídios e os ecrãs, a cleptocracia mixordeira que se traficou por democracia puro malte foi sendo mais ou menos tolerável. Mas quando mais que a carteira, já é o futuro e os sonhos que se perpetra roubar a todo um povo, então a falcatrua, de abusiva devém assassina, e, aí, torna-se intragável, insuportável, abjecta. Mais: torna-se dever de todo o português vertebrado acabar com ela! Não com a democracia que não existe, mas com a corja de narcisos insaciáveis que se faz passar (e pagar opiparamente) por ela. Porque a democracia é uma simples forma duma sociedade se organizar, que pode funcionar melhor ou pior, ou assim assim. Não é, de todo, e à semelhança de outros palavrões inefáveis e ultra-maquilhados (estilo Mercado, por exemplo), como nos querem fazer crer, um ídolo feroz e inescrutável que exige a submissão e o masoquismo exacerbado das humanas gentes. E não é, tão pouco, um luxo, pelo qual um povo inteiro se tenha que arruinar, suicidar e empenhar os vindouros até à sétima geração. Luxo mesmo, daqueles supinamente incomportáveis, é uma corte destas, tão descomunal, cigana e dispendiosa, para um rei-povo reduzido à indigência (mental, moral e económica) e um reino outrora soberano remetido à mendicidade!



domingo, março 13, 2011

Sinais do Tempo - I




Não há muito que saber sobre os portugueses hodiernos. Funcionam por atracção numérica, ou dito em termos mais eruditos, por oclocentripetia. Nos restaurantes, como nos blogues ou nas praças da revolução. Em vendo gente, juntam-se. Aderem instintivamente. A multidão congrega e aglutina. Participar é também uma forma de mirar, e ambas, em sincronia (e sinfonia) subtil, entretecem toda a excelência do seu estar. Desde o berço -qual!, desde as bolsas seminais paternas - fruem dessa quase segunda natureza, desse atavismo irresistível. Expoente categórico disso mesmo, à escala presente, é aquilo que de mais forte e sincero nutrem nas suas almas: a simpatia futebolística. Ao Benfica, por exemplo, é irrelevante a conquista de qualquer troféu: basta-se com a sua turba inaudita. O que verdadeiramente nele atrai não é tanto uma qualquer virtude desportiva, mas sobretudo o pertencer à maior horda - o "Sermos muitos", o "sermos mais", "o sermos mais que todos"... Esta adesão espontânea e, de preferência, ululante e festiva ao número confunde-se já com tradição. Até porque nestes tempos mais recentes, preenche-a e calafeta-a quase por completo. Mesmo os resquícios de sagrado é na teologia da bola que se anicham e persistem. É a única "religião" sincera que os pais teimam ainda em incutir aos filhos.
E assim chegamos à manifestação de ontem. Não deixa de ser natural que os académicos, os politiqueiros profissionais e os opinadeiros dos mais variados quadrantes da instalação desdenhem das virtudes do evento. Por nefelibatismo crónico, sobranceria bacoca, zelotípia alarve ou mera e lustrosa pentelhiquice, é assim: regra geral, só alcançam até onde a pança e respectivo farol umbilical deixam. Eu próprio não fui nem sou particular entusiasta do empreendimento: qualquer coisa que junte "laico" e "pacífico" no mesmo slogan deixa-me logo de pé atrás. Mas algo que faço por cultivar é o preceito de não permitir que aquilo que eu penso duma coisa contamine irremediavelmente aquilo que essa coisa, de facto, é. Dito mais simplesmente: o preconceito é lixado. Mas por isso mesmo não devemos deixar que eclipse e obnubile, nem o objecto, nem a tese. Até pensadores de vão de escada como Descartes nos alertaram para isso. Já que pensadores a sério, como Aristóteles, souberam ser mais eloquentes - "sou amigo de Platão, mas amo mais a verdade".
Pois bem, a manifestação de ontem não tinha que dizer nada de especial: só tinha que realizar-se. A sua realidade era o seu número. Tão simples quanto isso. A mensagem era essa. O facto de não terem emergido surfistas políticos no local, mais que aqueles cançonetistas folclóricos, só abona do acontecimento. Para efeitos práticos, valeu mais aquela manifestação do que trezentos mil blá-blá-blás esclarecidos e altamente perfunctórios de não sei quantos iluminados internéticos, onde naturalmente me incluo. Que efeitos práticos são esses? Tanto quanto práticos, são necessários e, em certa medida, fatais. Mais que desgoverno, o governo tornou-se hostil e grosseiramente inimigo da quase totalidade da população que é suposto cuidar. Mais até que liquidatário, tornou-se revolucionário: dum dia pró outro, e depois de viciamentos prolongados em determinados costumes que ele próprio incentivou, mediou e gratificou, pretende sujeitar as suas vítimas a uma inversão abrupta e instantânea de todos os seus comportamentos. Como se isso fosse possível e exequível. Como se depois de lançar uma locomotiva a todo o vapor por uma ribanceira, fosse possível resolver a asneira descomunal através duma manobra simples: engrenar a marcha atrás e punir os passageiros, através de multas, coimas e taxas. Só se for na Banda Desenhada, porque mesmo na propaganda ainda não se consegue chegar a tanto. Na verdade, a anedota trágica resume-se a isto: primeiro, estimularam as massas - "acreditem na banca, corram ao crédito e sereis gratificados!"; depois -ou seja, agora - num funambulismo radical, tão manhoso quanto selvagem, é subitamente o contrário: "porque acreditastes em nós e na banca, por causa do crédito, sereis punidos!"
Não é preciso ser muito esperto para saber que nem mesmo as massas são asssim tão burras e resignadas. É evidente que isto vai resultar em tumulto. E o melhor é que não é apenas evidente: é imperioso, é necessario. E quando a engrenagem da necessidade entra em acção, não há propaganda nem verborreia que valham ou resistam. A maior ilusão da irresponsabilidade e da incompetência é julgar que a impunidade é eterna e que a consequência meteu férias. Pois aí a tendes a assomar à porta! O que esta manifestação podia ou não conseguir era significar mais que a sua mera ocorrência. Pela dinâmica típica destes portugueses concretos que ora existem, estou em crer que sim. Converteu-se num anúncio, num presságio sério do que aí vem. Na geostratégia fala-se muito no efeito de dominó; nas erupções de protesto cá do burgo julgo que acabaremos, um dia destes, a falar do efeito bola de neve. Ou me engano muito (o que é raro) ou ontem principiou a avalanche. Deus a abençoe e proteja!...

sábado, março 12, 2011

A propósito da juventude

Como há muito tempo não vos submeto a questionários culturais, adivinhem lá quem é que escreveu isto:

«Passa-se pela juventude como por um deserto: sedentos e famintos de oásis, a vaguear, perdidos, atrás de miragens. É só no fim da travessia - se por sorte ou acaso não rebentarmos ou fenecermos antes - quando finalmente nos debruçamos sobre um inequívoco charco real, na fronteira para um novo tempo, que um primeiro reflexo da nossa imagem nas águas como que nos abala e desperta. E não, não é a figura do peregrino, nem do tuaregue, ou muito menos do profeta incendiário, o que o espelho líquido, com crueza escarninha, nos mostra: é, tão só e sordidamente, a de um exausto e vulgar camelo.»

Prémio mistério para o primeiro a adivinhar, excepto a Zazie que faz invariavelmente batota.

Surfing on pseudo-USA

Legenda da Imagem: «Tudo o que resta de um campo de baseball na localidade de Minamisoma City, no norte do território japonês.»

Convenhamos, uma cidade japonesa chamada "Minamisoma City", com campos de baseball e sabe Deus mais o quê, é uma convocatória mais que aberta a tsunamis. Com o espírito indignado dos velhos samurais a surfá-los!...

Escombros cagões, ou A Super-ténia

Se já chegámos ao ponto em que os executivos governam, descaradamente, em função dos mercados e não dos povos que é suposto representarem, porque carga de água se persiste no simulacro das eleições?
Não faz qualquer sentido sujeitar as populações a tribulações redobradas só porque os Mercados se sentem mal representados. Só porque têm que se amanhar com uns amadores quaisquer que treparam, a ventosa e fateixa, pelos andaimes partidários. Só porque em vez de executivos competentes têm que contentar-se com moços de frete e homens de aluguer. É gentulho esquisóide, este, nem carne nem peixe, lambuzador compulsivo de gregos, mas ancorado no afago penoso a troianos. E que acaba por não satisfazer plenamente nem uns nem outros, ou seja, nem os especuladores que idolatram, nem os otários que (des)governam.
Deixemo-nos de faz-de-contas: os especuladores que votem, que escolham, que elejam. Que nomeiem uma administração sucinta e minimal, como, aliás, é apanágio do boa avareza ordenhante. Já que todos desistimos do Bem e nos contentamos com um qualquer mal supostamente menor, decerto sempre será preferível uma opressão directa a uma opressão por intermediários. Poupamos nos intermediários, que, como é universalmente consabido, consomem os maiores balúrdios do preço na mercadoria. Ora, a mercadoria somos nós. É do nosso pêlo e embrulho que tudo sai. Ficam mais felizes os especuladores, que transaccionam (ou traficam) a mercadoria directamente (e, por conseguinte, com mais elevadas taxas de lucro, porque, quanto mais não seja, com menos dispêndios e desperdícios), e não ficamos menos infelizes nós - porque, pelo menos, temos o prazer de ver os outrora intermediários remetidos ao seu verdadeiro nível e meio: o meio de nós.
Assim, não paga apenas o justo pelo pecador: paga o justo e o pecador. Sempre é melhor que nada.
Se já não há país, nem nação, nem pátria (a própria língua está a ir pró escambáu), nem porra nenhuma dessas, porque carga de água persistimos neste luxo sumptuoso de manter um super-Estado e um mega-governo de algo que não existe? É como se depois do falecimento do nosso pai, fantasiássemos a sua existência através da alimentação persistente e copiosa dos parasitas que o consumiram. Aquilo a que se chama agora Portugal (aquela coisa que contrai empréstimos e vive a crédito), mais que uma mera superfície e tanto quanto uma superficção, é uma super-ténia. E um estrito pretexto para a sua perenidade.
Até porque, em bom e sintético português, é imperioso dizer a estes finórios galopantes, e duma vez por todas, que, se o destino fatal e obrigatório de todos nós é ficar em hasta, no comércio da meia-porta, então uma higiene e uma poupança mínimas são exigíveis: dispensamos chulos.

Os caroços de cereja ainda vão ter (muito) que esperar



À atenção do lóbi culinário.

sexta-feira, março 11, 2011

Avanços Gigantones da Civilizacinha


Dos Estados Unidos, ainda e sempre, chegam-nos mais sinais cintilantes duma sociedade avançada:

Monique Smith, de 19 anos, foi detida depois de a Sociedade Norte-Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais ter sido alertada para a sua implicação na morte do hamster, noticia a agência Efe. De acordo com esta Sociedade, que divulgou o caso na sua página na Internet, o animal morreu "com enorme violência", que lhe provocou uma hemorragia interna e danos irreparáveis do fígado.

A jovem enfrenta cinco acusações pela morte do hamster relacionadas com a crueldade sobre os animais e, caso venha a ser considerada culpada, pode levar uma pena máxima de dois anos de prisão e ser obrigada a pagar uma multa de 500 mil dólares (cerca de 3.600 euros).»




Perdoar-me-ão a transcrição tão prolongada da notícia, mas toda ela é um hino à espécie alienígena que vai absorvendo o mundo. Entendamo-nos: nada tenho contra os hamsters - nem a favor, tão pouco. Serão até, juntamente com os lemmings, a espécie mais parecida connosco ao cimo da Terra. Quem massacra assim um hamster, o que não fará a uma pessoa, ou até mesmo a um desempregado ou sem-abrigo? Estremeço só de pensar nisso. E é realmente de estarrecer, a morte do minúsculo e felpudo roedor, "com enorme violência, que lhe provocou uma hemorregia interna e danos irreparáveis no fígado". Calculo a aflição da ambulância, lancinando a caminho do hospital; o esbracejar e ofegar tumultuoso dos veterinários na sala de operações, até ao vagido final: "Estamos a perdẽ-lo! Estamos a perdê-lo!...Deus, faz qualquer coisa!... Pronto, foi-se.» "Piiiiiiiihh!..." Corrobora, fatídica, a máquina.
Resta-nos, em tudo isto, o consolo, e a condolência, de podermos ver o animalzinho martirizado nas páginas da Internet da Sociedade norte-Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais (ASPCA) -que Deus proteja e abençoe, por nos proporcionar tão edificantes cenas. Lá chegarão um dia destes, aos insectos domésticos.
Equiparável à elevação moral desta anedota verídica só mesmo a conversão monetária que encerra a transcrição: se 500.000 dólares só já custam 3.600 euros, então, à luz de tão pródigo câmbio, o ebay.com que estremeça, estamos a caminho!
Uma palavra final de incentivo aos nossos "avançados" e amaricanos de trazer por casa & causa: que matarroanos trogloditas que ainda sois e estais, ó florzinhas! Que atraso monumental, que alunos lerdos e calhaus! Ainda vós ides nos bovinos e já eles estão nos hamsteres!...

PS: Entretanto, podem acompanhar a notícia no site da própria ASPCA. Ainda é mais poética. Atentem só neste sublime preâmbulo:
«NEW YORK—Humane Law Enforcement (HLE) agents of the ASPCA® (The American Society for the Prevention of Cruelty to Animals®) arrested Brooklyn resident Monique Smith last night for fatally injuring an adult female hamster.»
No lugar da jovem Smith, eu acho que teria respondido qualquer coisa como: "E se vocês fossem lawenforcementar para a cona da vossa mãe! E já agora, de caminho, para aqueles laboratórios duns senhores sacerdotes de bata branca, hein!!?..."

PS2: Já não deve demorar muito para ver os nossos liberdadeiros bestialistas a conclamarem, em coro twintante, à ASPCA e aos marines para nos virem resgatar à barbárie das arenas e à opressão dos cavaleiros tauromáquicos. Ter eu nascido num cabrão dum tempo destes!...

quinta-feira, março 10, 2011

O Geo-Carnaval




Em Outubro de 2007, podia ler-se o seguinte:
«Uma juíza federal norte-americana impediu a transferência de um detido de Guantanamo para a Tunísia pela possibilidade de ele vir a ser torturado naquele país.»

Na altura, eu apontei uma série de explicações possíveis para tão insólito facto:
a) O mesmo arguido não pode ser torturado duas vezes - tendo já sido torturado pelos Estados Unidos, não pode ser torturado pela Tunísia;
b) Os Estados Unidos detêm a patente actual da tortura: ninguém pode torturar a não ser em regime de Franchising;
c) Só a tortura dos Estados Unidos e seus satélites é democrática e, por conseguinte, benigna, além de benemérita. Todas as outras são malvadas, abjectas e inadmissíveis;
d) A tortura, devidamente exercida, é terapêutica e melhora a saúde e a qualidade de vida dos paciente; ao contrário da tortura ilegal, contrária aos interesses da humanidade, que, tal qual sustenta a senhora juíza federal, pode causar "danos irreparáveis".
Entretanto, começam a pairar algumas suspeitas: afinal, Guantanamo é um campo de concentração para terroristas ou um local de treino e formação?... (Isto, para além do resort turístico que passa por ser, naturalmente).
Perguntem em qualquer Serviço de Informações internacional, que eles explicam-vos.

Passados mais de quatro anos, eis que irrompe novo géiser bizarro. Só que agora o assunto em causa não é a tortura, mas o bombardeamento. O bombardeamento aéreo de civis, mais propriamente. Toda a americanidade roncante que infesta o planeta, do presidente Obama aos liberdadeiros blogosféricos, passando pelos pseudo-governos europeus, está escandalizada, chocada e indignada com os bombardeamentos que Kadaphi tem ordenado contra os rebeldes líbios. Isto é, os muçulmanos estão a bombardear-se uns aos outros e isso parece que não é admissível. Que horror!, matar civis à bomba!... Crime de lesa-humanidade? Não, muito pior: crime de lesa privilégio: todos sabemos que matar civis muçulmanos à bomba é uma prerrogativa exclusiva dos norte-americanos e do seu mini-me, vulgo estado de Israel. Quem julga o Kadaphi que é? Caso para dizer: Mais ciumentos e zelosos que os deuses, só mesmo os semi-deuses.
Convenhamos, há nisto qualquer coisa de verdadeiramente anedótico. O nível de desossificação moral de toda estas coisas vagamente semelhantes a pessoas atinge já as raias do inverosímil.
Reparem: são os mesmos que, salvo raríssimas excepções, nos têm vindo a endoutrinar, obsessivamente, de que o "único muçulmano bom é o muçulmanos morto", de preferência à bomba, granada ou míssil intelectual, que agora, subitamente, num flique-flaque vertiginoso, descobrem que há muçulmanos bons, jovens, e ardentemente sequiosos de democracia. Aos molhos! Muçulmanos benignos e amigos do ambiente - mais: muçulmanos instruídos e informatizados, que twitam e faceboquejam! - que urge preservar das bombas dos muçulmanos pérfidos, retrógrados e anti-democráticos. De que modo? Bombardeando imediatamente os maus. Tão simples quanto isso.
Este certificado de bondade à pressão integra-se no regime de alucinação colectiva e fantasia permanente que avassala o bacoco semi-letrado ocidental: acredita, tão toina e piamente, que vive numa democracia, como acredita que os outros, da Patagónia ao Bornéu, logo que se convertam ao mesmo carnaval, passam a desfilar tão livres, abastecidos e chilreantes quanto ele. Mas o mais interessante na beleza do raciocínio até nem é isso. O mais interessante e engraçado é como entende que compete àqueles que o oprimem andar por esse mundo fora a libertar os outros. Como assim? Bem, ao contrário desses outros povos oprimidos por esse mundo fora (sob autocracias, tiranias e desdemocracias variadas), que conseguem identificar e fulanizar os autores da sua desgraça, nós por cá, no ocidente supimpa, vemo-nos oprimidos por entidades tão inefáveis quanto diáfonas e crípticas - a mais impiedosa e principal das quais, pelas contas recentes, respondendo pelo nobríssimo título de Défice. Isto é, os nossos liberais da treta, que consideram que os estados não devem desperdiçar dinheiro com hospitais, nem escolas, nem quaisquer infraestruturas de interesse público, entendem que as mesmíssimas entidades devem, em contrapartida, torrar dinheiro às pázadas em porta-aviões, frotas, esquadras e batalhões, para correrem à democratização global XPTO. Nisto, para variar, já não é o Santo Mercado que automaticamente determina e impera. Não; é o cacete supersónico, escavador de reportagens e Défices. Mas quanto custa um porta-aviões/dia, ó pombinhas de rapina? Quem paga? Em primeiro lugar o otário contribuinte americano. Depois, o otário contribuinte europeu, que é quem, no fim de contas, acaba por pagar sempre os serviços globais do cabo de esquadra planetário. Ou aqueles que acreditam tão solenemente que não há almoços grátis, crêem, em simplório tandem, que há intervenções puramente beneméritas e gratuitas? Ou que a cowboiada global não sai do bolso ao pagante se plantão? O caso é que, tudo somado, resulta em qualquer coisa como o escravo do crédito e do défice ocidental, no fundo, a sacrificar-se, penando as cangas do fisco e da burocracia, para que os povos oprimidos do mundo sejam resgatados e emancipados das suas grilhetas geo-históricas. É extremamente reconfortante saber isto... Que a nossa masmorra acende a liberdade na Cochinchina e nas Áfricas. Assim como antigamente escravizávamos esses digníssimos povos de modo e termos, nós, mais folguedos, agora lançamo-nos, ávida e generosamente, na servidão mais frenética, lorpa e compulsiva para que eles vivam melhor. Abdicamos da nossa liberdade em prol da libertação deles. Ah, virtude angélica do caraças! Sempre dá um certo sentido ao absurdo em que mergulhámos e vegetamos à espera da sepultura final. E seria a mais maravilhosa e virtuosa das caridades se, ao menos, fosse consciente e voluntária.
É claro que o facto disto lembrar cada vez a mais a antiga União Soviética, onde as massas se submetiam à servidão mais completa por amor forçado às mordomias duma nomenklatura olímpica, às engrenagens duma burocracia atroz e à voracidade dum aparato bélico mundial, tão folclórico quão libertador, não passa de mera e casta coincidência. Uma coincidência só superada por uma outra ainda mais gritante, mas não menos imaculada: o de estas chusmas liberdadeiras da Internacional Democrática desempenharem o sucedâneo completo, o upgrade venéreo das hordas marxistas-leninistas-maoistas do passado.
Entretanto, de mãos dadas com o obtuso, passeia o óbvio. Servindo de contrapeso à liberdadeirite eufórica, zumbe, soturna e austera, a liberdadeirite céptica. Vários marranos de eleição, imitação, adesão ou simplesmente de serviço, recusam o embarque fácil na romaria dos benevolentes. Dificilmente escondem o escândalo, tanto quanto o mal-estar com a peregrina hipótese. Afinal, a democracia no norte de África e Médio Oriente é patente exclusiva do pequenino estado mini-americano, quistozinho seboso e benigno no meio de toda aquela vasta metástase terrorista (em acto ou potência). Se porventura (o diabo seja surdo!), por alguma excentricidade inopinada e milagreira do chifrudo, algum daqueles vespeiros desata a ser democrático, lá se vai a exclusividade rutilante dos eleitos! Ora, isso é ainda mais inadmissível do que os civis muçulmanos serem bombardeados por outras que não as bombas inteligentes, beneméritas e democratas!...
Além disso, há um detalhe fatídico que está a escapar grosseiramente aos eufóricos, induzindo-os num erro que raia o hipercrime cumulativo de deicídio e lesa-império: todos aqueles muçulmanos aos saltos, sejam eles (segundo a nova tabela períodica dos elementos) benignos ou malignos, todos eles, sem excepção, - persignemo-nos, compadres! - execram e detestam Israel. Ora, como podem ser democráticos, se abominam a essência mais sublime e transcendente da democracia, o âmago mais refinado, rococó e filigranático da liberdade e do bem-estar da civilização ocidental? Logo, democratas, uma ova! De toda aquela fermentação, ninguém duvide, vai germinar um belo caos convenientemente tripulado pelo fundamentalismo islâmico. Fenómeno, esse, que uma intervenção dos emissários do otário contribuinte ocidental apenas agilizará. A ideia, de resto, é mesmo essa: urge lá ir destruir todo e qualquer resquício da velha ordem, mas, compete, sobretudo, neutralizar os arsenais remanescentes. Por detrás de toda a agitação, o objectivo real não é tanto resgatar tão infecundos povos para a democracia, mas mergulhá-los, isso sim, a eito e definitivo, no fundamentalismo. Para efeito da contínua (e altamente lucrativa) saga epopeica da luta contra os gambozinos, convém aquilo transformado em vespeiro desarvorado, berçário duma nova e revitaminada ameaça, mas desdentado o suficiente para não constituir qualquer efectivo perigo. Especialmente, para a única democracia do Médio-oriente e, se formos a ver bem, de todo o Universo.


PS: É mau para a Europa? Será péssimo - para nós, então, que andávamos por lá a fazer pela vida, será horrível, a juntar à catástrofe. Mas será óptimo para os Americanos, para os mini-americanos, para os Russos, para os Turcos e até para o José Eduardo dos Santos. Afinal, a Líbia até competia com ele no Golfo da Guiné. E os Europeus, que trocaram as bolsas naturais pela Bolsa artificial, só têm aquilo que merecem.

quarta-feira, março 09, 2011

Da integridade do papel

O justo presidente do toda esta ribaldaria tomou hoje posse, jurando, como manda o protocoiso, sobre aquela obra de ficção mais que duvidosa. Se tivesse jurado sobre um rolo de papel higiénico teria alcançlado o mesmo real valor, se bem que superior dignidade e significado. Pelo menos em matéria de conteúdo, o rolo sempre seria e, sobretudo, estaria mais limpo. Ou não fosse o Palramento da República o local, por excelência, do ininterrupto despejo oral e moral de toda uma seita de comensais babosos, javardos e arrotantes, a quem a Constituição serve de babete e guardanapo apenas nos intervalos das sessões de fralda e escovilhão para a prosopopeica bosta.

terça-feira, março 08, 2011

Alice diante do espelho


A geração fofa e raffiné que fez o 25 de Abril, ou melhor, que transformou o dia naquela noite sinistra do PREC ( e Derivados + Enchidos subsequentes), anda agora muito enxofrada e queixosa do mais recente efeito da sua mimosa safra: a tal manifestação do 12 de Março, ao som dos Deolinda e dos Homens da Luta. É caso para dizer: a geração que deixou o país à rasca rosna de soslaio à geração à rasca. Depois de terem pastado o erário, agarram-se agora, com unhas e dentes, ao tacho, ladrando a toda e qualquer hipótese de concorrência.
Mesmo no chiqueiro, é sempre divertido assistir ao render da guarda.

PS: Faço ideia os desabafos entre a Helena Matos e o Pachoco Pereira, acerca dos novos candidatos às suas ricas migalhas: "Filhos da puta! famintos! calinas! Não querem é emigrar!..."

segunda-feira, março 07, 2011

A Trolharia, ou o Cripto-feudalismo (rep)

Em 1935, a propósito dum "projecto de lei sobre Associações Secretas" apresentado por José Cabral na Assembleia Nacional, escreveu Fernando Pessoa:
«Começo por uma referência pessoal, que cuido por necessária, não dever evitar. Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem Semelhante ou diferente. Não sou porém anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica.»

E mais adiante: "O camartelo do Duce pode destruir o edifício do comunismo italiano; não tem força para abater colunas simbólicas, vasadas dum metal que procede da Alquimia".

Ora bem, por especial deferência ao maior vulto das nossas letras, também eu principio por uma referência pessoal não menos incontornável:
Não sou maçon, nem católico, nem pertenço a qualquer ordem, religião, seita ou ideologia semelhante ou diferente. Não sou porém, anti-católico, como hoje em dia tanto está na moda, nem, tão pouco, anti-maçon, e passo a explicar porquê.
Pessoa recomenda que não se confunda Ordem com seita. E é esse quesito básico que cumpro. Não confundo uma associação de malfeitores, de ratões e nepotes sabujos - em suma, um grupo alta-recreativo e excursionista de Amigos do Erário Público - com uma Ordem Esotérica. De esotérico é que aquilo não tem nada. De espertalhão, de mafioso, de valhacouto, sim, tem tudo. Transborda. E o único segredo que cultivam é o que dá a alma não ao mistério, mas ao negócio. Refiro-me, como qualquer cidadão adulto na posse mínima das suas faculdades cognitivas já percebeu e facilmente constata dia-sim-dia-sim no sórdido presente desta terra lançada aos abutres, a essa coisa tumorosa e cancerígena que responde pelo pomposo título de Grande Oriente Lusitano. O próprio nome é sugestivo e apropriado: orientação não lhes falta. Julgo mesmo que não gastam a vida senão nisso: orientarem-se. Orientam-se pela medida grande. À grande e à francesa. Anda o país todo desorientado para que eles se orientem.
Não pensem, todavia, que é preconceito ou pura malevolência minha. Admito que existam Lojas da Maçonaria Regular por esse mundo fora que preservem uma qualquer seiva mística impoluta e perpetuem, sem verdete nem caruncho, essas "colunas simbólicas, vasadas dum metal que procede da Alquimia", conforme dizia Pessoa no seu artigo. Admito, sim senhor. Não me custa mesmo acreditar que nesses digníssimos tabernáculos se busca a compreensão, intuição, iniciação, ou o que seja, a sublimes assuntos e Obras transcendentes, já não falando no conhecimento taumatúrgico dos inefáveis projectos do Grande Arquitecto e outras subtilezas fascinantes que tais. Da Patagónia à Conchichina, não o duvido, devem abundar templos desses. Da Groenelândia ao Burkina Fasso, estimo bem que proliferem, em boa luz e harmonia. Não será mesmo por falta de filantropia tão proficiente que o mundo não pula e avança e, pelo contrário, a cada hora que passa, mais patina em bosta e chafurda em sangue.
Pois, é tal qual digo: por esse mundo fora, não hesito em reconhecer todo um vasto leque de possibilidades e prodígios, toda uma cintilante pletora de maravilhas e alambiques. Que, logo por azar, nunca penetraram em Portugal. Não penetraram nem medraram minimamente que se visse. Ou se penetraram, a semente em vez de se elevar do estrume, diluiu-se nele. Porque aqui nem vê-la, à excelsa e sublime Maçonaria. Aqui, aconteceu à Maçonaria o que aconteceu ao whisky e acontece a qualquer produto escocês: martelaram-na em caves turvas à beira Trancão. O néctar deu lugar à mixórdia. De maçonaria ficou só o invólucro, o rótulo e a rolha. Esfregue-se a lamparina e o génio que sai lá de dentro usa cascos e tresanda a bombinha fétida de Carnaval. Obra de pedreiros-livres? Será, não sei aonde. Porque, para cá da fronteira, nunca ultrapassa o esquema de trolhas e mestres-de-obras, agência e gardanho de empreiteiros à rédea solta.
Operam na penumbra? Cavilam e zombam do cidadão comum? Corroem e carcomem os alicerces da democracia? Minam a credibilidade das leis e dos tribunais? Usurpam a putativa soberania popular?
Serei o primeiro a insurgir-me contra tais fábulas. Como é possível carunchar os alicerces de algo que nasce, emerge e viceja da podridão? Como é possível minar um queijo-suíço? Como é possível usurpar uma fantasia?
Por tudo isso, acusar esta seita mascarada - esta Trolharia - de conspiração ou cabala é a anedota mais estapafúrdia que ouvir se pode.
Por uma evidência escancarada: não atentam contra o regime: exercem-no, vistoriam-no, supervisionam-no. Não conspiram, governam. Melhor dizendo: governam-se. Que nem lordes, que nem abades!...

sábado, março 05, 2011

Oh Pá, escuta: chutzpah comigo não resulta.


O leitor e colega bloguista Joshua espraia na caixa de comentários do postal anterior um conjunto de prolegómenos típicos dumas certas franjas farisaicas da nossa blogosfeira. Aproveito para responder, mais que ao Joshua, a todo um "pensamento em espécie" que a tantos faz salivar e resfolegar tão descompassadamente.

1. "Os judeus não estão a promover lavagens cerebrais a crianças em campos de treino-militar", mas estão a promovê-las nas nossas escolas, nos nossos cinemas, nas nossas redacções e também nas escolinhas religiosas deles, vulgo yeshivas. É só escolher entre o fanatismo religioso duns e o fanatismo comercial doutros

2. "Os judeus não sequestram aviões nem matam atletas nos Jogos Olímpicos", nem, já agora, gaseiam de empreitada, mas montam banca de proxeneta nisso tudo. Lembra a lógica do formigueiro: as formigas que tombam são logo transportadas pelas outras para a despensa.

3. "Não há um único judeu que tenha destruído uma igreja"... E depois ficavam sem padres onde escarrar, o que seria uma maçada e a perda dum grande divertimento nacional.

4."Os judeus não traficam escravos"... Pois, é mais escravas. As maiores redes mundiais de tráfico de carne branca, de órgãos, de droga, de diamantes e de armas, têm judeus em plano de destaque na respectiva gestão e aprovisionamento.

5. "Talvez os muçulmanos devessem queixarem-se menos dos judeus"...Sem dúvida. Tal qual os judeus, seguramente, deveriam queixar-se menos da humanidade em geral e de todos os povos onde se hospedam, especialmente os europeus, em particular. Maiores queixinhas e ladainheiros crónicos profissionais não se conhece ao cimo da Terra. Com a agravante da queixa aparecer invariavelmente acompanhada de pedido de indemnização com retroactivos e alcavalas. Agora se ficarmos todos à espera que os muçulmanos deixem de se queixar dos judeus a partir do dia em que os judeus deixem de se queixar de toda a gente, então, bem podemos ficar à espera do dia de São Nunca à Tarde.

6. "Os muçulmanos deviam perguntar o que poderiam fazer pela humanidade?"... Desocupar a Palestina e arredores, seria, presumo, o primeiro passo. Suicidarem-se em bloco, seria o segundo, talvez, não? Bem, já fornecem, há quase um século, grande parte do petróleo que alimenta o motor da democracia. (e, por inerência, da humanidade) É mais do que nos podemos gabar nós, os portugueses, que também somos uns belos lamuriosos da treta. Daí que talvez a humanidade nos respeite ainda menos do que aos mouros. Além disso, só para citar outra gigadência, foram os muçulmanos que, recentemente, acudiram com petrodólares à economia semi-falida da "humanidade". O presidente do sócio maioritário desta, o tal Obama, sabe-o bem. E tem agido em conformidade.


Dito isto, especifiquemos: Quando digo judeus são todos os judeus? Não, são alguns judeus. Alguns judeus são filhos da puta, como alguns portugueses, alguns muçulmanos e alguns americanos. Que a preponderância mundial dos filhos da puta judeus seja mais elevada que a dos seus congéneres portugueses não oferece dúvida. É a distância que vai do Grande Filho da Puta ao pequeno Filho da Puta, na versão de Alberto Pimenta. Mas numa coisa judeus e portugueses serão semelhantes, quiçá até irmãos, enquanto povos: na densidade de filha-da-putice. É elevadíssima em ambas as congregações. E refinadérrima: os filhos da puta não apenas se reproduzem a uma velocidade estonteante como intentam esterilizar tudo em seu redor.
A questão, verdade seja dita, tornou-se, assim, cultural: onde as civilizações antigas experimentavam admiração e emulação pelo heróis, estas infestações actuais contraem um fascínio danado e uma volúpia macaqueante por todo e qualquer filho da puta resplandecente.

Quanto ao confronto judeu/muçulmano, parece-me que o destino estará mais ou menos traçado: os israelitas não descansarão enquanto não erradicarem os palestinianos; os muçulmanos em geral não repousarão enquanto não erradicarem os israelitas. Parece-me que a nós, europeus, uma vez despertos da catalepsia induzida, compete duas coisas: deixá-los em paz, a judeus e muçulmanos, nos seus afazeres domésticos; promover para que aqueles que se encontram entre nós regressem , o quanto antes, aos seus povos natais. Para o intenso debate que se aproxima, todas as vozes serão poucas.

Num próximo postal, explicarei então porque sou ultra-sionista.

sexta-feira, março 04, 2011

Curiosidades de feira

Lembram-se do "Feeling the Hate in Jerusalém"?

Pois vem muito a propósito. Atente-se no artigo de que retirei os trechos que se seguem...



Então porque é que as declaração recolhidas de judeus bêbados não têm qualquer valor jornalístico, enquanto que as de um qualquer Galliano bêbado constituem prova mais que bastante e cabalíssima para julgamento sumário, linchamento profissional e anátema até à quinta geração?
Porque, suponho, quem compra as regras arvora-se o pleno direito a não cumpri-las. As regras são para os outros. E isto nada tem de teoria da conspiração: é mera constatação de factos. Em enxurrada. Eu diria até que já tresanda a hubris das grossas. E como toda a hubris não vai ter bom fim.

Fora isso, tem imensa piada a expressão - toda condescendente e desculpabilizadora - de "jewish kids", como se, neste caso, já desse jeito passarem por iguais aos gentios. Ora, o facto é que um judeu masculino atinge a maioridade plena aos 13 anos. Como é que gente tão estúpida consegue ser tão petulante?

PS: Quanto ao vídeo inicialmente referido, parece que foi banido do Youtube. Em honra da tão cantada e propalada liberdade de expressão no Ocidente livre e democrático, presumo.

PS2: Mas podem vê-lo aqui, os interessados.

quinta-feira, março 03, 2011

Pacheco Pereira e o seu método revolucionário para a Oposição

Da hierarquia abissal




Justificação de John Galliano, uma vez sóbrio, acerca do episódio que as televisões não se cansam de relatar:
-"Antisemita, eu? Mas não eram mongolóides?"

Em todo o caso, parece que a bizarra criatura se queixa de ter sido, em primeira instância, vítima de provocações e insultos homofóbicos. A sua resposta a esse alegado ataque é que revela um grau de estapafúrdio só eventualmente equiparável ao grau de etilização. Realmente, comunicar aos mongolóides que, no que dependesse de Hitler, não estariam ali de boa saúde, sendo verosímil, não deixa, contudo, de ser perfeitamente disparatado: no que dependesse de Hitler, ele próprio, Galliano, enquanto gay e artista decadente, também não estaria ali. Que sentido, pois, faz, à luz do sagrado actual, acusar um gay de anti-semitismo? Será que, na escala dos sacrilégios, o anti-semitismo prevalece sobre a homofobia, como, por exemplo, nos crimes vulgares, o assalto à mão armada prevalece sobre o simples furto?

Agora a sério. Penso que esta peripécia recorrente, numa incivilização que terraplenou e açougou todo e qualquer sagrado, revela que, afinal, se tenta, manhosamente, colmatar o sacrovácuo através da injecção de botok pseudo-inefável - que é como quem diz, um fundamento religioso de pacotilha erigido em dogma irrefutável e indiscutível. Esse dogma, nesta neo-democracia fundamentalista, acreditem ou não, chama-se "holocausto".
Ora, no tal holocoiso, tanto os judeus como os homossexuais desempenham a função martirológica abastecedora da hagiografia oficial (embora por uma questão de táctica talibã e capricho comerciante os arvorados em holojudeus reclamem uma exclusividade feroz, por via, presume-se, duma espécie de patent pending da invenção). Mas como sobre os delírios, por mais sulfatados e massificados que sejam, prevalece a realidade, o certo é que o genocídio deve ser entendido na sua totalidade e não na sua parcialidade. A aceitar esse reducionismo exclusivagante, não se trataria dum holo-causto, (inteira-cremação), ou seja, da chacina completa e metódica de ciganos, mongolóides, esquizofrénicos, judeus, comunistas e democratas em geral, mas apenas de um merocausto (semicausto, hemicausto, minicausto, ou o que se entendesse chamar à cremação de apenas uma parte), isto é, o massacre parcial de judeus. Ora, como é bom de ver, não é de todo admissível que uma parte reclame para si a totalidade do evento. A não ser que aceitemos que há vítimas mais vítimas que outras. Se bem que, na verdade, seja precisamente isso que, mais uma vez, toda esta anedota indicia: a tal hagiografia (embora derramando-se sobre mongolóides, atrasados mentais, judeus, ciganos, homossexuais e democratas em geral) será tudo menos democrática. Pelo contrário, parece porfiar e subverter pelo estabelecimento terrorista duma espécie de hierarquia celeste grotesca, com os judeus acima de todos os outros, em contacto íntimo com a Divindade Resplandecente e em usufruto privilegiado das cornucópias pródigas deste. E lá voltamos nós a Orwell: Todos os anjos são iguais, mais há uns anjos mais iguais que outros. Entretanto, visto tratar-se aqui duma querela flagrante entre as duas ordens superiores da pseudo-hierarquia celestial, um marxista, naquele seu jeito brejeiro típico, chamar-lhe-ia "luta de classe". Mas eu, que prefiro sobremaneira a lucidez, acho que é mais zaragata de falta dela.

quarta-feira, março 02, 2011

Macbeth ainda vive


«Macbeth é o mal fantasma. Ele não é daqueles lobos que andam, pela noite da história, dilacerando as liberdades das pátrias. Não.
É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra, seria igual a Satã. Quando a sua coroa reluz na escuridão parece que as constelações devem seguir aquele reflexo terrível, curiosas de saber que sombria aventura vai ele tentar contra o Homem. Porque é certo que ele provoca a atenção do infinito, e tem misteriosas afinidades na noite.
Ele atravessa todo aquele drama como um espectro.
(...)
Ésquilo, quando vê Prometeu pregado no Cáucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade de mármore dos deuses de nomes sonoros, vem, pálido, ajoelhar junto daquele rochedo ideal e santo como um altar, e apenas, sufocado, pode fazer um gesto suplicante ao velho mar, para que mande as suas oceânides consolar o vencido enorme.
Shakespeare porém quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, matar os homens históricos, derrubar os capacetes heráldicos, matar os instintos, matar os Macduffs, matar as crianças de olhar divino, as mulheres de seios fecundos, matar a pátria, corre desvairado, toma uma floresta e vem esmagara feroz criatura sob um desabamento da santa Natureza: e aquele castigo passa com o ruído terrível do carro da justiça.»

- Eça de Queiroz, "Prosas Bárbaras"

Duas notas breves, uma sobre o autor do texto, outra sobre o conteúdo do mesmo. 1. Como é que um tipo com um talento destes acaba a escrever romancetes para burguês ler (pior descalabro em vida só mesmo a obra de Camilo com as suas novelas a cordel)?... Nunca me cansarei de lastimar.
2. Num ponto, Shakespeare e eu concordamos na perfeição: a única revolução genuína e meritória - a única digna da nossa Esperança - é a da Natureza. Todas as restantes não passam de imitações de fancaria, arremedos e macaquações onde toda a justiça se vê usurpada e conspurcada pela mera e suja violência. As revoluções humanas jamais têm excedido o mero trampolim da velhacaria.
É por isso que eu, no meu respeito humilde, não incomodo Deus com as minhas súplicas. Em contrapartida, rezo às montanhas, aos ventos, aos oceanos, aos gelos, aos astros e meteoros porque, de algum modo, suspeito, reconheço, sei que neles habita Nemésis - a força cósmica e eterna da retribuição e do reequilíbrio.