segunda-feira, novembro 29, 2004

Da Esfinge



«A pergunta da Esfinge, sabemo-lo, é a pergunta pelo "homem". No seu percurso vital, a vida deste acompanha o sol. Caminham lado a lado. Nascem, elevam-se e declinam. Ora, se o sol se regenera, porque não se haveria de regenerar o homem? E se o homem acompanha o sol, como se regenera ele?
Chamamos amanhecer ao nascimento do sol; chamamos infância ao amanhecer do homem. A ideia de que cada homem é uma ilha, um indivíduo –no sentido de unicidade isolada - que nasce e morre definitivamente, choca, colide, alterca com essa outra forma, chamemos-lhe cósmica, de entrever o antropos. De facto, a forma aleijada e efémera de entender a vida humana, tanto quanto preside aos mecanismos potenciadores do mundo e do "estar-no-mundo", de igual modo emerge a partir duma redução, duma estreiteza grosseira de vistas. Porque, como a natureza inteira grita a plenos pulmões, nem a morte é definitiva, nem o nascimento é único. O bebé que nasce não irrompe súbita e unilateralmente, desligado e excêntrico, como um big-bang ad-nihil. A criança é continuação, persistência, como a morte é passagem, presságio. Na criança é o homem que amanhece, como é o ancião que se regenera.
Por outro lado, na separação umbilical que sucede ao nascimento, a tesoura só corta o cordão, não interrompe o vínculo, o elo íntimo ao Ser. Não é uma fabricação o que se colmata: Nem a mãe é uma fábrica, nem a criança é um artefacto, ou manufactura. Também não é um ciclo novo e inaudito que principia, que irrompe insulanamente, mas o fio da vida que persiste, que perdura e se regenera. É o amanhecer do homem. No fim da noite, da espera, irrompe a madrugada: acontece a luz, que se restaurou atravessando as trevas. Eterno retorno e metáfora cósmica, o pé humano ergue-se, aí, da caverna. Do antro matriz, onde a vida se firma e a pegada permanece.
O Homem não é só um apogeu, um auge: é também um dealbar e um entardecer. Não é apenas um erguer-se e afastar-se, elevando-se, no horizonte, como do "antron": é igualmente um primórdio vacilante e um regresso exausto ao chão, à noite, a casa. É-o enquanto episódio e enquanto epopeia. O episódio não se encerra num verso, como a epopeia não se reduz a um episódio. Depois, tudo junto devém metáfora, mythos, pulsação no coração do tempo. Quer dizer, não termina, não acaba, não desiste. Pelo contrário, transfigura-se, transmuda-se, mas persiste. Obstina-se. Contrapõe a tenacidade à ligeireza e frivolidade do mundo.»

- "O Fio e e o Fito", in "Tratado da Besta".

Se não gostam, não comam. Mas hoje deu-me para citar o meu Mestre.

sábado, novembro 27, 2004

A Pedocracia

Enquanto o PCP, último baluarte da esquerda operária e da religião marxista-leninista, prossegue a sua alegre fossilização (louve-se-lhe a coerência), no pólo oposto (mas, ao fim e ao cabo, não muito) os partidos mais ou menos liberais (e mais ou menos iguais), aos comandos do Eldorado, não se cansam de empinar copos na Fonte da Eterna Juventude. Se aqueles fossilizam, estes rejuvenescem desenfreadamente. Ao Parque Jurássico de uns, opõem os outros o parque infantil. Poder-se-ia dizer "venha o diabo e escolha", mas o mais correcto era mesmo dizer-se "venha o Diabo e leve-os a todos para o parque de diversões que tem lá nas profundezas!"
No meio disto tudo, não admira que o putativo eleitor desespere. Se se fantasia em trajes esquerdistas, depara com broncossauros e tiranossauros rascas; se se imagina enfarpelado às direitas, dá de caras com chavalinhos queques de farta trunfa e carinha imberbe. A bancada parlamentar do PP, quanto a isso, é paradigmática e superlativa: sugere que a digna sala de espectáculos vive em contínua e gralhante matiné. Aos pequenos Nunos Rogeiros em gestação, só lhes falta mesmo pipocas no respectivo balde, porque, quanto ao resto, já em nada deslustram do seu ídolo sénior, nem dos seus modelos "teens" de "Beverly não sei quantos".
A política, por este caminho, corre mesmo o sério risco de descambar num ramo da puericultura. E a democracia, à força de jotinhas emperucados e sabujantes, de redundar numa pedocracia babélica. O país, esse, fica condenado, um dia destes, a ter que limpar o cu a meninos.

sexta-feira, novembro 26, 2004

O labirinto

Em Portugal, há excesso de função pública e um défice crescente, a desmesurar-se, de serviço público. O "funcionário", regra geral, não tem em mente servir o público, mas servir-se dele. E se isto se passa a jusante, a montante cumpre-se o exactíssimo reflexo no espelho: basta substituir a palavra "público" pela palavra "Estado".
Não julgo que seja um fenómeno exclusivo do nosso país. Toda uma Europa burocratizada vive este mal-estar intestino, este conflito nas vísceras entre "Função" e "Serviço", ou melhor dizendo, entre o verbo "funcionar" e o verbo "servir". Quer dizer, aumentam quotidianamente as realizações e reinvenções peregrinas que vão funcionando, mas diante das quais, o cidadão minimamente desperto se coloca uma interrogação inevitável: Para que é que isto serve?
É mesmo uma pergunta que assombra cada vez mais o nosso mundo. Destrambelhado mundo que, quanto mais se complica, se "moderniza" e reforma, mais absurdo parece. Como o labirinto, dentro do qual perdemos há muito toda a orientação e zanzamos dementes, irremediavelmente perdidos, sem memória da entrada nem, tão pouco, a mínima noção ou fé na saída. Escutando apenas, cada vez mais próximo, o resfolegar lúgubre da Besta que lá reina. Os gregos chamavam-lhe Minotauro. Nós havemos de chamar-lhe o quê?...

Porque quando o mundo deixa de ser construído para o homem, passa o homem a ser criado para o labirinto.

terça-feira, novembro 23, 2004

O Apocalipse segundo S. Mário - I. Os motivos

A terceira república, além de não ter resgatado o país do marasmo onde o deixou a segunda, corre sérios riscos de ir pelo mesmo ralo da primeira.
Sobre essa evidência já eu tinha elucubrado há dias. Vem agora S. Mário, de trombeta em riste, despender amargos queixumes sobre a mesma questão. Especifica ele que, não pipilasse o país sob a asa protectora –e sedativa – da Europa e, a esta hora, com tanta corrupção e crispação social à solta -uma vergonha!- e já militares exaltados, de estribeiras perdidas e espingarda na mão, se teriam soltado também dos quartéis, em pronunciamentos, levantamentos, motins – barrelas, enfim. Estaremos a ouvir bem? Estamos. Será caso para alarme? Quando o próprio pai da democracia portuguesa, o engendrador capital das suas moléculas, vem bradar para a rua, em barrete e ceroulas, que a filha anda na má vida, enrodilhada com alcoviteiros e proxenetas, amancebada com merceeiros, a esfolar trolhas na borda da estrada e sabe-se lá que mais, muito naturalmente as almas mais sensíveis tenderão a preocupar-se, senão mesmo a escancarar a boca de espanto. As almas sensíveis, ou seja, aqueles que tenham acordado agora após um coma profundo de vinte anos. Fora esses, julgo que mais ninguém se alarma nem descobre motivos para isso. E depois de vos expor as razões, julgo que também todos vós concordareis comigo e dormireis repimpados esta noite.
Começando pelos motivos para alarme...
1. O putativo golpe militar.
Bem, para haver golpe militar é necessário, no mínimo, uma coisa: os tipos que fazem o tal golpe, ou sejam: os militares. Ora, toda a gente sabe que a instituição castrense foi purgada dessa gentinha belicosa, como se de um explosivo instável se tratasse. Por atávica mania, esses energúmenos cultivavam o péssimo hábito de considerarem a pátria acima dos partidos políticos. A partir do momento abençoado pela História em que a pátria passou a andar por baixo dessas bizarras associações, a permanência desses fulanos nas fileiras tornou-se indesejável, afronta potencial de lesa-democracia. Procedeu-se em conformidade. À presente data, quando muito, restam não militares mas militantes, funcionários públicos fardados e estrelados –lacaios de luxo, enfim –, mais a criadagem avulsa de todas as épocas (quer dizer, a soldadesca anódina e de plantão às mordomias dos graduados). Não espanta pois que os preocupe mais a fundação dum sindicato que a redenção da pátria. Têm prestações para pagar.
Mas, mesmo admitindo o fabuloso, só para efeito retórico, mesmo que houvesse um golpe militar, que tremenda interrogação angustiaria a esta hora, e por antecipação, o povo? Provavelmente, apenas a prosaica conjectura de qual a flor garrida que os bravos magalas trariam na ponta das armas desta vez.- Cravos? Rosas? Malmequeres? Manjericos? Narcisos?...
2. A corrupção, essa metástase.
As pessoas, regra geral, alarmam-se com algo de surpreendente, de inesperado ou ameaçador. Pelo contrário, relaxam diante daquilo que é corriqueiro, habitual, vulgar. Pior: desinteressam-se, enfadam-se. Ora, como todos sabemos, e estamos cansados de saber, a corrupção, em Portugal, será tudo menos surpreendente ou inesperada. De facto, mais que endémica, ubíqua, deveio já modus vivendi (ou dito à moda fadista, constituiu-se em "estranha forma de vida"). Poderá ser estranha, mas é a nossa. No estado actual dos negócios, vir alguém bradar contra a corrupção é o mesmo que vir pregar moral a um heroinómano ou exortá-lo, em evangélica pregação, a abandonar tão nefasto vício. O que torna a coisa ainda mais caricata, próximo da anedota, é ser um ex-traficante e fornecedor inaugural do toxicodependente, subitamente transmudado em anjo de procissão, quem rompe em perorações bacocas ao domicílio.
3. A crispação social, esse vulcão...
Existe, é um facto; tem-se vindo a acumular. Mas a razão é simples: O Benfica não ganha o campeonato vai para 11 anos. Basta que esse jejum termine e a crispação acaba. É tão simples quanto isso. Concretize-se esse anseio aglutinador da grande maioria de encrespados, reforce-se a dose de novelas, de reality shows, de hipnose mediática, e Portugal entrará no melhor dos mundos. Os actuais governantes sabem disso. E estão a tratar do assunto.
Quanto aos motivos estamos por conseguinte conversados. Só um existe, mas, o mais tardar em Junho de 2005, estará resolvido. Os desígnios nacionais, os interesses de estado, cá, no país das maravilhas, são assim.

domingo, novembro 21, 2004

Carta Aberta ao Criador

Meu Deus,

Tranquiliza-Te. Desta vez, não venho sarrazinar-Te com sugestões urgentes, como a de exterminares uma série de povos por quem nutro profunda antipatia, nem fazeres crescer orelhas de burro nuns quantos comentaristas cá da praça. Já percebi que, de momento, não estás pr’aí virado, portanto, não insisto. Tenho pena, muita mesmo, mas não insisto. Mas sempre Te digo, em relação aos segundos, que já que lhes distribuiste espíritos de asno, não custava nada facilitares também as orelhas. Sendo cretinos, ao menos tornavam-se pitorescos e o pagode ria, mais do que já ri. Enfim, lá deves ter as Tuas razões, certamente inefáveis e transcendentes. Curvo-me diante delas.
Também não venho incomodar-Te com requerimentos intermináveis de perdão para os meus pecados que, como bem sabes, não só não diminuem, como, com a idade, vão de vento em popa e versam sobremaneira aquele bizarro mandamento com que couraçáste (segundo os Hebreus) a mulher do alheio. Senhor, é mais forte do que eu: antes ser amante da mulher do alheio que amigo do alheio. Hás-de fazer-me a justiça que é um mal que faço para evitar um mal maior e que espero me seja contabilizado como atenuante por alturas do Juízo Final. Além do mais, como o burguês prefere ser cornudo a ser pobre, em nada contendo com a santa paz da Criação e das criaturas. Tenta compreender: enquanto me entretenho com a mulher dele, não lhe cobiço nem defenestro a propriedade. Bem sabes, Tu que sabes tudo, como é essencial para a boa harmonia das coisas que o macho vigoroso se liberte regularmente da bicharada que lhe fervilha nos testículos. Foste Tu que o criáste assim, Excelência. Encurralá-los, aos tais, nessa prisão claustrofóbica acarreta impreterivelmente maus humores e violentas tendências, como rugir impropérios e escaqueirar coisas. Em suma: o sujeito perde de todo o bom feitio e torna-se religioso. Ora eu, perdoar-me-ás a singularidade, prefiro ser um humilde pecador, a andar pelo mundo em certas figuras. Mas isto, ó Altíssimo, que fique aqui, hermético, entre nós. Não vá algum Espírito Santo de orelha dar com a língua nos dentes à Senhora Dragão e, a seguir ao Carmo, cai a Trindade. Livra-Te, pois, a Ti, ó Pai Celeste, dessa queda desnecessária e a mim, criatura terrena, desse apocalipse cavernoso.
Tão pouco –alegra-Te – venho hoje molestar-te com recomendações prementes para que leves para junto de Ti –e parqueies nesse condómino ardente que tens na cave, sob a benemérita supervisão dos cornúpetos zeladores –, a corja de políticos que infesta a Terra e, sobretudo, aqui o rincão pátrio. Já me descabelei o suficiente a tentar expôr-Te o meu ponto de vista sobre a prioridade desse assunto e acredito que ruminas e deliberas, em solene retiro, sobre a bondade dos meus argumentos.
Não, ó Transcendência, o que aqui me traz, nesta hora de assombro, é apenas uma pequeníssima e mirradíssima questão -uma questiúncula, melhor dizendo- enfim, uma borbulha acintosa do pensamento que, em teimosa comichão, pr’àqui me cita e toureia. Consiste essa verruga no seguinte: após rebordados colóquios e exaustivos seminários Contigo, a muito custo, fruto de muita oração e - porque não dizê-lo- flagelação dos instintos (sobretudo homicidas), lá consegui perceber alguns pormenores mais nebulosos da Tua Criação. Sendo Tu absolutamente Bom, ela só podia ser absolutamente Boa, o que transposto para certa casta de dejectos, excrementos, maleitas, bactérias, vírus, répteis venenosos, insectos peçonhentos, vermes rastejantes, lombrigas, ténias, vampiros, etc, etc, me transportava a confusa estupefacção e inerente estranheza. Era a estúpida da Razão a meter o bedelho onde não era chamada. Identificada essa disfunção da minha estrutura mental, lá consegui, com a Tua preciosa ajuda, superar o meu néscio cepticismo e ascender a uma clarividência mais benévola e compreensiva do verdadeiro fundamento e finalidade dos entes. Com grande surpresa minha, apaziguei o meu espírito com todas essas existências nauseabundas e repugnantes. Começei a ver com outros olhos os vermes, os micróbios, as formigas, as ratazanas, certos batráquios, as hienas, os monstros alienígenas, o Vasco Graça Moura, o Pacheco Pereira, a Clara Ferreira Alves, o Moita Flores, e até o Luís Delgado, imagina! E até os americanos, pasma! Grande poder Miraculoso, o Teu! E que esforço sobrehumano, o meu! Mas –eis a nanoquestão, Senhor -, mesmo com todo o teu Poder Miraculoso, mesmo com toda a minha titânica fibra, resta ainda uma cabra duma minudência que infecta e conspurca o Teu universo mais que perfeito: é o Vasco Rato, ó meu Deus! O Vasco Rato e aquele puto anormal, um Não-sei-Quantos que parece ter brotado por partogénese anal do primeiro!... Para que é que aquilo serve?...

Aguardo a Tua sobredouta resposta em perturbada angústia.

Dragão

sábado, novembro 20, 2004

Prelúdio Natalício

Eu, francamente, não sei ao certo se há ou não Pai Natal. Em contrapartida, sei, de fonte limpa, que há cada vez mais filhos da puta que dizem que não existe Pai Natal. Pior: Que eles é que são o pai Natal, eles e os patrões deles e o cabrão do Cartão Visa.

O mesmo se aplica em relação às fadas, duendes, gnomos, deuses, ninfas, unicórnios, e demais seres fabulosos. Aliás, se repararmos bem, veremos que, neste martirizado planeta, todas essas criaturas maravilhosas diminuem na proporção diametralmente inversa aos filhos da puta. Rareiam aquelas, infestam estes. São incompatíveis.

E tem mais: o filho da puta gosta de treinar as crias, desde tenra idade, à sua imagem e semelhança.
Até porque agora, os bebés, garante o filho da puta, já não vêm de França, via cegonha. Não, agora são incubados na América, como os frangos, e vêm de avião, num pacote. É só juntar leite ou iogurte, expôr às emissões televisivas, entregar ao cuidado de ogres diplomados e ai está, a papa fica pronta. Não são clonados in vitro: são clonados em vida.

sexta-feira, novembro 19, 2004

ÓSCAR?!! -Que emético vem a ser esse?...

O Clark 59, rapaz de talento que, apesar de jornalista nas horas pagas, é credor de alguma da (pouca) estima que eu dispenso à humanidade contemporânea, imbuído certamente das melhores intenções, desinquietado por um espírito precoce de quadra natalícia, cedeu a um esbanjamento peregrino e decidiu premiar este vosso -nada humilde e muito menos criado - Dragão, lá no blogue dele.
Não precisava. Se queria homenagear-me, a melhor forma de o fazer era continuar a escrever as prosas (poesia, como já referi, contorno diplomaticamente) regra geral suculentas que por lá posta e eu, com prazer, sempre que posso, leio.
Atribuir-me um óscar, pese a excelente companhia em que me coloca, é que já não me parece tão bem alembrado quanto isso. Direi mais: gesto mais infeliz seria difícil. Considero mesmo uma desconsideração difícil de digerir. Em primeiro lugar, porque considero o elogio, sobretudo na forma de “prémio”, como a forma mais infamante de insulto. Lembra-me caninos em concurso, ou bichanos a certame. Mas isso, não sendo pouco, ainda é o menos...
O pior, e segundo ponto, este sim verrinoso, é a forma –o papel fantasia – com que se meteu a embalar a prenda: um “óscar”. Um “ÓSCAR”, ouviram bem. Dar um “óscar” a um taliban como eu, mais que injúria insanável, só pode soar a provocação capaz de desencadear a Terceira Guerra Mundial. Americanices não, caralho! Ele fez aquilo inocentemente, eu sei, mal dirigido pelo seu bom coração, leviano como todos os bons corações. Mas eu é que não tenho que arcar com os dislates do bom coração alheio, nem posso deixar passar impune a gaffe. Tenho um péssimo nome a defender, pôrra! Uma reputação à prova de virtude que muito me custou a agenciar, chiça! Se, além da humilhação, era a ruína de toda a minha auto-estima o que almejava, então devo dizer: quase conseguiu. Amigo da treta!
Finalmente, ó alma infeliz, também te equivocáste na categoria. Os únicos “ensaios” em que tenho reconhecidos méritos são os “ensaios de porrada”. Mas porrada literal e não alegórica, patadas a sério e não filosóficas.
Esmifro-me pr’aqui eu a desarrincar dos confins dos maus fígados estas barbaridades dignas dum Huno desvairado, e vens-me tu, ó Clark, com uma desfeita dessas!...Francamente.
Olha, falando curto e grosso, vai chamar “Abrupto” ao raio que te parta!...

PS: Sendo que o BOS merece o prémio de blogue de “intervençao política” (embora o termo “blague” lhe assentasse melhor), achei piada teres também dado o prémio da intervenção ao Buiça. Neste caso, presumo que deva subentender-se “intervenção” não política mas cirúrgica. Com efeito, da última vez que o li ele aguardava, já em desespero, dador para um transplante cerebral. Folgo que o tenha encontrado em tempo útil e que a operação, pelos vistos, tenha saído coroada de êxito. A medicina faz milagres. Tenho que ir visitá-lo um dia destes. Por enquanto não, coitado, que ainda deve estar em convalescença.

Dragão rebola-se a rir!...

PS 2: Dá o meu putativo óscar ao Dodo. Ele que receba e fique com os dois. Merece. Faz serviço público. Eu, o melhor mesmo é não ir aí, senão ainda incinero a audiência!...




quinta-feira, novembro 18, 2004

O Progresso - esse Come-e-caga, senhores!...

A literatura –a utopia é um dos seus ramos –, apesar de tudo, é inodora.
Quando exercem as suas contabilidades maravilhosas e espraiam os povos do mundo, as épocas e as civilizações nos seus condóminos de filigrana, em exercícios de perfeição, em manobras assépticas de aprumo, os grandes ficcionistas, do cume da sua fantasia, esquecem um pormenor sórdido mas, todavia, deveras relevante: é que tudo aquilo come, tudo aquilo caga, várias vezes ao dia, todos os dias da vida. Toda aquela salganhada produz montanhas de lixo; escava, alastra, desertifica, flui e reflui como uma praga, como uma mancha de imundície avassaladora, de efervescência corrosiva e gordurosa à digestão do cosmos. E nos intervalos desse come-e-caga, não poupa horas nem minutos que não esporeie uma voraz obsessão de mais comer-e-cagar ou melhor comer-e-cagar, multiplicando-se viviparamente em renovadas réplicas iguais no apetite mas audazes e amestradas para ainda mais e melhor comerem-e-cagarem. E, se possível, vingarem os pais, avós, ou remotos parentes, desforrando-os daquilo que eventualmente, no seu tempo, não conseguiram comer-e-cagar como lhes competia e era devido. Ora, esse défice é sempre exorbitante. Quanto mais famintos e deficitários do bandulho foram esses predecessores, mais glutões e ávidos, famintos, se manifestam os subsequentes, os hodiernos.
E quanto mais e melhor comem, mais e pior cagam, mais se derretem literalmente em estrume, tornando-se verdadeiras máquinas merdofágicas e merdofóricas. Uma vez concentradas no bandulho, não há quem os detenha.
É este come-e-caga que fede. E é esse amontoado putrefacto que, periodicamente, bárbaros tentam varrer, porque só um bárbaro possui estômago para tal coisa. Para tão repugnante função. Debalde. A paisagem respira apenas momentaneamente, vem à tona, como os cetáceos, em captura ansiosa de fôlego para novo mergulho submarino. Em menos de nada, o come-e-caga reinstala-se, o fedor volta. Leveda, fermenta, exorbita, incha, qual torre de babel, ao assalto das estrelas. Por isso escapa à literatura, que, como qualquer um pode constatar, é inodora -e, a maior parte das vezes e dos projectos gerais de felicidade universal ao domicílio, também insípida, delinquescente.
Aquilo, o monturo, ainda por cima, liberta gases, exala fumos tóxicos, nuvens fantasmagóricas. Chame-se-lhe religião, ciência, política, pouco importa. Serve essencialmente para justificar a comezaina, o regabofe. Para, anestesiar a consciência irrisória duma seita de canibais omnívoros, de comensais furiosos.

Um come-e-caga, acrescente-se, que, nos últimos tempos, se albarda e suaviza num perfeito come-e-cala.

quarta-feira, novembro 17, 2004

O Padre Borga

Estremunhado, a caminho do café matinal, deparou-se-me um quadro horripilante. Em trinados convulsivos, de dentro dum caixote televisivo, um gordo esguedelhado com distinta pinta de açougueiro frustrado martirizava sadicamente um piano e zurzia os éteres com uma melopeia descabelante onde reincidia, a esmifrar-se, num refrão do seguinte teor:
-“Onde está o meu pastor? Onde está o meu pastor?...”
E repetia aquilo desesperadamente, em pregão ao domicílio.
Pude aperceber-me que se tratava dum programa familiar onde assenta praça um tal padre Borga.
Por breves segundos, estaquei, assombrado. Tive pena. Tive pena, sobretudo, de não estar lá, no estúdio, ao alcance da voz, para lhe poder ministrar a resposta justiceira que tudo aquilo merecia e, de goelas à solta, reclamava:
«Eu não sei onde está o teu pastor, ó filho da puta. Ignoro-o completamente. Mas, em contrapartida, sei dum prado viçoso, replecto de erva tenra, onde bem melhor farias se pastasses. Tu e esse padreca de merda, esse tele-chulo aí plantado a bezuntar audiências, grandes cabrões!...”
Aliás, rosnei-o mesmo ao caixote, alto o suficiente, para até a senhora Dragão – lá na cozinha, de presidência à torradeira – ouvir.
-“Então agora insultas o televisor? – Admirou-se ela. – A quem injurias tu desta vez?...”
-“É o padre Borga, o padre canoro! – Rugi. – E aquele pianista seboso, badocha! Tu já me viste tamanha parelha de cavalgaduras?...”
- “As torradas estão a arrefecer...” –Tentou ela também arrefecer-me a mim, temendo pela integridade do electrodoméstico.
-“E não haver um sacana dum bispo neste país, um bispo à antiga, com eles no sítio, para pôr um cabrão destes na ordem!” – Despedi-me eu do aparelho, atirando chispas malevolentes aos muares chilreantes.
Já sentado à mesa, ainda resmoneei:-”Por este andar, a seguir ao padre Borga não deve tardar aí o padre Putedo!... Irra!, se a Igreja quer dar uma de modernaça, então que ponha freiras em cinto de ligas...Sempre é mais telegénico!...”
-“Senhor Dragão!... –Escandalizou-se a cara metade, arregalando os olhos. –“Francamente!...”

Um dia destes espatifo a televisão. Juro. Olhar pr’àquilo é como assistir em directo e a cores ao intestino grosso do regime.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Das entranhas e respectivos venenos

Eu também não levo isto do blogue muito a sério. Aliás, a vida inteira não a levo, nem nunca levei, muito a sério. Exceptuando quando tinha aquela fantasia de ser poeta, por alturas da idade do armário. Nessas ocasiões, pobre imbecil, punha-me a contemplar a existência toda com grandes olhos dramáticos e experimentava terríveis emoções trágicas diante da menor bagatela que passasse. Foi uma espécie de acne do espírito. Lá me curei, felizmente. Com duches gelados de realidade e mergulhos a pique na esterqueira a que chamam mundo. É infalível, devo dizer-vos. Um belo dia, larga-se a gabardine branca à Fernando Pessoa, poisa-se o monóculo e, durante uma temporada completa (no mínimo, cinco anos), toca de ir ser-se um perfeito bruto. Em vez de olharmos para a existência com grandes olhos dramáticos, vamos rebolar-nos nela. Patinhamos em bosta e refocilamos na lama até que a alma nos doa. Chama-se a isso endurance espiritual. Nada de miminho, de complacência, de auto-piedade. Nada de flirtes delicodoces com a porca da sensibilidade. A esta, pega-se-lhe pelos cabelos e arrasta-se pelo chão, à boa maneira troglodita, sem dó nem piedade; sem escrúpulo nem remorso. Não se pensa na mãezinha durante uns tempos. Nenhuma – rigorosamente nenhuma! – ternura nem colinho. Aliás, é como se nunca se tivesse tido mãezinha, como se em vez do ventre duma mulher, se tivesse sido cuspido, ígneo, solidificado, ortorrômbico, pela cratera selvagem dum vulcão, em jacto lá das entranhas da própria Terra. É preciso –permitam que vos elucide – devir um autêntico calhau, um pedregulho ambulante, um menir de si próprio. É fundamental que a alma se transforme em granito puro, em mármore se preferirem, mas em pedra, em pedra seja ela qual for. É crucial morrer-se em vida, devir matéria inerte, inanimada. Para que então, então sim, finalmente liberto de toda e qualquer baba ou liquefacção, expurgado de ranho e lágrimas, imunizado à virtude e ao vício, um homem fique pronto para nascer, para ser, para se oferecer em celebração ao cinzel do Tempo e da Vida. É essencial, garanto-vos, que um homem se esculpa, que empunhe e abata esse cinzel sobre a pedra em que se tornou. E é, mais que tudo, urgente, magnífico, sublime, que essa mão e esse cinzel, unidos, simbióticos, descubram, desenclaustrem -enfim, tragam à luz - o coração que jaz soterrado, mas palpitante, eternamente palpitante, sob a pedra. É assim que eu entendo a Arte. E não é um privilégio, muito menos uma prenda, mas uma maldição! A pior de todas. No fundo, não passa da pedra, mascarada de presente, com que os deuses mantêm ocupados e absortos certos homens proprietários de espíritos deveras perigosos. Tal qual Sísifo.
Quanto à moral da história é simples: há venenos de que um homem só se cura, ingerindo um veneno muito maior. Não há veneno maior que a Filosofia: tem o poder de curar-nos de todos os outros venenos. Mas, também por isso mesmo, é o único veneno que não tem cura.

Suponho que não se deveriam escrever coisas destas em blogues. É capaz de ser, isto sim, muito mais que todas as carvalhadas pipianas, obsceno. Corrijam-me se estou enganado.

A suprema sacanice dragoniana



Debelado o qui pro quo com os bombeiros, esses desmancha prazeres; adiada a evacuação ad-hoc pelo INEM, eis que o Dragão, fresco que nem uma alface, manhoso e sacana como sempre, todo lampeiro como se nada fosse, retoma a churrascaria animado de projectos de holocausto.
Abriguem-se!...
Até aqui tinha sido por minha alta recreação. Agora é a pedido.

Legenda da fotografia : "O Dragão renasce do ovo alquímico".


sábado, novembro 13, 2004

O Dragão Contra-ataca

Nunca vos ocorreu que estando o autor em vias de extinção, o blogue correria inerentemente, e também, esse risco?

É um facto que está ali uma senhora encapuçada, cujo rosto obscuro daqui não diviso, de foice ao ombro, a olhar para mim. Do outro lado da encosta não se via. Agora já se vê. Desço com uma certa curiosidade.

Mas vós, ó criaturas de pouca fé, já me estáveis a agourar, a abreviar o epílogo!...Irra!

Como terá dito o nosso último rei, em Alcácer-Quibir: "Morrer, sim...Mas devagar."

Deixo-vos, por agora, com um alarde poético. Na minha juventude também me infestou essa maleita rimadora, donde resultaram porcarias como a que se segue (e que aqui lavro por retaliação a um bando de energúmenos e energúmenas - a Zazie é a pior -, que tiveram o desplante de, por breves instantes, humanizarem um monstro de misantropia empedernida como eu. Humpfh!)


«Todos são todos por engano.
No fundo, cada um é cada qual.
Mas ninguém dos seus actos é soberano
pois acoita em si um tirano
que são os outros feitos fiscal.

Na realidade, a vida não passa dum drama
onde ninguém tem nada de seu.
O próprio Amor com que se ama
e o famoso Ser que se proclama,
tudo é função p'ra que nasceu.

A história da minha Vida...
É como todas - Era uma vez
uma estranha coisa homicida
dos outros, de si, da vida
ermida da embriaguez.

Fui chefe dessa pérfida hoste
de bárbaros que, sem querer,
coroaram imperador um fantoche.
Raios partam quem goste
como eu, da vida e de viver!»

Terei sido um medíocre versejador. Mas, em contrapartida, fui um óptimo profeta.




quinta-feira, novembro 11, 2004

Este é um blogue em vias de extinção!...

A Inteligência e a Imbecilidade

Quando uma pessoa é inteligente a posição política é acessória. Vista-se de esquerda ou direita, é a inteligência que prevalece, que decide. Ao contrário dos imbecis. No vácuo mental destes, o traje devém suporte, alicerce fundamental. O imbecil limita-se a servir-lhe de atrelado. Vai a reboque. Fatalmente, constitui seita, horda, matilha, com o mesma mística profunda que qualquer labrego constitui família. Nele, é o acessório que constitui essência. “Sou de esquerda, ou sou de direita”, proclama ele. E está tudo dito. Ei-lo na sua apoteose substantiva: Ser de esquerda ou de direita esgota-o, é signo essencial e, mais que afirmação de qualquer coisa, é negação do contrário. O imbecil, como a pata do cão a regar a parede, não se põe: contrapõe-se. Precisa duma parede, dum poste, dum muro, dum candeeiro, duma roda de automóvel, enfim: algo a que alçar a pata, onde deixar a sua marca, o seu cheiro, onde vincar a sua posição. O cão mija; o imbecil vocifera. O resultado, esse, é o mesmo.


segunda-feira, novembro 08, 2004

Da República (dos Bananas)


De como se vê que o eventual “republicanismo” de Fernando Pessoa nada tinha que ver com aquele que foi implantado em 5 de Outubro de 1910. (E, portanto, de como entre Pessoa e as “obras da maçonaria” se escancarava um abismo).

«O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!
Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos –porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida); gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos –, de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regimen a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis da família, a lei da separação da Igreja e do Estado – todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa – concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) – os escândalos financeiros da monarquia.
A monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.

É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o sr. Afonso Costa.

O sociólogo pode reconhecer que a vinda da república teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas cousas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma cousa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regimen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se.

Este regimen é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco, socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a república veio a ser.»

- Fernando Pessoa, “Da República”


A mim, deixem que vos diga, parece-me um testemunho clarividente e desassombrado do badanal da época. Não tendo eu conhecido outra, tendo-a servido com muita honra, também me parece que a bandeira de república não prima pela beleza. Uma bandeira portuguesa sem o azul do céu e do mar, só pode ser uma piada de mau gosto. É claro que num país onde o benfiquismo se sobrepõe e confunde com o nacionalismo, fica tudo em família.
Do que importa registar é que, duma forma arrepiante, a descrição de Pessoa pós-Outubrista também se ajusta, cada vez mais, ao pós-Abrilismo. Adiou-se de novo o país, queimou-se ignobilmente a esperança e tratou-se do bolso e da barriguinha de mais não sei quantos esfarrapados mentais. Quanto à grande glória e supina proeza governativa foi transformar o país, ele todo, por atacado, senão numa puta, seguramente num pedinte.
Um país que já não navega, nem sequer trabalha; que baixou as mãos do leme e, da porta da tasca convertida em banco, as estende doravante, sujas, à caridade
europeia.

sexta-feira, novembro 05, 2004

O Vírus Mental

O que mais abunda por aí não são ideias, nem são mentes, nem, muito menos, pensamentos. Na verdade, o que mais pulula, formigueja, fervilha são hospedeiros, gentinha em cujo cérebro reptilínio se alojam crenças hipnóticas, pseudo-organismos paranóides que, por ruminação intelectual, conduzem à auto-lobotomia. Numa forma de parasitismo mental cada vez mais refinado e em voga, este vírus transmigratório monta estalagem na gordura mental, arruina prematuramente qualquer hipótese de espírito e transporta a vítima a um estado de perpétuo ricochete entre a imbecilidade e a mentecapção. Tudo isto sob uma crosta grossa de douta convicção e certezas absolutas. Além disso, ao mesmo tempo que transmite ao observador externo um espectáculo de penosa decrepitude, de submissão larvar aos mais baixos instintos, inunda de caleidoscópicos delírios o portador vegetalizado, durante os quais este se compraz e masturba com self-conceptions de mercedes-benz do raciocínio, rolls-royce das inteligências, vaivém espacial das grandes revelações cósmicas.
À vista desarmada, no auge deste lamentável onanismo, o pobre diabo – que o vírus vampiriza e trabalha –, baba-se; palco duma paraplegia cerebral completa, entorna-se pela boca e pelas pernas abaixo. Mas lá, no seu mundo privado, distorcido, secreto, cisma que essa saliva balbuciada, incoercível, representa uma dádiva de Deus ao Mundo, uma jóia preciosíssima oferecida à eternidade da galáxia. Inexorável, à medida que o esvazia, o vírus distrai-o, mantém-no ocupado com ilusões cada vez mais megalómanas e alucinantes. Entretanto, vai-lhe digerindo e mastigando a razão; vai-lhe triturando e liquefazendo toda a espécie de humildade e sensatez. Até que não reste mais que um puré mental em que o absurdo substitui o oxigénio.
O repugnante fenómeno, bem entendido, não é novo. Tem rastejado ao longo de séculos, tem contaminado e corroído pela História fora.
Mas que ninguém se confunda: Não é de ter pena; é de meter nojo.

quinta-feira, novembro 04, 2004

O Apocalipse segundo os Eleitos

«Pelo menos desde o Êxodo do Egipto (os Judeus) estavam convencidos que a vontade de Jeová tinha o seu centro em Israel e que só a Israel cabia a realização dessa vontade. Pelo menos desde o tempo dos profetas estavam convencidos que Jeová não era um simples deus nacional, embora poderoso, mas sim o Deus único e o Senhor omnipotente da história que controlava os destinos de todas as nações. Na verdade, eram muito variadas as conclusões que os Judeus tiravam de tais crenças. Muitos, como o “Segundo Isaías”, sentiam que a eleição divina lhes impunha uma especial responsabilidade moral, uma obrigação de mostrarem-se justos e misericordiosos nas suas relações com todos os homens. Segundo eles, a missão divina de Israel era a de iluminar os Gentios e a de assim levar a salvação até aos confins da terra. A par desta interpretação ética existia, porém, uma outra que se foi tornando mais atraente à medida que o fervor do velho nacionalismo começou a estar sujeito ao choque e à tensão de repetidas derrotas, deportações e diásporas. Precisamente por estarem tão profundamente convencidos de serem o Povo Eleito, os Judeus tinham a tendência para reagir ao perigo, à opressão e às dificuldades com quimeras ou imagens de triunfo total e de properidade sem limites que Jeová, na sua omnipotência, haveria de conceder aos seus Eleitos na plenitude dos tempos. (...)
Deverá, na verdade, chegar um Dia de Jeová, um Dia da Ira, em que o sol e a lua e as estrelas se obscurecerão e os céus e a terra serão abalados. Deverá, na verdade, haver um Julgamento em que os infiéis –aqueles que em Israel não confiaram no Senhor e também os inimigos de Israel, as nações pagãs – serão condenados e humilhados, senão inteiramente destruídos. Mas não será o fim: um “resto salvador” de Israel sobreviverá a estes castigos e através desse resto se hão-de realizar os objectivos divinos. Quando o Povo estiver assim regenerado e reformado, Jeová cessará a sua vingança e tornar-se-á o Libertador. Os justos vivos – juntamente, acrescentar-se-á mais tarde, com os justos mortos agora ressuscitados – serão, uma vez mais, reunidos na Palestina e Jeová habitará com eles como Senhor e Juíz, reinando a partir de uma Jerusalém reconstruída, de Sião que se terá tornado a capital espiritual do mundo e à qual afluirão todas as nações.»

- Norman Cohn, “Na Senda do Milénio”

Este é daqueles textos que dispensa comentários. Peço apenas que atentem com especial ênfase nos seguintes conceitos: “povo eleito”, “triunfo total”, “Dia da Ira” e “resto salvador”. Realço ainda que o “elitismo” judaico, cujo momento inaugural surpreendemos na descrição em epígrafe, não é só virado contra os “gentios”, como também, e com igual intensidade, contra os “maus judeus”. Dito por outras palavras: não há os judeus e os outros, mas sim os “Puros Eleitos” (os crentes fervorosos numa Jerusalém restaurada e apoteótica), e os outros, judeus e gentios.

Convém ainda relembrar que o holocausto do Terceiro Reich, objectivamente, não prejudicou a Elite Sionista. Antes, pelo contrário, a corroborava e lhe deu o impulso definitivo de que ela precisava. Dir-se-ia que Jeová, segundo os Sionistas, escreveu direito por linhas deveras tortuosas. Num século em que a lógica predominante consistiu nos “fins justificam os meios”, quem sabe se isso não obedeceu mesmo aos chamados “interesses de estado”? (Mesmo que aparentemente esse “estado” não existisse...)
Facto indesmentível: Sem a II Guerra Mundial e o Holocausto nazi não existiria hoje o Estado de Israel, tal qual existe.
Mais um caso para os detectives da conspiração.

quarta-feira, novembro 03, 2004

Do Neoconismo ao Neocomunismo



Criar desenfreadamente a pobreza é criar as condições efectivas para a erupção de movimentos e géneses comunistas ou socializantes. E quanto mais indigente e desesperada for essa pobreza, pior. Uma vez destituído, despojado de direitos e bens, qualquer ser humano se sente subitamente inundado de vocações fraternas. Se odeia partilhar a riqueza, em contrapartida, anseia por partilhar a desgraça e o despojo. É um facto que tudo isso é muito epidérmico: passa-lhe logo que experimenta, caso experimente, as poltronas do poder. Mas, no entretanto, muita coisa pode acontecer. Alguma coisa geralmente acontece. Quase nunca pacífica. Ora, quando os Neoconas, na senda dos neoliberais, se ensaiam de criar uma indigência de massas à escala mundial, estão a conseguir aquilo que os movimentos de esquerda, sobretudo sovietizantes, nunca conseguiram através dos seus esforços proselitistas. Estão a criar as condições objectivas para que a profecia marxista corra sérios riscos de, finalmente, se realizar: o capitalismo cairá fruto das próprias contradições; a Revolução só resultará à escala mundial. Resumindo: globalizar a pobreza, a exploração furiosa e a injustiça é globalizar a revolução.
Por conseguinte, apostar no neoconismo a curto e médio prazo é, necessariamente, apostar no neocomunismo a longo. Não é que não haja uma certa justiça irónica nisso tudo: de facto, uma variante comunista particularmente virulenta (ao estilo camboja dos gloriosos tempos de Pol Phot) seria o local ideal para uma estadia vitalícia por parte de gentalha da estirpe dos neoconas norte-americanos e, sobretudo, dos seus sequazes por esse mundo fora. Mas apenas para eles, como seu campo de trabalho exclusivo, seu parque privado, bem fardados e dedicados a uma perpétua e extenuante vida agrícola nos arrozais. O resto das pessoas, claro está, apenas lá deviam ir de visita, uma vez por ano, regalar-se com a paisagem e com o regime sadio dos internados. Era pitoresco e pedagógico. Se pudesse ser enxertado na coisa o cavalo-marinho do velho regime colonial, tanto melhor. Sabemos que certos serviços carecem de estímulo apropriado e que certas bestas só lá vão à força de chicote. Convenhamos até que era uma excelente oportunidade para ambas as aberrações (o comunismo e o colonialismo) darem as mão e se redimiram de tantos pecadilhos de outrora. Eram só vantagens.
Seriam, melhor dizendo; se a História e a Prudência nada nos ensinassem. Uma nuvem, de facto, deveras negra, ensombra o horizonte: é que provavelmente o tipo de gentalha que constitui actuamente a “nomenclatura neoconas” – todos esses “think tanks” da puta que os pariu –, transferir-se-á de armas e bagagens para o bando -só em tese- teoricamente oposto e, em larvar metamorfose, virá desempenhar também a “nomenclatura neocomunista” do amanhã. Será mesmo o passo lógico, o desencasular-se. Uma vez criada a massa global e única, é sabido que o método comunista é o melhor para lidar com ela, aquele que tem não só a teoria como também a prática.
E de tanto espiar o monstro soviético, a “inteligência” americana acabou por se apaixonar por ele. E vice-versa.

Quanto à beleza desse neocomunismo futuro, mas cada vez menos longínquo, resume-se a dois conceitos: uma nomenclatura para partilhar os lucros, o poder e a ciência; e uma massa bruta, amorfa e lobotomizada, para partilhar o trabalho, as despesas e a ignorância.
Agora prestem atenção: nada de confundir este “animals farm por vir” com uma “aristocracia” que, em tese e etimologicamente, significa o “poder pelos melhores”. Se quiserem cunhar o novo modelo, tal qual se adivinha, será, ao invés, uma “Quirocracia”, ou seja, o “poder dos piores”. Ou dos “porcos”, se preferirem - para ficar mais de acordo com a alegoria orwelliana.

Do largo excedente de mão de obra e do destino que lhe está reservado, é melhor nem falar.

terça-feira, novembro 02, 2004

O Farol dos Afundadores

A América é o farol do mundo. Pena que seja um farol erguido por afundadores. Pena que o mundo seja um barco à deriva.
Hoje, a putativa super-nação, mais a sua super-democracia imaginária, entregam-se a uma fantochada eleitoral, ao nível das Angolas deste mundo, que vem servindo de pretexto a uma série de “americanos” na diáspora para vibrarem pelos seus paladinos. Não votam (por enquanto), mas fazem força. Gemem do lado de fora dos sanitários. Armam coros guinchantes, ao velho estilo do histerismo grouppie. Bradam incentivos para dentro, mensagens entusiásticas: “Coragem! Avante! Tu és o sol da nossa caverna!” Enfim, parturiam à distância. Tele-acolitam o seu favorito. Lançam cavacas ao lume.
Mas o seu maior sonho seria poder estar também lá dentro, assoberbados nos trabalhos, espremendo o esfíncter de vanguarda, super-potente, mirando, finalmente, a obra fumegante, aspirando o odor revigorante, testando a consistência, a uniformidade da cor.
Quais vão ser as peripécias, que complicações e sobressaltos vão surgir – se vão ser necessários fórceps ou apenas clisteres -, aindas ninguém sabe ao certo. Mas adivinha-se.
Quanto aos “nossos americanos”, com as suas bandeirinhas Kerry e as suas bandeirinhas Bush, dir-se-ia que, como certas cadelas que emprenham fantasmagoricamente, também eles se entregam a gravidezes histéricas, e aguardam, em vigília angustiada, que venha à luz o americanozinho fétido que transportam nos seus miraculados e industriosos ventres.
Rezam para que nasça completo. Já que mongolóide vai ser de certeza. Pelo lado materno.

segunda-feira, novembro 01, 2004

O QUINTO IMPÉRIO




O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição de raiz –
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – Os quatro se vão
Para onde vai toda a idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?


-Fernando Pessoa, «Mensagem»

É preciso ter sempre em consideração que o texto da “mensagem” é um texto esotérico, no bom sentido que esotérico pode ter, ou seja, como a “Metafísica” de Aristóteles, ou “Assim Falava Zaratustra”, ou as parábolas de Jesus são textos esotéricos. Quer isto dizer, essencialmente, que não são textos para espíritos gordos, anafados, obesos, a arrotar douta sapiência. Mas para espíritos mendigos, nómadas que erram pela terra em busca do alimento, do “pão”. A luz é para quem a procura e não para quem julga que a tem. O espírito não se tem, exercita-se.
A este propósito, e título de exemplo, convém que clarifique o seguinte pormenor há muito deturpado.
No “Sermão das bem-aventuranças”, Jesus, no texto original, em grego (e não em latim como, por tradição, foram sendo feitas traduções) profere o seguinte:
«Makárioi oi ptõchoi tõ pneúmati
õti aútõn he basileia tõn ouranõn
» (...) (Mateus, 5,3)
A tradição faz a seguinte tradução:
« Felizes (ou bem-aventurados) os pobres em espírito (ou pobres de espírito) porque deles é o Reino do Céu»
A passagem é por demais conhecida e, graças a essa “tradução”, deixou para a posteridade a ideia de “bem-aventurados os imbecis, ou tolinhos, ou ígnaros, ou coisa do género”.
A “traição” reside basicamente no termo “ptõchoi”, traduzida para o latino “pauper” e, a partir daí, para o portugês “pobre”. Porém, “pobre”, em grego, não radica no “ptochos”, mas na “penia” (pobreza), donde resultou a nossa “penúria”. Pois bem, que significa então, originariamente, “ptochos”? Significa, exactamente, “mendigo”. Ora, é diferente, sobretudo em termos de metáfora, de parábola, de riqueza simbólica, dizer “pobre” ou dizer “mendigo”; na verdade, bem traduzido, o que Jesus diz é “ bem aventurados os que mendigam espírito”, isto é, “bem aventurados os que procuram, os que buscam espírito (pois reconhecem nessa sua demanda a sua falta mais essencial, a mais elementar substância para a sua sobrevivência”). Tanto que essa ideia é logo adiante confirmada com “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”, ou seja, novamente a dimensão ética, espiritual, a sobrepôr-se à mera dimensão bestial, intestinal, bandulhística. E, mais uma vez, refira-se, a título de curiosidade, a tradução de “fome” para o termo “peina” (do grego) é empobrecedora, porque “peina” tanto pode significar “ter fome”, como “ter necessidade de”. O fato é sempre feito ao gosto do alfaiate, ou a tosquia ao gosto do tosquiador...
O “mendigar” simboliza, por conseguinte, esse “estar necessitado de”, esse ter consciência de qual a sua verdadeira necessidade. Daí que o sujeitar-se a essa ”necessidade”, segundo Jesus, venha constituir, ao mesmo tempo, o odos (o caminho) da libertação. Pura figura exemplar, dum divino que desce à necessidade, ao patíbulo entre os mortais, ele próprio mostra o trilho, a odisseia da liberdade através da necessidade. É na necessidade –na vida, com tudo o que a vida tem -, que o homem se encontra e, na medida em que se encontra, encontra Deus, e não contra ela, a vida/necessidade, ou a fugir dela e, inerentemente, de si. Jesus mostra o caminho, reabre a via, mas não substitui os caminhantes. Foi traído (ou mal traduzido, se preferirem) por Judas, por Pedro e, acima de todos, por Paulo. A tradução de Paulo, sobre todas, é uma contradição de Jesus, um “Contra-o-que-Jesus-disse”, donde resultou, em grande parte, um cristianismo que não libertou mas fechou o homem nos seus medos, nas suas fobias, na sua proscrição fictícia. A fuga de Pedro, a sua cobardia, a sua perda de fé diante do abismo, perpetuar-se-á na Igreja de que, em teoria, constituirá a “primeira pedra”. O fariseísmo judaico-romano de Paulo contaminará o discurso.
Chamo a atenção que esta é a minha singular perspectiva, puramente filosófica, e não pretende colocar minimamente em causa credos, convicções religiosas ou dogmas assumidos seja por quem for. Se há alguém errado, sou certamente eu e o inferno espera-me concerteza. Tranquilizem-se, pois, as boas almas e os beatos encartados todos da paróquia.
Apenas explanei este arrazoado, porque a perspectiva de Nietzsche, no Anticristão (erradamente traduzido por “anticristo) é, no essencial, bastante próxima. Sendo o “anticristianismo” de Pessoa, em quase tudo, o “anticristianismo” de Nietzsche, tornou-se necessária esta exposição para que possamos entender o significado cabal desse termo. Assim, pela negação da negação (lei básica da lógica) temos a afirmação: sendo o “cristianismo” de Paulo a negação de Jesus, a negação dessa negação nada mais pretende que a reafirmação, ou re-descoberta daquilo que foi entretanto escondido e encoberto. A limite, “anti-cristão”, em Nietzsche, como em Pessoa, deve ser lido como anti-anticristo.
Não é por acaso que Nietzsche, no fim da sua vida, assina cartas como “O Crucificado”. E Pessoa escreve, na “Mensagem”, logo a seguir ao Quinto Império, no “Desejado”:
«Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!”

Para podermos entender aquela que, no meu bárbaro entender, é a ideia de “Quinto Império” em Fernando Pessoa, tornava-se imprescindível perceber esta noção “anticristã”. De alguma forma, sendo da pura ordem do “espírito” (espírito, esse, não como alminha, mas assumpção, respiração plena da vida) o Quinto Império radica nesse “mar por navegar” onde a figura de Jesus Cristo emerge, em aura velada, por detrás da figura enigmática do Infante.
O resto, depois, falamos.

Entretanto, depois do que aqui ficou dito, tentem decifrar o poema em epígrafe. Vejam se faz sentido. É provável que não, ou...

“Ser mendigo é ser homem”.

Mendigo – do latim “mendicus”, indigente; na raíz: “menda” – defeito físico; falta; erro (de linguagem, num texto, cometido pelo copista).
De “menda”, originou-se, entre outros, o nosso português “emenda”.

domingo, outubro 31, 2004

Outra Questão

Quando, em Quinhentos, as caravelas portuguesas se lançaram na aventura dos mares iam semear a Fé, ou iam à procura e à descoberta dela?...

«O sonho é ver as formas invisíveis
da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.»
- Fernando Pessoa, "Mensagem" (Horizonte)

PS.- Esta questão serve de também de intróito à explanação daquela que julgo ser a ideia de Quinto Império em Fernado Pessoa, tal qual fui desafiado pelo comentador residente deste blogue, o digníssimo José.

Os restantes leitores, a quem estas questões eventualmente não interessem, queiram ter a bondade de passar ao largo.


sábado, outubro 30, 2004

Dragão na Clandestinidade

Em se tratando da Nação, desse Portugal levado da breca, capaz do melhor e do pior e, a maior parte do tempo, do péssimo, sou um perfeito ferrabrás. Sobe-me logo o sangue à cabeça. Perco instantaneamente as estribeiras e a tramontana junto com elas. Fico capaz de trucidar e estrafegar a eito; sem dó nem piedade. Só me ocorrem contas a ajustar com meio mundo: mouros, castelhanos e ingleses, primeiro que todos!... Obsidia-me uma honra suja, emporcalhada, que urge lavar a qualquer custo – com sangue, a tiro, à bomba, à chapada, seja lá como fôr! É uma obsessão!
Quem me conhece sabe que tem que ter cuidado. Pois há palavras perigosas, que não podem ser ditas de ânimo leve à minha frente, ao alcance destes meus pavilhões auriculares de verdadeiro tísico. Têm pólvora lá dentro, as tais; trotil, nitroglicerina, são lume para o meu sequioso rastilho. “Portugal”, repito – é a mais explosiva de todas! Alguém que se descuide, que a profira a menos de mil metros, eu que a oiça, e temos o caldo entornado. Garanto-vos que não é substantivo que eu deixe impune. Já ninguém me sossega:
“Alisto-me aonde?! Embarco aonde?! Está aonde a caravela?! Vamos atacar quem?!...” – rompo, de imediato, aos gritos, aos roncos, levado de seiscentos diabos, todos eles a arder de fervor patriótico.
No minuto seguinte já estou de camuflado e caçadeira na mão, com os olhos injectados e uma raiva de séculos a instigar-me a proezas épicas. Dardejo olhares alucinados, em prelúdio de carnificina. Devastar seca e meca é o mínimo que me ocorre.
-“Hoje é dia de caça?” - pergunta-me a senhora Dragão, ao deparar com a exótica expedição e também porque eu, em prelúdio de blitzkrieg devastador, vou maltratando cadeiras.
-“Caça?!! –Rujo ofendido, escamadíssimo. –Tu achas-me com cara de quem perde tempo com coelhos, quando os filhos da puta infestam o mundo e potências malignas ocupam o rincão?! Diz-me lá, achas?!!”
Aproveito para salientar que não sou um desses traumatizados da Guerra colonial. A mim, tiveram que me arrancar de lá à força e sob escolta armada, que sítio como África, onde um gajo se divirta tanto, nunca vi. Quer isto dizer que não descarrego as frustrações e a cobardia entranhada nos desgraçados dos coelhos, animais meus compatriotas.
Mas voltemos à minha digníssima esposa que, em certas ocasiões de crise nacional, tem o condão de me enfurecer tanto ou mais que as potências ocupantes.
-“Não me digas que estás outra vez com ideias de ir acabar com os bimbos?!” – (Aqui, ela, alarma-se. Os bimbos são os vizinhos para lá do rio que, em tempos, espanquei. Espancar alguém pode viciar. Ciclicamente visita-nos uma nostalgia. Em se tratando de bimbos, a nostalgia chega a tornar-se opressiva. Um amigo meu que teve a sorte de espancar alentejanos, diz-me que com ele se passa o mesmo. Estamos fartos de nos convidar, ele a mim para ir malhar nos alentejanos dele, eu a ele para vir exercer nos meus bimbos, mas a ocasião, lamentavelmente, tem-se vindo sempre a esfumar. Há uma retracção natural nas vítimas, que, lastimavelmente, as torna cautelosas e furtivas. Mas desvio-me do assunto...)
Estava pois a senhora Dragão a alarmar-se. Tranquilizo-a, apesar de tudo; mas sem nunca perder o tom de voz estentóreo que a ocasião exige:
-“Não tenho tempo para bimbos, pôrra! isso é uma questão tribal interna! (Mas porque raio perco eu o meu valioso tempo a explicar a guerra a mulheres?!!) Olha, vou passar à resistência, vou prá clandestinidade! Se a polícia passar aqui a perguntar por mim, diz-lhes que não me viste!!”
-“E levas a boina preta ou a vermelha?” – Inquere, ela, resignada. O que tem o dom de me irascibilizar ainda mais. Mais belicoso que nunca, urro:
-“Mas tu achas que eu vou para algum desfile?!! Irra! Levo o meu gorro “comando”. E tu, vê lá se metes nessa cabeça dura duma vez por todas: Vou prá clandestinidade!!...Prá clandestinidade, ouviste bem?!!Vou bater-me pela honra do meu país! Se eu morrer, não chores!”
E saio porta fora, resfolegando e praguejando, com toda a fúria de que sou capaz. Não sem que, entretanto, em jeito de despedida, ela não me brinde com o seguinte adeus:-“Olha, já que vais sair, quando voltares da clandestinidade, passa no Pingo Doce e traz o pão.”

Grunffthhh!....


Aforismo do dia

Nós chamamos Mundo ao sentido de humor de Deus.

sexta-feira, outubro 29, 2004

Eunucos

O problema de quando néscios atinjem o topo das academias, ou quadrilheiros alcançam o ápice das hierarquias é que, a partir daí, para salvaguarda desesperada da sua própria sobrevivência burocrática, não descansam enquanto não tramam e instauram uma desonestidade e mentecaptícia sistemáticas e generalizadas, de modo a impedir que qualquer surto inopinado de inteligência ou seriedade possa desmascará-los, revelando-os em toda a sua gritante mediocridade e confrangedora nudez. Uma vez no topo, o anão, impõe que todos à sua volta rastejem; o cego, que todos fechem os olhos; o aleijado, que todos se auto-mutilem. Para ser crime de lesa-majestade não é preciso conspirar, não é necessário sequer dizer nada ou esboçar algum gesto: basta ficar de pé, basta ter os olhos abertos, basta ficar inteiro.
O drama dos regimes baseados no serralho – como por regra são os mediterrânicos– , é quando os eunucos tomam o poder.
Deploravelmente, esse, tudo o indica, parece ser o caso actual Português, ao nível superior: Não fodem, nem saem de cima.

Uma Questão

Neste país há respostas a mais e perguntas a menos. Para contribuir para o reequilíbrio, aqui deixo uma:
Porque é que tendo sido Portugal o país que abriu as primeiras rotas comerciais globais, que, como diz o poeta, "abriu novos mundos ao Mundo", passados quinhentos anos, está tão pobre como quando começou?...

Aliás, correcção: Está muito mais pobre, porque à penúria económica acrescenta agora, também, a miséria de espírito.

quarta-feira, outubro 27, 2004

Génios, Quimeras e Abismos

O postal que se segue não é recomendável a almas sensíveis. É iconoclastia da grossa. Aos leitores mais ousados que, mesmo depois do aviso, persistam em fazer a viagem, recomenda-se que apertam os cintos de segurança, desliguem os telemóveis e retirem os antolhos durante o mergulho. O abismo é para ser visto com a plenitude da visão. Para se descontrairem, à medida que aquecem os reactores, comecem por tentar adivinhar, conforme vão lendo, o autor da pólvora que em seguida se transcreve...
O Dragão deseja-vos uma boa viagem.

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Os que querem um Portugal honesto, feliz, rico e honrado, querem a negação da acção civilizacional portuguesa, querem que desçamos ao burguesismo nacional duma pseudo-nação como a Suiça ou a Bélgica, querem que abandonemos o nosso grande papel na construção do novo mundo, que abdiquemos de realizar em espírito aquilo que realizámos outrora em corpo – o alargamento do mundo e a descoberta de novas terras, de novos mares, de novos céus. Mais alta é a missão portuguesa do que tudo quanto pode sugerir a barriga dos portugueses, nessa pervertida teoria política que toda a chusma de traidores e de idiotas que são os nossos políticos e os nossos jornalistas querem impôr a Portugal. Mais alta é a obra, e ela, a ser feita, terá de ser feita, terá de ser feita quebrando aos pés toda a longa podridão humanitária, democrática, organizando uma aristocracia forte, dominando completamente a nossa plebe ineficaz salvo escravizada. (...)
Criar em Portugal o sentimento duma missão civilizadora! Esse deve ser o nosso ideal. O resto não importa. Que para chegar aí seja preciso varrer à metralha as ruas, calcar aos pés a felicidade e a liberdade do povo, arremessá-lo como um ariete de encontro às barreiras do nosso espírito – Que importa isso, se só assim, podemos deixar ficar Portugal no mundo depois de ele desaparecer?
Grande e difícil é a obra! Grande e difícil o varrer dos ideiais democráticos, humanitários e utilitários. Mas a grande obra anti-cristã (anti-cristã em tudo, anti-democrática, anti-católica, anti-monárquica) deve ser feita. Tristes de nós se faltarmos à missão divina que Aquele que nos pôs ao Ocidente da Europa e tais nos fez quais somos, nos impôs quando nos deu este nosso acesso e trancendido espírito aventureiro. Depois da conquista dos mares deve vir a conquista das almas.
»
- Fernando Pessoa, “Páginas de Sociologia Política”

Imaginem que o maior poeta português era vivo e escrevia num blogue. Talvez se chamasse “Heteronimia”, “Heterografia”, ou coisa que o valesse. Imaginem que ele postava o texto em epígrafe. Calculem a gritaria, o alarido que se não levantava: Nazi! Nazi!! Estou em crer que a “esquerda lacoste” levantaria barricadas; a “esquerda pink”, lavraria protestos e apelaria ao índex. A direita quéque faria coro com e “esquerda pink”, clamando “nada de confusões, somos democratas”. O PR faria uma das suas redondas alocuções ao país. Em suma: chovia granizo, chuva zangada de todo o lado. Disparando em todas as direcções, o poeta da “Mensagem” tornava-se alvo de todas as partes.
E, todavia, o homem era um génio. Um daqueles raros que visitaram aqui o rincão. Como explicar esta tempestade furiosa? Habitava um monstro dentro dele? Um psicopata? Na sua múltipla personalidade estava incluído um Adolfo qualquer coisa? Acometiam-no delírios em que se fantasiava de tirano louco subjugando uma Europa fumegante, em escombros, a seus pés?
Verificado tão tenebroso depoimento, atestados os seus ignóbeis propósitos anti-democráticos – saliento: mais anti-democrático é difícil! – deviam ser as suas ossadas despejadas dos Jerónimos e substituídos pela dona Amália? Deviam ser os seus livros proibidos e varridos para fora das livrarias e bibliotecas? Devia ser o seu nome lançado ao opróbrio e a sua efígie queimada em praça pública? As ruas e alamedas com o seu nome deviam ser rebaptizadas? O quê?...
Enquanto as autoridades ponderam e cozinham a sentença, eu ouso ir divagando o seguinte:
É evidente que o nosso Fernando andara a ler Nietzsche. Ora, os efeitos inebriantes do filósofo alemão são por demais conhecidos, eu que o diga. É, pois, um Fernando Pessoa alterado, fora de si, heteroposto, que se imagina correndo a saloiada cá do bairro a pontapé e à metralha por amor duma louvável quimera que, num instante fugaz, o desinquietou. Não é que eu próprio, às vezes, não comungue de sonhos desses; simplesmente, uma coisa é a ficção, a fantasia filosófica, outra, bem diversa, é a realidadezinha e o “malhão, malhão”. Dir-me-ão: pífia justificativa, ó Dragão! E se algum exaltado avulso, desses símios de imitação que não podem ver ideia nenhuma que não queiram logo macaqueá-la, desata a exercitar-se nesses propósitos pelas avenidas?...Sim, o que vai ser das pessoas que forem por ali a passar?!...”
Concedo que a justificação não é das melhores. De facto, metralhar as ruas em tese, nada tem que ver com metralhá-las em sede própria. Não muito tempo depois do nosso Fernando ter escrito isto, houve até uns folgazões de gosto mais que duvidoso que sonegaram as metralhadoras da tese e foram experimentá-las na rua. Os resultados foram trágicos. Ora, isso é tão aberrante como pegar nas metralhadoras da rua e ir metralhar na tese; ou então chamar os polícias de ronda, para virem com os cassetetes da rua bater ao filósofo por causa da tese. (Tudo isto, nunca esquecendo que colocar uma tese explosiva nas mãos dum macaco é tão perigoso como colocar uma granada, admito-o).
Mas continuo na minha: o que era mesmo importante, higiénico, edificante era que, como dizia Baudelaire, se deixasse a cada qual a sua quimera. Que deixássemos de meter o naríz nas quimeras dos outros, e as quimeras dos outros na nossa cabeça. Não são inalações que se recomendem, sem as devidas precauções. Apreciemo-las, por cortesia, ou por fruição artísticas. Ninguém pode dizer que “Esse deve ser o nosso ideal. O resto não importa. Que para chegar aí seja preciso varrer à metralha as ruas, calcar aos pés a felicidade e a liberdade do povo, arremessá-lo como um ariete de encontro às barreiras do nosso espírito – Que importa isso, se só assim, podemos deixar ficar Portugal no mundo depois de ele desaparecer?”, não é bonito, mesmo sublime, enquanto literatura. Eu, pelo menos, não digo.
E mais sublime ainda se pensarmos nos efeitos devastadores que seguramente causará nas carinhas sonsas dos filisteus cá do burgo. Mas livrem-se de atrelar ficção tão garbosa à carroça trafulha da política: perde-se a genialidade e não se logra benefício nenhum. Pelo contrário, garimpa-se imundície pegada.
Por conseguinte, e em conclusão: Respeitemos os desabafos e telhas dos génios, pois é um direito exclusivo que lhes assiste. Guardemo-nos de interferir com eles, quando passeiam entre as nuvens o bando trovejante das suas quimeras. Velemos-lhes as jornadas, mas devidamente abrigados dos seus raios, sempre prontos a fulminar o basbaque incauto.
Quanto aos coletes de forças, coleiras, trelas e açaimes que a prudência recomenda, são arreios, na verdade, indispensáveis, não aos génios, seres inexpugnáveis por natureza, mas aos políticos, essa matilha acéfala, tumultuosa, que em tempo ou modo algum convém ser deixada à solta!... Para que, sobretudo, não conspurque nem perturbe com as suas badalhoquices e macacadas – nem, pior ainda, armadilhe de porcarias – a digressão nefelibata dos outros.

E quando, em dias de festa, virdes o povo entusiasmado, atrás dos políticos, em animadas e turbulentas caçadas, desviai-vos para bem longe. O povo tem uma tara: perseguir desilusões.
(Espero que tenham feito uma boa viagem. Que o serviço tenha sido do vosso agrado e voltem a voar brevemente nas nossas linhas aéreas!...)


terça-feira, outubro 26, 2004

Links e Anonimato

É uma coisa que trago aqui atravessada há já uns tempos e que aproveito para descarregar...

Acerca de links quero dizer o seguinte:
Eu, Dragão, “linko”:
a) Aqueles que me dão prazer ler, sobretudo pelo seu humor, ironia e bons tratos da Língua Portuguesa, essa princesa guardada na torre onde cumpro vigília;
b) Por cortesia, todos aqueles que me “linkam”.
c) Não “linko” o “abrupto”, é verdade. Nem por cortesia o faria. Nem esse nem outros brutos da mesma igualha. Censura? Cuidados de higiene, simplesmente.
d) Prezo muito que a generalidade dos “bem pensantes” e “adiantados mentais” da paróquia blogopédica não me linkem. Reconforta-me. No dia em que a choldra invadir as instalações, o melhor mesmo é fechar a porta. A última das intenções disto é o proselitismo.
e) Como é óbvio, não sou nenhum modelo de virtudes. Para ninguém.
f) Tenho o maior dos apreços e considerações por quem discorda comigo, olhos nos olhos e, se for preciso, até ao ponto de andar à porrada. Aviso, no entanto, que sou hábil com a bengala.
g) Se alguém, até agora, eventualmente pensou em propôr-me para sócio do que quer que seja, e já foi preenchendo até a ficha de inscrição, aceite um conselho útil: rasgue-a.

Quanto às ideias e opiniões de todos eles, os que linko, não me meto nisso. É lá com eles. Repito: Se são democratas, socialistas, liberais, fascistas, salazaristas, salazarentos, comunistas, stalinistas, nazis, o diabo que os carregue, ou o que muito bem lhes dê na real gana, não sou polícia. Muito menos do pensamento. Um blogue, como vazadouro positivo, pode ser uma boa forma de exorcismo. Do que sei, com certeza, é que nenhum deles, desses todos, está totalmente certo nem totalmente errado. Politicamente, se ainda não perceberam, sou aristotélico; e, consequentemente, nietzschiano: estou “para lá do bem e do mal”, ou, traduzindo para crianças: para lá da “esquerda e da direita”. Portanto, o obsoleto e anacrónico não sou eu. Nem o patetinha alegre.
Quanto ao autor, este blogue não é anónimo. Eu chamo-me mesmo Dragão. Podia só assinar “D”, (ou “DR” – Dragão Rex) como “JPP”, ou “JCD”, mas não gosto de me confundir com siglas partidárias juvenis (ou desígnios nacionais) . Se não me conhecem, eu também não vos conheço de parte nenhuma, nem nunca vos vi mais gordos. Para aqueles que analizam* e catalogam as opiniões a partir da “cara de quem as defende”, deixem que vos pergunte: “E porque não o cu?”
Sim, porque quem começa a pedir a cara, não tarda pede também o cu. Ou partindo do princípio do peregrino com invariável cara de cu, o pedir a cara é já pedir o cu. E para peditórios desses não dei nem dou. E se insistem replico: Pegai no vossa opiniãozinha, embrulhai-a bem embrulhada, e, já que isso tanto vos obseca, ide vós dar a a cara, aliás, cu, por ela!... Ninguém se aflige e já estais habituados.
Para os restantes, pessoas normais que tenham o azar de por aqui passar, estejam à vontade: a casa é -e será sempre - vossa. Mas o pavio é meu. E é curto.

*Nota - Não é lapso, é mesmo assim, com z (não de "fazer análise", mas de "usar a função anal", isto é "borrar").

segunda-feira, outubro 25, 2004

Os Ogres (em qualquer TV perto de si...)

Há que propagar aos quatro ventos, sem dó nem piedade, sem trégua nem descanso, até à exaustão, até à naúsea mais deprimente e esviscerante que houver, que a família é um local perigoso; que as criancinhas - esse baluarte derradeiro da imbecilidade por canonizar- estão à mercê de pais, mães, tios avós; que em cada uma destas ramagens da árvore geneológica habita um psicopata, um ogre faminto, à espera da oportunidade para se manifestar, para cevar os maus instintos, as pulsões de morte e os múltiplos projectos de açougue doméstico. Da pedofilia ao homicídio, passando pela violação, venda ilegal, tráfico de órgãos, vampirismo, antropofagia, tudo é possível. Mais que possível, é fatal, é praticamente garantido. A família é o antro das piores bestas, dos mais hediondos monstros. De todos os lados, chusmas de experts, licenciados na pintelhice, mestrados na miudeza, investigadores da caganitância atestam-no. Hordas de jornalistas excitados, histéricos –passe a redundância, num tempo em que “jornalismo” deveio sinónimo de “histerismo” –, proclamam-no todos os dias, antes, durante e após as refeições; ao erguer e ao deitar. Andam pelo país a esquadrinhar vilórias, a espiolhar quintais, à cata de pesadelos guardados em frascos de álcool na dispensa, em caixotes na cave, ou, em postas, no frigorífico.
A mesma televisão que, em avatar de baby-siter, (des)educa os filhos, ou, em traje de padreca, evangeliza os pais, organiza debates e mesas redondas, onde anatomistas e estripadores de toda a ordem, se entregam ao esquartejamento científico dos furúnculos sociais, das tumefacções familiares, e exibem para toda a paróquia a sua perícia na autópsia pedagógica, na hermenêutica da aberração. Através deste passe de mágica, desta alter-egotização milagreira, a mesma televisão que antes injectou a psicopatia ao domicílio, vem agora pôr-se em auto-análise, a debitar sobre o que é que falhou na sua tutoria educativa das massas. Isto é: depois de industriar e incitar o assassino, vem sentar-se na tribuna, feita conselheira do juíz. A conclusão é invariável: certamente aquelas famílias disfuncionais não estavam a ver televisão suficiente, nem a escutar –a sorver com volúpia adequada – na dose requerida e clinicamente prescrita, os incontáveis especialistas e pintelhistas que dela, nos intervalos da publicidade, dos concursos e das telenovelas, e em patrocínio dos melhores sabonetes e shampôs, aspergem as massas de basbaques televisivos com uma imensa e pregnante sapiência e a luz relampejante de faróis da sociedade. Moitas Flores de toda a espécie, com o distinto ar de labregos empertigados, co’a mioleira enfezada subitamente enchida à bomba por arte dum qualquer anabolizante mental de carregar pela boca, arrotam postas de papuda sapiência, posam bonzamente para o écran e declamam banalidades e paroladas capazes de estarrecer, senão debandar mesmo, uma horda compacta de chimpanzés cocantes. Carroceiros dignos de perorar às cavalgaduras da mala-posta, arvoram-se, assim, em pilotos malabaristas do povinho palonço e das famelgas em colóquio. E quando não distribuem atoardas, escrevem telenovelas.
Numa época em que a aberração devém objecto de culto, a ninharia se promove a quintessência, e a tara escaganifobética de qualquer meia-dúzia endinheirada se arroga como amostra prioritária da humanidade, nada disto surpreende. Não mata, é certo. Mas faz pior: desmoraliza.

domingo, outubro 24, 2004

O Admirável Formigueiro

Se me perguntassem pelo contrário de “Homem”, eu responderia, sem hesitar: “Formigueiro”. E, não obstante, vamo-nos aproximando cada vez mais dele, do formigueiro. À medida que nos afastamos cada vez mais dele, do Homem.
Mas o mais curioso é que o formigueiro, aos poucos, lá se vai construindo em Nome do Homem, como o Inferno, geralmente, sempre se edificou em Nome de Deus. Os construtores de formigueiros são, regra geral, os mesmos que edificam infernos. Os Procuradores do Homem (também auto-denominados “humanistas”) são herdeiros dos Procuradores de Deus (ou Teófilos). Para todos eles, invariavelmente, os seus aterros são locais pré-paradisíacos, ou, pelo menos, miradouros com vista para o éden. Na maior parte do tempo, porém, não passam de antecâmaras, purgatórios, parques de suplício mascarado de diversão.
De caminho, estes operadores filantrópicos, vão crucificando o homem, vão-no agrilhoando a Cáucasos, vão-no, em suma, adiando sine die. Lá, no fundo da sua ciência epidérmica, uma certeza os anima: Mundo e Homem são incompatíveis. Não adianta, pois, tentar construir mundos para o homem, belos e refinados mundos, porque ele estraga-os e escaqueira-os a todos. Não adianta vesti-lo no melhor traje domingueiro, porque ele, pândego inveterado, cisma de ir saltar para a rua e rebolar-se na terra, enlamear-se à chuva, com os bichos e as árvores. Não adianta encher-lhe a cabeça de coisas sérias, deveres e proibições, porque ele teima em brincar, em rir e divertir-se, e, pior um pouco, em cometer toda a ordem de tropelias e disparates. De pouco serve tentar protegê-lo com redomas, porque ele adora o risco, o perigo, a guerra e enturma-se com eles como um míudo presidindo a cordéis e a todos os cães vadios da sua rua. Fatal, portanto, a conclusão: Não basta construir um Mundo para o Homem; sobretudo, há que moldar um homem para o mundo. Melhor: há que forjar e inventar um. Sem formigas não há formigueiro. Elementar, também, a tarefa destes novos demiurgos: já que a natureza não presta e produziu um homem imprestável, há que obrar contra a natureza e fabricar um homem artificial. Um homúnculo que caiba no Mundo deles; um homúnculo, como esses antigos nanoprodígios da alquimia ou da cabala, reflexo do espírito deles; um homem livre da natureza e escravo dessa sua liberdade. Livre de sentimentos, de angústias, de dúvidas, de pensamentos, enfim: livre das suas grandezas e infâmias; mas servo vitalício da sua utilidade e do seu lugar na engrenagem perfeita, imarcescível. Um homem micróbio, para viver ao microscópio.
Essa gente de cara a transbordar de boas intenções, arrumadores de planetas do universo, desconfiai deles! Esses bufarinheiros que passam na rua apregoando panaceias para todos os males e que vos vendem os males junto com a banha, mandai-os pró Diabo que os descarregou!
À entrada deste Admirável Formigueiro Novo, há uma placa severa, peremptória, que determina:
”Proibida a entrada a Deuses e a Homens.”
Está certa, a placa. Afinal, num formigueiro, deuses e homens são ideias sem o mínimo cabimento.

sexta-feira, outubro 22, 2004

O Povo

«E o povo?», dir-se-á. O pensador ou o historiador que usar este termo sem ironia ficará desqualificado. O «Povo» - sabemos demasiado bem a que está destinado o povo: sofrer os acontecimentos, e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o afectam e oprimem. Toda a experiência política, por “avançada” que seja, se desenrola a expensas suas, dirigindo-se contra ele: o povo carrega os estigmas da escravidão por mandamento divino ou diabólico. Inútil apiedarmo-nos da sua sorte: a causa não tem remédio. As nações e impérios formam-se graças à complacência do povo diante das iniquidades de que é alvo. Não há chefe de Estado nem conquistador que o não despreze; mas ele aceita esse desprezo, e dele vive. Deixasse o povo de ser apático ou vítima, deixasse de assistir simplesmente aos seus destinos, que a sociedade se dissiparia, e, com ela, a história sem mais. Não sejamos demasiado optimistas: nada da sua parte permite que encaremos uma tão bela eventualidade. Tal como é, representa um convite ao despotismo. Suporta as suas provações, por vezes solicita-as, e só se revolta contra elas para se precipitar noutras novas, mais atrozes do que as antigas.»

- E.M. Cioran, "Na Escola dos Tiranos"

quinta-feira, outubro 21, 2004

A Marialvice

Dizem-me que é um dos suprassumos do marialvismo, mas eu não acredito. Torço mesmo o nariz. Refiro-me à tauromaquia e, com ênfase especial, aos grupos de forcados. Aquelas roupas esterlicadinhas, todas floridas e enfeitadas, as mãos à cintura, a gingarem-se feitos varinas (sobretudo o da cara, quer dizer, o das ventas do touro), não me inspiram grande confiança. Confiança nenhuma, devo dizer. Dir-me-ão que aquilo é uma verdadeira manifestação de testosterona, uma epopeia das antigas; e eu responderei “Sim, sim...pois, pois...”
É sabido que eu até nem vejo com maus olhos o marialvismo, que proclamo receitas musculadas para lidar com a emancipação feminil, que, em tempos, até abracei uma carreira de ferrabrás...Mas, por isso mesmo, estes bizarros moços, que ocasionalmente voam nas arenas, não me suscitam grande conceito. Tudo aquilo me parece suspeito. Tresanda-me a mero pretexto, a subterfúgio. Para aqueles desfiles afectados, para aquelas corridinhas saltitantes e, sobretudo, para se atirarem todos para cima uns dos outros, numa molhada a todos os títulos ambígua. Os do râguebi desculpam-se com a bola, estes é com o touro.
De facto, por mais que me expliquem com exaustão e pormenor a manobra, custa-me a entender aquela compulsão de se agarrarem uns aos outros e a um touro macho, chegando um deles a agarrar-se grosseiramente ao rabo do bicho. Se ainda fosse a uma vaca, vá que não vá: o bestialismo heterossexual sempre apresenta algumas atenuantes. A multiplicidade de têtas sempre justificaria a afluência em magote. Agora, assim, um bando de matulões a rebolarem-se com um touro macho – e bravo – em plena praça pública, não me parece decente. Quem me garante que, na confusão, não se apalpam uns aos outros e ao cornúpeto também?
Mas, como se estes detalhes nebulosos não bastassem, temos ainda o desfile e abordagem preliminar. Aí, o fenómeno é ainda mais escandaloso. Primeiro, como já referi (e toda a gente pode testemunhar) o da frente, pelos vistos o mais petulante, vai por ali fora, num quase ballet, a pavonear-se, a gingar-se, que mais parece uma peixeira. Um tipo à espera dum brutamontes, dum traga-mouros, a escarrar no chão, de olhos raiados, zangado, resfolegante, disposto a tudo, e sai-nos um engomadinho, todo aperaltado, ai não me toques, de colete às ramagens e calças que mais parecem collants. Depois, é o vocabulário, o palavreado fruste que brota das beiças do peralta dengoso. Quem esteja à espera de berros atroadores, de reptos assanhados eriçados de impropérios, sinal inequívoco de bravura e virilidade, em suma: quem esteja na espectativa dum Hércules, desengane-se. Nem sequer aquela cena tradicional, canalha, do gajo aos gritos “segurem-me!agarrem-me! Senão desgraço-me aqui hoje!”, com os outros a segurá-lo e a ministrar-lhe sedativos orais, estilo “acalma-te Tózé, não te desgraçes! Pensa nos teus filhos! Não vale a pena! O gajo ‘tá bêbado, Tózé!... etc,etc” Não, meus amigos, nem esse resquício de varonia, nem essa migalha. Em vez disso:
-“Eh toro! Eh toro lindo!:..”, cita a criaturinha. E não somos só nós a ficar estupefactos, repugnados, boquiabertos. O touro também. Suado, ofegante, olha para aqueles cromos, incrédulo. "Mas que totós são estes?", deve concerteza interrogar-se o desafortunado bicho, estarrecido. E o caso não é para menos. Está para ali o animal exausto, cravejado que nem um paliteiro gigante, a sangrar e a espumar-se de raiva, cheio de compreensíveis ímpetos de morte e trucidação, e, quando se prepara para um assalto final, para uma morte em glória, um fim digno, qual legionário em Dien Bien Phu – quando, enfim, já escarva trincheiras no solo–, saltam-lhe ao terreiro uns arlequins coquetes com meiguices de “eh tôro lindo!”
Lindo??!!! Tôro lindo??!!! Só falta chamar-lhe querido, fôfinho. Calculem que eu vou desafiar um cabrão qualquer e digo-lhe: “Eh gajo lindo!” Já viram maior mariquice? No mínimo chamo-lhe é “cabrão de merda!”, ou “filho duma grande puta”, ou, como é mesmo de macho, próprio de homem, não lhe digo coisa nenhuma e enfio-lhe é logo com uma cadeira nos cornos. Quem diz uma cadeira, diz um candeeiro ou, no mínimo, uma garrafa ou uma chave de rodas. Isso sim, isso é fazer a coisa com termos, com testículos, à portuguesa.
Mas qual quê, aqueles flausinos, em vez de dizerem “ó cabrão de merda! Ó grande filho da puta, manso do caralho!, ou de irem direitos ao quadrúpede e afiambrarem-lhe com uma peça de mobiliário nos cornos, literalmente, põem-se, em vez disso, com “eh toro lindo! Eh lindinho!...” Diabos me levem, se compreendo uma ternura destas!...
O touro, masculino, acho que também não compreende. Regra geral, fica para ali embasbacado, um ror de tempo, sem perceber muito bem se querem lutar ou namorar com ele. Eu partilho dessa dúvida.
Porém, não é tudo: Falta ainda a parte final da molhada, depois de se andarem a esfregar uns nos outros e na desprevenida alimária. Que fazem eles? Sim, depois da tentativa simulada de violação, largam a correr, pusilanimemente, cada qual para sua banda, excepto o que se agarra ao rabo, tipo obsessivo. Quer dizer, quando, fazendo fé que é uma luta (relembro que tauro-maquia, palavra grega, significa “luta” (maqué) de “touros” (tauros)), pois, dizia eu, quando estamos à espera que desanquem a besta, no mínimo até ao KO da dita ou pelo menos até uma fractura exposta; quando imaginamos uma chacina em ordem, com gritos e urros de arrepiar, de fazer as donzelas cobrir o rosto; quando espumamos de entusiamo antegozando para com os nossos botões “ah, agora é que vai ser, vão-lhe encher o cabaz, vai ver como elas lhe mordem!”, nada disso, nenhuma dessas medidas essenciais acontece. Pelo contrário, é um anti-climáx: todos à uma, excepto o tarado da cauda, uranista empedernido, debandam alegremente, como um bando de meninos rabinos que, finda a peça, regressam às saias maternas.
Digo mais: a continuar assim, não me admiro nada que, dentro em breve, hajam também mulheres forcadas. Se já servem para a tropa, se já as há até cavaleiras, melhor ainda se desembaraçarão a chamar “lindo!” ao touro. Ao menos não ofendem o animal.

quarta-feira, outubro 20, 2004

A Metamorfose

Com o patrocínio de Franz Kafka e deste vosso humilde criado, aqui fica uma minuta que podereis utilizar para o personagem da vossa preferência. Significa isto que o nome do herói do pequeno conto é permutável: podeis substitui-lo por vários outros, a vosso gosto (eu sei que existem), que o texto não perderá sentido nem actualidade.

Quando Luís Delgado despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de animal: um homem.
Levantou-se, no singelo par de pernas, duma grossura espantosa, e, meneando um pouco a cabeça, constatou que o equipava agora uma coluna vertebral, bem como ossos e articulações por todo o corpo. Horrorizado, tentou deslizar viscosamente pelo quarto, como sempre fizera, mas só logrou espalhar-se ao comprido no tapete. Experimentou readquirir aquele teor celular gelatinoso, que tanto jeito lhe dava para se moldar e adaptar a qualquer circunstância ou conjuntura, mas em vão. Ao tentar exfiltrar-se sob a frincha da porta, à maneira dos moluscos, esbarrou com a cabeça teimosamente rígida contra a madeira impenetrável. Por mais que se contorcesse e contraísse, em busca das faculdades de larva ou lesma de outras épocas, o corpo, desajeitado, aprisionado naquele vil invólucro de mamífero superior, não respondia. Em desespero, tentou grudar-se à parede, de modo a amarinhar ao tecto, onde repousaria supenso em meditação, tentando congeminar uma solução para o ignóbil transtorno. Mas mesmo esse seu local predilecto, onde costumava exercitar o pensamento e alcançar as maiores inspirações, lhe estava agora inacessível.
Defronte do espelho, passou do horror à repugnância impotente. Em vez daquela baba peganhenta e esbranquiçada que tanta distinção ainda no dia anterior lhe conferia e lhe granjeara uma carreira triunfante e ascensional, coroavam-no agora cabelos ligeiramente mais finos e espetados que os dos macacos. Uma carantonha nojenta, com dois olhos descomunais e uma penca protuberante, fitava-o, hórrida, e adquiria, em simultaneo, uma cor lívida de suprema angústia. Delgado, munido subitamente dum pesadíssimo e complexo cérebro, com turbilhões de sinapses e neurónios, conseguia pela primeira vez arquitectar uma ideia e esta, para adensar o pesadelo, coincidia com um prognóstico: o de um futuro catastrófico e sombrio, em que a despromoção, o desemprego e o opróbrio lhes estavam reservados, caso não recuperasse urgentemente a sua forma natural de insecto. Escorraçá-lo-iam certamente como ao mais infame e repulsivo dos seres. Mal o imaginassem vertebrado, vertical, bani-lo-iam e ostracizá-lo-iam sem dó nem piedade, como a uma coisa obsoleta e inútil. Engoliu em seco. Um suor gélido começou a descer-lhe pelas costas, ao longo da coluna recente. Pior: como uma desgraça nunca vem só, juntamente com as vértebras experimentava doravante sentimentos, pelo que grossas gotículas salgadas, soltando-se dos olhos, inauguravam sulcos pelas asquerosas faces abaixo...Transformado num ser humano, num reles e insignificante ser humano, Luís Delgado encheu-se duma grande pena de si próprio.
E, contudo, pela primeira vez também na sua miserável vida, uma análise e previsão suas estavam rigorosamente certas.

terça-feira, outubro 19, 2004

Os Burrocratas da Sabedorreia

« -Ah, tu vens de Paris?! E não quedará mal perguntar em que é que os senhores estudantes de Paris levam o tempo?
- Transcruzamos a Sequana ao dilúculo e aos crepúsculo; deambulamos pelas compitas e quadrívias da urbe; despumamos a verbocinação lacial e, como veros amorabundos, captamos a benevolência do omnijuiz, omniforme e omnigénio sexo feminino. Em certas diéculas, vamos aos lupanares e em êxtase venérica, inculcamos as uretras nos penitíssimos recessos vaginais das meretrículas amicabilíssimas. Depois, caponizamo-nos nas tascas meritórias, com espátulas vervecinas, perfumadas com salsis e hortelanus. E se nossas barjuletas carecem de metal ferruginoso, para pagar a conta contorum, deixamos as sebentas e as véstias de penhor, até que nos chegue a mesada dos penates e lares do nosso paternal.
Arregalaram-se os olhos a Pantagruel:- Que raio de falar é este? És herético, pela certa!...»
- Rabelais, “Pantagruel”.

Já vai para quinhentos anos que Rabelais ridicularizou, justa e irremediavelmente, os sorbonículas, ou sejam, todos aqueles que mascaram a maior vulgaridade de espírito sob os rococós do paleio abstruso. E, não obstante, a praga continua, a epidemia não só alastrou como se multiplicou à enésima potência. Quem enche a boca a toda a hora com parangonas como “progresso” e “evolução” bem melhor será que repense a higiene da mesma.

Oiçamos um jovem assistente universitário, pelo ano da graça de 1981, numa alocução ao “Colóquio Kant”, numa Universidade cá do burgo:
«O debate em volta da concepção kantiana de história, e particularmente sobre a natureza e latitude do conceito de progresso, progride em uníssono com as próprias brechas causadas nos instrumentos de análise teórica do objecto histórico, pelo desenvolvimento frio e anónimo dos acontecimentos que consubstanciam o presente colectivo nas suas múltiplas dimensões, da economia à situação político-militar. Mas esse vértice de actualidade, com todos os seus convites à fuga para a frente ou à doutrinação da espera e do impasse, não ocupa todo o espaço de motivações capaz de explicar o interesse e a vivacidade polémica sugerida pelo estudo dos textos históricos de Kant.» Bla-bla-bla, e por aí fora.

Perceberam? Naturalmente, não é para perceber. O estudante sorbonícula de Rabelais ocupava o seu tempo, como diz o povo, em putas e vinho-verde. O jovem estudante cá do burgo, recentemente promovido a assistente pelos idos de 81 (actualmente, está quase catedrático), mais valia que o fizesse, pois nem esse mérito social alcança: limita-se a um onanismo verborreico, malabarismo palavroso perante uma assembleia tribal de saltimbancos académicos.
Não tenho dúvida que, assim como a religião tem sido estropiada pelos sacerdotes de todas as latitudes, também a filosofia tem sofrido as piores sevícias às garras dos escolastas de ontem, de hoje, e de sempre –universitários de toda a espécie. Lembram pirilampos armados em estrelas, fazem do papagaio o totem sagrado da tribo e praticam uma coscuvilhice de comadres mascarada de erudição rupestre. Colocar a sabedorreia no altar da sabedoria, esgota, de resto, as funções destes burrocratas do conceito.
Ao fim de um quarto de século de repugnadas e perplexas observações, acho que, finalmente, me aproximei duma definição.

Meditação sobre uma Vassoura

«Esse mero pau que estais a ver estendido aí a um canto abandonado vi-o eu outrora florescente numa floresta: estava então prenhe de seiva, carregado de folhas, cheio de ramos, mas hoje é em vão que a arte diligente do homem tenta lutar contra a natureza atando aquele murcho ramo de vergas ao seu tronco ressequido: fica exactamente o contrário do que era, uma árvore voltada ao contrário, com os ramos no chão e a raiz para o ar; presentemente é manejada por todos os porcalhões, está condenada a ser escrava deles e, por capricho do destino, tem a missão de limpar os outros objectos e de a si própria se sujar; gasta enfim até aos restos nas mãos das criadas e é condenada umas vezes a ser lançada fora e outras a acender o lume, como serventia derradeira. Contemplando eu estas coisas, disse para comigo: “É mais que certo que o homem é uma vassoura!”
(...)
Mas uma vassoura, podereis vós dizer-me, é o símbolo de uma árvore que se sustenta sobre a própria cabeça; e eu respondo-vos: o que é um homem senão uma criatura virada ao contrário, com as suas faculdades animais perpetuamente a cavalo nas suas faculdades racionais e com a cabeça no sítio dos calcanhares a rastejar pelo chão? E mesmo assim, com tantas deficiências, ele erige-se em reformador universal, em destruidor de abusos, cavaleiro andante de todos os agravos, sempre a esquadrinhar os esquálidos recantos da natureza, a trazer para a luz do dia as podridões ocultas, a erguer poeiras consideráveis nos locais onde nem sequer elas existem, deixando-se tomar muitas vezes da sujidade que deseja limpar; os seus últimos dias passa-os escravizado às mulheres, que no geral são as de menos mérito: até ao momento em que, como a sua irmã vassoura, gasto até aos restos, é deitado pela porta fora ou empregado em acender fogueiras a que outros se vêm aquecer.»

- Jonathan Swift, “Meditação sobre uma vassoura”

Conclui-se, num aforismo do mesmo Swift: “No geral os elefantes são desenhados em mais pequeno que o natural; mas as pulgas são-no sempre em maior.”

Também sibilinamente, eu corroboro:
É o anão que necessita de andas; e quanto maiores elas forem, maior ele se torna. (Decifração: o Homem é um anão cada vez menor com andas cada vez mais gigantescas. Quanto mais elas crescem, mais ele se atrofia.)

segunda-feira, outubro 18, 2004

Este Kant à beira-mar plantado

Embora não pareça e não sei quantos mil jornalistas insidiem e conspirem, Portugal é um país de génios. De génios, de doutores congénitos, de crânios predestinados, é o que vos digo! A prova? Nenhuma outra região do glogo, creio mesmo que da galáxia, reune sob as suas fronteiras uma tal densidade de eruditos em Kant. É preciso dizer mais? Experimentem, numa qualquer esquina, interrogar um transeunte, um indígena avulso, mesmo uma porteira que por ali ande, de cão em trela, à espera que a alimária se alivie... perguntem-lhe, vá. “Kant? Emanuel Kant, o filósofo de Konisgsberg?! –Obsequia-vos logo, o aborígene, todo pressuroso. –Não tem nada que enganar, amigo: segue sempre em frente, vira à direita, outra vez á direita, encontra uma praça, com um jardim, é aí mesmo!” E se não vos brindar, à despedida, com um trocadilho brejeiro –do estilo: “mas cuidado não vire à esquerda na segunda direita, senão em vez de Konigsberg vai dar a Caralhisberg, uma chatice, ah-ah-ah!...” – já ides com sorte. Isto tudo se, entretanto, qualquer outro basbaque, daqueles que rondam sempre de olho atento e ouvido à escuta, não flanar nas redondezas e se aperceber da questiúncula. Porque, nesse caso, arrepiai-vos boa gente, pois haverá debate pela certa. Kant é matéria que nenhum português de gema se atreve a deixar impune. O segundo obstará de imediato ao primeiro: “Olhe que não, está a fazer confusão. Aí, na praça, é o Hegel, o filósofo da dialéctica. Kant, o Emanuel, fica dois quarteirões mais acima, logo antes da Travessa do Fichte, o amigo do Schelling”. “Você está a fazer confusão entre o filósofo e o crítico da razão, ora essa!... –retorquirá, o primeiro. –“O crítico é que mora no Largo da Transcendência, o filósofo é como eu digo!...”
Nada a fazer: muni-vos de toda a vossa santa paciência e preparai-vos para uma logomaquia das antigas. Um terceiro, um quarto, não tardarão. Parecem moscas atraídas pela bosta. Em menos de nada já é um areópago, uma assembleia, uma conferência. Cada qual –e serão muitos, garanto-vos–, tentará impingir-vos um itinerário diferente, o último sempre mais peregrino e rocambolesco que o anterior. Quando começarem a berrar alto coisas como “Leibnitz”, a vociferar “Hume” e “Wolf”, e a mandarem-se uns aos outros para o Platão que os pôs ou a socratizar-se naquela parte que vós imaginais, então, temei, fixai que é chegada a hora de sairdes pianinho, à francesa, que o caldo, depois de ferver em três tempos, vai entornar-se pela certa. Ora, se o povo avulso é assim, imaginem agora os assistentes universitários, os catedráticos, os jubilados ( já não falando nos estudantes, essa inefável classe de vermes em trânsito para mariposas). Pois, envernizai a espontaneidade popular com uma camada lustrosa de neurose obsessiva e aí tendes o quadro dos eruditos (em acto ou im-potência). Resumindo: neste raio de país, não há quem não nos explique Kant, com minúcias do arco-da-velha, escalas mirabolantes e em versões tão abstrusas e estapafúdias que nem ao diabo lembrariam, mas todas elas geniais, é claro. Aliás, quanto mais abstrusas, mais talentosas, foras-de-série. Este, de resto, é um traço essencial do carácter luso, um fundamento da sua idiossincrasia: o português não exlica, complica. Respira convicto que saber uma coisa -dominá-la até à medula dos ossos-, é complicá-la, ou seja: arrastá-la pelos cabelos a um labirinto, atomizá-la num alucinante puzzle ou triturá-la em pasta homogénea, em puré imarcescível, com a varinha mágica da sua sobrinteligência. Os portugueses alcançam mesmo o prodígio inaudito de conseguir complicar Kant. E tudo isto duma forma inata, espontânea, enciclopédica. O preço para tanta glória? Apenas uma ligeira contrariedade... Emerso em tão feéricas e prolixas tramas, o patrício nunca entende as coisas: contende com elas. (Uma bagatela, portanto, Deus o abençoe).

sábado, outubro 16, 2004

Os Dragonários - I

Há momentos e tiradas na vida dos escritores –o vulgo chama-lhes excentricidades –, que, quanto a mim, valem um romance dos bons. São desarrincanços de puro génio, merecedores, não dum Nobel que é coisa vulgarizada, muito menos dum Óscar que pior um pouco, mas dum Dragonário, que é Distinção Nobilárquica da Ordem do Espírito que eu mandaria instituir após a minha morte, não se desse o caso –lastimável para o vertente projecto- de ser, eu, imortal.
Assim sendo, que se lixe! Atribuo-os em vida. E, dessa forma sincera, vou distinguindo mortos que são ainda mais imortais que eu.
Começo por um senhor chamado Gérard de Nerval. Consta que se suicidou, na rua da Vieille-Lanterne, em Janeiro de 1855. Subiu ao Olimpo da Bizarria no dia em que resolveu passear no Palais Royal, arrastando uma lagosta viva pela trela. Inquirido sobre tão insigne extravagância, respondeu: «Em que é uma lagosta mais ridícula do que um cão?... Gosto de lagostas, que são sossegadas, sérias, conhecem os segredos do mar, e não ladram.»

São estes raros momentos de clarividência sublime no espírito humano, juntamente com a música de Bach e Mozart que constituem provas inequívocas da existência de Deus. As únicas, aliás, que reconheço. Quanto ao famigerado “argumento ontológico”, escuso de vos dizer o local exacto onde podereis enfiá-lo (precisamente o orifício donde ele saíu).
O divino não se explica, manifesta-se.