quinta-feira, setembro 20, 2007

A Trolharia ou o Cripto-feudalismo

Em 1935, a propósito dum "projecto de lei sobre Associações Secretas" apresentado por José Cabral na Assembleia Nacional, escreveu Fernando Pessoa:
«Começo por uma referência pessoal, que cuido por necessária, não dever evitar. Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem Semelhante ou diferente. Não sou porém anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica.»

E mais adiante: "O camartelo do Duce pode destruir o edifício do comunismo italiano; não tem força para abater colunas simbólicas, vasadas dum metal que procede da Alquimia".

Ora bem, por especial deferência ao maior vulto das nossas letras, também eu principio por uma referência pessoal não menos incontornável:
Não sou maçon, nem católico, nem pertenço a qualquer ordem, religião, seita ou ideologia semelhante ou diferente. Não sou porém, anti-católico, como hoje em dia tanto está na moda, nem, tão pouco, anti-maçon, e passo a explicar porquê.
Pessoa recomenda que não se confunda Ordem com seita. E é esse quesito básico que cumpro. Não confundo uma associação de malfeitores, de ratões e nepotes sabujos - em suma, um grupo alta-recreativo e excursionista de Amigos do Erário Público - com uma Ordem Esotérica. De esotérico é que aquilo não tem nada. De espertalhão, de mafioso, de valhacouto, sim, tem tudo. Transborda. E o único segredo que cultivam é o que dá a alma não ao mistério, mas ao negócio. Refiro-me, como qualquer cidadão adulto na posse mínima das suas faculdades cognitivas já percebeu e facilmente constata dia-sim-dia-sim no sórdido presente desta terra lançada aos abutres, a essa coisa tumorosa e cancerígena que responde pelo pomposo título de Grande Oriente Lusitano. O próprio nome é sugestivo e apropriado: orientação não lhes falta. Julgo mesmo que não gastam a vida senão nisso: orientarem-se. Orientam-se pela medida grande. À grande e à francesa. Anda o país todo desorientado para que eles se orientem.
Não pensem, todavia, que é preconceito ou pura malevolência minha. Admito que existam Lojas da Maçonaria Regular por esse mundo fora que preservem uma qualquer seiva mística impoluta e perpetuem, sem verdete nem caruncho, essas "colunas simbólicas, vasadas dum metal que procede da Alquimia", conforme dizia Pessoa no seu artigo. Admito, sim senhor. Não me custa mesmo acreditar que nesses digníssimos tabernáculos se busca a compreensão, intuição, iniciação, ou o que seja, a sublimes assuntos e Obras transcendentes, já não falando no conhecimento taumatúrgico dos inefáveis projectos do Grande Arquitecto e outras subtilezas fascinantes que tais. Da Patagónia à Conchichina, não o duvido, devem abundar templos desses. Da Groenelândia ao Burkina Fasso, estimo bem que proliferem, em boa luz e harmonia. Não será mesmo por falta de filantropia tão proficiente que o mundo não pula e avança e, pelo contrário, a cada hora que passa, mais patina em bosta e chafurda em sangue.
Pois, é tal qual digo: por esse mundo fora, não hesito em reconhecer todo um vasto leque de possibilidades e prodígios, toda uma cintilante pletora de maravilhas e alambiques. Que, logo por azar, nunca penetraram em Portugal. Não penetraram nem medraram minimamente que se visse. Ou se penetraram, a semente em vez de se elevar do estrume, diluiu-se nele. Porque aqui nem vê-la, à excelsa e sublime Maçonaria. Aqui, aconteceu à Maçonaria o que aconteceu ao whisky e acontece a qualquer produto escocês: martelaram-na em caves turvas à beira Trancão. O néctar deu lugar à mixórdia. De maçonaria ficou só o invólucro, o rótulo e a rolha. Esfregue-se a lamparina e o génio que sai lá de dentro usa cascos e tresanda a bombinha fétida de Carnaval. Obra de pedreiros-livres? Será, não sei aonde. Porque, para cá da fronteira, nunca ultrapassa o esquema de trolhas e mestres-de-obras, agência e gardanho de empreiteiros à rédea solta.
Operam na penumbra? Cavilam e zombam do cidadão comum? Corroem e carcomem os alicerces da democracia? Minam a credibilidade das leis e dos tribunais? Usurpam a putativa soberania popular?
Serei o primeiro a insurgir-me contra tais fábulas. Como é possível carunchar os alicerces de algo que nasce, emerge e viceja da podridão? Como é possível minar um queijo-suíço? Como é possível usurpar uma fantasia?
Por tudo isso, acusar esta seita mascarada -esta Trolharia - de conspiração ou cabala é a anedota mais estapafúrdia que ouvir se pode.
Por uma evidência escancarada: não atentam contra o regime: exercem-no, vistoriam-no, supervisionam-no. Não conspiram, governam. Melhor dizendo: governam-se. Que nem lordes, que nem abades!...

quarta-feira, setembro 19, 2007

Uma questão de pontuação

Algures, abrasado pela tremenda e infindável discussão, o marido decidiu pôr cobro à mesma duma forma rude, firme e peremptória: sacou da pistola e abateu a outra parte, por acaso sua esposa, com três tiros irrefutáveis.
Mais tarde, já no julgamento, o juiz, indignado, interrogou-o em tom áspero:
- Se queria pôr um ponto final na discussão, não tinha uma maneira menos selvática? Responda-me: acha que isto são modos de se colocar um ponto final numa discussão?
O réu, acabrunhado e devastado pelo remorso, mas amigo do rigor, achou por bem contestar:
- Na verdade, meritíssimo, se bem recordo a gramática, não foi um ponto final...
- Não foi um ponto final? - insurge-se o magistrado. - Abate a mulher com três tiros e acha que não é um ponto final?!..."
- Pois, bem vê, excelência... - contrapõe ele. - É como diz, foram três, nem sei o que me deu. Mas, por isso mesmo, não foi ponto final: foram reticências!..."

Aquilinadas 3

Já que o Panteão Nacional parece funcionar em regime de sucursal do Tavares Rico (pastam no Tavares e vão pernoitar ao Panteão), sugiro que reservem já a mesa, digo a urna, para o Saramago.

Sexofrenia galopante

Depois da escola, a educação sexual chega ao infantário. Como podemos ler no Vessas, na Alemanha, a pedofilia ganha toda uma nova dimensão familiar. É de ler e vomitar por mais.

Aquilinadas 2

O Aquilino, partam-no aos bocadinhos e metam-no no Panteão, no Parlamento, nos Jerónimos, na Batalha, em Sarça Ardente, metam-no onde muito bem quiserem. Até num certo sítio que eu não digo. Escusam é de insultar a Língua e a Literatura Portuguesa no processo. Acabo de ouvir o Baptista Bastos proclamar, naquele seu jeito característico, que o Aquilino é muito maior que o Camilo. É o mesmo que dizer que o anão às cavalitas de outro é maior que esse outro. Ou então, analogia ainda mais fidedigna, que a caracoleta a babejar labirintos em cima do chapéu de um cavalheiro é mais alta que o cavalheiro.
País de pigmeus, hienas e comadres!...

Aquilinadas

Da maneira que isto vai, o Panteão começa a ser exíguo: o melhor mesmo é erigirem um santuário personalizado.

terça-feira, setembro 18, 2007

Lavado seja o Doutor

Ainda há bem pouco neste mesmo blogue tive vários desfiles e outras tantas manifestações duma récua de histéricos que, diante da mera alusão a África ou a qualquer tema relacionado, desatavam automaticamente aos guinchos, aos urros e a espumar pela boca. Poderemos acusar estas criaturas de tudo, menos, seguramente, de incitamento ao racismo. Qualquer pessoa com os alqueires bem medidos, só de escutá-los, só de topar-lhes o escarcéu, desata instintivamente a simpatizar com os pretos todos do planeta, mesmo sendo os pretos do planeta tudo menos simpáticos. Eu, que sou de extremos, tratei até de ir logo mais longe: dei comigo a apreciar a inteligência e a racionalidade dos chimpanzés.
Significa isto, sem qualquer espinha, que skinheads, higiénicos raciais e outros ranchos folclóricos que tais, a serem alguma coisa de efectivo, é aliados convenientes dos promotores internacionais da mestiçagem, da amálgama, isto é, da uniformização global. Não existe maior ruína e perigo para uma causa que um mau defensor da mesma. Se é a raça branca, nos seus diversos cambientes e modalidades, que apregoam defender, não é certamente dando uma miserável amostra da mesma que o alcançam. E se pretendem afrontar uma qualquer putativa escumalha, também não é certamente comportando-se como outra que o conseguem.
Então não existe incitamento ao racismo? Existe, ah, pois existe. Existe e de que maneira!
Começo por um exemplo trivial e blogosférico:
O Pedro Arroja, convencido que habita um país onde existe liberdade de expressão, escreveu determinadas opiniões suas num blogue de referência. Um dos resultados foi este, e cito "Quero ter a certeza de que não tenho links a blogues racistas, misóginos, machistas e anti-semitas. Assim, por precaução, vou retirar o Blasfémias da minha lista de preferências, pelo menos enquanto lá escrever Pedro Arroja".
É evidente que o esquisitinho que escreve isto está no seu pleno direito. Sabemos até no que deu. Mas não é menos verdade que qualquer homem inteiro, adulto e vertebrado que leia uma mariquice destas adquire de pronto, não só um nojo insanável pelo filisteu sonso, como a vontade de ir ser racista, misógino, machista e anti-semita o mais depressa possível. Estes higienistas da política, esta choldra do políticamente correcto, do ai jesus não me toques que me desafinas, esta mediocridade mental que enloda o país constitui, de facto, um incitamento violento e premente ao racismo (já não falando no resto). Do mesmo modo que diante dos higienistas raciais, desatamos a simpatizar com os pretos, amarelos e azuis às riscas; diante deste higienistas políticos, damos connosco a apreciar, pasme-se, os skinheads, os identitários, os sultões, os barbas-azuis e até os antropófagos do Bornéu.
A blogosfera está infestada de escória desta: higienistas. Políticos, raciais, sociais, religiosos, há neurose e paranóia para todos os gostos. Catadores púbicos a esmo. Patrulheiros da última moda, da penúltima e até duma moda qualquer fora de moda. A mim fica-me apenas uma certa pena que, quando me retiram os preciosos linkes, não emitam também estas declarações solenes. Há todo um orifício obscuro no fundilho das costas deles onde, desde logo, recomendaria que os enfiassem. Aos linkes junto com as proclamações.
Mas a blogosfera é só uma pequena montra do país. E neste, os incitamentos ao racismo são ainda mais imperativos. Tanto quanto insidiosos.
A política selvagem e indecorosa de imigração que, desde o Cavaquistão, por cá se pratica é campeã nisso. Houve toda uma chusma de eleitos que fez fortuna com os Fundos da CEE. À custa de duas coisas principais: esquema político-partidário e mão-de-obra semi-escrava. Portugal tornou-se, assim, o paraíso dos trolhas. Importaram-se africanos e eslavos em catadupa. Naturalmente, quanto mais ilegais, melhor. Em seguida, para sobremesa, aterrou o conceito peregrino da Globalização. Consiste em competir com a China, a Índia e outros insectódromos catitas. Resulta numa manigância muito jeitosa: como eles têm mão-de-obra ao preço da uva mijona, a Europa, para poder competir, tem que ter mão-de-obra ainda mais baratinha. Desceu-se assim um novo degrau: da mão-de-obra semi-escrava para o trabalhador descartável. Dantes era usar o mais possível ao mais baixo custo possível; agora é usar e deitar fora. E como há excesso de oferta, porque o mercado está articialmente inflacionado com as descargas permanentes de migração e imigração (e há bichas imensas lá fora no Terceiro Mundo, à espera), usa-se o menos tempo possível. Bem vindos à idade das sucatarias humanas!... Ora, o que resulta da sucataria humana é, entre outras coisas, racismo - dos que lá moram despejados ( pretos e brancos, mulatos ou ciganos), e dos que lá moram ao pé ou com eles se cruzam, porque ainda não agenciaram carcanhol suficiente para se irem fortificar em condóminos distantes, à bela maneira dos Novos-Brasis. Assim como aos nossos higienistas raciais só faria bem uma estadia em África, aos nossos higienistas sociais e políticos ainda faria melhor uma estadia na Damaia ou no Cacém. Senão num muceque de Luanda, sala de embarque destes.
Outro incitamento metódico ao racismo é a bandalheira instituída que se vive no país em matéria de educação e segurança. Descrito sucintamente: o país já tem lúmpens em abundância, em excesso mesmo, pelo que não precisa de importá-los de África; o país, de facto, já possui um sistema (des)educativo que nos últimos anos vem transformando, industrialmente, brancos em pretos. Ora, se tem um fabrico nacional de pretos, estar a importá-los atenta contra a principal indústria da nacinha. Além disso, os pretos importados depois reproduzem-se e os filhos daí resultantes, ao engrenarem no tal sistema (des)educativo, resultam em verdadeiras aberrações - já sendo pretos à entrada, não se percebe bem no que derivam à saída. A máquina, já de si perversa, confunde-se, range nas engrenagens e entra em colapso. No geral, lá acaba por golfar uma surrapa americanizada que, em demasiados casos, merecia a devolução simples e expedita à "Mãe África", não por avião como alvitram alguns, mas por catapulta simples. Pelo menos era o que eu faria a qualquer cantadeiro de rap-hip-hop. Entretanto, de toda esta balbúrdia superlotada, como é bem de ver, resultam conflitos inevitáveis: os pretos de fabrico nacional espingardeiam com os pretos de importação; os filhos de uns e outros competem e digladiam-se pelo domínio das discotecas, danceterias, shopping-centeres, drugstores, ginásios e outros locais de culto.
No entanto, se levarmos em conta que a tutorar o sistema de (des)educação e a supervisionar o dispositivo de segurança estão as televisões, porta-vozes e mandatários da Deusa Publicidade e do (duplamente) Santo Hollywood, nada disto é espantoso. Pelo contrário, tudo parece obedecer a um caos planificado. E mesmo a justiça do tipo sumário, o receituário drástico de supetão acabaria enrodilhado num paradoxo incontornável: ainda que recambiássemos a toque de caixa a lumpenagem estrangeira, continuaria o país submerso na lumpenagem nacional, com a agravante do fabrico desta se concentrar nas incubadouras partidárias e infestar já, em regime de gangrena, as próprias estruturas da Administração Pública e do Estado.
Neste naufrágio colectivo, a aberração banaliza-se. O incrível ganha foros de rotina. E a higiene política patrocina toda a espécie de imundícies de ocasião.
Num desses episódios mais recentes, a pretexto de mais uma reforma peregrina, a esbirraria da república alivia da hospedagem forçada nos seus cárceres violadores de crianças e, para compensar, engalfinha-se selectivamente contra perigosos skinheads e outros pecadores desobedientes ao credo dominante.
Mera prepotência. Os maiores praticantes e promotores de racismo e de incitamento ao racismo neste país -o Estado e a gentalha que o ocupa -, não têm moral para acusar ninguém desse delito. Mas como a moral dispensam e a vergonha nem conhecem, toca de dar ao trampolim. E o resultado é este: a principal causa vinga-se no mero efeito de que não gosta. Quer desembaraçar-se do filho ilegítimo, acidental e infamante. Disfarça a paternidade, punindo o indesejado.
Que fossem justos, já ninguém fora da gafaria esperava. Mas, se a mínima castidade já não guardam, guardassem ao menos a verosimilhança.

segunda-feira, setembro 17, 2007

A Conversa



Acta da conversa entre o Engenheiro Ildefonso Caguinchas e Anacleto Punhetas, sócio e mecenas do primeiro, decorrida numa destas manhãs, na tasca, digo cibertasca, do Armindo Taberneiro.



Eng. Ildefonso Caguinchas (EIC) - Ó Punhetas, a televisão 'tá a dar cabo de ti. Cada vez te vejo mais chupadinho das carochas. Até pareces aqueles chavalos que dão no pó..."
Anacleto Punhetas (AP) (de olhos fixos no ecrã) - Ãh, é o quê, ó Engenheiro?...
EIC -" 'Tou preocupado contigo, ó Punhetas. Não largas essa droga!..."
AP (a babar-se) - "Tu já me viste bem aquela Sónia Araújo? Aquele par de mamas?! , até me apetece uivar! Espera só aí um coche que eu já venho. "
EIC (murmurando com os seus botões) - "Pronto, lá foi o sacana prá casa-de-banho!"
(...)
Três minutos depois...

AP (Regressando do WC, com ar mais aliviado) - "Dizias tu, ó Engenheiro..."
EIC - "Eh pá, dizia que a televisão 'tá a dar cabo de ti. Ainda ficas estrabeculoso. Vai daí, tens que ser internado e depois quem é que me paga o aluguer da Carla, hein, já viste bem o problema?... Andas a brincar com coisas sérias!..."
AP (novamente atracado ao ecrã, após zapar para a TVI) - "Minha nossa senhora!, e aquela chavala que trabalha com o Gouxa também não é nada má. Já me viste bem aquela boquinha? Aquilo deve fazer maravilhas! Até levanta um morto do caixão!... "
EIC - "Oh pá, larga o caixote! Presta atenção no que te digo..."
AP (novamente em êxtase) - "Só de imaginar as habilidades do que aquela língua é capaz!... Ih, e agora até lhe morquei a nalga!... 'Péra aí um bocadinho qu'eu já volto!..."
EIC (exasperado) - Olha...lá desopila de novo aquele filho da puta prá casa de banho!... Foda-se, já não é vício: é tique.
(...)
Passados cinco minutos ...
AP - Pois dizias então tu, ó Engenheiro...
EIC - Digo e não volto a repetir: isso é um suicídio! Vais-te matar a tocar punheta, raio de vertigem!..."
AP (zapando para a RTP) - Minha mãezinha... olha-me só aquela convidada da Sónia, olha-me só aquela tranca! E o pernão...ena, c'um raio, o pernão!...""
EIC (arrancando-lhe o telecomando das mãos) - Dá-me cá essa merda! (Apaga a televisão) Pronto! Agora vais ouvir concentrado duma vez por todas: tens que largar a puta da televisão, ouviste?
AP - Ouvi, porra, atão não ouvi!... 'Tás-me aí aos berros que até se ouve na Picheleira."
EIC - "Pois, ainda bem. Então vê lá se entendes: tens que comer menos puta artificial e mocar mais puta natural, percebes? Resumindo: tens que comer mais puta gaja e menos puta imagem! 'Tás-me a acompanhar?..."
AP - "'Tou-te a acompanhar, mas tenho receio."
EIC - "Tens receio de quê?"
AP - "Tenho receio de te acompanhar às putas gajas."
EIC - "Não tenhas. Elas não te comem. A ideia é que tu as comas a elas."
AP - "Não tenho medo que elas me comam, isso até nem me importo. Tenho medo é que elas se riam?"
EIC - Oh pá, g'anda anjinho: elas riem, choram, cantam, gemem, fazem o que tu quiseres. Desde que pagues..."
AP - "Não é isso, engenheiro: tenho medo que elas se me riam da pila.."
EIC - "Do quê?"
AP - "Da pila."
EIC - "Da pila?!! Que merda vem a ser essa?..."
AP (apontando) - "Aqui, do entrepernas!..."
EIC - "Ah, a piça, o marzápio, o Zé Pincel! Que tem ele? Não me digas que, de tanto pinar o ecrã, apanhaste um tele-escantamento?!..."
AP - "Não. Dá-se o caso é que tenho a pila -a piça, curta."
EIC - "Ora pá, não t'assustes. Antes a piça que a memória, como estes toca-pívias d'agora. Não tem problema. Sei do sítio ideal... A matrona, antigamente, era dona dum circo, uma calmeirona loura que se péla aqui pelo je. Nem é tarde nem é cedo: logo à noite vamos lá."
AP (apreensivo) -" Vamos?... E achas que a calmeirona não desata a rir?..."
EIC - Não, pá. Tranquiliza-te: a calmeirona fodo eu..."
AP - E eu?
EIC - "Então, tu fodes as anãs."

Mais banalidades, não.




Quando escutei o rumor de que o primeiro-ministro português tinha cometido algo de singular e emocionante na capital americana, corri a ver do que se tratava. Afinal, era o mesmo jogging de sempre. Até já enjoa. Ainda tive esperança que, desta vez, para benefício de todos nós, fosse "hara-kiri"...

Aprender com quem sabe

Ao contrário das prima-donas do futebol, os rapazes do râguebi estão ali para levar porrada sem queixume nem lamúria. É preciso tomates para enfrentar aquelas bestas da Nova Zelândia. É, sim senhor. "É preciso muita coragem e vontade de pará-los, não é fácil metermo-nos à frente deles", confirma um dos nossos valentes. Merecem o nosso orgulho, estes "Lobos".
Mas, como sempre, somos um país que se menospreza e esquece o seu património. Ao que sei, andaram eles a preparar-se para o Mundial na pista de lodo, da Escola de Fuzileiros. Mas isso é escasso, como de resto se comprova. Deveria ter servido apenas de aperitivo. Onde eles precisam mesmo de treinar é nas arenas de touros. Vão aprender com os forcados. Um povo que pára toiros a peito descoberto, pára um cabrão qualquer.

Num próximo postal, ensinarei como se atropela os gajos.

domingo, setembro 16, 2007

Coisas que Abril Pariu

Como já tive oportunidade de dizer a um deles, e confirmo a cada nova mensagem que me fazem chegar, os nacinhalistas têm um conflito maior com a Língua Portuguesa do que com a imigração estrangeira (passe a redundância). Suspeito que tem a ver com a melanofobia (a aversão ao preto) que os aflige: Tudo o que seja preto complica-lhes com o entendimento, curto-circuita-lhes a mioleira. Seja primata, seja letra. Mas a letra ainda pior que o primata. De facto, superior à sua higiene racial só mesmo a sua iliteracia. Que não entendam patavina da mancha negra que lhes ameaça os horizontes, não me surpreende; agora que não percebam népia do que eu escrevo, deixa-me triste. Meditabundo.

Isto transporta-me a um outro considerando de ordem filosófica: hoje em dia, mais alarmante que o excesso de estrangeiros em Portugal (isso, mais ou menos drasticamente, sempre se resolve) é a escassez de portugueses.
Como se já não bastasse nascerem cada vez menos, são cada vez mais os que não chegam portugueses à idade adulta. E não é só a Língua que maltratam, ignoram e alarvemente tripudiam: é, pior que isso, a História. Até apetece mandá-los (dito à brasileira) ao Abriu que os pariu.

Justa Trasladação

«Por decisão do Parlamento, os restos mortais de Aquilino Ribeiro (1885-1963) serão trasladados do cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional».

Há quem se insurja contra isto. Compreendo o mal-estar. Eu, porém, se acho que peca é apenas por escasso. Direi mais, se houvesse uma nesga de elementar justiça nesta terra, não era apenas os restos mortais de Aquilino que mereciam ser trasladados, já hoje, para o Panteão. Os restos de todo o Parlamento e da inteira e actual classe política, com retroactivos à segunda geração, mereciam idêntica consagração simultânea. Isso é que havia de ser cá um progresso nacional, uma apoteose, uma festa!... Vão-me dizer que não cabia lá tanta urna. Bem, na urna ia o escritor. O resto armazenava-se num cinzeiro.

sábado, setembro 15, 2007

A raiz do fantasma

Tenho um sinónimo porreiro para mestiço: urbano.
A cidade é o local por excelência da mestiçagem. A fusão viceja na confusão. Que é sempre mental antes de se tornar sexual.
A um tipo do campo, a um homem não desterritorializado, não lhe ocorrem angústias com a raça: respira-a, vive-a, aceita-a tal qual a recebeu dos pais. Não se sentindo sujo nem contaminado, ou ameaçado disso, não o perturbam neurosas obsessivas com a higiene racial. A higiene, de resto, nunca foi uma compulsão rural. Sem a cidade, sobretudo na sua dimensão moderna, nunca teria havido nem a paranóia abstergente nem a própria psicanálise.
Ora, há um local específico da cidade moderna donde brota, histórica e invariavelmente, quer o desejo de purificação, quer a vontade de contágio: o Gueto.
A judaização prolifera por onde só os entretidos e incautos menos esperam.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Monasticismo rigoroso

O voto mais nobre do monge guerreiro é a pobreza. Já o do monge guerreiro e putanheiro é a penúria. E o arrostar titânico duma dupla e ingrata tarefa: o de lutar contra monstruosos escarépios na cabeça alheia e, às vezes, na cabeça da própria pichota.

O poder da sugestão estética

Clive James, que não sei quem seja, diz de Humphrey Searle, que também não conheço de lado nenhum, que, e passo a citar, «escreve música que soa como um tema do filme "Star Wars", tocado da frente para trás por uma máquina de lavar.» E eu, não obstante, quase instantaneamente, sinto-me inclinado a acreditar. Parece-me até um risco menor do que experimentar ouvir a música de Searle.

À falta de napalm

Está na hora de acabar com o recreio.
Dizia o Almada que se o "Dantas é português, eu quero ser espanhol". Sigo a metodologia para esta bosta mal cheirosa que se auto intitula "identitária" e é simples:
Se esta coisa é anti-católica, eu quero ser católico; se é anti-tradicionalista, eu quero ser tradicionalista; se é anti-imperialista, viva o Império!; se é anti-colonialista, abençoado colonialismo!; se é anti-salazarista, eu quero ser salazarista, salazarengo, salazarão!; se é democrata, eu quero ser ultra-fascista; se é anti-globalização, então a globalização, afinal, até deve ter um monte de virtudes; se é contra o sistema, eu quero ser do sistema, o mais possível, se me deixassem até ia já candidatar-me à polícia de Choque! Se é isto ser branco, antes ser preto, é mais honesto! Se são estes os neorevolucionários do balde e da lixívia, não estou, fui às putas desforrar-me nas mães!
Em resumo, o que quer que esta bosta mal parida seja, eu quero estar nos antípodas. O mais longe possível.
Todos os insultos e injúrias oriundos de porcaria deste quilate serão para mim encómios, elogios, coroas de glória. Entre isto e o Bloco de Esquerda, não reconheço diferença rigorosamente nenhuma. A estirpe é a mesma: a estirpe dos filhos da puta!... Uns a lamber os pretos, outros a cuspi-los, mas lá no fundo todos a trabalhar pró mesmo. Todos à cata do voto ao otário. A semear discordiazinhas de cabeleireiras, cismazinhas de varinas, assuadas de matilha rafeira. Vermes de caixão, caruncho da raça, epígonos do refugo de Alcácer-Quibir! Apenas com a diferença que os Bostas de Esquerda são ligeiramente mais inteligentes. A distância que vai do protozoário à lesma.
Registem lá isto na cassete zombi que vos serve de mioleira, ó cagalhões, para que fique bem claro: eu, César Augusto Dragão, à falta de napalm, escarro-vos em cima.
Estamos conversados.

PS: Censura? Repressão? Tanta quanta possa, podeis ficar seguros. Só pela volúpia de vos ouvir chiar. Mas será sempre escasso, ficará sempre aquém do merecimento: empalamento é que vos ficava bem.

PS2: Em todo o caso posso ponderar publicação de arrotos, desde que iniciados por "Meu Fuhrer" e terminados com "A Bem da Nação".

Lusofobia

Em resumo, o Nacinhalismo é lusofóbico.

quinta-feira, setembro 13, 2007

A Nova matemática

«Criado sistema matemático que permite prever conflitos mundiais».

Faz imenso sentido. Até porque a aprendizagem da matemática está cada vez mais conflituosa. Tanto que, por via das novas pedagogias, a tendência até é para substituir a máquina calculadora pela pistola, pela matraca ou pelo facalhão.
A multiplicação de problemas, a adição de substâncias, a divisão de espólios e a subtracção de colegas consubstanciarão o figurino da nova tabuada.

Pontinho da situacinha (jardim)

Do que vou aprendendo nas catadupédicas prelecções:

1. A nacinha, além de todas aquelas liliputices estupendas que a compõem, usufrui também dum fenómeno esotérico a que poderíamos chamar "nacinhalismo".
2. O nacinhalismo, se bem percebo, é assim a modos que um «saco-de-gatos, num ghetto voluntário, a catar pentelhices e a reciclar Lenine.»

Não perca os próximos episódios.

Haja fé, haja esperança

Mas calma, nem tudo está perdido. Isto não é nada de sério, é apenas um blogue. Dum reles e ordinário cidadão deste país, também ele reles e ordinário, cada vez mais reles e ordinário, num planeta a virar hospício.
A última coisa que eu gostaria de causar era dúvidas, angústias ou sequer raivinhas. Ainda menos colapsos nas fantasias. Então aí é chão sagrado. Se o homem não tem direito à sua fantasia, não tem direito a nada. E a fantasia é como o sexo: há quem goste individual e há quem goste colectivo, em manada; há quem goste natural e há quem aprecie esquisito, até aberrante. Há até quem ache o aberrante perfeitamente normal. A política, de resto, está cada vez mais parecida com a perversão sexual. Suspeito que se tornou mesmo um departamento seu.
Uns fantasiam com o dinheiro e dizem que é o Mercado; outros fantasiam com a Classe e dizem que é a Revolução ; outros fantasiam com o sangue e dizem que é a Raça ou a Estirpe; outros fantasiam com a razão e dizem que é a Ciência; outros fantasiam com Deus e dizem que é a Igreja; ou dizem que é o Povo Eleito; outros fantasiam com o sexo e dizem que é o Prazer; enfim, há fantasias para todos os gostos e feitios.
Zangam-se comigo quando descobrem que eu não estou lá, a participar na fantasia, a remar com o grupo, a cantar no coro. A deslumbrar-me e a extasiar-me com a fantasia. Mas o que se passa é que, mais alto que qualquer fantasia, há esta minha fobia: a rebanhos. Seja na qualidade de ovelhinha, seja na de cão, seja feito pastor, abomino rebanhos. E o que mais vejo é gente arrebanhada. Gente a clamar pasto e curral a crédito. Isso e carneiros arvorados em alcateia. Ou em bando de salteadores nocturnos.
Não ponho, todavia, minimamente em causa a excelência da fantasia de cada qual. Não me parece que fazer dogma da Raça seja mais estúpido que erigir axioma do Mercado. Ou da Classe. Ou da Razão. Nem menos, tão pouco. Sou, e dei provas disso, o primeiro a insurgir-me contra a discriminação que se faz aos neonazis, como se fossem uns monstros únicos, como se fossem imensamente distintos de qualquer neoliberal, comunista, cientista, socialista ou democrata-novo da paróquia. Por amor à verdade e à franqueza, devo dizer que não distingo grandes diferenças essenciais entre todos esses devaneios. Toda essa gente devia congregar-se em parlamentos, esses asnódromos de eleição, a derimir e a comparar taras e baboseiras. A gritar e a barafustar contra as florestas de pentelhos que lhe envenenam os horizontes. Local mais apropriado para essas ganas e aleives não vislumbro. Os maníacos, desde que devidamente parqueados, até se tornam pitorescos.
Mas, como digo, nem tudo está perdido. Tenham fé. Hei-de regenerar-me um dia destes, hei-de corrigir-me e aderir a uma qualquer moda catita, de casino ou vão-de-escada. Até já sei como, só ainda não reuni coragem. Mas mal ela advenha , vai ser trigo limpo farinha Amparo:
Arranjo uma tômbola e coloco lá dentro várias bolas numeradas, cada número correspondendo a uma fantasia - por exemplo, 1. Mercado; 2. Classe; 3.Raça; 4.Ciência; etc. A tômbola ou um sistema de rifas. Depois é só sortear. O resultado é irrelevante: aquilo vai tudo dar ao mesmo.
Uma vez bem sorteada e rifada a fantasia, abalançar-me-ei ao segundo passo necessário: uma lobotomia. Daquelas permanentes. Confesso: é esta parte que eu ainda tenho alguma dificuldade em confrontar. Agora já há métodos psicológicos, químicos, musicais, já nem requer dissecações ou cirurgias, eu sei. Mas mesmo assim...

quarta-feira, setembro 12, 2007

Os Prolários

Ao ritmo a que os telejornais, com requintes de circo, exibem criancinhas mortas, extraviadas, torturadas e brutalizadas pelos progenitores naturais, não tardará muito que estes sejam dados como factores de elevada ameaça e risco para a sua própria prole , passando a criação e educação desta, à semelhança de certas repúblicas utópicas, para o cuidado obrigatório de profissionais do estado – (de)formadores devidamente qualificados e standardizados. Os pais, aqueles que não estejam emigrados e ainda se interessem, poderão visitar os aviários, aliás, prolários durante o fins-de-semana.
E assim se desmantela de vez o último entrave da trilogia nefasta e malfazeja: a família.

A Alarve milagre

Subestimamos muito as seitas. Menosprezamos todos esses bufarinheiros da fé, almocreves da devoção de esquina e druidas de vão de escada. Depreciamo-los, acreditem, a todos esses possessos assanhados que grunhem receitas e panaceias pelas feiras; que resolvem cancros às três pancadas e descobrem maus olhados pelos cruzamentos. Não damos, definitivamente, o devido valor às suas mézinhas e poções. Aos seus diagnósticos e unguentos. Sim, ninguém duvide, bruxos, adivinhos, pregadores e vendedores da banha da cobra, por incrível que pareça, têm os seus méritos. Donde menos se espera, o milagre desabrocha. Eclode. Sou testemunha e, mais que testemunha, prova dessa faculdade taumatúrgica absolutamente insuspeita. Mas pródiga.
Distinguido, nestes últimos dias, pela pregação frenética, babosa e gafanhotante dum desses símios peregrinos - um tal Caturro, Vidente da Brandoa -, eis que o inesperado -mais: aquilo que já toda uma cultura julgava impossível - irrompe: a minha conversão ao catolicismo. Estupefactos? Não vos estupefareis sozinhos: até o apocalipse estremece e pasma. Aquilo que hordas de padres e um Vaticano completos, santos e ascetas de dois mil anos, não haviam conseguido, ele, abençoadinho, com meia dúzia de ranhosices mal atamancadas, consegue. Consegue e realiza nas calmas, pois, mais que católico, eis-me beato instantâneo e papa-hóstias efervescente. Neste momento, descalço, de bastão e farnel, até já palmilho direito a Fátima, mirando com ar guloso os mosteiros pelo caminho. A Opus Dei, essa, quase aposto, celebra vitória e instaura feriado nacional de Espanha.
Mas não satisfeito com este fulgurante portento, o destemido e proficiente mago alcandora-se a proezas ainda mais trepidantes: eis-me também tradicionalista dos quatro costados e salazarista devoto. Bastaram umas tretas de perlim-pam-pum e um toque de varinha mágica. Nunca esquecendo a aspersão miudinha de gafanhotos da cobra, que mal nos tocam logo nos redimem e transfiguram. Cuspinha-nos e cura-nos, meus irmãos. Remédio santo! Ah, isto já não é apenas milagre: é transmutação inefável, transmigração da estirpe.
Razão têm aqueles que vaticinam: "Deus opera por misteriosos caminhos".
O milagre, porém, nem sempre é suave: às vezes, também é alarve. Javardo até.

terça-feira, setembro 11, 2007

História portuguesa X

A cena é verídica e passa-se nos arredores de Lisboa. Num daqueles subúrbios onde filhos de famílias disfuncionais, pretos e brancos, são criados em conjunto, à rédea solta.
Calhou que um grupo de amigos de infância, dois deles pretos, alcançaram a adolescência. Um belo dia, um dos brancos descobriu que era nazi, no que os outros, por espírito de bando, prontamente imitaram. Ei-los todos de suástica ao peito (passe a expressão). Os pretos, que eram irmãos, também. E com tal entusiasmo que, prontamente, foram grafitar nas paredes lá do prédio:
"Morte aos pretos! Excepto o meu irmão e eu."

PS: Non est inventus.

A Ferramentazinha

Realmente, o português dá muito trabalho. Nada como optar por uma língua mais simples. E já que a ideia é mesmo, no futuro, isto acabar tudo aos guinchos, o inglês não deixa de ser meio caminho andado. Darwin, de resto, tinha razão. Só que viu a coisa às avessas: o macaco não é o antepassado destes tipos: é a meta final.
E tem outra vantagem para os miúdos, isto do inglês: quando atingirem a idade mercantil, podem emigrar com muito maior facilidade. Já vão mais adestradinhos. Já levam com eles a ferramentazinha.
Lembra-me aquela pilhéria que se conta, a de que os capitalistas acharam por bem promover a alfabetização das massas para que estas pudessem ler os jornais e assim serem mais facilmente manipuladas e coduzidas, ou seja, enganadas. Si non é vero... Pois bem, assim ficam habilitados a ler mais jornais.

Pergunta de algibeira

Qual foi pior: andarmos a colonizar Áfricas, Brasis e Índias, ou deixarmo-nos colonizar por franceses, ingleses, soviéticos, americanos e, agora, até espanhóis?...

O caminho da servidão

«Manuais escolares caros levam políticos a sugerir empréstimos».

Quer mandar os seus filhos para a escola?
-Fácil, peça um empréstimo.
Quer ter uma habitação, que a Constituição lhe garante ser um direito?
- Fácil, peça um empréstimo.
Precisa de fazer uma operação?
- Fácil, peça um empréstimo.
Quer recorrer à Justiça?
- Fácil, peça um empréstimo.
Quer ter uma família?
- Fácil, peça um empréstimo?
Quer suicidar-se?
- Fácil, peça um empréstimo.

É a nova escravatura light, o neofeudalismo dos servos do globo: os portugueses de fracas ou medianas posses estão a ser vendidos à banca.

Inducação com Todos

«Segundo os dados do balanço do primeiro ano lectivo de funcionamento da linha "SOS Professor", criada há um ano pela Associação Nacional de Professores (ANP), há vários casos denunciados de encarregados de educação que agridem professores»...

Devagar, mas isto vai lá. Começa, finalmente, a notar-se um certo laivo de organização. Uma vontade de ordem. Qualquer coisa como uma pirâmide. Ainda que invertida, uma pirâmide é melhor que nada. Já é qualquer coisa... Os filhos batem nos pais, os pais agridem os professores e estes arreiam na ministra e naquela choldra toda de burrocratas ministeriais que gravitam em redor desta. Trilogia perfeita, como se vê. A questão que se coloca é "estão à espera de quê, ó senhores professores, para irem encher o cabaz à ministra?"

segunda-feira, setembro 10, 2007

Igualdade eficiente

Nestas sociedades democráticas modernas onde nos apascentam, falar em igualdade dos cidadãos perante a lei começa a soar a anedótico. De facto, se alguem pensa seriamente em acautelar o futuro e em consignar um mínimo de decência jurídica, então o que cumpre exigir é igualdade perante a Comunicação Social. Porque é ela quem faz a lei? Pior: porque é ela quem faz e desfaz o mundo onde essa lei se aplica.

O Criador e as criaturas ou O Génesis recalcitrante




A propósito disto e disto, convém dizer o seguinte:

A blogosfera, só para citar o departamento da internet que maiores azias parece ciclicamente gerar, é, em Portugal, um produto e um reflexo da sociedade portuguesa actual. E, assim sendo, é natural - e fatal - que fervilhe de troca-tintas, medíocres, falsários, poltrões, sicofantas, sabujos, toinos, velhacos, tartufos, rançosos, ciumentos, manteigueiros, garganeiros, vira-casacas, mainates, badamecos, manhosos e rapa-tachos. Isto, já não falando nos nepotes, ratões, compadres, pesporrentes, minotauros, sonsos, anões talentosos, oxiúros, mimosos, funâmbulos, zombis, balões, gastrópodes, egoflatulentos e bacocos. Tudo isso, toda essa fauna tão luxuriante quão monótona, não nos deve espantar. Surpreendente, isso sim, senão mesmo bizarro, só o facto recorrente de Pacheco Pereira, cercado de tantas imitações suas, mimado de tanta réplica esforçada, em vez duma mais que justificada vaidade, estadear um inexplicável e crónico amuo. Talvez porque a blogosfera é um reflexo, mas não é - ainda e apenas - o espelho: a superfície liquefeita, tenebrosa, caótica - mas passiva -, onde ele estimaria de se debruçar demiúrgico, aspergindo universões luminosas através do gotejar apofântico do seu Verbo pirilampejante.

Resta-lhe, assim, nesta conjuntura irrequieta, reforçar a nostalgia com o vil apetite. E fechar o círculo, tornando na velhice ao exacto esplendor baboso onde se iniciara na juventude: na visão idílica e apaziguante dessa República Popular da China controleira e totalitária. Vira-se a casaca, mas fica sempre a chinela. E o pézinho fugidio. E refém.


PS: Esqueci-me de referir os mongos. A todos eles, peço desculpa pelo lapso.



Na Corrente

Antes que me esqueça, e por incumbência desta estimada senhora, cujas sugestões para mim são ordens, passo a enumerar dez livros que foram determinantes para a besta que eu hoje sou. Refiro que, para meu uso e costume, os livros verdadeiramente importantes não são os que lemos, mas os que relemos e nunca mais deixamos de reler ao longo da vida. Assim, as minhas dez "bíblias", acompanhadas da devida vénia a Vossa Senhoria, dama de elevada estirpe e superlativa nobreza:

1- Homero, "Odisseia"
2- Homero, "Ilíada"
3- Ésquilo, "Prometeu Agrilhoado"
4- Sófocles, "Rei Édipo"
5- Sófocles, "Antígona"
6- Aristóteles, "Metafísica"
7- Aristóteles, "Ética a Nicómaco"
8- Aristóteles, "Política"
9- Nietzsche, "Assim Falava Zaratustra".
10- Fernando Pessoa, "Mensagem"

Excepcionalmente, em atenção à proveniência, segue a incumbência para o José, a Zazie, o Manuel, o Kzar, o Pedro Arroja, o Paulo e o Mário. E agora façam como entenderem.

Mais arianos kosher

Em Israel, a polícia deteve um bando de cidadãos neonazis.

Agora chamem-me bruxo.

Os ashkenasi são diferentes dos sefarditas e constituem a casta dominante de Israel e do Sionismo. Os sefarditas são aqueles coitados, da penca, que apanham com a má fama toda. Quando na notícia se lê que estes jovens arianos atacavam árabes, gays, emigrantes e judeus, este "judeus", muito provavelmente, significa judeus da casta inferior, os tais sefarditas, alguns deles - muitos dos que viviam na Palestina antes da fundação do Estado de Israel - judeus ortodoxos, imagine-se, anti-sionistas. Confuso? Mas ainda há melhor: no fim da notícia lê-se: «Apesar de serem na sua maioria cristãos, quase todos os detidos chegaram a Israel quando eram crianças».
Judeus cristãos antisemitas... educados em Israel desde pequeninos.
E ainda perguntam o que é que terá falhado na educação. Um sucesso estrondoso destes e eles a procurarem falhas!...

domingo, setembro 09, 2007

O Sousa Veloso

Passou por mim o Engenheiro Ildefonso Caguinchas. Perplexo, por via destes dois que a terra há-de comer, reparei que transitava com um saco de viagem na mão esquerda e um ovino pela trela na direita - lanudo e de olhar meigo, por sinal.
Como eu tardasse em sair da estupefacção, ele, o Engenheiro (que a ovelha, essa, permanecia silente), foi adiantando serviço:
- "Vou aproveitar este fim-de-semana que não há jogo do Glorioso e vou visitar a famelga ancestral à terrinha. Ainda pra lá tenho uns primos e tios longínquos. Aproveito e farejo de partilhas e heranças. Nunca se sabe se não me toca algum. O Gaudêncio Bexigoso dá-me boleia no camião."
Lá desentupi da visão aparvalhada, e deitei-me a adivinhar:
-"Presumo então, ó caro Engenheiro, que o animal é para algum banquete... Ou para ir merendando durante a viagem..."
-"Ah, não, nada disso! -Desenganou-me ele, prontamente. - Aluguei-a na feira da Malveira. Chama-se Eloísa, segundo me confidenciou o saloio que ma alugou." Num Rente-o-Ovino, segundo dizia na tabuleta e pude ler no anúncio do Correio da Mamã, logo abaixo do Professor Katanga.
- "Mas eles agora também alugam ovelhas? - Abismei-me. - Com e sem pastor?".
- "Esta foi sem pastor. - Explicou o Engenheiro. - Se bem que o gajo tudo fizesse para me impingir o pastor, mas eu é que não precisava do pastor pra nada. Só ia atrapalhar!!..."
- "Ele há cada um!..." -
-"Era um saloio bestialmente pencudo. - Diz-me ele. -Até me tentou alugar um burra ao mês. Diz que tem muito sucesso, quase tanto quanto um lama. Com uma penca daquelas, desconfio que até a mãe era capaz de alugar. A penca, no homem, ensinou-me o Dinossauro, faz de radar para o negócio. O que é preciso é descobrir um bicho no mercado!... "
Ele queria dizer um nicho, mas nem me dei ao trabalho de corrigir. Porque, na verdade, o nicho redundara num bicho, e o bicho, esse, é que me intrigava descomunalmente.
-" Mas, porque diabo, ó Caguinchas, levas tu o bicho?!..." - Quase gritei, esquecendo até a etiqueta e o protocolo devidos ao licenciado, mestre, catedrático e jubilado.
- "Não é bicho, é a Eloísa. Vê lá como é que falas, ó Dragão, porque ela é muito sensível. - Retrucou de lá ele, visvelmente sacana e com ar de quem estava para fazer render o peixe, digo, o ovino. - Mas é óbvio que a levo porque aqueles campónios agora, desde aquele dia de que não se te pode falar sem que desates aos murros nas mesas e aos pontapés nas cadeiras, têm todos televisão. Foi logo a primeira coisa que os revolucionários fizeram: levar-lhes a televisão... 'Tás lembrado, não, daqueles magalas guedelhudos e dinamizadores pelas berças acima?..."
-" Foda-se, Engenheiro, não me fale numa merda dessas que até me passo dos carretos!... Levaram-lhes a electricidade para eles se porem na alheta para a cidade. Dantes, estavam lá as pessoas sem a electricidade; agora está lá a electricidade sem as pessoas, fora meia dúzia de almas penadas e relíquias a aguardar despacho!...Dum país com carências fizeram um deserto electrificado." - Indignei-me e vociferei, agredindo um caixote do lixo incauto que assistia à conversa.
-"Sim, mas não são só desgraças e amarguras, compadre. Também há brindes. Agora no verão, parece que aquilo se enche de Áveques, doutores fi-fis e outras aves de arribação, mai-las respectivas madames e demoiselas, todas de fogo no rabo e cona aos saltos, segundo me apercebi. Eles vêm para matar saudades, elas vêm para experimentar pau tradicional!... Aquilo é arraiais e foguetórios que nunca mais acaba!..."
-"Sim, mas o que raio tem a televisão, os Avéques, os fifis e esse folclore todo que ver com a ovelha Eloísa?..." - Impacientei-me.
Aqui, o Engenheiro ensaiou uma pausa premeditada, ministrou um tápe-tápe na cabeça do animal (que, odorando um curioso perfume entre o Chanel 5 e o bedum, semi-ronronava), e respondeu:
-"Então, pá, aquilo, 'tá-se mesmo a ver, é malta instruída, engodada, bem televisionada... Aquelas mioleirazinhas devem estar no ponto, mais nhanhificadas que marmelada no verão. Devem chupar esses novos Corin-Telados até mais não. É jet-seita na veia à força toda!... Portanto, é mais que certo que a moda não lhes escapa..."
- "A moda? Qual moda?..." - Desesperei.
- "O suingue, ó Dragão. Aposto que é suingue que nunca mais acaba. Ora, se na cidade, entro com a puta; na província, entro com a ovelha. Não é Eloísa, minha linda?"
- "Bééé!..." - Pareceu concordar, por incrível que pareça, a simpática borrega.
Entre o assombro e a maravilha, lá me despedi do bizarro casal. E enquanto, mais à frente, o camião do Gandêncio Bexigoso recolhia o Engenheiro e respectiva partenaire, não me contive de pensar para com os meus botões:
-"Entre os portugueses, audazes também os há, às vezes."*

Ao longe, da janela do Camião, o Engenheiro, levado da breca, ainda me lançou um último grito, todo ele pleno de elevada lusitanidade:
-"Ó Dragão!!, e eles PIMBA!..."
E pronto, lá foi. Armado em Sousa veloso.

* - favor conferir com um verso de Luís Vaz de Camões.


sexta-feira, setembro 07, 2007

Testemunhas de Jeovu ou a Irmandade dos Arianos Kosher




Um grupo de Testemunhas de Jeovu decidiu tirar-se dos seus cuidados e vir ministrar-me uma série de conferências e prelecções, com o intuito de me esclarecerem devidamente dum certo número de coisas. Passo a listar a nata sintética das lições:

1. O Império e o colonialismo português são muito maus;

2. Toda a história de Portugal é um completo equívoco; nunca deveríamos ter incomodado outros povos. Em vez disso, deveríamos ter ficado aqui no rincão, a reproduzirmo-nos com toda a devoção e higiene, de modo a refinar a raça e a brunir os genes;

3. O 25 de Abril de 1974 foi excelente, o mal foi o que sucedeu a seguir; em vez de massajarem a estirpe e tratarem o sangue com um soluto de lixívia e leite de burra, os luso-aborígenes mais dados à empreitada desataram a importar pretos, brasileiros e outros alienígenas quase tão maus quanto o imperialismo e colonialismo português seu produtor;

4. A única coisa boa e fundamento do universo é a estirpe. Ariana, naturalmente. A solução de todos os nossos males passa por o país inteiro entrar numa Máquina do Tempo e recuar até ao tribalismo germânico, celta, vicking, ou qulquer outro seu equivalente;

5. As Testemunhas, por amor à Verdade, levam nos cornos dos pretos na Linha de Sintra;

6. O Guru Caturro da seita come patrioteiros como eu ao pequeno almoço;

7. Só o sangue salva.

Há mais lições preclaras mas não quero massacrar o leitor, transportando-o ao bocejo ciclópico, logo colmatado e calafetado de sono profundo. Fiquemo-nos por estas sete.

Ora bem, quanto à lição número 1, dispensava-se totalmente. Eu já sabia. E há muito tempo. Uns outros devotos religiosos - a igreja do actual pastor Jerónimo e os crentes de São Álvaro Cunhal e da Santa Ditadura do Proletariado -, logo no dia seguinte ao 25 de Abril, tinham-mo explicado com amplos detalhes, a mim e a toda a nação boquiaberta, em vésperas de se tornar nacinha. Suspeito que esta facção - das testemunhas de Jeovu -constitui uma dissidência do rebanho do pastor Jerónimo. Alguma pentelhice que os transportou ao cisma, calculo. Mas era desnecessária a lição, repito. Todos sabemos, à exuberância, que Camões foi um vate fascista, D.João II um traidor à estirpe, o Padre António Vieira um saloio incurável e D.Afonso Henriques um proto-colonialista nojento, além de fornicador sujo.

Também a lição número 2 não representou grande novidade. Era quase implícita à anterior. Um canil à beira mar plantado seria, de facto, uma solução fascinante, uma panaceia garantida. Tirando o efeito colateral, claro está, dos portugueseses passarem a ser o único povo que mijava de pata alçada contra o parede. E quando se cruzasseam na rua, civilmente, em vez de apertarem a mão, cheiravam o rabo uns aos outros. Mas como eram todos de boa estirpe, não fazia mal. Até outras familiaridades mais ousadas não seriam descabidas. Excepto o presidente da república, nas cerimónias oficiais, agarrado à perna do seu congénere estrangeiro.

Em relação à número três, também era do domínio público, constituindo mesmo dogma nacinhal das últimas três décadas. Nem podia ser de outro modo. O dia 25 foi excelente. Faz até lembrar aquele dia resplandecente e não menos primaveril que o menino da Casa Pia passou com aquele senhor muito bem posto, que o libertou dos muros, lhe comprou roupas e sorvetes, o levou a passear e lhe mostrou o mundo, dando-lhe palmadinhas nas costas. O desagradável foi quando chegou a noite...e apareceram todos aqueles senhores igualmente finos, amigos do primeiro, numa fila que nunca mais acabava. Todos juntos, em boa camaradagem, depois de lhe abrirem os horizontes, passaram a abrir-lhe outra coisa. E pior que isso tudo foram os ciúmes, as angústias que, a partir de certa altura, o menino começou a sentir pelos outros meninos - pretinhos, brasileiros e sabe-se lá que mais - que ocasionaram o desinteresse gradual dos senhores pelo nosso menino. "É batota! - choramingou - Eles dão o rabinho por menos e ainda me batem!"

Já a quinta lição, devo confessá-lo, deslumbrou-me. Voltar ao tempo dos vickings, naqueles belos drakkares, entusiasma-me. Mas preocupa-me também. Nós, portugueses, fundados por um germano (burguinhão), somos maus por termos imperializado e colonizado por esse mundo. Em vez de ficarmos no canil a reproduzir e a mimar a estirpe, só armámos sarrafuscas e desacatos. E não só contra árabes e escuros: contra outros arianos nossos amiguinhos também. No que os Vickings não nos ficaram atrás; ou os godos que espatifaram o Império Romano; ou enfim, todos os Indo-europeus que, desde a noite dos tempos, não têm feito outra coisa senão não estar quietos a cuidar da estirpe. Pelo contrário, invadem, pilham, escravizam, interferem, colonizam, descolonizam, recolonizam, imperializam o mais possível. É gente de má catadura. É a minha gente. Porrada e fornicanço é o nosso lema. Está-nos na massa do sangue. Como é que uma vez lá, do outro lado da Máquina Milagreira, o guru Caturro vai fazer para domesticá-los e torná-los animais de parque higiénico, ovelhinhas da racialidade asséptica, não sei. Mas imagino. É que o guru Caturro é duma estirpe muito mais pura -super-alambicada! - que os burguinhões do tempo de D.Afonso, que os vickings de Eric, ou mesmo que os godos de Teodorico. E quando Clóvis se estiver a converter, o guru puxa-lhe as orelhas, ou melhor, fatiga-lhas com poderosa argumentação e balelas intermináveis sobre os perigos da falta de higiene racial. Eles que nem pensem em divertir-se. Muito menos em prosseguirem a civilização europeia. Pôr ovos e chocá-los, machos e fêmeas, como os pinguins, pela eternidade, vai ser a sua missão. Assim se há-de até evitar o Ragnarok e fazer do Walhalla um ermo às moscas. O guru é um autêntico rabino judeu da prosápia. Vai produzir arianos de sangue ultra-light, descafeínado, sem álcool, todos ecológicos e macrobióticos. E nada de marialvismos extra-conjugais. Quando não estiverem a chocar a postura, toca de lavar a loiça. E em adolescentes, nada de punhetas prá retrete. Sempre para o bidão da procriação. E se desatarem com saudosismos das épocas heróicas, nostálgicos da velha pancadaria itinerante, reeducação e catequese racial com eles!...Até as Waffen SS vão ser proibidas de ir brincar para a União Soviética. Uns pézinhos de salsa, enfim. Mas puros. Pulcros. Com as veias muito bem lavadinhas.

Em matéria da quinta lição, achei muito conveniente para os interesses da seita. Que alguns elementos sofram o martírio às mãos dos pagãos confere-lhes dignidade de religião. O Guru deve dar graças a Jeovu. A coisa promete. Exponha-se ele ao suplício, que ainda alcança a canonização general.

Já que o Guru devore patrioteiros como eu ao pequeno almoço, estou como S.Tomé: ver para crer. Mas espanta-me: um guru tão puro não devia ingurgitar porcarias. Além de que ainda quebra os níveos dentinhos nas escamas e corre sérios riscos de se engasgar perigosamente com os chifres. Envenenado, isso não digo, porque aí só se mordesse a própria língua.

Finalmente, que o sangue salve é questão que muito me intriga. Significaria que o determinante e essencial do antropóide seria a tal estirpe, o pedigree. Nesse caso, um ariano de bom pedigree, estaria sempre a salvo, imunizado contra as raças inferiores. A genética pura impedi-lo-ia de cair na lama. Ora, quando eu vejo cada vez mais arianos a imitarem pretos e arianas a trombicarem com eles, despenco no cepticismo. Quando o própri0 guru parece um judeu de imitação, todo cheio de fornicoquezinhos kosher, invade-me a frustração e o desalento. O tempora, o mores!...


Os Nazis de Carnaval

Jean Mabire, juntamente com a educação marcial e marialva do tempo do prof. Oliveira Salazar, foram os principais responsáveis pelo facto do jovem que eu fui ter ido parar às tropas de elite. Em Mabire, desafiou-me sobretodos o Tenente Kerlan dos "Comandos de Caça". O resto não são contas do vosso rosário. São do meu e só a mim me dizem respeito.
Pois bem, é de Mabire um texto bem a propósito que o Rodrigo, no seu muito recomendável blogue, postou um dia destes e que eu, com sua devida licença e o meu agradecimento, reposto aqui e agora. Serve de preâmbulo ao que depois virá...

«Os Nazis de Carnaval...


“Les Nostalgiques” (Os Nostálgicos) foi o título de um livro do romancista Saint-Loup. Descobríamos ali algumas figuras que depois de terem participado na derradeira guerra no campo dos vencidos não procuravam, bem pelo contrário, esquecer as pulsões da sua juventude.
Os que tinham 20 anos em 1943 são hoje septuagenários. Não são “neo-nazis” mas antigos combatentes sem bandeira nem medalhas que recusam esquecer os seus camaradas tombados na Pomerânia ou em Berlim. Como poderiam eles reconhecer-se nas provocações de jovens de cabeça rapada que reivindicam um mundo do qual conhecem apenas o que contam os media empenhados na caça à Besta imunda?
…O neo-nazi faz parte da paisagem audiovisual. Assemelha-se na perfeição ao que querem que seja, estúpido e mau.
Muito estúpido e muito mau. E sempre igual a si mesmo, como um clone perfeito do Diabo tornado diabrete. Antes da guerra as grandes lojas propunham para as festas de “máscaras”: os rapazes disfarçavam-se de pele-vermelha e as raparigas de enfermeiras. Este divertimento desapareceu, como os álbuns de recortes e os soldadinhos de chumbo. Hoje, a única máscara que ainda faz sucesso no mercado é a do “neo-nazi”, modelo internacional, para o qual a imprensa assegura gratuitamente a promoção.
Se damos alguma importância aos símbolos e às imagens não podemos senão ficar chocados por esses detalhes nos neo-nazis, muito pouco aceitáveis no regime de que se dizem seguidores.
Logo à partida, a inevitável cabeça rapada. Era então característica dos prisioneiros mais do que dos seus captores, cujo corte de cabelo característico era “ curto nos lados e mais longo em cima”, muito diferente do corte à moda no exército francês. A cabeça rapada evoca muito mais os Marines do que as Waffen SS…
…Há sempre gente que acredita que o hábito faz o monge e a camisa o fascista, sobretudo se realçada por alguma braçadeira. Assim nasceu o que era apenas mau folclore.
À medida que este folclore de vestuário desaparecia para sobreviver penosamente nalguns grupelhos esqueléticos, viveiros indispensáveis para os provocadores e os delatores, vimos aparecer uma nova moda. Ela não nos surgiu do outro lado do Reno, mas do outro lado da Mancha e apresenta o nome de “skinheads”, “carecas” ou, se preferimos, cabeças rapadas…
Dos skins aos neo-nazis é um pequeno passo, ou talvez um gesto, o braço estendido e o outro punho cerrado sobre a caneca de cerveja. Já que os alemães berram nos filmes, berramos também. Yeah e Heil, ou outra coisa qualquer. O essencial é escandalizar o sistema e enfrentar a polícia. Diga-se a uma criança para não tocar nas guloseimas. Ela não terá descanso enquanto não encontrar um escadote e tiver vasculhado a última prateleira do armário proibido.
A moda dos skinheads revelar-se-á rapidamente, ao contrário do que dizia Mussolini do fascismo, um artigo de exportação. Uma vez cruzado o Canal da Mancha o público dos estádios franceses é contagiado. Mas o que são algumas centenas de skinheads franceses ao pé dos milhares de alemães que iam reforçar os grandes batalhões do movimento sobre o Continente?
Ignoramos demasiadamente o fascínio que sentem os alemães pelos britânicos. Havia no III Reich uma nostalgia secreta do império vitoriano e do grande mito racista do homem branco reinando sobre os sete mares do mundo. Ao desabrochar sobre o Continente a moda skin não podia senão atrair inúmeros jovens teutónicos sem respeitabilidade.
A atracção irreprimível pelo mal absoluto
Os skinheads britânicos forneceram-lhes, mais do que imaginamos, os seus farrapos, as suas músicas, a sua brutalidade. Tudo é anglo-saxónico no background cultural dos agitadores que nos mostra a televisão. Eles não copiam os seus antepassados mas a imagem que deles deu a propaganda antifascista, não são as SA do capitão Rohm mas as SA de Rohm vistas por Visconti em “Os Deuses Malditos”, ainda mais pervertidas do que os fuzilados de 30 de Junho de 1934!…
O destaque dado pelos media aos grupelhos mais folclóricos contribui largamente para multiplicar os actos de violência que se encadeiam por mórbido contágio, na atracção irreprimível pelo mal absoluto, tanto mais atraente quanto mais incansavelmente denunciado.»

- Jean Mabire, Le Choc du Mois, juillet-août 1993, N°66


A seguir falarei dos arianos de aviário suburbano. Uma fauna não menos pitoresca.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Tanatodiceia europeia

O problema, se me permitem recordar, é que a Europa saíu derrotada da Segunda Guerra Mundial. Não tanto a Alemanha, que claramente aspirava a megalomanias peregrinas e apenas perdeu a sua própria autonomia, mas o Império Britânico. Com a queda deste (e dos outros por arrasto), faliu a tentativa civilizadora europeia à escala global e triunfou a Terceiro mundização do Planeta através dos seus motores principais, apenas hostis porque rivais: os Estados Unidos, a União Soviética e a China.
Ora, se o colonialismo, por dinâmica intrínseca e necessária, implicava uma gradual europeização do "terceiro mundo", posto que baseado numa deslocação de populações europeias e em consequentes laços comunitários a longo prazo, já o neocolonialismo, como a realidade não pára de demonstrar, instala ora o caos ora a exploração desenfreada por cleptocracias convenientes, donde resultou, primeiro, a retirada trágica das populações europeias e, logo de seguida, o êxodo das populações indígenas. Uma vez que a civilização não resolveu o problema no seu local próprio, importou-o. Recebe-o agora em sua casa. Falhada a europeização do Terceiro Mundo, é agora a Europa que se africaniza, muçulmaniza e orientaliza. Perdida a sua cultura, entrega-se agora à multicultura, ou seja, a qualquer cultura - na verdade, cultura nenhuma.
Também, se a civilização europeia, na sua acção colonial, constituía, para as populações autóctones, uma forma de ultrapassagem do tribalismo, ao retirar, devolveu-os à selvajaria amplificada agora por armamento moderno e manipulação à distância. Mas pior que isso: ao perder, ela mesma, a sua cultura baseada na nação própria e no Deus comum, a Europa resvalou para o tribalismo -tenha essa tribo a forma de gang, partido, facção, seita, sindicato, claque, bando ou sociedade secreta. Como em África, as tribos predominantes são transfronteiriças e promovem cleptarquias supranacionais. Alegremente, o mundo inteiro resvala e patinha no animismo: a Ocidente adoram-se não pedrinhas, tótens ou entidades naturais, mas bugigangas, maquinetas ou tótens artificiais. Com a vaidade acrescida de quem se acha o cúmulo da modernidade.
Entretanto, esta Europa cada vez mais americanizada -estes Estados Unidos da Europa (que mais não são que a balcanização ao retardador desta) que se cozinham à surrelfa e por determinação "superior" -, revelam bem o modelo genético do seu demiurgo - o melting-pot de mão-de-obra emigrante, capital à rédea solta, e lucro acima de tudo.
No meio de tudo isto, não deixa de ser irónico, até natural -e sintomático! - que os nossos jovens, bem intencionados, generosos mas lavados ao cérebro desde pequeninos, queiram ser Europeus num tempo em que a Europa se vem entregando, sob patrocínio e imposição cripto-alógenos, a um lento e rasteiro hara-kiri.
Para a Nova Ordem Mundial, que não é europeia, a Europa é só mais uma neocolónia. E as massas que nela habitam, de múltiplas cores e credos, são gado. O que, diga-se de passagem, elas tudo fazem por merecer.
Por mim, cá vou rezando às grandes catástrofes naturais. Tenho fé.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Os pigmeus ocidentais

Devo avisar a rapaziada da "patrulha identitária" (já cá tinha os anti-anti-semitas, os antifassistas, os anti-homofóbicos, os anti-racistas e os anti-a-puta-que-os-pariu-a-todos, agora eis que enxameiam os vigilantes identitários - isto já mais parece o Congresso Mundial Hebraico) -, e devo avisá-los seriamente, que se continuam a assustar-me indecentemente as cachopas, terei que tomar medidas enérgicas e definitivas. Os piores pesadelos do Europa2007 tornar-se-ão então realidade, pois, sem dó nem piedade, arrastarei Portugal para a miséria. Aliás, ele já lá está, bem alapado, pelo que me limitarei a dizer-lhe "Bem feita! Deste o cu, não deste? Gostaste, não gostaste? Agora não queres outra coisa, pois não? Então atura-os!..."
Por outro lado, cada vez consigo distinguir menos estrangeiros que, por conveniência económica, querem ser portugueses de portugueses que, por conveniência económica, querem ser estrangeiros. Se pertencer ao Primeiro Mundo constitui desiderato-rex, então os africanos, brasileiros, ucranianos que para cá querem vir estão apenas a emular os nossos chavalitos identitários: querem evoluir para o 1ºMundo.
Deveis hostilizá-los por eles pensarem como vós e estarem animados das mesmas vocações evolutivas?
"Sim, porque são doutra raça e doutra terra", dir-me-ão. Serão, mas na alminha, não se distinguem muito. Isto é, na aparência divergem, mas na essência geminam. Ah, pois, já me esquecia: agora somos cães; temos pedigree. E isso é o que nos define.
Acresce que, pelo que empiricamente tenho constatado, não vejo razão para tanto alarme. Os mais antigos, desses emigrantes, ao fim de meia dúzia de anos mal passados, já imitam os aborígenes na perfeição e detestam esta merdolândia toda (os filhos, então, já brotam perfeitos indígenas, a destilar viçosa portugalofobia); enquanto as novas vagas, tranquilizai-vos, estão apenas de passagem, à coca de acesso a outras economias mais evoluídas, a pastagens mais verdejantes. E aí, nesse em trânsito, estes exo-emigrantes confundem-se a enmanadescem com os nossos endo-emigrantes, pelas calhas do êxodo transfronteiriço, na peregrinação do melhor dos mundos: o Primeiro. (De repente, isto lembrou-me a RTP.) Prova cabal disso mesmo, é que já não é uma nem duas as pequenas alternadeiras -brasileiras, romenas e até ucranianas (meu Deus, as ucranianas porquê?) - que desabafam, comigo e com o Engenheiro Ildefonso, que só estão à espera duma oportunidade em Espanha. Nalguns casos, a malta até deseja boa viagem, tal é o estafermo; mas noutros é uma verdadeira dor de alma. "Ao que isto chegou!", lastima-se o Engenheiro. Pois, se até já as putas nos snobam...
Quanto às vossas angústias e dúvidas de europeidade, ó identitários, eu compreendo-vos lindamente. Experimentem emigrar para a Alemanha, ali na antiga RDA, e depois tentem explicar aos "identitários" lá do sítio que sois perfeitos e acabados europeus.
Tradução do alemão: "O que é que o filho da puta do preto está para aí a grunhir?!..."

PS: Racismo, mesmo a sério, hoje em dia só há um: o da pobreza. A ver se alguém se incomoda com os estrangeiros, uma data deles pretos, que vêm para os clubes de futebol. E depois venham-me cá falar em elites...
PS2: Além do mais, a emigração é porreiríssima porque embaratece bestialmente a mão-de-obra. Onde é que antigamente a nossa esquerda das causas e a nossa direita dos interesses arranjava mulheres-a-dias a este preço?...

terça-feira, setembro 04, 2007

Uma quimera

E no entanto, o que eu aponto é tão simples e óbvio: a Pátria não é património de direitas nem de esquerdas: é um dever colectivo - de todos e de cada um.

Mas o que mais se vê é gente mais preocupada em remendar a doutrina ou maquilhar a ideologia do que em socorrer a Pátria. Gente mais interessada na realização de Espanha, da Europa, dos Estados Unidos ou da Escandinávia em Portugal, do que na realização de Portugal no mundo. Gente mais consagrada à espreita da sobremesa alheia e à inveja das aquisições do vizinho do que à defesa da sua própria casa, à preservação dos seus bens e ao acautelamento do seu futuro. Gente, enfim, que parece ter germinado do cruzamento triplo e simultâneo entre o mirone, o turista e o pinóquio. Uma quimera, portanto.

E todavia é agora ou nunca mais




A pergunta "O que fazer com Portugal?", subentende um cluster (como agora é moda dizer-se) de questões correspondentes a outros tantos problemas. Enunciando, emblematicamente, algumas:
- O que fazer com um corpo cheio de vícios?
- O que fazer com um organismo infestado de parasitas, infecções, metásteses e próteses?
- O que fazer duma gente que, enquanto povo, alcançou a esclerose múltipla, com todos os sintomas característicos: amnésia, ataxia, disartria, perda de equilíbrio, formigueiro, astenia, confusão, incontinência, disfunção sexual (impotência sobretudo), depressão crónica, alterações visuais graves, perda de audição?
- O que fazer com um regime em que a facção usurpa a pátria, em que o facciosismo esgota os horizontes mentais e a putrefacção colectiva é o preço a pagar no altar do Novo-Ídolo - o Deus-Ego?

Quando D.Afonso Henriques começou, não tinha país nenhum. Nem rico nem pobre, nem fraco nem forte, nem desenvolvido nem por desenvolver. Usou da vontade do espírito e da força do braço. A nós, sobra-nos e estorva-nos o país, falta-nos essa vontade e essa força. Sobra-nos e exaure-nos a divisão, a descrença e o desencontro; falta-nos quem nos una e nos reconcilie. Porém, uma unanimidade não de opiniões (que apenas estiola e envenena), mas de vontades - de boas vontades. Não é na discussão que temos que ser uníssonos, mas no querer e na força. Ainda a tempestade vai no adro e já cada magote se agarra ao seu salva-vidas ou corre a improvisar sua jangada... Nessa prontidão para a debandada, nessa adesão preste ao salve-se quem puder, em que é que os homens se distinguem dos ratos?
Como combateremos a tempestade se estamos completamente ocupados a combater-nos uns aos outros, de roda de jangadas e salva-vidas? Ai daquele que perde a alma para salvar a pele!... Ai daquele que da tripa, em vez de coração, faz cérebro ditador!...

Sursum corda, marujos!...

segunda-feira, setembro 03, 2007

Manha e Falso Prestígio

«Há, sim senhor!
Há um Portugal sério, um Portugal que trabalha, que estuda; curioso, atento, honrado! Há um Portugal verdadeiro que não perde o seu tempo com inimigos fantásticos e cujo único desejo é apenas e grandemente ser Ele próprio! Há um Portugal, o único que deve haver e que afinal é o único que não anda por causa dos vários Portugais inventados de todos os lados de Portugal! Há um Portugal profissionalista, civil e insubornável! Há, sim senhores!
Mas entretanto...
Entretanto o nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos! E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a falsos prestígios. É o que há mais agora por aí em Portugal: os falsos prestígios.
E vai-se ver de quem é a culpa de haver manhosos e falsos prestígios: a culpa é nossa, e só nossa! Não há nenhum português, nem o escolhido entre os melhores, que não tenha forte parte nessa culpa. Porque os portugueses, os bons, os melhores, os sérios, os inteiros, enfim os portugueses (se se entendesse bem esta palavra) não sabem, ou melhor, não desejam lutar contra a manha dos que chegam a ser ou favorecem os falsos prestígios. Ora, a maneira de lutar contra a manha não é a da manha e meia, antes pelo contrário, é a de detestá-la absolutamente, e mais, desmascarando-a publicamente e ali mesmo. Senão, ouvi:
É completamente impossível esmerar-se cada qual apenas no que produz de correcto dentro da sua profissão. Para que fosse possível seria necessário que o conjunto colectivo correspondesse de facto à qualidade de toda e qualquer profissão. Impossível aqui em Portugal. O momento tem a realidade imperativa do seu instante. Aqui não se distingue o correcto do impróprio. É necessário vir explicá-lo na praça pública.
Todo aquele que cuide que lhe bastará para progredir na sua profissão o ser probo nos seus estudos e produções, engana-se terrivelmente, pois que lhe falta ainda e sobretudo o seu dever cívico de encarreirar as gentes e livrá-las dos glosistas, pasticheurs e até mixordeiros de toda e qualquer profissão. É urgente e actualíssimo vir até ao público e denunciar-lhe como o comem por parvo com falcatruas, e lhe dão gato por lebre.
Efectivamente, o único complicado aqui é a maneira de liquidar os manhosos. É complicado porque eles escapariam até aos gases asfixiantes! É complicado porque eles conhecem a fundo e melhor do que ninguém como funciona a superstição sentimental das gentes e, confessamo-lo, servem-se dela admiravelmente. Tão admiravelmente que ganham sempre com as recansadas fórmulas que ainda são inéditas para tantos: oficiais do mesmo ofício, invejas, concorrências, etc, evitando simplesmente a polémica técnica e a discussão do mérito. E francamente, eles não deixam de ter carradas de razão, carradíssimas de razão ao confiar que isto de mérito em Portugal é questão de cara ou coroa. Pois apesar disso ainda fazem batota por cima. Por cima, não, por baixo: de cócoras, beijoqueiros, manteigueiros e por último descarados. Um autêntico e constante desfile de atropeladores à coca do lugar de falso prestígio. E chegam lá. Depois rebentam.
A culpa de ser a nossa querida terra tão propícia à vegetação dos manhosos e à arribação dos falsos prestígios, essa culpa é incomparavelmente menos misteriosa do que possa parecê-lo à simples vista. Ela não está na inocência dos simples e dos leigos que servem sem querer e sem o saberem de trampolim elástico para o salto mortal dos cabalhoteiros. A culpa, meus senhores, é de nós todos e sobretudo nossa. Nossa porque tivemos sempre muitíssima mais razão do que serenidade para dizermos com toda a claridade a razão que temos. Esta nossa falta de serenidade tem sido, oiçam-nos bem, meus senhores, a grande vantagem, a maior de todas, e da qual os manhosos melhor se servem para acabar de convencer o público lá pelos seus processos nada invejáveis. Este terreno é deles e são naturalmente des maîtres chez soi. Façamo-los vir para o nosso campo, donde eles fogem, já que andam a explorar por aí com o que é nosso. E não esqueçamos tão-pouco que eles sabem muito bem que o público se convence melhor com o sonoro do que com o mudo. Sejamos, pois, tão sonoros quanto eles mas nitidamente contrários.
Declaremos guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inimizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra e faz medrar a marmelada nacional. E, sobretudo, com toda a serenidade, lancemo-nos definitivamente ao ataque dos manhosos e dos prestígios, esta vergonha maior de Portugal, e que seja tão nítido o nosso ataque, tão clara a nossa razão e tão serena a nossa atitude, que, nunca mais aconteça o que até aqui, em que a nossa indignação e protesto eram movidos com tão justo calor português que nem se davam conta das falhas que arrasta consigo a sinceridade sem a companhia da serenidade, essas falhas legitimamente nossas e que as sabem tão bem pescar os manhosos, ou como diz o povo, os aldrabões!
A verdade é esta: o nosso combate aos manhosos até hoje teve o triste resultado de se poder confundir com o dos caluniadores e dos invejosos. Façamos grandemente atenção a isto mesmo e termos liquidado o último recurso dos manhosos. Evitemos a nós próprios um desaire a que estão sujeitos os caluniadores e os invejosos, os quais são, bem contrariamente, o único gás com que afinal sobe de verdade o aerostato do falso prestígio!
Conheceis certamente aquela história da Antiga Grécia onde um homem que tem de castigar um escravo é tomado de ira, de tal maneira que é forçado a suspender o castigo, dizendo-lhe: o que a ti te vale é eu estar tão irado, senão, se eu tivesse serenidade neste momento, não perdias nenhuma das que eu te queria dar.
Ora, meus senhores, nem toda a gente é susceptível de dispor de serenidade, e os menos susceptíveis de todos são francamente os manhosos.»
- José de Almada Negreiros, in Diário de Lisboa (de 03 de Novembro de 1933)

Império da treta


Eu também tenho planos para ficar podre de rico em apenas dois dias. Deduzo que os americanos também vão jogar fortemente no Euromilhões.

Cada vez menos esporadicamente, assalta-me a forte sensação que, pela primeira vez em cinco mil anos, temos um Império saído na Farinha Amparo. E o Tirano em Chefe nasceu brinde da Coca-Cola.

Gente efervescente

A propriedade que mais se tem desenvolvido no português das últimas décadas é a sua efervescência: a agitação à superfície apenas encobre -e certifica - a diluição lá no fundo.
Corremos sérios riscos de nos tornarmos um povo completamente efervescente, animado duma irresistível vontade de dissolvência. Desde que me lembro, este é um sítio em perpétua crise parindo clamores aflitos por uma solução.

Analogias

Diz o Lusgon, numa caixa de comentários mais abaixo:
«Portugal é como uma árvore de fruto que produz fruta que passa de verde a podre, sem que nunca tenha oportunidade de produzir algo maduro...»

Ora aqui está uma analogia merecedora de reflexão.
Dito Aristotelicamente, Portugal é uma nação(zinha) que perdeu a noção e o ponto de equilíbrio. Onde viceja, vigora e triunfa a pequena hubris - a hubrizinha de trazer por casa, de fancaria, de vão-de-escada. Quer dizer, o resultado da putrefacção fétida do brando costume.
Mas parece-me excelente a analogia, embora me suscite algumas dúvidas. Que condenso em duas. A primeira é que não sei se, efectivamente, a árvore de fruto tem por finalidade produzir fruta sã ou apenas servir de suporte à reprodução das moscas, berçariando-lhes as proles respectivas. E a segunda é que, a fazer fé nos presságios e proclamações modernizeiras dos sucessivos sobas eleitos, tudo aponta que o objectivo futuro seja pô-la a dar frutos que abrolhem logo maduros...E plásticos.

domingo, setembro 02, 2007

A pedido da patrulha anti-anti-semita

Mais uma horrorosa notícia anti-semita:
«Cerca de 250 israelitas, na maioria empresários do sector armamentista, deslocam-se todos os anos ao Iraque».

Já as pessoas não podem fazer turismo...

Da Dispersão


Símbolo é uma palavra de origem grega. Symbolon, em grego, significa sinal de reconhecimento, contra-senha, presságio. Por seu turno, symbolé significa encontro, confluência, encruzilhada, convénio, etc. A bandeira nacional, por exemplo, é um símbolo. Como símbolos são o hino, o crucifixo ou o rei, caso reinasse. Podemos assim constatar que a semântica de símbolo se manteve relativamente inalterada ao longo dos séculos. Hoje, como há milénios atrás, o símbolo continua a constituir-se como marca de reconhecimento colectivo, bem como ponto de encontro e confluência.
O contrário de símbolo (symbolon/symbolé) - no grego - é diabolé. Que pode traduzir-se por "dispersão", "desencontro", "desunião", "separação". É desta palavra que deriva, com toda a propriedade, o termo "Diabo". Que, como bem sabemos, protagoniza, na mitologia cristã, todas essas faculdades desagregantes e corruptivas.
Bem visto, entre symbolé e diabolé o que se inverte são os prefixos - syn ou dia (syn: simultaneidade, concórdia, conjuntura; dia: separação, divisão, contrariedade), dado que a raíz permanece a mesma: bolé - do verbo ballw: lançar, arrojar-se. Ou seja, em ambos os casos o que se processa é uma determinada dinâmica, uma convergência ou divergência de movimentos. Dito doutra forma: a mesma substância pode lançar-se numa direcção construtiva, ou em mil direcções destrutivas - na medida em que conflua ou se disperse, quer dizer, na proporção em que se congregue em redor do símbolo ou se desagregue atrás da diabolia sedutora.
Portugal, o teu mal chama-se dispersão. O teu que é o nosso.

sábado, setembro 01, 2007

A engenharia do Swing

Cruzei-me com o Engenheiro Caguinchas ontem à noite. Seguia todo aperaltado na companhia da Carla Bobó (uma profissional do felatio ao domicílio das suas relações, criatura bem apessoada, mas com mais quilometragem que o Fiat 127 do Armindo Taberneiro). Estranhei, não tanto o Engenheiro, muito dado a estas procissões insolenes, mas o traje selecto e espantosamente sóbrio da dama. Ao contrário do que era costume, nada daquelas roupas espampanantes e pinturas de guerra espalhafatosas. Quem não os conhecesse e os visse assim pela primeira vez até diria estar diante do mais burguês dos casais, em trânsito para algum coquetel de embaixada ou aniversário da RTP.
Perplexo, e após as saudações da praxe, lá consegui chamar o Engenheiro à parte, expondo-lhe aí todo o meu assombro:
-"Excelência, num tal porte, até parece que se dirige a algum casório. Não me diga que, feito padrinho, vai entregar a rapariga ao altar, nos braços dalgum anjinho sobremaior!..."
- "Qual casório, qual altar, qual carapuça, ó Dragão!... - Riposta-me ele, em tom de manhosa sacanice. - Eu vou é a uma festa de suingue!..."
Quase me caíram as fuças ao chão. O Engenheiro ia gastar a noite a papar as mulheres aos outros -umas matulonas bem apetrechadas, por sinal - e a dar em troca uma mulher de todos. É o que se chama dar rato e comer a lebre.
Já na tasca, aliás ciber-tasca, ainda meio aturdido com a espertalhonice daquele meliante, desabafei com o Dinossauro:
-"Vê lá tu que acabo de passar pelo Ildefonso, atracad0 à Carla Bobó, feitos casal, no meio dum rebanho de burgueses mais as respectivas, a caminho, toda aquela procissão -imagina-me só! - duma festa de swing!...E o biltre, para cúmulo, dava-se ares de capitanear o magote - os outros era "ó engenheiro pr'aqui, ó enhenheiro para acoli", e ele, armado cavaleiro, era "ó arquitecto para a direita, ó doutora para a esquerda, é embaixador para cima, ó presidenta para baixo"... Enfim, mais parecia tudo aquilo uma cimeira da União Europeia... fiquei siderado!"
Responde-me o velhadas:
-"Quê, não sabias? Há mais de três meses que anda nisso. Diz que agora é que vai tirar a piça de misérias. Passa os fins-de-semana a esfarrapar os recessos às jet-sónias e patas bravas. Nunca o vi tão satisfeito."
-"Olha-me aquele grande macaco! - Rosnei, quase a espumar-me de inveja. - Às vezes interrogo-me se não terá pacto com o diabo!..."
-"Não, nada disso. -Tornou-me o vetusto. - Ele tem pacto é com o Punhetas. O Punhetas paga à Carla e o Caguinchas traz-lhe sempre uns souvenires eróticos, tipo as cuequinhas, meias ou soutiens da madames. "
De perplexo, eu passava a atónito.
Ao mesmo tempo, o Dinossauro, antes de se atirar à imperal restante, rematava:
-"Se queres vê-lo, é vires aqui sexta à tarde. Aí por volta das cinco, quando ele - todo janota e radiante da vida - abala pró simpósio, fanfarronando sempre a preceito: "vou-lhes comer as matronas, àqueles mariconços, e eles que comam a puta. Cona de puta, aliás, é que lhes convém: nasceram duma, que se alapem noutra."
- "Puro engenheiro!..." - Suspirou, ao nosso lado, o Armindo Taberneiro... fitando com ares melancólicos a dona Inzolinda Quitéria, sua perpétua esposa, detrás do balcão, a pilotar o lava-loiça.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Um pingo de auto-crítica e dois de vergonha na cara






«Não é outro a causa do teu mal; tu próprio és o teu inimigo.»
- Sófocles, Édipo Rei

Para nós, portugueses, tão grave quanto a nossa falta de auto-estima só existe uma coisa: a nossa falta de auto-crítica.
Parece um paradoxo mas não é.
O caso, tudo o indica, é que muito poucos querem ser portugueses agora, no presente. Uns porque, pura e simplesmente, não querem ser portugueses, isto é, querem ser estrangeiros ou imitá-los religiosamente -são os assimilados, tal qual eram os pretos mais evoluídos das nossas antigas colónias; outros porque querem ser portugueses do passado; outros ainda porque não sabem o que querem, se é que querem alguma coisa fora do seu perpétuo êxtase umbilical - sendo que o umbigo, não raras vezes, serve de esgoto à vesícula. Existem também umas espécies mistas -dos que querem ser estrangeiros no passado e dos que querem ser estrangeiros no futuro - que consideraremos, por economia de texto, implícitos às duas primeiras.
Daqui, como é fácil de ver, resulta não o paradoxo, mas o quotidiano: o ser português aqui e agora, em plena tempestade, à beira do abismo não lhes interessa. Por um lado, só lhes merece desdém, sobranceria, rancor, quando não ódio declarado (e daí a falta de auto-estima); por outro, na medida em que não pertencem, em que não se integram no cenário, nunca se sentem minimamente responsáveis nem são, por inerência, em modo ou tempo algum, passíveis de reparo (e daí a ausência de auto-crítica). O país vê-se assim perspectivado ou dum promontório alienígena ou dum pedestal alienado.
Não deixa de ser curioso que todos eles - os que querem ser estrangeiros, os que querem ser passado e os que não sabem o que querem porque querem tudo e mais alguma coisa -, concordam num aspecto fulcral: o sórdido presente do país não é consequência nem do estrangeiro, nem do passado, nem da preguiça volitiva congénita ou da cobardia instituída. Não, dir-se-ia que este presente infame eclodiu por geração espontânea ou por acção exclusiva daquela meia dúzia de irredutíveis que não quer, nem hoje nem nunca, fugir para o passado, nem para o estrangeiro, nem para uma contemplação maravilhosa do umbigo.
Quer dizer, há uma unanimidade em toda esta gente na desestima do Portugal presente e na crítica desapiedada aos desgraçados portugueses que ainda resistem e, por conseguinte, devem ser responsabilizados. Atente-se em como se produz o inefável concílio: para os estrangeirados a culpa é dos nacionais; para os passadistas a culpa é do presente; para os umbiguistas a culpa é dos outros.
Cumpre assim perguntar: afinal, quem são estes portugueses detestáveis do presente - os tais que não se refugiando no estrangeiro, no passado ou no umbigo, arcam com as culpas pelo Calvário acima?
Bem, certamente que não são as elites. Essas, como lhes compete e é apanágio da horda há uns séculos a esta parte, querem ser estrangeiras seja lá de que maneira for - no presente, no futuro ou no passado, mas estrangeiras. Maiores toca-pívias que as elites - do sucessozinho a qualquer preço, da vida fácil, do venha-a-nós - tenho sérias dúvidas que existam.
Também não são os agarrados da ordem - às telenovelas, publicidades, créditos e telechupetas todas que houver -, essa vasta chusma de migrantes/emigrantes, em acto ou potência, em catapulta ou lista de espera, no desemprego ou a borrarem-se de medo dele. Tais mamíferos de imitação, se as elites querem ser estrangeiras, então eles, por gana suprema, querem ser como as elites. E quando falam mal delas é, nitidamente, à maneira da raposa na fábula das uvas inatingíveis: "estão verdes, não prestam, só os cães as podem tragar."
O que é que sobra?
Sobra não sei exactamente quem, não sei exactamente como, nem sei exactamente onde, mas suspeito que, na realidade, não existe, e, se existe, então, seguramente, é uma espécie em via de extinção. Uma espécie que, com dificuldade crescente e algum desespero à mistura, luto por vislumbrar em mim próprio.


Talvez seja por isso, por gastarmos o tempo a aspirar ao que não somos e a deitar as culpas sobre algo que não existe, que acabamos por não viver nem sair de cima. Há lições que são eternas e vêm dos primórdios. Há verdades mais antigas que a nossa amnésia. Encontrar-nos-emos no lugar e na hora em que deixarmos de fugir de nós próprios.
Nem que seja para arrancarmos para sempre os olhos, por nos ser insuportável a visão do monstro em que nos tornámos.

Português suave

Na Grande Loja, o José tece considerações e histórias sugestivas, num belo postal sobre determinada fauna da noite.
Permito-me um breve considerando, não de ordem criminológica, que o José, melhor e mais sabiamente que eu, já expôs, mas de mera espécie luso-semântica. Das televisões aos jornais, a amenização semiótica impera: aquilo que nos Estados Unidos se chama um gangster, ou em Itália um mafioso, entre nós denomiza-se "segurança ilegal".
É a linguagem do crime neste país: o Português suave.

Atrevimento gratuito ou Um peixe chamado Besugo


Também me vou atrever a umas palavras simpáticas, bem como a outras
antipáticas.
As simpáticas não as digo por simpatia mas por justiça: o Blogame Mucho é um bom blogue (poderia até dizer que era 10.000 vezes melhor do que o Abruto, mas isso não constituiria grande elogio) e acaba de celebrar quatro anos. O Verão de 2003 é, de facto, na tabela enológica de blogues, a melhor colheita de sempre. Precisamente nos antípodas do inverno desse mesmo ano.
Os animadores do Blogame mucho estão pois de parabéns e merecem o meu agradecimento. À Lolita, cuja beleza só é equiparável ao excelente gosto futebolístico; ao Alonso, que devia escrever mais; e ao Besugo, que devia escrever menos sobre futebol - aliás, sobre tão confuso senão abstruso assunto (para ele, pelo menos) não devia escrever nada, nunca, e sempre que escrevesse devia materializar-se um anjo caridoso e ministar-lhe umas marteladas ortopédicas nos dedos -, pois, aos três, vai o meu sincero obrigado. Que contem mais quatro iguais a estes que já não vão nada mal. Eu, pelo menos, em sendo vivo, cá estarei para aplaudir. Muito especialmente o Besugo, confesso, que, não sei se por via da costela transmontana (mas desconfio que sim), é dos raros por estas bandas a conseguir alcançar, não raramente, o sublime.
O pior é aquela maluquice que lhe dá sempre que se lembra daquele clubeco de tios e quéques a que não sei porque carga de água cismou de talibanizar. Mas enfim, como aquilo é um peixe deve ter que meter o precioso líquido, todos os dias, para não asfixiar.
E com isto tudo até me esqueci das palavras antipáticas que, em tributo vitalício aos meus maus-fígados soberanos, era para dizer.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Nem o pai morre nem a gente almoça

«Em síntese, os liberais poderão fornecer aos partidos conservadores aquilo de que eles mais carecem: uma ideologia e um pensamento para a sua actuação política».
Isto não é chinês: é liberalês.
Tradução do liberalês para português: Uns tipos sem ideologia nenhuma podem abastecer-se junto duns tipos que não sabem que ideologia têm.
Ou, em linguagem mais popular: uma senhora fina muito dada ao adultério procura reaprender a castidade junto duma menina de vida fácil.



Errata: onde se lê "vida fácil" deve ler-se "ideologia fácil".