terça-feira, dezembro 30, 2003

BOMBARDEIO, LOGO EXISTO

Por causa dos meus sarcasmos desarvorados, dou comigo a pensar: afinal, o que é ser "americano"? Melhor: como é que que um americano se perspectiva e reconhece, enquanto ser?
Dum francês, já sabemos, mais ou menos, como a coisa se processa: "pensa; logo existe"; o alemão: "trabalha, logo existe"; o irlandês: "bebe, logo existe"; o chinês: "aguarda, logo existe"; o árabe: "reza, logo existe"; o espanhol: "toureia, logo existe"; o português: "telefona e conduz, logo existe".
Assim, o francês, sempre que precisa de afirmar a sua identidade ou confirmar da sua existência, precisa de pensar e duvidar; tal qual o alemão precisa de trabalhar, o irlandês de beber, o árabe de rezar ou o portugês de sacar do telemóvel, de preferência ao volante, e ligar a alguém.
E o americano, nas mesmas circunstâncias, que faz ele? Não sendo suficientemente inteligente para pensar, nem honesto para trabalhar, nem folião para beber, nem crente para rezar, nem educado para aguardar, nem malabarista para conseguir conduzir e falar ao telefone ao mesmo tempo, bombardeia. O seu esquema ontológico é "bombardeio, logo existo". Se não bombardeasse, se parasse de ir despejar bombas nos lugares, deixava de saber quem era, via dissolvida e volatilizada a sua identidade. Tornava-se um espectro amnésico de si mesmo. Tirar os bombardeiros a um americano, seria quase tão trágico como sutrair os telemóveis e automóveis a um português.
Mais que ao nível do "dever" ou da "idiossincrasia", estamos, pois, ao nível da pulsão, ou melhor, da compulsão. Bombardear, para o americano, como telefonar, para o português, é compulsivo, em tudo equivalente a respirar ou fazer as necessidades. Não é um atributo, um acidente, um acessório, mas sim a própria essência, se quiserem, um instinto inato, uma vocação genética, consagrada e irresistível. Dai a tornar-se religião, não espanta nada, mesmo nada. Tal qual o árabe entra na mesquita ou o irlandês no pub, o americano sobe para o bombardeiro e o português enfia-se na viatura de telemóvel engatilhado.
Não deixa mesmo de ser curiosa a relação entre o americano e o português: um enfia-se num veículo aéreo para ir lançar bombas no chão; o outro enfia-se no veículo terrestre para lançar mensagens pró ar. Dir-se-ia que acontece uma simetria perversa entre eles: imitam-se em planos inversos, partilham duma qualquer onticidade abissal.
Assim, o americano não precisa de arranjar motivos ou razões para bombardear: preocupa-o apenas arranjar sítios. Não lhe é opcional bombardear ou não. Tem que bombardear; resta apenas saber onde. Tal qual ao portugês não ocorre discutir consigo próprio se deve telefonar ou não; mas apenas encontrar a quem.
Por conseguinte, quer um quer outro, como, aliás, todos os povos do mundo, em se tratando das suas manifestações essenciais, estão isentos de culpa, ou de circuncrições morais ou éticas, pois não se pode acusar de maldade um acto que exercem por absoluta necessidade. Seria o mesmo que acusar o vírus do ebola de causar o ebola: pois se é virus do ebola não pode optar por ser vírus da gripe ou doutra maleita qualquer.
Que se reponha, assim, alguma justiça e rigor nas apreciações: Quando os americanos bombardeiam, não estão a ser bons nem maus, justos ou injustos, salvadores ou facínoras - estão a ser, pura e simplesmente, "americanos". É a forma deles existirem.

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