Isto vai a mata-cavalos, porque me rareia o tempo e a paciência também já viu melhores dias.
Começo por uma evidência elementar: a propaganda ciêntifica, como literatura, é paupérrima; como religião, é excessivamente supersticiosa ; e como filosofia, chega a ser hilariante.
Portanto, ó caro Ludwig, pôr-se vossência com considerações da ordem do estilo é o mesmo que eu pôr-me a dar pareceres sobre teoremas matemáticos de terceira geração. Vale zero. Se é que não raia o número a beirar o irracional.
Já quando entra a galope pelas epistemologias em tom reader’s digest eu só tenho que lhe agradecer a lição. Havia preciosidades que eu desconhecia e passei a conhecer. Como seja, por exemplo, que «inferir que é inexplicável só por não se conhecer a explicação tem embaraçado muitos crentes e religiões ao longo da história.»
Compreendo agora, graças a si, que desconhecer a explicação ocasiona o inexplicável. Eu, estupidamente, a julgar que a explicação traduzia um conhecimento de qualquer coisa, quando afinal é o conhecimento duma explicação. Ah, assim é mais fácil, mais simples e, convenhamos, bem mais lógico. É tudo, como tudo na vida, uma questão de contactos. Arranja-se alguém que nos apresente uma explicação e já está. “Dragão, esta é a explicação do Big-Bang!”; “Explicação do Big-Bang”, este é o Dragão”. E pronto, liberta-se um gajo do inexplicável. Conhece-se uma boa explicação e fica debelada a angústia. É o “Abre-te Cézamo" da gnoseo-ascensão.
Eu também julgava -mais uma vez nesciamente - que se havia coisa que não atormentava os crentes era embaraços. Nem embaraços, nem dúvidas, nem nenhum desses agentes malignos do inexplicável. E precisamente porque, segundo eles, conhecem uma explicação completa – a explicação da Criação. Ou do Big-Bang. Conhecem-na é pouco: são amigos íntimos, coleguinhas de infância, compadres. Aqui há tempos, bateram-me até à porta umas tais Testemunhas de Jeová. Não me pareceram nada embaraçadas, devo dizer. Pelo contrário, com uma agilidade incrível, queriam explicar-me tudo. O passado, o presente, o futuro, em resumo, o inexplicável de fio a pavio. Não escapava nada. Tudo muito bem trituradinho e passevitado. Entendiam, por força e capricho missioneiro, apresentar-me a toda uma avassaladora explicação. Pretendiam, se bem as entendi, pejadas de boa intenção, salvar-me. A trabalheira que eu tive para me livrar delas. O que só alcancei, por fim, perdendo as estribeiras (convenhamos, comigo não é difícil) e rugindo-lhes ferozmente: “caralho, madames, não me dêem cabo do suspense desta merda, não me expliquem o filme todo. Assim perde a piada!...”
Entretanto, Vossência diz que a sua explicação é melhor que a deles. Que, cito, “a teoria da evolução de Lamarck era melhor que o criacionismo”, que o Darwin é melhor que o Lamarck e que não sei quantos são ainda melhores e mais supimpas. São “melhores”? Mais uma novidade para mim. Pensava eu que o âmbito da ciência era essencialmente epistemológico. Mas aprendo consigo, em boa hora, que é moral.
Mas “melhores”, já agora, porquê? Porque vosselência gosta mais delas? Porque são as do laboratório que delega e representa? Porque estão mais na moda? Porque têm mais eleitores?
Então, se, conforme atesta, explicar é conhecer uma explicação, eles conhecem a deles e vossência conhece as suas. A diferença, vista de fora, é que eles têm apenas uma e sempre a mesma, enquanto vossência conhece várias e sempre a mudarem. Devemos deduzir que o valor da explicação se mede pela quantidade - que quanto mais explicações conhecermos, melhor?
Mas, mais adiante, ainda é mais sugestivo. Proclama Vossência ao planeta e satélites em redor:
«É preferível explicar a mutilação do gado pela acção de corvos e furões do que por actos insondáveis de extraterrestres omnipotentes.»
Mais um juízo moral. “É preferível?!” É preferível, porquê? Explicar como a ou b, uma vez que a explicação é mero paleio, o que é que altera ou sequer alterna? Mas isto, Deus lhe pague (e se não existe, pior para si) tira-me uma grande superstição de cima. Eu julgava, mais uma vez ignaramente, que o que era preferível era investigar e demonstrar, ou seja, comprovar na realidade (empiricamente) se eram furões e não extraterrestres, ou se eram extraterrestres e não furões. Porque, presumia eu, devia partir-se para a investigação sem preconceitos. Mas ainda bem que uma explicação pronta-a-comer nos liberta dessa trabalheira toda. A todo este desembaraçado processo vamos chamar-lhe como? - Fast-cience? Ciência de conveniência? E a si - Luduvino McDonnald’s? Ludwig Hut?... Kentucky Fried Kripphal?...
Temos depois o momento subbuteo (ou matraquilho, para os menos eruditos):
«A biologia molecular explicou o mecanismo de hereditariedade que Darwin tinha deixado de fora e propõe várias explicações para a origem da vida. Chutou Deus para a química, que o passou à física que, com um remate pujante, o enfiou pelo Big Bang. Não é nada de pessoal. É assim que o universo é, é assim que temos que o descrever.»
Perdoe-me a indiscrição: O Ludwig estudou com quem, com o Gabriel Alves?... E pensa e escreve com qual dos pés? – com o que tem mais à mão?
Por fim, certifica, vossência, que «não foi a teologia que nos deu os antibióticos, nem a oração que revelou o motor de combustão nem a fé que pôs satélites em órbita.» Quer dizer, insinua que foi a ciência. Portanto, autoriza-nos daí a concluir que foi também ela que colocou a bomba atómica em Hiroshima. Ou os submarinos nucleares nos oceanos. Ou as armas bacteriológicas sabe-se lá onde. Ou os admiráveis "Amanhãs que cantam" ao virar da esquina.
Começo por uma evidência elementar: a propaganda ciêntifica, como literatura, é paupérrima; como religião, é excessivamente supersticiosa ; e como filosofia, chega a ser hilariante.
Portanto, ó caro Ludwig, pôr-se vossência com considerações da ordem do estilo é o mesmo que eu pôr-me a dar pareceres sobre teoremas matemáticos de terceira geração. Vale zero. Se é que não raia o número a beirar o irracional.
Já quando entra a galope pelas epistemologias em tom reader’s digest eu só tenho que lhe agradecer a lição. Havia preciosidades que eu desconhecia e passei a conhecer. Como seja, por exemplo, que «inferir que é inexplicável só por não se conhecer a explicação tem embaraçado muitos crentes e religiões ao longo da história.»
Compreendo agora, graças a si, que desconhecer a explicação ocasiona o inexplicável. Eu, estupidamente, a julgar que a explicação traduzia um conhecimento de qualquer coisa, quando afinal é o conhecimento duma explicação. Ah, assim é mais fácil, mais simples e, convenhamos, bem mais lógico. É tudo, como tudo na vida, uma questão de contactos. Arranja-se alguém que nos apresente uma explicação e já está. “Dragão, esta é a explicação do Big-Bang!”; “Explicação do Big-Bang”, este é o Dragão”. E pronto, liberta-se um gajo do inexplicável. Conhece-se uma boa explicação e fica debelada a angústia. É o “Abre-te Cézamo" da gnoseo-ascensão.
Eu também julgava -mais uma vez nesciamente - que se havia coisa que não atormentava os crentes era embaraços. Nem embaraços, nem dúvidas, nem nenhum desses agentes malignos do inexplicável. E precisamente porque, segundo eles, conhecem uma explicação completa – a explicação da Criação. Ou do Big-Bang. Conhecem-na é pouco: são amigos íntimos, coleguinhas de infância, compadres. Aqui há tempos, bateram-me até à porta umas tais Testemunhas de Jeová. Não me pareceram nada embaraçadas, devo dizer. Pelo contrário, com uma agilidade incrível, queriam explicar-me tudo. O passado, o presente, o futuro, em resumo, o inexplicável de fio a pavio. Não escapava nada. Tudo muito bem trituradinho e passevitado. Entendiam, por força e capricho missioneiro, apresentar-me a toda uma avassaladora explicação. Pretendiam, se bem as entendi, pejadas de boa intenção, salvar-me. A trabalheira que eu tive para me livrar delas. O que só alcancei, por fim, perdendo as estribeiras (convenhamos, comigo não é difícil) e rugindo-lhes ferozmente: “caralho, madames, não me dêem cabo do suspense desta merda, não me expliquem o filme todo. Assim perde a piada!...”
Entretanto, Vossência diz que a sua explicação é melhor que a deles. Que, cito, “a teoria da evolução de Lamarck era melhor que o criacionismo”, que o Darwin é melhor que o Lamarck e que não sei quantos são ainda melhores e mais supimpas. São “melhores”? Mais uma novidade para mim. Pensava eu que o âmbito da ciência era essencialmente epistemológico. Mas aprendo consigo, em boa hora, que é moral.
Mas “melhores”, já agora, porquê? Porque vosselência gosta mais delas? Porque são as do laboratório que delega e representa? Porque estão mais na moda? Porque têm mais eleitores?
Então, se, conforme atesta, explicar é conhecer uma explicação, eles conhecem a deles e vossência conhece as suas. A diferença, vista de fora, é que eles têm apenas uma e sempre a mesma, enquanto vossência conhece várias e sempre a mudarem. Devemos deduzir que o valor da explicação se mede pela quantidade - que quanto mais explicações conhecermos, melhor?
Mas, mais adiante, ainda é mais sugestivo. Proclama Vossência ao planeta e satélites em redor:
«É preferível explicar a mutilação do gado pela acção de corvos e furões do que por actos insondáveis de extraterrestres omnipotentes.»
Mais um juízo moral. “É preferível?!” É preferível, porquê? Explicar como a ou b, uma vez que a explicação é mero paleio, o que é que altera ou sequer alterna? Mas isto, Deus lhe pague (e se não existe, pior para si) tira-me uma grande superstição de cima. Eu julgava, mais uma vez ignaramente, que o que era preferível era investigar e demonstrar, ou seja, comprovar na realidade (empiricamente) se eram furões e não extraterrestres, ou se eram extraterrestres e não furões. Porque, presumia eu, devia partir-se para a investigação sem preconceitos. Mas ainda bem que uma explicação pronta-a-comer nos liberta dessa trabalheira toda. A todo este desembaraçado processo vamos chamar-lhe como? - Fast-cience? Ciência de conveniência? E a si - Luduvino McDonnald’s? Ludwig Hut?... Kentucky Fried Kripphal?...
Temos depois o momento subbuteo (ou matraquilho, para os menos eruditos):
«A biologia molecular explicou o mecanismo de hereditariedade que Darwin tinha deixado de fora e propõe várias explicações para a origem da vida. Chutou Deus para a química, que o passou à física que, com um remate pujante, o enfiou pelo Big Bang. Não é nada de pessoal. É assim que o universo é, é assim que temos que o descrever.»
Perdoe-me a indiscrição: O Ludwig estudou com quem, com o Gabriel Alves?... E pensa e escreve com qual dos pés? – com o que tem mais à mão?
Por fim, certifica, vossência, que «não foi a teologia que nos deu os antibióticos, nem a oração que revelou o motor de combustão nem a fé que pôs satélites em órbita.» Quer dizer, insinua que foi a ciência. Portanto, autoriza-nos daí a concluir que foi também ela que colocou a bomba atómica em Hiroshima. Ou os submarinos nucleares nos oceanos. Ou as armas bacteriológicas sabe-se lá onde. Ou os admiráveis "Amanhãs que cantam" ao virar da esquina.
No mínimo, um tal cadastro circunscreve os cientistas no rol das raças perigosas. E justifica alguns cuidados de segurança preventiva, como microship de rastreio, seguro canino e um bom açaime na via pública. Já que trela, essa, justiça lhes seja feita, sempre tiveram.

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