segunda-feira, abril 21, 2008

Conversa de Gigantes (rep)



«Galileu acreditou que as teorias matemáticas de onde deduzia as observações representavam a realidade permanente, a substância subjacente dos fenómenos. A natureza era matemática. Esta ideia devia-a, em parte, ao platonismo que havia estado em voga em Itália, sobretudo em Florência, desde o século XV. »
- A.C.Crombie, "História da Ciência – De Stº Agostinho a Galileu"

Para Aristóteles, a Fysis (correspondente grego à "natureza" latina e medieval) era de ordem orgânica, ou seja, manifestava um cosmos entendido como "zoon", ser vivo.
Com a Ciência moderna, o organismo degenerou em esquema. Nem sequer sistema, mas multiplicidade, aglomerado de esquemas. Cada ciência tem o seu, sendo certo que a Ciência se pulverizou numa miríade de ciênciazinhas, cada qual às voltas com o seu pequeno osso. A sabedoria antiga, que demandava a plenitude, deu lugar ao saber às fatias, galeria-labirinto de guichés e chafaricas. Uma burrocracia de anõezinhos, moços de frete e malabaristas do conceito. Um circo de barraca armada no Largo da Contingência, para os operários do Bairro da Indústria e para as rameiras do Beco do Progresso. Um rilhafoles completo onde os internados se babam e deslumbram, fixados alhures nas virtualidades mágicas e incomunicáveis da sua monomania.

Entretanto, sobra-nos uma pergunta, talvez mesmo um enigma:
O cerne do pensamento Ocidental residirá nessa discussão entre Platão e Aristóteles que, por entre ruídos, burburinhos e notas de rodapé, atravessa os séculos?

5 comentários:

Anónimo disse...

O "zoon" e a "physis" para os gregos (que deviam ser de leitura obrigatória para qualquer cientista que se preze) de facto eram encarados como tendo um carácter orgânico, vivo e "animado", ou seja, tinham "animus", intencionalidade e perspectiva. Ou seaja não havia clivagem entre a esfera da "bios" (vida) e da "physis" (matéria).

Dois milénios mais tarde, J.J. Borges, que não precisa de apresentação, dizia que os homens ou nascem platónicos ou aristotélicos, donde, entre outras coisas, inferia que o movimento romântico correspondia aos primeiros e o classicismo aos segundos.

O problema da ciência é que pensa que se separou da filosofia e da literatura que lhe está na base, quando está ligada a ela por mil e um cordão umbilicais, e é dela que provem.

E nunca há cortes epistemológicos totais, como poderá pensar o radicalismo cientês, que pensa que é de geração espontânea e nada deve
ao passado.

Por isso o cientês contemporâneo, incosciente, que não faz a sua amamnese, e portanto não dispõe de consciência histórica, é como uma seita, que se desligou da corrente da tradição e surge como "iluminada" e como "the ultimate". Esperemos, com alguma benevolência, que não passe de uma doença infantil, própria de quem ainda não chegou à maturidade.

O corte radical em "especialidades" da ciência por um lado afasta-as de se auto-compreenderem e torna-as singularmente autistas. E isso é o problema contemporâneo: o autismo das especialidades que as afasta do tronco donde provem ao mesmo tempo que lhes bloqueia o acesso à "mathesis".

Por isso, a ciência contemporãnea em vez de se Põr numa posição tão suprematista devia ter a humildade de fazer a sua "éducation sentimentale" antes de se apresentar como a luz dos povos. Mas para isso tem ainda que caminhar muito, na direcção da literatura e da imaginação criadora. E para isso terá que estudar a sua genealogia, bem como filologia.

Lopo K.

Sebas disse...

Este Lopo K. já tem mostrado ser de rara qualidade, vê lá se o sabes manter cá por estas bandas, só lhe enriquece o blogue caro Dragão.

Porque será que este "post" não tem 101 comentários de cientoleiros irados. Eu cá tenho uma teoria, mas em conflito com o bom espírito científico, vou retê-la para mim.

Sebas disse...

Ah! Ora esqueça o meu último comentário. O Senhor Dragão instaurou a censura aqui nesta casa. Fez muito bem, muito bem mesmo. Bem sei que você não se dá muito bem com higienizações, mas de tanto pisar bostas mais tarde ou mais cedo haveria de o obrigar a cagar fora de casa.

Anónimo disse...

um artigo interessante pode ser encontrado aqui: "Triumph of the medieval mind" por
Eddie Ball


http://www.nature.com/nature/journal/v452/n7189/full/452816a.html

MP-S

Anónimo disse...

O dragao ainda vives no mecanicismo, ou andas a preparar o pessoal para a cena holistica?