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Segunda-feira, Novembro 05, 2007

A Cama que nos andam a fazer



Antes de retomar as hostilidades, uma breve nota sobre a maratona de comentários.

A certa altura, num animado despique com Timshel, o glutão das hóstias, diz a Zazie, com imensa piada: "Toda a gente sabe que o Dragão é agnóstico."

Toda a gente, ó minha cara amiga, é capaz de ser um pouco exagerado. Há pelo menos uma pessoa que o desconhecia com todas as suas forças: eu.

Deus não é um objecto de conhecimento, donde não faz qualquer sentido alguém arengar que pretende conhecer ou desconhecer Deus. Ou, o mesmo é dizer-se, "gnóstico" ou "agnóstico". Porque, na verdade, um tipo munir-se do "conhecimento" para ir à procura de Deus é o equivalente a armar-se duma cana de pesca para ir à caça de elefantes. E quem diz Deus, diz um mero indivíduo - um Chico, Manel ou Francisco quaisquer. Ou seja, desde o "Indivíduo por Excelência" ao "indivíduo por existência". Já Aristóteles o explica detalhadamente - Livro Zeta, da Metafísica, para quem se quiser dar ao trabalho. Não obstante, o que mais por aí abunda é gente que afirma conhecer tudo e mais alguma coisa - desde o parto do Universo até às ínfimas privacidades galácticas - e nem a si próprio se conhece. Querem um exemplo flagrante: nós todos.

Todos os sistemas lógicos baseados estritamente no conhecimento -como, por exemplo, a Ciência Moderna -, apenas alcançam o nível das espécies: escapam-lhes os indivíduos. Precisamente, porque não têm como finalidade saber "o que as coisas são", mas apenas "aquilo para que as coisas servem". Não espanta pois que operem e porfiem pela uniformização, pela massificação, em suma: pela "standardização". Aquilo que não atingem, não compreendem e, por conseguinte, terraplenam. O que escapa à "média" - dada pela "estatística", pela "lei geral", pelo "mito autorizado", enfim, pela "moda gnoseológica" da berra - amputa-se ou tortura-se até não restar mais que um puré de factos e invólucros normalizados. Como numa perfeita Cama de Procusta.