terça-feira, julho 24, 2007

A Sina V, (ou Do Leitmotif)

«Pondo de lado tudo o que pode ser considerado arte de jornalista no inquérito e ainda, aqui e além, curiosidades de menor monta, são visíveis as duas grandes preocupações do autor. Confesso que elas me divertiam um pouco pela insistência com que eram postas, embora reconheça que traduzem as maiores dúvidas do grande número. A primeira pode exprimir-se assim:
Este homem que é Governo, não queria ser Governo. Foi deputado; assistiu a uma única sessão e nunca mais voltou. Foi ministro; demorou-se cinco dias, foi-se embora e não mais queria voltar. O Governo foi-lhe dado, não o conquistou, ao menos à maneira clássica e bem nossa conhecida: não conspirou, não chefiou nenhum grupo, não manejou a intriga, não venceu quaisquer adversários pela força organizada ou revolucionária. Não se apoia aparentemente em ninguém e dirige-se amiúde à Nação, entidade bastante abstracta para apoio eficaz. Tem todo o ar de lhe ser indiferente estar ou ir; em todo o caso, está. Está e há tanto tempo e tão tranquilamente como se ameaçasse nunca mais deixar de estar. Suporta os trabalhos do Governo, sofre as injustiças,os insultos dos desvairados, os despeitos, as raivas dos impotentes. Vai engolindo, de quando em quando, a sua conta de sapos vivos, comida forçada de políticos, segundo pretendia Clemenceau. E está, e fica... Mas o problema, a dúvida continuam no mesmo pé. Aquele que não foi toda a vida candidato ostensivo à governação, que não sacrificou a esse objectivo todas as energias do seu ser, que a si próprio se não proclamou capaz de dirigir, de mandar, de executar e fazer executar um programa de governo, seu ou alheio, que considera o Poder mais como um dever de consciência que como direito a usufruir pela força da conquista, - de onde lhe vem, se não é filha da ambição de mandar a força de vontade necessária para não ficar a meio caminho? de que se alimenta o ânimo no trabalho, na luta, para não mostrar abatimento, desânimo, vontade de desertar?
Não sendo eu o autor do inquérito, não me cabe a mim desfazer estas dúvidas e esclarecer este ponto. Entretanto formulo, por desfastio, algumas hipóteses.
[Hipótese nº1]
As últimas dezenas de anos são na História Portuguesa de decadência profunda; esta atingiu, pode dizer-se, todas as manifestações da vida nacional, a produção, a cultura, a administração pública, a política. No entanto, examinadas mais ded perto as coisas, verifica-se que esse abatimento não proveio da absoluta carência de homens. Nas artes, nas ciências, no ensino, no jornalismo, na indústria e na agricultura, na colonização, afirmaram-se ou trabalharam simplesmente, ignorados, alguns valores de primeira ordem. Por outro lado, nós não podemos fugir, sobretudo num país da formação do nosso, a que seja o Estado quem represente efectivamente a Nação, aos olhos de portugueses e aos olhos de estranhos; dele vem a orientação superior, a organização e disciplina dos indivíduos, a sequência da vida nacional. A expressão desta é mais ou menos alta e digna, conforme a elevação do próprio Estado. Sem que desconheçamos ou menosprezemos inteligências, capacidades, esforços, boas vontades, aliás primeiras vítimas dum estado de coisas deplorável, o Estado português esteve longe de dignificar sempre Portugal. Quero dizer: se a Nação não correspondia aos seus valores individuais, o Estado era ainda inferior à Nação. Uma falta de organização, de enquadramento, de direcção superior deixava as melhores unidades inaproveitadas ou improdutivas, cada qual se queixando de um mal que sozinho não podia suprir e não se unindo espontaneamente a outros para o fazer cesar.
De facto, enquanto a nossa educação for o que é, o poder público há-de ser sempre a mola real da vida e progresso do País, e consequentemente o grande responsável da sua inferioridade ou decadência. Ora, o cuidado que devia haver na organização do Estado, na sua adaptação às realidades e necessidades nacionais, no recrutamento dos valores a quem se havisa de confiar a administração e a política, esse cuidado, mercê de circunstâncias que não vale a pena examinar, nem sempre o houve - não é verdade? -e por isso a nossa expressão ou representação nacional não foi sempre feliz e sobretudo não foi justa: tínhamos mais e melhor.
Todos os que temos, pela inteligência, pela voz do sangue ou simplesmente pelo instinto do coração, a consciência da nossa unidade e independência, da nossa grandeza passada, da nossa colaboração na obra civilizadora da Europa, dos nossos interesses actuais na África,na Ásia, na Oceania, sentimos - ferida aberta na alma - o riso mundial, a troça dos povos em nada superiores a nós, a não ser na sua linha exterior, por causa da nossa agitação revolucionária, da nossa incapacidade governativa, das nossas irregularidades de administração, do nosso atraso e do nosso descrédito. Temos sido, numa palavra, enxovalhados e vexados. Ora há portugueses suficientemente orgulhosos da sua qualidade de portugueses para sentirem tudo isto como afronta pessoal, e para, chegada a ocasião, tirarem do seu orgulho ferido a paciência, a tenacidade, a força necessária para procurar implantar no País a ordem e a boa administração, fomentar o progresso material, revolucionar a educação e dar à Nação e à sua política um tal aprumo e dignidade que possam reconquistar para Portugal o bom nome e o respeito de todos. Esses portugueses sabem que, sem exageros, sem agressividade, sem declarar quixotescamente guerra ao mundo, os países, como os indivíduos, podem, pelo seu trabalho e pelas suas virtudes, ter direito os pobres a estar diante dos ricos, os pequenos diante dos grandes, de cabeça levantada e até de chapéu na cabeça

- A.O. Salazar in prefácio de "Salazar, o Homem e a sua Obra", de António Ferro (16 de Janeiro de 1933)

Fica-me a ideia de que é uma espécie de assombração atávica no carácter português: damos sempre uma excessiva importância ao que os outros pensam de nós. Deve ser por isso que, entre nós, o Parecer prevalece desmesuradamente sobre o Ser. E seguramente é por isso que somos cada vez mais Coisa Nenhuma direitos a Lado Nenhum.

4 comentários:

Afonso Henriques disse...

A realidade em Portugal, em 1933, chamava-se república.
Tal como se chama hoje em dia.
As "últimas décadas" terão sido duas: de 1913 a 1933 e, sempre, em república.
Tal como o foram os 41 (quarenta e um) anos subsequentes com tudo o que isso trouxe de atraso, de paragem, de estagnação, de conservadorismo (des-)exasperado e consequente mentalidade de capelista de vão de escada, que é o
que somos hoje, à sombra de armas sem coroa, num pano verde-encarnado.

Cumprimentos,

Afonso Henriques

Lusgon disse...

Há então eu é que quero ser o monarca cá do sítio. Porque não? Sou tão incompetente como outro qualquer. Se há-de haver um estafermo dum sacana com poleiro vitalício para amarfanhar tudo o que é de melhor cá no calhau à beira mar plantado, quer seja terra, servos, senhoras e concubinas, séquitos e tributos, eu é que devo ser esse estafermo desse sacana...Porque não?...Algum outro candidato por aí para eu esquartejar em público, que se alevante?...
Pfff...Otários...

Anónimo disse...

Não sei se ha putas que cheguem para tantos pretendentes a xxxulos!

lusitânea disse...

Bem agora nem a voz do sangue pode ser invocada porque somos cada vez mais "homem novo e mulato das mais desvairadas paragens.O que só facilita o desastre...