sábado, fevereiro 23, 2008

Orelhas à la planche

Caro MCB, se julga que me equivoquei, julga bem. Sou um equivocado nato. Mal estava a sair da fábrica materna e reparei logo que me tinha equivocado. Que, para minha infinita penúria, estava a nascer na espécie errada, no planeta errado e no tempo mais que errado de todos. Pior que isto, só mesmo ter nascido verme, micróbio, barata ou americano. Mas, em contrapartida, se julga que eu insinuei porcarias e torpezas dessas, julga mal, julga péssimamente, tresjulga, e está, claramente, a querer competir comigo para o título mundial de equívocos pesados. É uma tentativa relevante, determinada, mas não desperdiçe talento e energias: sou campeão mundial vitalício, perpétuo, indestronável. O cepro, a coroa, o trono, o império, do equívoco, são todos meus. Não estão ao mero alcance humano. Tenho uma vida inteira devotada ao desporto. Sou, da cabeça aos pés, sem esquecer as mãos que muitas vezes com eles permuto, um mapa vivo e ambulante de taças, medalhas e cicatrizes. Só o faqueiro triunfal que carrego nas costas, qual Atlas da quixotice, deixaria prostrado e ofegante qualquer estivador audaz (ou andaluz) logo ao fim de passo e meio, se tanto.
Por conseguinte, não desça Vossência da inteligência que possui e da consideração que lhe tenho, e trate de não confundir ironia com insinuação. Porque era simples a ironia. E não cuidava de apontar vilezas que de todo não vislumbro, mas uma incongruência óbvia que o meu caro amigo faz por reavivar e reeditar em mais uma versão revista e aumentada. Precisamente quanto reincide a perguntar-me, e cito: "Ora diga lá com franqueza se o Pacheco Pereira e o António Barreto - nunca os vi, nunca com eles falei - não farão alguma diferença no cômputo de cretinos e sanguessugas que polvilham a ressequido bolo do regime ?"
Note bem, pergunta-me a mim, César Augusto Dragão, pelo Pacheco Pereira ou pelo Toninho Barreto. Acha que é pergunta que se faça? O que é que entende que se vai falar do Pacheco, do Barreto, ou de quaisquer destes telepapagaios louros oxigenados daqui por 100 ou duzentos anos? Presume que alguém se vai dar sequer ao trabalho de culpá-los por todos os males, desventuras e aluimentos da pátria? Mais pertinente e comezinho ainda: acha que eu perco o meu tempo com anõezinhos mentais desses? Para anão basto eu. Já me chega o espelho. Tolha-me o intelecto mas não me tolha a vista: deixe-me ao menos gastar e regalar os olhos da cara que me resta com gigantes. Ou, pelo menos, gente de estatura admirável, como o Camilo, o Eça, o Oliveira Martins ou o Ramalho. Gente que (fora o Camilo) você zurze à desfilada, sem dó nem tino, num varapejo onde nem o Pessoa e o Almada escapam ilesos e comem por tabela e pela medida grande, ao mesmo tempo que me pergunta pela distinção do Pacheco Pereira e do António Barreto. Ora batatas! Ora bróculos! Está a ver a cabidela em que se meteu? Não me deixou alternativa senão a abordagem punitiva. Afinal, você reconhece a distinção de anões vivos, mas não respeita a distinção de gente grande morta. Para a moral dos nossos convivas irrequietos, do Lopes Santana ao Pacheco Luiz, recomenda a benevolência, a compreensão, a indulgência; para a moral dos outros antanhíferos, que lhe contendem não sei com que fantasia, é tronco, pelourinho, queima de efígie à revelia e malditos sejam mais as respectivas mães?! Que macaco lhe mordeu? A esquerda andou a dessedentar-se-lhe nas jugulares? Porque isso das ASAEs históricas, das brigadas profilácticas e demonizantes sobre o passado é típico deles, com mil raios. E agora que eu subo a bordo, de sabre à dentuça e bacamarte em riste, dou consigo empoleirado no cesto da gávea a batalhar nuvens e gaivotas. "Belo!", desabafei com o meu imediato. "Temos Íxion nas Caraíbas. Diz a Sua Senhoria que intervale um instante nos seus elevados afazeres e faça a fineza de arrear cá abaixo, ao tombadilho da realidade, que eu tenho uns certos assuntos a tratar com as suas digníssimas orelhas!..."
Pois agora que já tenho as suas orelhas, passo ao tempero apimentado das mesmas...
A geração de 70 estava impregnada de francesismo e jacobinite? Estava. Polvorosa descoberta. Era a moda da época. Babavam-se então com a França e a revolução benemérita como agora se babam com a América e a revolução democrática. (Está a apertá-lo muito, o garruço?) É verdade; em 1871, o próprio Eça escreve a Emídio Garcia: "Eu mesmo que te falo sou membro da Internacional" (...); e mais adiante:" Trata pois de espalhar por aí tanto quanto possível As farpas que são a vanguarda e as primeiras sentinelas de descoberta do movimento revolucionário." E noutra carta do mesmo ano, desta vez a João Penha, o mesmo Eça anuncia: "No estado em que se encontra o País, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução - não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele - devem farpeá-lo. As "Farpas" são pois o Trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote - postos ao serviço da revolução.»
Donde, a sua objurgatória primeira, ó Miguel, até tem fundamento e mérito, tem até o meu aplauso, só não tem a minha bênção porque exorbita, efabula e incongrui. Exorbita na malignidade de cancro, fonte de todo o mal, com que os estigmatiza; efabula no idílio prévio e circundante, erro típico do diagnóstico à pressão; e incongrui no tom de púlpito evangélico, quando, de quotidiano, tudo faz V. por emulá-los e replicá-los. O facto é que Vossência é demasiado liberal, modernofórico e xenófago para servir de porta-bandeira ou arauto peregrino duma tal desinfestação. Tivesse lá vivido e não ponho as mães no lume que não caísse na mesma esparrela. Por isso, o seu postal, com menos brilho literário, mas com bem mais autoridade moral e coerência política poderia ter sido escrito e assinado pelo jovem Corcunda. Aí, eu nada teria a apontar. O hábito e o monge estariam em perfeita harmonia e sincronia. No seu caso, porém, o hábito súbito não desfaz o toreador costumeiro. Não lhe faltando um certo fundamento, falta-lhe todavia a consistência quase toda. Sobra-lhe em brilho o que carece em densidade. E quando me diz que a "geração de 70" não morreu, que vaga ainda fantasmagoricamente entre nós, sinto-me inclinado a acreditar. Sensação que se avoluma sempre que dou consigo, comigo e outros figurões que tais a galope, de farpa em riste e bordão em cascata. Ou, glosando o Almada, "coragem, ó émulos portugueses hodiernos, já só vos faltam as qualidades!..."
Esta, em resumo, daqui donde o observo, foi a figura que Vossência fez e que eu, porque o considero, achei por bem avisá-lo. O hábito vai descosido e deixa ver as lentejoulas. E um enfermeiro armado de bandarilhas é capaz de não inspirar a conveniente tranquilidade e confiança aos doentes.
No mais, faço-lhe a justiça de louvá-lo pelo desassombro e pela audácia, e ainda mais agradecer-lhe a ocasião para estas esgrimas e pilhagens que, bem mais que réplicas, tréplicas ou sarréplicas, eu estimaria que tonitruassem a animados colóquios.
A terminar, duas breves notas, que a prédica já vai longa.
Se pensou que eu era mais camiliano, pensou mal. Não sou mais nem menos. Nem camiliano nem queirosiano. Não é comigo essa cisma. A minha escola é outra. E como considero a política actual o ramo mais pobre da literatura, não misturo alhos com bugalhos, nem deixo que considerações da ordem do esgoto interfiram com perspectivas do nível da varanda (resultaria em trica e mexiriquice da laia dessas ficções pouco asseadas que fazem passar por "História", "sociologia", "politologia" e outras mixórdias que tais). Agora que o Camilo - que muito prezo, tal qual o Queirós, como grandes estilistas desta Língua nossa que foram-, foi tudo menos livre, temos a sua própria obra - e o esbanjamento monumental de talento que constitui - a demonstrá-lo. Ficamos com a ideia dum empreiteiro de novelas. Um Cervantes que se vendeu a retalho. Às mijinhas. Nem imagina os nomes que eu chamei ao Camilo ao terminar a última página da "Queda dum anjo".
Por último, absolutamente livre é que o meu prezado amigo também não é. Nem vossência nem nenhum dos frágeis, patéticos e confusos mortais que por este mundo do diabo penam ou fazem penar os outros. Absolutamente livre, que eu saiba, só o Deus de Aristóteles. Não queira V.Excª competir com Ele na autonomia e comigo no equívoco. Meta-se com as nuvens, desanque as aves (que as temos cá muitas, pernaltas, raras, canoras, de arribação), mas não se meta com a Transcendência!


PS: A Hubris atrai fatalmente a Ate. Uma lição imemorial que tendemos a esquecer.

PS 2: Aquela da psicanálise foi bem metida. Com o tempo ainda faço de si um brutamontes cá da minha Irmandade da Costa. Já faltou mais.

PS 3: Entretanto, em sua honra, acabei por inventar o verbo "incongruir". Ou seja, ser incongruente.


7 comentários:

joshua disse...

É! Não te lerem muitos mais é verdadeiramente uma pena e um prejuízo! Não te faltarei por aqui, filhinho, que tens artes de mareação, navegas à bolina e sabes acostar!

Bendita prosa, ó Dragão! Talvez o Miguel te devesse alcandorar o DRAGOSCÓPIO à maiusculação nos seus linques de estimação, maioritariamente maiúsculos. E isto só porque te bates bem com ele. Ou não nos honra que honremos bons adversários o melhor que possamos?!

PALAVROSSAVRVS REX

Anónimo disse...

já agora, ó Joshua, e o Senhor Dragão muda o nome de Dragoscópio para Judiaria-aos-Copos...

O MCB já teve tantas posições políticas, que na seguinte passa de pró-Israel a pró-democracia na Tailândia...

joshua disse...

Ó anónimo das 7:59, vai apanhar no cu. Bebe um Gin Tónico que isso passa.

E é bom que leves isto na desportiva. Se não levares, vai apanhar no cu na mesma.

Abraço

PALAVROSSAVRVS REX

Combustões disse...

Hehe..este "canal" está cada vez mais divertido.

Anónimo disse...

Joshua, lamento que não tivesse acreditado.
Mostra a sua falta de carácter.
Que tal não herde a Criança que tem ao colo. Que não tem culpa do ordinário que você é.

proletário disse...

ó judeu és mesmo um porco.
só pensas em cu meu marreco.

António disse...

LOL. Gente como nós regemo-nos por princípios distintos aos da gentalha normal e corriqueira, porque temos exigências distintas as quais nos colocam acima de valores morais. O meu dever não consiste em sacrificar-me pelos outros. O meu dever consiste em perseguir o meu SONHO. A beleza exige dolorosos sacrifícios, que em contrapartida nos oferece os prazeres supremos da alma... etc... etc... LOL