quarta-feira, agosto 31, 2005

Do fundo dos tempos....


Recordemos essa cadeia da fatalidade humana, segundo o pensamento grego: KorosHybrisAthé. Ou seja, de Koros, a Saciedade ou Arrogância, resultava fatalmente a Hybris, o Excesso, e deste a Athé, aliás Castigo, Desastre ou Retribuição (é difícil traduzir Athé numa só palavra). Em suma, neste tríptico maldito, codifica-se a engrenagem implacável que fica para lá da necessidade. Lá, onde reina a violência. E o acaso.
Abra-se um breve parêntesis para dar vazão ao nosso arrepio: submeta-se este tríptico abominável ao teste da História da Civilização Ocidental. Quando é que a abundância não trouxe consigo o empaturramento, o fastio, a arrogância, e, logo de seguida, o excesso, o desenfreio, a violação, que, por sua vez, não tardaram a chamar o desastre, a ruína e a desgraça? A resposta é tão arrepiante quanto lacónica: Ai de nós, nunca! Fale-se de impérios, fale-se de nações, fale-se de homens.

terça-feira, agosto 30, 2005

Os interesses e os apetites

Há uma ladainha muito em voga, espécie de muleta retórica em certos departamentos, que consiste em louvar, enaltecer e privilegiar, para tudo e mais alguma coisa, os "interesses dos indivíduos". Ora, isto, no mínimo, denota uma forma de pensamento bastante rudimentar, basicamente juvenil e fantasiosa. Atribuir interesses a indivíduos é imaginar unicórnios. Interesses têm os estados; os indivíduos, as pessoas, os consumidores, ou o que raio queiram chamar a esta gleba hodierna, têm apetites.

Geometrias

Não tenham dúvidas: A chamada "extrema direita" está toda à minha esquerda. Paralelamente, a dita extrema-esquerda, mesmo a mais utópica e desbragada, situa-se toda, sem excepção, à minha direita.
É o que dá viver num planeta redondo. Nos antípodas.

Memórias de um Sem-Abrigo

Lá me arrastei até à Feira do Lixo. Exacto, leram bem: "Lixo". Eu soletro: L e i Li, x e o xo - LIXO! É já uma tradição nacional por esta altura do ano. Não sei porque persistem no eufemismo de "livro". Aquilo, livros, tem muito poucos, e dessa minoria, uma ínfima parte bem traduzida. Na maior parte das bancas vendem dejectos e compram dejectos: desde grandes poias paquidérmicas a pequenas caganitas de cabra, passando por excremento fóssil a fezes pós-modernas, modernas e hodiernas, de toda a espécie. Em matéria de trampa mental, há lá de tudo. Para uma sociedade de caprófagos, como a nossa, a coisa deve corresponder a uma espécie de "Tavares Rico" dos Hamburgueres; ou "Rei das farturas e almanaques". Para uma cultura de escatolatras, deve ser o paraíso. Passe-se nas redondezas duma tal "Oficina do Livro" e inale-se o aroma: aquilo fermenta e exala. A cem metros já desperta náuseas e vómitos. À mesma distância, já reverberam cores –são poias garridas, aquelas!- que ferem a vista e encandeiam o otário. "Compra, Toino, e pergunta se não tem também em tons pastel!"
Ao menos, fornecessem, à entrada, máscaras anti-gaz, daquelas que se usam em ambiente químio-bacteriológico; luvas para manusear o esterco, enfim. E, já agora, uma galochas de cano alto, umas pinças (para certas brocuras inenarráveis) e um contador de radiações. Mas nem um WC pato sequer! Seria simbólico, bem entendido, porque para ser eficaz teria que alcançar as dimensões duma basílica da Estrela. Porém, nicles. Para não variar, os tipos do Ministério do Ambiente e o Delegado de Saúde Pública andam a dormir.
Entretanto, os da Quercos, da DECO, da Green Peace, todos esses ambientalistas de pacotilha, não dormem. Não; esses ressonam. E os que não roncam grosseiramente, a lembrar ursos hibernantes, entregam-se com igual perfídia e não menor gana, à poluição. Ou seja, largam também, a concurso, bosta fumegante pelos escaparates. Calculo mesmo a série de montículos que um tal de Soromanho Marques, cujo pai era sapateiro e nem numas meias solas foi capaz de adestrar o rebento, para lá lastrou em exposição.
Mas quem aprecie estrumeiras, regale-se: É todo um monturo a céu aberto. Se as lixeiras de resíduos sólidos estão em declínio, cedendo ante a cavalgada asséptica dos aterros e co-incinerações, já o lixo mental, ao invés, vai de vento em popa (o que, reconheça-se, só serve para empestar ainda mais a aragem). Sem esquecer uma outra agravante: enquanto as lixeiras materiais, em nome da higiene, se realizavam em espaços recônditos, por norma afastados dos centros populacionais, ou pelo menos na sua periferia, estes vazadouros espirituais, pelo contrário, hinos descarados ao contágio, escolhem para local de conferência e congresso o coração da urbe, atravancando parques emblemáticos, conspurcando jardins centrais ou aviltando praças íntimas.
O panorama, não obstante, entre umas e outras, não varia muito. Se nas primeiras, também ditas municipais, como é típico e cada vez mais ex-libris desta nossa civilização, vagueiam espantalhos escanzelados em rusga de conduto, disputando a vermes, ratos, moscas e cães, restos comestíveis ou utensílios recicláveis, também nas segundas, ditas intelectuais, se avistam pobres vagabundos famintos, em lúgubre romaria, singrando por entre idêntica fauna, à cata duma qualquer côdea oportuna ou preciosidade miraculosa.
Eu, pelo menos, foi dessa feição que por lá andei: palmilhando cuidadosamente entre a rataria e o galinhedo esgravatante, disfarçando a repugnância pela vermaria obesa, contornando magotes de varejeiras excitadas que acudiam ou se empanzinavam de manjares putrefactos. De resto, aproveitei que ando constipado, sem olfacto nenhum, por causa do fedor. Senão, por muito que a galga me instigasse, acho que não me atrevia.
Do que garimpei, deu para encher a cova dum dente e não merece grande reparo. Até porque sou pouco de publicidades e ostentações sobre aquilo que como. Ainda para mais lanchado num sítio destes... Em suma: entrei com fome e saí agoniado, rosnando iracundo para a senhora Dragão: "Mas não há um cabrão dum aterro sanitário onde vão enterrar esta merda imensa?!..." Todavia, o curto espaço de tempo que por lá consegui aguentar, antes de adquirir uma cor cianosada, apneia e vertigens, (já não falando numa vozes longínquas que me incitavam à carnificina indiscriminada), deu para me aperceber dumas quantas singularidades descabelantes.
A mais extravagante prende-se com um descaramento inaudito da parte das Autoridades e do Estado de Direito que era suposto reger-nos. Pois se numa lixeira tradicional o acesso é livre, a pesquisa franca e o almoço grátis, podendo optar o necessitado por degustar na esplanada ou, recorrendo ao take-away, levar para casa (quando a tem, o que é raro), já nesta lixeira mental, além de nos pespegarem nas esquálidas trombas com um lixo peçonhento pré-seleccionado, não permitem o piquenique local, obrigam a que se leve para casa e, pasme-se!, ao preço de obras de arte!... Quer dizer, nem a escolha é livre, nem a refeição gratuita, nem, tão pouco, imagine-se, barata. Impingem-nos porcarias, inomináveis despejos, mistelas arbitrárias, e, ainda por cima, fazem-se pagar como se de literatura ou magna filosofia se tratasse. Em bom rigor, não só o Estado, nem a Municipalidade, fazem, mais uma vez, o que lhes compete –que seria, com maquinaria especializada (buldózeres, pás-carregadoras e camiões), proceder à remoção expedita do pestilento entulho -, como, para cúmulo, é o cidadão que tem que substituir-se-lhes e, sem apelo nem agravo, alombar para o seu desafortunado dómus, às parcelas e às costas, toda a porcaria de que for capaz; e que a sua já depauperada bolsa permita. Se isto não é masoquismo imposto, decretado, não sei que seja!
E há ali lixo tóxico puro, senhores! Se há... Resíduos poluentes e gases dos mais depredadores da camada de ozono mental, então, é uma farturinha. Como se já não bastasse a rádio, a televisão, os jornais e a internet com toda a sua pornografia obscena e os blogues de referência, passe o pleonasmo, a reclamarem co-incineração urgente.
Caralho, não haver lá nos Céus, uma boa alma, um super-herói qualquer, quiçá um exterminador implacável, que venha cá abaixo pôr ordem nesta babel!
É evidente que estou a brincar. Até porque não acredito em homens providenciais. Providencial, por esta altura do campeonato, só mesmo um meteoro desembestado. E dos grandes.

Tudo isto expus também, indignado, ao Caguinchas, dando murros na mesa da tasca (aliás, cibertasca) e vociferando impropérios inauditos que, por consideração aos leitores, não transcrevi.
O gajo, debruçado sobre o jornal "A Bola" e a metafísica do ponta-de-lança desaparecido em parte incerta mas que há-de surgir do nevoeiro para levar o (segundo ele) Glorioso (segundo eu, ignominioso) ao título, fez uma pausa na meditação para me diagnosticar o seguinte:
"Dragão, estou farto de te dizer: tens que ser rigoroso com a medicação. As putas não são apenas o melhor dos antibióticos: são também o mais científico. Se interrompes, se deixas de tomar -pelo menos - três vezes ao dia, a seguir às refeições (ou antes, tanto faz e até abre o apetite) ao deitar e ao erguer, conforme te prescrevi, nunca mais te curas!..."
-"Terapêutica do caralho!...", blasfemei, ainda a porejar maus fígados.
-"Exactamente. - Colmatou o gajo. -Sabes bem que o resto não tem salvação possível."
O filho da puta, desde que bloga, dá-lhe para armar em sibilino.
-"Olha, vai sibilar à puta que te pariu!..." - Desestribei-me. E saí porta fora, aos pontapés aos caixotes. À procura duma farmácia, claro está. O facto de discutir com o médico, não obsta a que, pelo sim, pelo não, trate de aviar a receita.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Desassossegado

«Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter, uns para os outros, uma amabilidade de viagem.»

- Bernardo Soares (aliás, Fernando Pessoa), "Livro do Desassossego"

Como moral até nem está ruim de todo. Se bem que eu não a pratique. É o mesmo que dizerem-me que a bengala serve, essencialmente, para me apoiar na caminhada e na velhice. Recalcitro. Isso, que diabo, é a sua utilidade. Prefiro concebê-la como apetrecho para zurzir lombos. Esse é o seu prazer. E eu, neste capítulo, excepcionalmente, sou um hedonista.

Ao contrário dos avestruzes

A Polícia Judiciária, prontamente corroborada pelo João Miranda,veio atestar, peremptória e cientificamente, que, de todos os incêndios que têm desflorestado o país, só 20% são obra de pirómanos voluntários, malévolos e premeditados. Mais certificam que, nesses 20%, a regra geral da autoria são tolinhos, marginalizados ou ébrios avulsos.
Diante deste portento informativo, extintor implacável de quaisquer dúvidas, resta-nos, para digestivo, um dilema: Ou os aldeãos andam com alucinações; ou os tolinhos e congéneres - tão preclaramente tipificados - voam.

domingo, agosto 28, 2005

Modernismos e transpirações


Há livros inexpugnáveis. Não se deixam ler.
Vamos para nos dirigir aos personagens e tropeçamos no autor. No ego do autor, cigano a arengar talentos. A exibir camisas, ou fios de pechisbeque. É impossível aturá-lo!
Tentamos espreitar o enredo. Não há. O que há é mais autor. Isto é, mais ego do autor, carradas dele, ego que nunca mais acaba. Gostaríamos de lobrigar uma qualquer pontinha de horizonte para lá dele, uma migalha de realidade que fosse (no fundo , mesmo nos mais desesperados ambientes, há sempre uma réstea de esperança que persiste). Mas não ali. Ali a egofilia, a egolatria, a autosofia, ou que raio de peste é aquela, faz as vezes de vórtice e tudo absorve, aspira, contamina. Um imenso eu eclipsa o universo, as constelações, as galáxias. Mas não só o espaço, também o tempo: o passado, o presente e o futuro. A História e os mitos, a filosofia e a literatura. Não há escapatória, está por todo o lado, a todas as horas, em todas as coisas e pessoas. Todos os monumentos o aclamam. E mesmo as pintelhices, as ninharias e os micróbios cagagésimos do caos é nele que vêm beber sentido. Que demandam reconforto paternal. Ego e ainda mais ego. Mais camisas e pijamas; gangas de contrafacção; atoalhados e conjuntos de cama. E, por fim, as próprias cuecas do autor. Vem exibir-nos as cuecas. Após mais uma noite de miséria gloriosa. De piscinas olímpicas, para lá e para cá, no regurgitado. Mas fá-lo com desmesurada pompa. Mostra-no-las como se de uma bandeira mágica e sagrada se tratasse. Um símbolo inefável, uma síntese perfeita do próprio cosmos. Uma nova "Bíblia", enfim: sinopse inexorável de toda a Criação; esboço acabado da obra divina.
É nesta altura que uma incontível piedade, comiseração mesmo, nos invade. Afastamo-nos e cobrimos o nariz. Esforçamo-nos por ter pena, para não ter vómitos. Ele passa, com solenidade, singrando uma passadeira vermelha de eternidade. Vai nu. Se exceptuarmos as cuecas na cabeça. Em forma de coroa.

Má sina...

«Todas as cidades, todos os estados e todos os reinos são mortais; todas as coisas, por natureza ou acidente, um dia ou outro hão-de chegar ao fim, e têm de acabar; assim sendo, o cidadão que veja a pátria ruir, nem por isso deverá desolar-se ante o revés da pátria e o infortúnio que o atinge; mas antes chorar a sua própria desgraça; porque à cidade sucedeu o que era forçoso acontecer, ao passo que a verdadeira desgraça foi a sua: a de nascer na altura em que semelhante desastre eclodia.»

- Francesco Guicciardini

sábado, agosto 27, 2005

Ser Dragão tem regulamentos

Ninguém no seu perfeito juízo imagina, decerto, um dragão a ir a festinhas de aniversário, a cantar os parabéns ou quaisquer outra dessas puerilidades congéneres. E quem diz aniversários, diz jantares, salas de chat, salas de chuto (que é quando os blogues, aliás blogs, se põem a discutir bola), chás, cházinhos, telenovelas, grupos excursionistas, beija-mãos, beija-pés, cheira-cus, cheira-bombas, bombocas ou bimbinhas, etc, etc, etc.
Não obstante, se alguém desenvolveu essa fantasia, cito de memória o Caguinchas: Tirem o cavalinho da chuva!
Dragão é pior que bruxa, quer dizer, é pior que um esquadrão aéreo delas. Se recordarem o que as bruxas, por norma, vão fazer aos aniversários dos príncipes e princesas, concordarão que é um favor que vos faço, e um acto de piedade maior, não comparecer ao vosso. Além disso, por esta altura do ano ando sempre muito ocupado a devastar o país. 20% das labaredas são obra de tolinhos e atrasados mentais, mas o grosso restante é meu.
A excepção à regra e o único aniversário a que vou é o do "Abrupto".

Por conseguinte, foi com imenso prazer que não fui aos aniversários, se bem me lembro, dos seguintes blogues (aliás, blogs):
Sexo dos Anjos
Nova frente
Eclético
Último Reduto
Blogame Mucho
Posso garantir, prometer e juramentar que, para o ano, tornarei a não ir.

Entretanto, julgo que houve para aí outros que também aniversariaram, uns quantos merdosos, pelo que não me deu prazer nenhum não ir lá e, não fora estar tão ocupado com as matas, tinha-me dado mesmo gozo era irromper na invertebrada festa e foder aquela merda toda!...

Termino com um recado particular: Como Dragão de Triste-Figura, é-me particularmente difícil, a título de celebração, honrar um dia especial do calendário a quem, por devoção e fadário cavalheirescos, me cumpre, não um, mas 365 dias ao ano.
Será que, lá do alto da elevada torre,
do castelo onde habitais,
não me vêdes passar, senhora,
sangrento mas galhardo,
às vezes trôpego mas estrénuo,
contra moinhos, quimeras, gigantes,
génios labrutos e pascácios,
trespassando dias e horrores
acudindo à justiça, com furores
desmascarando barracas que plagiam palácios
mas sempre carregando - voto sagrado, epitáfio -
o lenço com vossas cores?!...

quinta-feira, agosto 25, 2005

Sim, Excelência!...

Depois de ler este artigo no "Portugal Diário", fui-me deitar. Durante a noite, acometeu-me em sonhos (ou pesadelos, dirimam os caros leitores), o seguinte episódio: eu, por castigo certamente divino, tinha-me transformado em assessor de um iluminadíssimo e excelso presidente de uma não menos inefável e apofântica república, e padecia com ele o diálogo que se segue. A itálico rosa, arenga ele; a negritado pirata, contraponho eu.

(Nota importante: É essencial que leiam o artigo antes de lerem o que se segue. Caso contrário, poderão escapar-vos alguns detalhes.)

PR – Fui informado pelo Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), sobre esta alarmante situação: andam incêndios a lavrar no país.
Dragão – Providencial descoberta, Excelência. É um despautério. Quando os nossos agricultores são subsidiados principescamente para não o lavrarem, vêm estes sacanas dos incêndios e põem-se a lavrá-lo desta maneira desarvorante, sem respeito pelas quotas europeias, verdadeiramente a eito. Se não se põe cobro a esta lavoura selvagem, ainda perdemos os subsídios.
PR – É preciso «ir à raiz» do problema...
Dragão – Com efeito Excelência; até porque as ramagens já arderam e os troncos estão, de um modo geral, num estado lastimável. Escavemos, portanto!..
PR – 90 por cento da floresta é privada e há uma enorme percentagem que não é limpa!...
Dragão – Temo que esteja desactualizado, Excelência. Neste momento, uma esmagadora percentagem já está completamente limpa. Limpíssima. Terá sido mesmo um limpeza anti-Tide: em vez de ficar tudo branquíssimo, ficou tudo preto que nem breu. E o que falta, mais um ano com todo este dinamismo e expedição, fica limpo também.
PR- É preciso responsabilizar os proprietários.
Dragão – Boa ideia, excelência. Convém responsabilizar alguém. E como as autarquias, os governos, os bombeiros e, sobretudo, os incendiários são inimputáveis... Responsabilizemos as vítimas.
PR – Tem que haver um debate sério!...
Dragão – Acha mesmo, Excª? Numa república de brincar, com um presidente de faz de conta, o mais certo é as pessoas desatarem a rir; pelo menos aquelas que não estiverem muito ocupadas a chorar. Não considera, por raro acaso, Vª Excª, que em vez dum debate era mais proveitoso e adequado um rebate - um rebate a incêndio, pelo menos?...
PR - Está a chegar o momento de equacionar a aplicação do princípio da obra coerciva à limpeza das florestas!...
Dragão – Felizmente que ainda não chegou, esse momento peregrino. Não saberíamos que protocolo utilizar para a recepção a tão insigne embaixada. Espero que dê ainda tempo para prepararmos o cerimonial e o livro de visitas. Vossa Excelência comparece de fraque ou paletó?...
PR - Há aqui um problema de ordenamento sério.
Dragão – Talvez derivado ao excessivo número de palhaço e palhaçadas. Vª Excª tem a certeza que são necessários tantos para a recepção ao "momento de equacionar a aplicação o princípio da obra coerciva" e acompanhantes?
PR - Temos que saber que floresta queremos!
Dragão –Ah, mas sem dúvida, Excelência. Faz todo o sentido. Até porque há umas que ardem melhor que outras. E já agora, de par com as florestas, pinhais sobretudo, conviria que seleccionássemos também as putas que lá atacam.
PR -A reestruturação da floresta portuguesa está na ordem do dia e a partir de Setembro todas as energias têm que ser votadas para este debate!...
Dragão – Ah, a reestruturação, Excelência, sempre providencial, a reestruturação!... E muito avisada e prudente essa nobilíssima agenda. Imprescindível, de facto, que nos sentemos a debater e não caiamos na asneira de plantar ou replantar mais árvores, ou o que quer que seja. Assim, ao menos, temos a garantia que não ardem. Até prova em contrário, o Não Ser é incombustível. Ao contrário do Ser. Por isso, já Heraclito era um pirómano, mas Parménides não.
PR -Está a chegar o momento em que não podemos adiar mais isto!
Dragão –E isso é uma chatice, não é, Excelência? Depois deste tempo todo a adiar, palpita-me que, além de ligeiramente viciados, experimentaremos justificadas dificuldades em reconhecê-lo, ao ilustre momento, quando ele aterrar. E novamente se coloca a questão do protocolo: VªExcª vai recebê-lo aqui, em Belém, ou prefere Queluz ou a Ajuda?... E a guarda de honra: basta a GNR a cavalo, ou reforça-se com um pelotão da Armada, mais a fanfarra dos Pupilos?...
PR – Urge sensibilizar os superiores hierárquicos dos bombeiros voluntários, nomeadamente os que trabalham para câmaras municipais ou organismos do Estado, para que ajudem à sua mobilização perante uma situação climatérica única de seca que está a afectar o país este ano!...
Dragão – Evidentemente, Excelência. É urgente sensibilizar os superiores hierárquicos dos bombeiros voluntários. Já que sensibilizar os superiores hierárquicos da República, da governação, da justiça - da nação, enfim-, seria completamente infrutífero e inútil. Tal qual, de resto, tem sido, e Vossa excelência mais respectivos pares têm feito, e fazem, brutal e despudorado apanágio. Mas como o povo se pela por desastres...
PR - Repito: é preciso um debate sério a partir de Setembro!
Dragão - Portanto, até lá, continuamos em digressão. Perfeitamente, Excª. Entretanto, para a próxima visita de solidariedade e palanfrório, partindo do princípio que Vª Excª leva o traje de arlequim rico, qual dos seguintes complementos nasais vai preferir:



Sublinho: qualquer semelhança deste diálogo com a realidade, bem como figuras ou fenómenos que grassem nesta, é pura e lamentável coincidência.
Não fosse isso, eu diria que o Gorge Sampaio anda a ler o João Miranda.

Dêem-lhes de comer!

Segundo o "Diário Digital":
«Um estudo realizado por uma organização não-lucrativa norte-americana, a Trust for America`s Health, revela que os americanos estão cada vez mais gordos, com a obesidade a crescer a ritmos nunca antes vistos.»

Protesto! São atoardas, invejas, malquerenças!... Minha rica América!... Não são eles que estão a ficar mais gordos, o resto do mundo é que está a ficar cada vez mais magro, ora essa! Cambada de alter-anoréticos, é o que é!...
Pelo contrário, os querubins americanos, aqueles nenúfares da humanidade, são gente dinâmica, activa, tenaz, agenciadora. São meninos de muito alimento, aqueles príncipes. Gastam tremendas calorias nesta lufa-lufa global, de patrulhar o mundo, de proteger-nos dos extraterrestres, de ventrilocar governos, de democratizar à bruta, de vencer olimpíadas e Tours de empreitada, de saltar ao eixo-do-Mal no recreio da escola, etc, etc. Tudo coisas que abrem o apetite. Experimentem e vereis se não vos apetece tragar um boi logo de seguida! (Um boi, que digo eu, uma manada inteira!) Por conseguinte, é preciso que comam, que enfardem muito, os pequenos, cada vez mais, dia e noite, a todas as horas, até rebentarem, não vá dar-lhes a fraqueza.
Mas no fundo, acho eu, o que eles querem mesmo é suplantar os Árabes, seus rivais do momento. De que modo? Ora, simples: Se estes se fazem explodir com bombas à cintura, os américas vão mais longe, refinam e avançam: querem fazer estoirar-se com pneus.

A emenda, neste caso, é melhor que o soneto

Olhe, com sua licença, ó BOS, mas esse vai para a primeira página. Se bem que o "Dragoscópio" seja o único blogue português cujos leitores são mais inteligentes que os autores, não é todos os dias que, acima das pérolas, cai um diamante desses. Você aproveita-se da minha falta de tempo, pega no mote e faz uma emenda melhor que o soneto. Tal qual se passa a transcrever:

«Para um Dragão que se preze, que não um reles Komodo, estes incêndios devem de ser realmente um "espectáculo". E os pirómanos, coitados, são olhados de soslaio como concorrentes estivais pelos labarédicos bichos. Em anos futuros, se a coisa não se resolver — como alguém já propôs — com a "despenalização dos incêndios" e a criação de "salas de chuto incendiário" (com direito a isqueiro, gasolina e um bocadinho de mato), há-de resolver-se em favor do turismo pátrio com as construção de estalagens panorâmicas em frente às melhores serras e matas. E depois cativaremos os estrangeiros com 'slogans' apropriados ao dantesco espectáculo. Nos países anglo-saxónicos, aplicar-se-á a frase: «Portugal is hot!», com música de fundo dos Doors: «Come on baby, light my fire...» No Brasil, creio, bastará um expressivo «Portugal é fogo» para convencer a turistada.

- Bruno Oliveira Santos (ao vivo, nos comments do "Dragoscópio")
*****
Entretanto, toda a blogosfera "bem", "queque", beatolas, de todas as facções, -leia-se: toda aquela imensa caterva rançosa de medíocres emproados que por aí arrota, rosna e policia -, interroga-se como pôde Deus distribuir um talento assim por um fassista destes.
Se calhar é porque Ele também escreve torto por linhas direitas. Aliás, minto, escreve como e por onde lhe apetece. Ou não fosse Ele, ao contrário de nós, livre.

Grandes eventos televisivos



Pode ler-se no DN.
"Portugal já provou que consegue organizar grandes eventos. Questiono-me por que razão não é capaz de travar a tragédia dos incêndios", diz Thomas Fischer, um jornalista alemão, da ZDF.

O Thomas que me perdoe, mas cai num contra-senso. E coloca uma pergunta absolutamente desnecessária cuja resposta está implícita na afirmação inaugural. A prova de que Portugal continua a conseguir organizar grandes eventos está em que, todos os verões, organiza os maiores incêndios da Europa. Isso e festivais rock. Ora, com certeza, a germânica criatura não sugere que Portugal se pusesse a travar uma coisa que organiza. Seria o mesmo que construir estádios de futebol para um qualquer Euro e depois proibir as entradas. Além do mais, a palavra "tragédia" está, de todo, mal empregue: o termo correcto é "espectáculo".

quarta-feira, agosto 24, 2005

A ovelha ranhosa da família...








(Foto: Dragão de Komodo)




















Este gajo até é capaz de comer turistas. Repugnante!
O resto da família só os incinera.
Uma divergência insanável e ancestral quanto ao tratamento de lixo.

Possidónimos e pavões



Os notáveis que, pomposamente, se assinam e exibem por essa blogosfera afora, têm de notório (e pedestal para auto-glorificação) o invariável dom de atraírem, em grande número, récuas, clientelas e basbaques. No que, convenhamos, em nada se distinguem dos almocreves, das putas e dos desastres.
Quanto ao resto, cabe na exacta distância que medeia entre um índio e um pavão: O Índio, em honra do espírito, usa as penas para ornamentar a cabeça; o pavão, em tributo à vaidade, usa as penas para decorar e engrandecer o cu. É sempre envolto em tremenda sumptuosidade que caga.


Dragão Louco

terça-feira, agosto 23, 2005

O 31 de Abril


Se ardessem as salas de chuto –isto é, os "Continentes", os "shoppings", os "Ikeas", as farmácias, os queridos bancos -, isso sim, isso é que era dramático, trágico, catastrófico! Calculam-se as manifestações indignadas, vociferabundas, os cortes de estrada, de ferrovias, as barricadas, as marchas de protesto, os buzinões e cagaçais ininterruptos. Ou então se ardesse a casa de algum artista, o barbecue de algum metrossexual colunável, surpreendido pelas câmaras da TV em flagrante, a correr espavorido à frente das labaredas, de cuecas fio-dental; ou ainda, que sei eu, a mansão estival nº4 de algum craque da bola, de preferência oxigenado e com piercings em barda... Aí, aí S.Jorge vos acuda, nem quero pensar!... Obnubila-se-me que armagedão não seria!... Mesmo para mim, perito em babéis caóticas e badernas transcendentais, é difícil conceber uma indignação tão uníssona e ribombante, um tal Timor reacendido de canções e bandeiras em riste. Não, digo-vos, por um breve instante, abdico da minha proverbial omnisciência e sou forçado a reconhecer as minhas limitações prognoseológicas, meteorologia incluída: o mais que lobrigo e alcanço é que, no mínimo, era uma nova revolução florida, um 31 de Abril que só visto. E desta vez, ao contrário da outra, ou muito me engano, ou inúmeras pessoas não escapariam facilmente a uma agreste soirée no Campo Pequeno, onde, com requintes revolucionários e malvadez peregrina, acabariam polidas e depiladas até à morte. Não sem que antes, bem entendido, as penteassem, perfumassem, lipoaspirassem e maquilhassem, sem dó nem piedade. E se os torcionários de outras épocas, com sadismo expedito, arrancavam unhas às desvalidas cobaias, estes, cheios de tiques e donaires afectados, iriam ainda mais longe: pintavam-nas e bruniam-nas de vermelho ou rosa-choque!...
Deus tenha piedade de nós!...

segunda-feira, agosto 22, 2005

A Síndrome de JP

Foto: His master voice...
.
A posteridade vai registá-lo, talvez, como a Síndrome de JP. O principal sintoma é uma virgindade recauchutada, acompanhada de incontinência aguda diante do anonimato. Quer dizer, o JP é uma forma de vida animal que não pode ver um anónimo que não desate, de pronto, em rosnidos mais ou menos iracundos e despejos mais ou menos fedorentos.
Acresce que campeiam várias estirpes de JP, as quais, julga-se, preenchem o inteiro alfabreto, digo alfabruto: JPA, JPB, JPC...JPH e por aí fora, até ao JPZ. A mais infecciosa de todas, contudo, é a JPP, sempre pronta a deflagrar epidemias e a gerar réplicas mais ou menos bacterianas e peçonhudas. Estas, e mais ainda aquelas, se bem que não ultrapassem a comichão, podem causar, e geralmente causam, diversas psoríases (vulgo sarnas) e algumas alergias.
Não é mortal, nem sequer é contagioso (excepto por inspiração de flato). É apenas patético.
No cômputo geral, não vem grande mal ao mundo, até porque é sempre edificante ver profissionais do ramo a clamarem pela moral e os bons costumes. Mundanas em traje de missa, vestidas para ir ver a Deus...
Ah, não são meretrizes, são cães de guarda?!... Bem, então é de sugerir que afixem, o quanto antes, a elementar tabuleta de aviso ao passante incauto e à clientela menos perspicaz ou abonada. Pelo ímpeto com que ladram, raios me partam se não dá até ideia que algum cliente mais etilizado - e pitosga - lhes foi ao cu. Ou foi, ou está a ir. A magistratura que investigue. Bestialismo não, caralho!... É certo que não é abominação, como a paneleirice, mas é impureza, depravação, pecado. (Levítico, 22-23)
Deixem lá os animalzinhos, porra!... Quem lhes pôs o açaime, que lhes dê a trela.

Filantropias e amabilidades

Já não é a primeira vez que o comentador autodenominado Lowlander me distingue com diamantes lapidados nas misteriosas oficinas da sua intiligência (é mesmo com "i", acalma-te Homem-Prontuário). Pela insistência, concedo-lhe honras de primeira página e, a título raro e excepcional, de resposta.

Eis o diamante (acerca do postal "O Apocalipse pode ser rentável"):
«Um verborreico lamento de alguem profundamente angustiado com a sua propria inadaptacao e consequente inutilidade neste mundo. »

E eis a resposta:

Supino Lowlander,

Verifico, deslumbrado, que Vocência fotografou com minúcia exemplar o meu lado escaninho, ogresco, soturno. Mas deixe que o informe que possuo também um lado sintético, felizardo, pimpão e enturmadinho, bastante adequado aos tempos que correm e aos excrementos que, todos contentes, correm junto com eles, regra geral agarrados à sola dos sapatos. Quer ver?
- E se Vocência fosse bardamerda?!...
Viu? Não fui sintético, pragmático, optimista e filantrópico?... Um verdadeiro 4 em 1, melhor que certos shampôs: ablui, amacia, escalpa e desinfecta.
Mandar bugiar cretinos, toininhos e penteadinhos mentais -quer maior utilidade no mundo que esta? É um must, uma ocupação essencial, far-me-á a justiça de convir! Nem imagina, o Lowcoiso, como eu me retouço e regalo neste mister. Direi mais: é com verdadeiro espírito missionário, com porfiado ímpeto benemérito que o encaro.
E agora vá, vá, boa alma, e faça uma muito boa viagem!...

domingo, agosto 21, 2005

A Internacional Nacionalista

Para além do papel determinante que Portugal desempenhou na Segunda Grande guerra, também me tenho estado para aqui a interrogar, batiscafado em abissal meditação, sobre o papel importantíssimo que Rudolf Hess teve na história de Portugal... Assim de momento, não me ocorre nada, mas deve ser ignorância e puro Alzheimer meus.
Entretanto, e para agravar as coisas, há uma ideia renitente, inconveniente e perniciosa que cada vez mais se me aloja na caixa craniana: É a de que - como se já não bastasse a Internacional Socialista, a internacional capitalista, a internacional sionista, a internacional gay, a internacional terrorista e a internacional gatunista mãe das outras todas -, agora também temos que aturar a Internacional Nacionalista. Foda-se, é dose!...
A propósito, outro preceito curioso e rocambolesco que me intriga e, confesso, diverte, é imaginar a cara que o Viriato ancestral faria se ressuscitasse e desse de trombas com aquelas belas saudações à romana... Ou mesmo o Afonso Henriques que, burguinhão de pai e visigodo de mãe, havia de achar imensa graça a tanta romanofilia em parada.
Este nazismo pechisbeque, fruto serôdio de epígonos amargurados e porteiros de discoteca, presumo que se esgota nas tatuagens, nos piercings mentais esohistéricos e em meia dúzia de vociferações descabeladas. Não constitui ameaça alguma para a bandalheira instituída: Apenas a municia. Apenas lhe fornece ramalhetes de belos argumentos. Apenas lhe faz o frete.
Não obstante, quando do magote peregrino, por entre a acne mal resolvida e a indumentária tribal de ir à ópera, descortinamos um esboço de vitupério e ameaças à relaxada democracia e aos proxenetas de serviço em geral, chega a ser pândego: dir-se-ia que, numa qualquer ruela canalha, uma excursão de peralvilhos escantados tirou o dia para andar a invectivar chulos. No fundo, não se trata de genuíno antagonismo, mas de mero conflito de interesses: Uns, com a gaita em farrapos, a quererem vingar-se da puta siflítica; os outros, escorados na polícia, a defenderem, com unhas e dentes, o ganha pão-marisco-caviar-chófer-e-vidanço à borla.

sábado, agosto 20, 2005

O Apocalipse pode ser rentável


Segundo a demagogia imperatriz, - que amamenta e fertiliza o regime de "melhor dos mundos" em que vegetamos parcialmente lobotomizados -, somos todos iguais. O grande projecto globo-infestante que nos anima é mesmo o de nos tornarmos a nós cada vez mais iguais e aos outros cada vez mais parecidos connosco. Quem somos exactamente, ou quem são os outros de facto, senão tabu, é questão de somenos. O importante é não duvidar e, muito menos, fazer perguntas. Há quem acorde todos os dias encantado com a perspectiva e passe o dia a chilrear deslumbrado. Há quem se benza e implore ajuda ao Altíssimo -ou, senão Este, por óbito, pelo menos a alguma superpotência extraterrena e benemérita.
E há também outros, como os famigerados terroristas, que levam a fantasia a sério e distribuem explosivos e matanças em conformidade. Cumprem, num certo - se bem que perverso- sentido, as circunvoluções da mesma lógica: já que são todos iguais, então é indiferente onde se colocam os engenhos. Não há prioritários nem desprezíveis. Sendo todos iguais, não há que seleccionar melhores ou piores, até porque seria improfícuo; há é que matar muitos.
Por outro lado, ou face B do mesmo, se o bom músico é o que vende muitos discos, se o bom escritor é o que vende muitos livros, se o bom comunicador é o que deslumbra e cativa chusmejante plateia, como denegrir um terrorista que se socorre do mesmíssimo critério? Pois se mata muitos, se atinge (e pulveriza) numeroso público, não atesta isso da excelência do seu produto tanto quanto do seu desempenho?
Por bizarro que pareça, não deixa de soar a falso, a histerismo de frouxos e mulherzinhas, classificar-se esse terrorismo de mau, péssimo, execrável. Na verdade, enquanto terrorismo, é óptimo, é um best-killer, um Harry Potter das bombas. Nenhum terrorista, como nenhum estado ou empresa multinacional, se rege por imperativos morais, mas sim, e pragmaticamente, por objectivos, fins, metas de produção ou enriquecimento. Quer dizer, os parâmetros em que opera não são os da ética mas da eficácia. Ora, ninguém pode negar que este terrorismo Alcaidiano se tem desenvolvido com notório viço e proliferação exemplar. Poderemos acusá-lo de não nos ser conveniente, de ser nefasto aos nossos interesses, mas nunca, em tempo algum, de não ser eficaz ou consequente. Inconsequente e verdadeiramente bacoca, senão mesmo imbecil, tem sido a luta que, em tese, lhe tem sido movida. Ataca-se um bando de hienas ensandecidas bombardeando-as com nacos de carne. Quer dizer, em termos objectivos, ontológicos, de realização das respectivas potencialidades, não é o terrorismo que é péssimo – pelo contrário, como amargamente vamos descobrindo a cada nova explosão -ou cluster delas - por esse mundo fora, chega a raiar o brilhantismo. Não, péssima mesmo, confrangedoramente pateta, tem sido toda a panóplia de medidas e terapêuticas anti-terroristas que a vasta colecção de mentecaptos ao leme do 1º Mundo tem engendrado e semeado no planeta. Quando pensamos que um anão, físico e mental, do calibre dum António Vitorino (aqui entre nós, um turbo-microGuterres) se arroga em perito na luta anti-terrorista e, mais veloz que um Lucky Luke defronte da própria sombra, desata a golfar panaceias retóricas, é difícil não embarcarmos quase de imediato em dois estados de espírito tão exasperados quão antagónicos: por um lado, o pânico e a corrida a uma igreja a fim de rezarmos fervorosamente a Deus ou santo delegado por um milagre; por outro, um profundo nojo existencial pela espécie onde a Natureza nos distribuiu, senão mesmo uma ténue mas irreprimível simpatia pelos terroristas peregrinos. No fundo, como diria Breton, também eles são puros surrealistas: só que em vez de pistola em punho, atirando ao calhas na multidão avulsa, avançam de bomba ao colo. Ou melhor, são surrealistas não já apenas unidireccionais (do tiro), mas pandireccionais (da explosão).
Vituperais-me por contemplar tudo isto da mera perspectiva artística, estética?... É que a vislumbrá-lo de qualquer outro ponto de vista, em especial do político, banal, o assunto fede de tal modo, tresanda a tamanha balbúrdia e mistela excrementícia que a própria sanidade mental, só de ensaiar concebê-lo, oscilaria perigosamente, senão desabasse mesmo, com estrépito e perenidade.
Claro que Portugal nunca dará um bom exemplo, ainda menos em questões governamentais e políticas. Mas apenas se distingue porque exagera, porque hiperboliza os desvarios alheios. Os cidadãos desconfiam dos politicos, os políticos suspeitam dos cidadãos e todos se detestam e execram mútua e inoxidavelmente. O terrorismo constitui apenas mais um pretexto para este permanente ajuste de contas. Os terroristas, como prova de inteligência, utilizam este estado avançado de manicómio em seu proveito. Ao largarem bombas na massa anónima, escavam ainda mais o fosso entre esta e os respectivos dirigentes: os cidadãos tanto quanto culpar os terroristas, agravam a desconfiança para com os políticos poupados e estranhamente incólumes aos morticínios. Por seu turno, os políticos, junkies da irresponsabilidade, aproveitam para culpar a massa anónima de se auto-atacar, ou seja, segundo eles, são partes da massa anónima, células metastizadas, que agridem as células sãs. Daqui ao regime de internamento para tratamento, estudo e observação da própria massa é um passo lógico e necessário.
Resultado: mais importante que combater efectivamente o terrorismo é retirar vantagens e lucrar com ele. Ou dito por outras palavras: mais que uma missão prioritária, ou sequer séria, o combate ao terrorismo tende a devir negócio. E quanto mais se transformar num, mais por via da cegueira e dependência global ao lucro, tende a perenizar-se, complicar-se e fortalecer-se.
Não espantará que um dia, quando tal for conveniente, se revele como uma joint-venture entre grandes empresas, políticos avençados (que fazem biscates à frente dessas entidades cada vez mais fantásticas chamadas países) e investidores árabes... Como o simultaneamente nusquíquo e ubíquo senhor Bin Laden. Um tipo, há que reconhecê-lo, ainda mais completo que Deus: Este só está em toda a parte; aquele consegue o prodígio, a todos os títulos vertiginoso, de estar ao mesmo tempo em toda a parte e em parte nenhuma.

sexta-feira, agosto 19, 2005

A Vontade do Povo


Figurar - ou melhor dizendo: fantasiar – no voto a realização de uma qualquer vontade popular, não abona muito em prol da qualidade da democracia. Muito menos do teor. Ou sequer do aroma... A imagem do deputado como emissário ou recipiente da vontade popular, quanto a mim, não é feliz. A vontade é, quer queiramos quer não, ainda mais em se tratando do "povo", um conceito que nos remete para determinadas urgências, premências ou necessidades.
Dir-se-ia, assim, que, ao ir às urnas, o povo, com toda a soberania inerente, está a ir à casa de banho. Não fica muito claro se vota ou se se alivia, se elege ou meramente despeja, se sufraga ou, pura e simplesmente, descarrega. Tão pouco esclarece ou ilustra se, no decurso de tamanhas tribulações, a mesma e peregrina entidade está à tabela ou simplesmente à rasca.
É certo que, dados os resultados de grande parte dos sufrágios (sejamos por um breve instante benevolentes) , esta visão escatofântica do acto até acaba por nem causar grande espanto. Mas, que diabo, no mínimo há que ter respeito por uma instituição tão antiga e animada de tão boas intenções.

quarta-feira, agosto 17, 2005

A calamidade

«Na sua visita à Pampilhosa da Serra, região que há cinco dias está a ser fustigada pelos incêndios, o ministro da Administração Interna, António Costa, insistiu em afirmar que não há razões para decretar estado de calamidade pública nas zonas afectadas pelos incêndios. »

O ministro está coberto de razão. É uma mera região, uma pequena parcela do território nacional, e só está a ser fustigada há cinco dias. Se pensarmos que o território completo, mais as ilhas adjacentes, já não falando nas ex-colónias (que, como se sabe, ainda eram maiores) estão a ser fustigados, vai para mais de trinta anos, por agremiações de pujantes e vorazes democratas como aquela em que é filiado o sr. ministro, e nem o Estado de emergência se declara...
Além do mais, a Pampilhosa da Serra, bem como a generalidade das áreas ardidas, em bom rigor, nem fazem parte do país: só fazem parte da paisagem. Ora, o fogo, por muito escalpante e calcinante que seja, nem de perto nem de longe constitui a pior catástrofe que lhe pode acontecer, à paisagem. Ao pé dos empreiteiros e autarcas associados, ninguém tenha dúvidas: as labaredas quase passam despercebidas. Entre o betão e o carvão, o diabo, chamado a escolher, até por hábitos de churrasco, prefere o segundo. E nós, que somos claramente filhos dele, também.
Falta apenas acrescentar que há uma última razão, esta muito simples e óbvia, para o ministro não se pôr com declarações extemporâneas de calamidade: porque dado o estado a que isto chegou, senão mesmo o estado usual em que isto -nos últimos quatro séculos - (des)anda, declarar a "calamidade pública" acabaria por ser, mais que injustificado, perfeitamente redundante.
Declarar, entre nós, a calamidade não remete para o extraordinário, mas para o trivial, para o quotidiano. Em vez duma urgência qualquer, limita-se a referir o nosso modo de vida, a revelá-lo abertamente, a expô-lo sem maquilhagens . A calamidade, bem vistas a coisas, é o nosso negócio, o nossa ganha marisco. Há muito que desistimos de combater catástrofes...Viciámo-nos nelas. Somos vítimas profissionais, desgraçados cósmicos. Coleccionamos escombros e ruínas, chagas e deformações, enfim: tudo o que sirva para engodar e mistificar a esmola alheia, e, sobretudo, para canonizar a nossa própria inércia, para garrir a nossa desvalida e rastejante prostração.
E se no verão deitamos fogo às matas, no resto do ano deitamos fogo aos neurónios. Ou entretemo-nos a quebrar as pernas uns aos outros.

domingo, agosto 14, 2005

Coração das trevas


Há em nós, portugueses, uma qualquer costela calcorreadora de mundos. Há, direi mesmo, uma força misteriosa, mas irresistível, que nos pulveriza em todas as direcções. Quem nunca partiu e voltou, dessa viagem a casa do diabo mais velho, é como se ainda não tivesse nascido. Debate-se em trabalhos de parto. Extrai-se a ferros. Ou põe-se a ferros, caso cisme de não partir, posto que se obstine em não nascer.
Mas não se pense que zarpamos à procura de não sei que Eldorados ou fontes maravilhosas. Experimentem a viagem e depois digam-me... Não é nada disso. Vamos só à procura do caminho de regresso – é para o encontrar que nos perdemos, que nos empurramos para lá de todas a fronteiras, rotas e mapas conhecidos. Porque a mesma força que nos expulsa, que nos expande, é aquela que, depois, nunca mais deixa de nos atrair. Aquela que nos derrama, que nos perde, é também aquela que vai sempre atrás de nós, à nossa procura. É como um coração de terra, magnético, a palpitar – um coração de que nós somos o sangue.
E é como se fugíssemos de casa só para irmos contemplá-la de fora, da distância, de longe, de nenhures.
No fim, lá nos limites do assombro, à beira do sorvedouro, nos confins da odisseia, vencidos monstros e abismos, não são terras ignotas e exóticas aquilo que descobrimos –ou melhor, não são quaisquer terras ignotas e exóticas, mas uma em especial... Uma que nunca imagináramos que existisse: a nossa própria terra. Essa que nos viu nascer e que nos espera à hora da morte. Descobrimo-la nesse dia, lá longe, quando descobrimos que afinal a viagem não foi no mundo, mas no nosso próprio coração. Quando descobrimos que o maior monstro e o maior abismo somos nós próprios. Quando, enfim, descobrimos que a nossa única e verdadeira descoberta foi descobrir que a amamos.
Foi por isso que eu voltei, terra minha, porque te amo!
É contigo que me quero deitar para a eternidade.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Ixion, ou Nefelibatas e Viscosos



A história de Ixion - que, segundo a mitologia grega, pena pela eternidade atado a uma roda ardente -, convida-nos à meditação. Lições proveitosas podem deparar-se-nos.
Convidado por Zeus para a sua mesa, Ixion retribuiu com singular despropósito e grosseria exemplar: meteu na ideia copular com Hera, esposa do anfitrião. Mas não só meteu na ideia como se compenetrou de ser aquela uma ocasião excelente para meter na deusa. E se mal o pensou, pior o entendeu perpetrar.
Naturalmente, Zeus, dotado daqueles superpoderes que só os Deuses maiores possuem, adivinhou-lhe as nebulosas intenções e favoreceu-lhe a perdição. Em conformidade, ordenou a uma nuvem que tomasse, aos olhos toldados do infame fornicador, a forma de Hera e propiciou-lhe o enlace. Ixion, a arder em desejos, não hesitou: atirou-se à nuvem como gato ao bofe e descarregou nela ímpetos e fluidos.
A nuvem, pseudo-deusa, logro exemplar, recebeu por nome Nefele. Em resultado da cópula ímpia e temerária que com ela teve, Ixion recebeu duas pagas exemplares: Nefele deu-lhe por filhos monstros –centauros: meio homens, meio bestas cavalgaduras, execrados por deuses e homens; e Zeus outorgou-lhe castigo eterno, sem piedade nem remissão.

Em que é que isto, para nós, portugueses, é edificante? Se pensarmos que de Nefele descendem todos os nefelibatas, logo o enigma profundo da nossa origem mítica se desvanece. Tal qual Roma busca a sua paternidade em Eneias, de quem, segundo Virgílio, descenderiam os gémeos da Loba, não vejo ninguém melhor que Ixion para demandarmos a nossa.
A idiossincrasia, o atavismo, não enganam. Ninguém como nós adora emprenhar nuvens. Passámos séculos nisso. Só ultimamente é que desistimos de amarinhar lá para cima. Apesar das nuvens estarem cada vez mais baixas e negras, contentamo-nos de ficar a olhá-las, masturbando-nos, cá de baixo. Tentamos emprenhá-las à distância...Uma espécie de tele-cópula. Adolescemos, enfim, pela eternidade.

Falta apenas acrescentar que Ixion, etimologicamente, significa "Visco". Portanto, somos nefelibatas - da parte da mãe, e viscosos - da parte do pai.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Ó tu que fumas!












Delgado, o Oitavo Anão.



Aquele que fuma brocas gigantes.

O Papa-tachos




É um pássaro? É uma avião? Não, é o Moita Flores!...




O polícia, o detective, o criminologista, o expert, o comentarista, o colunista, o guionista, o novelista, o escritor, o dramaturgo, e agora também: o super-autarca.

Títulos no "Correio da Manhã":
Moita Flores apresenta lista
Moita Flores dá mega festa
Moita Flores quer dinamizar Santarém

Uma vez eu profetizei que este bestunto ainda chegava a ministro. Corrijo: ainda hei-de vê-lo Presidente da República!
Até porque se o Gorge Sampaio consegue, qualquer um consegue.

terça-feira, agosto 09, 2005

A primeira fila é minha!...

O caro R mudou de toca e acaba de desvirgar a novel moradia em grande estilo: Nada mais nada menos que Zaratustra, e numa passagem bem a propósito para os tempos que há muito deixaram de correr porque, entretanto, apenas estagnam e apodentram, a engordar vermes, avantesmas e insectos rastejantes.
Penitenciando-me de antemão por lhe espantar a clientela mais selecta, temo que seja mais forte do que eu, pelo que não resisto a comunicar-lhe: na primeira fila da plateia desse seu remoçado estabelecimento, largando labaredas incinerantes a telemóveis, pigarreios e tosses de blogoteatro, lá estará este dragão iconoclasta, ferrabrás e pirotécnico. Os outros que se instalem nos camarotes, nas frisas, nos balcões, porque a plateia, em toda a primeira fila, já é minha!...
E o ruminante cabrão que eu apanhar a rilhar pipocas, escavaco-o logo ali!...

O Holocausto bom, Chapter II



Três dias depois de Hiroshima, uma nova experiência...Mais um teste nuclear em áreas urbanas habitadas.

É claro que não foi crime de guerra, é claro que não foi crime contra a humanidade, é claro que não foi genocídio. Não; eu é que sou nazi. E, portanto, também devia ser abatido. A bem da democracia e da hegemonia americanóide (passe a redundância). Como em Hiroshima. E em Nagasaki.

Entretanto, alguns testemunhos da época:

(Da parte dos anjos beneméritos que atiraram)
«Frederick L. Ashworth, 93 anos - Atirador do ‘Bockscar’“: Vimos um clarão e a nuvem-cogumelo. Foi espectacular, como que uma massa turva de fumo e fogo. As cores variavam entre o salmão e cor-de-rosa, além da chama amarela.” »

(Da parte dos demónios e monstros que padeceram)
Atsumu Kubo, (75 anos; Distância do epicentro: 1,7 km; Consequências: perna deficiente):
“Quando os americanos chegaram instalaram hospitais de campanha, mas depressa descobrimos que não tinham vindo para nos tratar as feridas mas sim para as estudar. Queriam saber quais os efeitos da sua bomba e converteram-nos em cobaias.”

segunda-feira, agosto 08, 2005

A Caixa de Pandora
















A Caixa de Pandora (perspectiva externa e interna)

Hiroshima, ou o Holocausto bom



Brincar aos deuses... Ou o Paraíso, segundo os empreiteiros portugueses.

A Besta, essa, persevera nos seus assombrosos números de magia. Continua a extrair morte e caos. Só que não é da cartola: é de uma caixa antiquíssima. Que Zeus, outrora, ofereceu a Pandora.

quinta-feira, agosto 04, 2005

O terrorismo Arco-Íris


A máxima da avó Judite, segundo a respectiva neta e minha insigne esposa:
«Vale mais ter um filho ladrão que um filho maricas."

Tempos complicados, estes, em que eles não contentes de serem maricas, são também, sempre que possível (ou, se calhar, por isso mesmo) cleptomaníacos desarvorados.
A antepassada apostava na disjunção: Ou deitar a unha ou dar o cu. Mas a coisa agora virou conjunção implicativa: dar o cu, porque isso, está mais que visto, facilita e catalisa muito o deitar-a-unha, o agenciar pecúlio.
Eu, no entanto, não concordo com a avó Judite. Tive que confessá-lo, com mágoa, à respectiva neta. Acho que é preferível um filho morto, ou filho nenhum, a uma aberração inerte e desossada dessas.
Não se trata de homofobia. Trata-se de que eu gosto dos meus filhos. Se nasceram homens, estimo que o sejam. Se nasceram mulheres, a mesma coisa. Quanto aos filhos dos outros, o fenómeno não me aflige especialmente. Menos concorrência, tento explicar aos meus. Excepto , claro está, nas carreiras artísticas, políticas, jornalísticas, diplomáticas e outras mordomofolias que tais. Mas como eu procuro, na medida do possível, educá-los de modo a que alcancem, no mínimo, o estatuto de humanos e vertebrados, confio em que não se sintam atraídos por pocilgas, monturos ou cloacas. É, aliás, uma regra de ouro que lhes lego e sempre pratiquei: Ninguém sobe a um monte de trampa para se fazer coroar lá no vértice; ao contrário, atasca-se irremediavelmente, é tragado sem apelo nem agravo quem assim pensa.
Se não imperasse uma badalhoquice mental parola e macacóide mascarada de modernismo catita, esta era uma coisa óbvia que não seria preciso manifestar. Mas como impera, é imprescindível não calar! É fundamental não temer a peixeirice albardada de último grito! É imperativo afrontar a tirania, ainda mais quando no-la tentam inculcar sob os ouropéis da bandalheira delicodoce. Ainda mais quando a tirania vem com falinhas melífluas e lengalengas anestésicas. O terrorismo árabe & associados rebenta-nos com o coiro numa esquina qualquer do melhor dos mundos, mas não é único. Há outros terrorismos mais cavilosos e menos esporádicos. Estilhaçam-nos o espírito (ou o que resta dele), trituram-nos a vontade e os ossos, infestam-nos de fobias e fantasmas. E fazem-no todos os dias, à hora da telenovela, à hora do telejornal, em maratonas ininterruptas de opinorreia pelos pasquins, na publicidade de empreitada, em compêndios sado-científicos e grandes reportagens funambulares, atulhadas de números acrobáticos. O terrorismo arco-íris não é menos fundamentalista que o chanframento islâmico. A diferença é que não mata instantaneamente: vai envenenando, intoxicando, desmoralizando. Vai, transformando, ao ralenti, em lume brando e banho maria, a própria condição humana numa sórdida anedota, num freak-show. É o regresso, em grande força, da mulher barbuda e do homem engolidor de todo o tipo de merdas.
E esta, desenganem-se, nem é uma questão de esquerda ou de direita. É uma questão de bom senso. E de higiene mental também....

PS: Nada disto tem a ver com a homossexualidade. A homossexualidade existe há milénios e nunca precisou de toda esta mariquice peganhenta para coisa nenhuma. Não estou a ver, em mais de dois mil anos, homossexuais a terem como superlativo objectivo de vida casar e ter filhos - homossexuais, no fundo, a quererem ser macaqueações bacocas e burgessas de casais normalíssimos. Não, este paneleiro/a mimético/a, híbrido entre a puta carreirista e a fada do lar, é artefacto recente. Toda esta campanha global serve-se da homossexualidade apenas como pretexto e subterfúgio. Em suma: como máscara. A sua verdadeira motivação deverá procurar-se mais nas usinas e forjas olímpicas da "impotência" e da "psico-esterilização". O seu intuito, secreto, velado, mas cada vez mais óbvio, é apenas um: Tornar-nos a todos impotentes, neutros, amorfos, estéreis, uniformes. O Mercado, entre outros, agradece. Um homem a sério é fraco consumidor.

quarta-feira, agosto 03, 2005

O Caos, as Ideias e os Sistemas



É um diagnóstico que prescrevi há precisamente um ano atrás e que mantenho. Na íntegra.

Convencemo-nos que são os sistemas políticos, os regimes, que são maléficos, desviantes, insidiosos. Que são eles que corrompem as mentes e os anjos humanos que deles se servem. Que são eles o demoníacos, os vampiros, os monstros abomináveis. Construímos com eles galerias de horrores, expositórios de crueldade e carnificina, sobretudo intra-específica. Cada qual mais horripilante que a anterior, cada qual mais sórdida e inexplicável. Inexpiável também. E, todavia, invariavelmente, concursivas, espécie de olimpíadas da canalhice. É o inferno na Terra ao despique. A cada episódio ou estação no percurso atribuímos títulos míticos e sugestivos: “comunismo”, “fascismo”, “absolutismo”, “despotismo”, “nazismo”, etc. Um panteão de infâmia, enfim, diante do qual nos vamos persignar e ladrar esconjuros.
Como se esse inventário e essa peregrinação bastassem para nos pôr a salvo dessas infecções, nos vacinassem e imunizassem contra toda a monstruosidade deste mundo. Logro infantil, em muitos casos; hipócrita, nos restantes.
Não é que os sistemas políticos e ideologias arregimentadoras - como, por regra, toda a produção humana-, não sejam uma bela e grandessíssima merda. São, e quanto a isso estamos conversados. Por via das dúvidas, até se indica um critério infalível de taxonomia: quanto mais celebradas forem, mais merdosas são e mais infectas, certamente, se tornarão. É fatal. É o toque de Merda ou da Multidão: não doura, como o de Midas; apenas merdifica.
Ora, a multidão, até o bom Jesus o reconheceu, alimenta-se de porcarias, de lixo e do que não presta. O seu omnivorismo bulímico é, quase exclusivamente, coprofágico. Caga e come; come e caga. Qualquer porcaria lhe serve, poque toda a porcaria é sua. Nesse sentido, é auto-suficiente, funciona em circuito-fechado. Segue, canina, o rasto da sua própria bosta. Maior que a sua produção, só o seu apetite. Mas tanto quanto as porcarias que ingere, com que se refastela alarvemente, fedem as porcarias que promove e arrasta. O cortejo de prostitutas, alcoviteiros e masturbadores activos que a parasitam, que a mimoseiam e lustram. A corte histriónica que a segue por toda a parte, sovando latas e pandeiros, bufando apitos e buzinas.
Pois bem, toda e qualquer tentativa de governo, de regime, é um esforço –entusiasta, a princípio; desesperado, a breve trecho; e condenado ao fracasso, por fim -, contra esta amálgama caótica e ruidosa. É, ainda e sempre, o proto-empreendimento cósmico de levar uma ordem ao caos, de impôr uma luz às trevas, um sentido ao absurdo.
Se esquecermos a proveniência, todos os sistemas políticos são excelentes, todos congregam as melhores das intenções e a nata dos virtuosismos teóricos. Enquanto maquetes, cadernos de encargos, projectos arquitectónicos, chegam a ser deslumbrantes. Anunciam destinos risonhos e Porvires que cantam. O pior vem a seguir. Quando chega a hora da execução. Quando se iniciam os cavoucos e se amontoam os andares; quando se apontam pilares e estendem as vigas. Há sempre um detalhe nada insignificante que fica esquecido; há sempre uma questão essencial que passa por irrelevante. Há mesmo teses sobre essa lacuna estrutural: Os mais pessimistas argumentam que tais edifícios não foram projectados para homens, mas sim para semideuses, super-heróis, anjos; ou que o selvagem de bom não tem nada, portanto, não é de contar com ele para qualquer coisa que exceda em muito o canibalismo primordial ou a selva matriz. Os menos pessimistas, por seu turno, queixam-se dos poderes instalados, da classe empoleirada no topo da pilha de bosta, a esbracejar, erudita, com ares de maestro.
A mim, quer-me parecer que a falha é outra. Nem o projecto é absolutamente sobrehumano, nem os maestros excrementofónicos servem de bastante desculpa. É verdade, não me restam grandes dúvidas que os sistemas, sejam eles quais forem, estão ao alcance de pessoas, tão humanas quanto eu ou a Madre Teresa de Calcutá. Os projectistas não deliravam tão forte e agudamente quanto se pensa. As casas talvez não sejam palácios de Sintra, mas também não são casebres assim tão vergonhosos. Não está em causa a sua habitabilidade. O buzílis, o ponto onde a porca torce o rabo, reside, outrossim, não num delírio, mas num esquecimento - desastroso, por sinal. De facto, todos esses arquitectos peregrinos, pais de soluções sublimes, assoberbados de boas intenções e miragens salvíficas, não esqueceram os homens, as pessoas, até os cidadãos. Quanto a isso é má fé acusá-los (pelo menos, aos principais). Não; esqueceram-se foi dos pulhas, dos sacanas, dos FDPês todos que andam à solta por este mundo, desde o princípio dos tempos. Não há sistema que lhes resista, não há regime que os arrume, nem ácido sulfúrico bastante que os dissolva. Matéria inorgânica pura, plástico amorfo e pegajoso, não reciclável, velam de prevenção, guardiães do marasmo e da balbúrdia rastejabunda.
Seja em que tempo ou região for, são sempre os primeiros a aderir ao sistema, a hospedar-se nele para o instaurar como lhes convém. Ou seja, apenas para o minarem, subverterem e arruinarem por dentro. No fim, invariavelmente, o resultado é desolador. De sistema de governo duma determinada população, descamba em mero sistema de reprodução duma determinada classe. Pois, a dos pulhas, sacanas e filhos da puta. Os únicos mamíferos não-vivíparos que se conhece.
Por conseguinte meus amigos, sistemas de governação já temos que chegue. Agora, o que nos fazia mesmo falta era um sistema de saneamento básico. Um que funcionasse. Pela raíz.

Hackers, Caguinchas, Hackers!...



Ó Caguinchas, parece-me que estás a confundir "ácaros" com "hackers". Mas deixa lá, não é grave. Grave mesmo é confundires um tal de SLB com um clube de futebol.

terça-feira, agosto 02, 2005

Morte aos Ácaros!

Eh pá, estou aqui preocupado... vem no "Diário Digital":
«Ácaros obrigam a transferir bebés do Hospital S. Bernardo»

Mas, ó Dragão, os ácaros não eram aqueles que atacavam os computadores? Agora deram em atacar também as criancinhas? Serão ácaros pedófilos ou infanticidas?!... 'Da-se, que mundo é este?...

A Religião e o Estado ou o Estado a que chegou certa religião


Fazendo fé nas homilias ininterruptas e gralhantes com que blogosfericamente somos aspergidos pela Igreja de Hayek e os Tontos dos Últimos Dias, são-nos, até agora, passíveis de extracção as seguintes ilações:
Numa república perfeita, santuário mercantil (de que os Estados Unidos da América constituirão o exemplo mais aproximado), os presos de delito comum (a saber, tráfico de estupefacientes, contrabando, lenocínio, pedofilia -sobretudo na variante familiar em que os pais subalugam os próprios filhos, ou no caso singular dos infantis que concedem favores a troco de rebuçados -, comércio de órgãos, fraude, enfim, quase todos excepto homicídio desqualificado –praticado por não-licenciado- e pilhagem de galináceos), pois toda essa boa gente, amiga do ambiente de negócios, deve ser inscrita na categoria de presos políticos – mártires da Santa Causa da Oferta/Procura, vítimas da abusadora e autoritária ingerência do Estado no domínio da liberdade individual e, pior que isso, na esfera das bentas transacções que só à Transcendência Divina dizem respeito. Compenetremo-nos: Uma sociedade onde grassam tamanhas prepotências, onde reinam tais opressões desmedidas, só pode configurar um regime obsoleto, anquilosado, socializante, destituído de noções e quesitos básicos como seja a separação entre a Religião e o Estado. Trata-se que o Estado, raios o partam, quer meter o bedelho na religião, cisma de arvorar em Guardião da Fé, obstina-se em contrariar o livre culto dos indivíduos.
Segundo o neo-Credo liberalóide, realizar lucros é orar a Deus; é mesmo, sem exagero de qualquer espécie, tomar a hóstia consagrada.
Aliás, já Calvino estipulava a riqueza como prova inequívoca da Graça Divina.