domingo, janeiro 07, 2007

A pena da Morte

«Bem-aventurados os que se compadecem, porque alcançarão misericórdia.»
-Mateus, 5, 7

Em rigor, somos todos condenados à morte. Desde o dia em que nascemos. Desde o instante em que fomos concebidos.
Há um poder que de facto não temos nem nos pertence: dar ou tirar a vida. Mesmo quando o exercemos por usurpação, tudo não passa de fátua ilusão de fantoche, vã fantasia de bonifrate. A Vida, do pouco que sabemos dela, já cá estava antes de nós e continuará depois de termos acabado, quer enquanto indivíduos, quer enquanto espécie. No misterioso processo, somos meros passageiros, estafetas, peregrinos. E usurários. Vivemos a crédito, morremos a prazo. A nossa vida é simultaneamente a nossa morte. O tempo que demoramos a viver é exactamente igual ao tempo que demoramos a morrer. A biografia equivale ao obituário. O berço é já o prelúdio da sepultura. Que durante o percurso nos esmeremos em infernizar a existência uns aos outros, isso já é outra conversa e apenas atesta duma certa tendência rilhafolesca que, entretanto, de predominante, se vem pomovendo a obsessiva. Mas executados, mais dia menos dia, seremos todos: santos e pecadores, psicopatas e boa gente, pobretanas e banqueiros, humildes e pomposos, génios e mentecaptos, tiranos ferozes e democratas mansos, todos. Sem excepção. Por decreto superior, eterno e inexorável. Imune a subornos, bajulações, compras e súplicas. É todo um cadafalso em forma de esfera a boiar no espaço. Nem os Deuses escapam.
Não faz pois qualquer sentido falar em "pena de morte" como se fosse invenção nossa. Quando, na mais arrotante e bufa das hipóteses, não passamos de carrascos de pechisbeque, verdugos de pacotilha, torcionariozinhos de fancaria. Todavia, com que pompa e circunstância as marionetes macaqueiam as parcas ou os guinchantes títeres se travestem de eríneas!... Com que folclore histriónico os piratas e flibusteiros brincam aos juízos capitais!...
Os condenados gostam de armar ao magistrado. Encarcerados para a vida, sem direito a perdão nem condicional, fatalmente prometidos ao patíbulo, entretêm-se a martirizar-se uns aos outros. De todas as maneiras e feitios. Qual ensaio geral para o inferno. Desencantados com deuses surdos e ausentes, sabujam agora a própria Morte. Para desforra do Deus-que-já-não-está-no-Céu, devotam-se à Negra Ceifeira-que-está-na-Terra. Sacrificam-lhe de empreitada. Erguem-lhe indústrias. Preparam-lhe banquetes. Esforçam-se por agradar-lhe com hecatombes. Estendem-lhe babetes e aperitivos. Mimam-na. Acreditam talvez que matar rejuvenesce, que faz bem à pele, que hidrata os tecidos e revigora as células. Que estando do lado da Morte, talvez ela os agracie, os gratifique como a qualquer lacaio devoto ou acólito sebento... lhes conceda, vá lá, um adiamentozito, uma suavização no suplício final, quiçá, melhor dos mundos, uma anestesia geral, moral. Sobretudo, moral. Com toda a força. Aliás, é já nisso que se adestram, a fundo, a criar músculo, calo, crosta, concha, chifre: na insensibilidade à sua própria morte através da insensibilidade à morte dos outros. Perfeita ataraxia reptiliana. Gelatinosa. E lá porfiam por antecipar a dos outros, tentando assim ganhar tempo para a sua.
Não é grande custo - e ainda menos grande proeza ou mérito - matar alguém. Enfim, abreviar-lhe ou apressar-lhe a sentença. Recordo, para ilustração disso mesmo, uma daquelas lendas acerca de Diógenes, que nem a Morte, nem os esbirros dela conseguiram ainda apagar. Consta que Perdicas, general de Alexandre, armado da pesporrência e arbitrariedade dos tiranetes, terá um dia convocado o filósofo à sua presença, nos seguintes e algo rudes termos: "ou compareces imediatamente, ou mato-te". Diógenes retorquiu com o despreendimento, o desprezo e o humor característicos e devidos: "Não vejo nada de extraordinário nisso; um escorpião ou uma tarântula podiam fazer o mesmo."
E, de facto, não é a matar que um homem se distingue de qualquer insecto venenoso e rastejante. Tal qual como se define não só diante da sua morte, que é a sua vida, como perante a morte do seu semelhante. Sendo cristão, se crê verdadeiramente em Cristo, compadece-se; sendo apenas um homem, guarda o silêncio devido à tragédia. Regozijar-se com cadáveres alheios não é digno nem dum cristão, nem dum homem: é digno de uma hiena. Dum chacal. Ou de qualquer necrófago avulso. Uma criatura destas nem digna sequer é da pena de morte que sobre si impende. É, tão sòmente, digna de pena.

Triste de quem não percebe que o Livro da Vida é escrito com a pena da Morte.

15 comentários:

zazie disse...

Sem palavras...

takitali disse...

Também por ser Domingo regresso a casa com os Magos, evitando Herodes.
O silêncio é d'ouro!
Boas "labaredas" e melhor Ano Novo.
Abç.

A.H. disse...

Este Dragão é um senhor!!
Mais uma obra de arte.

ab disse...

Magnífico!

Francisco Teixeira disse...

Sempre achei que elogios aos outros por pessoas destituídas de igual talento me soam sempre a bajulação. Estou neste momento nesse dilema! Mas como escapar? Só me resta um obrigado!

Ana L. disse...

Dragão, você surpreendeu-me hoje. Não que eu não esteja habituada ao seu olho clínico e certeiro mas hoje escreveu o nosso pensamento com mestria. Muito obrigado. vou passá-lo a amigos.

timshel disse...

"Sempre achei que elogios aos outros por pessoas destituídas de igual talento me soam sempre a bajulação"

francisco teixeira

essa é precisamente (mais) uma das vantagens do anonimato

estou farto de bajular o dragão nas condições que referiu sem me sentir a bajulá-lo mas apenas a expor a minha simples e pura admiração por alguém que escrve melhor do que eu

precisamente porque o timshel e o dragão (e a zazie) não têm nenhum interesse mútuo salvo os das ideias e opiniões que expressam

são anónimos pura e simplesmente

Francisco Teixeira disse...

a Timshel
Não quis atingir ninguém com o meu comentário, mas simplesmente emitir um estado de alma pessoal e íntimo, o de não me sentir sequer capaz, mesmo em anonimato, com capacidade para exprimir admiração. É evidente que em anonimato nunca poderá haver bajulação e não foi certamente o caso de nenhum dos comentários porque se sente a admiração genuína de quantos comentaram.

zazie disse...

Por mim desconheço completamente o significado dessa palavra. Seja ao vivo, seja virtualmente "no metro".

Que caraças, já alguma vez se viu alguém a ir a correr para casa para bater palmas sem ser visto?

":O))

zazie disse...

Além do mais, quando se é destituído de um talento- como é o meu em relação à- escrita e a tanta outra coisa, até se fica desculpado por se conseguir apreciar e ter grande critério crítico no que não se sabe fazer.

É proeza que não é para qualquer um

ahahahaha

A.H. disse...

eheheh!

Anónimo disse...

Eu amo-vos, irmão Hitler, irmão Estaline, irmão Saddam e irmãos tiranos de todos os tempos e lugares deste Mundo! Condoo-me comovidamente de vós, porque a minha condição em nada difere da vossa - e é, no que tem de carne e de malícia, uma condição miserável e trágica, como bem ensina o nosso irmão Dragão.

A querida irmã Morte, como lhe chamou, em vida, o nosso irmão Francisco (mas esse foi imortal), a bastarda que já vos levou, espera-me a mim, ainda, traiçoeira, emboscada por aí, em qualquer esquina, ou oculta nos lençóis onde insensatamente me refugio à noite. E, ai de mim!, para onde me levará ela, eu que já odiei tantas vezes como vós odiastes, já fui tão déspota com vós, tão cruel, injusto e frio como vós, tão enganador e sedutor como vós?...

Abrir garrafas de champanhe para celebrar a morte de alguém é comemorar, por antecipação, a sua própria morte - oráculo do Dragão

JSM disse...

Um grande testemunho pela vida! Entendo-o com a clareza de uma denúncia contra a pena de morte que ainda persiste em países que se consideram civilizados, mas não são. Não vemos estes princípios defendidos noutros locais, que antes preferem manter o silêncio sobre os crimes do pós-guerra, praticados precisamente pelos seus legítimos vencedores e herdeiros. As máscaras começam finalmente a cair.

Anónimo disse...

e tendes razão ó Francisco e Zazie: é o sindroma salieri.
parabéns, Dragão.

e outra coisa: o oráculo merece ser puxado para post. não sei se nesta caverna é uso pelo que peço desde já desculpa pelo atrevimento mas sinceramente a pitonisa aspirou bons fumos

ringthane disse...

Draconianos, post e blog.Cross-linkado com as mãos ligadas ao hiperespaço!