quarta-feira, junho 22, 2005

O Dragão e o Monstro


Contam que me viram sair de casa. Era noite e eu marchava à maneira de certos símios encorpados, bamboleando, ligeiramente corcovado, e parando, de quando em vez, dizem, para me catar. Ao mesmo tempo, ensaiava cavos grunhidos de barítono das selvas.
Claro está que tenho as minhas dúvidas. Mas juram-mo a pés juntos e por alma da mãezinha que Deus tenha.
É o Caguinchas, em pessoa, quem o jura.
-"Estavas era bêbado!" - Ripostei, com brusquidão. - E lá que tires macacos do nariz, capricho teu; agora que os extraias da porta da minha casa, devo dizer que não acho graça nenhuma!"
-"Mas se te estou a dizer! -Tornou ele à mesma, compungido e imaculado. - O Dinossauro estava comigo e não me deixa mentir: ele também viu! Eras tu, pá, ligeiramente mais baixo e com umas botas esquisitas!..."
-"Tirando a "Bola" e as transferências do Benfica, vocês lá vêem mais alguma coisa?! Nem um palmo à frente do nariz!..." - Não desarmei, disposto a vender cara a pele onde me queriam enfiar.
Mas ele não se calava. Jurava e tornava a jurar. Tinham-me visto e tinham-me mesmo seguido, estupefactos, intrigados, até uma Grande superfície comercial, daquelas especializadas em electrodomésticos.
-"Ah-ah, mentira deslavada! -Bradei, em vitória. - Sabes bem que eu só saio da caverna para rumar à tasca (aliás ciber-tasca), aos alfarrabistas ou aos bordéis!...Que aldrabice mal atamancada! Que raio iria eu fazer ao paraíso dos modernistas, ãh, não me dizes?!!..."
O pior é que ele, grande cabrão, disse-me.
E é esse episódio horrendo que vos passo a relatar. (Um abismo lovecraftiano, que, desde já, anuncio e não recomendo às almas mais sensíveis).
Entrei, pois, jura ele, no imenso parque de electrodomésticos e dirigi-me à secção das torradeiras, tostadeiras e afins.
Como é da praxe, ter-me-á acorrido, solícita, uma atendedeira (ou seria atendedora?). Bem, lá veio ela, nada mal jeitosa, segundo o Caginchas, merecedora até duma certa coisa que não digo aqui por amor da decência, e eu, numa voz tenebrosa, perguntei-lhe:
-"Qual é a maior torradeira que tem?..."
Mostrou-ma, enaltecendo-lhe as habilidades. Tê-la-ei remirado com indisfarçável decepção. Terei proferido mesmo, com voz triste:
- "É um belo engenho, sim senhor. Seria giro vê-las saltar...mas não cabem lá dentro!... E as tostadeiras? São concerteza maiores..."
Exibiu-me a maior das que fazem tostas. Nova decepção. Tecnologia superior, sem dúvida, mas o mesmo inconveniente.
Debalde percorremos centrifugadoras, picadoras, trituradoras. Tudo lamentavelmente diminuto, para o sublime fim em vista.
Por fim, chegámos aos microondas. Explicou-me, a beldade, a rapidez e inexorabilidade do apetrecho.
-"Magnífico! - Clamei eu, diz o Caguinchas, maravilhado.
-"Sim, caro senhor - concluiu ela a sua peroração edificante - com este magnífico aparelho, coze um frango em menos de um minuto!..."
-"E uma pessoa? - Inquiri, interessadissimo. - Convinha-me um que tratasse pessoas!..."
-"Pessoas?!! - Exclamou, surpreendida, a cachopa.
-"Estúpida a pergunta, nao é? Esqueça. -desculpei-me. - Por momentos, deixei-me transportar num devaneio. É mais que evidente que uma pessoa, infelizmente, nem sequer caberia nesta pequena caixa. Talvez um chinês contorcionista, um yogi,...nã, mesmo esses teriam que ser previamente desbastados dalgum membro recalcitrante. Quanto às pessoas normais, só depois de esquartejadas; o que, convenhamos, dá uma trabalheira dos diabos e duvido que haja ferramenta à altura - especializada, quero eu dizer. Aquelas facas eléctricas que ali tem não me convencem..."
Eu divagava, diz o Caguinchas, mas a interlocutora, profissional compenetrada, não demorou a recompor-se. Eis que, acesa de súbita mecha, me interpelou nestes solertes termos (garante o Caguinchas):
-"Pessoas? mas porque não referiu, o caro senhor, logo de início, esse requintado propósito?"
- "Lapso meu. -Ruborizei. - Queira desculpar. É o Alzheimer, presumo.
-"E que tipo de pessoas? -Tornou ela, alardeando erudição na matéria. - Pretos, ciganos, judeus, mongolóides, testemunhas de jeová, tem algum modelo em mente?..."
- "Bem, para lhe ser franco, as minhas inclinações vão mais para espanhóis, Ingleses e alentejanos. Sou de atavismos e antipatias, bem vê. Mas um judeuzito, de vez em quando, por desfastio, até é capaz de ter o seu interesse. Já os pretos, só mesmo se for preto americano genuíno: é o chamado filho da puta 2 em 1. Se ainda por cima cantar hip-hop, aí, confesso, não direi que não. Mas, já agora, esclareça-me: o que coze também carboniza, não é? Interessava-me que carbonizasse..."
-"Sim, sim, absolutamente. - Acudiu ela, pressurosa. - Converte em perfeito carvão animal, pode estar descansado. É uma questão de programar previamente no selector: selecciona o animal e o estado em que pretende que o animal fique.
- "Supimpa! -Chilreei. - É isso mesmo. E tem esse formidável electrodoméstico para entrega?"
-"Infelizmente, neste momento está esgotado. - Deplorou. - Os stocks têm sido devastados pela procura. Mas se passar cá no fim do mês, já conto ter disponível. Vamos receber em breve novas remessas da fábrica. Entretanto, ofereço-lhe este catálogo com os novos modelos, que, aproveito para lhe confidenciar, já são um sucesso de vendas por esse mundo fora e esgotam mal aparecem nas montras..."
E lá me deu ela o catálogo, ao qual, após breve passagem de olhos, logo eu bradei, fascinado:
-"Mas que vejo eu...Tem aqui o modelo junior, o modelo lactentes, o modelo gay em tons rosa e o especial sénior/aleijadinhos!..."
-"É como vê. Tudo com garantia de dez anos e descontos promocionais para pagamento a pronto ou facilidades de prestrações até 36 meses!" - Completou, como boa funcionária que era. Boazona mesmo, repito, na opinião do Caguinchas.
-"Isto, estou a vê-lo - rejubilante, asseguro-lhe - até faz lembrar aquelas linhas de fraldas modernas, eh-eh... O que, de resto, faz todo o sentido, pois cumpre o mesmo género de finalidade: tratamento de porcaria e incontinência!..."
A rapariga comprazia-se no meu contentamento e sorria. Reconfortava-a o meu entusiamo de consumidor sequioso. Aproveitei para lhe perguntar:
-"Olhe, ocorreu-me a talhe de foice... e comunistas? Não vejo aqui nenhum modelo específico no catálogo..."
-"Ah, caro senhor, mas é claro que tem! - Acorreu ela, em triunfo. - Preste a devida atenção à página 2, onde pontifica o modelo AMG, ou seja, Atrasados Mentais em Geral..."
-"Ah, pois cá está! -Exclamei. -Que distração a minha. E é uma bela máquina, diabos a levem!..."
-"Sim, é dos modelos mais procurados! - Elucidou-me a esbelta menina cujo cabelo, segundo o Caguinchas, lhe descia em cascatas douradas pelas costas. - E quanto à restante esquerda mais liberal, se acaso lhe interessar, chamo-lhe a atenção para a mesma página, logo abaixo, o modelo BM -traduzindo: Barbie Multiusos.".
Aquela rapariga encantava-me e percebia do assunto como ninguém. Lamentavelmete, todas aquelas maravilhas tecnológicas só estariam disponíveis lá para o fim do mês. E logo eu que, diz o Caguinchas, ardia no maior dos desejos e manifestava grande urgência... Abateu-se sobre mim um grande véu de tristeza, uma imensa desolação devastou-me.
Apercebendo-se disso, a boa funcionária, apiedou-se. Através dum mecanismo de compensação, tentou resgatar-me às lúgubres sombras onde me conduzira:
-"Mas temos ali uns frigorífico especiais, ultra freezer, capazes de congelar uma família inteira, avós e primos direitos incluídos, em menos de nada...E olhe que cumprem já as últimas normas internacionais; são amigos do ambiente e, simultaneamente, Globalbusiness: tratam qualquer raça, credo ou nacionalidade!...Sem odores nem resíduos inúteis, saliente-se!"
Tão gentil oferta, porém, não me reanimou. Jura o Caguinchas que me encaminhei, cabisbaixo, para a porta, murmurando, dolorido:
-"Deixe lá, minha boa menina, meu docinho de coco. Esse frigoríco -estupendo, não duvido-, será óptimo para neoliberais ou neoconas. Eles é que vivem de comer as pessoas e convém-lhes conservá-las. Eu, pobre peregrino, apenas pretendo exterminá-las. É o meu hobby."

Diz, o Caguinchas, que foi neste monstro que me transformei uma noite destas. Agora, à cautela, de atalaia, ele e o Dinossauro montam guarda ao meu tugúrio. Têm uma teoria (rocambolesca, se querem a minha opinião): que, desde que estou afixado no Portal Nacionalista, uma qualquer alquimia sinistra age sobre mim. Que durante o dia sou o Dragão, velho flibusteiro da vida, quixote fora de época, mas à noite transformo-me num monstro sanguinário que sai em busca de holocaustos e massacres.

-"Mas valeu a viagem, ó Dragão. - Conclui ele. - O cu da gaja merecia uma sinfonia!..."

Filho da puta!, fixou-se de tal modo no divino nalgatório, que nem é capaz de me apresentar um resumo condigno das mamas.

4 comentários:

100 nada disse...

http://www.artofeurope.com/greenaway/cook1.jpg

100 nada disse...

Não sei para que precisam os dragões de fornos, mas enfim...

Afonso Henriques disse...

Só os dinossauros, essa espécie de dragões duplamente extintos porque apagados, precisam de fornos e afins.

Afonso Henriques disse...

Sem ofensa, bem entendido!