O progresso e a modernização, primeiro, desertificaram os campos e as aldeias. Depois, paulatinamente, têm vindo a desertificar as grandes cidades. Lisboa, exemplo clamoroso, é uma pungente montra disso mesmo. Aos poucos, vai-se esvaziando de gente e de memória. E tal qual a antiga metrópole dum império devém necrópole de sonhos e ideias, também a sua emblemática capital, de sala de visitas, descamba em sala de embarque zombie. A noite, sobretudo, é esclarecedora: espectros e pré-fantasmas aguardam despejo, apodrecem diante de televisões ou jazem embrulhados em papelão e farrapos, sob abrigo de túneis ou arcadas. Está cada vez mais lúgubre a minha terra. Num tempo em que as pessoas vão petrificando por dentro, resta às pedras que assistem, cá fora, impotentes, chorar.
Há pois uma questão que se torna incontornável: em que consiste realmente essa tal "modernização que canta"? Bem, tudo indica que consiste, fisicamente, em acantonar a população num imenso subúrbio (excepto, naturalmente, a nomenklatura jet-seita reinante, mais a sua insaciável corte de serviçais e bobos de serviço); e, psicologicamente, em terraplenar toda a cultura, justiça ou tradição (ou mera hipótese de qualquer uma delas) a uma pardacenta - e sórdida - mentalidade suburbana.
Para aqueles que tanto gostam de contrapor, triunfalmente, a modernidade ao feudalismo, a "idade das luzes" à "idade das trevas", a ciência à religião, e ufanarem-se da evolução e libertação que foi, fica todo um trajecto épico, toda uma saga maravilhosa que, caso usufruissem dessa faculdade mental, convinha que reflectissem: a da indústria salsicheira celestial que recauchutou os servos da gleba em servos da banca.

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