sexta-feira, maio 11, 2007

4º Round - Balanço Final


Ficou hoje concluída a distribuição do "À Queima-roupa", o cartapácio que, em tão trágica hora para a humanidade, decidi publicar. A edição, e as suas múltiplas peripécias, acabou por ser quase tão divertida quanto a escrita. Um dia destes conto.
Mas, para já, algumas considerações terminais ...

1. A edição, como deveis calcular (e eu, se bem me lembro, tive logo o cuidado ab initio de proclamar) não se destinava ao "público em geral". Não conheço esse gajo de lado nenhum, nem, para ser franco, estou muito interessado em conhecer. Ainda menos biblicamente. Direi melhor, entre mim e o público-em-geral - mais os seus alcaiotes, amas secas, abastecedores, supervisores e enfermeiros de ocasião (leia-se "críticos, jornalistas, promotores, editores e demais empresariado da indústria de sabonetes"), há uma relação justa, equilibrada e antiga (de quase trinta anos): ele, o tal dito coiso, não quer saber de mim para nada; e eu, César Augusto, não quero saber dele para coisíssima nenhuma. Tenciono morrer nesta bela e repimpada condição, neste sublime estado de graça. E mesmo depois da minha morte, o meu fantasma há-de velar. Sim, os meus familiares que se ponham com fosquices com o "público em geral" (mais a sua "rica opinião") e vão ver como elas lhes mordem. Elas, as eríneas, e eu, espectro iracundo ao comando delas.

2. Então, a quem se destinava a edição? Naturalmente, ao escol da humanidade que, mais coisa menos coisa, corresponde à sobrexcelsa academia dos leitores deste blogue. Esses conhecem-me, sabem ao que vão, e eu conheço-os e, sem falsas manhas ou manteiguices, ganhei-lhes estima. Francamente, não me interessa se são seis ou seiscentos. São os que são. É com eles que eu me entendo. É com eles que eu partilho algo que não considero propriedade minha -um qualquer putativo talento -, mas, no melhor dos casos, algo que recebi por empréstimo e que só ganha sentido na medida em que o transmito a outros. Escrever, disso não tenho dúvidas, não é nem um acto de mero onanismo, nem, tão pouco, um ofício de mero exibicionismo. Claro que também não é uma violação, mas eu também não sou propriamente o modelo perfeito e acabado de escritor. Aliás, esse paradigma não existe, se exceptuarmos, naturalmente, Homero, Ésquilo e Sófocles. Por outro lado, escrever um blogue não é exactamente o mesmo que escrever um romance. É a distância que vai do tiro instintivo ao tiro de precisão. Dispara-se de chofre, sem preparação. Daí o título: "À Queima-roupa".


3. Quantos aos resultados desta aventura, tenho que confessar que superaram as minhas expectativas. Em primeiro lugar, porque, com algum engenho e arte, o livro foi mesmo concretizado e não saiu mau de todo (bem tentei, mas não consegui); e, em segundo, porque os leitores foram, sucessivamente, duma paciência, dum interesse e duma gentileza inexcedíveis. A haver justiça, tanto quanto meu, o livro é deles, melhor dizendo, o livro é vosso. E afirmo-o peremptoriamente, sem ponta de falsa modéstia ou lisonja: se louros houverem têm que ser irmamente repartidos. Dos cinquenta exemplares da primeira edição, restam 15. Isto, para mim, foi um sucesso astronómico. Perdi uma aposta (com o sacana do Caguinchas, pois claro), mas estou que nem um ovo.


4. Quero ainda, e encarecidamente, agradecer à Zazie, à Margarida, à Hipatia, ao Carlos, ao Nonas, ao Bruno, ao Manuel, ao Francisco e ao Timóteo , pelo apoio, mais que publicitário, benevolente (a Zazie, o Carlos e o Nonas, flibusteiros duma figa, não contentes com uma primeira dose industrial, ainda reincidiram na graça. A todos, bem hajam! (Se esqueci alguém, que um raio me parta já aqui!) ... E já sabem:
Se se virem em apuros, de escantilhão
ou vítimas de maus tratos,
não desesperem, chamem o Dragão!
Eu vou lá; e faço tudo em cacos!...

5. Penúltima nota: alguns leitores enviaram emails que nunca deram entrada na minha caixa de email. A todos os que recebi, respondi de imediato assinalando a recepção. Pelo que não houve qualquer desconsideração da minha parte, o que, a haver, só denotaria monumental estupidez. Sou estúpido, mas não sou tanto (acho eu...) Dois casos entretanto detectados, estão já a ser devidamente socorridos. Se existe mais alguém nessas condições, queira ter a bondade de se manifestar, para que eu possa, da melhor forma, corrigir tão inadmíssivel calamidade. Relembro o email onde devem dirigir-se: dragolabaredas@hotmail.com, quanto mais não seja, para me zurzirem com injúrias, impropérios e palavrões que vos ocorram e que, de preferência, eu não conheça. O que, convenhamos, vai ser difícil. Mas surpreendam-me.

6. Quem encomendou o livro já se apercebeu que eu prometo mais atentados à cultura. Pois, infelizmente, é verdade. Já lá diz o povo que um mal nunca vem só.

PS: Com toda esta arenga não sei se ficou claro um pormenor essencial: o livro nunca há-de estar à venda em livrarias. A única forma de ser adquirido pressupõe uma coisa - ser leitor cá da casa; e implica outra - encomendar cá ao energúmeno. É evidente que o preço é um roubo, todos os preços são (já dizia o Proudhon), mas o blogue está devidamente assinalado com uma bandeira elucidativa. Não ando aqui a enganar ninguém. :O)
Além disso, pensem nas vantagens do correio: se eu tivesse que vos entregar em mão, também teria que vos pilhar as pratas, esventrar o portátil, devastar o mobiliário e passar a fio de espada os familiares mais recalcitrantes. O pirata também tem o seu brio profissional, ora essa.

10 comentários:

F. Santos disse...

Hoje tocou-me a mim. A referência segue dentro de instantes.

Anónimo disse...

Degustei-o em dois dias. Uma preciosidade. Venham os outros.
Saudações insulares.
Pedro Albergaria

FMS disse...

Flibusteiro pagará direitos?

dragão disse...

Flibusteiro só paga canecas e imperiais.

josé disse...

Não te vou mentir. Não o li de fio a pavio, porque o estilo é o que me interessa e li-o "através".

Já ornamenta a estante dos recentes e estimados volumes que colecciono, alguns para ler daqui a algum tempo.
Por exemplo, Les Bienveilantes de Littel; The culture of the europeans, de Donald Sassoon; Los Borgias, de Mario Puzo; La otra historia de los cataros; uma biografia de Carlos Magno e uma caterva de livritos sobre os tempos de Salazar/Caetano, incluindo um volume original de propaganda do regime sobre o Quinto ano de governo de Marcello Caetano que é uma pequena maravilha como já não há.
Para além disso, descobri o romance de Sinclair Lewis, Rua Principal.

Com isto tudo, os blogs, o trabalho, os jornais e as revistas, o À Queima-Roupa teve direito a apreciação cuidada, por via da encadernação aprimorada, mas com folheio demorado a propósito de alguns dos textos.
Além disso fica aqui à mão, como prova de que amizade nos blogs, passa para além do écran virtual.

Fica o agradecimento pela gentilesa das palavras escritas.

José.

josé disse...

O z também é letra gentil... e não merecia ter sido apeado pelo s. Lapsus calami.

pedro guedes disse...

Ora veja lá o meu caro Dragão a caixa de correio.

Carlos a.a. disse...

Cliente do Dragoscópio, sim, não é novidade! Tal como o José é o estilo que mais me atrai, sendo que, verdade seja dita, ganha outra relevância ainda em livro.
Sem manteiguices, coisa que o Dragão já confessou não apreciar embora nada tenha dito sobre o possível inchaço do ego, o seu livro é um dos mais ricos que li ultimamente pois, apesar de à queima-roupa cansa pelo que nos faz reflectir em cada texto e de texto em texto.
Parabéns e obrigado

musaranho-coxo disse...

Um abraço, pá, grande livro, maior que eu. Também gostei muito da dedicatória. Não é todos os dias que um rato se sente assim tão bem entre homens de barba rija.

Como diria o camarada social-capucho- óh labregos, isto é um privilégio.

Flávio disse...

Felicidades para o livro, Dragão!