segunda-feira, julho 18, 2005

O Homo-Clismo


Se na antiguidade grega se estimava sobretudo o teatro, na actualidade ama-se cegamente o cinema, espécie de sucedâneo ultra-massificado (na versão industrial) do circo romano.
O Novo Mundo do Consumo deixou de ser uma tragédia: foi promovido a filme. Em vez de palavras estagnadas, de cenas cósmicas estáticas, temos agora um corrupio de imagens, um carrocel flamejante de fantasias. O cinema não exorcisa nem purifica pela catarse: celebra, incita, promove, instrui, institui, induz. Não reproduz ou representa a profundidade abissal da existência humana: na Nova Vida-Filme importam menos as palavras e mais os cenários, as poses, os esgares, os ângulos e perspectivas; os camarotes do divino ocupam-nos agora as super-stars, os ídolos. Os paradigmas deixaram de habitar e presidir a partir do passado: passaram a estrelas-guias no presente -lideres de imagem, de mercado, de opinião -, vedetas da frivolidade histriónica que urge macaquear. Na Vida-Filme tudo se sobrepõe esfuziantemente; cada momento varre o anterior, cada imagem vampiriza a precedente. Não há sequer tempo para reagir ou apontar, tão pouco refectir ou conversar: o Gastador-consumidor é um espectador pasmado na cadeia, deslumbrado e estarrecido por cenas cada vez mais violentas, explosivas e espectaculares. Está completa e fisicamente preso, dependente, agarrado ao ecrã. Os seus instintos mais radicais -de matar e copular, principalmente -, propagam-se e infectam todas as coisas, agentes e protagonistas do filme. Tudo, agora, se metamorfoseia em potencial assassino ou violador: as casas jorram sangue, os ramos das árvores tornam-se braços estranguladores, cometas despenham-se em genocídio sobre as cidades, os animais organizam-se e marcham ao morticínio humano, os automóveis resolvem rancores antigos, os electrodomésticos revoltam-se, as máquinas conspiram, anjos psicopatizam e viram serial-killers, amigos de infância compram machados afiados, pais extremosos planeiam chacinas domésticas, donas de casa anódinas preparam macabros banquetes, a possessão, a licantropia, o vampirismo, o infanticídio, o canibalismo alastram em avalanches multicolores e apoteóticas; o estupro, o tráfico, o lenocínio, o sado-masoquismo lavram de enxurrada. O único fito permanente e obsessivo que parece palpitar em todas as coisas, seres e imaginários -presentes ou futuros -, é o de exterminar, estropiar ou, no mínimo, copular analmente as pessoas após preliminares escabrosos.
Se o Cosmos antigo era um palco da necessidade (ananke), a Nova Aldeia Global -de bimbos e saloios globais -, quer-se ecrã da possibilidade (dynamis). Ultra-dinâmico, o filme, por exemplo, instaura a possibilidade, dinamiza. Daí à realidade é um passo. Mais exactamente: a possibilidade -a dinâmica-, é já o hall de entrada da realidade. Depois, trata-se mais uma vez de mera inversão ou perversão dos processos antigos: faz-se da possibilidade uma necessidade. A diferença é que a necessidade contemporânea -ao contrário da antiga, que era cósmica e emanescente -, é mundana, particular, egonóica ou mero adorno de elites. E é também transcendente: não se compreende nem justifica - assiste-se. Veja-se a figura popular e emblemática do serial-killer, atracção de multidões e sucesso garantido de bilheteiras: Vê-se compelido por uma necessidade intrínseca e transcendente de chacinar engenhosamente pessoas. Secretamente, no seu íntimo, o espectador mastiga, compreende e absolve. Instala-se até uma certa empatia nostálgica (por um momento, mentalmente, divaga-se: regressa-se ao tempo em que os animais já nao falavam, mas ainda nos podíamos comer e chacinar carnalmente uns aos outros, sem subterfúgios).
O cinema, liturgia refinada da mudança, altar sumptuoso da metabolia, ditadura perpétua da agitação, debita -insinuante e cavilosamente - que tudo muda, tudo corre, tudo se transforma; nada permanece - a não ser aquilo que move o próprio cinema: as taras, fobias e traumas do saloio global, naturais e artificiais; bem como, claro está, os lucros da Indústria. Ora, como já foi dito aqui atrás, perfectófobo e edenoclasta, o Novo Homem Gastador-consumidor, bimbo da Aldeia-inferno Global suporta cada vez menos palcos idílicos ou finais felizes. Apressa-se, desde cedo, em explicar às crinças que não existe Pai Natal, nem fadas, nem cegonha transportadora, nem menino Jesus, nem nada para além do salário do papá e/ou mamã, da vida selva/competição muito difícil, heróica e exigente, da economia de mercado, e dos espermatozóides à conquista dos ovários na epopeia da foda-queca. Para ele, o mundo em si, na sua complexidade externa e hostil, é uma coisa suja, ameaçadora, cabalística. Donde nada de bom pode advir ou ser esperada. Só o trabalho salva: seja na forma palerma, naif, de assalariamento, seja no esquema fast, espertalhão, de nepote, familiar ou mafia, seja no parasitismo big de pseudo-administrações o governos a soldo da Indústria. O trabalho representa, assim, a esterilização do mundo, uma espécie de abstergência global ritualizada e neurótica-obsessiva. Ao contrário do espectador antigo defronte da tragédia, o consumidor-gastador não está minimamente preocupado com uma qualquer purificação interna; obceca-se, outossim, com a lavagem e ornamentação externas - da sua pele, dos seus dentes, do seu cabelo, das suas unhas, enfim: da sua imagem, do seu aspecto, daquilo que se vê, como também do seu automóvel, da sua casa, da sua rua e cidade. Persegue e almeja um mundo limpo, desinfectado, asséptico. Mas limpeza não no sentido profundo, da sua sanidade ou da do seu mundo -que os gregos chamariam higiénico -, mas numa acepção superficial, lavatórica, derivação do klysmos helénico: um Homo-clismo, simultaneamente heteroclismo e autoclismo.

6 comentários:

nelson buiça disse...

"Só o trabalho salva...

Esta fez-me lembrar o que dizia o pintor de Braunau e seu séquito de destrambelhados.

ARBEIT MACHT FREI!

...expressão fundacional daquela religião conhecida por Nacional- Socialismo, que mais não é que uma versão precocemente pós-moderna dos Catharói (mais conhecidos pelo povinho obscurantizado por Cátaros)

:)

timshel disse...

Ainda bem que eu num comentário anterior deixei lá um parêntesis (salvador): quase.

Gostava de ter escrito esta merda. Sempre tive vergonha de não gostar de cinema (há muitos anos que deixei de ver cinema) mas o dragão glorioso deu-me agora uma imponente parafrenália de legitimação teórica dos meus lamentáveis gostos pessoais.

Já não sou um bimbo inculto que não aprecia cultura, isto é, cinema. Sou um génio do anti-consumismo. Obrigado Dragão.

zazie disse...

ehehe, pois eu aqui, já se sabe, discordo. Discordo porque gosto de cinema. Porque gosto de fantasia e porque sinto o mesmo desprezo pelo realismo que mata o pai natal e glorifica a carteira do trabalho esforçado do progenitor.
E sempre achei que o trabalho é uma merda.
De tal modo que houve épocas em que nas cumprimentos públicos respondia disparates quando vinha a pergunta da praxe: o que fazes agora? Mas sempre admirei quem se meta em trabalhos inglórios. Aqueles que estão para além da carteira e casa trabalho e metem de pantanas todo o suposto equilíbrio que essas tretas devem dar.
Aqueles em que nos colocamos ao serviço de uma qualquer coisa: seja saber, seja arte, se técnica,seja jardinagem. Tudo o que está para além da novela dos pronomes pessoais.

E gosto de cinema. Não dessa caricatura de cinema à Céline mas do cinema, cinema. Como da poesia como da pintura, e de todas as artes. Pela simples razão que seria impossível ficarmo-nos pelo palco a meia dúzia de metros do nariz.

P.S. mas entendo o que o Céline queria dizer, como entendo o Dragão ";O)

zazie disse...

á e outra coisa: como gosto muito de cinema cada vez vou menos ao cinema ehehe

timshel disse...

"Aqueles em que nos colocamos ao serviço de uma qualquer coisa: seja saber, seja arte, se técnica,seja jardinagem."

ehehe este "serviço" a uma qualquer coisa é genial. saber, arte, técnica, jardinagem. é o eficientismo em todo o seu esplendor! (mesmo que artístico; aliás a arte é um eficientismo sofisticado)

zazie disse...

ehehe, sabes que eu tenho um culto pelo jardineiros. É o tipo de arte onde qualquer um pode atingir a perfeição sem precisar de ser génio ou sequer muito rico.

E ainda por cima é sempre um tipo de empreendimento "bigger than life"

";O))