sábado, fevereiro 23, 2008

Orelhas à la planche

Caro MCB, se julga que me equivoquei, julga bem. Sou um equivocado nato. Mal estava a sair da fábrica materna e reparei logo que me tinha equivocado. Que, para minha infinita penúria, estava a nascer na espécie errada, no planeta errado e no tempo mais que errado de todos. Pior que isto, só mesmo ter nascido verme, micróbio, barata ou americano. Mas, em contrapartida, se julga que eu insinuei porcarias e torpezas dessas, julga mal, julga péssimamente, tresjulga, e está, claramente, a querer competir comigo para o título mundial de equívocos pesados. É uma tentativa relevante, determinada, mas não desperdiçe talento e energias: sou campeão mundial vitalício, perpétuo, indestronável. O cepro, a coroa, o trono, o império, do equívoco, são todos meus. Não estão ao mero alcance humano. Tenho uma vida inteira devotada ao desporto. Sou, da cabeça aos pés, sem esquecer as mãos que muitas vezes com eles permuto, um mapa vivo e ambulante de taças, medalhas e cicatrizes. Só o faqueiro triunfal que carrego nas costas, qual Atlas da quixotice, deixaria prostrado e ofegante qualquer estivador audaz (ou andaluz) logo ao fim de passo e meio, se tanto.
Por conseguinte, não desça Vossência da inteligência que possui e da consideração que lhe tenho, e trate de não confundir ironia com insinuação. Porque era simples a ironia. E não cuidava de apontar vilezas que de todo não vislumbro, mas uma incongruência óbvia que o meu caro amigo faz por reavivar e reeditar em mais uma versão revista e aumentada. Precisamente quanto reincide a perguntar-me, e cito: "Ora diga lá com franqueza se o Pacheco Pereira e o António Barreto - nunca os vi, nunca com eles falei - não farão alguma diferença no cômputo de cretinos e sanguessugas que polvilham a ressequido bolo do regime ?"
Note bem, pergunta-me a mim, César Augusto Dragão, pelo Pacheco Pereira ou pelo Toninho Barreto. Acha que é pergunta que se faça? O que é que entende que se vai falar do Pacheco, do Barreto, ou de quaisquer destes telepapagaios louros oxigenados daqui por 100 ou duzentos anos? Presume que alguém se vai dar sequer ao trabalho de culpá-los por todos os males, desventuras e aluimentos da pátria? Mais pertinente e comezinho ainda: acha que eu perco o meu tempo com anõezinhos mentais desses? Para anão basto eu. Já me chega o espelho. Tolha-me o intelecto mas não me tolha a vista: deixe-me ao menos gastar e regalar os olhos da cara que me resta com gigantes. Ou, pelo menos, gente de estatura admirável, como o Camilo, o Eça, o Oliveira Martins ou o Ramalho. Gente que (fora o Camilo) você zurze à desfilada, sem dó nem tino, num varapejo onde nem o Pessoa e o Almada escapam ilesos e comem por tabela e pela medida grande, ao mesmo tempo que me pergunta pela distinção do Pacheco Pereira e do António Barreto. Ora batatas! Ora bróculos! Está a ver a cabidela em que se meteu? Não me deixou alternativa senão a abordagem punitiva. Afinal, você reconhece a distinção de anões vivos, mas não respeita a distinção de gente grande morta. Para a moral dos nossos convivas irrequietos, do Lopes Santana ao Pacheco Luiz, recomenda a benevolência, a compreensão, a indulgência; para a moral dos outros antanhíferos, que lhe contendem não sei com que fantasia, é tronco, pelourinho, queima de efígie à revelia e malditos sejam mais as respectivas mães?! Que macaco lhe mordeu? A esquerda andou a dessedentar-se-lhe nas jugulares? Porque isso das ASAEs históricas, das brigadas profilácticas e demonizantes sobre o passado é típico deles, com mil raios. E agora que eu subo a bordo, de sabre à dentuça e bacamarte em riste, dou consigo empoleirado no cesto da gávea a batalhar nuvens e gaivotas. "Belo!", desabafei com o meu imediato. "Temos Íxion nas Caraíbas. Diz a Sua Senhoria que intervale um instante nos seus elevados afazeres e faça a fineza de arrear cá abaixo, ao tombadilho da realidade, que eu tenho uns certos assuntos a tratar com as suas digníssimas orelhas!..."
Pois agora que já tenho as suas orelhas, passo ao tempero apimentado das mesmas...
A geração de 70 estava impregnada de francesismo e jacobinite? Estava. Polvorosa descoberta. Era a moda da época. Babavam-se então com a França e a revolução benemérita como agora se babam com a América e a revolução democrática. (Está a apertá-lo muito, o garruço?) É verdade; em 1871, o próprio Eça escreve a Emídio Garcia: "Eu mesmo que te falo sou membro da Internacional" (...); e mais adiante:" Trata pois de espalhar por aí tanto quanto possível As farpas que são a vanguarda e as primeiras sentinelas de descoberta do movimento revolucionário." E noutra carta do mesmo ano, desta vez a João Penha, o mesmo Eça anuncia: "No estado em que se encontra o País, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução - não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele - devem farpeá-lo. As "Farpas" são pois o Trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote - postos ao serviço da revolução.»
Donde, a sua objurgatória primeira, ó Miguel, até tem fundamento e mérito, tem até o meu aplauso, só não tem a minha bênção porque exorbita, efabula e incongrui. Exorbita na malignidade de cancro, fonte de todo o mal, com que os estigmatiza; efabula no idílio prévio e circundante, erro típico do diagnóstico à pressão; e incongrui no tom de púlpito evangélico, quando, de quotidiano, tudo faz V. por emulá-los e replicá-los. O facto é que Vossência é demasiado liberal, modernofórico e xenófago para servir de porta-bandeira ou arauto peregrino duma tal desinfestação. Tivesse lá vivido e não ponho as mães no lume que não caísse na mesma esparrela. Por isso, o seu postal, com menos brilho literário, mas com bem mais autoridade moral e coerência política poderia ter sido escrito e assinado pelo jovem Corcunda. Aí, eu nada teria a apontar. O hábito e o monge estariam em perfeita harmonia e sincronia. No seu caso, porém, o hábito súbito não desfaz o toreador costumeiro. Não lhe faltando um certo fundamento, falta-lhe todavia a consistência quase toda. Sobra-lhe em brilho o que carece em densidade. E quando me diz que a "geração de 70" não morreu, que vaga ainda fantasmagoricamente entre nós, sinto-me inclinado a acreditar. Sensação que se avoluma sempre que dou consigo, comigo e outros figurões que tais a galope, de farpa em riste e bordão em cascata. Ou, glosando o Almada, "coragem, ó émulos portugueses hodiernos, já só vos faltam as qualidades!..."
Esta, em resumo, daqui donde o observo, foi a figura que Vossência fez e que eu, porque o considero, achei por bem avisá-lo. O hábito vai descosido e deixa ver as lentejoulas. E um enfermeiro armado de bandarilhas é capaz de não inspirar a conveniente tranquilidade e confiança aos doentes.
No mais, faço-lhe a justiça de louvá-lo pelo desassombro e pela audácia, e ainda mais agradecer-lhe a ocasião para estas esgrimas e pilhagens que, bem mais que réplicas, tréplicas ou sarréplicas, eu estimaria que tonitruassem a animados colóquios.
A terminar, duas breves notas, que a prédica já vai longa.
Se pensou que eu era mais camiliano, pensou mal. Não sou mais nem menos. Nem camiliano nem queirosiano. Não é comigo essa cisma. A minha escola é outra. E como considero a política actual o ramo mais pobre da literatura, não misturo alhos com bugalhos, nem deixo que considerações da ordem do esgoto interfiram com perspectivas do nível da varanda (resultaria em trica e mexiriquice da laia dessas ficções pouco asseadas que fazem passar por "História", "sociologia", "politologia" e outras mixórdias que tais). Agora que o Camilo - que muito prezo, tal qual o Queirós, como grandes estilistas desta Língua nossa que foram-, foi tudo menos livre, temos a sua própria obra - e o esbanjamento monumental de talento que constitui - a demonstrá-lo. Ficamos com a ideia dum empreiteiro de novelas. Um Cervantes que se vendeu a retalho. Às mijinhas. Nem imagina os nomes que eu chamei ao Camilo ao terminar a última página da "Queda dum anjo".
Por último, absolutamente livre é que o meu prezado amigo também não é. Nem vossência nem nenhum dos frágeis, patéticos e confusos mortais que por este mundo do diabo penam ou fazem penar os outros. Absolutamente livre, que eu saiba, só o Deus de Aristóteles. Não queira V.Excª competir com Ele na autonomia e comigo no equívoco. Meta-se com as nuvens, desanque as aves (que as temos cá muitas, pernaltas, raras, canoras, de arribação), mas não se meta com a Transcendência!


PS: A Hubris atrai fatalmente a Ate. Uma lição imemorial que tendemos a esquecer.

PS 2: Aquela da psicanálise foi bem metida. Com o tempo ainda faço de si um brutamontes cá da minha Irmandade da Costa. Já faltou mais.

PS 3: Entretanto, em sua honra, acabei por inventar o verbo "incongruir". Ou seja, ser incongruente.


sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Primeiro Assalto

Por conseguinte, ó caro Miguel, sejamos francos: o seu postal (e respectivas sequelas) não é de falta de mérito que enferma: é de falta de moral. E inerentemente de credibilidade; ou seriedade, se preferir. O Mérito da forma e o mérito de alguma verosimilhança no conteúdo são evidentes e seria eu o último a contestá-los. O problema está na fragilidade moral do autor para o exercício, amplificada pelo exagero zelote na atitude. E estou a ser benévolo no adjectivo por especial consideração ao alvo e capital recomendação do meu imediato: “tu vê lá não maltrates muito o nosso benfeitor, esse verdadeiro galeão dos ovos de ouro!”...
De resto, forneço-lhe já um exemplozinho muito concreto e vá preparando a pomada e o gelo. Vossência, no fulcral, vitupera aqueles canhestros ancestrais por tudo terem destruído e nada terem restaurado. Nas suas eloquentes palavras, o que naquela “geração de literatos e diletantes”o incomoda e lhe causa biliosa dispepsia “é a afectação e o desprezo que votou a tudo aquilo que nasceu com assinatura portuguesa, um ódio quase doentio ao povo comum, a xenofilia provinciana, o tom doutoral com que foi ridicularizando, diminuindo e delapidando tudo”. Ora, isto deixa o seu leitor habitual baralhado e a interrogar-se: “mas este digníssimo senhor está a fazer crítica ou auto-crítica? Está zangado com os anciãos ou com ele próprio? Desatou aos tiros aos alicerces ou à consciência pesada? Porque, repare, logo mais adiante, o caro amigo confessa solenemente: “Salvar o país é salvar-nos da mediocridade, da pobreza e do miserabilismo. Tenho, como todos, vergonha da generalidade dos portugueses...” Não nota o paralelismo? Bem vê, eles, aqueles notáveis trapalhões, também tinham vergonha da generalidade dos portugueses e também se predispuseram a salvar o país, por intermédio dessa afanosa (e recorrente) operação cosmética que consiste em salvar Portugal dos portugueses. Devia pois ser vossência mais afável com os seus egrégios bisavós. E arquétipos.
Até porque se partilhavam a sua ideia, escasseavam, clamorosamente, da riqueza opulenta das suas ferramentas. Estavam sózinhos, cercados e desamparados contra uma desbordante maré que acabou por arrastá-los e submergi-los. O Miguel, em contrapartida, permite-se esses luxos optimistas, consagra-se a essas sobrancerias culturais sobre aqueles desvalidos infelizes porque se sente rodeado, escorado e estribado, contra a generalidade dos portugueses vergonhosos (entre os quais milita desventurado este seu criado, esbracejando com denodo pelos turbilhões da maré promovida entretanto a enxurrada), por uma sólida plêiade de coadjutores estrénuos e montadas vigorosas. Assim, repassando fugazmente em memória alguns desses instrumentos providenciais em quem o estimado amigo, ao longo dos tempos e ao sabor das conjunturas, tem depositado loas e sumptuosas condecorações, ouso destacar, a título meramente emblemático, o Pacheco Pereira, o António Barreto, o Paulo Portas, o Manuel Monteiro, o Santana Lopes, entre outros vultos imensos da cultura, da moral, dos bons costumes, da coerência, do portuguesismo e do génio puro redentor da nossa pátria. Deve estar, Vosselência, lembrado, decerto; não me force a ter que recomendar-lhe os seus próprios arquivos blogográficos ou a ter que andar eu próprio, de cana e anzol, à pesca neles de tão fina flor aos molhos. Sou pirata, não sou peixeiro.
O resultado, porém, está à vista e era fatal. Tendo gasto a bateria de encómios e medalhas de mérito com gigantes destes, só lhe acabariam por sobrar menoscabos e desdéns para aqueloutros pobres diabos de há cem anos. Azar o deles. Sorte a nossa.


PS: Vossência, que andou também lá pelas fileiras decerto recorda como apelidávamos a "medalha de mérito"...? Pois, isso mesmo: "Vinhos e petiscos".

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Plonger le diable

«Os Franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás quando o mergulham dans le bénitier. Eu nunca assisti a essa espalhafatosa afronta feita ao venerável Pai da Mentira; nem V. também, suponho eu. No entanto imagina V. bem como Belzebu berrará e escoucinhará, ao sentir o contacto untuoso do detestável líquido. Pois, querido amigo, assim eu escoucinhei e berrei, enquanto V. com mão dura e forte, me estava mergulhando na água benta da sua Crónica sobre Os Maias.
V. concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para V. Satanás, o pai de toda a falsidade. Eu sou aquele mafarrico que escolhe, para personagens do seu livro, não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de dar, nessas páginas, o lugar proeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das obras do porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola, aos construtores do bairro Estefânia, ao conselho de Estado, etc, etc. Eu sou aquele porco-sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes, e que, nos jantares de sociedade, em vez de discutirem Hegel, o positivismo, e a psicologia das religiões, falam de criadas e de cabeleireiros! Eu sou aquele génio da maledicência, que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via Ápia, e que a sociedade que a frequenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original do Universo, etc., etc., por aí além.
Por outro lado a sua Crónica, meu caro Fialho, é uma bela pia de mármore, cheia a transbordar de água benta da virtude, do patriotismo, e da fé em Lisboa como capital da civilização. E, portanto, o que V. fez com a sua costumada veemência foi plonger le diable dans un bénetier. Daí os berros e os couces.
Couces e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu tudo podia esperar do seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa atitude de pudidícia ofendida e de magoado patriotismo. O que era com efeito de esperar, dada a sua índole e os seus escritos, era que V. criticasse o livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco: e que, como legionário da mesma legião, ocupado também nesse belo trabalho da literatura contemporânea, que consiste em fazer o inquérito experimental das sociedades, me censurasse só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem certeiros, nem bem úteis, nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente surgir no campo inimigo, com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado, gritando - "Em Lisboa não se pode tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande. Vergonha ao maldizente que ouse rir da cidade incomparável, perfectissima Urbs!" - eis o que verdadeiramente me assombrou! Porquê tão singular mudança? Ó Fialho, foi V. eleito director-geral dum banco? É V. o inspirador dum sindicato? Recebeu V. das mãos do monarca, a Grã-Cruz de Sant'Iago? Está V. director-geral duma grande repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao conselheiro Acácio? Está V. por acaso apaixonado pela mulher do Acácio, e finge-se assim púdico, ordeiro e patriota, para lisonjear o benemérito e cornudo homem?... Sapristi, je crois que j'ai touché juste! Nessa sua crónica sobre Os Maias, Fialho, há uma mulher! Se assim é (e estou certo que é assim), como V. deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço essa situação, é medonha!... É ela ao menos bonita e cochonne?
Sério, sério - a sua Crónica, escrita com a sua costumada verve, espantou-me. Que V. fizesse ao calhamaço um enterrement de 1ª classe, bem está! O grosso cartapácio, com mil bombas, fervilha de defeitos. As duas próprias cenas que V. incondicionalmente louva, estão bem longe de me agradar! Mas que V. fizesse a vista grossa sobre esses defeitos, para se lançar sobre mim com indizível fúria e acusar-me de falta de respeito pelas nossas virtudes, pela nossa elevação moral, pela grandeza da nossa civilização, e pelo esplendor de Lisboa como capital - é forte! Coisa espantosa ver o meu velho e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande rasgo patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas câmaras declarando "traidores os que faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes!" O Ramalho, fez, sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas Farpas.
Esta carta vai longa. E não me alargo por isso mais, além deste ponto de vista da sua Crónica - que foi o que me impressionou. Havia, porém, nela, ainda outros detalhes, que eu desejaria discutir com Você, violentamente. Assim, diz V. que os meus personagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, uma obra que pretende ser a reprodução duma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem saliências (como a nossa incontestavelmente é) - como queria V., a menos que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivesses o destaque, a dissemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem ter, e têm, os tipos duma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? V. distingue os homens de Lisboa uns dos outros? V., nos rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só um homem - que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir: sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto - sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.
Outra coisa bem singular é V. duvidar da exactidão de certos detalhes, traços de sociedade, como as senhoras falando de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas corridas, etc. Oh homem de Deus, onde habita V.? Em Lisboa ou em Pequim? Tudo isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur place!
Mas não palremos mais. Vocês, em todo o caso, hão-de findar por me fazer zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e com galicismos que o arrepiam: e diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo em cada dez palavras cinco galicismos! V., por outro lado, nunca tomou a pena, que não fosse para cair sobre os homens e as coisas do seu tempo, com um vigor, uma veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha delícia. E quando eu faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et une touche trés juste - você aparece-me e grita-me, "aqui-del-rei patriotas". É escandaloso. Para vocês tudo é permitido: galicismos à farta, pilhérias à pátria, à bouche que veux-tu! A mim, nada me é permitido. Ora sebo!
Positivamente, basta de cavaqueira.
Diga ao Oliveira Martins que eu lhe mando, por este correio, mais fradiquice. E Você, caro Fialho, creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que lhe aperta a mão o seu muito amigo...
Eça de Queirós »


Isto, que acabo de transcrever, respondeu Eça a Fialho, em 8 de Agosto de 1888.
Vem a propósito duma pergunta que coloquei a mim próprio: "que raio responderia o Eça ao intrépido (e ingrato) MCB?"
Suspeito bem que, em alguns trechos particularmente suculentos da carta em epígrafe, seria "quase ipsis verbis". Bastaria comutar "a sua crónica sobre Os Maias" por o "seu postal sobre a maldita Geração".


PS: Esta foi só a cortesia preliminar que corresponde ao arvorar do pavilhão.

Meta-formosuras

Felizmente, para nos compensar e indemnizar, com juros, da maldita Geração (de Mil e Oitocentos), temos a bendita Geração (de Mil e Novecentos). É o 70 ao espelho, ou seja, é o 007. Porque o espelho está muito reduzido, já é apenas um caquinho de espelho (senão não cabia no país). Porém, como não celebrar mais este progresso inaudito? - Cem anos de fermentação prodigiosa, de pinote cultural intenso, que permitiram à maldita Geração da blague metaformosurar-se na bendita Geração do blogue.
Como dizia o outro, "aqui nada se ganha, nada se perde, tudo se transtorna."


PS: isto sou só eu a aquecer os reactores. Aquele postal é uma mina.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Escandalinhos da Porcalhota

Quero declarar aqui, solenemente, o seguinte:
Que haja por aí blogadores a oficiarem a soldo ou pela trela do actual governo da nacinha é fenómeno decerto plausível, mas que, desculpem lá, não me escandaliza minimamente. Nem me preocupa, tão pouco. Moço de fretes ou biscateiro, mais que uma tradição, sempre foi uma vocação endémica neste país. Agora chamam-lhes tarefeiros, mas vai dar ao mesmo.
De resto, fosse eu de escândalo fácil e mais depressa encontraria motivos para isso na vasta e estrídula horda de blogadores que, visível e sistematicamente, debita por aí a soldo de governos estrangeiros.
Se bem que, por outro lado e vendo bem a coisa, entre uns e outros acaba por nem sobressair diferença de monta. Na medida em que o governo português trabalha a soldo e pela trela de interesses estrangeiros, quer os que blogam para o aparente governo português, quer os que digitam directamente para as potências alienígenas, todos puxam para a mesma banda e cumprem os preceitos de cocheiro comum, peados que troteiam e arreatados que vão na quadriga de serviço à mesma carroça.
Direi até mais: Que o dinheiro dos nossos impostos e contribuições sirva para gratificar estas alimárias de estrebaria também não me apoquenta. Sequer um bocadinho. Até porque creio que, em grande parte dos casos, nem seja isso que aconteça. A maior parte dessas bestas resfolega e esfalfa-se toda na esperança de sórdidos favorzecos. Nem é paga em dinheiro, mas em trem de cozinha. Derretem-se por "contactos". Untam-se todos com vaselina, viram puta gratuita de alto a baixo, na pura mira de facilidades ou promoções agilizadas. Outros ainda, mais que as mães, montam bicha e colocam-se em bicos de patas à procura de oportunidade, de vez, de lugarzinho na baia. Aquilo fervilha em cascata: há os lacaios pagos (uma elite pomposa) e, depois, por ali abaixo, os sabujos dos lacaios, os lacaios dos sabujos e, finalmente, na subcave do monturo, os manteigueiros noviços, capachos entusiastas da inteira confraria. Acreditem, com meia dúzia de patacos e dois ou três berlindes coloridos faz-se girar todo um escarrocel destes! Portanto, não há-se ser por aí que perigará todo o vosso belo erário público e púbico. É pois escandalinho da treta, uma queixumice dessas.
Não; escandaloso, escandaloso mesmo, se é escândalo sério que procurais, é o tilim sonante da vossa atávica carneirice servir para pagar principescamente à chusma que nos desgoverna. E mais escandaloso ainda -escândalo de bradar aos céus que até a mim me faz corar! - é o desplante cumulado da impertinência que persiste em chamar governo a uma comissão liquidatária destas!...
Sim, sou sincero: o que escandaliza é haver ainda quem diga que eles blogam para o governo. Governo... Qual governo?!!

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Agora é o Verbo. No princípio, não sei.

Não há apenas verbos reflexivos: também os há compulsivos. São verbos que são utilizados pelos povos, no linguajar como na realidade, duma forma automática. É assim que alcançam o estatuto de tique idiossincrático. Ou seja, tornam-se veículos quotidianos da própria existência.
Nos americanos, por exemplo, temos, à cabeça de outros igualmente espectaculares, o verbo "bombardear". Entre os alemães, por szeu turno, resplandece o verbo trabalhar. Da mesma forma que entre os ingleses, campeia o verbo snobar ou entre os franceses, o verbo "bavarder" (palrar ou tagarelar). Americano que não bombardeie (em acto ou em espírito) não é digno desse nome. Tal qual inglês que não olhe por cima da burra, alemão que não se desunhe a produzir ou francês que não gralhe pelos cotovelos. Não exercendo o verbo colectivo, não exercem a existência individual.
Assim, quando compra o jornal de manhã, ou atende ao primeiro telejornal do dia, o americano digno desse nome passa revista e confere: "Ah, hoje estamos a bombardear o Paquistão!...Óptimo." E fica tranquilo, de alma restaurada, para o resto da jornada. O sol nasceu; a terra gira no seu eixo normal; a vida prossegue em bom ritmo. Enquanto bombardearem alguém, acredita. Deus existe e bafeja. Aquele pesadelo lúgubre que, lá no fundo, o angustia (e que consiste em acordar e ler, ver ou ouvir nas notícias: "Hoje não bombardeamos ninguém - estamos a ser bombardeados!..."), fica, para já, sem efeito. Dissipa-se até ao dia seguinte.
Também o alemão, ao escutar, ler ou televisionar os gráficos e estatísticas das produções, exportações e demais realizações, proclama com orgulho e sem rebuço: "Ah, hoje exportámos X BMWs e vamos produzir mais Y Wolkswagens. Wunderbar!, tudo corre sobre rodas!"
Naturalmente, por esta altura da perlenda, o leitor já se perguntará: e o português? Ó Dragão, o português faz como? Que tremendo verbo o avassala?
Bem, o português, como não podia deixar de ser, mais ainda que o judeu, é um caso único. Porque o lusitoino, além de dois ou três verbos compulsivos que o movem de arrasto -como sejam, telefonar, acelerar, viajar ou opinar catedraticamente -, é o único povo que congrega num mesmo verbo a compulsão e a reflexão. Por outras palavras, constitui-se como a única espécie de gente ao cimo deste desgraçado planeta cujo principal verbo compulsivo é simultaneamente reflexivo. Trata-se, como já devem ter adivinhado, do verbo "governar". Em Portugal, governar é sempre -e freneticamente - governar-se.
Se bem que no restante seja igual. Como em qualquer democracia, da américa à alemanha, os que exercem o verbo colectivo automático exercem-no em nome de todos. E, para que o primor seja completo, todos se revêem e comungam, em espírito, dos feitos, proezas e cometimentos dessa sua elite consignatária.

Às avessas

Chamam-lhe democracia porque, em tese, o povo é que escolhe, que determina, que elege. Mas mais valia, a bem do rigor e da prática, chamarem-lhe demorreia, já que na verdade o povo não elege, rejeita. É assim entre nós desde 1974 e é assim por esse mundo fora, onde quer que a tranquibérnia fabulosa grasse.
Na primeira vez que fomos às urnas, logo após a golpada florida, tratou-se de rejeitar os comunistas. Depois, rejeitámos, sucessivamente, a "direita", o Bochechas, o Cavaco e, mais recentemente, a Guterrada e os Santanóides. Da próxima, será para deitar ao lixo a actual socratristeza.
Portanto, de eleição a coisa tem muito pouco. Tirando as seitas de apaniguados e amanuenses partidários que, compreensivelmente, lá peregrinam por afazeres profissionais, a generalidade da população não comparece animada de grande intuito ou vocação. Nenhum bem espera desencadear: apenas, por sina, estrebucha para obviar a um mal maior. Por isso mesmo, bem ao contrário de eleger governo, melhor devia dizer-se que aflui para derrubar o governo (mal) eleito. Assim, à demorreia chamam democracia e às rejeições chamam eleições.
Dir-se-ia que, bem no fundo, mais não fazem que replicar, duma forma serôdia e frouxa, a golpada matriz da trôpega cegada. Em resumo, de quatro em quatro anos, derrubam governos. Esporadicamente, nem isso.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Crudelíssima realidade

«Grandes reservas de petróleo descobertas no norte da Albânia.»

Será por isto que os Américas gostam tanto dos albananeses?
Mas não só.

Evolucinha, ou Do homem reprimido ao papagaio livre



Foi Heine quem disse que "onde os livros são queimados, os seres humanos serão queimados a seguir".
É muito pitoresca esta imagem da queima de livros. Todos os progressistas da paróquia correm a concordar e a conclamar, acenando com inúmeros exemplos históricos, todos eles hediondos. Eu próprio não vejo como negar que, numa espécie de lei perversa ou vínculo fatal, fazem primeiro aos livros e depois fazem às pessoas. Apenas acho que toda esta boa gente devia ver o filme na íntegra e não apenas na parte que lhe convém. As infâmias que começam por se fazer aos livros e prosseguem depois nos homens não são apenas queimá-los. Envenená-los, castrá-los, emporcalhá-los, esvaziá-los, uniformizá-los, traficá-los também acontece frequentemente e está até, hoje em dia, deveras banalizado. Só que aí, os mesmos que se insurgem contra a combustão forçada não descortinam qualquer problema ou vício. Nem, em boa verdade e coerência, poderiam fazê-lo: seria estarem a bradar contra o progresso.
Antigamente, queimavam os livros. Agora calcinam, amputam e esterilizam o espírito de quem poderia lê-los. Ou ditam por encomenda à mentezinha alugada de quem os escrevinha.

domingo, fevereiro 17, 2008

Prémio merecido

Se é verdade que foi Ramos Horta quem propôs Durão Barroso para Nobel da Paz então há uma certa justeza e merecimento no tiro (ou tiros, não sei bem) que lhe ministraram. No fundo, o Reinado estava apenas a cumprir a sua (dele, Ramos Horta) bela lógica: demandava fazer as pazes com ele. Promovendo, por outro lado e em reforço, a que descansasse em paz. Aliás, duvido que exista mesmo método mais eficaz de pacificar pessoas do que esse: matando-as. Só a quantidade de países, regiões e povos que têm sido pacificados dessa maneira!...

O Motor do "Pugresso"



O livro (capa em epígrafe) já é de 1995, mas tem especial interesse na medida em que é escrito por um autor judeu, professor na Universidade John Hopkins, que analisa o tema duma perspectiva pró-judaica.
Uma recensão não menos interessante e sugestiva pode ser lida aqui. Adianto alguns realces da mesma:
«German Jews gained significant power in the United States after the Civil War, largely in the realm of finance. Jews financed the U.S. regime's Civil War debt, the debts of the reconstructed Southern states, and the nascent industries» (...)
«The Jewish role in the Progressive movement crested in the Wilson administration, with Louis Brandeis playing a major role in the creation of the Federal Reserve System and the Federal Trade Commission.» (...)
«It was with Franklin Roosevelt's New Deal that Jews gained long-term power in the United States, power that continues into the present. Jews served as Roosevelt's idea men and staffed his New Deal agencies.»(...)
«In the 1960s, the Jews played key roles in the civil rights revolution and the concomitant Great Society programs. For Jews, Ginsberg points out, support for black civil rights was not only a "moral commitment" but also an "important political tactic" to weaken the white South and the ethnic machine politicians in the North, and, as a consequence, increase their own relative power within the Democratic coalition.» (...)

Finalmente, em citação directa do próprio texto de Ginsberg:
«From the 1970s onward, Jews led or were influential in most, though not all, of the political reform, feminist, consumer rights, gay rights, environmentalist and other public interest groups and related foundations, study groups, and think tanks that came to dominate the Democratic party during the 1970s and continue to be the leading forces within that party today.»
Uma obra de leitura obrigatória, portanto.

sábado, fevereiro 16, 2008

Epistoleirices - I

Epistoleirices porque acerca de tiroteios (duelos, surrealismos, suicídios, etc) epistolares.
Sem mais delongas nem rosarices, vamos à primeira - de Eça de Queirós a Oliveira Martins (em 1884).

«Meu querido Oliveira Martins

Estive ontem ainda bastante incomodado; estou agora à espera do meu doutor; e não creio que possa ainda hoje fazer essa peregrinação de amizade, a Santo Antero e ao bom Lobo. Pois apetecia-me bem esse passeio!
Estou aborrecido com a persistência deste incómodo e indignado por ter descoberto que a sua causa está nestas comidas do Hotel feitas à francesa. Sempre a França e a reles tradução que dela fazemos! Tudo isto se deve à revolução de 89; e eu agora sempre que me dirijo ao water-closet, de calças na mão, vou rosnando as piores pragas contra os Enciclopedistas! Quando voltará este desventuroso país à sua tradição que é o senhor D.João VI, o padre, o arrieiro, o belo caldo de galinha, o rico assado no espeto e o patriótico arroz no forno! Mas não! Querem ser liberais, filósofos, franceses, polidos, ligeiros... Consequência: o País como tu sabes, e eu com soltura há oito dias. Irra!
Vê se me mandas outro Friedlaender (que trate do luxo, das belas-artes, etc). E se fores à Póvoa, dá um grande abraço ao querido Antero e ao velho amigo Lobo.

Teu do c.
Queirós»

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Humor científico


Entretanto, os cientistas procedem a mais uma mirabolante descoberta:
Cada vez me convenço mais que esta ciência hodierna ricocheteia (ou serve de bola de squash) entre o óbvio e o obtuso.
Porém, hilariante mesmo é a brilhante conclusão que retiram desta retumbante e originalíssima descoberta: congratulam-se por poder muito bem vir a ser útil para a gestão de desastres. Alguém os informe que, até hoje, tem sido determinante é em provocá-los, não raramente, sobretudo nos últimos cem anos, ao nível de catástrofes de magnas proporções. Ainda agora andam nisso.
A sério, pergunto-me se a ciência não será uma forma perversa de humor.

Có-Kosher

(imagem em epígrafe: escova de dentes Kosher certificada pelo Ultra Orthodox Court of Jerusalem. )

Um artigo científico onde se expunham as semelhanças genéticas entre os Palestinianos e os Judeus sefarditas causou imenso escândalo...



Agora adormeçam-nos com cegarregas da "liberdade de expressão" e outras lengalengas de embalar meninos.
Até porque são curiosíssimos estes tempos em que desgraçadamente vivemos. Por regra, todo o nazismo é execrável, todo o nacionalismo hediondo, todo o racismo nojento e todo o colonialismo infame. Excepto, como é óbvio, em se tratando do sionismo israelita. Aí, súbita e meticulosamente, o nacionalismo devém absolutamente virtuoso, o racismo extraordinariamente benigno e o colonialismo vai imacular-se e legitimar-se a episódios bíblicos de mais de 2000 anos. É a excepção que confirma a regra? É a raça excepcional, sobrehumana?
Não sei. Mas suspeito bem, porque vejo e porque se vê nitidamente (cada dia com mais clareza), que quanto mais a humanidade vermina e rasteja, maiores eles parecem. Mais majestosos, geniais e superlativos. Não me restam grandes dúvidas que no dia, já não decerto longínquo, em que estivermos todos reduzidos a homúnculos morais, sobranceirem então eles, em toda a sua pujança, realeza e esplendor. Nesta miserável terra de cegos, quem tem um olho é rei. E mesmo quando esse olho é cego e sujo, a vantagem é daquele que levou milénios a treinar-se e adestrar-se nele. E a fazer dele periscópio.
Mas eles, quem? - Os "Judeus"? Alguns sê-lo-ão, com certeza, os proxenetas globais deste mundo, eventualmente os mais tartufos, ascáridas e jactantes. Outros, menos berrantes, são doutra esporradela qualquer. Mas todos se irmanam na grande puta que lhes serviu de mãe e no cornudo enxofradinho que imaginam e emulam feito pai. Piores que eles só mesmo aquela escória gentia, judaica, avulsa, burguesa em suma, que lhes delambe o rabo e lhe inveja o monco.
Se o nazismo alemão foi uma bela merda, o nazismo kosher mete nojo aos cães.

Esforço de guerra

Confirma-se: as escolas americanas, no âmbito do esforço global da luta contra o terrorismo, foram convertidas em carreiras de tiro. A lei presidencial que o instituíu foi já devidamente ratificada pelo congresso e senado, mas permanece confidencial, de modo a não prejudicar a concentração dos alvos.
Só numa segunda fase é que estes serão informados. Quando se passar da carreira para o cenário real, de assalto e limpeza. Os alvos poderão então armar-se e ripostar à sua escala, mas os atacantes virão de blindado apoiados por helicópteros e caças-bombardeiros.

Duma lógica cristalina


Houve um sujeito, político e governante famoso, que disse o seguinte:
«As ideias são mais perigosas que as armas. Não permitimos que os nossos inimigos tenham armas, porque raio havemos de permitir que tenham ideias?»
Aposto que não adivinham quem seja. Mas que há uma dose de arrepiante verdade no argumento, isso é difícil negar. E o pior é que não é apenas uma verdade de índole meramente teórica ou retórica: por regra, é uma realidade, mais ou menos ostensivamente, praticada neste mundo.
Sendo que os mais venenosos e tóxicos talvez não sejam aqueles que a praticam duma forma crua e aberta.

Agarrem-se ao Titan!



Invista nas luas de Saturno. Os cientistas acabam de descobrir que Titan tem centenas de vezes mais hidrocarbonos (leia-se gás, petróleo) que a Terra.
Literalmente, o maná chove dos céus. Significa tudo isto que, além de podermos lá pesquisar ossadas de dinossauros e sedimentos de florestas jurássicas, corremos ainda sérios riscos de encontrar os primórdios da raça eleita. É só lucro!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Mais Anúncios

«Deixem o ministro da Economia falar»

Sim sim, deixem falar o Mantorras!

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Lista dos principais patrocinadores ( e respectivas gratificações antecipadas) dos candidatos democratas à Casa Branca:


HILLARY CLINTON:
DLA Piper $471,750
Goldman Sachs $413,361
Morgan Stanley $362,700
Citigroup Inc $350,895
Lehman Brothers $241,870
JP Morgan Chase & Co $214,880
EMILY's List $213,266
National Amusements Inc $210,010
Kirkland & Ellis $179,676
Greenberg Traurig Llp $177,800
Skadden, Arps et al $167,796
Merrill Lynch $165,042
Cablevision Systems $145,313
Time Warner $144,977
Microsoft Corp $143,459
Bear Stearns $141,835
Latham & Watkins $138,598
Patton Boggs $137,200
Ernst & Young $126,865
PricewaterhouseCoopers $121,939

BARACK OBAMA:
Goldman Sachs $421,763
UBS AG $296,670
Lehman Brothers $250,630
National Amusements Inc $245,843
JP Morgan Chase & Co $240,788
Sidley Austin LLP $226,491
Citigroup Inc $221,578
Exelon Corp $220,267
Skadden, Arps Et Al $196,420
Jones Day $181,996
Citadel Investment Group $171,798
Harvard University $164,978
Time Warner $155,383
Morgan Stanley $155,196
Google Inc $150,329
University of California $140,429
Jenner & Block $136,565
Kirkland & Ellis $134,738
Wilmerhale Llp $119,245
Credit Suisse Group $118,250

Conforme podem conferir aqui.

Repórter Flash - Entrevista com o Presidente da Liga dos Cateturéticos Anónimos (1ªParte)



Passo a transmitir a reportagem do Repórter Flash. Vai para o ar com algum retardo, porque tenho que fazer a tradução simultânea do Caguinchês para o português, de modo a que os leitores entendam sem dificuldades de maior. peço-vos que desliguem os telemóveis, de modo a não interferir na transmissão.

- Alô, repórter Flash!...



- Alô, Dragão! Ora, cá estou eu, Flash Berto, o repórter enterprisas –aquele que vai onde nenhum humano foi antes. Após alguns precalços e um grande susto, eis tudo pronto para a nossa primeira reportagem de exteriores. Comigo está o Presidente da Liga dos Cateturéticos Anónimos, o Dr. Quitério Espigão. (A negritado, as minhas perguntas e reparos sempre inteligentes e oportunos ; a não negritado as respostas dele).

- Bom dia , Dr. Quitério!
- Bom dia, caro Flash Berto!
-Dr Quitério Espigão, em primeiro lugar, o que raio vem a ser um cateturético?
- Bem, meu caro, antes de tudo, o cateturético é um desgraçado, um tremendo dum infeliz. Porque sofre desse vício nefasto e auto-destrutivo que é a cateturese, ou seja, a mania de mijar de pé.
- Diabo, mas há outra maneira?
- Claro que há: a maneira saudável, higiénica, correcta. E conveniente, segundo as novas tendências comunitárias.
- Não me diga que temos que empontar uma perna contra a parede, como os cães!...
- Oh, nada disso. Essa, aliás, não só não é uma postura anti-cateturética como, pior ainda, é a variante cínica da cateturese. Acontece sobretudo nas fases de ressaca. Em noites de lua cheia, essa mesma fase cínica pode até degenerar em licantrópica: aí, nem quero pensar, mijamos alucinadamente e uivamos. Não, a postura moderna e aconselhável segundo a nova etiqueta e protocolo é mijar sentado. Na sanita. Como as gajas. E por imposição delas.
- Percebo, em vez de mijarem feitos cães ou lobisomens, mijam feitos galinhas. Fantástico! Mas fale-nos então da cateturese, ó doutor. Isso é assim uma espécie de alcoolismo?...
- Ah, pior, muito pior! A começar que o alcoólico, geralmente, ministra desopilantes sovas na esposa. Connosco é ao contrário: se a megera descobre, quem as amarga somos nós. São tareias monumentais. Acompanhadas de tortura psicológica, no mínimo. E trabalhos forçados aos pratos.
- Mas como é que ela descobre? Vocês mijam sob vigilância? A gaja escolta-vos feita polícia? Faz rusgas inopinadas ao WC?
- São os salpicos, senhor, os malditos salpicos! Nós bem recorremos a técninas ultra-subreptícias - regamos com furtividade de pele-vermelhas; estudamos tácticas camuflantes; um visionário chegou a vender um adicionante de cerveja, baseado numa fórmula alquímica medieval que, segundo ele, tornava o mijo invisível, à maneira dos espiões -, mas debalde. Elas têm um faro para os salpicos que só visto. É verdadeiramente infernal. Mirabolante. Acredite: é pior que um radar, um sonar e um scanar tudo junto. Sim, isso e a fisiognomia: adivinham-nos na cara. Lêem-nos na fuça e já está. Desatam a apitar. Parecem aquelas barras à porta das lojas. Uma algazarra que Deus nos acuda.
- Incrível! E E porque é que não tentam mijar fora de casa? Ir a um café, por exemplo?
- Não resulta. Dá-nos o stress pré-traumático. Bloqueamos da bexiga. Depois, para acalmar os nervos desatamos a emborcar canecas e imperiais de empreitada, o que só agrava a crise. Aqueles que têm coragem para despejar no urinol do snack ou cervejaria ainda é pior. Mal entram em casa, com ar selecto e descongestionado, aliviadinhos da silva, logo a fulana explode: “Quê, não vais à casa de banho? Aí há gato: ah, filho da puta que andaste a mijar de pé!” E se o indivíduo protesta que não senhor, nao bebeu nem mijou, ainda é pior: “ah, porcalhão imundo!, que andaste a regar as paredes e os candeeiros do município!...”, logo troveja ela. E lá vem borrasca. Devo dizer que as penas para a cateturese são mais severas do que para a bebedeira. Outrora, segundo relatam os antigos, a megera mais assanhada, de rolo da massa em riste, ficava de atalaia, à espera e, farejando o odisseu regressado, alvitrava: “andaste a beber! Andaste às cadelas!...” Agora não. Agora, de bastão eléctrico à cintura, respinga: “andaste a mijar de pé!...” E o pior é que, na maior parte dos casos, é verdade. Fila-nos em flagrante vertical, se assim se pode dizer. E à distância!...
- Espantoso! Mas como é que a gaja tem artes para telescopiar e pidejar num tal caso longínquo?
- Ora, em casa são as putas das pingadelas, as denunciantes; na rua são as cabronas das sacudidelas, as delatoras!... Aquilo tem uma visão infraurética ou ultravioleta que não perdoa. Ultravioleta e ultraviolenta logo a seguir.
- Mas... e vocês aturam um massacre quotidiano desses?...
- Que remédio. Até porque aqui ainda vamos nos preliminares, o cataclismo ainda vai no adro! É a fase idílica, por assim dizer, do casamento fresco. Rapidamente, a coisa deteriora-se. Depois da desgraça, chega a ruína. Logo logo, entediam-se de nos darem porrada e desatam a recorrer aos tribunais. Mal damos por nós, temos os bolsos esvaziados e as testas ernamentadas por exércitos de advogados e amigalhaços da onça em tirocínio para conselheiros matrimoniais. Já não falando nos tele-sexólogos. Em menos de nada, estamos com divórcios às costas, custas em cima e pensões cavalares nos filhos dela. É a todo este precipício que o maldito vício nos arrasta!...
- Mas vocês não o combatem com todas as vossas forças?
- Não, isso são as gajas: combatem-nos a postura eréctica com todas as forças delas. Nós é mais com todos os nossos cagaços. E olhe que são muitos e grandiosos. Começamos por prometer que não tornamos a mijar de pé nunca mais. Juramos a pés juntos e a debulhar-nos em lágrimas. Sentados, claro está. Verter água pelos olhos na posição vertical também não seria civilizado.
- Ah, quer dizer que também não convém chorar de pé? Eu, por exemplo, nem de pé nem sentado nem deitado, por mais que tente e esprema não consigo!...
- De todo. Um homem deve chorar, pelo menos, uma vez por semana. Convém manifestar a sua delicadeza e sensibilidade. Mas sentado, naturalmente. Munido de lenço de papel apropriado, isto é, descartável. É assim que determina a Televisão.
- Mas continue. Dizia-nos que juravam a pés juntos nunca mais derramar na vertical...
- Pois, pois é. Juramos e tornamos a jurar. Mas aquilo fica a moer-nos, a aguilhoar-nos. Se nos fechássemos numa redoma talvez resultasse. Ou nos criogenizassem por uns tempos. Mas assim é difícil. Chega a parecer impossível, sobre-humano. Mal saímos porta fora, as tentações são muitas. Os desafios ainda mais. O dilema do urinol, sobretodos, afecta-nos.
- O dilema do urinol, Dr. Quitério?...
- Estão mal concebidos. São arcaicos. Não cumprem os novos requisitos anatómicos e ergonómicos. Mesmo que quiséssemos, não conseguíamos...
- Isso tudo para dizer o quê?
- Então, não é possível um tipo sentar-se num urinol. Quando muito, põe-se de cócoras. Mas mijar de cócoras, embora não tão grave quanto mijar de pé, também não é aceitável.
- E já experimentaram mijar de joelhos?
- Bem, experimentar, já experimentámos de tudo. Até houve excêntricos das acrobacias que mictaram a fazer o pino. Porém, mijar de joelhos, o chamado genufluxório, além de nos arranjar problemas com a gaja, também nos metia em sarilhos com a sociedade laica, a respectiva constituição e os seus ferozes ateístas de guarda. Regar de joelhos, nem pensar!... Aliás, nem regar, nem pensar e, ainda menos, rezar!...
- Portanto, por falta de sensibilidade social e apetrechamento adequado no mobiliário público, vêem-se quase constrangidos a mijar de pé?
- Claro. Já viu bem a atrocidade, a violência? Um tipo guarda castidade catetotúrica um mês inteiro. Entre a retrete e o penico, abivacamos as nalgas e gastamos horas. Para depois, na primeira cervejaria ou marisqueira sermos confrontados, diabolicamente, pelo urinol obscurantista e obsoleto. E lá vem a recaída! Duas ou três canecas depois, e já mijamos de pé, em grande camaradagem. Seis ou sete mais à frente e, às vezes, em plena via pública, além da mijadela erecta, até já damos autógrafos às paredes. Regredimos à mais atroz das infantilidades, veja bem!...
- Entretanto, ó Dr. Quitério, ocorreu-me o seguinte: se agora têm que mijar sentados como é que cagam? - De pé? Quer dizer, como é que diferenciam uma coisa da outra?
- Ah, cagar na retrete lá de casa, nem pensar. Só em segredo, às escondidas. Quer dizer, sem emitir qualquer tipo de ruído ou odor, nem deixar o mais ínfimo vestígio. A gaja nem pode sonhar que fizémos uma coisa dessas! Por regra, para cagar em casa, numa emergência, agora temos a fralda conjugal: fazemos nela, deitamos no contentor do lixo e vamos lavar o cu à cagadoria.
- Cagadoria?!
- Sim, é análogo àqueles centros de lavagem automóvel, com aqueles jactos e escovilhões, só que é especialmente adaptado a peões. Digamos que é um centro de autolavagem do peão. Mas é relativamente oneroso e raro. Os menos abonados, fazendo uso do lendário sentido de desenrascanço português, vão de carro aos centros de lavagem automóvel e, uma vez lá dentro, baixam o vidro e põem o rabo à janela. Lavam o carro e, de bónus, abluem também o cu. Quem experimentou, sai de lá fresquinho e enxuto. Mas é preciso cuidado e algum comedimento, porque parece que cria habituação.
- Outra questão, ó Dr. Quitério: existe alguma lei, decreto ou portaria que obrigue um gajo a mijar como uma galinha?
- Bem, sabe que antes da lei jurídica e como seu fundamento alicerçafórico existe a lei natural. Ora, neste caso, embora ainda não exista propriamente uma lei jurídica –se bem que para lá se caminhe a passos largos de gigante -, existe, todavia, uma lei natural deveras importante: a lei de conservação da espécie.
- A lei de conservação da espécie, como assim?
- Então, se não mijamos sentados, elas, por superior e último castigo, não abrem as pernas nem nos deixam foder. E sem isso, a juntar a toda aquela panóplia de pílulas, borrachas, espumas espermicidas, clínicas de aborto e sexólogos esterilizantes, como há-de a espécie medrar e proliferar?...
- Bem visto.


E agora, caro Dragão, vamos ter que fazer uma pausa na entrevista, porque o nosso convidado de hoje, o Dr. Quitério Espigão, deu-lhe a ansiedade e vai ter que ir ali fazer uma mijinha. Devidamente sentado, pelo que implica uma demora maior. Já voltamos. Mete a publicidade!


- Então até já, ó Flash Berto!...

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Insólito e simbólico



Um fenómeno insólito (foto em epígrafe) que aconteceu recentemente no Rio de Janeiro.
Eu diria que há qualquer coisa de majestoso, poético e simbólico na imagem. É claro que, cientificamente, um tal evento não passa duma trivialidade. Mas os símbolos são lixados. Não cabem nas prateleiras. Nem nas caixinhas dos puzzles.

Ligeiro contratempo

Acaba de me ligar o Repórter Flash Berto (nome artístico do Engenheiro-Arquitecto-Diácono & Webmonstro Ildefonso Caguinchas nas suas noveis atribuições, Deus nos proteja). Surgiu um contratempo durante o percurso que eventualmente atrasará a reportagem tão ansiosamente aguardada. Comunicou que se sentiu subitamente indisposto do testículo esquerdo. Teve que encostar, de emergência, à berma e aguardar que a crise passasse. Felizmente, não foi preciso chamar o INEM, porque uma jovem profissional de enfermagem e cuidados "inofensivos" (sic) que aguardava autocarro nas imediações prontificou-se a socorrê-lo por uma módica quantia. Estava mesmo, cheia de brio profissional e fervor deontológico, a fazer-lhe uma respiração boca à... bem, boca à glande ou à gaita, como lhe prefiram chamar, por alturas do contacto telefónico. E via-se que o tratamento porejava rigor e competência, pois ele arfava e mal conseguia articular discurso compreensível (mais ainda do que é normal). Do que consegui decifrar da algaraviada resfolegante, realço a seguinte lamúria recorrente: "Valeu-me este anjo, ó Dragão, valeu-me esta santa e benamérica cricatura!...Nem sei o que seria de mim, neste descampado com uma crise destas, se não fosse ela!..."
De modo a desancalhá-lo daqueles baixios inopinados, e porque o conheço bem, limitei-me a recomendar-lhe, em tom caridoso e inquietante:
-"Veja lá, ó Repórter Flash Berto... Veja lá se a enfermeira, por acaso, não é daquelas epilépticas com boca de guilhotina!... "
O terror ainda é o melhor estimulante e desentupidor de vias que se conhece.

Mais prodígios e coisas assombrosas

Por motivos alheios à minha vontade, de vária ordem e quadrante, este blogue corre sérios riscos de ter que encerrar as portas.
Mas entretanto, e enquanto a espada de Dâmocles, o machado de Cronos e as correntes da Ananké não se abatem, lutaremos bravamente e sem tremor. Até ao último fôlego.
Nesse sentido, prosseguem as safras e prodígios. Remodelado o template, o webmonstro Ildefonso Caguinchas, levado de seiscentas audácias e outras tantas petulâncias, assumiu a pasta de Ministro das Entrevistas e, em perfeita sincronia com a gerência deste infame batel danado, abraçou a buliçosa indústria de repórter de exteriores.
Está neste momento, se não me falha o relógio, a caminho de entrevistar o Presidente da Liga dos Cateturéticos Anónimos. O resultado deste fantástico diálogo será publicado aqui brevemente. E em directo.
Aproveito para esclarecer a mudança última e inopinada de template. Tive que accionar o de reserva porque o principal, o dos veleiros na tempestade, motivou grande escândalo nos tipos (uns super-coninhas canadianos) onde eu tinha, como dignamente me competia, pirateado a imagem. Retiraram a dita e colocaram em seu lugar uma imbecilidade patética que grasnava mais ou menos assim:
«Beware!
This blogger steals graphics from websites. »
Honrou-me muito tamanha e tão justa publicidade. Mas é preciso ser estúpido para subir a bordo duma nave pirata, apontar histéricamente para o capitão e, em tom esganiçado, alarmajar: cuidado, este tipo pilha e assalta!"
Pena a coisa não passar-se ao vivo, que até lhes dava o tratamento do bom velho Capitão Low. Não o da primeira fase, aquele sensaborão de se lançar que nem um possesso a cutilar desenfreadamente os burgueses prisioneiros - desse, ele, em boa hora acabou por se entediar, até porque o salpicavam todo da merda que têm nas veias a fazer o lugar de sangue -; mas a variante mais calma, e infinitamente mais estética, em que apenas os obrigava a comer as próprias orelhas, devidamente cortadas, com sal e pimenta.
Gostava que isto ficasse bem claro: pilhei-lhes o graphic com todo o gosto, mais que merecidamente, e só não lhes subtraio a carteira, a conta bancária, a viatura e a mulher por nítida falta de tempo, pachorra e meios apropriados.
Eu ando a penar sem remissão
o extermínio que perpetrei p'los mares
quando, sob a bandeira de Mombars,
andei co'a alma em transmigração.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Vote and roll flying circus

«Em democracia, um partido devota a maior parte das suas energias a tentar provar que o outro partido é impróprio para governar. O problema é que ambos são invariavelmente bem sucedidos nisso e estão ambos certos... Os Estados Unidos nunca geraram uma aristocracia desapegada ou uma inteligentzia realmente inteligente. A sua história é simplesmente um registo de vacilações entre dois gangues de fraudes.»
Quem escreveu isto foi H.L. Mencken, um digno discípulo de Twain, e um tipo que radiografou a América com uma mordacidade ímpar. Não sei porquê, lembrou-me o actual circo candidateiro lá dos States.

Alienocracia

Lendo este artigo no Wall Street Journal, podemos interrogar-nos: será isto Economia? Será isto Mercado Financeiro? Será o quê?...
Retiro uma breve passagem:
Isto, meus amigos, dito sem subterfúgios nem manhusuras, é o regime de caça aberta ao desgraçadinho, ao aleijadinho e ao pré-indigente. É o fartar sanguessugagem em anoréticos e sub-nutridos. É o largar vampiros a lingrinhas e semi-embalsamados.
De economia tem muito pouco, a não ser que a economia se tenha convertido numa reles e pura predação nem sequer intra-específica, porque aberrações mentais que engendram e se empanturram deste tipo de banquetes certamente não pertencem à mesma espécie que nós. De humanidade, com efeito, comungam zero, nada, pevas. Só se vislumbra uma explicação: andamos a ser predados por alienígenas raivosos e ensandecidos. Ou abominações antropófagas evadidas duma qualquer página negra e pútrida de Lovecraft.
Tudo isto, claro está, partindo do princípio de que não fomos nós, pura e simplesmente, os degradados a sub-humanos.

domingo, fevereiro 10, 2008

Questão de semântica

Acabo de ter uma grande discussão com o Engenheiro-Arquitecto-Diácono (e agora também Webmonstro) Ildefonso Caguinchas. Cismou que "violência doméstica" significa arrear nas criadas, mulheres-a-dias ou serviçais congéneres. E dali não arredou pé.
-"Pois claro -bradou ele, cheio de brios dogmáticos -, violência doméstica significa dar porrada nas empregadas domésticas! Tu é que fazes confusão, como de costume. Aliás, sabes que é uma coisa necessária: se não se lhes chega a roupa ao pêlo de vez em quando, não mexem uma palha. Ficam para ali esparramadas, a rilhar telenovelas de empreitada!..."
-"Mas ó Engenheiro-Arquitecto-Diácono & Webmonstro... -tentei replicar pela enésima vez -, é público e notório que não é nada disso. Toda a gente sabe - menos, pelos vistos, Vossa Insolvência - que significa, isso sim, bater na mulher, na esposa, na amásia, na concubina, enfim, na respectiva acasalada, seja ela de facto ou de registo. Não me venha agora, o caro senhor, com invenções e baboseiras!..."
-"Isso é que era bom! - Troou. - Bater na mulher, o tanas. Bater na criada!"
-"Na mulher!" - Rugi eu, ainda mais alto.
-"Na criada!" - Trovejou ele, qual ciclone.
- "Na mulher!! - Urrei desmesuradamente. - E a prova disso é que o Ratolas, o teu grande amigo cadastrado, ainda há dias, quando foi a tribunal por bater sistematicamente na respectiva, ia acusado de quê, hein, não me dizes, ó Engenheiro-Arquitecto-Diácono & Webmonstro?!... Pois eu relembro-te: violência doméstica, aí tens. Até te fartaste de andar para aí, pela tasca, digo ciber-tasca, a clamar contra injustiça e a mariquice moderna que amputila as prorroncativas másculas e dinâmicas em patrocínio do Old Spice!..."
Julgava eu que o tinha encostado às cordas. Vã quimera.
-"O Ratolas...? - Nem se engasgou o safardana. - O Ratolas é um mister, um gentilmânfio, ora essa. É como se fosse meu irmão. Tu põe-te mas é em sentido quando falas do Ratolas. Trata-se é que o Ratolas anda com problemas de caixa. Não tem bago para contratar criadas, nem funcionárias das limpezas. Vai daí a mulher do Ratolas tem que desempenhar as funções dessa gadeza doméstica toda. Tremenda injustiça para o povo desabonado, bem se vê. Foi precisamente isso que ele, segundo me transmitiu, explicou ao juiz: "Meritório, eu em casa nunca lhe bato. À minha mulher? É que nem por sombras. É sagrada. Jamais seria capaz duma selvajaria dessas. É só no serviço, meriquíssimo, quando ela está a fazer as vezes da criada, da cozinheira ou da mulher-a-dias, aí é que, como Vossa Manjestade há-de comprender, tenho de lhe chegar, senão o estafermo não desenvolve!...Precisa dum estimulozinho extra. Anda a catalisador. Mas, repito, é só no horário de expediente: em casa, nunca."
E como eu pasmasse, o Caguinchas colmatou:
-"Portanto, até ia acusado de violência doméstica, só que, lá está: por bater na criada e não na mulher. Mas safou-se argumentando gestão neloliberal de recursos humanos."

Já perceberam quem é o guru desta besta?...


Disclaymore: considero um cobardia miserável qualquer agressão física dum homem a uma mulher, não obstante ambas as espécies serem cada vez mais raras hoje em dia. E também acho infame na versão caguinchiana de malhar na criada ou mulher-a-dias. Mesmo que a empregada doméstica seja um estafermo estúpido, pastelão e inepto. Pior que bater-lhe só vejo uma outra eventualidade ainda mais sinistra: colocá-la a desempenhar funções de ministro da república. Ainda por cima da Educação. No mínimo, é um incitamento à violência. Pública. E selvagem.
Leiam o Ideias Soltas. Está lá uma petição que merece ser assinada.



Ministério do Povo

Da Índia chega-nos um episódio galvanizante e um exemplo a considerar:
Dynaneshwar Sathawane, um político em campanha eleitoral, foi brutalizado e sumariamente justiciado por uma multidão pouco sensível aos seus dotes oratórios.
Nós, portugueses, que temos tradições em ir buscar coisas à Índia, deviamos meditar seriamente nisto. Se, antigamente, as especiarias enriqueceram a nação, esta "especialidade", agora, resgatá-la-ia seguramente ao fosso de indigência moral, política e económica em que chafurda.
Sou todavia contra o extremo da morte. Mesmo aos políticos. Mas considero que uma boa carga de porrada regularmente infligida seria, tanto quanto essencial, urgente. Não me resta mesmo qualquer dúvida sobre isso. Devia criar-se até o Ministério do Povo, onde se aplicaria tão primorosa profilaxia. Levavam-se lá os políticos como se levam os cães às vacinas: Pela trela. E devidamente açaimados.
Começava-se pelos políticos, claro está. Depois vinha-se por ali abaixo, em cascata: jornalistas, economistas, empresários, publicitários, comentaristas, artistas, jetessetes, etc, etc. Havia de ser um Ministério extremamente atarefado.

sábado, fevereiro 09, 2008

Sem luvas

«Acinetobacter baumannii» - decorem este nome. Parece que é o novo tamagogi das tropas norte-americanas no Iraque e Afeganistão. Está a ser distribuído gratuitamente aos hominícolas. São excelentes laboratórios, estes modernos açougues mascarados de guerras. Enquanto as cobaias se trucidam, o mundo pula e avança.
Entretanto, sobre a tortura em regime de outsourcing eu já aqui tinha falado. Mas nunca é demais falar. Para o engenho humano todos os encómios nunca serão bastantes. Vícios e pecados públicos, privadas virtudes.
De facto, a panaceia global chama-se "liberalização". Andam nisso já há um bom tempo. Segundo esta nova moral campeã, o genocídio, a carnificina ou a tortura, para além de outras trivialidades coalescentes, são hediondos quando praticados por nações, estados ou pessoas individuais. Todavia, são perfeitamente normais e necessários, bem como inimputáveis, benignos e civilizados, quando perpetrados por empresas e sociedades anónimas.
O que me transporta a uma curiosa constatação: aqueles que mais barafustam e se encabrestam contra o anonimato nas coisas insignificantes (como escrever blogues, postais ou grafitis avulsos), são os mesmos que menos se afligem com o anonimato que dirige e tripudia o mundo. É caso para dizer: escandaliza-os o pentelho na sopa, mas não os apoquenta minimamente o poste telefónico pelo cu acima.
Há gente que só não se lhe deve escarrar em cima poque depois nos acusariam de homicídio. Por afogamento.

Risada satânica

O webmonstro atacou de novo.

Mas já tenho o slogan para a campanha promocional:

Dragoscópio, um blogue iconoclasta com templates ainda mais polémicos que os postais!...

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Na Tangolaitezona, ou Napalm e água benta...



Agora, se refilarem, levam com o anil-verdinho outra vez!...
E se não conseguirem ler sem equipamento oftalmobélico, só vos faz é bem. Segundo o webmonstro de serviço, Engenheiro-Arquitecto (e agora também Diácono) Ildefonso Caguinchas, a ideia é mesmo essa. Tratem pois de adquirir uns óculos especiais, à venda nos estabelecimentos da especialidade. Porque sem eles, nada feito. Este, doravante, é um blogue tridimensional, algures na Tangolaitezona. E o espectáculo do napalm, sem protecção adequada para as miras, pode causar traumas dolorosos na sensível córnea do basbaque desprevenido.
Acresce que os tais óculos, além de vos protegerem a vista, também têm, para alguns espécimes espaventosos e particularmente resfolegantes (que prescindo de nomear pois eles tratam disso sozinhos), outra função muito proveitosa: enquanto usam os óculos, descansam dos antolhos. Pousam as funilantes palas por uns momentos. Porque ler o Dragoscópio com elas, sinceramente, não dá!... Nem há template que resista.

On the rocks


quinta-feira, fevereiro 07, 2008

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Cinzas

Bem, cá andámos - eu, o Engenheiro-Arquitecto (e agora também diácono) Ildefonso Caguinchas, a Luz, as Trevas e o sacana do Template -, às voltas, numa batalha cósmica, pelo domínio já não sei bem de quê. Às tantas, com tanta volta e reviravolta, eu já nem sabia se todo aquele imbróglio decorria no universo ou numa gigantesca máquina de lavar. Eventualmente, até estarei a colocar indevidamente a dicotomia: se calhar o universo é uma gigantesca máquina de lavar. Mas dá-me ideia que está avariada: a malta sai de cá bem mais suja do que para cá entra.
Resta-me agradecer às cinco boas almas que votaram em mim, numa mirabolante percentagem de 5% dos eleitores. Verifico, com inoxidável fleuma, que os actos eleitorais preferem invariavelmente a sacanice e os titulares académicos. Entre o sacana do Template e o Engenheiro-Arquitecto & Diácono delapidaram-se 66% dos votos, número cabalo que, podeis crer, não é pura coincidência.
Mas como entre a realidade e as escolhas eleitorais há sempre um abismo de diferença, conviria saber, depois do desfecho nas urnas, qual o desfecho na realidade...
Ora, aí, parece-me que falharam redondamente, os eleitores. As trevas comandam destacadíssimas. E abeiram-se da meta em ritmo veloz. Elas e - suspeito bem- eu, a reboque delas.
A sondagem que se segue é precisamente sobre isso.
Desejo-vos, a todos, uma boa quarta-feira de cinzas.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Uma nova sopa afrodisíaca?...

Agora que, por via da globalização pimpona, o dragão chinês se ergue cada vez mais ameaçador e concorrencial, o idílio da mão-de-obra semi-escrava começa a azedar. Subitamente, a China já não é o melhor dos mundos, o milagre do capitalismo, a síntese paradisíaca do mercado com a dentadura do proletariado. Mark Miravalle foi mirá-la e escreveu um livro - "The seven sorrows of China" - onde expõe as suas descobertas e pasmos. A política do aborto, sobretudo, estarrece-o. E, compreensivelmente, persigna-se e interroga-se:
É claro que o problema demográfico da China é complexo. E opera precisamente nos antípodas do nosso. Lá ainda podem argumentar que serve para combater uma proliferação desarvorada; cá, contribui para acelerar a extinção.
Não obstante, como não há bela sem senão também não há senão sem bela. A bela, neste caso, e excelente notícia para todos os nossos abortadeiros domésticos - berloquistas, fracturistas e outros modernaços incontinentes que tais -, é que, doravante, louvada seja a iniciativa privada chinesa, ao aborto, além de promovê-lo, apregoá-lo e receitá-lo a todas as horas, podem também consumi-lo e saboreá-lo com volúpia: sopa de feto, a 50 dólares o prato. Que tal? Não soa delicioso, irresistível? É só irem à China. Onde já têm, pelo menos, cinco restaurantes à disposição.
Até consigo imaginar a próxima campanha publicitária em chamariz ao eden turístico: "Sopa fetal! Um upgrade no caldo fecal diário onde mentalmente se alambaza e refocila."
Como diria o Engenheiro Ildefonso: "ah, gourmêses dum raio!..." Ninguém mais cá os segura.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ratman, ou Tomar balanço



Mais uma grande vitória da ciência:
«Cientistas conseguem infectar rato com vírus da gripe»
Conforme nos explica o artigo, até agora só os humanos e os chimpanzés apresentavam vulnerabilidade ao vírus da gripe. Ora, quando julgávamos que os ladinos homens da ciência estavam a tratar de reduzir o leque de espécies vulneráveis, subtraindo convenientemente a nossa, afinal, andavam a ampliá-las. Doravante, graças a eles, por hábil manipulação genética, os ratos também já são.
Tudo isto faz imenso sentido.
Claro que para cobaia já tinham o chimpanzé. Mas esse, em relação ao homem actual, era um parente apenas longínquo. Com o rato, formosa e sofisticada criatura, alcança-se, em veloz passada, o perímetro fascinante do irmão gémeo. Well done, boys!...

domingo, fevereiro 03, 2008

Insanidade mental

Conforme o quadro em epígrafe, no ano de 2006, só em Nova Iorque, as grandes farmacêuticas sacaram ao estado americano, através do programa Medicaid, em psicotrópicos receitados a crianças e jovens, qualquer coisa como USD 82.8 milhões. Algumas dessas drogas nem sequer estavam aprovadas pela FDA (Food and Drugs Admininistration - o Infarmed lá do sítio) para uso de crianças. A lista de efeitos colaterais é um mimo: diabetes, hiperglicémia, ginecomastia, tendências suicidas, coma, aumento de peso, descoordenação motriz, doenças do fígado ou pâncreas, etc. Quanto aos medicamentos, inserem-se quase todos na categoria dos antipsicóticos e pretendem tratar desafinações mentais das seguintes marcas: autismo, doença bipolar, défice de atenção, esquizofrenia, desordem hiperactiva et al.
Isto passa-se nos Estados Unidos. Mas na Europa existe actualmente uma tendência semelhante. O que significa que por cá a coisa também já marcha. Podemos mesmo testemunhá-lo a cada passo. Qualquer sopeiro, cabeleireira ou balconista, diante dum catraio que não ambule num estado vegetativo entre o zombie e o semi-cataléptico (isto é, que não interprete na perfeição um micro-adulto actual), desata a bradar, erudita e esbirrótica : "hiperactivo! Ele é hiperactivo! tem que levá-lo ao pedopsiquiatra!..." Há detectores psicométricos destes, no mínimo, de vinte em vinte metros. A não ser, bem entendido, que a criancinha seja de cor menos clara. Nesse caso, pelo contrário, todos concordam que estão diante dum jovem cheio de potencialidades, a desbordar-se em manifestações precoces de génio artístico. A começar nos professores.
Que conclusões podemos tirar disto? Que a nossa bela sociedade ocidental, o nosso tão celebrado modo de vida anda a criar autistas, esquizofrénicos, bipolares, alienados e frenéticos de empreitada? Sim, porque das duas uma: ou os anómalos pueris existem de facto às fornadas, exigem terapia e vigilância médica e, nessa medida, a sociedade é disfuncional (porque engendra proles avariadas à razão epidémica); ou as anomalias são forjadas por um excesso de psicopoliciamento pedagógico ao serviço dos interesses mercantis duma determinada mega-indústria mafiosa, acangotada por sua vez na própria desagregação familiar instituída, e, nesse caso, além de disfuncional, a sociedade é intrinsecamente criminosa, ameaçadora, minotáurica e nociva. De facto, nem sociedade se deve considerar, mas, ao invés, anti-sociedade. E merece, ela própria, em bloco, de urgência, tanto quanto um antipsicótico colectivo, um clister geral de alto a baixo.
No entretanto, agrava-se a suspeita: andam a tratar-nos da saúde. E começam cada vez mais cedo.

A bem da Saúde

A bem da saúde, o Estado, por cá, já baniu os fumadores da generalidade dos restaurantes. A bem da saúde, nos Estados Unidos, o Mississippi State Health Department projecta banir os obesos. Bem vistas as coisas, a bem da saúde, e da psicose de certos burocratas exorbitantes, faz mais sentido interditar os restaurantes aos obesos do que aos fumadores. Mas uma vez iniciada a lógica, a ordem dos factores acaba por ser irrelevante. Aposto que o nosso Duende Geral de Saúde, a esta hora, já anda a urdir planos. No mínimo, desmultiplica-se em telefonemas para Bruxelas, onde exprime toda uma série de angústias : "então e os gordos? E os obesos? E os idosos sem inspecção actualizada? E as criancinhas hiperactivas? E os devedores ao fisco? E os mal vestidos?... Já saiu a directiva, já?! Ainda demora muito?..."
Acreditem, não há-de repousar enquanto não puser a ASAE a patrulhar, além dos exaustores, as balanças ergonómicas com cancela e alarme detector, à porta dos restaurantes.
Os gordos que se cuidem.

sábado, fevereiro 02, 2008

Macabro alegórico



Confesso que o Carnaval do Rio seria o último local onde me ocorreriam polémicas sobre o Holocausto. No entanto, este ano, vá-se lá saber porquê, a escola de samba Viradouro lembrou-se de juntar ao cortejo alegórico um carro alusivo ao dito cujo.
Convenhamos que é de mau gosto. Ou então é globalização do xarope. Consequências da obsessão folclórica. Por este andar, qualquer dia ainda temos lojas de souvenirs do holocausto como temos McDonald's.
Bem, o certo é que a Federação Judaica lá do sítio, como lhe competia, protestou. Quanto a mim, desta vez, caso não tenham começado por financiar a escola, dou-lhes razão. Aquilo nem a mim lembrava, quanto mais ao diabo.
Em consequência do protesto indignado - e justo, repito -, uma juíza brasileira ordenou a retirada da macabra carreta. A federação, aliviada, regozijou-se com a celeridade da justiça.
Tudo isto me parece perfeitamente curial. A única parte engraçada é o nome da prestimosa juíza:
Juliana Kalichszteim.
Ter-se-à ouvido a ela própria?

O duplo regicídio

Os paralelismos entre o 5 de Outubro de 1910 e o 25 de Abril de 1974 são evidentes. E começam nos próprios regimes crepusculares que naufragam e colapsam miseravelmente. Mais que derrubados, esboroam-se, minados por dentro e infectados por fora. Resmas de parasitas endofagos cedem lugar a seitas de necrófagos exocomandados. Grande parte deles, transferem-se do dia para a noite. Amanhecem vermes rejuvenescidos, especialmente na gula erariofágica.
Prosseguem depois no folclore das festividades beneméritas e do circo redentor da pátria - a choldra republicana gemina-se na súcia democrática por via, sobretudo, de duas características emblemáticas: o assalto ao tacho "em nome do Povo"; e a marionetice - ingénua ou badalhoca - dos perpetrantes. Os republicanantes querem ser franceses; os democrateiros urgem em ser soviéticos ou franco qualquer coisa. Todos eles execram Portugal e a sua história. Frustrados de não terem nascido nas suas pátrias de adopção, decidem converter nelas a pátria natural. A solução para os problemas de Portugal é, assim e por receita transformá-lo numa França de pacotilha ou numa União Soviética de pechisbeque. Afonso Costa fantasia-se de Micro-Marat ou Robespierrezinho de trazer por causa; Santo Álvaro Cunhal imagina-se um Stalinezinho Zézusco omnipronto a sanar o partido a clisteres e purgas suaves.
E culminam, finalmente, os ditos paralelismos, nos resultados fatais e finais: a bandalheira instaurada, a corrupção exorbitante, a liquidação febril do país e a comsumpção galopante da sua independência.
Todavia, não me parece honesto, com base estrita nas peregrinações destes crápulas, fazer de conta que o que estava antes era um mar de virtudes. Dizer que o que estava antes era absolutamente bom não difere muito do dizer que o que estava antes era absolutamente mau. É uma retórica equivalente. Patinamos no mesmo tipo de propaganda e já vimos -aliás, temos a desprazer de experimentar ainda actualmente - onde essa prosápia adolescente conduz.
O facto é que a monarquia pós-Restauração teve trezentos anos para evitar o regicídio e o 5 de Outubro; assim como o Estado Novo dispôs de quase cinquenta para obviar à Abrilagem. Se, ao cabo de trezentos anos de monarquia, o resultado é a implantação da república, alguma coisa correu mal - e não se trata apenas de flatos e outras ventosidades históricas bufadas do exterior. Do mesmo modo, se ao fim de quarenta e oito anos de ordem nacionalista o corolário é o 25 de Abril, algo, nitidamente, deu para o torto. E não foi certamente numa noite. Atente-se que mais sintomático que o acto de derrube dum determinado regime foi a não defesa por praticamente ninguém desse regime.
Tudo somado, hoje como sempre, o que esta martirizada pátria menos precisa é de gente perita e virtuosa na técnica do avestruz - profissionais da auto-indulgência, da auto-complacência e da irresponsabilização aos molhos. Assumir a história é assumir a plenitude dos nossos defeitos e virtudes, vitórias e derrotas, glórias e frustrações, quer nacionais, quer pessoais e humanas. Já é mais que tempo de gritar basta a um país de auto-mutilados.
Que ao fim de cem anos de república eu me sinta cada vez mais monárquico, ou ao cabo de trinta anos de "democracia" eu dê comigo a admirar Oliveira Salazar é puro fruto da contingência. Convém não confundir com a essência. Perdê-la, a esta, é perder o sentido. Ora, é o sentido que confere alma e corpo a uma nação -pela comunhão dum fito, dum caminho e dum destino comum através das contingências. O sentido, precisamente, é a nossa meta-contingência. E, ou o temos e, nessa medida, somos, ou deixamos de o ter e, inerentemente, deixamos de ser. Tornar-nos-emos espanhóis, europeses, ameriqueus, afrolusos, mas portugueses é que não.
Para terminar, permitam-me o sarcasmo em forma de cereja: no dia 1 de Fevereiro de 1908, fez ontem cem anos, quando os carbúnculos iluminados estavam a massacrar o rei, apregoavam (como ainda hoje apregoam) que estavam a liquidar o pseudo-soberano em nome do real soberano, o povo. Mas na realidade, estavam, em nome do povo soberano, a cortar a cabeça... ao povo. O regicídio é sempre duplo.
E os libertadores afanosos dos rebanhos humanos têm sempre um outro curral em mente: o seu.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O Rei morreu. Viva o rei!...

Dizem-se republicanos, proclamam-se democratas. Mas não passam de sopeiras ideológicas, mulherzinhas-a-dias do Poder fardadas para a faxina politica. Equipadas de avental do Progresso e armadas de balde e esfregona da Moda, esgotam-se na lavagem da memória do povo. Derreiam-se na escovagem e desinfecção da história. Limpam o verdete e puxam lustro aos bibelôs da infâmia, às fancarias e porcelanas de importação. Prostram-se, em êxtase, diante do penico do ministro.
Que uma súcia de serviçais e lavadeiras destas não lhe preste qualquer tipo de respeito, ao rei chacinado, só faz é honrá-lo e engrandecê-lo aos olhos dos portugueses. Que, em contrapartida, canonizem os seus magarefes e façam deles heróis tribais só cumpre os preceitos e simpatias da classe e, em perfeita sincronia, abona da coerência da seita. Cada qual vê e reflecte consoante a altura lhe permite. Há quem respeite símbolos; e há quem adore espelhos. Um homem presta continência a um rei, mesmo morto, mesmo deposto como o faria à bandeira ou ao hino do seu país. Um pau mandado, um lacaio, um jagunço de aluguer, naturalmente, rende homenagem e reimprime-se noutro da sua igualha. No fundo, glorifica-se a si mesmo à distância. É justo. Os homens buscam reflexos dos deuses; os macacos contentam-se com reflexos seus na superfície estagnada de qualquer charco.
Compreender isto não é difícil. Nem sequer é preciso ser monárquico. Basta não ser uma pigmeuzinho mental - se bem que gigante na pulhice. E na abjecção.

Plágio descarado

Se é verdade que o Engenheiro mandante andou a assinar projectos de arquitectura que não eram dele, então só posso concluir que eram meus. Nas habilitacinhas liverárias, o tipo até chateia: passa a vida a imitar-me. Agora também já é arquitecto. O que vale é que eu, além de engenheiro-arquitecto, recentemente, também adquiri o grau de diácono. Mas por este andar, já não me admira nada que descubram, um dia destes, que o fulano andou a pregar e a milagrar nos Manás ou IURDes Laicos da Picheleira.

Ildefonso Caguinchas
Engenheiro-Arquitecto-Diácono

Da "unipolaridade" à "apolaridade"

A Estrada para Nenhures - II

Mas agora que a estrada, além de campa, palco, escritório, cabine e alcova, deveio também sala de parto dos cidadãos, começa finalmente a perceber-se a estratégia formidável que presidiu à adesão europeia e, sobretudo, à torrefacção abundante dos respectivos –e generosos – fundos estruturais. Afinal, toda esta boa gente que nos vem apascentando, quando desatou a asfaltar freneticamente, não estava apenas a governar-se, a orientar-se, a tratar do seu futuro e dos seus filhos: não, ó luz da conhecimento e da cência que nos iluminas!, estava também a governar-nos, a orientar-nos, a zelar pelo nosso. Benditos sejam, todos eles, os nossos guias preclaros! Com a genialidade própria - e só ao alcance duma raça de eleitos e predestinados! -, portanto, com dedo de mestre e mira de águia, delinearam a ampla avenida do nosso porvir radioso. Eles sabiam com exactidão, com rigor de regra e esquadro, qual a solução mágica para a chusma amotinada dos nossos problemas, qual a panaceia debelante da horda indisciplinada das nossas maleitas, qual o desígnio congregante da matula desordenada das nossas aspirações: era a estrada! Ah, a estrada... esse ovo, não já sòmente de Colombo, mas de Portugal inteiro. Essa cura assombrosa, não já e apenas do nosso calcanhar de Aquilino, mas do nosso pé de atleta amnésico. A estrada, ó deuses!, pista de corrida e de dança; lusodromo para a vida e para a matança! Nunca agradeceremos o bastante. Toda a paga será pouca. Daqui por duzentos anos, tal qual hoje se cita, com nostalgia, os pais fundadores da América, sereis relembrados, em êxtase, ó padrastos e enteados asfaltadores da nacinha.
O país zanzava pelos campos, aparvalhado, a tratar das verduras, ao ritmo do sino. Atrasado e obscuro, para ali estava, ancorado, sem ir a lado nenhum. Mas eles, possuídos de filantropia inaudita, colocaram-no na estrada. Já não havia mares para navegar, horizontes para rasgar? Havia a estrada. Os avoengos gloriosos foram de barco? Nós vamos de carro. De carro, de autocarro, de ambulância, à boleia, a reboque, a penates, seja lá como for, havemos de ir. Sempre pela estrada. Tudo pela estrada, nada contra a estrada. Onde a estrada leva é irrelevante. Chame-se-lhe “progresso”, “moda”, “globalização”, “maria joaquina”, idem aspas. O importante é estar nela. Engarrafá-la e bebê-la desde bebézinho. Inalá-la desde embrião. Absorvê-la até às fímbrias mais secretas da alminha desde os testículos paternos, ao ritmo trepidante de ralis, travagens e solavancos. É ela, santa, o nosso trunfo derradeiro, a nossa descoberta capital, o climáx da nossa esplendorosa aventura colectiva. A estrada, claro está, com toda a sua plêiade de avatares magníficos – a auto-estrada, a rotunda, o viaduto, a ponte, o túnel, o nó rodoviário e até o parque subterrâneo. Será com tudo isso, com todo esse fruto maduro de atelier e estaleiro, ninguém duvide, que superaremos e ridicularizaremos toda essa estranja sobranceira, a começar nos espanhóis hediondos e a acabar nos ingleses pedantes, espantalhos escarninhos, todos eles, do nosso destino avassalador. Porque a pedra - tremei ó escórias mundiais! -, a pedra filosofal temo-la nós. A pedra e não apenas a pedra: a gravilha, o saibro, a areia, o alcatrão também. Em suma, o asfalto filosofal é nosso. Simboliza o acesso culminante à profetizada idade de Ouro, que se aproxima a olhos vistos e a passos largos. A operação hermética entrou já em estágios para-sulfurosos implacáveis. Nada poderá detê-la. Bem pode a ONU espernear, a Nato estrebuchar ou o Lóbi sionista ameaçar excomunhão. Somos um rolo compressor e vamos a caminho.
Para toda essa gente bárbara, estulta, turbopacóvia, -deixem-nos rir! - a estrada é mero equipamento estrutural. Nós, porém, com mil anos de avanço, descobrimos que a estrada é a essência: a essência do país e do povo - a fusão sublime de ambos ao assalto do futuro. Para os ignaros das obras verdadeiramente públicas, cães infiéis todos eles, a estrada banaliza-se, servindo de mero tapete utilitário para o transporte entre a habitação e as funcionalidades económicas e sociais. Mas nós, que há muito voamos nela regularmente, sabemos que, bem mais que tapete utilitário, ela é tapete voador, trampolim para o Céu e arredores; portal de embarque astronáutico, não raramente. Lá está, senhores: enquanto eles se metem à estrada para ir a algum sítio banal das suas vidinhas programadas, nós, regalo vivo de Deus e dos anjos, metemo-nos nela para ir ao Céu e voltar (salvo a meia dúzia diária de excêntricos que por lá se instala, trocando o turismo pela colonização). Aliás, nem é correcto dizer-se que nos metemos nela: estamos nela. Vivemos nela. Cavalgamo-la com todas as nossas forças e paixões. Metemo-nos é, isso sim, se bem que cada vez mais esporadicamente, em casas, repartições, fábricas, estádios, escritórios, oficinas, escolas, etc... Mas apenas como meros intersticios dela. Intervalamos apenas para remuniciar as ganas e cevar os apetites. Todos esses equipamentos e mobiliários tão essenciais para os outros, servem-nos a nós como vagos pretextos para lá viver. Na estrada. Entregues às nossas cosmonáuticas.
Mas ir ao Céu não basta. O nosso espírito irrequieto e faminto de glória quer sempre mais, e os nossos líderes são jóqueis esplêndidos, autênticas carraças do nosso espírito fogoso. Por isso, além de nos utilizarmos da estrada para ir ao Céu, vamos agora, através dela, e regidos por eles, trazer o Céu à terra. O paraíso, qual esfinge óbvia, sempre esteve diante do homem. Mas só um país cozido e assado com a estrada poderia decifrar o enigma. E o paraíso é a estrada. Não só conduz ao paraíso: é já o paraíso.
Os outros, povos incuravelmente estúpidos, não me canso de proclamar, entendem que o paraíso se constrói à volta da estrada: com escolas, hospitais, fábricas, complexos de diversão fabulosos, etc,etc, tudo isso funcionando na perfeição do melhor dos mundos. Ora, o melhor dos mundos, todos sabemos, não existe fora da estrada. Todos esses belos projectos, todas essas legolândias para adultos infantilizados dão, invariavelmente, com os burros, uns na água e outros, o que é pior ainda, na administração. Em nome do paraíso, acaba tudo, por sina, no inferno da corrupção, do espólio e do locupletanço. É tempo perdido
Deixá-los, nessas maluqueiras e tricôs do absurdo alinhavado a embuste. Graças à locomotiva da nossa audácia, movida a carvão da nossa descoberta, vamos ultrapassá-los sem dó nem piedade e deixá-los para trás sem remissão.
Senão, atente-se: eles ainda precisam duma série de equipamentos e próteses supérfluas para viverem e existirem. Fatal contrapeso, âncora funesta, pobres analfabetos rodoviários! Para nascerem, precisam de maternidades; para se tratarem, precisam de hospitais; para se divertirem, precisam de teatros, cinemas, estádios e outros estábulos que tais; para rezarem, precisam de igrejas ou jornais; para aprenderem, precisam de escolas e universidades; para moverem guerras, precisam de inventar inimigos; para aterrorizarem a população, precisam de importar terroristas; para trabalharem, precisam de empregos; para comunicarem, precisam de telefones, computadores, correios. Toda esta traquitana dispendiosa e problemática lhes é indispensável. Observe-se, de resto, o duplo e descomunal embaraço: necessitam, por um lado, que toda aquela tralha exista; e depois, mais difícil ainda, necessitam que tudo aquilo funcione.
Pois bem, os portugueses, vanguarda destacadíssima da humanidade, emanciparam-se de todos estes sarilhos, empecilhos, cangas e preconceitos. Prescindiram de muletas e andarilhos. E, com a solenidade dos decretos transcendentes, preparam-se para enviar o restante mundo dito avançado para o aterro sanitário da sucata histórica e do ferro-velho socio-económico.
De que forma? As fórmulas simples são as mais letais. Assim, o português actual, o português anónimo, sempre que precisa de nascer, de tratar-se, divertir-se, aprender, rezar, comunicar, conviver, dar batalha, aterrorizar, telefonar, procriar, procurar emprego, trabalhar, ou que quer que seja, nem hesita: vai prá estrada. Já ganhou insígnias de instinto.
Aos antigos hebreus Deus enviou o Maná. A nós deu-nos a estrada. Ora, ao contrário dos campos, tantas vezes ásperos e ingratos, em boa hora largados às moscas, a estrada dá tudo. É duma fertilidade cornucópica. Deve ser da cor. Abençoados sejam os nossos pastores e profetas!
E reparem, mesmo para nos informarmos, trabalheira sinuosa em que os outros requerem, em permanência e à cabeceira, uma chusma de jornais, rádios, televisões, mais as respectivas catervas lalofrénicas de comentadores, explicadores, logotrituradeiras, enfardadores mecânicos e demais corujas empalhadas ou leitores da bola de cristal, pois, mesmo aí, nesse entulhado e rilhafolesco labirinto, o português resolve e descomplica, duma só penada genial: sim, vai para a estrada. Só que vai de táxi.
Ou de blogue.