quarta-feira, julho 11, 2012

Clientelismo e Cooptação

«Ao que parece, um liberto não era, como os clientes, obrigado a fazer uma visita protocolar (salutatio) ao patrono em todas as auroras; em contrapartida era muitas vezes convidado para jantar e normalmente era colocado, à mesa, não longe desses mesmos clientes. Entre estas duas espécies desiguais de fiéis diz-se que as brigas à mesa não eram raras: um cliente pobre suporta mal a concorrência, perto do patrono, de um antigo escravo próspero; os poetas Juvenal ou Marcial, obrigados, para sobreviveresm, a fazer a corte aos grandes, odiavam os ricos libertos, assim como os clientes de nacionalidade grega, porque uns e outros eram seus concorrentes.
(...)
O que é um cliente? É um homem livre que vem fazer a corte ao pai de família e que, em voz alta, se proclama como seu cliente; é rico ou pobre, poderoso ou miserável, por vezes mais poderoso que o patrono que vem saudar. Podem enumerar-se pelo menos quatro espécies de clientes: há os que querem fazer uma carreira pública e contam com a protecção do patrono; há homens de negócios cujos interesses serão servidos pelo patrono através da sua influência política, de uma forma tanto mais voluntária quanto frequentemente têm também alguma negociata com eles; há os Zé-ninguém, pobres, poetas, filósofos que muitas vezes vivem apenas das esmolas do patrono (entre eles muitos gregos) e que, não sendo gente do povo, achariam desonroso trabalhar em lugar de viver da protecção dos grandes; há, por último, aqueles que são suficientemente poderosos para pertencerem ao mesmo mundo do patrono e poderem então legitimamente aspirar a tomar parte no seu testamento, em agradecimento das suas homenagens (de facto, encontrar-se-ão entre eles as mais altas individualidades do Estado, como os libertos do Imperador, administradores todo-poderosos): um velho rico sem posteridade tinha muitos destes clientes.
Tal era a multidão, muito diversificada, que todas as manhãs fazia uma fila bem ordenada à porta do patrono, à hora a que  os galos cantavam e os romanos se levantavam. São algumas dezenas, às vezes centenas. (...)
A saudação matinal é um ritual; faltar a ela seria equivalente a negar o laço de clientela. Faz-se fila em traje de cerimónia (toga); cada visitante recebe, simbolicamente, uma espécie de gratificação (sportula), que permite aos mais pobres ter com que comer nesse dia; na verdade a gratificação seguiu-se a uma pura e simples distribuição de alimentos.... Os clientes são admitidos na antecâmara segundo uma ordem implacavelmente hierárquica, onde se reencontram as categorias da organização cívica; acontece o mesmo nos jantares, sendo servidos pratos diferentes e vinhos de qualidade desigual às diferentes categorias cívicas dos convivas, segundo a sua respectiva dignidade; tudo sublinha a hierarquia.
(...)
Tanto em Roma como nessas cidades, o poder pertence legitimamente a essa elite governante diferenciada pela opulência: só ela está qualificada para julgar que família deve ser recebida no seu seio. Os critérios legais, tais como a eleição ou a posse duma fortuna, são apenas um engodo, uma condição necessária mas completamente insuficiente; para um só senador, milhares de proprietários teriam podido ambicionar entrar para o Senado se a fortuna fosse o verdadeiro critério. A realidade da vida pública era a cooptação: o clube que constituía o Senado decidia se um homem tinha o perfil social particular que o tornava próprio para ser admitido no seu seio e se traria a sua quota-parte de prestígio colectivo partilhado pelos membros do clube. Simplesmente, a cooptação não era efectuada directamente pelo corpo de senadores; passava por uma das numerosas redes do clientelismo político.»

- Paul Veyne, in "História da Vida privada"


Sabem porque é que a cultura moderna detesta a antiguidade clássica e tudo faz para refundi-la e trancafiá-la em baús de sótão ou porão: porque é como as velhas gaiteiras, as harpias decrépitas e frívolas que adoram  plásticas, idolatram  cosméticas, mas  detestam espelhos.



6 comentários:

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Heterius foi o defensor dum liberto acusado de se ter deixado enrabar pelo antigo dono. Conseguiu a absolvição com o seguinte argumento, que se transformou em aforismo: Impudicitia in ingenuo crimen est, in servo necessitas, in liberto officium. Estamos aqui, talvez, perante o pecado simbólico da oligarquia.

dragão disse...

Agora tente o seguinte exercício: quem é que no nosso tempo equivale aos "libertos"?

zazie disse...

Excelente, Dragão.

lusitânea disse...

Temos portanto um regime clientelar.Com mais de 2000 anos de prática.Embora agora os clientes se refugiem em lojas, estilo catacumbas,a simular que andam a afeiçoar a pedra...

lusitânea disse...

PS
Mas vigora " um cidadão, um voto", no que eles colocarem na manjedoura...

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Bom, digamos assim: se o Relvas pertencesse à ordem dos cavaleiros, o Passos seria o liberto. Portas seria um tribuno da plebe e o Ricardo Salgado um patrício (embora duvide que se atrevesse a apresentar-se como descendente de Vénus).