sábado, julho 07, 2012

O mercado explicado aos otári... digo, crentes.




Não sei se já ouviram falar no lendário negócio das cascas de noz. Aconteceu de facto e eu relembro-o nos seus suculentos trâmites.
Um belo dia, uns tipos empreendedores colocaram no jornal o seguinte anúncio: "Compram-se cascas de noz". Por X, o quilo...
Rapidamente, a notícia correu. Uma série de gente afluiu, vendendo as cascas de noz que conseguiura agenciar.
Os tipos pagaram o preço anunciado e armazenaram o produto. De seguida, sob outra identidade, colocaram um anúncio semelhante: "compram-se cascas de noz! - a  X + 2".  Ao mesmo tempo, colocaram  à venda toda a casca de noz que tinham em armazém por X+ 1.  Claro está, todos os que lhes tinham vendido a casca de noz por X  convergiram a comprar-lhes a mesma casca de noz por X+1 para a venderem por X+2.. 
O esquema prosseguiu. A mesma casca de noz foi rodando num circuito fechado onde os tipos que tinham atribuído um valor à casca de noz , através de sucessivas transacções de idêntico quilate, foram aumentando esse valor. Estabeleceu-se assim o mercado da casca de noz. Um mercado bem rentável, por sinal,
 Por fim, quando já tinham um ror de mercadoria (casca de noz) e o valor desta tinha atingido um grande valor - digamos X+10 -, os fulanos colocaram dois últimos anúncios, cada qual com identidades diversas e fictícias: "compra-se casca de noz a X x 10" e  "Vende-se casca de noz a X x 9!"- Neste ponto, venderam , por um preço astronómico, toda a imensa quantidade de casca de noz que tinham acumulado, e... desapareceram. Os engodados e convertidos ao mercado da casca de noz que haviam adquirido toda a mercadoria descobriram, subitamente, que não existia ninguém para a comprar. Ou seja, que a mercadoria afinal era lixo. Muitos deles, investidores fogozos no lucro rápido, experimentaram a fatal ruína. Um magote indignado correu à Judiciária, clamando contra a horrível burla,  a ignóbil  moscambilha de que tinham sido alvo.

Pois bem, caros leitores, o chamado mercado financeiro funciona em moldes muito semelhantes ao da casca de noz. A diferença significativa reside não na subtância, mas na proporção e na protecção de que é alvo por entidades públicas sob sequestro. Quer dizer, os burlões do mercado da casca de noz tiveram que suportar a investigação e a perseguição policial; os ciganos do mercado financeiro, em contrapartida, têm a protecção das polícias e tribunais, a bênção da opinião publicada, a inerente benevolência das massas, e o resgate garantido e cíclico dos contribuintes. Isto é, de cada vez que se descobre o inevitável, ou seja, que se andou a transaccionar lixo, os vendedores e comissionistas da finança são indemnizados pelo Estado.  E subsidiados opiparamente para reiniciarem novos esquemas.  Exagero meu? Infelizmente, nem a ponta duma pinga!...
É que o valor não é determinado pela procura. O valor é controlado por quem condiciona, controla ou teledirige a procura.

6 comentários:

zazie disse...

clap, clap, clap

":O)

mujahedin مجاهدين disse...

Não esquecer que numa vigarice há sempre dois vigaristas.

Gente honesta dificilmente cai em vigarices, porque resiste à tentação de obter mais do aquilo a que tem direito ou que seja justo, por mais fácil e inconsequente que pareça.

A maneira mais eficaz e duradoura de acabar com vigarices e moscambilhas, não é perseguir os vígaros. É formar gente honesta.

dragão disse...

Mujahedin,

ressalta à vista: num mundo cada vez mais dominado e patrulhado por choldras desonestas, turbas gananciosas e papagaios voluntários vê-se bem o tipo de gente honesta que está a ser formada. meu caro, o sistema em curso não forma: deforma. Deforma e in-forma.

mujahedin مجاهدين disse...

Nem outra cousa seria de esperar.

O problema é que estamos todos à espera que mude, e não vai mudar. Só vai piorar mais e mais até que, um dia, um inspirado tome sobre si a responsabilidade e a missão de purgar brutalmente a escumalha dos lugares de poder e seja bem sucedido.

Será porventura até lembrado, mais tarde, como um criminoso ou um louco. É muitas vezes essa a sorte daqueles que sacrificam uma ou toda a parte da vida em favor de ideais que consideram elevados.

Resta saber quanto perderemos irremediavelmente, como País, como Nação, como Comunidade e como Povo, até semelhante coisa suceder.

E, sobretudo nós - que de uma ou de outra maneira temos lucidez suficiente para compreender a tragédia que se desenrola perante os nossos olhos - que pensarão de nós nossos filhos e netos, os poucos que ainda tiverem um modicum dessa tal lucidez por lobotomizar, acerca da nossa conduta? Não perguntarão eles: porque não agiste?

Que resposta temos para dar? O meu caro anfitrião ainda poderá argumentar que, se não desfere umas espadeiradas pelo toutiço da escumalha abaixo, pelo menos sempre as vai pintando com pena talentosa por forma a sacudir as massas do torpor que as anestesia.

Agora eu e tantos outros iguais a mim, que resposta poderemos dar?
Isto atormenta-me.

Ricciardi disse...

É uma excelente ideia.
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Não é preciso ir mais longe: um mês antes da grande crise de 2008, grandes casas de investimento (ok, alguns eram judeus) recomendavam a compra de determinados papeis que colapsaram. Ao mesmo tempo apostavam na descida (short-selling) dos mesmos.
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Uma boa golpaça.
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Outra golpaça ainda maior é o que fazem os bancos na gestão de carteiras. Gestão (descriccionaria) de carteiras (de titulos) dá ao banco a possibilidade de agir em nome do cliente que lhe confia o seu dinheiro para o aplicar da melhor forma. O que acontece é que os bancos tambem tem os seus proprios investimentos. Seus, do seu proprio dinheiro. E quando esses investimentos dão para o torto, a Gestão de Carteiras compra esse titulos ao Banco democratizando pelos clientes as perdas.
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Eu assisti a isso quando há uns bons anos atrás trabalhei num banco de investimentos...
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Em Angola faz-se de forma diferente, faz-se o Açambarcamento. Estaciona-se navios de arroz ao largo espera-se que ele falte no mercado. Quando ele falta os preços atingem valores altissimos e vai daí descarrega-se 1/4 de navio... espera-se mais um bocado e descarrega-se mais um bocado. Multiplica-se por cinco os ganhos.
Quem diz arroz, diz outra coisa qualquer.
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PS. Agora fiquei a pensar nas Cascas de Noz. Caraças era boa ideia.
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Rb

mujahedin مجاهدين disse...

Essa dos barcos do arroz é do caraças... Mas não surpreende, infelizmente.

É uma porreira para atirar às trombas dos profetas da auto-regulação. Que imbecis...

Então mas ò Rb, combine a do arroz com a das cascas e é sucesso garantido!

1 - Crie uma necessidade de casca de noz no mercado, per história do Dragão
2 - arranje dois ou três barcos cheios dela e estacione-os ao largo
3 - ???
4 - Profit