quinta-feira, março 22, 2007

Era uma vez no manicómio

Aconteceu no Oeste. Num belo dia, José Luís de Jesús Miranda achou por bem proclamar-se a reencarnação de Cristo, fenómeno a que poderemos chamar muitas coisas menos raro. Logo uma multidão de acólitos e sequazes coalesceu em seu redor. Ninguém duvidava do prodígio nem vacilava na fé. Ninguém duvidava nem duvida, pois a igreja entretanto constituída já congrega milhares de crentes em vinte países e "movimenta milhões de dólares".
Recentemente, porém, em novo acesso fulgurante, o "Cristo reencarnado" descobriu que afinal não era Cristo. Pelo contrário, era o anti-cristo. Mudou pois de avatar como quem muda de embalagem. Em conformidade, e para que ninguém duvidasse da sua sinceridade profunda, desatou a queimar crucifixos e correu a tatuar-se com o número da Besta. Desilusão ou escândalo entre os fiéis do "Cristo reencarnado"? Repugnância? Horror estupefacto? Nem por sombras. Cúmulo da maravilha, isso sim. O ídolo tornou-se ainda mais popular. A devoção alcançou novos píncaros. O rebanho, por natureza, apenas reconhece Deus no seu pastor. Por conseguinte, largaram todos a tatuar-se e a maltratar os crucifixos que traziam ou guardavam lá em casa. Em suma, de bom grado se modernizaram e evoluíram. Tal qual daqui por uns tempos, a avaliar pela dinâmica inerente a todo este processo, quando o José Luís revelar que afinal não é a reencarnação do anti-cristo, mas sim a manifestação viva do Grande Arquitecto, correrão todos a vestir aventais; ou, na estação seguinte, quando o Grande Arquitecto José Luís se auto-promulgar Big-Bang em Pessoa, desatarão, eventualmente, a plantar explosões em todos as esquinas e buracos negros vertiginosos nos altares.
Não riam. Isto é verídico. Embora mais pareça uma alegoria sobre o Paulo Portas.

4 comentários:

a voz disse...

Ilustre César Augusto Dragão, depois de Vossa Senhora ser considerado o José Agostinho de Macedo do século XXI (subscrevemos a afirmação), agora surge a faceta de Realizador de Cinema, o “nosso” Sérgio Leone.
Com que então, “aconteceu no oeste”!
Excelente…

dragão disse...

Presumo que onde Vosselência grafa "Vossa Senhora" queria dizer "Vossa Senhoria", porque, senão, devo entender que a minha dilecta esposa é considerada o "José Agostinho de Macedo" do século XXI, o que, convenhamos, me deixaria, no mínimo, inquieto. E a ela furibundíssima, caso soubesse disso.
Quanto a tal consideração propriamente dita, aproveito para confessar que não me deslustra - pelo contrário -, mas também não me esgota. Longe disso.
Direi, resumidamente, que partilho com ele o "putanheiro", "arruaceiro", "ferrabrás das letras", "polemista", mas não o talento literário, que nele superabundava e em mim, a cada dia, mais fenece.
A verdade, porém, só o Tempo a dirá: se sou eu um epígono dele; se foi ele um precursor meu.
Isto, bem entendido, se eu tiver tempo. Ou seja, se o meu sonho corresponder, ou não, à vontade de Deus. (Pessoa dixit)

a voz disse...

Vossa Excelência perdoará o erro!

Mil desculpas.

Mário

dragão disse...

Caríssimo,

não tem nada por que pedir perdão, nem,mesmo que tivesse, auferiria eu deessa capacidade, pois, como bem sabe, é propriedade exclusiva do Altíssimo. Estava apenas a mangar consigo. Mas é pena que a sua falta não tenha sido gravíssima, pois assim, vil e mesquinho como sou, teria oportunidade de pedir a Deus que, por penitência, lhe determinasse um castigo exemplar - como, por exemplo: um massacre completo dos seus vermelhos pelos meus azuis num certo Primeiro de Abril que está aí a rebentar. :O)


Até lá, um excelente fim de semana e parabéns pelo blogue. O personagem merece e eu lá estarei para lê-lo.

César Augusto