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Quarta-feira, Abril 20, 2005

Vão chamar Papa a outro!...


Eu não sou católico. Não sou, pronto, e a culpa é de Deus. O Deus dos católicos, quer dizer. É demasiado judeu e romano para o meu gosto. Há Jesus a menos e Paulo de Tarso a mais. Isso e umas duas ou três incapacidades minhas, estruturais, congénitas, para o decálogo – aqueles 6º, 7º e 10º mandamentos, convenhamos!...Especialmente o 6º... Quanto mais não fosse, a existência de espanhóis, entre outras, impedir-me-ia de ser católico.
Mas isto de não ser católico é problema meu. É entre mim e o Criador: no fim acertamos as contas. Eu e Ele. Dispenso intermediários, mediadores, alcaiotes das alminhas.
Em contrapartida, assim como as minhas telhas são problema meu, já o papa é problema deles, dos católicos. Deles e de mais ninguém.
A mim, se elegem fulano ou sicrano, se o espírito santo decreta este ou aquele, é-me rigorosamente igual. Se é preto ou branco, brazuca ou ariano, conservador ou liberal, eles que o aturem. Até pode ser chinês, que os abalos são os mesmos. Meto-me na nomeação dos ayatholas? Intrometo-me na vida do Dalai Lama? Mando palpites ao patriarca ortodoxo? Então, porque carga de água, havia de estar para aqui a rosnar ao conclave, a ladrar à chaminé ou a dar urros e a descabelar-me à varanda?!
É forçoso que ser de esquerda (ou liberal, que é a "esquerda-light", descafeínada e sem álcool) seja sinónimo de ser um badameco dum incontinente mental e, sobretudo, verbal, que, a toda a hora, faça chuva faça sol, tem que estar a cagar postas sobre tudo e mais alguma coisa?
Quer dizer, assim como os papa-hóstias, de todas as capelas, se arrogam em detentores exclusivos da procuração divina, estes putativos "não-papa-hóstias" armam em procuradores auto-arvorados da humanidade, em baluartes honorários da filantropia e do progresso. Sabem o que vos diz esta porção de humanidade? Certamente adivinham e prende-se com o orifício materno.
Mas, entretanto, aqui d’el rei, que os católicos elegeram um papa católico. Havia de ser o quê? Protestante? Muçulmano? Socialista? Devia ser democraticamente eleito, pela chusma que faz da opinião uma espécie de cagar aos cantos ou mijar nos muros? Para ser correcto, está-se mesmo a ver, na opinião destes campeões de muceque, o conclave devia ser televisionado, estilo "capela das celebridades", com a Júlia Pinheiro a fazer as honras, em directo na TVI, e à mercê dos caprichos e votações da choldraboldra, a expulsar cardeais até que só restasse uma espécie de bicha Castelo Branco, de anel e mitra.
Ainda bem que o papa é católico, puro e duro, sem meias-tintas. Para metrossexuais do pensamento já nos basta toda esta turba, sem credo nem vértebra, sem coluna nem fé, sem princípio nem fim, nada, excepto um cabrão dum ego inflacionado, a ameaçar as estrelas e a eclipsar o sol. Com tanta metrossexualidade política, dispensamos bem, ainda mais, a metrossexualidade religiosa.
Talvez Jesus, lá onde está, se envergonhe de muita da proclamada "direita" que por aí grassa, e de católico, como diria Pessoa, e dizem alguns filósofos, tenha muito pouco. Mas, mesmo ele, na sua infinita humanidade e misericórdia, mandou dar a outra face, não mandou dar o cu.
Assistindo ao histerismo peixeirante de toda esta escumalha das ideias, a toda esta vaselina de plantão ao pensamento, a mim, até me dá vontade de ir ser católico. Sempre é preferível a hóstia, via oral, que o mesmo remédio, só que mais concentrado, sobredosado, esterilizante, e em forma de supositório expresso, pelo fundilho da coluna.
Vergonha dos homens, vergonha da esperança num mundo melhor, é toda uma "esquerda" pidesca, bufa, cretina, a espernear e a espumar epilepticamente. Com uns argumentos e poses de tal modo estimulantes, que, um dia destes, não resisto e corro à feira da ladra a enfarpelar-me numa farda das SS (vi lá uma das Tottenkampf, ainda não há muito tempo, toda catita). Vai ser uma carga de trabalhos para me fazerem despi-la. Acho que até vou dormir com ela.