domingo, fevereiro 11, 2007

Voltas ao bilhar grande - II

«Passou o tempo do nacionalismo económico

A tendência actual para a criação de grandes espaços económicos onde se movimentem livremente os homens, os capitais e as mercadorias vem abrir novas perspectivas, criar novas preocupações e onerar com novas responsabilidades os governantes e empresários.
Se bem que a Nação continue a ser realidade bem presente no espírito e no modo de viver do homem europeu, os tempos do nacionalismo económico vão passados.
Nem conseguiríamos - nós e outros povos da Europa Ocidental - fechar as fronteias aos movimentos da mão-de-obra, nem evitar que os capitais, mobilíssimos por natureza, busquem os lugares e aplicações mais rentáveis, nem já agora erguer barreiras proteccionistas a cujo abrigo as actividades nacionais possam vegetar sem competição exterior.
Temos de nos penetrar bem destas ideias até para deixarmos de encarar as aplicações de capitais estrangeiros no nosso país como actos de colonialismo económico. Esses capitais serão bem-vindos, quando venham efectivamente ajudar ao fomento interno e não explorar-nos, e tudo o que devemos fazer é evitar a sua proveniência de uma só fonte, facilitando a diversidade nacional dos investidores.»

- Marcelo Caetano, in "Discurso pronunciado ao Palácio da Bolsa do Porto, em 21 de Maio de 1969"


Portanto, se bem entendo, o 25 de Abril de 74, segundo as fábulas oficiais, foi feito para derrubar uma coisa que não existia - o fascismo - e para instaurar uma coisa que já estava a ser instituída - a democracia liberal com preocupações sociais.

6 comentários:

Carlos a.a. disse...

Estas voltas ao bilhar grande estão muito bem caçadas, Dragão. E é interessante que nem de anacronismo poderemos criticar - é que já Marcelo enfrentava os mesmos problemas e aventava as mesmas soluções.
Mas, hélas, é verdade que hoje há gente que ou nem aqui chega (transviezada por neoliberalismos à mão invisível, do tipo salve-se quem puder) ou acha que inventou a pólvora bem mesmo agorinha!
Marcelo ainda tentava, pela via da disseminação da fonte, proteger-se do capitalismo selvagem; hoje os selvagens são para o sado-masoquistas - sabem que vão levar nos miolos, mas parece que gostam!

filipelamas disse...

Parabéns pela qualidade do blog!

Erecteu disse...

Dizia-se na altura que o Sr. Presidente do Conselho "FAZ PISCA-PISCA À ESQUERDA E VIRA À DIREITA".

Há muita gente que hoje ainda não percebe a piada, pelos vistos.

Diogo Vaz Pinto disse...

Há muita gente que simplesmente não se dá ao esforço de perceber o essencial e depois também há muita gente que não sabe medir a inteligência e a capacidade de um bom governante numa situação delicada.

Erecteu disse...

Até parece que ainteligencia só por si é alguma coisa que valha, sem se aquilitar ao serviço de quê.
A capacidade é exactamente a mesma coisa.

Um exemplo, da ficção: Hannibal Lexter, exemplos da realidade há muitos, não há?

Diogo Vaz Pinto disse...

Há muita gente que simplesmente não se dá ao esforço de perceber...