quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Ironia Divina


Se Deus tivesse um plano, então Deus não seria livre. Pior: se Deus tivesse um plano, adquiria a estranha e fatal tendência para tornar-se supérfluo. Quem diz um plano, diz uma ideologia, uma religião.
De todas as violências de que o homem é capaz - e são muitas, incontáveis, inesgotáveis - nenhuma supera aquela que consiste em impor um plano a Deus. É impor-lhe deveres, tarefas, obrigações. A limite, é impor ao Criador que seja criado da criatura. Baby-sitter. Por decreto duma assembleia de vermes, um Deus de vigília aos porquinhos. A escutar, com paciência transcendente, as suas bacoradas, os seus grunhidos e resfôlegos de volúpia no chiqueiro. Um divino despromovido a responsável máximo da pocilga. Ama seca de chucha e biberão ao domicílio. A ter que dar colo a uma espécie particularmente mimada, mal educada e ranhosa. Sim, porque - é garantido, até está escrito - Deus tem um plano. Um plano inescrutável, mas infalível, para transformar o toucinho em espírito, a cerda em asa e os suínos em doutores. Vai demorar uma Eternidade, mas não falha. Em resumo, um Deus de trazer por casa e por causa. Um Deus ancorado a um monte de bosta. Mas que puta de mentalidade é esta, meus irmãos?
Ah, mas obstar-me-ão os "práticos" do quartel, Deus, precisamente porque é absolutamente livre podia optar por ter um plano, ou seja, podia escolher não ser livre. Tornando-se, concomitantemente, escravo duma espécie, classe, clube, seita ou mero grupo excursionista. Estremeço perante tão portentoso argumento. Experimento vertigens e suores frios. Quase me prostro aterrado. A explicação das putativas bizarrias de Deus é exactamente igual à dos impotentes assalariados do nosso tempo. Têm toda a liberdade do mundo para serem escravos de tudo e mais alguma coisa - desde as vísceras às bugigangas e gadjets imarcescíveis.
A verdade é que aqueles que fizeram de Deus criado do Homem agora surpreendem-se e persignam-se muito quando o burguês, todo ele a escorrer protagonismo e desembaraço, prescinde dos serviços ambos. Mas era fatal: Deslocalizou a fábrica do Universo e mandou-os aos dois, ao Pai e ao Filho, para o desemprego.
E o mais irónico –vingança nitidamente divina, na vertente genuína do termo – é que quando a burguesia, nos seus diversos avatares –maçónicos, esquerdalhos, ateístas, liberdadeiros, libertadários – desata às patadas à Santa Madre Igreja mais não reflecte que uma singular e travestida complexidade edipiana: a do pequeno asno que, mal se apanha fora da matriz, desata aos coices na mãe ruça. E, tudo leva a crer, escoicinha a mãe, porque desconhece, desde sempre e para toda a eternidade, o paradeiro e a identidade do pai.

11 comentários:

ab disse...

Deus existe ou não existe?

ringthane disse...

É irrelevante para o propósito do tempo com que nascemos.

dragão disse...

Existe (ou não existe) onde?

Paulo disse...

haja sentido de humor, sem isso a pocilga seria insuportável...

Lusgon disse...

Donde se tira: - Afinal Deus deve jogar mesmo aos dados com o Universo. Mas não é preciso levar a mal, deve ser só para se divertir, depois de alimentar e limpar a pocilga, isto é.

Pandora disse...

Caríssimo Dragão,

Não resisti à tentação de o ler. Estranhamente e contrariamente ao que normalmente me sucede quando o leio, o seu escrito “Ironia Divina”, não se me ofereceu, num primeiro momento, como um convite à reflexão. Ironicamente, conduziu-me a uma profunda inquietação e à percepção de como é difícil afastar-me de mim própria, alcançar o distanciamento necessário, para poder discernir em temas que me são tão caros e que de uma forma perfeitamente emocional, repentinamente se revelaram na minha pessoa como verdades praticamente irrefutáveis.
Numa tentativa, talvez vã, de me ultrapassar, destruo, enquanto escrevo, o meu Eu. Separo-me de mim própria.
Sempre acreditei no princípio da existência de um “Plano de Deus”. Plano esse que, para mim, se encontra consubstanciado na Bíblia.
Neste momento questiono-me. O que será realmente um “Plano de Deus”? Um Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente nada precisa de planear. Admitir a existência de um plano de Deus, seria admitir que Ele é tão limitado como nós.
Planear é um acto de criaturas limitadas e inevitavelmente cairíamos numa perigosa contradição.
O Criador jamais se circunscreveria à Criação, a Criação é que se encontra circunscrita ao Criador. (Não acredito que estou a escrever isto…).
Se existisse um “Plano de Deus”, para além da descrita tendência de Deus se tornar supérfluo, como o Dragão refere, tornar-se-ia previsível e escravo da sua própria Criação.
Se tudo fizesse parte do aludido “Plano de Deus”, então Deus teria deliberada e conscientemente planeado todas as desgraças, todas as catástrofes, todas as guerras. Se assim fosse, estaríamos perfeitamente ilibados por todos os actos por nós praticados. Afinal a culpa por todas as nossas acções, por todas as nossas atitudes seria da responsabilidade de Deus. Seríamos convenientemente inimputáveis. Que útil argumento de defesa para a maldade humana!
Consigo agora sentir o significado da “vingança divina”, perante a nossa atitude de ousarmos condicionar a liberdade de Deus.

Os meus cordiais cumprimentos,

Pandora

Thoth disse...

Estou aqui!

Só tendes olhos...para, imaginem...

dragão disse...

Cara Pandora,

congratulo-me que tenha alcançado -quase diria, na perfeição - o cerne do problema que levanto. Evidentemente, os problemas são como as cerejas, há aqui muito campo de debate e, sobretudo, reflexão. Mas dá gosto constatar que ainda existe quem se dê, mais que ao trabalho de ler, ao prazer ocioso (e, nessa medida, "divino") de pensar.

Sempre a considerá-la,

Dragão

dragão disse...

também apreciei o comentário do Lusgon. Aproveito para informá-lo de que não tenho nenhuma tese, iluminada ou clarividente, para as "actividades de Deus". É mesmo algo que me transcende em absoluto. E fico deveras feliz que assim seja.

Lusgon disse...

Bem eu tenho uma tese sobre o plano de Deus. O gajo vai a conduzir o carro, que neste caso também é ele próprio, e como será (?) um ser inteligente e sensível tem mêdo de se diluir no nada, logo abrada, tem mêdo de colapsar sobre o seu próprio peso, logo acelera. Nós somos apenas o circo de pulgas para se entreter quando se sente só. Nesta minha teoria Deus é absoluto, mas relativamente ao que pode ser considerado absoluto nesse preciso instante, é omnisciente, mas só em tudo que pode ser, no momento, conhecido, todo poderoso, mas só em tudo aquilo que pode ser conseguido num determinado instante. Um Deus absolutamente relativo, pois, se fosse absolutamente absoluto seria uma pedra incapaz de crescer e evoluir, a sua mortalidade nunca estaria em causa mas não lhe serviria de nada. Assim evolui e cresce mas tem de ter a noção absoluta do seu crecimento para não se arriscar a morrer. Não estou a dizer que Ele é mortal no sentido humano da coisa, estou só a dizer que está permanentemente em cheque, tal como todos nós. Quando me falam da morte e da vida depois da morte (Do como) eu costumo pensar que se Ele o fez uma vez pode faze-lo outra, logo também Se poderia fazer outra vez. A única coisa que perderia é o que temos de mais abundante no entanto de mais precioso. O tempo. É por isso é que ninguém faz porcaria, ou arrisca-se a fazer a mesma porcaria duas vezes, se lhe bastar a primeira para perceber o porquê da porcaria em questão.
Para mim Deus é a negação do nada. É o Tudo que para chegar a tudo teve de se negar a si próprio. Depois como Deus teve de se negar a si próprio para ser Pai. Sem Homens não haveria nem bem nem mal. Os Homens ao tornarem-se consciêntes do bem e do mal tornaram Deus no imediato mais relativo ainda. Não estou a dizer que Deus funciona numa base de bem e mal, acho que isso é apenas um passo intermédio de consciência. No fundo Deus é um gajo que aposta tudo para obter tudo e mais qualquer coisa. E a culpa é da porra da luz, que ao ser o seu primeiro feito (?) provou a Ele próprio que Ele próprio existia. A partir daí o resto é a sequencia ntural das coisas, por outras palavras, a criação cria o Criador ao ser criada por Ele. Para mim Deus para ser qualquer coisa teve de ser, antes, o zero absoluto, quando não converteria-se na velhinha pergunta que me atormentava na minha infância: "E antes disso?".

P.S.: Isto é só uma pancada minha. Existe para dar sentido à minha vida, para me permitir viver comigo próprio, não tenho nenhuma vontade que isto seja tido como verdade para os outros. Digam-me a vossa verdade e eu, se a achar verdadeira o sufeciente, incorporo-a na minha. Desculpa os erros ortográficos mas faltou o corrector...

Lusgon disse...

No fundo Deus é um de nós. E só não digo o contrário porque, a ser assim, estariamos todos fu#$*%&