domingo, maio 06, 2012

Latagão legal

Segundo o Joaquim, que agora também é Couto, fico a saber duma petição embrionária. Mas, mais que isso, tomo conhecimento de que "a ilegalização das vendas com prejuízo" o repugna, pois, conforme certifica: "Viola a livre iniciativa, o mercado e a concorrência, prejudicando, em última instância, os consumidores."

Muito bem dito. Apoiado! A mim, além de me repugnar, enfurece-me, enoja-me, impregna-me dum elevado asco, essa tal ilegalização, diabos a levem!... Sobretudo, estando em causa as grandes superfícies comerciais, essas novas-Mecas (ou Barda-Mecas ) do santíssimo consumo. Nesses templos abençoados, e nestes tempos difíceis, juro-o aqui solenemente, as "vendas com prejuízo" não deviam ser apenas legais: deviam ser obrigatórias. E permanentes! E aqueles sumptuosos parques não deviam estar apenas abertos aos dias úteis, sábados, domingos e feriados... Não senhor, deviam abrir dia e noite, crepúsculo e madrugada, almoço e jantar, sempre a vender, sempre a saldar. Com prejuízo, naturalmente. Com enormes prejuízos, melhor dizendo, por via de promoções de arromba e descontos em catadupa!
Permito-me sublinhar e extrapolar o maravilhoso e a perfeição dum tal regime: se a ilegalização das vendas com prejuízo viola a livre iniciaticva, o mercado e a concorrência ( e viola, brutalmente), prejudicando, em última instância, os consumidores (desgraçados, cristos!), então a obrigatoriedade, ao invés, desposa amorosamente a livre iniciativa, o mercado e a concorrência (por turnos, bem entendido), beneficiando, em primeira instância, os consumidores. Se isto não é o paraíso terreal, vou ali e já venho!...
Portanto, ó Joaquim Couto, não se fique pela peticinha: vá mesmo para a petição! Apenas autorizados, não: OBRIGATÓRIOS!!

sábado, maio 05, 2012

Da estupidez ribombante




Na altura, eu não estava no activo, mas mesmo que estivesse a verdade é que não me apercebi da pérola que se segue, nem, tão pouco, acompanhei a polemicazinha. E é uma coisa de estalo. Que passarei já a explicar porquê...

De Jesus Cristo, por quem nutre um indisfarçável apreço, Nietzsche tem uma curiosa definição: "foi o primeiro e o último cristão." Havemos de concordar que Nietzsche é uma personagem insuspeita, sobretudo de qualquer cumplicidade com a Igreja católica. A sua, algo redutora, tese é conhecida: o Cristianismo não é uma coisa de Jesus, é uma coisa de Paulo. Ora, isto, não sendo totalmente falso, também não é totalmente verdadeiro. Mas é o que é e vale o que vale.
Desçamos agora da estratosfera à esterqueira da esquina. No seu nível inferior, para ser mais preciso. Perguntava, lá pelos outubros idos, o besta-seller José  Rodrigues dos Santos acerca de não sei que palúrdice estrepitosa que lhe titilava a fossa entre-orelhas:

«A Igreja nega ou não nega que Jesus era judeu - e, consequentemente, que Cristo não era cristão?»


Há duas coisas (fora a matemática) que no ser humano, nos mais sofisticados exemplares, conseguem raiar o infinito: a estupidez e a ganância. No presente caso não errarei muito se disser que estamos perante um cocktail explosivo de ambas. Isto devia ser afixado e reavivado todos os dias. Deviam esfregar-lhe o focinho neste despejo e ministrar-lhe sovas de rolo de jornal todas as manhãs. A sério. Estou habituado à contemplação heróica dos maiores monumentos da cretinice do nosso tempo. Mas até eu, confesso, quando li isto, deixei cair o queixo. Tinha este personagem na categoria dos montes de merda. Afinal, pequei: por nítida escassez. É uma serra, uma cordilheira alpina, uma austrália completa!

Os da Igreja, com algum humor comiserado, como lhes compete, acusaram-no de estar, com enorme espavento, a tentar arrombar uma porta aberta. Mais rigoroso teria sido acusarem-no de estar a tentar, aos bramidos, engravidar uma nuvem. Sem entender sequer que a sua putativa e putanhosa polémica (questiúncula, melhor dizendo) nem sequer era com a Igreja: era com Nietzsche.


PS: Para os confusos, liberais e incultos dos costume, convém que eu lavre aqui um esclarecimento póstumo: neste postal não existe qualquer ataque ad persona ( a pessoa do Rodrigues dos Santos é uma contradição em termos). Existe, sim, um ataque ad hominem:  na medida em que cataloguei o coleóptro Rodrigues dos Santos na espécie humana, injuriei a espécie. Quer dizer, ofendi todos os homens.


Legenda da imagem: "Para o escaravelho-do-estrume, as fezes são o seu sustento, o seu trabalho e o seu ninho."

sexta-feira, maio 04, 2012

O Modelo certo, sem dúvida

«Pedro Passos Coelho considera que Portugal seguiu um modelo errado de empobrecimento nos últimos anos e por isso o país está numa situação difícil.»


Fascinante, de facto. Portugal tem seguido um modelo errado de empobrecimento. Ao que tudo indica, era demasiado lento. Rejubilemos, porém. Agora estamos finalmente no modelo correcto - aquele que, mais que à pobreza certa, transporta à miséria garantida e, daí, em via expresso, à penúria galopante.  E ele diz isto, presumo, para nos tranquilizar. Ou será para acalmar e e inspirar confiança aos mercados?

quinta-feira, maio 03, 2012

Dia Mundial da Treta

Dia Mundial de quem?! Da Liberdade de Imprensa? ... A seguir vão comemorar o quê - O Dia Mundial da Virgindade das prostitutas ou da Virtude dos Proxenetas?... Ou então, que sei eu, para ser ainda mais análogo e similante: o Dia Mundial da Liberdade dos Animais de Trela...
Enfim, o ror de dias que gastam para mera maquilhagem duma simples noite. Diziam que o sono da razão gera monstros. Pois, mas pior ainda é a noite da inteligência: produz abortos destes.




quarta-feira, maio 02, 2012

O Dever e as dívidas

«Pergunta-lhe se ele consegue viver sempre em défice e dívidas. »

Não é preciso a Zazie dar-se ao trabalho de perguntar. Eu respondo.
Não; não consigo viver sempre "em défice e dívidas". Por uma razão muito simples, óbvia e eloquente: porque não consigo viver sempre. Sou por natureza, herança e modéstia um ser finito. Eu e todos os humanos aos cimo deste belo planeta. Claro que isto - a finitude dos humanos - deixa logo de fora um ror de desalminhas que me dispenso de enumerar por falta de tempo da minha parte e de individuação da parte deles, mas que, não obstante, descrevo em género: caracterizam-se por viver não ao cimo do planeta, como lhes recomendou e destinou o Criador, mas dentro ou debaixo dele (e vão, grosso modo, desde aqueles que lhe parasitam os intestinos  e prosperam na respectiva substância como no melhor dos mundos, até aos que habitam sob montanhas de lixo adiado convencidos de terem reencontrado o éden das delícias).
Não obstante, se Vossência colocar esta mesmíssima questão ao meu sócio e engenheiro Ildefonso Caguinchas pode ficar certo que a resposta dele será diametralmente oposta à minha. Não só garantirá que consegue  (viver em "défice e dívidas") na maior das calmas e perfeições, como duvidará que exista alguma outra forma possível e aceitável de gastar a existência. E mais lhe comunicará, de brinde, que se Vossência assim não pensa nem procede, a unica razão para tal bizarria não decorre duma putativa expertize económichosa , mas apenas do facto - certificado e atestado (e dito muito liminar e prosaicamente)  -de ser  um grandessíssimo totó.
De qualquer forma, a pergunta está mal colocada. Melhor dizendo: falaciosamente transposta. A sua inquirição e assunto tem como objecto um país; não pode pois ser deslocada para uma simples pessoa. Pelo que a questão, posta com legitimidade, devia ser: "consegue Portugal viver sempre em défice e dívidas?"
Neste caso, a resposta mais adequada, por incrível que pareça, até seria a do Engenheiro Ildefonso Caguinchas, só que de pernas para o ar: não, Portugal não consegue viver sempre em défice  e dívida por duas lhanas e peculiares razõezinhas: 1) porque falece entretanto; 2) porque é totó. A primeira, como deve calcular e a História, caso o atormente uma súbita amnésia, estará sempre aí para lho explicar até aos detalhezinhos sórdidos, decorre da circunstância de os países, embora mais vastos e complexos que os simples seres humanos (mas não muito), também não usufruirem da eternidade garantida. Sim, do crescimento económico desarvorado e eterno, caso se apliquem as excelentes receitas dessa ciência exacta chamada economia perlim-pim-pum, prima direita da astrologia zulu, cunhada da necromancia espírita e madrasta em segundo grau do totoloto da silva, sim, isso, usufruem todos os dias, excepto domingos e feriados, mas, lá está, será talvez o único prodígio taumatúrgico de que são capazes (uma vez os astros devidamente perfilados, subentenda-se). Quanto à segunda, espero que já tenha adivinhado, resulta do acaso irritante mas inultrapassável de Portugal não ser os Estados Unidos da América. E Portugal não é os Estados Unidos da América da mesma forma que Vossência não é o Engenheiro Ildefonso Caguinchas.
Para terminar, ainda leva de bónus, da minha parte, a declaração solene de que, caso eu pudesse viver para sempre, pois para sempre viveria em défice - de sabedoria, de harmonia e de liberdade - e mergulhado em dívidas  - de gratidão (para com a generosidade Daquele que me deu a vida e a Arte junto com ela), de honra (para com os meus antepassados e a minha pátria), de lealdade e fraternidade (para com os meus raros mas, por isso mesmo, valiosos amigos) e, acima de tudo,  de devoção - para com essa dívida vitalícia que mais que todas me avassala e penhora: a beleza das mulheres. E compenetre-se Vossência que é precisamente nisto que reside a capital diferença entre um dragão e um totó: na qualidade e dignidade dos seus credores, na excelência e eternidade das suas  dívidas. Aliás, ao contrário do totó, o dragão, tal qual o homem inteiro, não cultiva nem se submete a dívidas: submete-se a deveres.
Perdoe-me se não faço acompanhar isto de gráficos e estatísticas, mas, na verdade, não há gráficos nem estatísticas para isto. Nenhuns.

sábado, abril 28, 2012

7ª Lei da Ratafísica Desantropológica



- Mas será mesmo necessário?
- Mais que necessário: é urgente, é imperioso, é imprescindível!!...
- Mas isto dói. Dói mesmo!
- Claro que dói. É mesmo para doer e quanto mais, melhor.  O que dói, cura! Cura, sana, remedeia e fortifica!
- Mas tenho mesmo que correr furiosamente através destes silvados e tojódromos, ainda por cima ajaezado a arame farpado e em  auto-flagelação contínua com cardos e urtigas?
- Claro que tens. Não há alternativa. Foi-nos imposto pelos nossos credores!
- Foi-nos?! Nossos?! Tu vai às cavalitas e eu, que me lembre, não fui consultado para empréstimo nenhum.
- Pois. Era isso ou a bancarrota sem remendo.
- Sim, para a banca não se romper, ando pr'aqui eu a esfarrapar-me todo! No fim disto tudo, temo bem, estará a banca remendada e eu esfolado vivo dos pés à cabeça. E mais zurzido que um Cristo!
- Faz parte do processo reformador em curso...
- Só se for  para ti. Para mim é o Calvário reforçado no coiro!
- Capacita-te: É crucial! Quanto mais te esfolares e romperes todo, mais hipóteses teremos de recuperar a confiança dos mercados!...
- A ver se percebo: quanto menos confiança eu tiver nos mercados (e ela diminui a cada hectómetro), mais confiança eles ganham em mim? Deve ser então uma espécie de transfusão de confiança. Na verdade, e por assim dizer, não sangro: dou-lhes sangue. Sangue, que é como quem diz: confiança.
- Vês, como o exercício te é benéfico!... Até já começas a desproferir aleivosias.
- É. Quando um tipo carrega com as dos outros no lombo, nem tem tempo para lavrar as suas.
- O problema é que não estás a perder confiança a um ritmo suficientemente avassalador. Os mercados continuam exangues, anémicos, sedentos, quer dizer, desconfiados.
- Bem, por mim, estou a esfarrapar-me todo, ou melhor, estás a esfarrapar-me todo. Em contrapartida, tu, desse pedestal galopante que sou eu, nem uma pinguinha de confiança perdes. A cada hemorragia  minha, a tua crença nos mercados permanece viçosa, pujante, imarcescível, e a tua confiança no  meu sacrifício, essa, então, já raia o fanatismo alucinado!... De resto, contigo a armazená-la assim, tão copiosamente, como é que há-de chegar alguma aos mercados: açambarca-la toda!...
- Não açambarco: cultivo. Alguém tem que acreditar nos amanhãs que cantam, trinam e chilreiam. Para pessimista já chegas tu e o teu ígnaro cepticismo. Se não fosse eu, não saías da cepa torta: Nunca.
- Pois, de facto, graças a ti evadi-me da cepa torta a toda a velocidade. Só foi pena ter mergulhado neste interminável mar de silvas e tojos...esporeado a urtigas e cardos! Ai, ai a minha rica pele!...
- Só sabes é lamuriar-te. E jeremiar à toa. Não compreendes como às vezes os grandes avanços são precedidos, cozinhados e antepreparados por pequenos recuos estratégicos. A  História está repleta desses exemplos edificantes: para dar um passo em frente, muitas vezes, dão-se dois atrás, para ganhar balanço.
- Bem, no presente caso, dada a maratona em que já vamos, calculo que o tal passo deve ser dum gigantismo descomunal. O novo colosso de Rodes, calculo.
. E calculas bem. É dum avanjajamento inaudito. Um verdadeiro assombro. Mas não abrandes, nem te desvies dos núcleos mais densos. Quanto melhor te esfarrapares, mais garantido será. A via espinhosa é a melhor via. Aliás, é a única. Nem se concebe que haja outra.
- Mais esfarrapado e esfalfado é difícil. Por este andar, estou feito num daqueles lendários desgraçados da Etiópia ou do Biafra. Só que eles ainda era pele e osso, enquanto eu já nem pele terei -  nem pele, nem gota de sangue: é só osso. Osso e nervo agarrado ao osso.
- Pensa que é por uma boa causa. E que a receita é infalível. Uma vez injectada a confiança nos mercados é um instante enquanto recuperas  as boas cores e carnes.
-Ah, finalmente uma boa notícia. E aí, nessa tão esplendorosa e penada altura, o que é que fazemos?
- Então, voltamos alegremente aos mercados.
- Vamos vender coisas, produtos, mercadorias?...
- Não, nada disso. Isso é para países obsoletos, pouco modernos. Vamos, outrossim, de défice bem penteadinho, com as continhas muito bem postas, vender dívida! Dito mais poeticamente: vamos financiar-nos.
- Pasmo. Mas alguém compra dívida? E não é suposto, com todo este meu esfarrapanço, estarmos a reduzi-la freneticamente? Então, se a reduzimos com tanta impiedade, depois ainda sobra quantidade suficiente para ser vendida?
- Bem, na verdade não estamos a reduzi-la: estamos a aumentá-la. O que estamos a reduzir é o défice. E para isso, aumentamos a dívida.
- Descompreendo. Então o défice não era consequência dum excesso de endividamento por via dum excesso de despesa e duma escassez de receita e produção?
- Pois, mas como não tínhamos dinheiro para diminuir o défice, tivemos que pedi-lo emprestado. É uma coisa deveras dispendiosa,  a redução do défice.
- Bem, então estou aqui, ou melhor, estás aqui a esfarrapar-me todo para aumentarmos a receita e a produção, certo? Sim, porque não vais dizer-me que elas não estão a subir em flecha!...
- Em flecha, não direi. Aqui entre nós e que ninguém nos oiça: na verdade oscilam entre a estagnação mais pestilenta e a diminuição mais recorrente. O que, é preciso denunciá-lo com todas as nossas forças, contraria todas as leis e cálculos que destilámos a partir desta nossa fé insubmersível. Chega até a ser uma desfaçatez completa, tamanha excentricidade recalcitrante da economia real!
- Então estou, isto é, estás pr'aqui a esfalfar-me todo para nada?!...
- Para nada, não. Para reconquistar a confiança e a benevolência dos mercados. O que nos permitirá voltarmos a financiar-nos à força toda!...
- Mas não foi essa a razão principal porque caímos nisto: por tu te financiares a torto e a direito para andarmos a correr às voltas, atrás duns e doutros, sem outro destino, rumo ou meta que imitar estes ou macaquear aqueles, conforme dava a lua na telha que te preenche a mona? Quer dizer, aturo eu este suplício todo só para voltarmos ao ponto de partída?! É vicioso o filho da puta  do circuito, não?!...
- Não tentes compreender coisas que te transcendem. A tua mente simplória não alcança determinados alambiques da ciência financeira. Esfarrapa-te tu, com denodo e paixão, que para pensar e dirigir  estou cá eu.
- Claro, claro. Mas já que és tu o pensador, não me explicarás a mim, que sou o burro, como raio é que depois de me esfarrapares todo, vais pagar a dívida que, pelos vistos, medra, fermenta e leveda a cada dia que passa?
- É simples: as dívidas existem para que tipos como tu as paguem e tipos como eu as explorem. O titular és tu; eu sou apenas o corretor.  Quanto mais dívida tu tiveres para pagar, mais dívida tenho  eu para exportar, processar e transaccionar, leiloando essa dívida e, em simultâneo, angariando nova dívida para revender. Chama-se a isto gestão. Ou seja, tal qual tu giras por baixo, a todo o galope, eu giro por cima, a todo o vapor.  Podíamos até cantar, para animar a empresa: "Giras tu, giro eu, giras tu mais eu."
- Pois, mas é por isso mesmo, ó inteligente, é por saber, embora burro, que são tipos como eu que pagam,  que me custa entender como raio é que vou pagar alguma coisa que se veja depois de esfolado e sangrado até ao esqueleto!...
- Lá estás tu com as tuas desconversações caturras! O futuro é uma coisa sobre a qual se deve projectar toda a nossa fé, mas nenhuma ideia ou prognose. Até porque, dada a imensidão de incógnitas e variantes, sobretudo internacionais, em jogo, quaisquer ideias ou antecipações correriam o risco de se tornar  deveras nefastos, dado que, entre outros embaraços abracadabrantes, poderiam colocar em perigo a nossa fé.
-Hum... começo a desconfiar que és como aquele timoneiro que extrai os requintes da navegação não dum qualquer estabelecimento cartográfico do rumo, mas duma lengalenga auto-hipnótica que vai repetindo até á exaustão ou ao naufrágio, conforme o que sobrevir primeiro. Podíamos até cantar: "Foste ao jardim da celeste, giro-flé giro-flá/ Foste ao jardim da celeste giro-flé-flá-flá!/ Como foste lá parar, giro-flé giro-flá/ Sem sequer saber contar, giro-flé-flá-flá!"
- Podes desconfiar à vontade. Com a tua desconfiança posso eu bem. Agora com a dos mercados já não posso dizer o mesmo. E essa é que me preocupa!
- Bem vejo. Melhor: bem sinto. Das tuas preocupações sobram sempre as ocupações para mim e o pré todo para ti.
- Isso é porque estamos muito bem unidos e adjuntos. Tu colado a mim porque meu acólito; eu colado a ti porque ao teu colo e teu colono, além de colírio. Enfim, somos o tigo e o contigo, experimentando os múltiplos sortilégios e inerências desta nossa complexa e imbricada situação, que a ti tanto dói e rompe, e a mim , acredita, tanto condói e...corrompe.


7ª Lei da Ratafísica: A velocidade de rotura das massas é directamente proporcional à velocidade do corrupção das (pseudo)elites.

segunda-feira, abril 23, 2012

De Vera Religione



Nestas coisas deve começar-se pelo princípio. Expliquemos então o título, antes de mais. A ideia foi do Labaredas-mor(cão). Disse-lhe eu: "Ouve lá, ó Cospe-Lume, tu que que te esponjáste em não sei quantas bibliotécnicas sugere lá aí um título para um certo número de verdades urgentes que tenho aqui prontas para goelar às massas!... Sobre o Glorioso, bem entendido; mais os copos e as gajas, que quando se trata de sermão, nada como esgotar logo o universo inteiro duma assentada!..."
Diz-me o gajo: "Caguinchas, se é de religião que vais falar,então nem hesites: "De Vera reiligione" é o título que te convém. Aliás, já Santo Agostinho forrou com ele o frontespício duma das suas grandes obras!..."
Devolvo eu: "Ah, bem, que o Agostinho tenha dado em santo, não me admira: o gajo andava sempre a trepar às montanhas, amarinhava por ali a cima que nem um foguete, é seguro que andava no fundo era a treinar para subir ao céu. Mas, foda-se, o tipo era ciclista, não era futebolista e, pior que tudo, o gajo era lagarto! Vou agora pedir empréstimo a um lagarto, deves 'tar a gozar!..."
Vocifera-me ele, naquele vozeirão cavernoso: "Ignorante do caralho! Estou a falar do Agostinho de Hipona, não estou a falar do Joaquim Agostinho!!..."
Atalho eu: "Pronto, pronto, não te enxourices! Confundi o de Hipona com o de Torres Vedras. Acontece, pá. Em vez de virar à direita na Lourinhã, virei à esquerda. 'Tava c'os copos e não vi a tabuleta. Vá, vai lá tratar da ucraniana que agora do resto trato  eu."
E foi assim, ó eleitores, foi assim mesmo que nasceu o título. Passemos agora ao assunto. Vou por pontos:
1. Eu não sei que merda é essa de SLB. SLBê , ou melhor, XLBig deve ser é a marca - a marca e o tamanho da cona da tia (para não dizer doutra senhora mais chegada) destes pseudo-benfiquistas, destes benfiquistas do cuspo, que nunca viram o santo Eusébio jogar, nem o Senhor Coluna, nem o Simões e só o que sabem agora é lambuzar e adular estrangeirada fatela. Até espanhõis, imagine-se. Espanhóis, argentários e mesmo pedófilos bélgicos, para cúmulo. É isto a merda do SLB. Porque o Benfica, o Glorioso, o verdadeiro não apascentava gadeza destas: era tudo português da silva!

2. O Benfica, o Glorioso Benfica não tem qualquer tipo de rivalidade ou contencioso com vinhos,  cervejas, ou qualquer outro tipo de bebidas, brancas, escuras ou meramente espirituosas. A esses líquidos , sem descriminação, o benfiquista autêntico bebe-os, ingere-os, emborca-os, não se zanga com eles. Porto, vermute,  madeira, moscatel, tinto, branco, para nós é tudo igual e não tem espinhas. A nossa rivalidade é com os viscondes, digo, lagartos. O pseudo-benfiquista, o benfiquista do cuspo reconhece-se à distãncia: é aquele que anda sempre, e exclusivamente, com o porto na boca. Na minha opinião o slboi é meio abichanado: só mete à goela vinhos doces e gosta muito de se mascarar de mulher no Carnaval. Por isso mesmo não espanta que, ao mesmo tempo que metem o porto à boca, metem vaselina no cu.

3. O Benfica é uma religião, a única verdadeira - por isso se chama ao seu estádio "A Catedral", que não por acaso se situa na Luz.;  - não é puta de SAD nenhuma. Aliás, sad é uma palavra que nem sequer existe na língua de Camões, não só porque a dita cuja já foi comida pelos vermes, como também porque não consta no dicionário de português. Mas existe no de inglês,essa língua peçonhenta, digo estrangeira, onde significa "triste". Ora o Benfica é Glorioso, é a alegria da nação e o êxtase do bom chefe de família; não é triste, nem, citando a lista completa, "abatido, melancólico, lamentável, deplorável, escuro, sombrio, péssimo, muito ruim, pesado", ou sequer, "húmido". Em suma, o Benfica não é o seu contrário, ou seja, o Benfica não é o SLB SAD.

4. Assim, o Benfica nem devia perder o seu precioso tempo a confrontar-se com clubes Sads. Essas falências adiadas que porqueiam deviam entreter-se umas com as outras a jogar ao berlinde até ao colapso final. O Benfica já devia pensar era no campeonato do futuro, na Taça do Amanhã, onde competirá com dignas potências como a IURD F.C., o  Testemunhas de Jeová e Moscavide, o União Adventistas e Evangélicos, o Vitória do Candomblé, o Sporting Club Ateu, o Sinanoguense,  o Atlético Hindu, o Real Maçon, o Académico dos Mercados, o Socorro e Maometanos, etc, etc.

5. Os árbitros são como as mulheres. Uma mulher que foda por dinheiro é uma puta; uma que foda por amor é uma deusa. Da mesma forma, os árbitros que roubam para os outros clubes, fazem-no por dinheiro: são uns criminosos, uns ladrões, uns nojentos e uns porcos; em contrapartida, os que roubam para o Benfica, roubam por amor: são uns legítimos, uns abnegados, uns virtuosos! Gamar por amor não é crime: é paixão.

6. Seis milhões não é  número de benfiquistas: é o número de judeus mortos pelo Adolfo - o Adolfo alemão, não aquele rapaz que ainda jogou como defesa do Glorioso. Até porque o outro, sendo germnanóide, não podia jogar no Glorioso (embora o Germano, saudoso germano, que nele jogou só era germano de nome, graças a Deus e à mãe dele que teve o bom gosto de o parir para cá da fronteira). Enfim, mas se fosse hoje, no tal SLB SAD quase aposto que jogava. Podia matar is eleitos, os quaresmas e até os  Carlos castros que bem entendesse que não havia problema: só porque era estrangeiro davam-lhe a titularidade e uma apartamento em Cascais. Sim, punham-no a trinco, a dar sarrafada no miolo como aquele espanhol Garcia que para lá pasta agora!... Então pretos, não escapava nenhum!... Mas deixem-se de cabalisticas e outras cabalidades, ó benfiquistas do cuspo, ó SLBês da treta! O que importa não é a quantidade, mas a qualidade. Vale mais um benfiquista verdadeiro que dez mil destes SLBois de pechisbeque! E  para falar com franqueza, benfiquistas a sério, eu já me contentava com onze: os que entrassem todos os domingos dentro do campo, envergando a gloriosa camisola. Ainda sou do tempo em que eram benfiquistas que jogavam no Benfica; não eram apenas pseudo-benfiquistas nas bancadas aos saltos e aos guinchos à volta de benfiquismo nenhum! Não sei se é o nilhismo, como proclama o Labaredas, porque a mim parece-me mais canilhismo. Só ladram. Até deve dar vómitos ao Santo Eusébio. Por isso ele nem larga a toalha da sorte, não vá desconter-se e precisar de limbar os comissos.

7. O Benfiquista sério, honesto e compenetrante (o benfiquista nunca se deixa penetrar, ele é que penetra sempre) distingue-se por ser um bom chefe de família. Agora tentem explicar isso a um destes SLBês da tanga. Se é semi-masculino. naqueles dias raros em que o benfica é roubado escandalosamente e por isso empata ou p.... (a palavra proibida!), vai para casa e bate em quem? Mulher não tem porque se divorciou. Então bate no cão ou na play-station, com quem vive em regime de mancebura. E se é semi-feminino, educa que prole numerosa e atenta nos sacros princípios do benfiquismo até à morte? Qual prole qual carapuça: nos intervalos dos divórcios anda a abortar pelos cantos e hospitais, ou a babar-se com as montras dos shopingues e das telenovelas! Em vez de produzir benfiquistas de gema, despeja-os na retrete ainda girinos! Não admira que os que sobrevivam a uns tais progenituros dêem em SLBês!... Isto, na entremeada dos charros, hamburguers e praxes acadérnicas. E nem já ás putas vão: vão aos computadores!

8. Termino. Com uma notícia que é deverasmente ilustrativa do falso benfiquismo. Reza assim: "Polícia salva homem de ninfomaníaca". Estão a ver? Então não é um grandessíssimo contra-senso? Primeiro porque a polícia não salva, muito menos os homens - prende-os, oprimi-os, impede-os de serem felizes. O que salva é a religião, ou seja, a verdadeira religião - o Benfica. E depois salva um homem duma ninfomaníaca?!! Mas que paneleirice vem a ser esta? Salvar um homem duma ninfomaníaca é o mesmo que salvar um urso duma pipa de mel ou uma orca dum bando de focas bebés! Em síntese, salvar um homem duma ninfomaníaca é salvá-lo do paraíso. Soa mais a despejo abrupto e reincidente do que a salvação! Ah, mas foi o homem que chamou a polícia, diz a notícia. Pois, estão a ver? Aposto que era um SLB!



quinta-feira, abril 19, 2012

Repórter-Flash - Monarquia de Jet-Set


Sempre em cima do acontecimento, cá está o vosso repórter favorito. Hoje encontramo-nos aqui no Botswana, atrás duns arbustros, donde o Rei João Carlos  se prepara para matar um enorme elefante. Em pontas, naturalmente, que espanhol não brinca em serviço. Em pontas, o mastodonte, bem entendido; e em pontas, o castelhoso, com os seus sapatos de ballet, ou toureiro, distinga-os o diabo!... Pontas totais, portanto.

- Permisso, Vossa Majestade...

- Pues, la tiene toda!...

- Uma questão que me está aqui a comichar as amigdalas: Vossa majestade não vai bandarilhar o animal, antes do passe de morte?

- Pues. lo pensei, con efecto. Pero, fracturei la ilharga mientras lo aquecimento, lo que me impiede de correr mui bien. Demás, teria que correr de andas para alcançar lo dorso de la bestia, lo que, como usted deve imaginar, me dificulta ainda más la manobra.

- Vossa Alteza não teme o escândalo que esta faena exótica possa vir a causar na impresnsa espanhola?  É que os jornalistas espanhóis, toda a gente sabe, são muito aperrados às tradições castelhosas. Até já estou daqui a entrevê-los, mais que furiosos e ofendidos, aos bramidos fulos, em denúncia pública, que o rei de Espanha anda a matar elefantes em África quando devia andar a matar toiros em Espanha! Isto não o preocupa?

- Estultícia deles. Nunca compriederan mis sacrifícios por la melhoria economica de la patria. Estoi aqui en trabajo, en estudo avançado... soi un gran progressista. Que se interessa por la evolution tecnica del país.

- Acredito, Majestade. Mas em que consiste a investigação, a experimentação de ponta, ou pontas, se assim lhe podemos chamar?

- Mira, es claríssima mi idea. Con la hiper crise no basta la tourada. Tiemos que atrair nuevos turistas e aficcionados. Ensaio asi la elefantada!...

- A elefantada?!! Uma espécie de tourada, presumo, só que com elefantes em vez de toiros?

- Exacto.

- Mas os cavaleiros, como raio chegam aos altíssimos lombos dos paquidermes e escapan a mortífera tromba desses brutos?

- Lo pensei e lo resolvi: em vez de cavalos montam en girafas!....

- Olha, bem pensado. E os pedestres, como raio se desenrascam eles?

- Pues, los pedestres, bela pregunta. Bueno, los pedonales, para ser franco, ainda no lo decidi. Hesito se han de levar patins e cortinados ou molas e toldos.

- Mas entretanto, Vossa Alta Majestade, com esse formidável bacamarte de altíssimo calibre, prepara-se para abater o bicho a tiro...

- Si, si... és verdad. Pero tien una explication lógica. Daqui, desta cabeira de rodas, no tengo alternativa. Mas tambien aprovecho para ensaiar una modalidad mui benemerita: lá elefantada para deficientes - una elefantada mui especial, donde los pedonales elefanteros, paraplegicos ou invisuales, ou ambas las cosas, lidan en cadeiras de rodas, unos con carabinas - los paraplegicos-, e los outros con granadas ofensivas - los invisuales, e por razones óbvias. Vaia  ser un grandíssimo sucesso!...

- Não duvido, Vossa Majestosa Alteza, não duvido.  

E pronto, ciber-espectadores, foi a entrevista em cima do acontecimento, ou melhor dizendo, antes do próprio acontecer!... Ou de como entre monarcas decorativos e presidentes da república a diferença avantajada reside no hiante abismo que permeia entre o tiro ao elefante e o hipismo de tartaruga.

terça-feira, abril 17, 2012

Saudação ou saudacinha?

Não discuto a ideologia que mobilizará o psicopata que se segue. Até porque entre ideologia (qualquer que ela seja) e psicopatia a relação é de pura sinonimia. Mas o que posso é garantir, através de imagens subsequentes, que o que ele gesticula não é de todo a "saudação nazi".
Assim, e para já, o tal psicopata nórdico (inconcebível como paraísos perfeitos daqueles produzem monstros destes):

De seguida, uma imgem com a indubitável "saudação nazi" para que todos possam constatar a diferença:


De notar, pormenor curiosíssimo, que esta mesma "saudação nazi" também era utilizada pelos fascistas italianos:

Detalhe ainda mais espantoso: a "saudação nazi" também já era praticada na Roma Antiga, em pleno Império. Só que então, em vez de urrarem "heil Hitler", os nazis bradavam: Ave Caeser!



E agora a parte mais inquietante, desde já à atenção de Araújos Pereiras, Quadros, Nogueiras e outros truões patrulheiros do anti-fassismo  serôdio, para que possam gafanhotá-la e defenestrá-la o quanto antes  com as suas piadetas de cuspo e alguidar: a sempiterna "saudação nazi", maldita seja, sempre pontificou nas fileiras do exército português, onde, ainda hoje, por alturas dos Juramentos de Bandeira, é impudicamente arvorada:


Mas...mais grave ainda: no Brasil também a exibem sem qualquer pejo ou vergonha:

E até em Angola!  Quando tiver tempo, hei-de scannar fotos de  pretos nazis em parada. Oh tempora, oh moraes!...

Geostraténia pelintra



Vai uma mini-frota portuguesa -uma fragata, uma corveta e um navio de apoio - a caminho da Guiné. De prevenção para um estrito e eventual resgate dos portugueses em risco  naquele antigo território português, proclama o actual governo da treta. Esqueceu-se entretanto de esclarecer, com rigor,  duas ou três minudências catitas , a saber, a) quanto custa a brincadeira? b) quem paga? c)  quantos são os portugueses em lista de putativa espera para o heróico resgate?. Calha que conheço bem o sítio. Não posso precisar à unidade o número de portugueses em duvidosa aflição com a rotina lá da terra, mas posso garantir que são imensamente menos que os vários milhões que padecem e desesperam entre o Algarve e o Minho. E imensamente menos, note-se, quer em número, quer em angústia periclitante.  Portanto, se a questão era resgatar portugueses em efectivo perigo e cruel ameaça, não era preciso  irem tão longe. Francamente, não era.  Só a poupança  em combustível e ajudas de custo!...
A austeridade, em suma, não sei onde anda nem aonde foi.

domingo, abril 15, 2012

Dragão na Presidência

O postal que se segue foi escrito e editado neste blogue em 20 de janeiro de 2004. Repito: 20 de janeiro de 2004! Pois tenham  a bondade de o ler hoje, passados quase dez anos, procedendo apenas aos seguintes ajustes prévios: substituam simplesmente o nome dos então Primeiro-Ministro e Ministro das Finanças pelos actuais, bem como o nome Bush pelo nome Obama. Depois, caso não estejam ainda perfeitamente lobotomizados, experimentem aquele calafrio profundo, mescla de raiva, desespero e tristeza, que resulta da constatação da perfeita e sumptuosa actualidade de tudo o que nele vem ilustrado. É preciso maior atestado da putrefacção em que, sob a cobertura do actual regime, andamos metidos?

                                    ....//.....



Como dizia a canção do Chico Buarque, “agora eu era o herói, e o meu cavalo já falava inglês”. Pois, e a primeira coisa que eu fazia era dar um tiro no cabrão do cavalo que era pra não armar em esperto ou anglófono (o que vai dar ao mesmo). Abatido o solípede poliglota, imaginem que eu era também Presidente da República. Portuguesa, pra não forçar muito a imaginação.

Pois muito bem...agora eu, Dragão, era o Presidente da República...

Cá estou eu, todo repimpado, na minha cadeira plenipotenciária, a mirar o mapa na parede e a coçar os tomates. Qual é a primeira coisa que faço?...Não tem nada que saber: Vou convocar o Primeiro Ministro e a ministra das Finanças. De emergência, já, imediatamente, a galope nos mercedes pretos, com as sirenes a romperem caminho. Uma telefonadela e já está!...
Não demora nada... Já os oiço. As portas batem...Ouvem-se passos apressados, nervosos. Esboço o meu sorriso maquiavélico nº 3.
Agora um pormenor essencial: vou fazê-los secar duas horas que é pra verem quem manda. Antes, já mandei retirar toda a espécie de revistas ou jornais da sala de espera. Quero que experimentem o chamado síndrome do dentista, mas sem paliativos de qualquer espécie.
Eis-me, portanto, a tamborilar os dedos e a escrever cartas anónimas ao procurador geral da República, onde enfatizo as pernoitas da esposa com gente de aluguer. E uma paixão avassaladora pela criada. Aproveito pra escrever também aos juízes do Supremo, aos directores dos jornais e ao presidente Bush a insultá-lo (esta, porém, assino como Bin Laden). O tempo arrasta-se. Até que as duas horas, a custo, lá se esgotam.
Lá vem o PM e a acólita. A bruxa da acólita, devo acrescentar, o que ainda mais me enfurece. Não poder imaginá-la de cinto de ligas sem que isso me cause náuseas e vómitos, confesso que me irrita. Estou com ar de poucos amigos e nem me levanto quando entram. Prescindo do protocolo, cago deveras na etiqueta e ordeno que se sentem sem mais delongas. Vamos lá fazer o balanço da “governação”..."Olha lá, ó badameco, explica-me aqui uma coisinhas!...", irrompo, qual avalanche justiceira.

Começa o interrogatório em forma:

-“O Défice baixou?”, pergunto.

-“Na verdade manteve-se.”, responde ele.

-“O investimento?...”, interrogo.

-“ Diminuiu...” – murmura.

- “O Desemprego?”, inquiro.

-“ Disparou em flecha!”, confessa.

-“ A produção?”

- “Caíu...”

- “ As falências?”...

- “ Multiplicaram-se...”

- “A criminalidade?...”

- “Aumentou!...”

- “O património do Estado?”

- “Já está quase todo alienado:::”

- “A política externa e a imagem do país no exterior?”

- “Uma desgraça: maltrapilhos, pedófilos, prostitutos!...”

-“ As instituições?...”

-“À beira do colapso...”

-“ A educação e a investigação científica?...”

-“ De rastos...”

-“ O nepotismo e a corrupção?

-“Na mesma, senão pior!...”

Nesta altura suspiro. Não vale a pena continuar. É demasiado penoso.

Agora eu, Dragão, Presidente da República imaginário do vosso país quase imaginário, pergunto-vos: No meu lugar o que é que dírieis a um c***** dum primeiro ministro destes?
Pois eu digo-vos o que é que eu, no meu lugar, dizia a um c***** dum primeiro ministro destes: Nada. Nicles. Patavina.
Chamava era o oficial às ordens, aquele soldadinho com ar de músico filarmónico que pr’ali ciranda feito mainate, e dizia-lhe: "Ó coiso, ó bombeiro, traga-me cá o meu cavalo marinho e mande entrar a imprensa!"
Depois, em directo prá nação, no horário nobre, calma e pausadamente, fazia um belo e esclarecedor discurso, com o cavalo marinho, em cima dos costados governamentais. Era malhar nos dois estafermos até que me viessem as cãibras. Havieis de ver se a depressão, a crise, ou lá o que é, no dia seguinte, não tinha desaparecido!... Havieis de ver se o povo não ficava todo alegre e de grimpa levantada!...
Isto, meus amigos, o que faz falta não são receitas de propaganda nem demagogias da trêta: o que é preciso é saber falar ao coração das pessoas!...



PS: Já perceberam agora que, tivesse eu pachorra, e o útil que não seria elegerem-me, ó otários?!...



sábado, abril 14, 2012

Coisas de grunhos, digo primatas




Meus amigos, duas perguntas: o que é um campo de batalha? E o que é um campo de futebol? 
Agora a resposta: entre outras coisas menos óbvias e eventualmente mais subtis, um campo de batalha é um sítio onde se podem matar pessoas sem incorrer no risco de ser preso pela polícia. E um campo de futebol, sem nenhuma outra subtileza adicional, é um local onde se pode  injuriar e ofender publicamente  sem experimentar o perigo de ser processado. Poderia até dizer-se que um campo de futebol é apenas um campo de batalha suavizado. Mas, lá está, para compensar de não esfacelar ou chacinar o inimigo, sobrecarrega-se no vitupério e no basqueiro menoscabante. Em vez do troar dos canhões, do silvar da metralha, redobra-se no troar do impropério, no vociferar da bojarda. Resumindo, e dum modo geral, à falta de tomates para matar (e morrer) pela pátria, congregam-se em estádios a urrrar pelo clube. Não há nada de espantoso nisto. E muito menos de sério. Até porque, tanto quanto um sucedâneo, é um regresso nostálgico: à quadripedia. À guturalidade  da infãncia e da caverna pré-histórica. Acresce, só para concluir, que no campo de batalha poderá o combatente, na melhor das hipóteses, alcançar o heroísmo e cobrir-se de glória, enquanto no estádio de futebol o mais elevado que o basbaque ululante atinge é a chimpanzézice formidável  e o auto-soterramento pimpão numa ordinarice pegada.
Pois bem, agora imaginemos um tipo qualquer em plena batalha a desatar num clamor de queixa às autoridades, num chamamento histérico à polícia. Que lhe tentaram acertar com um balázio ou uma granada de morteiro. Que planearam  assassiná-lo com um bombardeamento aéreo. Estão a ver? Não é lá muito plausível, pois não? E, no entanto,  é exactamente a mesma coisa que um tipo qualquer no campo da bola a lamuriar-se que lhe aspergiram das bancadas com um qualquer mimo típido dos símios residentes: "filho da p...", "cabrão do cara,,,", etc, etc. O árbitro, especialmente, no fim de cada jogo, se fosse a dar parte de todas as injúrias e calúnias com que os adeptos da equipa derrotada o brindaram, passava o resto da semana a preencher papéis. Também não acontece por regra e há compreensível tradição nisso.
Todavia, recentemente, surgiu uma moda onde o anedótico vai de braço dado com a bufaria. De repente, tornou-se, mais que aceitável, obrigatório que o tal tipo em pleno jogo rompa a lamuriar-se que lhe chamaram preto, ou, como num caso recente,  que chegaram ao ponto de lhe atirar uma banana (insinuando com isso, presume-se, uma sua qualquer ancestralidade duvidosa). Repito, é equivalente ao sujeito em plena batalha a queixar-se à polícia que o querem matar porque é preto. E é tanto mais ridículo quanto resulta do melindre estapafúrdio dum preto por lhe chamarem preto, ou, mais grave ainda, dum tipo que se enxofra muito porque um bando de chimpanzés o classifica como seu parente afastado.
Até porque se fossem minimamente inteligentes, os alegados agressores (verbais e simbólicos), em vez da banana tinham lançado amendoins... Era mais acintoso e dava menos nas vistas.

PS: Mas, por via das dúvidas, comparem o grunho adepto típico (na fotografia superior) com um honesto orangotango (foto inferior). Concordareis que, bem mais que as vagas semelhanças, sobressai uma diferença evidente e clamorosa: a tímida expressão duma inteligência embrionária na fronha do segundo perante o puro vácuo omnívoro e logofágico na  fuça do primeiro. Daí  ressalta a questão fulcral: como é que alguém consegue sentir-se insultado por um fanático futebolístico? É o mesmo que alguém sentir-se abalroado por uma lesma. Ou atropelado por um micróbio.

quarta-feira, abril 11, 2012

Feriados e Pseudo-feriados



Falemos então de "feriados"...
Começando pela própria palavra... Do latim "fèriae", onde significava "dias consagrados ao repouso", "festas" ou "regozijo público", não parece ter-se deteriorado muito desde a origem. De facto, as "férias e feriados" ainda hoje são dias consagrados ao repouso, embora nem sempre sejam de festa, nem, tão pouco, esse mesmo repouso, como na antiguidade romana, seja necessariamente em honra da divindade. A verdade é que temos actualmente duas espécies - para alguns, antagónicas ou rivais - de feriados: os feriados religiosos e os feriados civis. Dito por outras palavras, mais justas e assertivas: os feriados genuínos e os pseudo-feriados. Porque, com efeito e sem sombra de dúvida, dizer "feriado religioso" é uma perfeita redundância de termos - é por ser dedicado a instâncias de índole religiosa que o dia devém "feriatus",   que nele a comunidade se entrega ao ócio festivo. Da mesma maneira, proferir "feriado civil" soa a falsificação e usurpação do termo. É "feriatus" de fancaria laica e balalaica. E tanto assim é  que, enquanto o "feriatus" autêntico subentende uma pausa nas ocupações deste mundo de modo a festejar (ou, no mínimo, a honrar) uma outra dimensão mais livre, feliz e superior (a dimensão divina), já o "pseudo-feriatus" mais não alcança nem almeja que fazer do dia uma jornada de celebração de certas mundaneidades mais ou menos divinizadas (a república, a democracia, o trabalhinho), isto é, não exactamente um dia de pura festa, mas sobretudo de propaganda - de convénio, congresso e feira de falsários, trafulhas e trampolineiros. Não lhe deveriam, pois, chamar feriado, mas simplesmente "desdia", "não-dia", "a-diamento" - que é como quem diz: dia de nada ou coisíssima nenhuma. Ou dia de mentira, já que falso dia. E assim chegamos ao Primeiro de Abril, essa data sempre tão consagrada ao assunto...
Mas antes, recapitulemos os tais "feriados civis"cá do burgo... Num desgraçado lugarejo onde impera o mais ignóbil feudalismo partidocrático e sectofágico, celebra-se que república no dia 5 de Outubro? Num insectódromo olímpico de venalidades, vacuidades e falsos-prestígios onde vigora a ditadura alarve do cacique eleito e telecomandado do momento, celebra-se que liberdade e democracia no dia 25 de Abril? Numa suinicultura de comadres, compadres, nepotes, mastins, pinóquios, esquemas endogâmicos a vapor e castas a diploma, onde viceja a açambarcamento do emprego pelas pseudo-elites e o desemprego, a precaridade ou o exílio para a generalidade da população, festeja-se que Trabalhador no Primeiro de Maio? Num país falido e restejabundo, entregue ao futebol, à telelobotomia, à ignorância ufana e roncante, e, para cúmulo da invertebrância pato-bravosa,  à ditadura financeira externa, consagra-se que Independência no primeiro de Dezembro? E, finalmente, como dizia o Almada, num sítio mal frequentado onde Camões morreu de fome e Portugal morre de nojo e vergonha dos seus habitantes a cada dia que passa, exalta-se que Camões, comemora-se que Portugal?
É tudo falso! É tudo postiço! É tudo de aluguer! É tudo, em suma, mentira!...
Por conseguinte, quando agora falam,  naquele tom sonso e pastoso que entretanto preside à situacinha, que, a bem do orçamento, urge abolir dois feriados civis e dois feriados religiosos - traduzindo: dois pseudo feriados e dois feriados -, daqui proclamo aos quatro ventos e às inúmeras brisas o seguinte: nos feriados, os genuínos, eles que nem toquem e a Igreja que não vá nisso! (Só de ver as Câncios e os Araújos Pereiras (ou Nogueiras ou lá o que é) desta pocilga aos pinotes e a espumarem da cloaca até é motivo para maior festejo e duplo foguetório!...) Agora, com o exagero inaudito, com a  infestação absolutamente obscena de falsos-feriados nada de piedades! - Acabem com eles todos! Ou, mais condignamente, convertam-nos apenas num - o único que se impõe, realiza e justifica. Pois... é isso mesmo que estais a pensar e cuja demonstração aqui ficou  patente  à exuberância: Qual Primeiro de Maio, qual Primeiro de Dezembro, qual carapuça! Façam (pseudo)feriado do Primeiro de Abril e não se fala mais nisso!...
Afinal, a Mentira é tudo o que, na realidade, resta, triunfa e é celebrado neste país.

domingo, abril 08, 2012

6ª Lei da Ratafísica Desantropológica




- Mais depressa! Mais depressa"...

- Lá está ele de novo! Mais depressa como? Não entendo essa ordem!...

- Essa tua iliteracia financeira até mete nojo! Não entendes como?...

- Muito simples: se estamos estacionários - direi mais: atascados até ao coruto da pinha - como raio podemos ir mais depressa? Só se for para nos afundarmos ainda mais velozmente: Para ser franco, não vislumbro a utilidade e ainda menos a vantagem dessa manobra.

- Corrijo: não é iliteracia, é estupidez mesmo! Qualquer raciociniozinho mais elaborado causa-te vertigens! Ó imbecil, não percebes que temos que afundar-nos a toda a velocidade de modo a atingirmos o fundo com a maior rapidez possível. Uma vez aí, em pista sólida, com as patas bem assentes no fundo, engrenamos a nossa tracção total e largamos a pleno galope directos a amanhãs chilreantes e cornucópias de pasmar!...

- Mas isso era o que tu já dizias ontem?   Olha onde estamos hoje!...

- Hoje não é amanhã, hoje é hoje! Eu nunca disse hoje, disse amanhã! Aliás, se não estivesse sempre a olhar para ontem, percebias facilmente. Assim, não adianta explicar-te. És burro que nem um penedo. Um verdadeiro calhau com olhos!

- Pois, serei, não discuto. Mas o problema é que a cada hoje que amanhece nunca é o amanhã prometido que encontramos. Damos  sempre de trombas  com quem? Com o ontem, nem mais! Eu, transportado pelos teus conselhos e perícias, sempre a tentar descortinar o amanhã e, em vez dele, a dar de focinho invariavelmente  com o ontem! E agora, para cúmulo, já nem é o ontem: é o anteontem escarrado e chapado!...

- Umas boas chapadas é o que tu merecias por guinchares tamanha descarga de dislates! Digo mais : uma carga policial das boas só te fazia bem! Não vês porque te falta a capacidade, a cultura, a inteligência!...

- Queres ver que  esse teu tão cantado amanhã é como aquele monarca que desfilava núcego sob o alto patrocínio de solertes e inefáveis costureiros...

- Ah, agora estamos a ser sardónicos!... Estudar não é contigo. Adquirires valências e mais-valias não te quadra. Mas para a piadola fácil já estás aí todo pronto e despachado!... Pois regista, encaderna e fica sabendo que ainda bem que não vês o amanhã: tudo onde pões a lupa, estragas! De resto, dito com apropriada analogia, nesta árvore que ambos desempenhamos, a ti compete-te a raiz, a mim a rama verdejante. Pelo que, de modo a que eu ascenda luminoso aos céus em foto - e também cine- síntética saga, convém - e está prescrito na ordem natural das coisas e das leis - que tu mergulhes nas profundezas. Onde, com denodado e estrénuo afã, deves  garimpar no esterco toda a variedade de pérolas que nutrem  este nosso vertiginoso processo!...

- Ah... Então, se assim é, alguém não está a cumprir a sua parte.

- Quem? Não me dizes?...

- Tu. Tu todo, Em vez de estares a elevar-te como, dizes, te compete, andas aqui comigo, de escantilhão, a fussar no pântano. Quer dizer, eu mergulho, como está prescrito e receitado. Mas tu não sobes. Bem, na verdade. até sobes, mas apenas para as minhas cavalitas. Para o céu, 'tá quieto ó mau. O preto que suba. O preto, sobretudo o angolano, e o dólar; que tu já nasceste cansado e grudado ao meu cangote. E assim, se hás-de comandar-me, guiar-me ou lá que diabo é, só o que sabes é andar atrás de mim, envcavalitado, a mandares-me andar para a frente. Ou melhor, para baixo, para o fundo, para a merda!... Pois cá vou eu; mais que o hábito, já me equipa o calo. Todavia, quando era suposto já ires a caminho das estrelas, de modo a conferir sentido a este meu crónico suplício, o que é que acontece? Eis que andas pr'aqui comigo a disputar a bosta.


6ª Lei da Ratafísica - O produto do esquecimento pela falsificação do passado é igual  ao quadrado da ausência de futuro sobre a confiscação do presente. 

sexta-feira, abril 06, 2012

Ecce Homo









« Então saiu Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-lhes Pilatos: "Eis o Homem!"»
  - João, 19, 5

Durante muito tempo, devo confessá-lo, achei uma extravagância muito grande o acto de Jesus lavar os pés aos discípulos (tanto mais que a minha simpatia pelo Mestre é inversamente proporcional à irritação que me suscitam os pusilânimes dos aprendizes). Mas na verdade, o espírito de Deus que no princípio contemplou o espelho das águas, tanto ou mais que pela boca de Jesus e da sua inelutável sapiência, é pelos seus pés que se manifesta. A Palavra é indissociável do Caminho. Não basta que o homem fale, que o homem pense: é necessário que o homem caminhe e atravesse a terra; que se levante e saia da caverna pelo seu próprio pé. O estar na caverna equivale ao estar fechado na terra, o recusar-se a nascer e contemplar o céu. Este homem na caverna é um homem soterrado, jazida, sepulcro. A caverna, entrementes, é o mundo e o seu próprio corpo: fechado e encasulado inertemente neles, negando-lhes o espírito, o ânimo e a luz que deveria emprestar-lhes, corrompe-se, deteriora-se, putrefaz-se e condena-os também, ao mundo e ao corpo, à sepultura. Deus confiou  no Homem, confiou-lhe, designadamente, poder sobre a terra. Se, entretanto, em vez de a velar, guardar e amar como deveria, o homem a amaldiçoou e contaminou com sangue de fratricídio e teias de esquecimento, a ele competirá necessáriamente purificá-la e redimi-la. Inerentemente, a redenção do mundo decorre da sua própria redenção. Os pés que o levaram para longe, para fora do olhar de Deus, são os pés que terão de perfazer o caminho de regresso. O sulco da ferida será também o sulco da cicatriz. Ao lavar os pés, Deus despede-se: prestes a terminar a sua peregrinação, prepara o homem para a dele. Ao mesmo tempo, abre-lhe o caminho pelo seu próprio exemplo. A descida ao homem encerra-se com a descida aos pés do homem: o pé representa o fundamento, o princípio, o que faz o caminho e transporta. A lavagem simboliza a regeneração, a refundação, a restauração do princípio. A Palavra desligada do fundamento, como a rama sem pé, é estéril, vazia, artificial. Jesus, como Deus através Dele, não procura papagaios nem fariseus hipócritas: as palavras podem ser fingidas, mascaradas, forjadas, como o fazem os sacerdotes e os doutores da lei, mas não o Caminho. É no caminho que o coração - a coragem - se mostra; como é com a sua acção na terra que o Homem alcança o Céu. Não é depois da Vida que está a gratificação: a gratificação é já a própria Vida. O coração não está apenas no fim do caminho: o coração é o caminho. Caminhar é ser esse coração vivo, que palpita, que aquece, ilumina e, sobretudo, ama a vida e todo o ser vivo.

Ecce Homo!  Ao mostrar o Homem, Deus mostra-se ao Homem.

E serve este breve trecho, retirado do Tratado da Besta, embrulhado neste claro  momento de sinceridade rara, para vos notificar duma coisa muito simples, alta e fundamental, ó leitores (com as leitoras em camarote presidencial, naturalmente): eu gosto de vós. Embora não pareça. Embora a maior parte do tempo eu até pareça morar noutro planeta, numa qualquer galáxia a anos luz. Porque escrever, para mim, mais - muito mais - que uma forma de contender ou exorcizar o que me desgosta, é um acto de atingir quem e o que eu gosto. E, diga-se solenemente, é a única  forma genuína de libertação que conheço: a libertação do umbigo através do amor aos outros. Essa bitola, aliás, pela qual são medidos e sacrificados os grandes heróis da antiguidade (e da Civilização), de Prometeu a Jesus: a filantropia. Fica assim dito, porque é preciso dizê-lo... Antes que me esqueça, antes que anoiteça, antes que desapareça...

E uma garrafa de rum!...





Foi mentira de Abril, ó almas crédulas! Estou aqui para as curvas, ou melhor dizendo, para as ondas!... Ainda não é desta que se livram de mim.


Uma digna e corajosa Páscoa a todos!

domingo, abril 01, 2012

Fim




O Dragoscópio acaba aqui. A minha gratidão aos irredutíveis leitores, beijinhos às leitoras e um até sempre.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Desumanidade social

Ser uma autêntica besta, nalgum país ou planeta que eu desconheça, poderá até ser um desprimor censurável. Mas neste, e  especialmente no  portugalzinho actual, é apenas a fórmula instituída de escapar à solidão.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Dos bois, dos otários e das galinhas




Bem, à falta gritante de ideias próprias, o cromo que nos pastoreia teve a humildade de apelar às ideias dos outros. Louve-se o público reconhecimento e auto-penitência deste vácuo cabeludo. O problema é que, para bucólico enredo, as ovelhinhas são de todo dignas do pastor. E como se tal monturo não  bastasse, sobram  umas regras ainda mais lazarentas que o presépio. Atente-se só neste detalhe formidável: a melhor ideia é necessariamente a mais votada. Supimpa! Fazendo fé nos últimos trinta anos, o resultado acabado e resplandecente duma série de votações maioritárias em determinadas "ideias" a concurso  é, entre várias outras maravilhas, a bancarrota, a perda da independência, a ruína moral e económica, a usurpação da república por seitas e séquitos, a administração da injustiça, a cleptocracia burocrática. Convenhamos que não abona muito do método. Tão puco o recomenda. Dizer que é assim porque assim é que é democrático não colhe como argumento. Mesmo que tendam, não significa que sejam forçosamente a mesma coisa - estupidez e democracia. Se não, atentemos na ideia que neste momento colhe maior número de votos: o que é que as corridas de Touros têm de prioritário para a resolução dos reais problemas da nacinha? Não seria mais premente propor a abolição das Corridas de Pessoas - para o desemprego, para o estrangeiro, para o limbo da impotência e da insignificância? Ou se insistem em dar prioridade às alimariazinhas que sofrem, mais dignos de piedade e socorro urgente não serão, bem mais que os bovinos cornúpetos, os otários contribuintes (sobretudo quando acumulam com assalariados)? Abolição por abolição, não seria imensamente mais profícuo acabar com as corridas de otários às urnas, às portagens, às bilheteiras e demais manjedouras de estupefacção e da lobotomia suavizada?
E quem nos garante que os mesmos que elegeram esta besta rigorosamente destituída de ideias (geminada por partogénese fecal da anterior) que nos atormenta, não acabam a eleger uma ideia qualquer peregrina que lhes lustre ao aleive? E depois o (des) governo faz o quê com ideia? Faz o mesmo que fez ao ror de ideias, cada qual mais milagreira que a anterior, com que se apresentou a votos: manda-a para a retrete. Que é o que trinta anos de desgovernos têm andado a fazer aos respectivos programas eleitorais. A seriedade deste tipo de "ideias simples"? Nula, zero, nenhuma. Puro arrelvamento propagandulo.  Enfim, mais do mesmo. Ao animal feroz sucedeu um coelho ilusionista. O circo continua.

PS: Mas a peste não se confina ao nosso território. Alastra pela Europa que nem praga de gafanhotos legisladeiros... Cá ainda vamos nos bois. Lá já estão de roda das galinhas:

«A Comissão Europeia abriu hoje um processo de infração contra 13 Estados-membros, incluindo Portugal, pelo atraso na aplicação da legislação sobre as gaiolas das galinhas poedeiras, que deveria estar em vigor desde dia 1.»



 



A 5ª Lei da Ratafísica (rep)



Antes de publicar a 6ª Lei da Ratafísica Desantropológica, convém recordar a 5ª  Lei da mesma ciência.
  
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- Então? Não corremos mais, agora?...

- Não, agora caímos.

- Então, mas se não corremos não existimos. Não foste tu que estipulaste o dromo-cogito, ou seja, o "corro, logo existo"? Afinal, em que é que ficamos? Desistimos (que é como quem diz: "des-existimos")?...

- Além de estúpido, crónico, tens acessos de burrice, aguda! As regras têm excepções. Esta é uma delas. Quando se cai, não se corre. Neste momento não corremos porque estamos em queda livre e quando se está em queda livre a corrida torna-se redundante e dispensável!...

- Ah, portanto, despenhamo-nos. Quer dizer, caímos num enormíssimo buraco, cratera, falésia ou abismo. É isso?

- Não, pá. Chama-se uma crise. Estamos a precipitar-nos por uma crise abaixo. Uma situação excepcional e complexa que não adianta explicar-te. Jamais entenderias.

- Mas assim, vista por dentro, deixa que te diga: parece um grande buraco. Poderá chamar-se crise, não discuto, mas é da cor dos poços imensos, tenebrosos. Todas estas trevas à nossa volta... mais parece que vamos pelo cano do infinito abaixo!... estou pasmado.

- Isso é porque estás a cair às cegas. Não compreendes. Ciclicamente, há quedas!...

- Foi pena que não te lembrasses disso antes de cairmos. Nós corríamos, num tal galope, como se nada mais houvesse, então e para todo o sempre, senão corrida e mais corrida!

- Se fossem previsíveis, as crises, não seriam crises. Nem teriam piada. A piada toda está em sermos surpreendidos por elas. É como nos filmes de terror! Toda uma volúpia do suspense, do frisson, do stress. Sem as crises, caía-se na monotonia!...

- Ah, finalmente, percebo: toda aquela correria era para nos despenhar-nos na crise!... Por conseguinte, "corro, logo existo, ou seja, vou prá crise." E, por outro lado, a queda na crise é boa porque é para nos salvar da queda má: caímos na crise para não cairmos na monotonia.

- Mais ou menos isso. A finalidade da corrida é a queda. Corremos para cair.

- Bem, então está alcançado o objectivo. Deveríamos comemorar. Todavia, estranhamente, toda esta escuridão está repleta de choro e ai Jesus-Deus nos acuda!... Em vez duma festa, mais parece um velório. Dir-se-ia que a surpresa não lhes agradou assim tanto.

- É porque são como tu: caem às cegas! De olhos fechados ou vendados.

- Bem, mas há uma certa lógica nisso, não?...

- Como assim?

- Então, uma vez que corriam às cegas, é natural que caiam da mesma maneira.

- Nem por sombras! Tu cais às cegas mas não corrias às cegas por uma razão muito óbvia e simples...

- Ah sim, qual é?

- Corrias atrás de mim. Logo não corrias às cegas: corrias atrás de mim.

- Bem, então eu corria doidamente, atrás de ti, é um facto. Tu é que corrias às cegas.

- Não eu também não corria às cegas: eu corria atrás deles.

- Óptimo, acho que percebo. Então ambos corríamos feitos doidos, eu atrás de ti e tu atrás deles: eles é que corriam às cegas.

- Nada disso. Eles corriam à nossa frente, nós corríamos atrás deles. E nós corríamos atrás deles precisamente porque eles corriam mais avançados que nós. Tornava-se impossível, portanto, não correr atrás deles. Já que eles corriam à nossa frente.

- Enfim, para não cairmos na monotonia, além da crise, caímos também na tautologia! Mas se ninguém corria às cegas, como é que agora um ror de gente cai às cegas?

- Pela mesma razão que tu cais às cegas embora não corresses às cegas: porque já não cais atrás de mim, mas à minha frente.

- Olha...pois é! Mal desatámos a cair, deixaste de estar à minha frente para passares logo para trás de mim.

- Pois, porque na queda as posições da corrida invertem-se, necessariamente. O mais avançado deixa de estar à frente para passar a estar detrás, ou seja, por cima. E o mais atrasado chega-se à frente, isto é, cai mais depressa, de modo a servir, entre outras coisas, de almofada, quando se bater no fundo.

- Muito bem, corríamos então para isto - para cair. E quando acabarmos de cair, quando batermos no fundo, o que é que fazemos?
- Batermos não: bateres. Tu é que bates no fundo; eu bato em cima de ti. Depois disso, é simples: corremos outra vez. Corremos para cair e caímos para correr de novo, é a lei das coisas. Tu, atrás de mim; e eu, à tua frente. Até à próxima crise.
- Francamente, não percebo porque é que depois desta crise não hei-de eu correr à frente. Até estou a ganhar uma certa perícia por aqui abaixo!... Só é pena esta escuridão toda que não deixa ver nada.

- Não podes correr à frente porque és um cegueta. Não terias discernimento para escolher atrás de quem é que haveríamos de correr, de modo a caírmos na crise e não na monotonia! Só eu possuo essa faculdade. Herdei-a dos meus pais, que a herdaram dos pais deles e por aí fora. Ou então comprei-a, vai dar ao mesmo. Seja como for, há prerrogativas que são pessoais e intransmissíveis. As ideias, por exemplo.

- Ah, pronto. Se assim é... Entretanto, quanto tempo é que vamos estar a cair, fazes alguma ideia?...
- Aí não há problema. Logo que iniciámos a queda, comecei de imediato a elaborar um cálculo exacto, complexo e meticuloso. A todo o momento estabeleço uma estimativa quase perfeita, que burilo, transmito e aperfeiçoo no instante seguinte!...
- Fico muito feliz. É bom saber que os mesmos que não foram capazes de prever minimamente o abismo, se sentem, em contrapartida, plenamente aptos para calcular a fundura e a duração do despenhamento. Despencados pela falésia abaixo é que se acham em excelentes condições para lhe adivinhar as medidas!...

5º Lei da Ratafísica Desantropológica: A finalidade da corrida é a liberdade. Através da queda.

domingo, janeiro 22, 2012

Balanço e (ajuste de) Contas. - I



O ano transacto foi pródigo em episódios  múltiplos, que oscilaram garridamente entre o caricato e o deplorável. O caso do vídeo dos americoisos a urinarem ufanamente em inimigos defuntos escapou, porém,  a essa lúgubre fatalidade. Comprova como nalgumas áreas da civilização sempre vão acontecendo sérios progressos. Nem pensem que brinco. Não há muito tempo, os americanos, com desenvoltura análoga, nem sequer esperavam que eles morressem.!... 
Abu não-sei-quantos, lembram-se?...

sábado, janeiro 21, 2012

Re-enter the Dragon



Há duas coisas, pelo menos, em que os chineses nos ganham de abada: a medicina e a astrologia. Ultimamente, parece que também na economia, mas isso não vem agora ao caso. O certo é que, segundo a astrologia chinesa, essa venerável e milenar sabedoria, termina hoje o ano do Coelho e inicia-se amanhã o ano do Dragão. Bem a propósito, convenhamos. Tratarei de agir em conformidade.
Assim, declaro solenemente encerrada a minha licença blogo-sabática. A bordoada - melhor dizendo: o churrasco - segue dentro de momentos. Há que aproveitar, tanto quanto o sorriso dos astros, a bênção dos planetas! Ou não nos ensinassem eles as virtudes da visão superior: a de cima... Lá muito de cima!


quinta-feira, novembro 24, 2011

Joint Desventure

Não sei qual será mais deprimente e penoso de assistir (e padecer) para o comum dos portugueses: se o ser tão alarvemente atacado por esta esquerda disfarçada de direita, se o ser tão javardamente  defendido por esta esquerda mascarada de esquerda. O certo é que sob o garrote da finança ou debaixo da canga da súcia, a economia real do país lá desliza pastosamente pelo esgoto abaixo.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Deste, já posso dizer o que disse do anterior sem errar muito

A demissão do actual governo não é, em bom rigor, um caso de política, como se pretende fazer crer: é um caso de polícia. Mas não apenas do actual - o precedente, mais o precedente do precedente, a somar ao seu antecessor e a culminar, em retroactivo, ao Kavaquistão (já para não falar nos anteriores) - todos eles foram casos de polícia. O estado actual das contas públicas atesta-o soberanamente. O estado actual do património nacional revela-o às escâncaras. O estado actual comatoso do ex-Estado português brada-o aos quatro ventos!
Aliás, nem caso, nem crise - política? Rigorosamente nenhuma. Apenas de polícia.

Aliás, os putativos políticos outra coisa não fazem, nem têm feito ao longo destes anos, que convocar a polícia. Esta, porém, assim como a política genuína, séria, consequente, não se avista nem comparece. A nossa desgraça, por isso germina e floresce dessa dupla ausência: de política e de polícia. Tanto quanto do excesso galopante, triunfante e imperador dos seus contrários. Se apenas nos faltasse a política, mas nos acudisse a polícia, ao menos ainda haveria esperança. Ou se nos desfalcasse a polícia, mas nos valesse a política, sempre se poderia emendar o desfalque. Mas assim não. Sem política nem polícia, penamos sem esperança nem emenda. Sem política nem polícia, ficamos à mercê da contrafacção mixordeira de ambas, reféns sob inapelável sequestro do capricho, do apetite, em suma, da venalidade aleivosa de falsos políticos e falsos polícias. Falsos políticos que não nos representam por inteiro, mas apenas nos nossos defeitos e desqualificações; que não nos estimulam para nada, a não ser naquilo que temos de mais baixo e desprezível; que não nos guiam a lado nenhum, a não ser no caminho para o estrangeiro, para a servidão e para a penúria. Falsos polícias que não nos defendem, nem protegem; que não guardam nem investigam. Mas apenas defendem, e protegem, e guardam pretorianamente a falsa política. Mas apenas acolitam à missa negra onde o erário e a fazenda pública são imolados, sem dó nem piedade, aos ídolos tenebrosos da situação. Mas apenas zelam pela tranquilidade do latrocínio instituído e pela segurança comilona do cancro transplantado. Da falsa democracia, da falsa política e da falsa administração, que não servem à polis nem aos seus cidadãos, mas apenas se servem - abusiva e ferozmente - deles. Donde resulta um estado hipertrofiado e autofágico que devora o país; administrações burgessas e africanizadas que se locupletam e refastelam nas empresas; militares castrados e obedientes com mais amor à promoção do que à Pátria; e uma miríade de palradores, mais ou menos escritos, publicados e embrulhados, desatados e untados numa vaselina multiusos de importação, para lubrificar o mega-supositório (mais ou menos instantâneo, mais ou menos recorrente) com que se auto-empalam e, simultaneamente, com o maior escarcéu e espavento possíveis, se expõem à curiosidade pública e à estupefacção do incauto. Afinal, nada como o enxame da falsa informação para nos atestar dos poderes estupefacientes da contrafacção.

Em resumo, não nos promove nem melhora a falsa política: esbulha-nos, desanima-nos e confisca-nos sòmente;. Como não nos defende a falsa polícia: vigia-nos e ameaça-nos apenas. Não sendo política, de todo, a crise, é, sobretudo e até mais que moral, existencial. A questão íntima que se coloca doravante a Portugal, depois da abdicação forçada de império, é saber se se resigna a esta Liliput rilhafolesca em que pretendem interná-lo.

Seremos, infelizmente, tudo isto que nos torpedeia, intoxica e auto-mutila; mas não somos apenas isto. Nem podemos consentir que nos reduzam a tal. Sob pena de mais valer um maremoto ou super-furacão que nos varra duma vez por todas da face do planeta. Sempre era mais digno e meritório ser varrido pelo Mãe Natureza do que por uma chusma coleoptérica e concertada de burocratas, moços de frete, macacos de imitação e parasitas profissionais. Disse.





Balde de minhocas

O fóssil Soares manifestou-se preocupado com as perspectivas futuras da democracia. Por um lado, é enternecedor: um pai que vive do proxenetismo da filha  a angustiar-se muito com a falência técxnica desta. Por outro, é empolgante:  assistir ao despique frenético entre superstições: duma banda os da democracia; da outra, em tandem vertiginoso, os do mercado.
Como corolário, atente-se  no significativo detalhe: as guerras míticas, na antiguidade, exigiam para ignição o sacrifício de virgens; os apaziguamentos dos ídolos míticos, no presente, requerem a imolação de rameiras. Digam lá que não há todo um perfeito sentido e uma força de equilíbrio no mundo!...

sexta-feira, novembro 04, 2011

Dilema, uma palavra genuinamente grega

Segundo garantem os papagaios de serviço,  é o caos global se os gregos saírem. Ou é o caos na Grécia se os gregos ficarem. Teria imensa piada, e seria de elementar justiça, ir perguntar aos gregos o que é que preferem. Eu, no lugar deles, nem hesitava. A bem da higiene, o mundo agradecia.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Superstições de conveniência

Lendo isto:
«Líder mundial de banqueiros não perdoa dívida portuguesa»
avassala-me uma tremenda perplexidade... Mas afinal não eram os Mercados, essas destilarias inefáveis, os nossos sublimes credores?

Mas que Ixionismo vem a ser este?