quinta-feira, março 28, 2024

Entre a Inércia e a Mentira




 Segundo vou escutando, em repetidos alarmes radiofónicos, o país resvala do desgovernado para o ingovernável. Não sei se me aflija, se me marimbe. Confesso que não vislumbro com clareza a gravidade do caso. Tratar-se-á duma degradação ou dum avanço? Dizia o Frederico Nietzsche que "vale mais um mau sentido do que sentido nenhum". Bem, isto, assim a frio, além de não constituir dogma, também suscita algumas dúvidas. Desçamos a casos concretos... Por exemplo, eu, ou um dos caros leitores (quando eu digo "leitores" enuncio à maneira antiga, vertebrada, significando leitoras e leitores - as senhoras primeiro, sempre e soberanamente, claro está) entre estarmos parados ou corrermos a atirar-nos a um poço, ninguém decerto nos convencerá que a segunda opção é preferível à primeira. Ou estarmos quietos e andarmos a rabiar que nem baratas tontas, também julgo ser indiscutível ficarmos sossegadinhos. É claro que ficarmos quietos para sempre, a limite, também não é uma opção viável: significaria que estávamos mortos ou tetraplégicos. Portanto, o Frederico que me desculpe, mas este seu aforismo, embora até soe bem como poesia, carece, ele próprio, de algum sentido. Como alternativa séria (dito à moda de Aristóteles) não funciona lá muito bem, ou funciona tanto quanto aquela capciosa fórmula do "a democracia é o pior dos regimes excepto todos os outros". Se tanto, pertence mais à índole histriónica. A questão, de resto, é de fundo e essência: nenhum mal pode ser convertido retoricamente num bem. Se é um mal, não presta. O contentar-me com um mal menor é o primeiro passo para convocar um mal maior. Não posso entender como uma opção deliberativa o "ser esquartejado e frito" ou "ser apenas frito por inteiro". Não me está a ser concedida uma possibilidade de escolha: apenas sou coagido sob ameaça. Assusta-me mais, muito provavelmente, o ser esquartejado. Por outro lado, tornando ao mau ser preferível ao nenhum, também não é ontologicamente aceitável: o mal e o nada são indistintos - o mal traduz precisamente uma ausência: a ausência de bem. Um mau sentido é um sentido que conduz ao nada, por conseguinte, nem sequer é um sentido, apenas a sua falsificação. "Mau sentido" é uma contradição em termos (pois, um oximoro). Assim como um mau regime não pode ser melhor que regime nenhum: ele próprio é regime nenhum. Sendo mau, é nada. Em que é que um nada é pior ou melhor que outro? Além disso, um mau regime tão pouco pode ser comparado como um "regime qualquer" - dizer um "qualquer regime" ou "nenhum regime" é idêntica, na medida, em que de nenhum regime específico se trata. De resto, a Democracia onde? Quando? De que modo? Para quem? Com que fim? Não existe "democracia em abstracto" (excepto, eventualmente, na república angélica). Se falamos num regime com aplicabilidade para pessoas é de realizações concretas neste mundo, entre determinadas pessoas, gentes, povos que importa saber. Que é necessário investigar e aferir. Por conseguinte,  se alguém fala em democracia, um conceito estritamente político, em termos metafísicos e, pior, neo-religiosos, então esse troca-tintas desautoriza-se, empaspalha-se e cobre-se de ridículo. Se são aos milhares, estes papagaios, então pior não apenas um pouco.  São tantos que viraram praga? Todas as pragas passam. Todavia, nem são os ruídos que movem o mundo, nem, tão pouco, o ruído apaga a verdade das coisas: a democracia não é um dogma. Não temos que acreditar ou deixar de acreditar nela. Nem os exibicionistas crentes são beatos automáticos prometidos à canonização; nem os descrentes podem ser degradados a hereges e ímpios que urge excomungar do demo-evangelho.

Mas voltando à fórmula...

Podemos substituir o sentido pelo governo? Um mau governo é melhor que governo nenhum? É melhor sermos desgovernados ou ficarmos ingovernáveis? - dito noutras palavras mais radicais: é melhor sermos desgovernados ou não nos deixarmos desgovernar? Reparem: um país desgovernado é um país sem governo. Porque um governo que não realiza enquanto curador do bem comum é um não-governo (um desgoverno, enfim). Vou aqui atirar-me à miséria, ao descalabro moral e à dependência múltipla, compulsiva e variada. Alguém me dirá que estou a governar mal a minha vida?  Todos antes certificarão é que não tenho  governo nem tino nenhum nela. Talvez uma meia dúzia, mais amigos das polémicas ou dos jornais, obstarão em contrapartida que sim, que tenho um governo legítimo, embora péssimo, procurador não do meu bem, mas do meu completo mal e ruína. E isso, a limite, até é bom, porque atesta da minha santa liberdade e do meu pleno direito electivo. Um terceiro elemento, inclinado a bizarrias ainda mais avantajadas, argumentará mesmo, em prol do descarrilamento geral, que isso é até racionalmente justificável porque, segundo um delirómetro de sua invenção, tal me granjeou grande prazer sexual e voluptuosa gratificação nalgumas partes. A questão é que eu não preciso da liberdade para me atirar duma falésia para nada. Um projecto de morte não é um projecto de vida. 'Bora lá rebentar com Portugal para demonstrar ao mundo como somos um povo livre. Num belo dia, acordamos e identificamo-nos não como homens, mas como gaivotas. E toca de nos atirarmos pela janela. A pretexto de que vamos voar e maravilhar o mundo com tal perícia inaudita. Navegadores do antanho, pasmai e sumi de vez: eis que os voadores do futuro descolam!  Já não somos orgulhosamente sós, que maravilha, que esplendor! Pois não; virámos orgulhosamente doidos! Militantemente malucos! Alarvemente suicidas! Não se tratou, nem trata, de uma manifestação de virtudes, cívicas, morais ou o que seja, mas apenas do oposto, da ausência de tudo isso. O que não resulta numa pessoa, muito menos resulta num povo, a não ser que este se resuma e nadifique a uma resma de mentecaptos, um arraial de chanfrados e uma quadrilha de bandidos.

Eis-nos, pois, chegados à presente nacinha rectangular. Julgo não exagerar nem faltar à realidade se disser que se divide em duas porções: uma, silenciada, que aguarda, há cinquenta anos, por alguma espécie de governo; e outra, ruidosa, arrotante, que rabia, frenética e tontamente, ensaiando as mais variadas fórmulas de desgoverno. A primeira está a ficar impaciente; a segunda está a ficar gasta. Sinais evidentes de que nada aqui dura para sempre: nem a Inércia, nem a Mentira.

8 comentários:

muja disse...

Ouvindo os da segunda metade dir-se-ia que a nacinha tem sido um modelo de competência e de seriedade... Seriedade. Hilariante.

É a paródia full spectrum.

- Então e estas fotos de deputedos do PS a fazer manguitos para a câmara, ou este ministro a fazer chifres para os ilustres deputedos?
- Ah e tal, 'tá fresquinho e tal, isso não é era para a câmara!

De TV, entenda-se...

Ah ah ah!

Ou então é "também não apoio isso". Pois não, mas também não desapoias...

Seriedade.

Se isto for sempre assim, continuo a votar em todas as eleicinhas a partir de agora!

dragão disse...

Não aturamos apenas bandalhos, dos media à pulhítica. São, sobretudo, bandalhos snobs.

É toda uma corte de pseudo-nobres e pseudo-clérigos, todos eles truões a fazer de conta. E a cobrar a conta.

passante disse...

"Os de baixo não querem e os de cima não podem continuar da mesma maneira", como mais ou menos disse o camarada Ulianov, especialista de grande sucesso em mudanças.

Figueiredo disse...

Estamos num fim de ciclo; as Eleições Presidenciais Norte-Americanas são daqui a 9 meses.

«...e outra, ruidosa, arrotante, que rabia, frenética e tontamente, ensaiando as mais variadas fórmulas de desgoverno...»

Há 50 anos que Portugal e os Portugueses andam a ser roubados e destruídos pelo liberalismo/maçonaria, que é sustentado por parolos, gente medíocre e mal-intencionada, que odeia a Pátria, a Identidade Portuguesa, e a Portugalidade.

Natália Correia tinha razão:

«...A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista.

A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!

Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente.

Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica. Os neo-liberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão.

Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores? As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e o Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe-média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir...»


Adenda: Natália Correia neste trecho só errou ao referir-se aos filhos dos retornados como «...uma geração bem preparada...», muito pelo contrário, a mediocridade, ignorância, iliteracia, cobardia, maldade, falta de mérito/perfil, e inveja, são os atributos desta gente.

Vivendi disse...

Na ponte de Baltimore o comandante responsável do Navio era... ucraniano.

Fernanda Viegas disse...

Caro Dragão, a Páscoa celebra o renascimento do bem, a esperança no amanhã... É com esse espírito pascal que lhe desejo a si, família e a toda a "Scuola di Draco" uma Páscoa feliz, cheia de pequenas coisinhas que nos dão tanta satisfação.
Como escreveu Amin Maalouf:"Melhor enganar-se na esperança, do que acertar no desespero."

Anónimo disse...

Realidade?!
Uma belíssima exposição: https://paginaum.pt/2024/03/28/a-realidade-esse-estranho-fenomeno-inabitado/

Vivendi disse...

"Scuola di Draco" » Fantástico.

Esta é a Universidade das nossas vidas!