quinta-feira, julho 28, 2022

Notas acerca da Cultura - III. Aculturação e estabelecimento comercial

 Em termos aristotélicos, poderíamos enquadrar a dicotomia "cultura/aculturação" na dicotomia fusis/téchne, ou dito em termos mais compreensíveis, natureza/aritificialidade. A cultura é qualquer coisa que radica na natureza dum povo; a aculturação prende-se com uma artificialidade ou sofisticação introduzida ou adquirida de uma forma não natural, mas técnica (comercial, publicitária, sobretudo). Os projectos da esquerda traduzem sempre essa artificialidade contra a própria natureza lusa - a cultura lentamente adquirida ao longo de séculos é, invariavelmente, substituída ou avassalada por aculturações importadas -, desde a "república" dos jacobinos ao paraíso socialista dos marxistas de arribação, trata-se sempre duma "revolução", isto é, uma imposição abrupta, apressada, urgente, quase instantânea. Acredita-se numa nova espécie de milagre: o milagre socio-político. O que denota como (mesmo quando possesso do furor aculturante) o indígena não escapa, completamente incólume, à cultura. Também, a "a-cultura" de esquerda reflete um descontentamento permanente e mais ou menos radical com o presente e, por arrasto, uma culpabilização invariável do passado. É sempre contra um passado mau e criminoso que urge construir um futuro bom e salvífico. Daí o conceito predominante do "progresso", ou seja, a certeza de que a linha recta temporal (herdada do cristianismo) constitui um percurso inequívoco (infrascendente e necessário) do pior para o melhor. Daí, igualmente, a putativa superioridade moral destes peregrinos. Quanto mais não seja, por decreto: porque o "estado de direito", enquanto superstição totemística de arremesso, garante superpoderes apofânticos, e não se submete à realidade: engendra-a. E não apenas a contrafaz como trata de bombá-la a todas as horas por todos os meios e sulfatações.  Por outro lado, a origem do descontentamento é intrinsecamente material, ou dito em termos de jargão: produção e distribuição da riqueza. (Produção pelos do costume - os otários, distribuição por eles, os representantes estabelecidos e respectivos séquitos). No que se defrontam com a seita rival, de putativa direita (mas, em bom rigor, esquerda mascarada de direita), que professa a produção e apropriação da riqueza (produção pelos do costume - os otários; apropriação por eles, os instalados em cima, familiares e amigos ). Donde deriva a inveja/ganância como força motriz do processo. São os teres e haveres, os trecos e matrecos, que estão em causa (não essências ou coisa que o valha). No âmbito interno, a esquerda (no seu duplo avatar de serviço) inveja as posições privilegiadas da classe dominante e da "elite instalada"; no âmbito externo, inveja este ou aquele país mais rico e anafado, que apregoa como padroeiro da sua demanda e modelo a decalcar. A luta política, entretanto, jamais excede a disputa pelo poder, pelo estatuto, pelo pedestal/trampolim; e o poder é apenas visto como  apropriação da regalia, ostentação da vaidade, usufruto do mero poleiro na gaiola. De tal modo, que o poder, doravante, é apenas "estar no poder". Já não é sequer meio para determinado fim segundo preliminar causa: É, mais uma vez, fim e causa em si mesmo - uma forma estritamente burguesa de conforto, uma masturbação social, um fetishismo político. Em bom rigor, nada mais que bacoco desfile,  show-off, exibição. Não há qualquer projecto ou projecção para lá do "estar no poder". Tudo se esgota nesse aparecer enquanto se pode, e nesse tudo fazer para estar o mais possível. Esvaziado da sua essência, fica o poder reduzido a mera aparência de poder, simulacro de governação, fazer de conta. Assim, o Poder "Democrático", tal qual se exibe - de imitação barata (mas financiada a peso de ouro) - nas nossas paragens, constitui dupla vacuidade e redundância: ambos, o poder e a sua forma (a "democracia") na  ausência mútua, reiterada e compulsiva de princípios e fins, confinam-se a meios absolutos, e tornam-se não modos de servir à comunidade, mas expedientes para se servirem dela. Pelo que, a finalidade do poder não é fazer qualquer coisa em prol do país: é apenas fazer do país estância. Albergue. Hospedaria. As eleições pouco ou nada definem (e ainda menos implementam), de qualquer programa minimamente efectivo para a vida do quadrienalmente lambuzado povo: apenas determinam quem vai "estar", e de que modo, hospedado no erário público nos próximos quatro anos. Claro que há diferenças, no domínio do acessório, entre os candidatos da esquerda e os da esquerda a fazer de direita, mas essas diferenças nunca são 1. de ordem genuinamente cultural; 2. de poder. Porque uma coisa é garantida: Ambas as procissões, quais cortejos carnavalescos (mescla de matrafonas, carros alegóricos e cabeçudos),  são, invariável e compenetradamente, aculturadas e impotentes. 


PS: Porque o Poder é cada vez menos uma forma de fazer e cada vez mais uma forma de estar, redunda, crescente e perigosamente, numa mera forma de parasitagem. Tanto quanto a bancada parlamentar se confunde, quase sempre, com a bancada de feira ou  de secos e molhados. E um partido mais não é, na actualidade, que misto de trampolim de classe e  estabelecimento comercial. De esquina.

16 comentários:

Anónimo disse...

Depois de eleitos basta umas poucas idas á assembleia xuxalhal para os deputados terem garantida boa pensão e subvenção vitalicias.Portanto com o el contado garantido o que interessa é gozar a vidinha,o resto que se foda.A constituição tugalheira é uma treta xuxalhal total.
Umas guerrinhas de fachada na assembleia xuxalhal entre esquerdalha e direitalha para enrolar a parolada sufrageteira e tá feito.
Ainda diz o chungalhão xuxalheirão Abrunhosas que os politicos tugalheiros são mal remunerados e devem ganhar mais...
Estupidificação colectiva,aqui na terreola labregal parolal não é de admirar porque sempre foi assim,o que me espanta é que o comportamento é quase todo igual no mundo inteiro.Tatuagens,piercings,cabelo pintado de varias cores,unhas de gel,sapatolas adidas e nike por criaturas de todas as idades são exemplos desta estupidificação.
A esquerdalha é nojenta mas muito mais nojenta é a direitalha.A direitalha beata zogalheira de fachada é hoje a grande defensora e promotora do afroglobohomoanimalescoambientalis.Sites blogs asquerosos como o delito de opinião e corta fitas,presidentes da Gulbenkian das Gretas chungabergs...inté o chunga do erguete pnr a publicar fotos na net com a caraça colada ao focinho do seu cão...
Não dá para aguentar,um gajo anda com os cornos todos fodidos por causa destas merdas,tá na altura certa pra marchar desta terreola da treta e ir viver para o estrangeiro no campo,não há lá guitos pra bifes come-se umas couves e umas batatas ou outra merda qualquer e caça-se uns tintelhões á fisgada e prontx,pelo menos um gajo livra-se de toda esta merda tugalhal.
Basilio el xuxalhote

Alma Portuguesa disse...

E os nossos militares? Que é feito desses? Se fossem militares a sério, como já os houve, este regime decadente já teria levado ferro!

muja disse...

Pois, essa questão do poder já a vi abordada por um frade dominicano aqui:

https://soundcloud.com/thomisticinstitute/responding-to-contemporary-atheism-fr-james-brent-op

Aqui está uma introdução à palestra

https://edwardfeser.blogspot.com/2019/11/join-ur-platonist-alliance.html




muja disse...

De resto, depois ler o livro de introdução, primeiro ao tomismo, porque calhou, e, depois, já por demanda específica, à metafísica escolástica propriamente dita, deste último indivíduo Feser, fiquei estupefacto.

Efectivamente, tudo desde aí, em larga medida, não passa duma "aldrabice secante", no mínimo.

E pensar que tive "filosofia" no liceu e nunca ninguém me falou disto. Nada. Zero. Foi silogismos e depois paleio "pensa por ti próprio".

Sim, vou já ali pensar por mim próprio sobre como as coisas mudam, e têm de ter causas e desenvolver um ou dois milénios de raciocínio sobre a natureza das ditas causas, da existência, do conhecimento, e assim, no intervalo de dar paleio às gajas e fumar cigarros.

dragão disse...

Muja,
A idade-média pré-escolástica é fascinante. Quando ainda não existiam universidades, mas apenas mosteiros, eremitérios... A "revolução" acontece por alturas do século XI/XII. E de lá brotam todas as vergônteas dos séculos seguintes, até aos nossos dias. No mainstream, digamos. Excepto os marginais Shopenhauer, Nietzsche, Heidegger, etc).
Descartes, por exemplo, é um escolasta.
Tomás de Aquino, um aristotélico, enceta uma conversão muito importante: o Deus de Cristo, afinal, é o Deus de Aristóteles. Tomás de Aquino teve muitos problemas no tempo dele, nomeadamente o ser acusado de heresia (por causa dos "platónicos" agostinianos.)
Recomendo-lhe um livro de introdução à filosofia medieval (até existe tradução em português/brasil) -"A Filosofia na Idade Média", E. Gilson. A trad. portuguesa é da Martins Fontes, S.Paulo.

Quanto a anglo-saxónicos a falarem de filosofia, não perco tempo. Por muito bem intencionados que pareçam, aquilo não perdoa. Pop culture, fast thinking, platonalds ou platoburguer, etc, nunca excede alguma forma particularmente manhosa de banha da cobra. Ou evangelhismo de vão de escada. (o h no evangelismo é de propósito). Nesta específica matéria, sou racista. A civilização é mediterrânica, sempre foi e daí não abdico. Se quer um conselho, a propósito de filosofia, largue a internet e vá para os livros. Os originais. Platão, Aristóteles, Aristóteles, Platão, e por aí fora. São mais do que suficientes. Existem. E está lá tudo. Depois, quando essa base estiver bem assente, se lhe interessar, prossiga por aí abaixo. Vai ver que desce muito, mas, no tempo duma vida humana, jamais conseguirá alcançar as profundezas dos Fesers deste mundo.
Desculpe lá o meu cepticismo, mas se o gajo é ur-platónico então eu sinto-me um absoluto céptico. :O))

muja disse...

Pois. Compreendo.

Mas, nem sequer contando com os problemas da tradução em si, os significados das palavras alteraram-se entretanto e isso basta para uma pessoa não perceber nada e, pior, pensar que ficou a perceber.

Os conceitos têm definições rigorosas que é preciso perceber para seguir a lógica, senão andamos no plano da poesia. O que dei conta comigo até foi mais em relação ao que não querem dizer.

Quem tem traquejo e estudou disto já sabe fazer essa poda conceptual das palavras e saber ou intuir o significado que lhe dava Aristóteles ou S. Tomás.

dragão disse...

Caro Alma Portuguesa,
Faz a pergunta e apresenta a resposta...

«Se fossem militares a sério»

Exactamente. Se fossem. Por outro lado, já reparou na semelhança entre as palavras "militar" e "militante"?...

muja disse...

Eu de resto partilho o cepticismo. Mas é uma ferramenta. Com o tempo a gente vai aprendendo a isolar os espécimes e a minimizar esses efeitos.

O Feser foi e ainda será ainda muito útil. Para mim, claro. E julgo que para outros na minha situação.

Não desfazendo no seu conselho, que aliás já tinha oferecido há uns anos quando perguntei e me aconselhou a Ética, e eu segui, mas no caso calhou assim. Podia ter calhado de outra forma.

Mas acho é que sem introdução, dele ou outro, não tinha alcançado uma coisa muito importante que é a visão mais ou menos geral, mas rigorosa, daquilo que se trata.

Não tinha noção de nada, mesmo depois de ler a Ética. Não tinha noção nenhuma nem do grau de rigor, nem do alcance, nem de nada, no fundo.





muja disse...

Foi um percurso engraçado, aliás.

Começou com ter finalmente percebido a crítica ao darwinismo e, evidentemente, a concordar. A partir daí foi sempre a desfiar.

Apareceu-me o nome dele algures, e andava com curiosidade para perceber os argumentos teístas, por causa da pulga atrás da orelha darwinista. No fundo já sabia que tinha sido intrujado em toda a linha, mas queria saber até que ponto. Ahahahah

E, claro, o ponto era todo. Todo e tudo. E pronto. Depois disso já nem foi desfiar, foi chegar-lhe o fogo directo e deixar arder. Eheheh

Depois continuei com os outros livros porque me estava a saber bem. Até porque ele gosta de malhar nesses Dawkins e restante cambada, que merecem todas e mais algumas. Tem outro sobre o Locke que também foi muito útil.

dragão disse...

Muja,
Nunca tenha medo de tentar aprender, de não perceber, ou, a limite, de errar. Na verdade, o erro é o verdadeiro pai do progresso - do progresso, neste caso, o autêntico. Fuja é dos explicadores fáceis, com remédios rápidos e panaceias para tudo e um par de botas. Os gregos do tempo de Platão tinham um nome para essa categoria de educadores ambulantes: sofistas.

Já levo um bom par de anos neste planeta. Tive alguns, poucos, bons professores (de filosofia até, imagine - ontologia e ética, que me lembre). Mas o que hoje sei de certo, nessa matéria, do ensino, resume-se a isto e é muito simples: o único verdadeiro e grande mestre? O Tempo.


muja disse...

Na cena do darwinismo é que me intrujaram bem, isso sim.

Aí é que é sofista atrás de sofisma. Tudo a desviar, a iludir, a afastar do ponto principal.

Obrigado pelo livro do Gilson. Já estive a dar uma vista de olhos.

dragão disse...

Mas, pronto, eu sou estritamente da filosofia. Nada de misturas com ciência nem religião, embora reconhecendo as importantes e utilíssimas dimensões que ambas ocupam. Simplesmente, a filosofia é mais vasta, por natureza, e não deve aceitar qualquer tipo de atrelado ou adaptação. Porque isso descaracteriza e amesquinha quer a filosofia, quer aquilo a que se pretende atrelar ou adaptar. Ou seja, degrada ambas a mera propaganda ou publicidade.
Fora isto, cada qual escolhe o seu caminho e erra da forma que mais simpática lhe pareça. Tal qual eu faço. :O)

muja disse...

Bom, mas o interesse do meu comentário era a palestra do frade. O Feser era só porque tinha uma introdução em texto.

Na palestra o frade é que fala dessa forma de conceber a realidade como poder, apenas. Que é uma forma completamente tarada de conceber a causalidade, obviamente.

Ao ler sobre as quatro causas lembro-me de ficar a pensar se conseguia aplicá-las às coisas que julgava conhecer e se havia algum exemplo mais ou menos mundano, que ilustrasse bem a necessidade de ir além da material e eficiente.

E lembro-me de pensar que nos julgamentos, por homicídio, por exemplo, ainda se vai além dessas duas. Ninguém pode afirmar que compreende ou conhece um homicídio sem saber a causa final, o verdadeiro fim da matança.

Figueiredo disse...

«...As eleições pouco ou nada definem ...»

Têm sido deslocados para Portugal grandes quantidades de Estrangeiros ao longo dos último anos, principalmente durante as prisões domiciliárias («confinamentos»)dos cidadãos Portugueses, decretadas pelo Governo do Sr.º Primeiro-Ministro António Costa.

Dão-lhes a Nacionalidade Portuguesa, habitação, trabalho ou subsídios, e em troca têm de votar nas Eleições Legislativas e Autárquicas.

O objectivo é manter o corrupto e anti-democrático regime liberal/maçónico que desde 2009 não tem legitimidade, pois perde todas as Eleições Legislativas para a maioria dos cidadãos Portugueses representados pela Abstenção.

- Reposta ao comentador(a) Alma Portuguesa:

Enquanto existir a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e Portugal a integrar, os Militares não podem intervir, se o fizessem a OTAN invadia de imediato o país pondo fim à revolução e pior, ocupava definitivamente o Território Nacional ou dava início a uma guerra-civil pondo Portugueses contra Portugueses.

O Prof.º José Hermano Saraiva dizia que a única entidade capaz de mudar os regimes em Portugal é o Exército, mas tendo em conta que o mesmo se encontra depauperado - intencionalmente - e infiltrado/controlado pelos liberais/maçonaria onde a mediocridade da generalidade dos seus quadros é imensa, composta por homens e mulheres sem perfil para serem Militares e que lá foram colocados para servir interesses alheios aos da Pátria, da República, e dos cidadãos Portugueses.

Para ter ideia do descalabro que lá se passa, leia este artigo publicado no «Diário de Notícias»:

- Aguiar-Branco mantém prazo para promover enfermeiros a oficiais

https://www.dn.pt/portugal/aguiarbranco-mantem-prazo-para-promover-enfermeiros-ao-oficialato-4871739.html

Os Oficiais do Quadro Permanente têm de cumprir quatro a seis anos nos cursos da Academia Militar (AM) ou nos cursos de Medicina para atingir esse posto, mas existem Sargentos do Quadro Permanente a serem promovidos ao posto de Oficial em alguns meses.

Vivendi disse...

Portugal per capita tem mais generais que os EUA.
Foi tudo comprado para ficar caladinho.

"A cultura hype vai acabar com a civilização. Explico: essa cultura leva o consumismo às últimas consequências. Vejam como isso está conectado a Indústria 4.0 em que a digitalização impõe inovação constante. No hype todos tem de estar conectados as tendências do momento. Tudo tem que ser consumido rápido e descartado para dar lugar a algo novo. Não existe tempo para elaborar nada de muito profundo, reflexivo. A música, a arte, a literatura, a religião, a política, tudo deve estar atento às tendências que são líquidas, fluidas. Nessa cultura a leitura é descartada: vídeos rápidos de 1 minuto passam a ser o método ideal de comunicação. Nela o hipertexto, que sempre carrega você para outros hipertexto através de links, substitui o texto. No hipertexto não há foco mas dispersão. Nada de sólido ou durável poderá emergir duma cultura dessa. A consequência a médio prazo será a demolição das bases institucionais sobre as quais, necessariamente, uma sociedade se funda. O futuro é sombrio. O atomismo liberal, via revolução tecnológica, destruirá a humanidade."

Alma Portuguesa disse...

Caro Dragão,

Como vivo fora de Portugal, tenho aquele velho sonho de entrar com um grupo de mercenários amigos, da legião, e fazer uma chacina, uma limpeza das antigas ali pelas sedes (partidos) dos ratos nojentos! Já que não temos militares e apenas militantes!