quinta-feira, janeiro 03, 2008

O Nome do Amorfódromo

Esta coisa de retirar o nome dos santos das escolas, a ser verdade, inquieta-me. Não tanto pelos santos actuais, digo já, mas pelos potenciais. Lá que mandem o Santo António, Tiago ou Gervásio para as urtigas, a toque de decreto e esfregona, não me causa especial impressão. Se estamos no inverno, é natural que chova e reinem as enxurradas. Aliás, uma medida peregrina destas cumpre na perfeição a lógica do actual regime: todos sabemos que um dos grandes problemas da educação neste país é o nome que se dá a cada estabelecimento de ensino. detalhe mais importante duvido que exista; aquilo determina tudo o resto. Um aluno laico, balalaico ou trilailaico, é mais que evidente, não se consegue concentrar nos estudos, sabendo que um nome religioso macula e assombra o local. "4x9?", "Não sei, setôra, o Santo António está-me aqui a fazer cócegas e nem me deixa pensar!..." Por conseguinte, verificado estatisticamente que as escolas com piores resultados ostentam nomes de santos, vai-se lá, muda-se o nome à escola e pronto, assunto resolvido, é ver aquelas pautas medrarem e borbotarem de notas repolhudas. Aposto que deve ter sido este o raciocínio da ministra e respectiva récua assessora, e nós, caros compatriotas, verdade seja dita, só podemos congratular-nos com tão fulgurante e engenhosa panaceia. Até aqui, portanto, tudo muito bem, um deslumbramento daqueles. Mas resta o tal senão inaugural, aquele que me atenaza o espírito: é que ao banir-se os santos actuais, está também a vedar-se a ascensão aos futuros, já não falando nos beatos, acólitos e anjinhos do coro presentes. Um Santo Álvaro Cunhal, por exemplo...Já viram bem? Vai obstaculizar-se um santo portentoso destes?... Ou um São Marx, um Santo Mário Soares, um Santo Aristides, um Santo Agostinho Neto (nas escolas da Damaia, imprescindível, acreditem), uma Santa Catarina Eufémia, um Beato Saramago - enfim, vastas hordas canonizadas ou quase -, verão a sua consagração escolonomástica seriamente comprometida, senão mesmo decisivamente arruinada. A não ser que o decreto ressalve os futuros venerandos e se aplique apenas aos passados. Ah, bem, assim já não está cá quem falou. Tudo a bem da Nacinha, nada contra a Nacinha.
A não ser, talvez, acrescentar que não me ofende -nem espanta - nada do que quer que chamem às "escolas": santos, demónios, gatos fedorentos, carlas vanessas ou cristianos ronaldos. A essas actuais e perfeitas fábricas de enchidos, o único nome que considero escandalosamente insultuoso -sobretudo à nossa inteligência e a considerável parte dos profissionais sérios que lá penam - é Escola.
Escola é uma instituição onde se formam homens e mulheres, não um antro onde se deformam e adestram para formigas. Para carniça invertebrada, automática e telecomandada. E onde passam um diploma ao fim duma série vitoriosa -e retumbante! - de acefalogramas.

Previsões do Saxo Bank para 2008

Previsões do Saxo Bank, na Dinamarca, para 2008:

- Petróleo a 175 USD/barril;

- Cereais ao dobro do preço actual;

- Colapso do mercado chinês na ordem dos 40%;

- Colapso do mercado americano na ordem dos 25%;

- Vitória de Ron Paul nas presidenciais americanas;

- Início do declínio da economia britânica.

Melhor mesmo, só no caso de haver um ataque tresloucado ao Irão. Nesse caso, a previsão do preço do barril de petróleo sobe para 250 USD.

Para quem está neste momento a interrogar-se das razões que terão levado os banqueiros dinamarqueses à ingestão metódica de LSD, convém talvez recordar que o catalizador alucinogéneo parece estar a gerar efeitos assombrosos: em 2007, a equipa de oráculos do Saxo Bank acertou a generalidade dos vaticínios.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

A Banda sonora para 2008

Vejam o vídeo e oiçam a música, com o volume bem alto, que vale a pena.
Até porque eu apareço a 7.07.

E há uma certa dose de auto-ironia neste postal. Ou o tipo com quem mais gozo me dá escarnecer não fosse eu próprio.

Sem nesgas

(imagem gentilmente surripiada à Zazie)


Para ser franco, eu acho que não há Ano Novo nenhum. É uma anedota - e um logro - chamar-se novidade a uma continuação. 2oo8 é só aquele pedaço de Limbo que fica entre 2007 e 2009. Um mero marco na estrada para Nenhures. O bêbado-ao-volante chamado Humanidade zurra e comemora de cada vez que passa pelos marcos. A seguir estampa-se. Abalroa árvores, casas e ciclistas; atropela peões e velhinhas; varre sinais, candeeiros e semáforos. Sempre com grande algazarra e festividade. Leva a televisão com ele (a servir, em simultâneo, de pára-brisas e retrovisor). E o diabo lá dentro.
Busca desalmadamente o estampanço definitivo. Há-de, mais dia menos dia, encontrá-lo. Acelera com fúria porque procura desesperadamente um freio. Tenta, pois, acertar em cheio, mas apenas colhe de raspão. Enquanto o estampanço terminal não chega, o mais que alcança, na ponta do zigue-zague, é resvalar.
Não obstante, 2008 promete. No firmamento perpassa e tremeluz toda uma plêiade de indícios e presságios animadores.
1. No Quénia, a Baixeira de Lisboa começou a produzir os seus gloriosos frutos: multidões ululantes, de catana eriçada e ódio em riste, celebram, há vários dias, com motins, pilhagens e chacinas tribais. África nunca me há-de desiludir.
2. No Paquistão, a luta contra os gambosinos prossegue a bom ritmo. Para comemorar o assassinato da sua enviada especial, os Estados Unidos vão fornecer mais 36 caças F.16s ao regime de Musharraf. Outro daqueles contratos suculentos, de 144 biliões de dólares, que muito jeito dão ao Complexo. Sacrificaram a dama, mas acabam por dar cheque-mate. Até porque já conseguiram, em tempo oportuno, o aval para a entrada de tropas especiais no país. Para ajudar ao combate dos talibãs e al-caídos no Waziristão, dizem eles. Tudo aquilo parece, cada vez mais, um imenso Aldrabistão.
3. Na Rússia, os testes do novo míssil estratégico RS-24 foram um sucesso. A capacidade dos russos para pulverizarem cidades noutros continentes resulta consideravelmente melhorada. Congratulemo-nos. Por outro lado, depois de forneceram 29 sistemas de defesa anti-míssil Tor-M21 ao Irão, os russos vão agora disponibilizar a esse mesmo concessionário o, ainda mais sofisticado, sistema S-300. Convém que os russos se tornem cada vez mais perigosos e ameaçadores para que os nossos amigos americanos nos possam cobrar mais pela protecção. Temos que lhes acudir ao défice.
4. No Kosovo, a bomba-relógio continua em contagem decrescente. Os impulsos suicidários da Europa estão bem e recomendam-se. A balcanização europeia, eufemisticamente chamada de "União", também. A Alemanha e a França, sob controlo remoto, querem por força atirar-nos no poço.
5. Um prestigioso Think-Tanque americano elaborou um "doomsday-study". Encenaram uma guerra nuclear entre Israel e o Irão e chegaram à brilhante conclusão que Israel dá cabo do Irão num instante, e apenas à custa dumas módicas centenas de milhar de baixas. Dizer a um país que se implantou à custa de umas centenas de milhares de mortos que a destruição dum inimigo só lhe vai custar outras centenas de milhar de mortos é capaz de não ser a melhor das ideias. Ainda mais quando o Irão, numa lerdice inqualificável, teima em não equipar-se convenientemente para a cerimónia, isto é, demora que se farta em armar-se a rigor. Demora e agora, dizem, até recuou. É mais que justificado o escândalo israeleiro: como encetar uma guerra nuclear com gente que procrastina e retarda na aquisição de arsenal condigno? Nem uns morrem, nem outros almoçam!...
6. Na Nigéria, os pastores evangélicos capitaneiam na trepidante caça às "crianças-bruxas", que alastra entusiasticamente pelo país. "País", naturalmente, é força de expressão. Mas no melhor estilo DIY (do it yourself), sorvido directamente nas pias ambulantes da sacro-bricolage protestante, os populares (com os progenitores à cabeça) dispensam morosidades processuais e anacronismos inquisitoriais e tratam sumariamente do assunto. Turbo- lincham. É a caça-às-bruxas em ambiente de faroeste. As abomináveis crianças são, assim, e sem apelo nem agravo, "queimadas ou enterradas vivas, envenenadas, esquartejadas, amarradas a árvores ou simplesmente, em dias mais calmos, espancadas e escorraçadas para os matagais" (onde, presumo, feras menos desumanas as devorarão, sem raiva).
7. Enquanto isto, no Vaticano, Sua Santidade, o Papa Bento XVI manda aprontar esquadrões de exorcistas, de modo a dar batalha às hordas satânicas que infestam o mundo. Não sei se a ideia ocorreu a Sua Santidade depois de televisionar o Padre Borga na TV cá da paróquia. Ou algum dos seus compadres evadidos dos altares. Mas a mim até me ocorre. Ocorre-me, de facto, a figura urgente dum exorcista para tratar destes energúmenos. Só que um exorcista devidamente armado. Não só de força espiritual para lhes pacificar as almas, caso as encontrem, mas sobretudo dum bom cacete para lhes varejar o tirano do coiro, mais aquele sarrabulho despótico de tripas, bandulho e gelatina cerebral que legisla e revoluciona lá dentro.
O Papa lembra-me Édipo. Deus o livre de convocar Tirésias. Seria trágica a resposta.

Entre Vénus e Marte, anda um manicómio a boiar nos céus.
Este não é o mundo dos nossos sonhos? Pois não. É o mundo dos nossos pesadelos. Nem mais nem menos que aquele que merecemos.

Vai ser um bom 2008, não duvidem. Especialmente para aquele meu primo que mora na Rua do Apocalipse e para os filhos todos dele. Com as putas todas do seu Reino.
E nós cá continuaremos, a calafetar-nos, muito bem calafetadinhos, no nosso casulo onfalofântico. A nossa bela cela almofadada. Para nos podermos despistar e estampar pela Eternidade. Sem nos magoarmos muito. Aliás, sem nos magoarmos nada. Porque, enfim, em êxtase, absolutamente anestesiados à dor dos outros.


terça-feira, janeiro 01, 2008

Ron Paul, canditato fantasma?...

Existe até entre nós um blogue de apoio a Ron Paul, na actual corrida à nomeação para candidato à Casa Branca. Podia ser um blogue de ilustres desconhecidos, mas não, até lá vislumbro alguns ilustres conhecidos blogosféricos. Significa isto que esse senhor Ron Paul não é pura ilusão minha: existe. Não sei o que representará em termos de ideias ou projectos. Sinceramente, não sei. Nem nunca gastei um minuto do meu tempo a tentar sabê-lo. Mas começo a suspeitar que algum valor genuíno deve ter e alguma diferença substantiva deve constituir. Sobretudo pelos rumores duma campanha difamatória do mais baixo nível que lhe tem sido movida a partir de reconhecidos crápulas de serviço e papagaios de aluguer. Campanha reptiliana, essa, que teve os seus episódios mais recentes numa dupla e sintomática exclusão: dos debates na Fox News; e deste impronunciável - mas deveras elucidativo - Ranking.
Não me digam que o Ron incomoda assim tanto. Começo a simpatizar com o sujeito.

O Meu voto para 2008



Há uma certa lógica que preside a tudo isto.
No tempo em que vivíamos sob a ditadura política, experimentámos os rigores duma polícia política - a famigerada Pide/DGS. Agora que vegetamos sob a ditadura económica, arfamos sob as severidades duma polícia económica - a inenarrável ASAE da pata que os pôs.
Razão tinha o outro que prescrevia: "aqui nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma". Geralmente para pior, como é o caso. É que a Pide, por princípio, só se ocupava da repressão daquela minoria da população que conspirava para ser estrangeira; estes agora ocupam-se de qualquer um que teime em ser português.
Um povo que não luta pelo direito aos seus vícios é um povo que abdica da principal das suas virtudes (suas e de qualquer povo digno desse nome): a autonomia. Um povo que autoriza sobre si próprio uma Brigada Sanitária degenerou em infame carneirada que se resigna ao nível de gado confinado a uma exploração agro-pecuária.
Eu não fumo. Mas, desde hoje, só jantarei em restaurantes onde não seja proibido fumar.
Esta corja de políticos, esta vara de burrocratas de serviço, se querem higienizar com seriedade e algum rigor, comecem, retroactivamente, pela cloaca incontinente da senhora porca-mãe deles, esgoto infecto que despejou tamanhos excrementos no mundo!
Por isso mesmo, fica aqui o meu -e do meu sócio e engenheiro Ildefonso Caguinchas - voto para 2008:
Vão higienizar a puta que os pariu!!

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Telenovela paquistanesa

Segundo versões alternativas que surgiram logo a seguir ao assassinato, quando o bombista suicida deflagrou a seus pés, a senhora Benazir Bhutto já tinha sido perfurada por cinco balázios, diligentemente expedidos por dois snipers das redondezas.
Conforme se pode ler na notícia, os snipers teriam usado AK-47 (vulgo kalashnicov).
Agora apareceu uma nova versão, com vídeo e tudo. Notem que a arma que dispara não é uma AK-47, mas uma pistola semi-automática de modelo claramente militar.
Não percam os próximos episódios.

Feliz Aniversário!

De Mestre Bu.
Para a Inês, que faz hoje anos.
Convém que não descures a educação musical, cara discípula. Afasta-te da Pop, ainda mais daquela que sempre se mascarou de rock.
Estes não são os King Crimson, faltam lá o monstro Fripp e o sub-monstro Bruford, pelo menos, mas é o Wetton, baixista e vocalista dos Crimson; e esta foi a única versão completa que se pôde arranjar duma música que foi feita para a Eternidade e não apenas para a feira: Starless and Bible Black.

Que faças muitos, além dos 25 que agora completas e que eu esteja cá para te abençoar e proteger de maus olhados.

Starless

Sundown dazzling day
Gold through my eyes
But my eyes turned within
Only see
Starless and Bible black

Ice blue silver sky
Fades into grey
To a grey hope that oh years to be
Starless and Bible black

Old friend charity
Cruel twisted smile
And the smile signals emptiness
For me
Starless and Bible black.

sábado, dezembro 29, 2007

A ASAE-DGS

De modo a animar os proprietários para o novo ano que se avizinha, a ASAE promete e notifica: «Metade dos restaurantes e cafés em risco de fechar».
E estão em risco de fechar por uma razão muito simples: porque a ASAE vai fechá-los. Em nome da higienização económica, vulgo "regulamentos comunitários", claro está.
Mas, pergunto eu, vai fechar os McDonnald's, as Pizza Huts ou quaisquer umas dessas lixeiras alimentares que poluem e emporcalham o país de alto a baixo, desde shopping-coisos a babéis comerciais? Não, de maneira nenhuma! Era o que faltava! A qualidade da comida pouco lhes importa: o recipiente e a embalagem é que interessam. E desde que se calcem as luvinhas, ou se sirva a mixórdia em manjedoura ultra-pasteurizada, não há problema.
Em resumo: para se envenenarem, fica ao arbítrio das pessoas; funcionam as leis do mercado. Só se envenena quem quer (ou quem não tem dinheiro para mais). Mas para comerem em tascas, snacks ou restaurantes típicos, aí, fica ao critério do gangsterismo legal; funcionam as leis da burrocracia Bruxelosa, na ponta das pistolas e metralhadoras da ASAE. Só se come onde eles quiserem.
Vivemos, cada vez mais, num regime de burrocracia armada. E não já apenas em parva.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Entrevista a Benazir Bhutto, em 02 Nov 07

Ao minuto 6.12, surge a misteriosa declaração:
«Omar Sheikh the man who murdered Osama Bin Laden»...

Arqueologia Musical - I. Soft Machine

Há quem diga que influenciaram os Floyd, há quem diga o inverso.
Seja como for, músicos levados da breca!

quarta-feira, dezembro 26, 2007

O TOP MAIS 2007

De volta ao mundo e às suas trivialidades, já foi publicada a Lista dos 1o mais corruptos da América, para a época 2007, segundo a Judicial Watch.
São eles:
1. Senadora Hillary Rodham Clinton
2. Deputado John Conyers
3. Senador Larry Craig
4. Senadora Diane Feinstein
5. Ex-Mayor de Nova Iorque Rudy Giuliani
6. Governador Mike Huckabee
7. Lewis “Scooter” Libby
8. Senador Barack Obama
9. Deputada e presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi
10. Senador Harry Reid

É animador saber que, entre os Dez Mais, estão vários candidatos à Presidência e, muito provavelmente, o próximo Presidente da nação mais poderosa do planeta. Se classificamos, e bem, Angola como uma cleptocracia, catalogaremos os Estados Unidos como quê - uma corruptocracia?...

terça-feira, dezembro 25, 2007

Eu não acredito em Deus




Um dos sinais evidentes da puericultura predominante no nosso tempo é a zaragata e o chinfrim, verdadeiramente fetichistas, em redor da existência (ou desistência) de Deus. Crentes e descrentes, quais bandos de pardais à solta, trocam pedradas e mimoseios dignos de qualquer recreio de jardim-escola.
Ora, Deus não é objecto de conhecimento, nem, tão pouco, de crença. Quer isto dizer, logo à partida, que não pode haver uma “ciência de Deus”, nem um “feiticismo de Deus”. Isto, apesar de ser isso o que por aí, e desde tempos imemoriais, sobremaneira abunda e efervesce. Um ídolo, mais ou menos perverso, que oscila entre o totemismo da Razão e o totemismo da Tribo. E, pior que tudo isso, um fetichismo a querer fazer-se passar por ciência, e uma ciência a querer tornar-se fetichismo.
Todavia, Deus não se acredita, nem se calcula: celebra-se. Respira-se. Vive-se. Muito mais que convicção, é acção. Não me imagino a calcular, contabilizar e catalogar as batidas do meu coração. Nem me imagino a proclamar a cada minuto que tenho fé, que rezo, que rogo ao Além para que ele não páre no minuto seguinte.
Suspeito que a questão fundamental não é se “eu acredito em Deus”. Acreditar é “dar crédito” – quem sou eu, um ser efémero que vive por empréstimo, para conceder crédito a Algo que me transcende? Haverá maior acto luciferino que proclamar “eu dou crédito a Deus”? Significa fazer de Deus um devedor meu: Alguém que tem dívidas e deveres para comigo. Não raramente, obrigações. Pervertidamente, é inverter e perverter a Ordem Cósmica: fazer da criatura, credor. Fazer do facto, fazedor. É transformar a própria Vida – e toda a metafísica que nela habita – numa mera relação contratual. Num agiotismo espertalhão. Num Fundo obrigacionista. Em que mercearia forjaram um "deus" destes?
Desenganemo-nos: a questão fundamental não é se eu acredito em Deus, mas, isso sim, se Deus ainda acredita em mim. Se eu, reles e mísero humano, cada vez mais longe do meu coração, cada vez mais afastado e disperso da minha própria raiz e da minha Palavra, ainda sou digno de crédito. Se ando perdido na confusão à procura do caminho para casa; ou se, viciado e embrutecido no caos, me tornei habitante dele. Se ainda procuro alguma verdade, ou se, pura e simplesmente, me tornei toxicodependente da mentira. Só uma cegueira veemente, uma estupidez grosseira pode transportar-nos a essa ideia peregrina de que me compete acreditar em Deus, como se ele precisasse do meu crédito para alguma coisa. Obrigar alguém a uma crença é negar Deus, é proclamar o seu contrário. Um Deus obrigatório é um Deus obrigado, convertido, sujeito dum contrato, em suma, proto-estado providência e, simultaneamente, super-agência de interesses. Porque, disso pelo menos não me resta qualquer dúvida, a crença em Deus deu origem à crença na liberdade, ou à crença na democracia, ou na salvação do mundo por obra e graça duma qualquer crença.
Não espanta – e constitui evidência ubíqua ao longo da nossa vida: quem mais perdido anda, é quem mais enche a boca de salvação; quem mais escravo age, é quem mais atafulha a boca de liberdade; quem mais totalitário e intolerante arfa, é quem mais atesta a bocarra de democracia; quem mais idolatra o próprio umbigo (pessoal e clubista), é quem mais proclama o seu amor assolapado ao outro, à humanidade. Confundem fé em Deus com bajulação a Deus. E celebração com suborno.

É de tudo isto que nasce um aforismo que há muito tempo me persegue – “eu acredito em Deus; Ele é que, desconfio, não acredita em mim.” -, e que hoje (não me peçam para explicar como, porque não sei) finalmente compreendi.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

FELIZ NATAL A TODOS, Ó EXCELENTÍSSIMOS!...

Ao escol da humanidade que constituem os leitores, comentadores e críticos deste meu humilde ringue (excepto, naturalmente, aqueles que estão -neste momento e pela noite fora - a receber a visita dos armários moldavos), desejo um Feliz Natal!

domingo, dezembro 23, 2007

Vamos às prendas - III



Numa pausa excepcional nos meu afazeres de ser rude, obnóxio, selvaginoso e anti-não-sei-o-quê, quero aproveitar enquanto a Svetlana foi visitar a família à Ucrânia, para, na medida em que a Irina no permite, deixar aqui um agradecimento especial a uns certos meliantes que andaram para aí, como de costume, a mentirozar a meu respeito. Fora essa tendência efabulante, até são uns rapazes desempenados, sobremaneira na pena e no verbo, que se reclamam nacionalistas e fazem eles muito bem. Eu, infelizmente, não me posso reclamar porque, sendo O Nacionalismo por antonomásia, tal está-me implicitamente vedado. Passo cartas de corso e já não é mau.

Mas vamos a eles. Os Sete Magníficos.

Ao Bruno Oliveira Santos, ao FSantos, ao Corcunda, ao Paulo Cunha Porto, ao Mário Martins, ao Pedro Guedes, que escreveram, e ao Manuel Azinhal, que não escreveu mas mo transmitiu telepáticamente, vai o meu "obrigado, malta!". E já que a maré está de feição, aproveito para desejar um Feliz Natal a todos.


Como bónus -e para os indemnizar do tempo perdido a darem cabo da vista com as minhas barbaridades e heresias -, aqui ficam as prendas:


Para o Manuel Azinhal,

http://br.youtube.com/watch?v=m3gd6uCD2FM

Para o BOS,
(ainda ponderei o "Imagine"...)

Para o FSantos,

Para o Pedro Guedes,


Para o Corcunda,


Para o Réprobo,


Para o Mário,


sexta-feira, dezembro 21, 2007

Vamos às prendas - II




Por ordem de antiguidade, seguem-se o insigne José e a destemida Zazie. É rico quem tem amigos assim. Deste nababo que muito vos estima, vão os votos dum Feliz Natal, ó caríssimos. Com Zappadas em abundância e gárgulas por desbravar.


Para o José:





Para a Zazie:


(Nemésis, ou a Grande Fortuna, de Albrecht Dürer)

Vamos às prendas - I




É a minha amiga blogosférica mais antiga. E venerável. Uma senhora gentil e uma alma luminosa que nunca me canso de admirar.


Para si, Margarida. E que o Céu nunca lhe falte. Com votos de um Feliz Natal, na companhia dos que lhe são queridos.

Pegadas


Já quebrei com mil espadas
contra as ameias do futuro,
sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.

Já esconjurei mil ciladas
esgota-se-me o esconjuro.
Sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.

Já visitei mil moradas
e em nenhuma eu figuro,
sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.

Já embosquei mil e uma estradas
mas o bicho é inaturo,
sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.

Já raiaram mil alvoradas
e não se acabou o escuro,
sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.

Algures, para além das palavras
sei que existe um silêncio puro
lá, onde acabam as minhas pegadas
sei que há-de estar quem procuro.


- Rui Ulisses de Castro