quinta-feira, dezembro 13, 2012

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«As manadas existem, mas não existem só as manadas. Mais precisamente, o facto de existirem chusmas lemmings não significa necessariamente que toda a humanidade possa ser entendida, enfileirada e manobrada feita uma chusma lemming; como, de certa forma, o facto de existirem indivíduos não constitui prova suficiente de que todos os homens sejam indivíduos. A experiência tem demonstrado precisamente o contrário destas generalizações aberrantes, mas normatizadas e cíclicas. Por outro lado, sabe-se tanto da lógica ou da necessidade da existência do indivíduo, como da lógica ou razão de ser da manada. De resto,  apenas se comprova a existência de indivíduos exactamente no fenómeno oposto de existirem manadas: é que, decerto. não é indivíduos aquilo que constitui as manadas. A ideia peregrina de acabar com os conflitos entre manadas, convertendo tudo na mesma e acéfala manada global esquece esse pormenor, aparentemente insignificante mas deveras incómodo, de existirem os indivíduos. Quanto mais opressiva for a escuridão, mais intenso resultará o brilho da vela solitária. Como a massa Blobglob reagirá, a limite, àquilo que não consiga digerir e fundir, é ainda uma incógnita superficial. Mas, no fundo, adivinha-se...
Além do mais, e voltando atrás, a homogeneização germina e viceja no Terror: torna-se possível, senão necessária e indubitável, a um homem-aterrado, que já não trepa aos olimpos nem mergulha nos abismos, que já não sonha nem pensa para lá da superfície, quer enquanto espaço, quer enquanto tempo. Um hominídeo pragmático, utilitarista, com os pés bem assentes na terra. Um homem aparentemente em correria perpétua, em transportes de libertação, mas, na verdade, ancorado, enjaulado, parqueado, com toda a liberdade para correr dentro dos limites do parque. Cada vez mais a correria humana é uma correria de hamster. Ou de Sísifo. Um correria circuitante, recorrente, erosiva; uma tournée aos quatro cantos do seu presídio. Um Tour, ou melhor, um turismo do seu próprio inferno. Talvez seja essa a forma de o climatizar: se antes se encontrava degredado nele, doravante está só de visita, de passagem, de férias. Ou não fosse a actualidade a exibição confrangedora dum homem que tirou férias da sua própria essência.»

in "O Tratado da Besta"

«A mesma força que empurra o homem para a Ordem, catapulta-o contra a Desordem! E, o diabo se roa todo!,  não é uma questão numérica: milhares de abortos não fazem uma criança e, muito menos, um homem que seja! Por isso mesmo, este,  não tem que estar à espera que milhões de bestas cavalgaduras e bestas cavaleiras se dignem conceder-lhe o benefício da sua simpatia ou assentimento; chegada a hora, aceso o fogo, irrompe, nasce, ergue-se acima da lama, cumpre a força que o determina, a coragem que o incendeia, sem olhar para trás e sem esperar jamais que a lama o acompanhe ou a baixeza o eleve e exalte! O Homem não se ergue da bestialidade para a conduzir: levanta-se contra ela, como a estrela se acende contra as trevas do céu. É só um pontinho minúsculo e longínquo no meio dum infinito negro e vazio, mas é esse pequeno nada que brilha e guia o ser! Essa é a prova de fogo, a têmpera vulcânica que forja o gume olímpico e o aço inquebrável. Poisai a máscara, ó fariseus melífluos: É a mesma bestialidade cega que ergue a cruz para Cristo e a forca para o pirata. No fim, ambos sabem que estão, como sempre estiveram, sozinhos; que ninguém os segue na ascensão que conta, no momento da verdade, porque a humanidade não se imita, nem se aprende, nem se ensina: é-se, vive-se, de pé, sem medo nem vaidade. Não, pelos tomates de Aquiles!, o homem não se subleva: ergue-se; mesmo sabendo, especialmente sabendo, que é para caminhar para o cadafalso, seja esta a cruz do Nazareno, seja a forca do pirata! Porque diante de Deus,  aos olhos perscutantes do Cosmos que tudo vê e julga eternamente, vale mais uma morte de homem que uma vida inteira de réptil! A morte dum homem é o preço pela sua vida; a vida do réptil em figura de gente é uma vida tão desprezível e insignificante que nem preço tem!...»

- Retirado do "Sermão de Não-São Iceberg aos Tubarões" (Capítulo IV duma determinada obra que me compete acabar antes que este rilhafoles acabe comigo).




3 comentários:

O faroleiro disse...

sem dúvida

mas pela oração e pela humildade

sem se notar

zazie disse...

Ah, que maravilha!

O tal "link para o baú".

Anónimo disse...

"Quanto mais opressiva for a escuridão, mais intenso resultará o brilho da vela solitária." e este seu blog é precisamente essa vela solitária.