quinta-feira, junho 21, 2012

Da aleivosia ao ridículo

As pessoas são todas muito evoluídas, muito modernas, muito sofisticadas, muito científicas e coiso e tal, mas depois, na hora de abordarem e operarem conceitos concretos, lá resvalam elas, cafrealmente, para o mais atroz dos fetichismos. Muitas vezes, numa verdadeira mescla  ruidosa de coro de papagaios com metafísicos de bidé. A cegarrega da Democracia é disso claro exemplo. Não há cão nem gato que não proclame o palavrão democracia como se duma deusa inefável cósmica se tratasse, um pouco à laia da "santíssima raizon" dos tomba-bastilhas de 79. Ninguém se meta com a nossa deusa, que representa não só o fim da história, como o fim da política, da ética e a moldura final da filosofia.
Quando na verdade não existe democracia nenhuma. O que existe são democracias. A democracia em Inglaterra, a democracia na Escandinábia, a democracia made in USA, a democracia na Venezuela, em Angola e agora até na Líbia. E todas estas democracias funcionam não segundo princípios ou regras (que é coisa que aquilo não tem nem nunca teve) mas conforme - e estritamente - a latitude e longitude do arraial. Quer dizer, nem sequer é a ideologia que superintende ao fenómeno: é a geografia, pura e simples. É a mera posição no mapa da horda paciente. Instalar a democracia significa, assim, isso mesmo: dissolver qualquer tipo ou qualidade de ordem (por muito má que seja) a troco duma mera posição geográfica.
Mas vamos àquela que que nos flagela.
Ora, o que descreve a democracia portuguesa é o regime de alternância malfazeja entre duas associações de malfeitores, sem qualquer respeito, pudor ou empatia com o povo que é suposto representarem. No estado presente assiste-se mesmo a zénites de estupidez do estilo os que simulam oposição acusarem os que simulam governo de não estarem a fazer nada para combater o desemprego. Ora, isto é duma imbecilidade confrangedora. Se eles estão ocupadíssimos a criar e fomentar desemprego com quanto força e fé têm, como se lhes pode exigir o contrário? Quer dizer, se há-de , a tal putativa oposição, acusar liminarmente o desgoverno da república de estar a criar desemprego de empreitada, não, acusam-nos de não fazerem nada para combater o desemprego. Porra,  é como chegar junto dum centro de extermínio e acusar a administração de não estar a fazer nada para salvar as pessoas. Noção de vergonha já sabíamos que não tinham. Nenhuma. Mas afinal nem de ridículo.

2 comentários:

Anónimo disse...

“...é o regime de alternância...”
Ou, é o regime do alterne?
Carlos

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

A invocação mágica da democracia pode ser utilizada contra a liberdade, e é-o quase sempre. Mas as castas de meta-barões que nos oprimem com a democracia fá-lo-iam também, e quiçá mais facilmente, sem ela.