quinta-feira, março 24, 2005

O Retrato duma Possessão

Quando falamos em possessão referimos um determinado espírito que se apropria dum determinado invólucro, que toma de assalto e manipula uma embalagem que não era, inicial e naturalmente, a sua.
Ora bem, nem é preciso estar muito atento, ou dispor duma inteligência fulgurante, para perceber que o capitalismo absorveu e incorporou o invólucro do comunismo. Fanou-lhe o veículo e faz-se transportar nele com o maior dos descaramentos e petulâncias.
Assim, em vez da globalização da Revolução, pormenor essencial da receita marxista, temos a Globalização do Mercado. A Internacional Socialista perdeu claramente para a Internacional Capitalista -ou melhor dizendo, foi absorvida, digerida à maneira da aranha-lobo (injectada, liquefeita e sugada até à medula).
Prova eloquente disso é a novel e peregrina libertação dos "povos oprimidos" por esse mundo fora. É uma tarefa benemérita, inadiável, doravante a cargo da Internacional Capitalista. Como, de resto, pode constatar-se no Iraque resgatado às garras da tirania feroz.
Também o hábito da propaganda insidiosa e das quintas colunas infiltradas, -apologistas a soldo, formiguinhas de sapa que minam e sabotam em prol da nobre causa-, não foi descurado. O campo de recrutamento manteve-se: jardins-escola universitários ou pré-universitários, plasticina cerebral em estado fértil e pronta para ser moldada. Desta puericultura ideológica acelerada resulta uma tropa de choque semi-imberbe, em permanente e sobre-excitado débito de asneira, compensando o gritante e gigante absurdo desta com o fervor imarcescível da convicção fanatizada e o frenesim do clamor ininterrupto. Mescla de pornochachada e trovoada angélica, a mensagem reverbera e afunila. Ou se está com eles, ou contra eles; ou se reconhece a via aberta para o Céu, ou se é despenhado sem apelo pelo alçapão dos infernos. Tal qual os catequistas das Rússias, Chinas e Albânias de anteontem.
De igual modo, se os comunistas acreditavam ser os destinatários da História, estes, agora, apregoam que são o Fim. O encerrar da História, em ambos os casos, equivale apenas ao acabar da discussão. É assim e não se discute. Com a História, encerram-se alternativas e opções. É comer e calar. Ou ser calado. A única variante doravante aceitável reside na velocidade da metamorfose: o encasulamento pode ser mais rápido ou mais lento. Não pode é deixar de ser.
Finalmente, é a própria retórica da esquerda revolucionária que não escapa e é, também ela, absorvida. A vanguarda capitalista tonou a seu cargo a defesa dos pobres e desfavorecidos contra os aventureirismos utópicos. Impinge, com cinismo de aspersão, que criar ricos é criar riqueza. É, de facto. É como melhorar o sangue através da amamentação de vampiros e sanguessugas.

2 comentários:

Quikaro disse...

Perca-se defitivamente a fé na utopia e adira-se provisoriamwente aos jeovás.
Eu já sabia que estava possesso, obrigado pla confirmação.

zazie disse...

Pois é, a ti não te escapa nada. Esta retórica também me recorda outras utopias “científicas”. Parece que andamos sempre na mesma: quando não é o homo economicus é o abichanado...

Não vem ao caso e não costumo comentar estas coisas mas tenho de abrir um excepção para te mandar “mais cinco”. É que reparei que andaste em limpezas no blogue e tens aí uma nova categoria do abaixo de bosta que não podia ser mais certeira. E olha que é os primeiro que chama o boi pelos nomes ...