sexta-feira, março 18, 2005

O Neo-Coperniquismo Somali


Os deputados somalis que, iluminados por alguma revelação fulgurante, certamente inadiável e a todos os títulos meritória, desataram, furiosamente, à cadeirada uns nos outros, deram uma grande lição ao mundo: Mostraram, sem margem para quaisquer dúvidas, a fundamental e edificante utilidade dum assento parlamentar. Por uma vez, havemos de concordar, agiram, aqueles eleitos, em digna –direi mais: digníssima!- representação dos eleitores.
De facto, dar com a democratabilíssima cadeira nos cornos do respectivo deputado é um desejo comum à generalidade dos cidadãos minimamente esclarecidos. Não me ocorre mesmo –e a vós, estou seguro, certamente também não- destino mais honroso (e urgente) para tão insigne peça de mobiliário.
Pena que por cá, nesta república à beira mar plantada, avessa contumaz ao progresso e aos bons exemplos, as manobráveis cadeiras se vejam substituídas por mastodônticas bancadas, gigantescos paus com cabeleiras em cima. Concordaremos: Levantar um colosso daqueles para, com ele e em democrática virtude, raquetar a cornupetólio dum qualquer daqueles mandatados da nação, mais que a inteligência dum somali, requereria a força dum Hércules.
Não obstante, não me calarei: Agora que os abençoados somalis descobriram, finalmente, para o que é que serve um lugar de deputado na assembleia, exijo que o deputado que se arvora em meu representante me represente. Ou seja, arreie num vizinho qualquer como lhe compete. E não me venha com desculpas que lhe falta o guindaste. Se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. Quer dizer, se não consegue levantar a bancada para dar com ela nos cornos do outro, pegue nos cornos do outro e dê com eles na bancada.
Nós, portugueses, somos um povo desenrascado. Portanto, eles –eles todos, o meu representante e os vossos – que se desenrasquem. A democracia é que não pode ficar eternamente adiada. Agora –Deus te abençoe, Somália!- não podem mais argumentar que não sabem o que raio ali estão a fazer, nem para que bodega serve o ror de dinheiro que o erário público delapida com eles.
Foda-se: representem-nos!!...

PS: Até porque dadas as trunfas –as choupanas, as medas de palha, melhor dizendo -, com que alguns ornamentam o cocoruto, é de temer que nem a raquetada sintam, ou a bastonada os sensibilize, tal o airbag cabeludo com que se couraçam. A esses, pressinto-o bem, talvez conviesse passar-lhes a máquina zero antes. E sim, escusam de me perguntar, que eu também não sei: Desconheço de que Parnaso jorrante me afluem estas ideias resplandecentes.

4 comentários:

zazie disse...

"Foda-se: representem-nos!!..."


ahahahaha que maravilha! és muito doido rapaz ":O)))

nelson buiça disse...

Ora aqui está um post brilhante.
100% apoiado
:-)

JMTeles da Silva disse...

Caro Dragão, você tem sempre excelentes ideias. Neste caso, a serem seguidas, ponho-me a pensar qual o tribuno que necessitaria de mais gêsso e ligaduras.

clark59 disse...

Dragoscópio: quando a irreverência mais dura e a iconoclastia mais pérfida se cruzam com o génio literário.
E disse!