quarta-feira, dezembro 10, 2008

Também tu, Julius?...

Onde é que este mundo vai parar?
Quando respeitáveis banqueiros suíços "morrem subitamente", (uma fórmula suavizada de dizer suicídio, segundo fontes ocultas), é caso para dizer que a brutalidade já nem os próprios sacerdotes respeita.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Costureirinhas da Sé



«Os carroceiros concluíram entre si um contrato de trabalho e decretaram a inutilidade do génio; uma época ulterior vai decerto dar-se conta de que os seus edifícios são amontoados de pedras, e não verdadeiros edifícios. (...)
Mas olhai-os, estes sábios, estas poedeiras extenuadas! Não são, decerto, naturezas "harmoniosas", mas cacarejam mais do que nunca, porque põem mais do que nunca. Os ovos são cada vez mais pequenos, muito embora os livros sejam cada vez mais volumosos. O resultado final e o mais natural é a "vulgarização" tão apreciada da ciência, ou seja, a sua "feminização", a sua "infantilização", dado que se tem a desonra de retalhar para um "público heterogéneo" a veste da ciência - neste momento, estamos a utilizar um vocabulário de alfaiate para designar uma actividade de alfaiate.»

- Nietzsche, "Da utilidade e dos inconvenientes da História para a Vida"

O nosso tempo já nem o nível de alfaiataria alcança. Proliferam, em regime de enxame, as costureirinhas. Costura de pequenos arranjos, bem entendido. De pequenos ajustes e coseduras em fatos comprados no pronto-a-vestir... ou a pensar, tanto faz.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Uma Questão de Higiene, mesmo.

Prosseguindo nesta aleatória reposição de postais antigos (os três anteriores também eram de 2004), recapitulemos alguns conceitos elementares acerca da mixórdia e dos seus múltiplos requintes.


Volto a este assunto. Se vos desgosta, tanto melhor. Mas não consigo deixar de pensar em tão crucial temática:
Há qualquer coisa de flagrantemente promíscuo entre grande parte da “literatura” que se edita nestes dias e o papel higiénico. A cada dia que passa, a evidência, de resto, aumenta: ler tornou-se uma forma sofisticada (ou meramente complementar) de ir ao cabeleireiro. Ou à retrete. Não será por acaso.
Desde sempre, o burguês luzidio e bem tratado, filisteu atávico que refocila todo pimpão em chiqueiros egonáuticos, recorre aos livros como parte essencial da decoração doméstica: enquadra-os com reposteiros e mobílias, afina-os por tapeçarias e bibelôs. Aprecia-os, sobretudo, sob o ponto de vista da encadernação. Isso e o “bom tom”. Os clássicos são de bom tom numa sala ou escritório. Casos há também em que não é, de todo, a decoração doméstica que o norteia: nesse caso, é a indumentária.
Eu, tenham lá paciência, mas aos livros devoto ritual diverso. Há aqueles que leio e aqueles que não. Os que leio aprecio-os pelo que trazem escrito no papel; os outros, pela macieza e capacidade absorvente deste.
Por exemplo, uma Agustina Bessa-Luís ou António Lobo Antunes, por incrível que vos pareça, variam muito. Há edições mais macias que outras. Há edições absolutamente agressivas para a pele, que arranham e desbotam, mal entram em contacto com a superfície a cuidar. O mesmo se pode dizer em relação a uma Lídia Jorge. Já um Saramago não padece dessas flutuações: oferece-se-nos em papel standard, sem oscilações, bastante dúctil e aderente. A sua capacidade escato-pregnante é notável. Não tanto, é certo, como uma Agustina, nem, longe disso, como um Lobo-Antunes; mas, ainda assim, bastante aceitável.
Lobo-Antunes, de resto, só por si, seria merecedor de uma monografia. Retrete que não disponibilize ao celebrante, em suporte dourado apenso, uma das suas obras, proscrevei-a de imediato, a vermelho, na vossa agenda. Livrai-vos de cagar em tal antro: é gente analfabeta –ou pior: analfabrava – de certeza absoluta. Inventai uma desculpa, um pretexto inadiável, e escafedei-vos de lá o quanto antes. Se não são canibais, são antropófagos - burgueses de merda, enfim.
A mim, quando eventualmente algum dos raros casais amigos –gente intrépida – me convida para ir, de senhora Dragão à ilharga, jantar lá a casa, mais que o menu, nunca se esquecem de me dizer: “e temos lá a última edição do Lobo-Antunes, em edição especial, papel couché .”
Além do mais, nestes saraus, tanto como o que vamos passar pela boca, importa que acautelemos o que vamos abeirar do posterior orifício. Eles, os anfitriões destemidos, conhecem-me bem, de ginjeira, e sabem que doutra maneira dificilmente me apanhariam lá. Assim, é infalível. Ou melhor: é quase impossível resistir. Peroro à senhora Dragão e lá vamos. Depois, findo o repasto, passado pelas mandíbulas o bacalhau ou a picanha, o tinto, varrida a sobremesa, emborcado o puro malte, chega o momento (por todos) ansiado... Levanto-me e profiro, não sem uma certa solenidade: “Bem, agora, com vossa licença, vou ver que tal está o Lobo-Antunes!” E lá ficam, eles todos, a aguardar-me, impacientes, sequiosos da opinião do expert. Quando regresso, aliviado, ainda a dar o último retoque no cinto das calças, já todos me bombardeiam: “Então?! Então que tal?!”
E não raras vezes, senão por sinceridade, ao menos por cortesia, respondo: “Supimpa! O melhor Lobo Antunes dos últimos tempos. Até me assoei!...”
Entretanto, acabo de saber que vai ser editada mais uma obra de Agustina Bessa-Luís, com prefácio de Clara Ferreira Alves. Fico ansioso. Mas também preocupado. Se o romance estiver ao nível do prefácio, arriscamo-nos a deparar com um típico papel de jornal, duma flacidez exacerbada, com tendência para manchar aquilo que, estando já sujo, conviria antes que limpasse. Duvido que alguém no seu perfeito juízo, se atreva a desemporcalhar-se com tal compêndio de bacoquices.
Mas não julguem que apenas as obras nacionais usufruem destes méritos. O rol internacional é ainda mais luxuriante. Marguerite Yourcenar, por exemplo, tem edições esplêndidas –quem nunca experimentou umas “Memórias de Adriano”, em quarta edição, ou “A obra ao Negro”, da Quixote, não sabe o que é uma higiene de qualidade; e Jean Paul-Sartre, Hemingway, Durrel, Kundera e tantos outros são do melhor que alguma vez poderemos encontrar à cabeceira da retrete. A Virgínia Wolf nunca experimentei, mas, não sei porquê, palpita-me que não anda muito longe da textura duma Gata Cristhie.
Quanto à maioria do que para aí se edita e vende, do que se anuncia em promoção nas montras e catálogos, perdoem-me o cepticismo (ou a exigência), mas, acreditem-me: Não serve nem para ler, nem, tão pouco, para limpar o cu. É lixo tóxico puro!... Repassado pelos olhos da frente ou pelo de trás, pode resultar em cauterizações insanáveis! E, como se tudo isso não bastasse, junta o inútil ao desagradável: Nem as pestanas resistem, nem os pintelhos do cu batem palmas!...
Vão por mim: pode ser que se combata o fogo com o fogo; mas, decerto, não se limpam resquícios de caca com defluxos de outra caca pior ainda. Tem que ser, pelo menos, igual.

domingo, dezembro 07, 2008

O Progresso, esse come-e-caga, senhores!...

A literatura –a utopia é um dos seus ramos –, apesar de tudo, é inodora.
Quando exercem as suas contabilidades maravilhosas e espraiam os povos do mundo, as épocas e as civilizações nos seus condóminos de filigrana, em exercícios de perfeição, em manobras assépticas de aprumo, os grandes ficcionistas, do cume da sua fantasia, esquecem um pormenor sórdido mas, todavia, deveras relevante: é que tudo aquilo come, tudo aquilo caga, várias vezes ao dia, todos os dias da vida. Toda aquela salganhada produz montanhas de lixo; escava, alastra, desertifica, flui e reflui como uma praga, como uma mancha de imundície avassaladora, de efervescência corrosiva e gordurosa à digestão do cosmos. E nos intervalos desse frenético come-e-caga, não poupa horas nem minutos que não esporeie uma voraz obsessão de mais comer-e-cagar ou melhor comer-e-cagar, multiplicando-se viviparamente em renovadas réplicas iguais no apetite mas audazes e amestradas para ainda mais e melhor comerem-e-cagarem. E, se possível, vingarem os pais, avós, ou remotos parentes, desforrando-os daquilo que eventualmente, no seu tempo, não conseguiram comer-e-cagar como lhes competia e era devido. Ora, esse défice é sempre exorbitante. Quanto mais famintos e deficitários do bandulho foram esses predecessores, mais glutões e ávidos famintos se manifestam os subsequentes, os hodiernos.
E quanto mais e melhor comem, mais e pior cagam, mais se derretem literalmente em estrume, tornando-se verdadeiras máquinas merdofágicas e merdofóricas. Uma vez concentradas no bandulho, não há quem os detenha.
É este come-e-caga que fede. E é esse amontoado putrefacto que, periodicamente, bárbaros tentam varrer, porque só um bárbaro possui estômago para tal coisa. Para tão repugnante função. Debalde. A paisagem respira apenas momentaneamente, vem à tona, como os cetáceos, em captura ansiosa de fôlego para novo mergulho submarino. Em menos de nada, o come-e-caga reinstala-se, o fedor volta. Leveda, fermenta, exorbita, incha, qual torre de babel, ao assalto das estrelas. Por isso escapa à literatura, que, como qualquer um pode constatar, é inodora - e, a maior parte das vezes e dos projectos gerais de felicidade universal ao domicílio, também insípida, deliquescente.
Aquilo, o monturo, ainda por cima, liberta gases, exala fumos tóxicos, nuvens fantasmagóricas. Chame-se-lhe religião, ciência, política, pouco importa. Serve essencialmente para justificar a comezaina, o regabofe. Para anestesiar a consciência irrisória duma seita de canibais omnívoros, de comensais furiosos.

Um come-e-caga, acrescente-se, que, nos últimos tempos, se albarda e suaviza num perfeito come-e-cala.

O Pseudo-Portugal ou Das Quimeras

Tal qual o Homem tem muito a aprender com as plantas, e não propriamente com hortaliças do género nabo e abóbora que dessas já há seguidores em demasia, também a História tem com que se instruir na Botânica.
Na taxonomia, por exemplo. Cito um breve mas elucidativo caso: ao designar-se vulgarmente a Robinia, usa nomear-se essa singular espécie como Pseudo-acácia ou acácia-bastarda. Parece uma acácia, mas na verdade não é. O mesmo poderia fazer-se em relação ao Portugal pós-Dinastia de Avis. Também devia designar-se vulgarmente Pseudo-Portugal ou Portugal Bastardo.
Da mesma forma os seus habitantes seriam vulgarmente designados como pseudo-portugueses ou portugueses-bastardos.
Não digo isto com intuito desprimorante para os tais, país e habitantes (onde obviamente me incluo). Trata-se apenas de constatar, lucidamente, uma realidade. Parecem, mas não são. O país parece um país, mas não é um país; os habitantes parecem pertencer ao país, mas, de facto, pertencem de alma e coração a outros países - em seu esperto entender- mais modernos e gratificantes. Também, estruturalmente, os verdadeiros portugueses eram de cerviz altiva e braço vigoroso. Estes não, e não nos alonguemos nos detalhes por piedade. Fossem árvores e seria o mesmo que comparar a árvore de copa bem erecta e altaneira ao arbusto retorcido e rasteiro. Ou mesmo ao capim forrageiro, segundo alguns eruditos.
Poderia ainda citar outro caso sugestivo da botânica: refiro-me à enxertia.
Neste caso, talvez fosse possível entender-se o Pseudo-Portugal como um enxerto bizarro executado sobre a raiz e tronco decapitado do verdadeiro. O lastimável é que tudo indica (e daí a bizarria) que a operação equivaleu a enxertar uma silva sobre uma roseira (e não o contrário, como recomenda a arte). Prova disso são até as "rosas" actuais que não é preciso matutar muito para perceber que são, na verdade, pseudo-rosas, ou efectivamente, silvas. E quem diz as rosas, diz as laranjas e outros frutos ou flores claramente falsos ou imaginados.
Finalmente, num terceiro caso, só a título de curiosidade e ainda no campo da enxertia, lembro a chamada "quimera". Esta ocorre quando sobre um mesmo cavalo (a planta que serve de base radicular ao conjunto) se enxertam várias outras espécies e não apenas uma. Resulta daí que a mesma árvore ramifica na forma de diversas folhagens e cria frutos de diversas qualidades: poderei mostrar-vos, até num pomar aqui bem perto, laranjeiras que dão laranjas doces, laranjas amargas, limões, tangerinas, limas e goiabas. O Pseudo-Portugal seria, portanto, segundo este paradigma, uma Quimera. Com efeito, ao longo destes últimos séculos, objecto de todo o tipo de enxerto, cada qual mais extravagante e peregrino que o anterior, poderia a sua desafortunada história ser contemplada como uma sucessão de ensaios mais ou menos alucinados de po-lo a dar franceses, ingleses (na verdade, pseudo-franceses ou pseudo-ingleses), ou o que parecesse melhor e mais rentável ao fruticultor da época. Até russos tentaram. Ultimamente, parece que se tenta uma variedade híbrida de espanhol-americano. Aguardemos os frutos. Até hoje, apesar dos denodados esforços, das mais diversas podas e adubações, o mais que tem dado é bananas. É um facto que são cada vez maiores. Estas, a fazer fé no percurso e no crescimento -já por esta altura - desmesurado, devem vir a ser gigantes. Quase abóboras.
Nisto tudo, talvez haja (oxalá!) um grande exagero e lapidar crueldade da minha parte. Mas que dá que pensar, lá isso dá.

Da Prepotência (rep)

Digo e repito:
Em bom rigor, a democracia não existe. Nunca existiu. Se exceptuarmos o protótipo ateniense, com os seus escravos insolentes, o que existe –e existiu desde então, sobretudo por influência romana -, são diversos modos de tirania. Quer dizer, diferentes modalidade de exercício de prepotência. A saber, a prepotência exercida por um, ou despotismo; a prepotência exercida por vários, ou oligarquia; e a prepotência da turba, da multidão, ou oclocracia ("democracia", para o vulgo). Dito de outra maneira: a tirania pode ser, respectivamente, obtusa, difusa ou confusa. Em qualquer dos casos, um tipo decente, vertebrado, regra geral, está fodido.

O Pentágono das Bermudas

À medida que os humanos se tornam cada vez mais estúpidos, as suas armas ficam cada vez mais inteligentes. É a chamada "transferência tecnológica". E tanto assim é que, depois das bombas, disporemos em breve das "balas inteligentes" -pequenos e astutos projécteis capazes de curvas, ziguezagues e loopings, presumo.
Felizmente, as crises económicas não afectam o Pentágono. Se há coisa que a humanidade precisava como de pão para a boca ( e todos os dias implorava a Deus) era de balas sábias, balas eruditas, peritas em virar esquinas e em saltar parapeitos.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Flipping Out - Israel's Post Military Trip to India (part 1 of 6)

Graças à gentileza dum leitor, tomei conhecimento destes vídeos referentes à notícia citada no postal "Imperial Outsourcing".
Como uma imagem, dizem, vale mais que mil palavras...

Aqui fica. Com uma nota de agradecimento ao caro leitor.

Nojeira da grossa

Primeiro, o (des)Governo da República declarou que não via razões para resgatar o BPP. Depois, virou o bico ao prego e, através de engenhosices manhosas, lá mandou calcanhares ao rabo, decência às urtigas, e correu a salvar a avantesma. Pelo meio, se repararem, surgiu aquela siglazinha mágica: JP Morgan.
É a velha e inoxidável moral deste mundo imoral: os otários que paguem as crises; são muitos e já estão habituados.
Começa é a tornar-se cada vez mais incontornável: qualquer assaltante de bancos, de preferência à mão armada, caso se veja importunado pela polícia e tribunais, pode (julgo mesmo que deve) alegar legítima defesa. Além de que, doravante, se torna praticamente impossível distinguir um Banco duma Repartição de Finanças.
E não é caso para dizer que algo está podre no reino da Dinamarca, mas sim onde raio fica a Dinamarca no Reino da Podridão?!...


segunda-feira, dezembro 01, 2008

Imperial Outsourcing...

(...)

Parece que o Império vai voltar ao Outsourcing.

E já que estamos pelas bandas da Índia, aqui há tempos, esta notícia tinha-me chamado a atenção:
Comunidade interessante, esta.
E é claro que eles, à conta de tanto fumo, perdem a tramontana, mas não perdem aquele instintozinho básico tão característico:

Soldadesca avulsa e lúmpen, esta escória ressacada e tardo-hippie? Pois, pois...

«From the perspective of one former soldiers who has been living in India for more than six years and served as a commander of an Israeli elite unit...»

sábado, novembro 29, 2008

Entre nenhures e lado nenhum

«Já hoje é impossível sustentar que a "crise" do progresso seja um papão inventado pela "burguesia decadente", como eu pensava à data da primeira edição deste livro. Só uma mudança espiritual pode salvar a Humanidade do beco sem saída a que o progresso, a marcha, a está conduzindo. Sabemos que o Progresso é um avanço, uma marcha, mas não sabemos para onde. Estamos como cegos à beira do abismo. E se olharmos à escala do planeta e não à escala do ocidente europeu nem sequer é certo que haja uma avanço.
(...)
Desde que o "Progresso" passou a ser um problema, a História tal como a concebeu Condorcet e documentou Gordon Childe deixou de ter direcção e sentido, e tornou impossível o optimismo que marcava este livro. Hoje, a época é de procura, e muitas hipóteses rejeitadas como metafísicas e idealistas não podem já ser sistematicamente excluídas. Como um homem que estava na estrada e avançava por ela se lembrou de repente de perguntar para onde caminhava e não achou resposta, assim hoje nos achamos como no meio de um deserto de areia sem nenhuma pista de orientação.»

- António José Saraiva, in "prólogo de 1984 ao Dicionário Crítico"

Julgo que tem sido mesmo um dos principais dramas da Humanidade nos últimos séculos: é que as soluções, invariavelmente peregrinas, em vez de vencerem os problemas, juntam-se a eles. O que, tudo somado, resultará provavelmente no problema principal desta gente: o de, no que concerne aos problemas de fundo, confundirem solução com nutrição. Não os combatem: alimentam-nos; quando acabam de atacá-los com antibióticos, descobrem que, afinal, andaram a fortificá-los com vitaminas.
Razão para tamanho tresvario? Uma, pelo menos, brada à evidência: Contentam-se em ler os rótulos. E em tomar, lorpa e suicidariamente, o conteúdo pela embalagem.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Já não há piratas

Se ainda há coisas que me entristecem e enfurecem, esta é uma delas. Transcrevo directamente da folha de couve gratuita onde acabo, merejado em fúria, de lê-la:
"Apelamos aos proprietários do navio para estabelecerem um diálogo honesto com o objectivo de pôr termo a esta crise", afirma Mohamed Said, o porta-voz dos piratas somalis a bordo do petroleiro Sirius.
Piratas?!! Piratas, o caralho! Desde quando piratas apelam a "um diálogo honesto"? São gays, estes filhos da puta? Só podem. Mas estão à espera de quê para massacrarem a tripulação e atearem fogo àquela merda? Diálogo honesto? Mas aquele molusco gastrópode, ainda por cima queimado, julga que está onde? Mas foram treinados por quem, estes flibusteiros delicodoces - pelo Guterres?...
Irra, que caralho de hospício a boiar no espaço é este?! Então agora os piratas dialogam? Daqui a nada argumentam, especulam, titilam conceitos.
Se bem que, por outro lado, tendo em conta o absurdo imperador, a coisa até passa na maior das normalidades. Num tempo em que os banqueiros apelam à caridade pública e os políticos à confiança geral, é mais que natural que os piratas apelem a um diálogo honesto.

PS: Bem, com franqueza: piratas, nunca! Corsários, quando muito. Rapers ou hip-hopers, quase de certeza, e um grande tsunami das Caldas os refunda a todos!!!

Eu já lhes mostro, àqueles oxiúros... Onde é que pus a bengala?... Negociantes de merda!...

quarta-feira, novembro 26, 2008

Vasos comunicantes



Em 1913, o Frankfurter Zeitung, reportava detalhadamente as ideias dum milionário americano (um tal Edward Albert Filene) em digressão "evangelizante" pela Europa. Proclamara, então, o dito cujo, por alturas dum banquete com altas individualidades europeias da época:
«Experimentamos um grande movimento histórico, que culminará na transferância do poder deste mundo moderno para os representantes do capital comercial. Somos as pessoas que carregam a maior responsabilidade no mundo e devemos, por conseguinte, deter, politicamente, as maiores influências.
A democracia está a crescer, o poder das massas está a aumentar. O custo de vida está a subir. O parlamentarismo e os jornais, distribuídos em milhões de cópias cada dia, estão a fornecer às massas populares informação cada vez mais detalhada.
As massas esforçam-se por alcançar maior participação na vida política, com a extensão do sufrágio e a introdução duma taxa sobre rendimentos, etc. O poder em todo o mundo deve transferir-se para as mãos das massas, isto é, para as mãos dos nossos empregados.
Os líderes naturais das massas devem ser os industriais e os comerciantes, que, em cada dia, aprendem mais e mais sobre a comunidade dos seus interesses e dos interesses das massas.
Aumento salarial, melhoria das condições laborais, eis o que atará a nós os nossos trabalhadores, e será o que garantirá o nosso poder sobre todo o mundo. Todo aquele no planeta que dispuser de algum talento virá ter connosco de modo a entrar ao nosso serviço.
Precisamos de organização e mais organização - organização forte e democrática, quer nacional, quer internacional. Devemos unir os comerciantes e industriais de todo o mundo civilizado numa única e poderosa organização. Quaisquer problemas internacionais importantes devem ser discutidos e resolvidos por esta organização.»

Todavia, o mais curioso deste discurso, além da profícua premonição nele esboçada, é que ocasionou o seguinte comentário num jornal da época:

«São estas as ideias de um "capitalista avançado", o sr. Filene. O leitor poderá constatar que tais ideias são uma diminuta, estreita, parcial e egoísta aproximação às ideias do Marxismo, propostas há cerca de sessenta anos atrás. "Nós" somos grandes mestres em censurar e refutar Marx; "nós", os mercadores civilizados e os professores de economia política, refutámo-lo completamente!... Mas, ao mesmo tempo, nós roubamos pequenas partes e peças dele e apresentamo-las ao mundo inteiro como marca do nosso "progressismo".»

Quem era este colunista que denunciava esta absorção parcial do Marxismo pela vanguarda capitalista? Não era um leigo qualquer. Ainda não adivinharam? Eu digo: Lenine. No Rabochaya Pravda, de Julho de 1913.
Há uma grande facilidade de hibridação entre bostas. Ou vasos comunicantes.
A razão porque capitalismo e comunismo são substância do mesmo saco tem uma definição exacta: materialismo. Materialismo puro e duro.
Nota: a data de 1813, para a notícia no Frankurter Zeitung, obviamente, era gralha. De apenas 100 anos.

terça-feira, novembro 25, 2008

Smells like... Napalm.




Estou perfeitamente consciente dos tremendos riscos que corro, mas optei por não emigrar apressadamente. Com o Rato Mickey e o Pateta não se brinca, eu sei; pelo que agora, à cautela, falarei a sério. E se um resquício de coragem suicida não bastasse, um assombroso e piramidal evento que não posso deixar incólume compelir-me-ia. Há assomos epopeicos, leitores, que não podem deixar de ser registados, celebrados e proclamados para memória dos vindouros e, sobretudo, das vindouras.
Este, que aqui me convoca, é o que vou narrar já de seguida.


Pois bem, já todos sabíamos que o (nas palavras eloquentes duma das suas referências intelectuais, uma tal Ermelinda do Padeiro) doutor economista Arroja, code name Rato Mickey, se arvorava, nas horas vagas, em sociólogo de elevadíssima craveira. Mas agora, num acesso desbordante de erudição polissaturada, tomamos conhecimento que, afinal, também é um ás na sexologia. Terá fundo este poço de sabedorreia? Sinceramente, começo a duvidar dessa contingência. Eu e centenas de milhares de deslumbrados como eu. Neste momento já se organizam excursões e romarias das quatro partes do mundo para virem assistir, in louco, ao prodígio. O caso não é para menos. Acaba de inventar, aquele portentoso sabão, um novo método de medição da virilidade masculina em ambiente doméstico. Este espantoso, engenhoso e revolucionário método, que deixará certamente a espumar de inveja o sexólogo residente da blogosfera (um tal Morcão Vaz), consiste, nem mais nem menos, pasmemos ó conterrâneos, na contagem de palavras emitidas na rede, mais especificamente em blogues. Quanto mais palavras assim derramadas, menos espermatozóides despejados por via de fornicadelas à coelho na legítima. Coelho missionário, naturalmente, nada de fantasias ou acrobacias menos devotas. Ou resfolegantes.

Formidável!, ovacionamos nós; se o sexólogo moviflor (zazie dixit) já era um must, este, então, é um mister! Para o distinguirmos do outro, atenderemos à diferença geográfica e mobiliária do palestrante, pelo que o cognominaremos como sexólogo-de-penico (até porque depenica que se farta). Recapitulando, então, a lei fundamental da sexologia depeniqueira: a fornicação matrimonial é inversamente proporcional ao número de palavras escritas no blogue. Escritas, na terminologia arcaica e doravante cancelada; pois na nova terminologia científica, deve dizer-se "ejaculadas". Afinal, ficamos agora a saber, as pessoas não escrevem em blogues: ejaculam palavras. Freud teve soluços na cova.

Detalhe superlativo em toda esta história, que muito me desvanece: o distinto sexólogo-de-penico honra-me com a glória de cobaia principal no seu devassante estudo. Serei assim, segundo ele e as suas apuradas - embora instantâneas e mediúnicas - esporrometrias, um frouxo na cama, porque, lá está, sou um dilúvio no blogue. Se ejaculo a mais na rede é porque ejaculo a menos no leito conjugal, já não falando no sofá, na banheira e no tapete da sala. Caros amigos, é assim, não há como escapar a tão mosaica legislação.

Bem, por um lado, fico banzado com a perspicácia deste vidente-voyeur. Consegue espreitar do Porto até Lisboa, ida e volta, mais depressa que o futuro TGV. O que não nos deve, afinal de contas, surpreender: ele até conseguiu espreitar através dos séculos, descobrindo Hume em actos menos másculos e larilices clandestinas. Por outro lado, competições de garganta nunca foi o meu forte. Certame de garnizé é coisa de galináceos e pior que léria de puta só mesmo goela de puto. Mas quem sou eu para contradizer a ciência, ainda mais quando esguicha dum sexólogo-de-penico? Nem por sombras. Já não seria pecado: seria blasfémia. Seja, então. Cumpra-se a lei. Superpotente no teclado, erecto-disfuncional no resto - eis-me exposto ao vexame do transeunte galaró.

Só que, entretanto, alguns impertinentes claramente necessitados de pimenta na língua, poderão maldosamente conjecturar que, fazendo fé nos últimos dois anos, período em que é possível uma comparação directa, o doutor economista Arroja despejou na blogosfera, e isto a contar por baixo, cerca de dez vezes mais palavras do que eu. Uma verdadeira torrente ao lado dum regato. O que, segundo a sua metodologia imaculada, fará dele, fatalmente, um gay passivo coroado com ramificações de veado exuberante. Outros meliantes, igualmente dados a analogias venenosas, se bem que mais optimistas, poderiam ainda orçamentar que, embora ele, quantitativamente, tivesse ejaculado dez vezes mais, dado que cada palavra dele, qualitativamente, não alcança um décimo das minhas (acrescido que considerável parte delas até tinha sido ejaculada numa língua canina) então, mais coisa menos coisa, resultava num empate técnico, pelo que o ilustre sábio irmanava comigo na incompetência conjugal e na flacidez reiterada da gaita (apenas com a ressalva que enquanto eu, às mulheres, submergiria de poemas e galanteios literários, ele, em contrapartida, cobriria de queixumes, remoques e lamúrias). Uns terceiros energúmenos, da raça dos anteriores, alavancados por esta relação íntima e necessária entre a produção de postais e a improdutividade de bebés, poderiam também insinuar, soturnamente, que o doutor economista Arroja, code name Mickey Mouse, compensava a mediocridade na escrita com a excelência na queca legal. Aqui, na blogopólis, por conseguinte, era um franguinho mimoso e birrento que fazia beicinho quando lhe puxavam merecidamente as orelhas, mas, em compensação, lá na capoeira doméstica, virava galo doido encartado. Enfim, uma catadupa de assombrações e pântanos colaterais que nunca mais acabariam e eu, por piedade e amor à decência, me contenho de elencar além deste promontório.

É meu dever afastar esses rumores e esclarecer todas essas pessoas propensas ao torpe equívoco e à vil suspeita.

Assim, ó pessoas desabridas, se é um facto que o bom doutor economista sociólogo e sexólogo-de-penico Arroja ejaculou dez vezes mais palavras o que eu, isso não é, em bom rigor, comparável. Nem em bom, nem em mau. Não é, pronto. Muito menos com essa ligeireza.

Em primeiro lugar, porque a cobaia sou eu e o cientista é ele. Logo, usufruímos de prerrogativas diferentes e apanágios opostos. Quem chega primeiro, escolhe. Ele chegou primeiro, repimpou-se na cadeira e ficou com a bata e o laboratório. Não há que barafustar.

Em segundo lugar, sabemos de ciência certa e dogma associado que ele é, sem qualquer dúvida ou direito a ela, um jockey fogoso e exemplar (às vezes até maçador) da esposa por via duma prova irrefutável muito simples: porque ele no-lo diz e, assim, automaticamente, com força de sentença, certifica, autentica e atesta. As suas palavras, como toda a gente sabe, possuem dom mágico e dotes demiúrgicos instantâneos. Basta adicionar água e já está.

Finalmente, e nec plus ultra, porque as ejaculações dele, como é público e notório, se distinguem abissalmente das minhas - quer quanto ao órgão emissor, quer quanto à cor, teor e aroma. Na verdade, as dele, ao contrário das minhas, em nada taxam ou diminuem o caudal inerente à fornicação doméstica, por isso não estão sujeitas à lei funesta. A razão é óbvia e simples (como, de resto, qualquer pessoa minimamente imparcial e atenta pode testemunhar com facilidade): enquanto eu ejaculo pelo pénis (desviando-o e exaurindo-o de outras funções naturais), ele,- como é sobremaneira gritante nestes últimos dias, muito poupadinho e agiota das suas sementes -, ejacula pelo rabo. Ou seja, a mim, a escrita, mana-me dos testículos, obriga-me a testosterona; a ele jorra-lhe dos intestinos, compelem-no as fressuras.

Resumindo, aqui assam-no. Mas lá em casa, nem duvidem: desforra-se e assa ele as vrilhas à pobre da costela.






PS: Parto do princípio que o ilustre doutor não é dado a coprofilias - ou melhor, se à tara de as exibir, às fezadas, não junta a bizarria de as ingerir. O que, a ocorrer, temo bem, arruínaria irremediavelmente este meu terceiro e límpido raciocínio.

PUV - Patetas unidos vencerão



MICKEY, AMIGO, O CAGUINCHAS ESTÁ CONTIGO!



Avante camarada, avante

junto a minha à tua voz!

Avante, camarada

o shall brilhará pra todos nós!



Uma gaivota argumentava e voava

filha da puta nunca mais se cansava.

Como ela somos livres, somos livres

somos livres de argumentar!

Somos livres, somos livres

somos livres de ir ao google.


SLB, Glorioso SLB!!

Cultura nunca mais!!
Liberdade! Liberdade de excreção! Abaixo o Dragão!
Pornografia sim, filosofia não!!

E ganda Mickey, é isso mesmo: Dá-lhe com o Consultório Maria pelos chifres abaixo!

(PS: mas as "Ginas" manda-mas a mim, 'tá?...)

segunda-feira, novembro 24, 2008

Dragão Bafo-de-Onça

Encontrei o Labaredas estranhamente refundido na mesa do fundo da tasca. À rasca, o gajo. O copo de bagaço duplo até lhe termia nas patas. E olhava em volta todo nervoso.
-"Então, o que foi, ó Dragão? Tremes que nem varas!..." - Atirei-lhe logo às ventas.
Diz-me a besta, naquela lábia cavernosa, entre o Luís Armaestrondo e o Frango Sinatra:
-"'Tou fodido, ó Ildefonso. 'Tou fodido! desta vez é que a arranjei bonita. Nem sei se faça já o testamento..."
-"Quê, comeste a legítima dalgum bófia, daqueles da Judite ou dalgum tele juiz ?!..." - Orçamentei logo eu, conhecedor e perito na peça.
-"É pior que isso.." - Tornou ele. - "Pá, a cena desta vez é mesmo fúnebre: tenho o Rato Mickey e o Pateta à perna!..."
- "Ah-Ah! - Não me contive de gritar de alegria. - Gramei! É bem feita! Até que enfim, alguém para te meter nos eixos! Julgavas que o teu reino ia durar para sempre, não era?! Agora é que vais ver como elas te mordem! Com o Rato Mickey e o Pateta ninguém brinca!..."
- "Foda-se!, rico amigo me saíste. Animador como uma praga de chatos nos colhões. Mas o pior é que tens razão, lampião do caralho... Até 'tou a pensar emigrar." - Rosnou de lá, o tirano opressor, em queda, abençoadinha, todo desanimado. E c'uma destas cagufas que só visto. Aproveitei para lançar a fateixa:
- "Fico com a Svetlana, a Irina, a Natália e o blogue! Não te preocupes, eu tomo bem conta do material enquanto andas fugido na clandestinidade."
- "Quero lá saber! - Geme, para meu grande espanto, o gajo. - O blogue... Maldito blogue! Eu nunca me devia ter metido nisto. Razão tinha a senhora Dragão, que eu não devia rebentar com trombas que desconhecesse nem visse à frente. Isto de dar enxertos à distância não é natural!... O Rato Mickey e o Pateta... 'Tou fodido. Se escapar vivo desta, vou de joelhos a Fátima!..."


E foi assim, ó bacanos e garinas. O javardolas foi fazer as malas e eu vim aqui dar a boa nova: é o 25 de Abril da blogosfera! Viva o Pateta e o Rato Mickey! Viva a Ucrânia libertada!... Viva o Eusébio! Viva o Benfica!!...

Tabu



Uma das acusações que pendem sobre Oliveira e Costa, por obra e graça no BPN, é de, segundo li, "branqueamento de capitais". O BPN telecomandava (ou coisa que o valha) um banco esquisito em Cabo Verde. Curiosamente, essa esplêndida aventura financeira coincidiu com o período em que aquele arquipélago se tornou a principal placa giratória do tráfico de cocaína para a Europa. Actividade nebulosa que entretanto ali prossegue, mas cujo protagonismo e primazia se transferiram para uma outra antiga colónia nossa: a Guiné-Bissau.

Depois da descolonização criminosa tem sido o deboche rapinante: uma espécie de joint-venture cleptogógica entre descolonizados e descolonizadores. Entre nós, tem-se assistido (basta olhar para o parque domo e auto) a um proliferar de fast-fortunas verdadeiramente obscenas e típicas dum país de Terceiro Mundo. A podridão que espreita debaixo deste tapete, suspeito bem, mais que inefável, é tabu: nela assentam, tanto quanto os alicerces, as colunas do regime. Um regime que, diga-se em abono da verdade, é inderrubável. Impossível derrubar algo que rasteja.


domingo, novembro 23, 2008

Pelourinho

Um leitor, a quem desde já agradeço a chamada de atenção, alertou-me para uma questão ortográfica: "bolsar" (no postal "Aquecimento"). Inquiria se eu não queria dizer "bolçar". Está correctíssimo o leitor, venham de lá merecidas reguadas. Na verdade, o sentido pretendido era "bolçar", no sentido de "golfar", e não "bolsar", no sentido de "enfunar". Eu podia agora por-me com frescuras a dizer que queria dizer "enfunar", mas era mentira.
Alhures, também vi levantada a questão do verbo haver. Eu tinha usado "haverão", onde deveria ter escrito "haverá" (sujeito subentendido "ele haverá" dias). Mais uma asneirola, neste caso gramatical, que, embora mais fruto da pressa que do desconhecimento, merece duplas pauladas nos lombos.
Aqui sim, pode falar-se em ofensa, e ofensa merecedora de reparo e exposição em pelourinho: ofensa à Língua Portuguesa.

Ou em forma de fábula...

Era uma vez um cordeiro que gostava de vestir pele de lobo e arvorar um pequeno pau a imitar cajado. Punha-se então, à beira dum regato, com grande empáfia, a proclamar a sua superioridade genética e intelectual em relação à estúpida carneirada. "Essa ralé! Essa populaça!", proclamava, "essa choldra precisa duma elite devidamente vestida, superiormente equipada, adornada por um preclaro domínio das leis da selva, dos imperiais princípios da cadeia alimentar, dos quesitos, protocolos e hierarquias do pedigree social, da epistemania gaiteira e do suave proxenetismo da verdade, em suma, um escol recheado e postiço de gado como eu, que a pilote, tosquie e administre na sua estúpida e tasquinheira existência!..."
Mais um dia se esfumava no horizonte e mais um dia ele dispendera nessas perlendas ufanas. Compenetrado em tais afazeres, nem se apercebeu duma sombra negra e inquietante, ampliada pela luz crepuscular, que foi crescendo atrás dele. Um rosnar cavo e sinistro de fera escutou-se então:
«Ouvi dizer que de mim muito bem tens dito e por mim generosamente tens falado...»
Antes de se virar, o cordeiro ainda jactou qualquer coisa irrelevante. Depois, encarando a dura realidade, quis despir apressadamente a pele, pedindo imensa desculpa.
«Venho reclamar o que me pertence. - Riu-se o lobo, sem piedade. -Mas essa pele não é minha, para nada me interessa - furtaste-a nalguma sepultura, desgraçado?!... É o que está debaixo dela que, por lei (a lei que tanto adoras), me pertence e que vou agora cobrar".
E a treva, caindo, serviu de pano ao teatro da crueldade.



Moral da história: se não queres experimentar o lobo, não lhe vistas a pele.