terça-feira, agosto 14, 2012

Aljubarrotas






O homem pode deixar corromper-se de múltiplas formas: pelo dinheiro, pelo vício, pela lisonja, pela inércia, pelo clima, pela colectividade, pela estupidez, pelo egoísmo, etc. Algumas destes factores são redundantes, eu sei. Muitas vezes operam até em tandem - duplo, triplo e até quadrúpulo! -, sem dúvida. Mas dois suplantam e imperam sobre todos os outros, como aqueles que mais vítimas humanas têm causado: o Poder e o Medo.
Ubíquos, implacáveis e inesgotáveis, difícil, senão quase sobrehumano, é resistir-lhes. Ainda mais porque operam em equipa, caçam em conjunto - àqueles a quem não corrompe o Poder, quase sempre corrompe o medo; e se a uns avassala  a soberba e a impiedade, a outros, geralmente tributários daqueles, subjuga a cobardia, a pusilanimidade e o servilismo. Escravos, todavia, são eles todos... Por uma razão muito simples e suficiente: nenhum deles é senhor de si.  De tal modo que uma lei universal e sinistra se vem perpetuando, através dos povos e séculos: quando maior o Medo, maior o Poder; e quanto maior o Poder, maior o Medo. Há quem diga que ambos, medo e Poder, não passam de duas faces horrendas do mesmo monstro. É possível. Aprendi na vida que se nesta há algo que a valha,  enobreça e plenifique, talvez se resuma numa palavra: resistência. Resistência a todos os tipos de corrupção (sabendo nós antecipadamente que a nossa própria natureza  nos armadilha o ànimo e embosca a vontade e sendo ela, a limite, uma forma garantida de corrupção), mas sobretudo ao Poder e ao Medo. Pois morrer, todos vamos; mas morrer inteiros, só mesmo alguns... raríssimos!.
Essa raridade exemplar é mesmo uma constante e uma certeza históricas. Que eu consiga vislumbrar, à parte Jesus Cristo que pertence a outra dimensão, ocorre-me, na Antiguidade, Diógenes. A título de ilustração, recordo um episódio paradigmático: convocado por um qualquer general de Alexandre, Diógenes ignorou olimpicamente a ordem. Enfurecido, o general reforçou o mandato com uma severa ameaça: ou Diógenes comparecia perante ele, ou ele, general, matava-o. Resposta do filósofo ao ordenança: "diz-lhe que não vou. nem irei nunca. E matar-me não é grande proeza nem nada que me tire o sono: qualquer escorpião consegue fazer isso."
Mas ocorre-me também, na História de Portugal, um outro caso, certamente único pelas suas circunstâncias: D. Nuno Álvares Pereira. Não o corrompeu o Poder, como nunca o corrompeu o Medo. Devia perdurar bem mais vivo na nossa memória colectiva, se nós, enquanto colectividade, não rastejássemos rendidos a escravos que nos oprimem e à subserviência imunda que nos labefacta e vicia.
Muito mais que simples figura histórica, Nuno Álvares é uma figura humana, a prova vivida e intemporal de que ninguém vence verdadeiramente as Aljubarrotas do mundo se não tiver, depois, a coragem e o despreendimento para vencer a Aljubarrota que há em si. A batalha mais difícil nunca é aquela que espera o guerreiro no campo; mas a que espera o vencedor dessa batalha. Quantas vezes ganhar o mundo não é perder a alma?...
Ele venceu ambas, as batalhas. E por isso perdura como herói justo. Ou santo, que é como os verdadeiros cristãos, que ele honrou e ilumina, chamam aos seus heróis.







10 comentários:

Diogo disse...

O Post está excecional até chegar a Nuno Álvares. É verdade que era destemido, sofria de hiperatividade e andava constantemente a massacrar os desgraçados dos aldeões espanhóis que viviam nas zonas raianas.

O que é menos conhecido é que na batalha de Aljubarrota, as tropas portuguesas contavam com o apoio de tropas inglesas (o que me leva a crer que este país nunca passou de uma base inglesa), e que Nuno Álvares abocanhou Portugal quase todo e deixou-o em herança aos seus numerosos filhos.

Herói? Santo?

pvnam disse...

-> Uma NAÇÃO é uma comunidade de indivíduos de uma mesma matriz racial que partilham laços de sangue, com um património etno-cultural comum.
-> Uma PÁTRIA é a realização e autodeterminação de uma Nação num determinado espaço.
.
-> Os globalization-lovers que fiquem na sua!...
.
-> A sobrevivência é uma coisa difícil e complicada: 'n' civilizações já desapareceram!
.
--->>> Pelo legítimo Direito à sobrevivência de Identidades Étnicas Autóctones, não vamos ser uns 'parvinhos-à-Sérvia'........ e, antes que seja tarde demais, há que mobilizar aquela minoria de europeus que possui disponibilidade emocional (e coragem) para se envolver num projecto de luta pela sobrevivência... e SEPARATISMO-50-50!...

zazie disse...

Excelente, Dragão.

http://rascunho.org disse...

http://rascunho.org/2012/08/14/a-fome-e-secundaria-para-quem-tem-fome-na-sua-perspectiva-assinalando-no-questionario-que-se-segue-o-que-entende-ser-prioritario-para-refazer-o-pais-4/

Duarte Meira disse...

“Em cuidar virtuosas obras e pô-las logo em obra ocupava tanto o tempo, muito mais do que sua tenra idade requeria. (...) O seu campo não parecia hoste de guerreiros mas honesta religião de defensores.” (Fernão Lopes)

A honesta religião era a da Cavalaria Cristã. Fale o inglês Edgar Prestage, também por memória dos ingleses que estiveram connosco em Aljubarrota:

« As três virtudes primárias da Cavalaria, no aspecto militar, eram a coragem, a lealdade e a generosidade. As três virtudes secundárias, relativas à religião, eram a fidelidade à Igreja, a obediência e a castidade. As três virtudes terciárias, de natureza social, eram a cortesia, a humildade e a beneficência. »

Bic Laranja disse...

Diogo, Nuno Álvares teve só uma filha. E não é só em História que a suamignorancia é patente.
Cumpts.

Anónimo disse...

Diogo
Base inglesa? Numerosos filhos?
Base inglesa, talvez lá para os tempos do marquês, agora no século XIV? Uma filha parece que a muito custo. Você sabe do que fala?
Não me parece que o post diga que Nuno não tenha tido poder? Teve-o e muito. O que o post fala é da corrupção desse poder, ou do medo. Recusando a heroicidade de Nuno Alvarez tem medo de quê?
Xico

Diogo disse...

Os ingleses estavam cá a fazer o quê?

Depois da vitória de Aljubarrota, D. Nuno tornou-se o homem mais rico de Portugal, tendo recebido as terras dos nobres que apoiaram o Rei de Castela. Entre 1384 e 1398, foram-lhe dados os títulos e Senhorios das terras de Barcelos, Chaves, Vila Viçosa, Estremoz, ÉvoraMonte, Borba, Colares, Unhos, Frielas, Almada, Camarate, Alvaiázere, Porto de Mós, Basto, Arco de Baúlhe, Barroso, Braga, Guimarães, Montealegre, Montemor-o-Novo, Alter do Chão, Sousel, Bouças, Portela, Loulé, Rabaçal, Pena, Arraiolos, Tendais, Paiva, Lousada, e as rendas de cerca de 60 Vilas do Reino.


Reconheço que teve pouca descendência, mas distribuiu a sua fortuna (que era a maior de Portugal) pelos seus parentes.

Anónimo disse...

penso que a presença inglesa tinha a ver com os seus interesses e não na amizade que muitos apregoam. Nomeadamente, interessam-lhes o alinhamento de Portugal nas suas alianças internacionais na Guerra dos Cem Anos e especialmente impedir a consolidação do poder politico na Peninsula Iberica sob a tutela do reino de Castela, aliado dos franceses?

dragão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.