quarta-feira, julho 22, 2015

Um Homem Sério



«Do Estado nada podemos esperar também, mas, aqui, por uma outra razão. O Estado não é português, o Estado não é decente, o Estado está, desde 1820, na posse de homens cuja obra é a essência da traição e da falência. Procurar o auxílio do Estado é tão absurdo como procurar influenciar os homens que o possuem. Não há neles uma centelha de boa vontade patriótica, nem de lucidez portuguesa. Vivem daquilo e nem vivem elegantemente. O esforço revolucionário para os deitar abaixo é um gasto espúrio de energia. Quem é que se lhes vai seguir? Não há em Portugal nenhum grupo ou partido, nenhuma reunião de homens duradoura ou ocasional capaz de gerir o país. O que há é péssimo, mas é o que há. Sidónio Pais era Sidónio Pais, e a sua regência foi célebre pela imoralidade, pela profusão de apadrinhamentos, pela prolixa desvergonha dos negócios escuros e nos crimes políticos. Quando esse homem, que tinha as qualidades místicas do chefe de nação, que tinha as qualidades de astúcia precisas para manejar os homens, e as energias para os compelir, não pôde, honesto como era, romper com a cercadura de ladrões que tinha, não pôde, leal como era, evitar estar cercado por traidores e bandidos, não pôde, nobre na coragem como era, evitar ser rodeado de assassinos e trauliteiros - que espécie de homem esperamos nós que virá, que faça a obra da regeneração?
(...)

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias.»
- Fernando Pessoa, "Sobre Portugal"





Depois de Sidónio, tivémos Salazar. Que conseguiu, pelo menos, não ser assassinado. E conseguiu também, com denodo e perseverança titânicos, libertar e levantar a nação. Da partidofagia interna e da tutoria externa. Que depois fosse apodado de ditador por aqueles que a prostraram e entragaram de novo à servidão externa não admira. Mas mesmo Salazar viveu rodeado de alguns oportunistas que, nos últimos anos da sua governação, começaram a tornar-se infestantes. Marcello, que lhe sucedeu no fado, soçobrou à mediocridade e safadeza envolvente. Nãi acabou assassinado, mas deportado vitaliciamente. Venha o diabo e escolha.

Não acredito em partidos nem ideologias, sobretudo entre nós. Demonstram-mo, exaustivamente, a realidade e a história. Tudo é postiço, lodoso e improfícuo. Esquerdas, direitas, geminam-se na mesma mediocridade invertebrada, materialista e imediateira. Mediocridade é favor; malignidade seria o termo rigoroso. A política enferma de todos os vícios e baixezas do futebol: a partidarite é apenas uma clubite mais rasteira.

Portanto, isto não vai lá com associações de malfeitores ou quadrilhas de amigos do alheio à boleia do Estado. Um Homem providencial? Deixem lá a metafísica. Basta-nos um homem sério e probo. No meio de tanto insecto rastejante alcançaria de pronto a força e a autoridade de um gigante.

PS: O espírito do povo português continua intrinsecamente monárquico. Só respeita ou um rei legítimo e consequente, ou alguém que governe como tal. E a diferença não está nos adereços, mas na essência, ou seja, no homem. E no seu espírito.

10 comentários:

  1. Anónimo4:32 p.m.

    O problema dos homens sérios, não é que não existam. Tanto nacional, como além fronteiras, sofrem do mesmo mal... Timidez, não se mostram, isolam-se até...

    Rejeitam os valores presentes e são rejeitados por estes...

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  2. Anónimo5:01 p.m.

    ..."Para se ter uma ideia completa: o registo conta com 907 lóbis alemães, 806 britânicos e 797 franceses. Ao todo, até 21 de julho havia 8.105 inscritos oriundos de dezenas de países."..."Contam-se pelos dedos de uma mão o número de grupos portugueses com representação permanente na capital da UE: Eupportunity, CAP, EDP e AICEP."

    ..."No registo constam empresas e setores económicos portugueses tão diversos como a banca, petrolíferas, energia, eletricidade, vinhos, águas, construção, turismo, agricultura, pescas. Há de de tudo um pouco. Também universidades, consultoras, municípios, ONG’s ambientalistas e até a Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios (tubarões e raias) ou a Associação de Melhoramentos e Bem Estar Social de Pias. O facto de estarem no registo, não significa que exerçam a atividade de forma frequente ou sequer que estejam acreditados, por exemplo, no Parlamento Europeu."

    ..."Para os portugueses ouvidos pelo Observador, é fundamental estar em Bruxelas, já que aqui se joga cada vez mais o futuro do país."

    Isto resume tudo, o futuro nacional já não é construído em território luso...

    Deste artigo do observador:

    http://observador.pt/especiais/o-que-andam-a-fazer-os-lobis-portugueses-em-bruxelas/

    Phi

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  3. «Isto resume tudo, o futuro nacional já não é construído em território luso...»

    Pois, não discuto a evidência de todo aquele circo.

    Apenas duvido que lá tratem do futuro de Portugal, ou, tão pouco, da Europa. Será mais apagar o passado e liquidar qualquer hipótese séria de futuro.
    No fundo, tantos lóbis para andar tudo a toque de caixa duma gaja.
    É mais uma forma de parasitagem organizada: sacar massa sem fazer nada de útil à humanidade. E mais um sinal de que este país se devia pôr ao fresco já ontem. Minto, anteontem.

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  4. Anónimo7:19 p.m.

    "Apenas duvido que lá tratem do futuro de Portugal"

    Ora, se lá está uma associação de conservação de elasmobrânquios, seres constituídos de cartilagem, sem estrutura esquelética rígida, e visto que estes animais abundam por Portugal, vulgo politiqueiros eslamobrônquios, não vejo melhor forma de conservar o futuro deste país...

    "Será mais apagar o passado e liquidar qualquer hipótese séria de futuro."

    Nem a falar no diabo, ainda hoje o expresso noticiava que estávamos de novo em défice externo. Causas? O fim do programa de fundos comunitários e a saída de dividendos de empresas vendidas a estrangeiros...

    Phi

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  5. Acho que nós, desde o anterior desgoverno, aturamos uma nova dinastia aberrante: Foi o Pinóquio I; e agora estamos no Pinóquio II.

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  6. Ora então, mas esse espírito é bom - ou não é?

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  7. De resto o grande problema dos homens sérios não é rejeitarem os valores presentes ou serem rejeitados por estes - pelo contrário, essa é a sua grande força. O grande problema é que não chegam sozinhos onde precisam de estar. Portanto, não chega só o homem sério: são necessárias as circunstâncias que lhe permitam agir.

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  8. Pelo menos é o que me parece a mim....

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  9. Anónimo10:19 p.m.

    Muja, não disse que o problema era esse, disse isso sim, que são tímidos.

    Vê algum Dragão na politica nacional?

    Estávamos não, estamos!

    Phi

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  10. Antes ser sério e não chegar lá do que chegar lá e não ser sério.
    Naturalmente, o ideal é que chegue e seja. E é por ser raro que é tão valioso.
    Mas devemos prospectar o que é valioso ou o que não vale nada?

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