terça-feira, dezembro 18, 2007

A Questão fundamental

Condição essencial a qualquer ser vivo, ou meio morto, ou meio vivo-meio morto, é o seu lugar de origem. O meu é Portugal. Sou um dragão made in Portugal. Genuí­no português... para a pobreza e a riqueza, na tristeza e na alegria, até que a morte nos separe! Ora, se este não é um belo assunto, então não sei o que será um belo assunto! Então, vejamos: qual é a caracterí­stica mais forte do português?... Esperteza saloia, mesquinhez, balbúrdia, burrocracia, inveja, superficialidade, bacoquismo, futebolite, hipocrisia?... É certo que estas abundam, mas serão realmente o vértice?... Não restam dúvidas que o português adora falar ao telemóvel e guiar o automóvel (de preferência as duas em simultâneo), mas quanto a mim há algo que ainda supera estas delí­cias e o deixa, mais que derretido, babado... Não adivinham? Eu digo: Mirar. Pois, mirar e remirar com a maior das gulas. O português não come com os olhos, empanturra-se. E não há dispepsia que o aflija: digere tudo! É uma gibóia insaciável, uma anaconda voraz. Mas nada de voyeurismos ou espreitadelas subtis, de soslaio, como quem não quer a coisa. O verniz não lhe quadra... gosta mesmo é de plantar-se defronte dos acontecimentos, das coisas e, sobretudo, dos desastres, das cenas degradantes e empanzinar-se, tirar a barriga de misérias, ou melhor, enchê-la! Não se pode exigir aos portugueses que apaguem incêndios, quando, na verdade, o que eles gostam mesmo é de vê-los, apreciá-los, na sua beleza feérica, catastrófica (e quem sou eu, dragão, para os criticar nesse caso especí­fico...)
Diante da própria casa a arder, o português deve ser único no mundo a experimentar sentimentos contraditórios: por um lado "ai que desgraça!,minha rica casinha!..."; por outro, "compõe-te mulher, vêm ali os senhores do telejornal!..."
Da mesma forma, é absurdo incitá-los a que se levantem da desgraça, da miséria mental e fí­sica em que vivem, qual país prostrado, rastejante, mendigabundo, quando, acima de tudo, o que eles mais gostam é de contemplar misérias, desgraças, ignomí­nias, hecatombes, nem que sejam as suas! Aliás, sobretudo as suas!... Para que quereriam eles um paí­s organizado, seguro, planificado, ordeiro: só se fosse para morrerem de tédio! Tanto mais, que nenhum sarrabulho lhes chega, nenhuma confusão lhes basta: mergulhados numa babel monumental, eis que anseiam emigrar para as áfricas ou brasis, só porque sonham que aí a balbúrdia ainda é maior!... E é, graças a Deus!...
O caso dos acidentes aparatosos e sanguinolentos (ou melhor será dizer, massacres?) nas auto-estradas serve de modelo alegórico... Quem já não assistiu às tripas do semelhante em exposição gongórica nestas galerias? E as filas de basbaques que logo se formam? E os desastres subsequentes, como que por simpatia (por simpatia mesmo) que, regra geral, se encadeiam? A malta a ver, a absorver morbidamente, com volúpia... a assistir, a esquadrinhar, a pesquisar, à cata de minúcias e detalhes, quanto mais escabrosos, sórdidos e repugnantes, melhor! Uma corja, sem dúvida. O português conforta-se na sua própria repugnância, engrandece-se e regozija-se na proporção directa da desgraça alheia. O seu bem, a sua sorte, só são reconhecí­veis, assinaláveis a partir da desgraça e do azar dos outros. Puta de gente! E eu, apesar de dragão, sou um deles. Ninguém escapa: vem com o Tejo, os sobreiros, o azul único do céu e tudo o que faz com que este lugar seja este e não outro. Os gregos chamavam-lhe "moira"; nós chamamos-lhe "destino".
Não deixa de ser irónico: os portugueses embasbacados diante de misérias e desgraças, e eu embasbacado diante deles e de mim próprio (ou sejam, outras misérias e desgraças que tais)...
Mas felizmente há o riso! e este meu dragoscópio, que dá para ver tudo e mais alguma coisa!...E que vejo eu, Dragão, nos portugueses, através do meu dragoscópio?...
- A desgraça que é ser português..., pensais vós...
Desgraça?! Não me fodam!, desgraça mesmo era ter nascido americano!...


- Foi assim, há quatro anos inteiros, que aqui o lança-chamas rompeu as hostilidades. Só se perderam as que caíram no chão.

18 comentários:

  1. E nada como comemorar com um texto de forte inspiração céliniana!
    Parabéns!

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  2. Anónimo3:41 p.m.

    Acho que os portugueses são bons é a ansiar. Bem ao menos rima...

    ROFL

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  3. Parabéns por este Dragoscópio que vale tudo o mais que possa existir na blogosfera, espaço sideral circundante (e só não digo nos jornais porque era insulto).

    Longa vida ao Dragão e engenheiro Ildefonso Caguinchas.

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  4. Longa Marcha ao Dragão e ao Engenheiro Ildefonso Caguinchas.
    Uma efeméride a celebrar!

    Obrigado pela Sua "Existência".

    Abraço.
    Mário

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  5. Anónimo5:29 p.m.

    Parabens, o' Dragao! (cumprimentos pro' Caguinchas)

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  6. o azul único do céu é verdade

    mas esqueceste-te do principal: o tintol

    o tintol da nossa terra é único

    comparado com as barbaridades que se fazem por essa Europa fora

    por exemplo, aquele que tem a fama de ser o melhor vinho do mundo, o vinho francês, é uma mixórdia legal de álcool, açúcar, aroma de vinho e algumas uvas para atestar da genuinidade do produto

    e essas marteladas são todas legais, todas legais, França, Alemanha, etc.

    (acho que em França existe uma excepção: a mixórdia tem que seguir uma determinada ordem cronológica, isto é o açúcar e o ácido não podem ser misturados juntos, isto é, o martelo tem as suas regras, das quais não consta que o vinho deve ser apenas feito de uvas)

    as mixórdias, marteladas e outras aldrabices que adquirem legalmente o nome de vinho em muitos países da Europa deviam dar origem a um ultimato nos termos do qual se eles fazem vinho falsificado, Portugal devia ter o direito a imprimir os euros que quisesse até ser o país mais rico da Europa e do Mundo

    se eles fazem vinho sem regras, porque é que não podemos fazer euros sem regras

    ou o direito à falsificação é só uma prerrogativa de alguns?

    desculpem este longo desabafo mas penso que tenho direito à indignação num tema tão sensível

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  7. Anónimo10:15 p.m.

    Caro Dragão:

    Continue a afoguear os rabos de palha e a bem merecer todas as dragonas! Os leitores é que nos tiramos de saramargas misérias ao ler estas suas farpas redivivas de Ramlhos e Eças.

    Bem haja.

    (Mas não vá sem reparo que o nosso mirone brejeiro é um contemplativo mal educado, com aquelas potenciais qualidades de ad-miração que desataram a portentosa imaginativa criadora dum Fenão Mendes ou dum Camões.)

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  8. Anónimo10:38 p.m.

    Para os menos acostumados a etiquetas e sinaléticas militares, com "dragonas" quis significar os doirados galões que bem quadram nos ombros deste nosso escritor almirante. (Não se fosse melindrar a infatigável Zazie.)

    Também soa melhor: Ramalho. Ramalho Ortigão.

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  9. Anónimo9:45 a.m.

    Quatro anos de labaredas =;O)
    Continue.

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  10. Anónimo10:09 a.m.

    Foda-se, acertou-me de raspão
    Ò Dragão!
    Há que treinar melhor os "Jabes" e ir mais para o corpo a corpo.
    Mas isto nem sequer é um ringue c'um carago, é mais um...matadouro
    Força dragão!

    Legionário

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  11. Anónimo11:39 a.m.

    Uau, que blogue impressionante!... Seu mauzão, bad boy, bad boy!
    Este tem a mania que é gótico... ;)

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  12. Que me acompanhe sempre, como até hoje, este super "special one" cibernético.
    Difícil foi mostrar o BI à menina dos CTT, para que me entregasse a encomenda... Já ocupa o seu lugar entre os manuais de arte/técnico/científicos.
    Um abraço com os votos de Boas Festas e melhores entradas.

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  13. Parabéns Dragão!
    E o que diz o timshel aqui é absolutamente verdade. Acreditem de quem tem a experiência lá fora. Mas não é só os vinhos. É o mesmo nos queijos! É o mesmo nos azeites. É o mesmo nos frutos, etc. É o mesmo em todos os produtos naturais da nossa Terra. Sempre fomos um País cuja característica era a exclusividade e a qualidade, já no tempo dos Romanos. E essa - e não a quantidade nem concorrer com o que os outros já têm, era a nossa riqueza e sobrevivência.

    Até na CONSTRUÇÃO, é o mesmo fenómeno! Nas árvores que temos.
    E na cultura também.

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  14. E na Língua, BTW.

    Estão lembrados da petição? Divulguem a petição contra o acordo ortográfico.
    Não concordas Lança-Chamas?

    Gosto muito da mudança de nome, caro.

    Feliz Natal e cumprimentos

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  15. Soaram trombetas, li nos editais, procurei nas estrelas, uma das mais brilhantes lançava cometas, e linguas de fogo, não há que enganar, o Dragão festeja qualquer coisa! Arredio, na minha caverna, estou de visita para lhe dar os parabéns.
    Um abraço.
    JSM - Interregno.

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  16. Anónimo12:20 a.m.

    Olé, 1460 dias de incêndios quase ininterruptos. É obra!
    Felicitações.

    Pois que venham outros tantos e cada vez mais incendiários.

    Napallmmmm!...


    Quanto aos protogueses, só lá vão mesmo é com porrada e mesmo assim não sei!

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  17. Se a gibóia mudar de pele até pode ser que se transforme numa jibóia...

    Mesmo de braço partido, fica um abraço

    Breve ode ao português (ao bom)

    o bom português
    não se escusa à virgem maria no "tablier"
    ou à ferradura no pára-choques como sinal de fé

    o bom português
    não prescinde da unha comprida,
    do dedo mindinho, para coçar o nariz
    nem de uma procissão política como salvação

    oh bom português!
    tudo farei por ti, acredita
    até mesmo este emprestar de dentes,
    que não tenho, para que não te falte o sorriso

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  18. Não poderia deixar passar sem lhe dar também os mais sinceros parabéns!

    Afinal, quatro anos a manter o nível a que já nos habituou não é para todos.

    Que cá estejamos para contar muitos mais, digo eu!

    (peço desculpas pelo atraso :) )

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