sexta-feira, janeiro 21, 2011

Manual do Alibi para Misogamos -2ª ed.

Vem isto a propósito do título duma notícia:
«Matou a mulher com tiro na cabeça».

Logo à partida, há qualquer coisa de estapafúrdio e redundante neste título. É evidente: se ministrou um tiro na cabeça da coitada, a morte seria a consequência mais óbvia e natural. Espantoso seria se a tivesse assassinado com um tiro no pé. Ou no braço. E o espantoso é que seria sobremaneira apelativo para a horda gulosa de desgraça alheia. Ora, não será com banalização e trivialidade que se atraem basbaques, pelo que já nem as regras elementares do chamariz aberrante se cumprem. Ao não deixar nada à imaginação do leitor, o próprio pasquineiro retira o recheio atraente à notícia. Mutila-a do "junk-appeal". Porém, não é esse frenesim chacal e patético dos açougueiros mentais das massas -vulgo "jornalistas" -, o que para agora nos interessa. Fica apenas a nota, que serve simultaneamente de preâmbulo ao que se segue. E o que se segue pertence a outro reino. Abandonemos pois a realidadezinha sórdida e saltemos para outra dimensão mais interessante: a da arte. Da ficção tanto quanto do humor negro.
Um redactor com um peculiar e refinado sentido de humor, escreveria então: "divorciou-se abruptamente". Ou "enviuvou por sua livre e espontânea vontade."
Da mesma forma, entre atenuantes, justificações ou desculpas para o acto, pela voz do perpetrante, também nos ocorrem alguns alibis angélicos - ou teses imaculadas - que passo a enumerar:

1. "Nunca parava quieta. Apontei-lhe ao pé direito, mas ela meteu a cabeça à frente."

2. "Na verdade, eu queria era suicidar-me, mas ela, no último momento, interpôs-se."

3. "A culpa foi dela e mais a sua maldita mania das limpezas. Por mim, nunca teria ido limpar a porcaria da arma."

4. "Eu estava a atirar ao calhas. Para ver se me passava a dor de dentes. É assim que eu faço. Logo por azar, ela ia a passar."

5. "Só puxei o gatilho. Não tenho culpa que atrás viesse o cão, a agulha do percutor e a sacana da munição mandada pela puta da culatra. E a seguir a vizinhança, as sirenes da polícia, os telejornais... Confesso que não esperava tanto barulho por causa dum pinchavelho tão pequeno."

6."Não acredito que esteja morta. Aposto que está a fingir. É tudo um truque para não ter que fazer o jantar."

7."Arranjou esta tramóia toda só para me prejudicar. Um raio me parta se a mãe não está por detrás disto. Conheço bem a minha sogra."

8. "Eu só atirei, não tenho culpa de que ela tenha morrido. Se querem incriminar alguém, culpem Deus, que nos criou efémeros e mortais."

9. "Eu estava fora de mim, há testemunhas. Não posso ser incriminado por algo cometido por quem estava lá dentro."

10. " Sou inimputável. E tenho como comprová-lo: eis o cartão de sócio do SL. Benfica."

11. "Fui compelido pelas circunstâncias. Era uma engrenagem fatal. Qualquer outro teria feito o mesmo."


12. "Ela era uma santa e excelente pessoa. Um anjo em forma de gente. Por isso mesmo, despachei-a em boa velocidade para o Céu. Por um glorioso instante, superei todo aquele meu nojento egoísmo. Não entendo como podem chamar crime a um gesto tão nobre!..."


13. " A intenção não era matá-la, mas apenas colocar um ponto final na discussão. Terapia, essa, que foi plenamente eficaz. Vamos culpar o médico pelo efeito secundário do medicamento?..."


14. "Não está morta. Apenas não se mexe nem respira. Ninguém consegue explicar cabalmente o que é a vida ou o que é a morte. Ainda menos o que é o Homem, donde vem, para onde vai, ou sequer se Deus existe. A Metafísica Ocidental anda há milénios de volta disso e continua tão ignorante quanto no início. Por conseguinte, não posso ser condenado por algo que ninguém até hoje conseguiu explicar ou definir indubitavelmente. Não sou inocente, nem sou culpado: sou uma incógnita. Uma aporia. Aliás, nem o verbo Ser sabem o que seja!..."


15. "Mesmo que tenha morrido, como é que podemos ter a certeza de que não vai ressuscitar?... Terei eu culpa da miserável falta de fé que campeia nestes ignóbeis tempos?..."


16. "Ela não morreu em consequência do tiro, mas do ferimento. Sou apenas responsável pelo tiro. Até porque se vamos pôr-nos com rigores desses, então ela também é culpada de negligência grosseira: andava pela casa sem capacete."


17. "Apresentou-me o seguinte projecto para apreciação: pretendia fazer um aborto. Chumbei-o liminarmente. "


18. "Não podem acusar-me de lhe ter rebentado com os miolos. Não, isso não aceito. Não podia rebentar-lhe com algo que ela, de todo, não tinha. Por isso mesmo lhe apontei à cabeça - como até lhe podia ter apontado ao coração: de modo a não atingi-la em nenhum órgão vital. Para ser franco, só queria assustá-la."


19. "Ultimamente, andava a ouvir mal. Confundia tudo o que eu lhe dizia. Era mais que evidente que tinha os ouvidos entupidos com rolhões de cera monumentais. Convenci-me de que lhos conseguia limpar com um único tiro bem apontado. Era só questão de escolher a trajectória adequada, de modo a fazer com que o projéctil entrasse pelo direito e saísse rectilineamente pelo esquerdo. Afinal, não sou tão bom atirador quanto julgava. Ou então a munição vinha defeituosa de fábrica, vá-se lá saber... O certo é que em vez da cera, limpei-lhe o sebo. Um pequeno desvio na higiene será assim tão grave?»


20. "Na altura pareceu-me importante - indispensável mesmo - dar-lhe um tiro. Mas agora já não me lembra bem porquê. Tenho uma vaga ideia da defunta. Acertei-lhe, foi?... "


21. "Acabei-lhe com a tosse. Que isso lhe tenha custado a vida foi o preço que, assim de repente, me ocorreu cobrar-lhe. Homicídio voluntário? Ah, não exageremos! Quando muito exagerei nos honorários. Mas a saúde não tem preço, sempre ouvi dizer."


22. "Foi contra minha vontade que lhe dei um tiro. De facto, só usei a espingarda porque a moto-serra avariou inesperadamente. A mim, quando muito, deviam constituir-me testemunha de acusação. Arguir, vão arguir o Acaso!."


23. "Sim, dei-lhe um tiro e não compreendo tamanho escândalo. Daqui, da cadeira de rodas, queriam que a liquidasse como - à paulada? Sou deficiente motor, não sou deficiente mental."


24."Era ela ou eu. Ou dava um tiro na cabeça dela ou dava um tiro nos meus miolos, ou até nas pessoas todas que encontrasse no supermercado. Assim, na medida em que cometi um mal para evitar um mal muito maior, cometi um bem. Em vez de me julgarem em tribunal, deviam era de homenagear-me no parlamento. Sempre achei o meu nome predestinado a uma rua, praça ou jardim."


25. "Foi a eutanásia possível. Ela padecia duma timidez incrível, mórbida. Era só por isso que não me pedia. Não queria causar-me transtornos nem maçadas. Mas eu, que sou deveras sensível ao sofrimento alheio, lia-lhe a súplica no olhar. Aquele sangue todo? A culpa é do Estado que não nos disponibiliza os equipamentos adequados. Eu também tinha preferido não sujar a carpete, nem alarmar os vizinhos com estampidos desnecessários. "


26. "Acabo de perder a minha mulher, caro senhor. Acha que é altura para responder a inquéritos?... É da polícia? E eu tenho porventura culpa de vossência não ter arranjado um emprego melhor?..."


27. "Falta de amor, falta de dinheiro, falta de pachorra. Acusava-me de ser um falhado, um nada-na-vida, só porque não a enchia de ouro. À falta de ouro, enchi-a de chumbo. Na Alquimia, dizem que resulta. Com ela não resultou. Querem agora fazer de mim o bode expiatório para estes mistérios e caprichos esotéricos? Tenham paciência."

28. "Confundi-a com a mãe dela."

29. "Confundiu-me com o amante dela. Qual deles? Foi precisamente essa questão que a matou. Eu fui só o instrumento dessa incerteza assassina. Eu e a espingarda, bem entendido."

30. "À velocidade a que ela corria, foi um verdadeiro milagre acertar-lhe na cabeça. Ora, se fiz um milagre, sou um santo. Jamais um criminoso!..."

31. "Sai mais barato um advogado de homicídio do que um advogado de divórcio. Com a dupla vantagem do homicídio resolver instantaneamente o divórcio."

33. "Do pescoço para baixo era um hipopótamo, do pescoço para cima uma galinha; da língua para fora uma autêntica víbora. Agora acusam-me de ter morto uma mulher. Sei do que falo: exterminei uma quimera, isso sim. Livrei o mundo dum monstro. Pena maior? Eu merecia era um Sófocles que me imortalizasse numa tragédia."

32. "Aqueceu-me tanto a cabeça, que, por lei da compensação cósmica, tive que lhe arrefecer a dela. A Física Quântica justifica-me plenamente."

33. "Foi um péssima ideia ter disparado. Mas criminosa mesmo foi a triste ideia de casar com ela. Portanto, se agora me acusam de homicídio, o padre é meu cúmplice. E mentor."

34. "Crime passional uma ova! Eu nunca gramei a gaja!..."

35. "Não foi de propósito: foi de emboscada. Não tive intenção: só tive pontaria."

36. "Para variar, fui dormir a casa. Estava esfalfado, precisava mesmo de descansar. O problema é que sou sonâmbulo e tenho o vício da caça."

37. "Ela ficou possessa. Eu fiquei nervoso. O exorcismo não correu lá muito bem. Mas era o diabo ou eu!..."

38. "Não sei o que me deu. Digo-o com toda a sinceridade: não sei. Só sei o que todos sabem: o que quer que tenha sido fez ricochete em mim e acertou nela. Querem agora culpar-me por um mero capricho balístico?..."

39. "A bala alojou-se-lhe na cabeça dum modo letal e definitivo? Se o dizem. Mas que culpa tenho eu? Porventura fabriquei-a, vendi-a? A arma nem era minha. E a mulher também não. Enganei-me na casa. Confundi a cama, estava escuro... Não sabia que agora o inocente lapso já era crime!..."

40. "Não sei se ela me encornava ou não. Na dúvida, atirei. Na dúvida, sublinho, não nela! O que aconteceu para lá disso não é da minha responsabilidade. Eu só queria, justamente, acabar com a dúvida. Que fossem ambas uma e a mesma pessoa é assunto que me deixa assombrado. Como pude viver enganado tantos anos?..."






quinta-feira, janeiro 20, 2011

Indiferença




Estas eleições repetem um esquema que não muda, apenas se vem deteriorando nestes últimos decénios. A própria máscara já não disfarça. A máscara, de resto, que coincide com a fórmula: a esquerda mascarada de direita compete contra a esquerda mascarada de esquerda. Quem me conhece, sabe que eu ligo patavina a esta macacada do esquerdo/direito. Mas pronto, a bem do folclore, do pitoresco, sempre fazia algum sentido que houvesse uma distinção que se visse - uma separação, mínima que fosse, no essencial, e não apenas no acessório. Convinha ,a bem dum módico de decência,que o sufrágio putativamente livre e universal não se resumisse a um vil e oneroso cortejo de cabeçudos num qualquer carnaval fora de horas.
Promulga-se que a indiferença pilota quem descomparece. Que a irresponsabilidade anima quem desliga. Grosseira vigarice! É precisamente o inverso: indiferente porque indiferenciado é quem vai a votos. Irresponsável é quem tem contribuído para este funeral que se arrasta, sem ir a lado nenhum nem sair do mesmo sítio. Não ir lá só expressa, na generalidade, o nojo que germina do desencanto. A indiferença e irresponsabilidade, essas, as genuínas, estão no poder desde Abril de 74!
Por muito que esperássemos - ou sonhássemos - outra coisa, serviram-nos coisa nenhuma!

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Poder e Dever I. A escola




Sendo considerada uma das principais fontes do pensamento medieval, o Corpus Areopagiticum é integrado, entre outras, por duas obras muito sugestivas: o Da Hierarquia Celeste e o Da Hierarquia eclesiástica. Trata, aquela, das várias classes de anjos, arcanjos e serafins, na pirâmide celeste; como trata esta da correspondente pirâmide na terra. Dir-se-ia que a Terra espelha o céu. Ou deveria espelhar. No meio disto tudo há Cristo que faz a mediação e um tipo que estabelece a ponte entre os dois domínios (ou "cidades" como lhe chamará Santo Agostinho, mais adiante), e por isso se apelida de "Pontífice" - Sumo Pontífice. Num certo sentido, Cristo advoga-nos no Além, como o Sumo-Pontífice advoga o Além/Cristo entre nós. E por isso também lhe chamam Vicário.
Hoje sabemos que além destas hierarquias entre os anjos e entre os homens, existe uma terceira (que o Pseudo-Dionisio, eventualmente por falta de tempo, não referiu). Poderíamos chamar-lhe Da Hierarquia bestial. Os cavalheiros da zoologia chamam-lhe a pirâmide da predação, ou cadeia alimentar, ou qualquer coisa do género.
E a verdade é que não existe apenas uma ordem - uma organização de poder e poderes - entre os anjos (vamos admitir que sim), ou entre os homens. Há hierarquia entre os anjos, como há hierarquia entre as formigas, as ratazanas, as hienas e as hordas simiescas. Há uma ordem no Céu, mas há igualmente uma ordem na Terra. Existem regras. Que uma formiga operária ou uma formiga soldado não discutem; que um grupo de ratazanas entende na perfeição; que uma horda de chimpanzés trata de desempenhar com a gritaria inerente à espécie. E nós, no meio disto tudo? Entalados entre os anjos e as bestas, fazemos como?
Quando me dizem "o poder é uma construção estrita do homem", qual poder? O legislativo, o executivo ou o judiciário? Mas a humanidade principiou com a Revolução Francesa ou mesmo com o nascimento de Cristo? O poder é a última moda do nosso aleive mais bem armado? O poder mata mais branco? Inventámos o poder?
Aristóteles, que era pouco dado a utopias, decifrou-nos com lucidez e simplicidade: "o homem é o mais imitador de todos os animais e, por imitação, apreende ele as primeiras noções..."
Se sabemos que é assim, então impõe-se-nos a questão: em que escola do poder é que nós aprendemos? Vêm-me, assim de repente, à memória as Fábulas de Esopo...
Mas é claro que nisto, como em tudo, há excepções. Acredito que o antepassado do amigo Despastor tenha fugido ao rebanho da espécie. Até parece que estou a vê-lo, diante dum Dente-de-Sabre que se refastelava com um dos seus companheiros, arengando do cimo da árvore, com alacridade, aos restantes estarrecidos:
«Malta, não há que ter medo, o super-felino não tem poder nenhum. Nós, um dia destes, é que vamos inventar o poder, Pois, pá, camaradas, é como vos digo: numa selva privada, num parque exclusivamente nosso a que chamaremos civilização e depois duma série de revoluções! Está no papo. É só o tempo de nos tornarmos os protagonistas desta cegada toda!»
Mas nisto rebentou um vulcão nas imediações, e fugiram todos. O Dente-de-Sabre incluído.
De então até hoje, como é sabido, lá foram decorrendo peripécias e fragilidades... Como o canibalismo, por exemplo. A propósito, sabem como é que se identificava o chefe da horda canibal da época seguinte: era aquele que vestia a pele do Dente-de-Sabre. Ainda hoje não andamos muito distantes disso.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Palavras com raiz . III- Crença (e já agora paciência, que é preciso muita)

Pois, ó caro Toupeiraço explosivo, eu já aqui ando há uns anos e, ao contrário da generalidade, venho sempre dizendo a mesma coisa.
Isso que vossência conseguiu tresler a desentender a níveis quase anedóticos, não passa duma breve síntese disto que eu já aqui explicitara em 2008, e que reposto para me poupar a arengas...


«Ainda mais importante, é ter em consideração de que existe em muita gente uma forte necessidade de formas de culto, que co-existe com a aversão simultânea pelas Igrejas. Sente-se uma falha na existência, e nisso assenta a corrente em volta dos gnósticos, dos fundadores de seitas e dos apóstolos, que com maior ou menor êxito assumiram o papel das Igrejas. Poderíamos dizer que existe sempre um certo grau de disposição para a crença, que foi satisfeita legitimamente pelas Igrejas. Mas, agora, libertada, esta força prende-se à primeira coisa que aparecer. Daí a credulidade do homem moderno no qual coabita ao mesmo tempo a descrença. Ele acredita no que está escrito nos jornais, mas não no que está escrito nas estrelas.»
- Ernst Jünger, "Tratado do Rebelde"

Na raiz latina "credo" tanto pode significar "confiar por empréstimo", "emprestar dinheiro", "emprestar", como "acreditar", "dar crédito", "confiar", "supor", "ter como certo", etc. Indo ainda mais fundo, à raiz grega "Craw", o leque aumenta: tanto pode traduzir "emprestar", "conceder", "vaticinar", "anunciar", como "ter necessidade de", "ser pobre", "pedir", "usar de", "tomar emprestado" ou "consultar um oráculo". Em "craw" entronca "crhema" - empresa, soma de dinheiro, finança, riqueza, massa (no sentido de multidão), paga, salário, etc. E ao Mercado, banca ou bolsa um grego chamaria "crhematisthérion" (crematistério).
O que disto ressalta desde logo é que existe uma ambiguidade ancestral no próprio significado das palavras. Uma ambiguidade que, no caso da crença (não foi por acaso que a escolhi) reflecte essa coabitação entre dois sentidos aparentemente díspares - o sagrado e o profano, o celestial e o rasteiro, a limite, o divino e o dinheiro. Serão as palavras monstros - quimeras onde se digladiam, em amálgama espantosa, formas e ideias contraditórias: cabras e leões, aves e répteis?
O facto é que a "crença", já enquanto mera palavra, tanto nos pode conduzir a Deus como ao dinheiro; tanto nos pode converter em devedores do Céu como da Banca; tanto pode traduzir uma pobreza nossa em espírito como em finanças. Mas, ao manifestar multiplicidade, incita-nos a uma ordenação. A uma hierarquização nos seus vários significados.
Por exemplo, eu, ao sopesar a frase "não servirás a Deus e ao dinheiro", interpreto, numa primeira instância, Deus como algo mais valioso que dinheiro; e, numa segunda, Deus como algo mais valioso do que eu e eu como algo mais valioso do que o dinheiro. Tudo junto, entendo o sentido da frase como "devo servir para algo superior a mim e não para servir aquilo que eu próprio criei para me servir". Portanto, há uma importância, um valor, que eu credito a Deus e uma importância que eu credito aos bancos. O que se tem verificado, ao longo dos séculos, no historial da nossa civilização, é que quanto maior é uma menor é a outra. Excepto, naturalmente, para aqueles Credos aberrantes em que Deus e Mamon se identificam.
Entretanto, quando eu digo Deus não é forçoso que eu signifique um Deus confinado a determinado ritual religioso; de facto, posso apenas dizer aquilo que, de certa forma, o conceito de Deus simboliza e consagra, ou seja, determinados princípios e fins - uma causa primeira e uma causa final. Quer dizer, a minha acção deve reger-se por princípios e fins; não quedar apenas refém, enclausurada e cativa dos meios. Pois, conforme estipula a matriz da nossa própria civilização, a acção humana não é um mero exercício de meios; como não é um mero exercício de fins. Nesse caso, nesse exercício desligado e cacofónico dos meios ou dos fins cair-se-á fatalmente no desequilíbrio, na desarmonia caótica. Porque, assim sendo, ou os fins justificarão os meios ou os meios determinarão os fins. Perdidos os princípios, tudo se torna, então, possível. O cosmos deixa de estar sujeito a uma necessidade –isto é, uma ordenação primordial, eterna e transcendente (e transcendente não é nenhum palavrão feio, apenas significa não estar sujeito a caprichos, acidentes e acasos do tempo) – e passa a estar ao pleno dispor da sorte e do acaso. E de quem lá impera. Desce-se, assim, do reinado do sentido, do simbólico, para a tirania do aleatório, mascarada, no melhor dos casos, duma democracia de alienados. Note-se, a esse respeito, como o nosso tempo manifesta uma hostilidade e um desprezo ostensivo pelo “primórdio” e, em contrapartida, celebra o “media” e a “finança” – decantações, respectivas, quer do “meio”, quer do “fim”.

Por outro lado, esta ordenação hierárquica das coisas fundada na criação (e entenda-se aqui “criação” não no seu significado apenas religioso, mas também artístico, não sòmente demiúrgico mas também poético – ou seja, não apenas bíblico, mas sobretudo helénico) é deveras interessante e terrível. Senão, reparemos: se aceitarmos a sua lógica teremos qualquer coisa como "o criado ou criatura deve servir o criador. Assim, devemos servir a Deus, tal qual o dinheiro nos deve servir a nós." Em contrapartida, se nos rebelarmos contra essa ordem, se entendermos que (por exemplo, porque não somos criados, porque somos meras moléculas sem qualquer vínculo ao sagrado) não devemos servir a Deus, pode, à primeira vista, parecer muito libertário, catita e altamente moderno, mas depois tem um reverso sinistro que nos atira, de escantilhão, para abaixo dos pré-históricos canibais: é que, na mesma medida, o dinheiro e tudo aquilo que nós criámos deixa de estar na obrigação de nos servir a nós. Tornamo-nos então, nós próprios, servos dos nossos criados, criados dos nossos produtos, prole e plasma dum qualquer Estado burocrático. Preciso de vos apontar a realidade actual à vossa volta? Porque nos rebelámos contra o superior, tornámo-nos escravos do inferior; porque enterrámos as asas do espírito, rastejamos agora no pântano da matéria; porque desertámos do princípio, estamos agora confinados à finança. Partimos e pulverizámos em míseros caquinhos todo o imenso templo da Crença em Deus, doravante nanificada em milhares de minicrenças: crença na casa, crença no carro, crença no sucesso, crença no progesso, crença na ciência, crença no jornal, crença na televisão, crença no pastor, crença no doutor, crença na turba, crença no número, crença no trabalho, crença no umbigo, crença no dinheiro - somos agora miriápodes ouriçados não já em patas mas em crenças, com as quais amarinhamos por tudo, empeçonhando a esmo, e tudo isso embrulhado no tal saco da super-crença na Finança Toda Poderosa, gestora do Céu e do Inferno na Terra. Em boa verdade, à crença deixámos de tê-la para passar a sê-la. De sujeito degradámo-nos a objectos; de protagonistas, passámos a acessórios; de portadores, a transportes; de proprietários, a possessos. O produto tornou-se mais valioso que o produtor. Descartado o Sagrado, a natureza tornou-se descartável para o homem e o homem, por sua vez, tornou-se descartável para a sua própria máquina industrial tecno-eficiente. O conjunto evolutivo lembra, cada vez mais, um foguetão cósmico que vai consumindo e largando andares à medida que se afasta e embrenha direito a sabe-se lá onde.

Certo é que quanto mais aumenta a nossa descrença no Sagrado, quanto mais ao descrédito o votamos, ou seja, quanto menos importância lhe damos, mais aumenta a importância que damos a bugigangas e próteses existenciais que fabricamos, e, inerentemente, mais se agiganta a crença que para elas transferimos. No fundo, tanto quanto uma perversão na hierarquia de valores, é uma inversão que se instaura e, gradualmente, nos vai absorvendo: o novo sobrepõe-se ao original, o produto ao produtor, o medíocre ao sublime. De espaço de cultura, o mundo converte-se assim em mero palco da profanação. Desligado do cosmos, oscila, perigosa e maquinalmente, entre a incubadora artificial e o matadouro industrial.


PS: TPC: escrever quinhentas vezes no quadro "quando o Dragão diz Deus não é forçoso que signifique um deus confinado a determinado ritual religioso".

Caecus autem si caeco ducatum praestet, ambo in foveam cadunt





Estimado António,

Convidei-o a vir na minha direcção, mas já vi que teima e porfia em dirigir-se, por via rectilínea, à Austrália. Os meus cumprimentos aos cangurus e aos frágeis coalas que por lá surpreenda!
Apenas vislumbro um contratempo: à velocidade a que escava, debruçar-me já não basta; falar-lhe já não o alcança. Terei então que socorrer-me de outros mecanismos e equipamentos, eventualmente de emergência. Rogo-lhe que não desespere, mantenha a calma e aguarde confiante. Estou neste momento bastante ocupado com afazeres dos quais depende a côdea da mulher e filhos, mas, assim que possa, voltarei com o megafone e a cana de pesca - daquelas de alto mar, com carrilhão reforçado, linha de aço e anzol espaçoso. Fique tranquilo: enquanto me restarem forças, mão desistirei de pescá-lo daí!

Entretanto, pareceu-me ouvir gritar-lhe qualquer coisa bizarra como:
-"Vá Deus, fica aí fora, sossegadinho, enquanto nós nos entretemos aqui a brincar à roleta russa!..."
Mas deve ser má audição minha. Não obstante, fico angustiado. E se não for? Então, nesse caso, vocês quem? Quantos são, afinal? Então não está aí sozinho? Foi atrás de quem ou levou quem atrás de si? Homem, veja se comunica, nem que seja por tan-tans telúricos, ou morse cavernícola. É que se assim for, uma cana não chega. Tenho que trazer um guincho de traineira. Um guincho e uma rede.

domingo, janeiro 16, 2011

In camera caritatis

Se partirmos do pressuposto de que o homem - a humanidade - é uma construção estritamente humana, adicionado necessariamente ao pressuposto de que o poder é uma construção estritamente política, então o caro António poderá, de algum modo, ou por alguma via mais ou menos imaginativa, chegar à tese de que o "poder é uma construção estritamente humana".
Porém, como nenhum desses pressupostos se verifica na realidade, ou seja, nem a humanidade é uma construção estritamente humana nem o poder é obra - objecto ou exercício - estritos da política, então somos forçados a concluir que Vª Excª elaborou positivamente nas nuvens (esperemos que nenhuma delas se encontrasse no período fértil). Tomou, desse modo, a Liliput donde partiu pelo Mundo (e já nem falo no Cosmos) onde pretendeu chegar.
Louvo-lhe a forma, o humor (e, inerentemente, a inteligência), mas não o conteúdo, por completa ausência de rigor neste. A questão parece-me bem mais séria que o mero fogo de artifício, pelo que, por enquanto, fica dispensado do meu. E porque suspeito que, ao contrário de teoria, o cristianismo é acção, entenda isto como uma mão fraterna para ajudá-lo a sair do buraco - valente buraco, convenhamos - onde se despenhou.

PS: Há, depois, toda uma vasta série de reducionismos (não sei se de conveniência) subsequentes que, em devido tempo, terei a gentileza de lhe apontar. Mas fiquemo-nos, por agora, pelos fundamentos. Um edifício nunca pode ser uma mera justificação para um telhado pré-fabricado. Poderá funcionar na religião, mas na filosofia não (passe o poema).


sábado, janeiro 15, 2011

A mentefacção e a mentecaptura (rep)

Imaginemos agora que o Ministério da Educação era tripulado por pessoas sérias e competentes; imaginemos ainda que todos os professores eram excelentes e todos os programas magníficos. Eis a máquina ideal? Quereria isto dizer que teríamos perfeitos enchidos à saída?
Desçamos à realidade, se os caros avestruzes não se importam.
Dum lado, em representação da máquina de ensino, o senhor professor recomenda aos alunos que se abstenham ou moderem no uso convulsivo do telemóvel (por piedade, só falarei deste onto-gadget); do outro, incontáveis canais de televisão, produtores e argumentistas de telenovela, agitadores publicitários aos gritos instigam, instilam e trabalham em permanência - na memória, no subconsciente, na gana, no puré caleidoscópico que faz as vezes de mente do mamífero estudante - imperativos categóricos do estilo: "telefona!, joga!, comunica!, troca mensagens!, concorre!, fotografa!, aproveita!, ganha!, não percas esta oportunidade!, tecla!, retecla!, prime!, consome!, gasta!, compra!, chateia o teu pai!, ensina o teu pai!, fala já à tua namorada!, palra!, grulha!, trina!, gargareja!, mostra o teu temóvel!, passeia o teu telemóvel!, alimenta o teu telemóvel!, pilota o teu telemóvel!, muda o toque do teu telemóvel!, toca píveas no telemóvel!", etc, etc, etc. Pois bem, ó caras aves corredoras, o que é que acham que vai prevalecer? O apelo à contenção, à disciplina do mestre-escola, ou o mandamento ao frenesim epiléptico, ao ceva-bofe dos tele-mestres? Não é elucidativo, a esse respeito, o tal vídeo?...
Abram os olhos, ó cavernícolas. Larguem a droga, amiguinhos! Há um problema muito maior do que a máquina de ensino funcionar mal: é o haver uma máquina de desensino, de deformação e de perversão a funcionar às mil maravilhas. Com total impunidade, tranquilidade, ubiquidade e ininterrupção; mais a bênção completa das autoridades e o enlevo pacóvio e macacóide dos cidadãos. Uma locomotiva que desensina não apenas os filhos, mas também os pais; não apenas os governados, mas também os governantes; não apenas os alunos, mas também os professores. De que adianta mandar uma equipa de pedreiros levantar uma casa, oito horas ao dia, e, ao mesmo tempo, ter um buldózer dia e noite a escavacá-la? Como entulho artístico, como heteroclise, como absurdo, até poderá ter o seu fascínio, não discuto; mas como civilização, garanto-vos, é o suicídio colectivo. Ninguém precisa de nos atacar. Basta-lhes ficar à espera.
Para mais, o máquina da deformação certifica da duplicação obtusa da nossa fogosa irresponsabilidade. Quer dizer, somos irresponsáveis não apenas na medida em que nos recusamos fervorosamente a assumir as nossas próprias responsabilidades, como, mais grave ainda, na crónica obstinação cega em não atribuí-las aos seus reais e merecidos autores. Enfim, somos duplos irresponsáveis porque não nos responsabilizamos nem responsabilizamos os verdadeiros responsáveis.
Bradamos contra a qualidade das mentefacções e das mentefacturas, fingindo não ver toda a mentecapção que funciona, preside e está por detrás. Barafustamos e remodelamos a fachada, sem querer mexer no entulho e no lixo que se acumula lá dentro. E pingamos, languidamente, lágrimas de crocodilo mal morto em olhos de carneiro mal vivo porque as estúpidas das criancinhas, patrocinadas pelos pais e abençoados pelos burrocratas da salsicharia, no fundo, em vez de obedecerem às formidáveis pedagogias e às vetustas tradições, obedecem ao marketing.

PS: O que eu aqui disse, algures em 2008, acerca da educação é plenamente extensível em relação à generalidade da economia e, sobretudo, da poupança/crédito.
Tanto quanto os políticos, deviam ser os publicitários a pagar o défice.

Dragão nas sete quintas



Hoje, estou, de ferro de soldar em riste, a trocar os pickups à minha Telecaster. Acabo de receber os Dimarzio Twang King e não descanso enquanto não os experimentar, na minha sempre eterna demanda do sublime. A generalidade dos meus leitores não perceberá patavina destes esoterismos, mas há um que entenderá. A esse, aqui deixo o meu repto: José, velho amigo, rói-te de inveja!...
Como diria Tertuliano, se não me falha a memória, "este mundo será uma vale de lágrimas, mas chora-se cá tão bem..."

Da impiedade


"Sobre as falésias de Mármore" é um livro sobre as tiranias e, diz-se, o próprio Jünger semi-confessou, uma alegoria sobre uma delas em especial. O Couteiro-Mor representará Hitler. Mas não apenas Hitler. O mármore, recordo, ornamenta, geralmente, o interior dos palácios. E, da Roma clássica à Berlim do III REich, sua tardia emulação, por obra e graça de Speer, seria a pedra dominante dos corredores e salas do Poder. Estar então "sobre as falésias de mármore" poderia traduzir-se como "estar à beira do abismo". Os grandes escritores são grandes profetas, pois.
Mas o mais curioso de tudo é que na floresta sombria e tenebrosa onde o Couteiro-Mor habita, não reina a irracionalidade ou o mero "biologismo animalesco". Não, bem pelo contrário: impera uma racionalidade árida, fria, sem coração. Uma lógica impiedosa, em suma. Ou, na terminologia uma vez mais Jungeriana, um "certo automatismo".
Não era a irracionalidade que presidia ao Nazismo, nem, tão pouco, ao Comunismo; como não é a irracionalidade nem a mera biologia que comanda o malignismo que , presentemente, avassala o globo. E este bem mais perigoso, porque efectivo, actuante e mascarado de amiguinho dos povos e culturas. Artimanha antiga, convenhamos; esta, a do mal se camuflar cinicamente de bem.
Que significa então tudo isto? Simples: que em matéria de poder, nas suas múltiplas estratégias e subterfúgios, há, de facto, todo um logos em acção. Em marcha. Ontem como hoje. Só que não é exactamente aquele que testemunha João.

E, já agora, a talhe de epílogo, sempre reconheço que quanto mais me debruço sobre a Segunda Guerra Mundial, mais suspeito que não houve ali qualquer conflito entre o Bem e o Mal. Houve apenas uma orgia íntima, um paroxismo - uma refinação, se preferirem - do segundo.


sexta-feira, janeiro 14, 2011

Da representação

«Discutimos infrutiferamente quase até ao nascer do dia. Não nos conseguimos entender através das palavras, mas os silêncios permitiram-nos ver claro em relação a muita coisa. Assim, antes da tomada de uma decisão, se reúnem os espíritos como médicos à cabeceira do enfermo. Um gostaria de recorrer à faca, outro quer poupar o doente, um terceiro preconiza a administração de medicamentos especiais. Que representam, porém, o juízo e a vontade dos homens, quando a perda já está inscrita nos astros? Mesmo assim, também os estados-maiores convocam o conselho de guerra antes das batalhas perdidas.»

- Ernst Jünger, "Sobre as Falésias de Mármore"

Não há muitos autores que mereçam ser lidos; há é poucos autores que merecem ser lidos muitas vezes.

À espera do God...?

Entretanto, continuo pacientemente à espera que, depois da visão rudimentar (sic), o Desfazedor me apresente o projecto um pouco mais aperfeiçoado.

Em todo o caso, se não vê melhor, o Desfazedor, não é certamente por falta de capacidade: é de vontade mesmo. E isso, às vezes, paga-se caro. "Às vezes", claro está é um um eufemismo. De "mais tarde ou mais cedo". Ou seja, sempre. Aqui falo de cátedra.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Nada de excepções, cavalheiros, nada de excepções!



Bem, os pensionistas, as criancinhas do abono, os desempregados, os precários dos recibos verdes (excepto os advogados, naturalmente), já contribuem generosamente para o capricho do défice. Então e os sem abrigo, esses privilegiados? Aguardo ansiosamente taxas vigorosas sobre estacionamento de papelões para pernoita, ou regime de recibos verdes para os digníssimos mitras da arrumação auto. Isto, ou há moralidade ou comemos todos... os pelintras.
Se os vendedores ambulantes pagam, como é que os fantasmas ambulantes andam isentos... hem?!!...

Mourinho à Presidência!

Ou então,pensando bem, ocorre-me uma ideia ainda melhor: convidem o Mourinho para a presidência. Com sorte, ainda aceita. De política não perceberá lá muito, mas percebe de futebol. Que, por estas bandas, consegue ser ligeiramente mais sério que a política. Por outro lado cumpre quesitos de um político elegível, conforme receitava Aristóteles: Já possui fortuna própria. Pelo que corremos menos riscos que faça como os outros e se aproveite do cargo para o mero enriquecimento pessoal. Ah, e já me esquecia duma outra vantagem deveras conveniente: tem coluna vertebral.

PS: E nem que fosse em part-time, não tenho dúvidas que faria melhor que qualquer uma das outras avantesmas.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Imodesta proposta

Como é que se distingue, à distância, o barro da bosta? Ao perto era fácil, eu sei: pelo aroma, especialmente em dia de calor. Mas ao longe também não é assim tão difícil: a bosta, ao contraŕio do barro, atrai enxame. Não os contei, aqui na blogosfeira, até porque tenho bem mais que fazer. Não obstante, pela chusma de insectos e respectivos zumbidos que congregam em comitiva, eu quase apostava no empate técnico entre o Cavaco e o Alegre. Esparta tinha dois reis. Esta coisa vagamente rectangular, que está nos antípodas de Esparta, bem que podia ter dois presidentes. Semestrais. Ou então um para de dia e outro para de noite. Ficavam os gnomozinhos todos felizes!...

terça-feira, janeiro 11, 2011

O Desígnio nacional

Nesta democracia modelo Hutchinson-Gilford, os portugueses, cada vez mais, congregam-se em torno de duas classes: os desvalidos, que têm que sair para o estrangeiros em busca desesperada de emprego; e os privilegiados, que vivem de trazer o estrangeiro cá para dentro.
Em tempos, como anedota absolutamente verídica contava-se que a Dívida externa do antigo Zaire era exactamente igual à fortuna pessoal do então presidente Mobutu. Algo parecido poderia contar-se acerca de Eduardo dos Santos. Ou de tantos outros caciques africanos.
Hoje, entre nós, infelizmente, um único nome não bastaria. São inúmeros - pandilha buliçosa e agenciadeira, onde se destacam alguns mamíferos mais empanturrados. Mas nas suas contas off-shore e off-record, ninguém duvide, repousa e procria vultuosa percentagem dos fundos europeus derramados durante os últimos anos neste país. Coados e abarbatados pelas mais diversas vias e manigâncias, sobretudo através de comissões, luvas e esquemas de formação, subsídio e fomento, amontoam-se a levedar píncaros astronómicos. Não sei se equivalem ao grosso da tal Dívida Soberana, não sei se o ultrapassam ou perseguem. Sei apenas que a Procuradoria Geral da República, se alguma república houvesse e alguma justiça a habitasse, devia literalmente engavetar a generalidade dos corpos responsáveis do PS e PSD, nestas últimas décadas, e espremê-los, o mais brutalmente possível, até ao último tostão da dívida. Poupava-se a recessão de quase todos, a miséria de milhões e cumprir-se-ia, na perfeição e na realidade, um dos desígnios tão ao gosto de certas retóricas meramente verbosas: o do consumidor/pagador. Eles que consumiram. eles que paguem!

segunda-feira, janeiro 10, 2011

À falta de cadeira...

Num ápice, esta coisa importantíssima das eleições presidenciuis, viu-se eclipsada nas pantalhas da nacinha por um assunto -aliás, presunto - bem mais interessante e, sobretudo, apetitoso para o pagode indígena: a tragédia... a hecatombe que, abrupta, atroz e a golpes indelicados, se abateu sobre esse enorme vulto das artes e da cultura nacinhais - um tal Carlos Não Sei Quê. Pessoa sensível, frágil e -nas palavras dessa outra lenda semi-viva da cultura lusitoina, a clarividente Lili Caraças, ou Conaças, ou Canecas, ou lá como é - esteta empedernido dos quatro costados (autêntico Oscar Wilde do Namibe, não nos custa acreditar), o infeliz terá encontrado a morte em circunstâncias deveras infaustas, além de rocambolescas. Parece que se entregava, de alma e cu...ração, à conversão dum jovem heterossexual, engodado por passerelles olímpicas ao módico saldo de capris mundanos. Algo, porém, por entre lingeries e apetrechos, terá corrido mal ao intrépido domador. Alguma fantasia ou carícia mais atrevida na fera, quiçá... O certo é que, o instinto arreigado superou a afeição mal besuntada. A homofobia, essa clamidade do nosso tempo, falou mais alto. Paz à sua carcaça, já que da alma descria.
Resta acrescentar que soube eu deste lúgubre folhetim pelo meu sócio e compadre Ildefonso Caguinchas. Sentado à mesa dumas cadelinhas e bem embalado para uma cadelona, de Correio da Manhã à ilharga, principiou por comunicar-mo nestes termos idiossincráticos e, por conseguinte, pouco recomendáveis:
- Dragão, já me vistes isto?!... Estes chavalos depilados vão de mal a pior. Totós completos, pá; verdadeiras abéculas! Então não diz aqui que o puto arreou com o portátil nos cornos do velho roto... 'Tou-te a dizer, meu, o portátil. Mas lembra ao Gregório? Nem ao Hilário! Então o gajo não tinha ali uma cadeira ao alcance?!!..."

O que é que se responde a um gorila destes?

Bem, lá me desenrasquei o melhor que pude:
-"Ouve, Caguinchas, aquilo era pouso de luxo com certeza. Só tinha maples e poltronas. Dificílimos de arremessar, acredita. E o que se passou, na volta, foi que o panasca sénior deve ter apanhado o aprendiz a ver gajas na net. Desatou a galinhar ameaças e cenas de ciúme aos gritos, e o puto, que já devia andar com os nervos em franja, passou-se. Deu-lhe com o que tinha mais à mão. Neste caso, o rato. Só que, sem querer, o computador foi atrás. "

PS: É no rescaldo de episódios destes que Rousseau me parece louvável. Os únicos, aliás.

domingo, janeiro 09, 2011

Under-core Primeiro Escalão




“Se Cavaco foi beneficiado por ser amigo ( é um modo de dizer porque agora diz que não é…) de Oliveira Costa e Dias Loureiro e outros que por lá andavam a questão ganha relevo, mesmo que nessa altura andasse apenas a ganhar para a reforma do ensino ou do banco de Portugal.”
- Comentador José.

«José,
Ora, aqui é um erro em que todos laboram. O Cavaco não era reformado do Banco de Portugal. Era quadro do banco de Portugal. Se incluirmos na análise a forma incompetente e quase voluntária de como o Banco de Portugal não fez o seu trabalho de supervisão, fica a dúvida: o Cavaco foi comprado para influenciar a não actuação de supervisão do Banco de Portugal?
É que há coisas curiosas. Parece que o Cavaco faz um contrato para se tornar accionista, garantindo um rendimento positivo, seja qual for a evolução do mercado financeiro. As cotadas, no mesmo sector, perderam valor no mesmo período em que as acções da SLN/BPN valorizaram 140%. Pode-se perguntar. E daí? A SLN pode ter aumentado os lucros então. Talvez. Mas já se sabe que parte dois lucros declarados pela SLN foram fictícios, escondidas perdas no BI e nas tais contas off-shore. Além disso, tudo indica, quem vendeu e comprou as acções a Cavaco foi a sociedade de controlo do BPN, que diga-se de passagem, era o mesmo grupo. Ainda não entendi porque se separa a SLN do BPN, quando em termos legais está correcto mas em termos funcionais a SLN e o BPN eram uma e mesma coisa. Até as administrações eram quase as mesmas.
O que também é engraçado é isto. Em 2001 Cavaco torna-se accionista da SLN/BPN, mais ou menos por alturas da entrada no capital da SLN do Dias Loureiro. Este, por acaso, foi acusado pelo principal responsável da supervisão do Banco de Portugal de o ter pressionado para deixar em paz o BPN, pois aquilo era tudo gente séria. Ou boa, já não me lembro. E, o que é certo, o Banco de Portugal, aparentemente, apenas se mexe nas investigações à gestão do BPN após a reforma do Cavaco do Banco de Portugal. Curiosa coincidência? Talvez.
Certo é que, mesmo com perguntas incómodas da PGR ao Banco de Portugal sobre alguns factos no BPN, o Banco de Portugal pouco se mexeu e, até, fez uma coisa curiosa: andou 3 anos a empurrar o problema com a barriga, quando no próprio BDP já havia mais que suspeitas de má gestão do BPN.

Cavaco Silva não pode invocar desconhecimento do que se passava na gestão da SLN/BPN, até porque o seu próprio amigo Dias Loureiro, nas palavras deste, foi ao Parlamento dizer que ele sabia dos rumores existentes sobre o BPN e que até foi ao Banco de Portugal pedir uma atenção especial con o BPN, com a desculpa que teria todo o seu património investido na SLN/BPN. Será que Cavaco Silva, funcionário do Banco de Portugal, amigo de longa data e de peito de Dias Louereio, não sabia do que se passava no BPN? Duvido.
E, talvez seja por isso, que o Cavaco não quer admitir que a compra e venda das acções da SLN/BPN foi uma decisão de sua iniciativa e não investimentos delegados em terceiro.
Penso que, face a esta flagrante suspeita de corrupção (ou compra de influências, ou o que se queira chamar), tantos fechem os olhos, só porque o personagem é o sr. prof. Cavaco Silva, a virgem impoluta.
Enfim, é triste que o fenómeno da corrupção só seja grave quando são os nossos adversários políticos que estão envolvidos.
E, como curiosidade, não faltam por aí candidatos a Abrantes. Infelizmente. Tudo se vende e se compra, não é verdade?»

- Comentador Anti-comuna (numa caixa de comentários perto de si).

Porque há coisas que não se podem deixar soterradas sob entulho e escombros. A verdade é uma delas. A principal, aliás, ainda há quem acredite.

PS: O Anti-comuna queixou-se em tempos de nunca ter merecido a minha atenção. Pois bem, aqui fica o reparo.

PS 2: E nunca é demais realçar, para os mais desatentos ou peregrinos, que nem o José, nem o Anti-comuna, nem eu somos aquilo a que se pode chamar, sequer por aproximação, pessoas de esquerda. E por eles não posso jurar, mas por mim sempre asseguro que abomino, mais que o bandido, o hipócrita; e pior que o lobo assumido, aquele que se camufla sob a pele do borrego manso.

sábado, janeiro 08, 2011

Espelho meu, espelho meu....




O escarcéu que para aí vai, por esta blogosfeira a fora, só por causa de mais uma eleicinha folclórica!... Não percebo tanta peixeirada por coisa tão pouca. Aliás, percebo, mas hoje sinto-me a transbordar de bonomia. No fundo, boys and girls, tanto noise para quê? Vamos, deixem-se de fitas. Façam lá as pazes e abracem-se em santa confraria, numa amena vernissage oxiúrica. Todos sabemos (pelo menos os que não se auto-lobotomizam fervorosamente) que, em matéria de virtude, a honestidade do Pufessor Cavaco é praticamente tirada a papel químico do patriotismo do Poeta Alegre.

O triunfo dos suínos



«Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas!»


As voltas que o léxico dá... Nada mais fascinante que assistir-lhe ao carrocel! Antigamente, tínhamos o Rei soberano. Depois, a reboque de ilumineiros e francesuras, transitámos para o Povo soberano. Agora, numa espécie de culminância lógica para tão cândida saga, desembocámos na Dívida Soberana. "Liberdade, igualdade e fraternidade", não era? Pois aí as tendes. Num progresso verdadeiramente inexorável. Para o abismo.
Porque é que a cavalgadura confunde a meta com a cenoura?

PS: Lembrem-se daquele versiculozinho onde reza assim: "Não podeis servir a Deus e a Mamon (o dinheiro)". Depois, reparem que tudo começou no dia em que um homenzinho decidiu que o Poder não vinha de Deus, mas emanava dele próprio. A seguir cada homenzinho extrapolou, não sem uma certa lógica intrínseca, que se um homenzinho podia ser Deus, todos eles podiam ser também. As engrenagens do Mundo, porém, são fatais: o Poder vem sempre de alguma parte. Se não do Alto e Sublime, então do baixo e desprezível. Se não conta a Palavra, passa a contar o número; se não sobrevale o Espírito, sobrevale a moeda. Daí o corolário actual: Não deves nada a Deus? Brilhante,pá! Deves tudo ao bancos. Pega, pois, nesse teu materialismozinho todo e refocila. Chafurda. Banha-te e afoga-te nele!...
Digno de pena? Porque serias tu digno de pena, se trocaste a tua Dignidade por patacos?!...

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Da liberdade

Na liberdade, não acredito. Porque não a vejo em parte nenhuma - e a de pensamento ainda mais irrisória e maltratada que a física. Como pode ser livre quem está condenado ao trabalho diário e incerto - e cada vez mais incerto, ó Deus meu! -para sobreviver? Como pode ser livre quem marcha pela existência às ordens das engrenagens despóticas dum relógio? E que diferença ser escravo da necessidade ou da ganância?

Quanto à liberdade de pensamento, pior um pouco. Quando o pensamento anda com a cabeça a prémio, perseguido por posses de xerifes e bandos de linchadores anónimos, que liberdade é que pode ter? A liberdade do acossado, se tanto. Do fora da lei. Na maior parte do tempo, para efeitos de pura maquilhagem, apregoa-se liberdade de pensamento onde nem sequer existe pensamento. Mas apenas ordem unida: de conceitos, de lógicas, de xaropadas, de supositâncias, de engodos. Quer dizer, primeiro esteriliza-se o terreno; depois concede-se liberdade de germinar à vontade. Disponibiliza-se a estrada toda a quem previamente se amputa das pernas próprias para andar.
A liberdade não passa dum negócio. Dos bufarinheiros de próteses.

Da Loucura

«A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma. »

Quem o escreveu foi Nietzsche. Falta talvez acrescentar, por via da experiência acrescida que vamos tendo, que piora com o andar da carruagem, ou seja, do relógio. Há realmente um Progresso inexorável nesta humanidade cada vez mais desumana onde viemos dar: o da loucura.
O corolário de Maquiavel já espreitava no prelúdio: os meios não se limpam apenas nos fins: fabricam-nos.

Serve para meditarmos todos. Enquanto me espreguiço e desentorpeço as asinhas.

terça-feira, janeiro 04, 2011

O Oitavo dia da Criacinha ou o Despertar do Trágico



«Concluída, no sétimo dia, toda a obra que havia feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado».
- Génesis, 2, 2.


Ora, se Deus repousou no sétimo dia, o Dragão, na senda de tão elevado paradigma, decidiu sornar no sétimo ano. Período de ociosidade, esse, que se completou algures no mês transacto.Não rejubilem, porém, os inimigos, nem desesperem, tão pouco, os amigos: o Labaredas-mor do reino está de saúde e recomenda-se. Motivo para bordoada da grossa é o que não falta por aí. Todos os dias é um cogumelar e repolhar de mediocridade e sacanetice que só visto! Pelo que, após merecida pausa e justíssima folga, cá estou eu de novo, pronto e revigorado para acudir ao pífio cortejo com a tomatada copiosa que ele merece.

quinta-feira, outubro 28, 2010

(R)evoluções


Acreditam hoje nos médicos como dantes acreditavam nos padres. Já os economistas não substituíram porque competem ainda, esforçadamente, pela psico-hegemonia das massas: com os astrólogos, quiromantes e outras bruxelências congéneres. Em clara desvantagem, reconheça-se.
Não tarda muito, estou mesmo em crer, o espírito perplexo da população interroga-se se não seria bem menos pernicioso à administração pública e ao futuro da nacinha ter o Professor Karamba ou o catedrático (e Grande Astrólogo) Mamadu no lugar, respectivamente, do Professor Cavaco ou do professor Teixeira. E da interrogação à constatação vai geralmente um passo de formiga.


PS: Aliás, para um regime em estado de disfunção eréctil crónica, o professor Karamba apresenta uma série de mais valias nada menosprezáveis. O único problema é que o regime, e o país por arrasto, padecem duma disfunção agravada e complexa: não é apenas a gaita que não levantam. Pior: é a coluna vertebral.



terça-feira, outubro 26, 2010

Presidente Gás

Especialmente dedicado àquela coisa gelatinosa que se recandidatou hoje. Todavia, mais qualificado - e osmótico! - que aquilo, para presidir à bandalheira instituída, dificilmente se encontrará. Teríamos que rebuscar, com toda a certeza, entre os antecessores.


terça-feira, outubro 05, 2010

Respútrida


VIVA O REI!!


quarta-feira, julho 07, 2010

Artesanato versus indústria

«Bombas caseiras matam mais três soldados no Afeganistão»

Lendo parangonas deste jaez, podemos rapidamente deduzir que prossegue a bom ritmo a vetusta refrega entre o terrorismo artesanal e o industrial.

Detesto visceralmente muçulmanos e calvinistas. Os segundos enojam-me apenas bastante mais. E os de imitação, pior um pouco! Isto é como quem diz: são mais perigosos os falsos amigos que os declarados inimigos.

Bandoleiros de estrada ou de repartição

Neste país à beira-mar desplantado, o latrocínio infestador e cavalgante subdivide-se em dois ramos concorrentes: aquele que a polícia reprime e aquele que a polícia garante. Sendo compostos por operadores - regra geral - diferentes, partilham, todavia, duma mesmíssima entidade hospedeira: as vítimas.

quinta-feira, junho 10, 2010

Os Bastardos de Íxion

Não escolhemos a hora, nem o sítio, nem os progenitores. Nascemos, pura e simplesmente. Mais puro e simples, de resto, não existe. Acontecemos, assim, enquanto lugar - no tempo, na humanidade e na terra. Chamo Pátria a esse lugar, à síntese desse tríptico vital. A Pátria não se elege, não se compra, não se troca, nem, ainda menos, se vende: honra-se. Na medida em que se cumpre.
Dir-me-ão que o que não falta para aí é gente que vende a pátria, ou que a troca por outra mais gratificante e vantajosa. Gente dessa, aliás, se é que gente se pode chamar, foi mesmo o que nunca faltou por estas bandas. Por estas e por outras - por todas as bandas de todos os tempos. Todavia, todo esse comércio não passa de vão simulacro, contrabando de pechisbeque e contrafacção. Não pode vender quem não tem; como, tão pouco, se pode comprar aquilo que não se adquire por transacção monetária. Dupla e recíproca vigarice, portanto. Mútuo embuste. Mercado do vácuo.
Não somos livres quando o preço da nossa emancipação consiste na escravidão e na prostituição da nossa própria mãe. Quem assim pensa, compreende-se: é filho de puta nem sequer real . A nuvem que Íxion tomou por amante, tomam eles, agora, por mãe. Pobre Nefele! Sobrignóbil sina na velhice: depois de parir semi-cavalos, ver-se na contingência de dar à luz asnos completos!...

quarta-feira, junho 09, 2010

Olex sed Lex

De modo a tranquilizar alguns adivinhadores mais visionários, entre os quais o meu sócio e compadre Ildefonso Caguinchas - que já para aqui anda em palpites descabelados e alvitres alucinantes -, convém esclarecer duma vez por todas a identidade do autor do segundo trecho. Pois, senhoras e senhores, não é Calvino, não é Darwin, nem é Jesus, o Jorge, tão pouco (ouviste bem, ó Ildefonso?!!) . Não, é mesmo Adolph Hitler. Na sua, dele, "Mein Kampf". Algures, no capítulo II.
Comentários para quê? Vem-me à memória aquele velho anúncio do Restaurador Olex. Pois é, "pretos de cabeleira loura ou brancos de carapinha"... Que também podíamos actualizar para "arianos kosher ou marranos hitlerozados".
No fundo, nem é para levar a sério. Não passa dum mero penteado. Mental.


domingo, junho 06, 2010

Doutor Estranho-Amor




Descubra as diferenças:

a)

b)
«Quando a raça corre o perigo de ser oprimida ou eliminada, a questão da legalidade passa para segundo plano. Em tal caso pouco importa que o poder dominante use meios legais; o instinto de conservação dos oprimidos justificará sempre a luta que usa todos os recursos.
Neste mundo, todas as lutas pela libertação da escravidão interna e externa e de que as história nos mostra exemplos prodigiosos, foram travadas com base nesse princípio.
O direito dos homens está acima do direito do Estado.
Se um povo sucumbe na luta pelos seus direitos humanos é porque ao ser pesado na balança do destino foi considerado demasiado fraco para ter direito à vida. Quem não está disposto ou não é capaz de lutar pela existência, é porque a Providência eternamente justa o predestinou a desaparecer.
O mundo não se fez para povos cobardes.»

Já agora, aproveite a embalagem e, ironia das ironias, adivinhe quem escreveu o segundo trecho. Não é difícil.


quinta-feira, junho 03, 2010

A merda não morre

Dizem que morreu o Coutinho
Coitadinho
Do vendedor.
Pois ei-lo que enfim jaz
A adubar pasto, a criar erva.
a nutrir siamesa caterva
Que o digere em paz!...
Já não destila ódios
Nem liberta vícios
Apenas gás.

Rejubila a goela obscura
Na antevisão do banquete.
A terra, porém, abomina o frete:
títere com alma de serradura.

Morreu, o Coutinho?
Foi apenas ter com o paizinho
Dele e da sempiterna selva
Que nos burila e perfaz.
Aqueles que o diabo traz
O diabo leva.

O papá que agora o ature
O cure,
O curta, laureie e recicle
O passevite, o asse, o torre!
Condecorado a escarro, ungido a manguito
Morreu, dizeis? Não acredito.
A merda não morre.

quarta-feira, junho 02, 2010

O lema constitutivo do Estado de Israel:

«Quero, posso e mato».


Já quanto ao Cogito judaico é todo um programa ancestral que vai do "minto, logo existo" ao "mato, logo existo".

Enfim, coisas dum país a prazo.

domingo, maio 30, 2010

Maiêutica democrática

De Inglaterra, o berço da para-lamentação que nos desalumia e do liberdadeirismo que nos transvaza, arriba-nos mais uma história de austera e edificante moral.
Ministro pagou quarto de namorado com dinheiro do Estado.

Ou de como na espécie humana, à medida que se atrofiam os olhos da cara (por míngua, entre outras coisas, da vergonha que nela mora ausente), mais decreta e exorbita o olho do cu.

Entretanto, no Malawi fica a prova: afinal, há uma globalização que, apesar das crises (reais e imaginárias), até vai de vento em popa - a da gayzice. Mais uma vez, a lógica imaculada rege: à medida que a malha em redor do estômago e da mioleira, à escala mundial, se estreita e aperta, o freio ao olho do cu - e respectivos derivados e constelações - relaxa-se. Ou de como as comunidades locais e nacionais concretas cedem cada vez mais as rédeas a uma comunidade fictícia, inefável que ninguém sabe realmente o que seja ou quem represente: a "Comunidade Internacional".

Já entre nós, à conta de idênticos folclores, o Príncipe (retrosculado pelo lobi, presumo) transformou-se em sapo. Ou, dito por outras metáforas, a república pariu um rato.

Bom dia. O meu nome é César Augusto Dragão. Estou a ficar realmente zangado. A demolição segue dentro de momentos.

domingo, maio 09, 2010

A Natureza da Civilização (rep)


I

A vitalidade e a grandeza duma civilização, qualquer que ela seja, medem-se pela sua intolerência. Intolerância ao homicídio, ao roubo, ao incesto, à corrupção, à cobardia, à mentira, à injustiça, etc, etc. Intolerância ainda, e especialmente, à escravatura e colonização por outra cultura. Quando as civilizações começam a ser sobremaneira tolerantes não significa que são mais fulgurantes e avançadas: significa apenas que entraram em declínio e que se aproximam fatalmente da extinção. A intolerância, fundada em leis, mitos, princípios, história comum e tradições, funciona para a civilização como as defesas do organismo para o indivíduo: quanto menos tolerantes forem aos vírus e bactérias infecciosos e quanto menos indulgentes forem para com as tendências venais do próprio, mais saudável será o conjunto. No dia em que as defesas começam a confraternizar com os bacilos, a tratá-los com toda a deferência, a recebê-los em festa, sabemos o que acontece. Ou chegou a velhice, anunciando a morte; ou chegou a doença, anunciando a febre, o delírio, a náusea e o tratamento de urgência. A corrida aos médicos e remédios.
Intolerância não significa repressão. Ao contrário da manhosice freudiana que equipara civilização a repressão, a intolerância, enquanto cimento civilizacional, significa, outrossim, que a civilização é um sistema de continências, de refreamentos espontaneamente cultivados, ou seja, aprendidos, transmitidos e guardados por todos. Civilizado é aquele que honra a civilização a que pertence.
É à medida que decaem, que declinam, que perdem o vigor, que as civilizações se tornam tolerantes e, em simultâneo, repressivas. Perdido o equilíbrio, tornam-se excêntricas e caem no excesso. Aquilo que deixou de ser guardado e cultivado por todos, passa a ser policiado e imposto brutalmente por alguns. O destino último, após rixas, zaragatas e corrupções, será a desagregação.
A civilização grega era intolerante, tal qual a civilização cristã foi intolerante. No entanto, foi no auge da tolerância que Atenas condenou Sócrates à cicuta e a Santa Madre Igreja largou os cães da inquisição. Farmacon, elucidativamente, no grego original, significa "remédio" e "veneno". A corrida ao remédio, no caso das civilizações, é sempre um acto de desespero tardio. E tanto quanto a luta, anuncia o estertor.

II

Dragão menino, houve uma época em que me dediquei à colecção de pássaros. Pintassilgos, verdilhões, bicos-de-lacre, capturava-os em armadilhas de visgo e engaiolava-os durante uma temporada. Pardais, piscos, carriças, felosas era escusado. Ao contrário dos anteriores, não se aguentavam na prisão. Enmurchesciam, não comiam nem bebiam, por mais insectos ou incentivos que eu lhes desse, feneciam e morriam a breve trecho. Deixavam-se morrer, melhor dizendo. Antes a morte que tal sorte, deviam eles pensar. E, no meu modesto entender, hoje que penso nisso, pensavam bem.
Descobri assim que havia aves tolerantes e aves intolerantes ao cativeiro. As granívoras adaptavam-se com relativa facilidade, as insectívoras nem por sombras. As intolerantes eram as que tinham mais amor à liberdade. Não a uma liberdade qualquer, conceptual, inefável, retórica, mas uma realidade concreta, vital, irredutível: a sua.
Da mesma forma, apenas em palco diverso, quando os labregos caras-pálidas à conquista da Terra prometida deram com os Sioux e lhes infernizaram a vida, descobriram rapidamente que os pele-vermelhas não se aguentavam em cativeiro nem, pior ainda, serviam para trabalhar. Os índios, diabos os levassem, eram completamente intolerantes ao trabalho e à escravatura. Foi então que os colonos começaram a importar africanos, peles-escuras exóticos que, ao contrário dos pele-vermelhas residentes, eram duma tolerância magnífica à canga e ao chicote.
Uma tolerância semelhante, se bem que encoberta e edulcorada com balelas do Santo Mercado, é o que se procura e promove com a mão-de-obra emigrante destes nossos dias. É essa a tolerância-mor que se destila sob o adestramento frenético e obsessivo em todas as outras tolerâncias.
O mais engraçado disto tudo é que tinha mais civilização na unha dum pé um Sioux que qualquer um daqueles babuínos protestantes por todo ele todo abaixo. No entanto, acabaram com a civilização dos Sioux. E depois vieram acabar com a nossa. É nisso que andam.
Houve civilizações que caíram às mãos de bárbaros. A nossa, desgraçada maior, está a finar-se às patas de macacos engravatados.

sábado, maio 01, 2010

Consenso

Segundo pude perceber, chegou-se a um consenso maravilhoso entre o desgoverno internacional e o desgoverno nacional acerca da coisa, ou crise ou lá como a pintam: temos desempregados a mais e sem-abrigos a menos.

domingo, abril 25, 2010

República dos Pinóquios





Em matéria de mentira, senhores
somos um povo culto, avançado...
Os outros dedicam-lhe um dia, o primeiro;
nós, para melhor diluir o feriado,
consagramos-lhe o mês inteiro.

Abril da treta, da tanga, do arroto
a criar pança, papada e cu fofo;
Não cheira a rosas, cheira a esgoto
não cheira a cravos, cheira a mofo.

Porque a verdade, senhores
analfabetos doutores,
é que faz hoje não sei quantos anos
que tombaram senis modernos
sob um surto de jovens bolores.

E quanto às portas que Abril abriu
mais as auto-estradas, rotundas e bermas,
melhor fora que nunca tivesse aberto as pernas
a grande e republicana puta que os pariu!

quinta-feira, abril 22, 2010

De bradar!

Bem, a ser ofensivo - injurioso, até! -, o tal enunciado do exame, só se for mesmo para os animais vertebrados e para os defensores (quiçá fanatizados, como é o meu caso) da poligamia. De facto, colocar-nos ao mesmo nível do casamento entre invertebrados, vulgo gayos, parece-me digno de escândalo e celestial brado. Parece-me, não: tenho a certeza!...
Entre um homem ( ou mesmo entre um cão ou um cavalo) e uma anémona gelatinosa ainda vai uma certa diferença. Mesmo nos dias de hoje, que diabo!...

segunda-feira, abril 19, 2010

Os do costume

O meu primo da Islândia só é responsável por enviar cinzas e labaredas para a atmosfera. Pelo envio de alarmismos seguranceiros, interdições histéricas e aero-preservativos, os responsáveis são outros. Os do costume.
Adivinhem quem vai lucrar com o vulcão...

domingo, abril 18, 2010

Álbum de Família



O meu primo da Islândia.


sexta-feira, abril 16, 2010

Con-gestões

"Gestores são dos que «mais impostos pagam em Portugal»"...

Pois, mais que eles só mesmo os tipos que ganham o Euromilhões.

quinta-feira, abril 15, 2010

Filão mignon

Lapso tremendo, no postal anterior, do qual desde já me penitencio... Esqueci-me dos alcoólicos católicos, essa torre de menagem. Devem estar mesmo por aí a estoirar. Proclamando, em altos - se bem que fanhosos - brados, a bebedeira imarcescível e infernal como vacina milagrosa contra toda e qualquer tentação pedófila.

A substância do substantivo

Evadidos do armário de sacristia onde criavam bolores e outros fungos, galvanizados pela hóstia-supositório e vários outros elixires e óleos modernaços, os homossexuais católicos saem em defesa da classe (sim, porque essencial é o olho do cu, a alma é mero acessório) e barafustam contra o Cardeal homofóbico e, de caminho, contra o hediondo celibato dos padres.
Já todos percebemos que o ideal, para toda esta gente culta, sensível, sofisticada e fascinante, era os padres poderem casar uns com os outros. Assim, devidamente acasalados, protegidos das más línguas porque ultra-lambuzados pelas boas, podiam adoptar as criancinhas que muito bem entendessem e ninguém tinha nada a ver com isso.
Em todo o caso, agora que os homossexuais católicos (uma delícia este casalinho substantivo/adjectivo, não me canso de admirar!) se manifestaram, o Papa e a hierarquia eclesiástica estão já todos, além de deslumbrados, reunidos certamente de emergência. Se a paciência é uma virtude, preparam-se para tomar de assalto a santidade. Depois dos homossexuais católicos, só já lhes falta escutar - calculo em que excruciante angústia e não menos gulosa ansiedade! - os carecas católicos, os proxenetas católicos, as putas católicas, os bestialistas católicos, os sado-masoquistas católicos, os satanistas católicos, os ateístas católicos, os calvinistas católicos, os darwinistas católicos, os comunistas católicos, os muçulmanos católicos e toda essa súbita catolicidade aos molhos, às dúzias e aos saltos, que, afinal de contas, palpita, recheia e avassala o mundo.


terça-feira, abril 13, 2010

Não trabalharão!

«Ministra garante que desempregados não vão trabalhar de graça».

E podemos bem crer que não. Nem de graça, nem pagos, nem de maneira nenhuma. Desempregado, neste país, para subir, de profissional só a vitalício.

PS: Ou a emigrante, claro. Mas isso já não é "neste país", pois não?...

domingo, abril 11, 2010

Ossos do ofídio

A pedofilia é uma coisa simplesmente abjecta, excepto, dizem os cidadãos modernos, evoluídos , sensíveis e fascinantes, quando praticada por artistas, passando a chamar-se pederastia e sendo, então, uma coisa bestialmente catita e chique. Ou, ainda, quando reivindicada por barbies gays em ânsias casamenteiras, passando então a catalogar-se sob o epíteto de "adopção de crianças" e transformando-se, instantaneamente, em algo não apenas pungente como também sublime, santo e ultra-prioritário para a civilização.
Eu, todavia, que sou um tipo completamente anacrónico, reaccionário e obscurantista, considero a pedofilia algo de asqueroso, seja ela praticada por padres, poetas, filósofos, políticos ou onanistas colectivos particularmente exibicionistas e ruidosos. Em resumo: seja por quem for! E seja em que dia, mês ou ano for, desde a Antiguidade clássica ao Admirável Amanhã Novo. E não apenas física como mentalmente. E daqui não arredo pé!
Ora, parece que ultimamente se quer fazer crer que a pedofilia é um fenómeno essencialmente católico (além de muçulmano, como já todos estamos fartos de saber). Está-se mesmo a ver donde jorra a lama.
Todavia, se eu fosse católico, até era capaz de concordar. Responderia talvez qualquer coisa como:
"Sim, é capaz de ser uma coisa tipicamente católica, ó alminhas fofas e delicadas. E por três razões muito óbvias, simples e concomitantes: em primeiro lugar, porque decorre entre duas pessoas, um adulto e uma criança; em segundo, porque é aberrante; e em terceiro, porque, inerentemente, é traumatizante para a vítima.
Assim, facilmente se deduz que nem os protestantes, nem, tão pouco, os judeus correm quaisquer riscos de incorrerem na pedofilia. No primeiro caso, porque não decorre entre pessoas mas entre pastores e o respectivo gado, donde, a acontecer algo de equivalente, configurará simplesmente o bestialismo. Ninguém decerto perderá tempo a chamar pedófilo a um bimbo que, mal cevado na ovelhinha de estimação, adentre na bizarria de molestar o borrego incauto. Na mais extravagante das hipóteses, clamarão incesto; mas pedofilia, nunca. No segundo caso, porque a idade de maioridade entre os eleitos, como o Bar-mitzvah (não sei se é assim que se escreve, se não for, corrijam) atesta, é de 12 anos nas meninas e 13 nos rapazes. Pelo que, na maior parte dos casos, evita-se, com solércia e desembaraço característico, toda uma série de contrariedades e entraves tipicamente católicos. Sob o frondoso beneplácito da lei, a coisa mais depressa singrará nos mares dos comércio do que nos pântanos da perversão. Por fim, eis-nos perante o corolário sincronizado de ambas as tribos: visto não constituir aberração em qualquer dos casos, mas apenas capricho ou negócio; não é traumatizante porque não há vítima ou abuso, mas simplesmente piquenique aleivoso ou transacção carnal; sendo até, pelo contrário, deveras gratificante para o infantil protestante e, quase de certeza, bastante mais lucrativo para o seu modelo ancestral. Em suma, o que um católico, na sua mente tacanha e obsoleta, encara como desastre na vida às garras duma compulsão digna duma hiena, o protestante e o judeu, numa (respectivamente) inata e profissional harmonia entre a vaselina e a ganância, atestam e glorificam como vantajosa retro-propulsão. E mesmo quando, por via da rudeza boçal do pastor ou da brusquidão volumetuosa do talmudo, a lubrificância não decorre às mil maravilhas, encaram a prova com bonomia e espírito empresarial. São ossos... Ossos do ofídio."




Breviário Teológico - IV

Não é só o porco que Iahvé interdita à lambança dos hebreus. Também o coelho, a lebre e o faisão lhes ficam rigorosamente proibidos. Em compensação, podem refastelar-se à vontade com gafanhotos de toda a espécie, saltões, grilos e vários outros invertebrados substanciais e crocantes. Nunca agradeceremos o bastante aos judeus por nos terem livrado da eleição e do favoritismo duma divindade destas!

sábado, abril 10, 2010

Breviário Teológico - III

O que Iahvé - depois de falar às trevas e a uma série de fenómenos atmosféricos e geológicos decorrentes - disse a Adão foi uma coisa. O que a serpente disse a Eva e esta, depois, transmitiu a Adão parece que foi outra totalmente diferente, senão mesmo oposta. Extrapolar daqui que o pecado original foi, essencialmente, um pecado de gula parece-me um erro grosseiro. Não foi de gula, foi de tagarelice. Tivessem todos calado a puta da matraca e nada disto acontecia.
Agora que o único virtuoso do incidente - o único que, tirando chamar nomes aos animais, não abriu o bico nem, comprovadamente, meteu prego nem estopa em todo aquele proto-palramento inaugural - , resulte como principal castigado, afigura-se-me duma clamorosa injustiça.

Breviário Teológico - II

A prova de que o enredo do pecado original é uma coisa tipicamente hebraica pertence mais ao domínio da culinária do que propriamente da teologia. Aquilo, para um chinês, por exemplo, seria inconcebível. Entre a cobra e a maçã, o Adão chinês nem hesitava: comia a cobra.

sexta-feira, abril 09, 2010

Breviário Teológico - I

Sempre que penso naquele episódio bíblico inaugural, do Adão e Eva às dentadas à maçã, ocorrem-me ideias sombrias e chegam a revoltar-se-me os fígados. Como é que há ainda alguém, com os alqueires bem medidos, que ouse e teime fundamentar-se em tal alicerce para vir falar de portentos metafísicos como "omnisciência divina", "omniprevidência divina" e outros que tais?...É mesmo só falar à boca cheia sem nada dentro da boca!...
Pois se o tal Iahvé tivesse alguma dessas qualidades (eu já nem pedia tanto, contentava-me apenas com um pouco de bom senso e noções básicas de planeamento), em vez de delegar as insignes funções de Árvore do Conhecimento na estúpida da macieira, encarregava disso o coqueiro...
Sempre queria ver se a cabra da Eva e o alarve do Adão também mordiam aquilo!...
E os amargos de boca que não nos tinha poupado a nós!...

sexta-feira, abril 02, 2010

Do Calvário, da Vida e dos Homens


Cada vez me convenço mais que a Vida de Cristo constitui o paradigma profético da nossa própria vida, de homens...
Num dia, fazemos milagres, caminhamos sobre as águas, convidam-nos para almoços e jantares, acorrem basbaques de todos os lados para nos verem e mararavilhar-se. No outro, tudo se altera e distorce: como num caleidoscópio infernal, damos connosco de madeiro às costas, arquejando ao fundo duma encosta íngreme, ninguém nos conhece, todos nos cospem, e flagelam-nos por ali acima, até ao cume sangrento onde, por vil embirração, cismam de nos crucificar.
Meio estarrecidos, perplexos, perscrutamos o chão que parece agora fugir-nos e conspirar contra nós. Afinal, o mel foi só para afinar o paladar para o sabor do fel?!...
Meio atordoados, interrogamos, com desespero, o céu: "Vou ter que beber este cálice?..."
E o céu, dum azul imenso, misterioso, profundo, responde:
-"Vais!..."
E é nesta altura, para lá do terror e da esperança, que o homem, se tem um dragão dentro dele, contém as lágrimas, esquece as feridas, fita com desprezo a maralha e clama:
"Então brindemos: À Nossa!..."
À nossa: à indiferença do Céu e à dor na Terra.


Se eu tivesse que eleger o melhor postal dos mais de seis anos deste batel, sem hesitação escolheria este.

sábado, março 20, 2010

Cultura protestante, ou o estahvé policial recauchutado


O Pedro Arroja refere, e bem, uma « cultura da bufaria (que) não acredita que possa haver justiça que não seja praticada pelo povo e pelo seu Estado democrático.»

Nesta singular notícia podemos ver um exemplo típico dessa cultura em plena acção:
"Namorados barulhentos proibidos de fazer sexo"


Transportar-nos-ia igualmente a algumas considerações eventualmente mordazes sobre a tão cantada "liberdade de expressão". Quando alguém já nem na própria cama pode gemer à vontade, impossível não rir a bandeiras despregadas daquela balela tão ao gosto dos nossos liberdadeiros de plantão - exactamente: aquela onde salmodiam, com ranço garantido, que "a nossa liberdade termina onde a dos outros começa" (eles geralmente usam a fórmula "os limites da minha liberdade são a liberdade dos outros", mas vai dar ao mesmo).
A prazo, já não muito longínquo, a concretização prática duma sociedade regida por uma tão bela fórmula será qualquer coisa do ordem da fotografia em epígrafe. Um descanso. É só o tempo dos zombis abdicarem do seu estado - por enquanto - ambulatório.

sexta-feira, março 19, 2010

Para grandes males...

Sobre esta candente questão nacinhal do raper Snake abatido pelo agente Magoo, tenho uma importante declaração a fazer...
Distingo, por princípio, razões criminais de razões estéticas. Naturalmente, só as segundas me interessam (e, por conseguinte, me parecem relevantes). Assim, talvez o agente Magoo não tivesse razões criminais suficientes para abater a tiro, ainda que por negligência ou imperícia, o raper Snake. Todavia, já quanto aos motivos estéticos, tinha-os de monta e de sobra. E não apenas a tiro, como também, caso necessário, à granada e, por fim, à baioneta silenciosa.
Que as pessoas trafiquem droga, assaltem bancos ou vandalizem muros, ainda é como o outro: sempre é menos prejudicial à sociedade que ser deputado ao parlamento, alcaiote de autarquia ou administrador por nomeação política. Quer dizer, sempre sai mais barato e até permite vender jornais e animar tertúlias instantâneas na internet. Agora que se exerçam, reiterada e cruelmente, abusos, sevícias e torturas sobre a nobre arte da música, isso, meus senhores, queiram desculpar, mas não se admite. E muito menos se tolera. Só por isso, e apenas por isso, estátua e comenda ao agente Magoo! Menos um melocida, e um melopata a menos à flor do planeta.


quinta-feira, março 18, 2010

Fedor mortis

Se é certo que temos um Primeiro-Ministro verdadeiramente inenarrável, não é menos certo que isso já não nos deveria causar qualquer espécie de urticária ou espanto. Afinal, longe de constituir caso excepcional, súbita anomalia, antes estadeia uma regra recorrente, uma excrescência típica (que nem chega a epifenómeno) dessa fermentação catita a que os cómicos e afectados de serviço estimam de chamar regime democrático. Visto friamente, Sócrates, à sua maneira desajeitada de tosco mal envernizado, apenas comete aquilo que a impunidade e a rotina dos seus predecessores, tanto quanto a quadrupedia mental dum povo adestrado e embrutecido no alombar tanso de elites rasteiras e parasitárias, facilitam, lubrificam e promovem.
Quanto ao regime, sendo de alterne, não possibilita, todavia, qualquer espécie de alternativa, ou variação mínima. Os partidos sucedem-se, se tanto, nos úberes do erário público, mas não se distinguem. Os dois principais geminam-se e competem nas desqualificações. A haver um resquício de justiça ou mera lógica mais depressa alcatrariam as penitenciárias do que os parlamentos ou ministérios. Os restantes, à medida da vigarice e do capricho eleiçoeiro, lá pastam pelas manjedouras adjacentes, entre sindicatos, autarquias, academias, pasquins, redacções e lobis (dou de barato os blogues). Todos juntos, corporizam o cancro que vai minando e carcomendo o país, injustamente cognominad0 de partidocracia, porquanto é na verdade duma autêntica e retinta partidofagia que se trata.
Não estamos diante dum problema que aguarde solução, ou sequer perante uma nódoa à espera de remoção, como dizia o outro. Isto já não vai lá com matemáticas, nem existe benzina capaz de absterger tamanha quantidade de estrume encardido. A própria cor do tecido social há muito que desapareceu sob uma capa gordurenta de surro lustroso. Uma mancha negra e pestilenta que, aos poucos, tem coberto a educação, a cultura e a justiça. Não que elas já valessem grande coisa na véspera, mas decerto dispensariam todo este despenhamento num minhocário abaixo de cloaca.
Também gradualmente, este "pseudo-regime" da maioria soberana vai-se marimbando cada vez mais despudoradamente para essa maioria lorpa e meramente folclórica. O rincão vai ficando cada vez mais inóspito para os maioritários (ou normais portugueses) e cada vez mais aprazível para os minoritários (ou portugueses especiais). O importante agora é mimar as minorias. Apaparicá-las até à medula, ao esfíncter. Lamber e relamber até à exaustão. À náusea!... Mas sempre com volúpia espalhafatosa, exibicionista. E não são já apenas os ricalhaços, os plutocoisos e respectivos avatares. Dir-se-ia até que vagamos, espectralmente, num nazismo de patas para o ar. Os mesmos que outrora eram conduzidos ao campo de concentração, agora são levados em colo ao Olimpo. Não é só o crime que compensa: é sobretudo a aberração. E a cobardia, a histeria e a hipocrisia também.
O desígnio nacional? É bem evidente e há muito que se tornou realidade concreta. Deveio mesmo compulsão colectiva... Annilingus em toda a sua desapoteose! Annilingus ao poder e à força, seja em acto (ou governo), seja em potência (ou oposição), seja em superpotência ou infra a cavalo na super. Dispenso-me de enunciar os nomes destes mega-ídolos de toda uma caterva de línguas devotas e veneradoras. Assim como me poupo a desejar-lhes bom proveito, porque presumo que, no seu protozoário entender, o retiram às carradas e assim, na mais pimpona e gratificada das imundícies, se auto-gloriolam e justificam!

Enfim, não sei para que serve.
Mas tudo isto existe
tudo isto é triste
e nem chega a fado: apenas fede.


sexta-feira, março 12, 2010

A Estrada para Nenhures (rep)


Mas agora que a estrada, além de campa, palco, escritório, cabine e alcova, deveio também sala de parto dos cidadãos, começa finalmente a perceber-se a estratégia formidável que presidiu à adesão europeia e, sobretudo, à torrefacção abundante dos respectivos –e generosos – fundos estruturais. Afinal, toda esta boa gente que nos vem apascentando, quando desatou a asfaltar freneticamente, não estava apenas a governar-se, a orientar-se, a tratar do seu futuro e dos seus filhos: não, ó luz da conhecimento e da cência que nos iluminas!, estava também a governar-nos, a orientar-nos, a zelar pelo nosso. Benditos sejam, todos eles, os nossos guias preclaros! Com a genialidade própria - e só ao alcance duma raça de eleitos e predestinados! -, portanto, com dedo de mestre e mira de águia, delinearam a ampla avenida do nosso porvir radioso. Eles sabiam com exactidão, com rigor de regra e esquadro, qual a solução mágica para a chusma amotinada dos nossos problemas, qual a panaceia debelante da horda indisciplinada das nossas maleitas, qual o desígnio congregante da matula desordenada das nossas aspirações: era a estrada! Ah, a estrada... esse ovo, não já sòmente de Colombo, mas de Portugal inteiro. Essa cura assombrosa, não já e apenas do nosso calcanhar de Aquilino, mas do nosso pé de atleta amnésico. A estrada, ó deuses!, pista de corrida e de dança; lusodromo para a vida e para a matança! Nunca agradeceremos o bastante. Toda a paga será pouca. Daqui por duzentos anos, tal qual hoje se cita, com nostalgia, os pais fundadores da América, sereis relembrados, em êxtase, ó padrastos e enteados asfaltadores da nacinha.
O país zanzava pelos campos, aparvalhado, a tratar das verduras, ao ritmo do sino. Atrasado e obscuro, para ali estava, ancorado, sem ir a lado nenhum. Mas eles, possuídos de filantropia inaudita, colocaram-no na estrada. Já não havia mares para navegar, horizontes para rasgar? Havia a estrada. Os avoengos gloriosos foram de barco? Nós vamos de carro. De carro, de autocarro, de ambulância, à boleia, a reboque, a penates, seja lá como for, havemos de ir. Sempre pela estrada. Tudo pela estrada, nada contra a estrada. Onde a estrada leva é irrelevante. Chame-se-lhe “progresso”, “moda”, “globalização”, “maria joaquina”, idem aspas. O importante é estar nela. Engarrafá-la e bebê-la desde bebézinho. Inalá-la desde embrião. Absorvê-la até às fímbrias mais secretas da alminha desde os testículos paternos, ao ritmo trepidante de ralis, travagens e solavancos. É ela, santa, o nosso trunfo derradeiro, a nossa descoberta capital, o climáx da nossa esplendorosa aventura colectiva. A estrada, claro está, com toda a sua plêiade de avatares magníficos – a auto-estrada, a rotunda, o viaduto, a ponte, o túnel, o nó rodoviário e até o parque subterrâneo. Será com tudo isso, com todo esse fruto maduro de atelier e estaleiro, ninguém duvide, que superaremos e ridicularizaremos toda essa estranja sobranceira, a começar nos espanhóis hediondos e a acabar nos ingleses pedantes, espantalhos escarninhos, todos eles, do nosso destino avassalador. Porque a pedra - tremei ó escórias mundiais! -, a pedra filosofal temo-la nós. A pedra e não apenas a pedra: a gravilha, o saibro, a areia, o alcatrão também. Em suma, o asfalto filosofal é nosso. Simboliza o acesso culminante à profetizada idade de Ouro, que se aproxima a olhos vistos e a passos largos. A operação hermética entrou já em estágios para-sulfurosos implacáveis. Nada poderá detê-la. Bem pode a ONU espernear, a Nato estrebuchar ou o Lóbi sionista ameaçar excomunhão. Somos um rolo compressor e vamos a caminho.
Para toda essa gente bárbara, estulta, turbopacóvia, -deixem-nos rir! - a estrada é mero equipamento estrutural. Nós, porém, com mil anos de avanço, descobrimos que a estrada é a essência: a essência do país e do povo - a fusão sublime de ambos ao assalto do futuro. Para os ignaros das obras verdadeiramente públicas, cães infiéis todos eles, a estrada banaliza-se, servindo de mero tapete utilitário para o transporte entre a habitação e as funcionalidades económicas e sociais. Mas nós, que há muito voamos nela regularmente, sabemos que, bem mais que tapete utilitário, ela é tapete voador, trampolim para o Céu e arredores; portal de embarque astronáutico, não raramente. Lá está, senhores: enquanto eles se metem à estrada para ir a algum sítio banal das suas vidinhas programadas, nós, regalo vivo de Deus e dos anjos, metemo-nos nela para ir ao Céu e voltar (salvo a meia dúzia diária de excêntricos que por lá se instala, trocando o turismo pela colonização). Aliás, nem é correcto dizer-se que nos metemos nela: estamos nela. Vivemos nela. Cavalgamo-la com todas as nossas forças e paixões. Metemo-nos é, isso sim, se bem que cada vez mais esporadicamente, em casas, repartições, fábricas, estádios, escritórios, oficinas, escolas, etc... Mas apenas como meros intersticios dela. Intervalamos apenas para remuniciar as ganas e cevar os apetites. Todos esses equipamentos e mobiliários tão essenciais para os outros, servem-nos a nós como vagos pretextos para lá viver. Na estrada. Entregues às nossas cosmonáuticas.
Mas ir ao Céu não basta. O nosso espírito irrequieto e faminto de glória quer sempre mais, e os nossos líderes são jóqueis esplêndidos, autênticas carraças do nosso espírito fogoso. Por isso, além de nos utilizarmos da estrada para ir ao Céu, vamos agora, através dela, e regidos por eles, trazer o Céu à terra. O paraíso, qual esfinge óbvia, sempre esteve diante do homem. Mas só um país cozido e assado com a estrada poderia decifrar o enigma. E o paraíso é a estrada. Não só conduz ao paraíso: é já o paraíso.
Os outros, povos incuravelmente estúpidos, não me canso de proclamar, entendem que o paraíso se constrói à volta da estrada: com escolas, hospitais, fábricas, complexos de diversão fabulosos, etc,etc, tudo isso funcionando na perfeição do melhor dos mundos. Ora, o melhor dos mundos, todos sabemos, não existe fora da estrada. Todos esses belos projectos, todas essas legolândias para adultos infantilizados dão, invariavelmente, com os burros, uns na água e outros, o que é pior ainda, na administração. Em nome do paraíso, acaba tudo, por sina, no inferno da corrupção, do espólio e do locupletanço. É tempo perdido.
Deixá-los, nessas maluqueiras e tricôs do absurdo alinhavado a embuste. Graças à locomotiva da nossa audácia, movida a carvão da nossa descoberta, vamos ultrapassá-los sem dó nem piedade e deixá-los para trás sem remissão.
Senão, atente-se: eles ainda precisam duma série de equipamentos e próteses supérfluas para viverem e existirem. Fatal contrapeso, âncora funesta, pobres analfabetos rodoviários! Para nascerem, precisam de maternidades; para se tratarem, precisam de hospitais; para se divertirem, precisam de teatros, cinemas, estádios e outros estábulos que tais; para rezarem, precisam de igrejas ou jornais; para aprenderem, precisam de escolas e universidades; para moverem guerras, precisam de inventar inimigos; para aterrorizarem a população, precisam de importar terroristas; para trabalharem, precisam de empregos; para comunicarem, precisam de telefones, computadores, correios. Toda esta traquitana dispendiosa e problemática lhes é indispensável. Observe-se, de resto, o duplo e descomunal embaraço: necessitam, por um lado, que toda aquela tralha exista; e depois, mais difícil ainda, necessitam que tudo aquilo funcione.
Pois bem, os portugueses, vanguarda destacadíssima da humanidade, emanciparam-se de todos estes sarilhos, empecilhos, cangas e preconceitos. Prescindiram de muletas e andarilhos. E, com a solenidade dos decretos transcendentes, preparam-se para enviar o restante mundo dito avançado para o aterro sanitário da sucata histórica e do ferro-velho socio-económico.
De que forma? As fórmulas simples são as mais letais. Assim, o português actual, o português anónimo, sempre que precisa de nascer, de tratar-se, divertir-se, aprender, rezar, comunicar, conviver, dar batalha, aterrorizar, telefonar, procriar, procurar emprego, trabalhar, ou que quer que seja, nem hesita: vai prá estrada. Já ganhou insígnias de instinto.
Aos antigos hebreus Deus enviou o Maná. A nós deu-nos a estrada. Ora, ao contrário dos campos, tantas vezes ásperos e ingratos, em boa hora largados às moscas, a estrada dá tudo. É duma fertilidade cornucópica. Deve ser da cor. Abençoados sejam os nossos pastores e profetas!
E reparem, mesmo para nos informarmos, trabalheira sinuosa em que os outros requerem, em permanência e à cabeceira, uma chusma de jornais, rádios, televisões, mais as respectivas catervas lalofrénicas de comentadores, explicadores, logotrituradeiras, enfardadores mecânicos e demais corujas empalhadas ou leitores da bola de cristal, pois, mesmo aí, nesse entulhado e rilhafolesco labirinto, o português resolve e descomplica, duma só penada genial: sim, vai para a estrada. Só que vai de táxi. Ou de blogue.

sábado, março 06, 2010

Liberdade de Expressão -VI.

Medina Carreira, há dias, em entrevista na RTP1:

«É por ser um homem livre que posso dizer o que digo. Por isso mesmo, não sou solucionável.»

Ora, solução, termo bem a propósito, tem muito que ver com dissolvência. O homem, em sendo livre (não em absoluto, porque tal não está ao seu alcance, mas em relação ao seu semelhante), não se dissolve. Não aceita diluir-se num qualquer caldo knorr da situação ou sopa de hortaliças em febres delirantes de tacho.
Outra coisa importante, talvez mesmo a mais essencial de todas, é que o homem livre (ou seja, o homem que não aceita ser degradado a mero utensílio ou ferramenta) não tolera, de ânimo leve ou sequer pacífico, ver-se dissolvido por um qualquer Palramento, Desgoverno, Estado, Empório, Mercado, Decreto, ou o que quer que qualquer multidão de bandoleiros mascarados entenda sofisticar-se.
Não misturar-se, não fundir-se nem confundir-se com tais soluções consiste, aliás, no mundo actual, numa das principais condições da liberdade.
Até porque, tanto quanto não solucionável, o homem livre não é representável - não autoriza ver-se imposto noutros ou por outros. A postura livre é o contrário da impostura. Não é a polícia nem, tão pouco, os tribunais que constituem garantes da minha liberdade. Pelo contrário, sitiam-na. O garante não é externo: é interno, é próprio, é pessoal, e chama-se consciência. Donde que , ao contrário do que hoje em dia se trafica pelos mentideros, a antinomia efectiva da liberdade não reside na autoridade mas na economia. Nunca a liberdade perigou pelo cacete ou pela censura aberta - seria confundir estímulos com reais ameaças. O método eficaz contra ela sempre foi outro, mais letal e insidioso: o veneno. A mentira. A falsificação.
São os principais e mais encarniçados inimigos da liberdade quem procurais? É simples. Entre tutores, zeladores e enfermeiros, não tereis por onde falhar. Cada tiro, cada melro. Os envenenadores sempre velaram à cabeceira.

quarta-feira, março 03, 2010

Liberdade de Expressão - V. Formatação do entulho (um breve e banal exemplo)


Acabo de tomar conhecimento com a Gailivro. Conforme a própria se autoproclama, no seu sítio internético:

«Nascida em 1987, a Gailivro especializou-se, inicialmente, na produção de manuais escolares. Com presença forte no 1º ciclo do ensino básico, expandiu gradualmente a sua actividade para material didáctico, paraescolar e edições gerais.
A editora assumiu um compromisso com a publicação de livros infantis e juvenis de alta qualidade e com a promoção de autores nacionais, especialmente os mais jovens. Em 2007 reforçou a sua posição como uma das principais editoras de livros no segmento do Fantástico e da Ficção científica.
Em 2009 assume a liderança do segmento do Fantástico onde continua a editar os grandes nomes e os novos valores nacionais e internacionais. No segmento infanto-juvenil posiciona-se como uma editora socialmente responsável publicando obras que pretendem não só entreter como também ajudar os mais novos a integrarem-se no mundo que os rodeia.»

Retenham sobremaneira a última frase, que aproveito para repetir: "No segmento infanto-juvenil posiciona-se como uma editora socialmente responsável publicando obras que pretendem não só entreter como também ajudar os mais novos a integrarem-se no mundo que os rodeia."

Registaram?

Agora, toda essa excelência cultural e pedagógica traduzida na prática:
«A Gailivro vai editar nos próximos meses os principais livros tendo como zombies os principais personagens. Tudo começa este mês, com «Guerra Mundial Z» (veja aqui o booktrailler), de Max Brooks, filho de Mel Brooks (já em fase de adaptação ao cinema por Marc Forster, realizador de «Quantum of Solace»).Os zombies substituíram na literatura fantástica mundial os vampiros. Depois de «Guerra Mundial Z», a Gailivro pretende publicar «Orgulho e Preconceito e Zombies» (Maio), de Seth Grahame-Smith, a versão zombie do clássico de Jane Austen, e «Floresta de Mãos e Dentes» (Junho), de Carrie Ryan.»

Estão a ver? Ainda há empresas sérias, socialmente empenhadas e culturalmente responsáveis. Como a Gailivro... Genuinamente devotada a - nunca olvidemos! - "ajudar os mais novos a integrarem-se no mundo que os rodeia".