segunda-feira, março 07, 2011

A Trolharia, ou o Cripto-feudalismo (rep)

Em 1935, a propósito dum "projecto de lei sobre Associações Secretas" apresentado por José Cabral na Assembleia Nacional, escreveu Fernando Pessoa:
«Começo por uma referência pessoal, que cuido por necessária, não dever evitar. Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem Semelhante ou diferente. Não sou porém anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica.»

E mais adiante: "O camartelo do Duce pode destruir o edifício do comunismo italiano; não tem força para abater colunas simbólicas, vasadas dum metal que procede da Alquimia".

Ora bem, por especial deferência ao maior vulto das nossas letras, também eu principio por uma referência pessoal não menos incontornável:
Não sou maçon, nem católico, nem pertenço a qualquer ordem, religião, seita ou ideologia semelhante ou diferente. Não sou porém, anti-católico, como hoje em dia tanto está na moda, nem, tão pouco, anti-maçon, e passo a explicar porquê.
Pessoa recomenda que não se confunda Ordem com seita. E é esse quesito básico que cumpro. Não confundo uma associação de malfeitores, de ratões e nepotes sabujos - em suma, um grupo alta-recreativo e excursionista de Amigos do Erário Público - com uma Ordem Esotérica. De esotérico é que aquilo não tem nada. De espertalhão, de mafioso, de valhacouto, sim, tem tudo. Transborda. E o único segredo que cultivam é o que dá a alma não ao mistério, mas ao negócio. Refiro-me, como qualquer cidadão adulto na posse mínima das suas faculdades cognitivas já percebeu e facilmente constata dia-sim-dia-sim no sórdido presente desta terra lançada aos abutres, a essa coisa tumorosa e cancerígena que responde pelo pomposo título de Grande Oriente Lusitano. O próprio nome é sugestivo e apropriado: orientação não lhes falta. Julgo mesmo que não gastam a vida senão nisso: orientarem-se. Orientam-se pela medida grande. À grande e à francesa. Anda o país todo desorientado para que eles se orientem.
Não pensem, todavia, que é preconceito ou pura malevolência minha. Admito que existam Lojas da Maçonaria Regular por esse mundo fora que preservem uma qualquer seiva mística impoluta e perpetuem, sem verdete nem caruncho, essas "colunas simbólicas, vasadas dum metal que procede da Alquimia", conforme dizia Pessoa no seu artigo. Admito, sim senhor. Não me custa mesmo acreditar que nesses digníssimos tabernáculos se busca a compreensão, intuição, iniciação, ou o que seja, a sublimes assuntos e Obras transcendentes, já não falando no conhecimento taumatúrgico dos inefáveis projectos do Grande Arquitecto e outras subtilezas fascinantes que tais. Da Patagónia à Conchichina, não o duvido, devem abundar templos desses. Da Groenelândia ao Burkina Fasso, estimo bem que proliferem, em boa luz e harmonia. Não será mesmo por falta de filantropia tão proficiente que o mundo não pula e avança e, pelo contrário, a cada hora que passa, mais patina em bosta e chafurda em sangue.
Pois, é tal qual digo: por esse mundo fora, não hesito em reconhecer todo um vasto leque de possibilidades e prodígios, toda uma cintilante pletora de maravilhas e alambiques. Que, logo por azar, nunca penetraram em Portugal. Não penetraram nem medraram minimamente que se visse. Ou se penetraram, a semente em vez de se elevar do estrume, diluiu-se nele. Porque aqui nem vê-la, à excelsa e sublime Maçonaria. Aqui, aconteceu à Maçonaria o que aconteceu ao whisky e acontece a qualquer produto escocês: martelaram-na em caves turvas à beira Trancão. O néctar deu lugar à mixórdia. De maçonaria ficou só o invólucro, o rótulo e a rolha. Esfregue-se a lamparina e o génio que sai lá de dentro usa cascos e tresanda a bombinha fétida de Carnaval. Obra de pedreiros-livres? Será, não sei aonde. Porque, para cá da fronteira, nunca ultrapassa o esquema de trolhas e mestres-de-obras, agência e gardanho de empreiteiros à rédea solta.
Operam na penumbra? Cavilam e zombam do cidadão comum? Corroem e carcomem os alicerces da democracia? Minam a credibilidade das leis e dos tribunais? Usurpam a putativa soberania popular?
Serei o primeiro a insurgir-me contra tais fábulas. Como é possível carunchar os alicerces de algo que nasce, emerge e viceja da podridão? Como é possível minar um queijo-suíço? Como é possível usurpar uma fantasia?
Por tudo isso, acusar esta seita mascarada - esta Trolharia - de conspiração ou cabala é a anedota mais estapafúrdia que ouvir se pode.
Por uma evidência escancarada: não atentam contra o regime: exercem-no, vistoriam-no, supervisionam-no. Não conspiram, governam. Melhor dizendo: governam-se. Que nem lordes, que nem abades!...

sábado, março 05, 2011

Oh Pá, escuta: chutzpah comigo não resulta.


O leitor e colega bloguista Joshua espraia na caixa de comentários do postal anterior um conjunto de prolegómenos típicos dumas certas franjas farisaicas da nossa blogosfeira. Aproveito para responder, mais que ao Joshua, a todo um "pensamento em espécie" que a tantos faz salivar e resfolegar tão descompassadamente.

1. "Os judeus não estão a promover lavagens cerebrais a crianças em campos de treino-militar", mas estão a promovê-las nas nossas escolas, nos nossos cinemas, nas nossas redacções e também nas escolinhas religiosas deles, vulgo yeshivas. É só escolher entre o fanatismo religioso duns e o fanatismo comercial doutros

2. "Os judeus não sequestram aviões nem matam atletas nos Jogos Olímpicos", nem, já agora, gaseiam de empreitada, mas montam banca de proxeneta nisso tudo. Lembra a lógica do formigueiro: as formigas que tombam são logo transportadas pelas outras para a despensa.

3. "Não há um único judeu que tenha destruído uma igreja"... E depois ficavam sem padres onde escarrar, o que seria uma maçada e a perda dum grande divertimento nacional.

4."Os judeus não traficam escravos"... Pois, é mais escravas. As maiores redes mundiais de tráfico de carne branca, de órgãos, de droga, de diamantes e de armas, têm judeus em plano de destaque na respectiva gestão e aprovisionamento.

5. "Talvez os muçulmanos devessem queixarem-se menos dos judeus"...Sem dúvida. Tal qual os judeus, seguramente, deveriam queixar-se menos da humanidade em geral e de todos os povos onde se hospedam, especialmente os europeus, em particular. Maiores queixinhas e ladainheiros crónicos profissionais não se conhece ao cimo da Terra. Com a agravante da queixa aparecer invariavelmente acompanhada de pedido de indemnização com retroactivos e alcavalas. Agora se ficarmos todos à espera que os muçulmanos deixem de se queixar dos judeus a partir do dia em que os judeus deixem de se queixar de toda a gente, então, bem podemos ficar à espera do dia de São Nunca à Tarde.

6. "Os muçulmanos deviam perguntar o que poderiam fazer pela humanidade?"... Desocupar a Palestina e arredores, seria, presumo, o primeiro passo. Suicidarem-se em bloco, seria o segundo, talvez, não? Bem, já fornecem, há quase um século, grande parte do petróleo que alimenta o motor da democracia. (e, por inerência, da humanidade) É mais do que nos podemos gabar nós, os portugueses, que também somos uns belos lamuriosos da treta. Daí que talvez a humanidade nos respeite ainda menos do que aos mouros. Além disso, só para citar outra gigadência, foram os muçulmanos que, recentemente, acudiram com petrodólares à economia semi-falida da "humanidade". O presidente do sócio maioritário desta, o tal Obama, sabe-o bem. E tem agido em conformidade.


Dito isto, especifiquemos: Quando digo judeus são todos os judeus? Não, são alguns judeus. Alguns judeus são filhos da puta, como alguns portugueses, alguns muçulmanos e alguns americanos. Que a preponderância mundial dos filhos da puta judeus seja mais elevada que a dos seus congéneres portugueses não oferece dúvida. É a distância que vai do Grande Filho da Puta ao pequeno Filho da Puta, na versão de Alberto Pimenta. Mas numa coisa judeus e portugueses serão semelhantes, quiçá até irmãos, enquanto povos: na densidade de filha-da-putice. É elevadíssima em ambas as congregações. E refinadérrima: os filhos da puta não apenas se reproduzem a uma velocidade estonteante como intentam esterilizar tudo em seu redor.
A questão, verdade seja dita, tornou-se, assim, cultural: onde as civilizações antigas experimentavam admiração e emulação pelo heróis, estas infestações actuais contraem um fascínio danado e uma volúpia macaqueante por todo e qualquer filho da puta resplandecente.

Quanto ao confronto judeu/muçulmano, parece-me que o destino estará mais ou menos traçado: os israelitas não descansarão enquanto não erradicarem os palestinianos; os muçulmanos em geral não repousarão enquanto não erradicarem os israelitas. Parece-me que a nós, europeus, uma vez despertos da catalepsia induzida, compete duas coisas: deixá-los em paz, a judeus e muçulmanos, nos seus afazeres domésticos; promover para que aqueles que se encontram entre nós regressem , o quanto antes, aos seus povos natais. Para o intenso debate que se aproxima, todas as vozes serão poucas.

Num próximo postal, explicarei então porque sou ultra-sionista.

sexta-feira, março 04, 2011

Curiosidades de feira

Lembram-se do "Feeling the Hate in Jerusalém"?

Pois vem muito a propósito. Atente-se no artigo de que retirei os trechos que se seguem...



Então porque é que as declaração recolhidas de judeus bêbados não têm qualquer valor jornalístico, enquanto que as de um qualquer Galliano bêbado constituem prova mais que bastante e cabalíssima para julgamento sumário, linchamento profissional e anátema até à quinta geração?
Porque, suponho, quem compra as regras arvora-se o pleno direito a não cumpri-las. As regras são para os outros. E isto nada tem de teoria da conspiração: é mera constatação de factos. Em enxurrada. Eu diria até que já tresanda a hubris das grossas. E como toda a hubris não vai ter bom fim.

Fora isso, tem imensa piada a expressão - toda condescendente e desculpabilizadora - de "jewish kids", como se, neste caso, já desse jeito passarem por iguais aos gentios. Ora, o facto é que um judeu masculino atinge a maioridade plena aos 13 anos. Como é que gente tão estúpida consegue ser tão petulante?

PS: Quanto ao vídeo inicialmente referido, parece que foi banido do Youtube. Em honra da tão cantada e propalada liberdade de expressão no Ocidente livre e democrático, presumo.

PS2: Mas podem vê-lo aqui, os interessados.

quinta-feira, março 03, 2011

Pacheco Pereira e o seu método revolucionário para a Oposição

Da hierarquia abissal




Justificação de John Galliano, uma vez sóbrio, acerca do episódio que as televisões não se cansam de relatar:
-"Antisemita, eu? Mas não eram mongolóides?"

Em todo o caso, parece que a bizarra criatura se queixa de ter sido, em primeira instância, vítima de provocações e insultos homofóbicos. A sua resposta a esse alegado ataque é que revela um grau de estapafúrdio só eventualmente equiparável ao grau de etilização. Realmente, comunicar aos mongolóides que, no que dependesse de Hitler, não estariam ali de boa saúde, sendo verosímil, não deixa, contudo, de ser perfeitamente disparatado: no que dependesse de Hitler, ele próprio, Galliano, enquanto gay e artista decadente, também não estaria ali. Que sentido, pois, faz, à luz do sagrado actual, acusar um gay de anti-semitismo? Será que, na escala dos sacrilégios, o anti-semitismo prevalece sobre a homofobia, como, por exemplo, nos crimes vulgares, o assalto à mão armada prevalece sobre o simples furto?

Agora a sério. Penso que esta peripécia recorrente, numa incivilização que terraplenou e açougou todo e qualquer sagrado, revela que, afinal, se tenta, manhosamente, colmatar o sacrovácuo através da injecção de botok pseudo-inefável - que é como quem diz, um fundamento religioso de pacotilha erigido em dogma irrefutável e indiscutível. Esse dogma, nesta neo-democracia fundamentalista, acreditem ou não, chama-se "holocausto".
Ora, no tal holocoiso, tanto os judeus como os homossexuais desempenham a função martirológica abastecedora da hagiografia oficial (embora por uma questão de táctica talibã e capricho comerciante os arvorados em holojudeus reclamem uma exclusividade feroz, por via, presume-se, duma espécie de patent pending da invenção). Mas como sobre os delírios, por mais sulfatados e massificados que sejam, prevalece a realidade, o certo é que o genocídio deve ser entendido na sua totalidade e não na sua parcialidade. A aceitar esse reducionismo exclusivagante, não se trataria dum holo-causto, (inteira-cremação), ou seja, da chacina completa e metódica de ciganos, mongolóides, esquizofrénicos, judeus, comunistas e democratas em geral, mas apenas de um merocausto (semicausto, hemicausto, minicausto, ou o que se entendesse chamar à cremação de apenas uma parte), isto é, o massacre parcial de judeus. Ora, como é bom de ver, não é de todo admissível que uma parte reclame para si a totalidade do evento. A não ser que aceitemos que há vítimas mais vítimas que outras. Se bem que, na verdade, seja precisamente isso que, mais uma vez, toda esta anedota indicia: a tal hagiografia (embora derramando-se sobre mongolóides, atrasados mentais, judeus, ciganos, homossexuais e democratas em geral) será tudo menos democrática. Pelo contrário, parece porfiar e subverter pelo estabelecimento terrorista duma espécie de hierarquia celeste grotesca, com os judeus acima de todos os outros, em contacto íntimo com a Divindade Resplandecente e em usufruto privilegiado das cornucópias pródigas deste. E lá voltamos nós a Orwell: Todos os anjos são iguais, mais há uns anjos mais iguais que outros. Entretanto, visto tratar-se aqui duma querela flagrante entre as duas ordens superiores da pseudo-hierarquia celestial, um marxista, naquele seu jeito brejeiro típico, chamar-lhe-ia "luta de classe". Mas eu, que prefiro sobremaneira a lucidez, acho que é mais zaragata de falta dela.

quarta-feira, março 02, 2011

Macbeth ainda vive


«Macbeth é o mal fantasma. Ele não é daqueles lobos que andam, pela noite da história, dilacerando as liberdades das pátrias. Não.
É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra, seria igual a Satã. Quando a sua coroa reluz na escuridão parece que as constelações devem seguir aquele reflexo terrível, curiosas de saber que sombria aventura vai ele tentar contra o Homem. Porque é certo que ele provoca a atenção do infinito, e tem misteriosas afinidades na noite.
Ele atravessa todo aquele drama como um espectro.
(...)
Ésquilo, quando vê Prometeu pregado no Cáucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade de mármore dos deuses de nomes sonoros, vem, pálido, ajoelhar junto daquele rochedo ideal e santo como um altar, e apenas, sufocado, pode fazer um gesto suplicante ao velho mar, para que mande as suas oceânides consolar o vencido enorme.
Shakespeare porém quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, matar os homens históricos, derrubar os capacetes heráldicos, matar os instintos, matar os Macduffs, matar as crianças de olhar divino, as mulheres de seios fecundos, matar a pátria, corre desvairado, toma uma floresta e vem esmagara feroz criatura sob um desabamento da santa Natureza: e aquele castigo passa com o ruído terrível do carro da justiça.»

- Eça de Queiroz, "Prosas Bárbaras"

Duas notas breves, uma sobre o autor do texto, outra sobre o conteúdo do mesmo. 1. Como é que um tipo com um talento destes acaba a escrever romancetes para burguês ler (pior descalabro em vida só mesmo a obra de Camilo com as suas novelas a cordel)?... Nunca me cansarei de lastimar.
2. Num ponto, Shakespeare e eu concordamos na perfeição: a única revolução genuína e meritória - a única digna da nossa Esperança - é a da Natureza. Todas as restantes não passam de imitações de fancaria, arremedos e macaquações onde toda a justiça se vê usurpada e conspurcada pela mera e suja violência. As revoluções humanas jamais têm excedido o mero trampolim da velhacaria.
É por isso que eu, no meu respeito humilde, não incomodo Deus com as minhas súplicas. Em contrapartida, rezo às montanhas, aos ventos, aos oceanos, aos gelos, aos astros e meteoros porque, de algum modo, suspeito, reconheço, sei que neles habita Nemésis - a força cósmica e eterna da retribuição e do reequilíbrio.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Mentalidade Protestante




A descrição deveras ilustrativa dos habitantes da Nova-Inglaterra, no século XIX, feita por um observador da época:

«Os habitantes religiosos e politicamente livres da Nova-Inglaterra são como uma espécie de Laconte que não faz o mínimo esforço para se libertar das serpentes que o envolvem. Mamon é o seu ídolo, ao qual adoram não só com os lábios mas com todas as forças do seu corpo e do seu espírito. A seus olhos a Terra é apenas uma Bolsa; estão convencidos que não têm cá em baixo outro destino que não seja tornarem-se mais ricos que os vizinhos. O comércio apoderou-se de todos os seus pensamentos e o seu único entretenimento é trocar objectos. Quando viajam, transportam, por assim dizer, o balcão e a mercadoria às costas e só falam de juros e lucros; e se, por instante, perdem de vista os seus negócios, é só para meterem o nariz nos negócios dos concorrentes.»

Parece que a epidemia que grassava na Nova-Inglaterra no século XIX se tem vindo a propagar ao resto do mundo. Como Cristo, também já o anticristo passeou entre nós. Chamava-se Calvino.

domingo, fevereiro 27, 2011

O paradigma reencontrado


Que a superioridade da mentalidade protestante sobre a cultura católica em matéria de virtude democrática seja flagrante parece-me pacífico. Agora, que se rebusque em Nossa Senhora a justificação para tão avantajada e vantajosa predisposição é coisa que nem lembraria ao diabo (embora não me ocorra pôr as mãos no fogo pelos filhos dele). É como ir garimpar no Além réus para uma qualquer pocilga deste mundo. E já que, na verdade, é dum superior desembaraço no chiqueiro mundano que se trata, nada como atentar no animal emblemático, que é como quem diz, no paradigma instigador, mais até que inspirador. Em síntese: não é a Mãe Celeste, nem o jardim tão pouco: é o porco. Tudo se resume à relação cultural com este modelo tutelar e totemístico: os católicos comem-no; os protestantes imitam-no. Ficam-se aqueles, preguiçosos, pela alarvice; labutam estes, incansáveis, pela perfeição.

domingo, fevereiro 20, 2011

Subsídio para a questão do (des)ensino

Deviam capacitar-se todos os ilustres pensadores e opinadeiros das redondezas, e duma vez por todas, que nem as pessoas são chouriços, morcelas, linguiças ou qualquer outra modalidade de enchidos, nem a formação das pessoas obedece a regras típicas de salsicharia. A não ser que a questão se resuma a discernir qual o tipo de vazadouro mais apropriado para as digníssimas famílias depositarem as respectivas proles em idade aprendiz, durante o horário de serviço, que é como quem diz durante o maior número de horas possível; qual o aterro fito-sanitário mais selecto ou apenas menos oneroso para o contribuinte, esse otário incurável. Ou qual o picadeiro de apicavalgaduras com os melhores palhas, jóqueis e treinadores
De facto, o cerne do problema começa por algumas definições muito simples, mas deveras necessárias. Cito apenas um par delas: a) se a escola deve ser um local para adestramento de insectos colectivos ou formação de pessoas; b) se a escola deve integrar-se num esforço colectivo de formação de caracteres, ou apenas numa engrenagem geral - e generalíssima - de deformação e esterilização de mentes.
A limite, a questão até se resume a uma perplexidade muito breve, crua, mas todavia eloquente - a saber, porque é que o Liceu Nacional D.João de Castro do meu tempo, que era uma escola pública, como a generalidade das escolas públicas dos anos 60/70, dava uma abada de dez a zero nos melhores alfobres privados dos dias que correm?
É que, ninguém tenha dúvidas, dava mesmo. Eu, que fui um aluno pouco notável, a não ser na devoção ao futebol e à garupa das colegas, sou um exemplo vivo disso tudo. E não é preciso ir ao extremo de citar um super-liceu, verdadeiro olimpo das letras e ciências, como era o D.João (reitorado pelo temível e inigualável Luís G. Silva, se bem me lembro). Qualquer outro liceu vulgar, meramente humano e banal daqueles tempos, mesmo no Porto estou em crer, ou até no bairro de Alvalade, fosse este em Lisboa ou Luanda, funcionava dez vezes melhor que os melhores desta miserável e estéril época. E o busílis é, na verdade, esse: porque é que um ensino que outrora funcionava agora disfunciona?
Bem, pela mesma razão que tudo aquilo que funcionava mal no antigamente agora ainda funciona pior, tanto quanto tudo aquilo que funcionava razoavelmente, que não era assim tão pouco, agora, após não sei quantos experimentalismos e frankenstoinices de importação, disfunciona com alarvidade monumental. E essa razão tem um enunciado muito simples e prático: é que tudo o que se faz e tem feito nestes últimos trinta anos, a nível público, público/privado (e até privado, passe a redundância tripla) mais que texto para uma qualquer melhoria dos serviços e mecanismos da sociedade, tem servido de mero pretexto para o enriquecimento e o sustento sumptuoso de meia dúzia de indivíduos, geralmente organizados em forma de quadrilha legal, vulgo partido político. E isto, desenganem-se os sonsos da praxe, não é mera conversa de táxista. Pois da treta, em bom rigor, já nem sequer é a conversa: é o país.

sábado, fevereiro 19, 2011

Breve manual de economia medieval para otários


Talha - obrigação pela qual o servo deveria passar, para o senhor feudal, metade de tudo que produzia nas terras que ocupava no feudo.

Corvéia - obrigação que correspondia ao pagamento através de serviços prestados nas terras ou instalações do senhor feudal. De 3 a 4 dias por semana.

Banalidade - obrigação que correspondia ao pagamento pela utilização das instalações do castelo. Se o servo precisasse usar o moinho ou o forno, deveria pagar uma taxa em mercadoria para o senhor feudal.

Portanto, ó caros democratas do cuspo, é só substituir "feudo" por "Estado" (entre "finanças" e "Segurança social"), "talha" por "contribuição", "corvéia" por "imposto", "banalidade" por "portagem", "taxa moderadora" ou "de estacionamento", e, claro, "servo" por "contribuinte". E pronto, aí tendes toda a vossa tão cantada e lambuzada "modernidade". A única diferença é que o "senhor" agora não é apenas um, são muitos. Mas todos a viver à grande e à francesa. Ao pé deles, o velho senhor feudal até faria figura de asceta.

PS: Ah, pois, e outra diferença catita é que eles agora já não aceitam pagamento em géneros. Tem que ser tudo em metal sonante.

PS 2 : E de bónus ainda tendes algo que eles não tinham: juros!

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Tanatodiceia Europeia (rep)

O problema, se me permitem recordar, é que a Europa saiu derrotada da Segunda Guerra Mundial. Não tanto a Alemanha, que claramente aspirava a megalomanias peregrinas e apenas perdeu a sua própria autonomia, mas o Império Britânico. Com a queda deste (e dos outros por arrasto), faliu a tentativa civilizadora europeia à escala global e triunfou a Terceiro-mundização do Planeta através dos seus motores principais, apenas hostis porque rivais: os Estados Unidos, a União Soviética e a China.
Ora, se o colonialismo, por dinâmica intrínseca e necessária, implicava uma gradual europeização do "terceiro mundo", posto que baseado numa deslocação de populações europeias e em consequentes laços comunitários a longo prazo, já o neocolonialismo, como a realidade não pára de demonstrar, instala ora o caos ora a exploração desenfreada por cleptocracias convenientes, donde resultou, primeiro, a retirada trágica das populações europeias e, logo de seguida, o êxodo das populações indígenas. Uma vez que a civilização não resolveu o problema no seu local próprio, importou-o. Recebe-o agora em sua casa. Falhada a europeização do Terceiro Mundo, é agora a Europa que se africaniza, muçulmaniza e orientaliza. Perdida a sua cultura, entrega-se agora à multicultura, ou seja, a qualquer cultura - na verdade, cultura nenhuma.
Também, se a civilização europeia, na sua acção colonial, constituía, para as populações autóctones, uma forma de ultrapassagem do tribalismo, ao retirar, devolveu-os à selvajaria - amplificada agora por armamento moderno e manipulação à distância. Mas pior que isso: ao perder, ela mesma, a sua cultura baseada na nação própria e no Deus comum, a Europa resvalou para o tribalismo -tenha essa tribo a forma de gang, partido, facção, seita, sindicato, claque, bando ou sociedade secreta. Como em África, as tribos predominantes são transfronteiriças e promovem cleptarquias supranacionais. Alegremente, o mundo inteiro resvala e patinha no animismo: a Ocidente adoram-se - não pedrinhas, tótens ou entidades naturais, mas - bugigangas, maquinetas ou tótens artificiais. Com a vaidade acrescida de quem se acha o cúmulo da modernidade.
Entretanto, esta Europa cada vez mais americanizada - estes Estados Unidos da Europa * (que mais não são que a balcanização ao retardador desta) que se cozinham à surrelfa e por determinação "superior" -, revelam bem o modelo genético do seu demiurgo - o melting-pot de mão-de-obra emigrante, capital à rédea solta, e lucro acima de tudo.
No meio de tudo isto, não deixa de ser irónico, até natural -e sintomático! - que os nossos jovens, bem intencionados, generosos, mas lavados ao cérebro desde pequeninos, queiram ser Europeus num tempo em que a Europa se vem entregando, sob patrocínio e imposição cripto-alógenos, a um lento e rasteiro hara-kiri.
Para a Nova (Des)Ordem Mundial, que não é europeia, a Europa é só mais uma neocolónia. E as massas que nela habitam, de múltiplas cores e credos, são gado. O que, diga-se de passagem, elas tudo fazem por merecer.
Por mim, cá vou rezando às grandes catástrofes naturais. Tenho fé.


*Nota - Onde os "estados do Sul" se renderam sem a dignidade mínima duma guerra.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Da Distracção Imperatriz


Ao fim de nove anos lá descobriram a velhota morta. Ao fim de mais de trinta ainda não se aperceberam que o próprio país faleceu. Para a velhota ainda havia a atenuante de estar escondida em casa, longe das vistas e, pelos vistos, dos narizes. Mas o país, caramba, putrefaz-se em plena rua, na via pública, a céu aberto!...
Tudo indica que, em 1822, não foi uma constituição que Portugal adquiriu: foi uma doença terminal. Venérea.
A República? Há muito que degenerou em império: Da distracção.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Dos Pitas aos Pinas, passando pelas Pu...

Desta croniqueta , dum tal Manuel António Pina, retenho e sublinho estas duas passagens:
a) «Escritores e artistas raramente são exemplos morais recomendáveis.»
b) «A História está cheia de obras sensíveis e generosas, às vezes de grande riqueza moral, realizadas por gente feia, porca, má ou nem por isso.»

Não conhecendo eu tão preclaro opinadeiro, googlei em busca de mais informações. Informa-me a wikicoisa tratar-se dum (sic) "jornalista e escritor português", além de advogado goro, especializado em "poesia e literatura juvenil". É premiado, laureado e mencionado, com traduções lá fora. Não será um Saramago, mas não se pode ter tudo.

Ora bem, é no afã de nos tentar moralizar contra as touradas, essa barbárie nacional que cumpre erradicar duma vez por todas, quanto mais não seja a bem do estômago hiper-sensível das pessoas generosas como ele (presumo), que o sensível e generoso Pina nos proporciona tão suculentas e trepidantes considerações.
O problema é que das duas uma: ou o seu apelo, opinião ou exemplo não são recomendáveis, pelo que se dispensam liminarmente; ou pura e simplesmente se expulsa da categoria de escritor ou artista. Nesse caso perora-nos em que condição - advogado? Jornalista? Bem, se os escritores e artistas não são recomendáveis, que dizer então de advogados e jornalistas? Entre aqueles e estes, no bordel da imoralidade, poucos duvidarão que abisma a diferença que separa frequentadores de profissionais. Se pensarmos que o advogado, ainda por cima, cumula com o jornalista , então será para dizer que o plumitivo não conclama para que o oiçam, mas apenas para que o corram a tomates e hortaliças. Em resumo, o Pina auto-desqualifica-se. Começa por mutilar-se, ao mesmo tempo que alardeia ir bater o record do mundo da progenitura. E, não obstante, pagam-lhe. À palavra? À linha? Ao caractér? Assombroso!

Quanto ao segundo trecho, convém que não fiquemos pelas meias-tintas e passemos, duma penada, à tela completa. Assim, tanto quanto atestada "de obras sensíveis e generosas, às vezes de grande riqueza moral, realizadas por gente feia, porca e má," a História também está infestada de obras feias, porcas e más, quase sempre de enorme indigência mental, produzidas por gente sensível e generosa. Felizmente que você não é feio, nem porco, nem mau, ó Pina (como Céline, por exemplo): São só as suas obras. São só os seus exercícios de fornicoques e gramaticoques que, a fazer fé na presente amostra, metem nojo às suiniculturas e beiram a vileza mais aleijona. Porque você, benza-o Deus, em contrapartida, é uma excelente pessoa, do mais sensível e generoso que imaginar se pode. Um campeão da filantropia (da filotauria, melhor dizendo) e delicadeza. Sorte a sua. Azar o nosso.


domingo, fevereiro 13, 2011

Em bom Portugês - III. Os Retardados Morais

Então é o quê? Pura chutzpah - eu traduzo: pura desfaçatez estanhada e atávica? Cito até um paradigma anedótico mundialmente famoso: um judeu vai a tribunal depois de ter assassinado o pai e a mãe, e apela como atenuante maior a situação de se encontrar órfão... (são os judeus que assim galhofam acerca deles próprios)...
Mas devo reconhecer, a bem da verdade, que até nem são, maioritariamente, os judeus (se é que um gajo no meio de toda esta mixórdia palrante ainda consegue discernir papagaio de caturro) que se prestam a estes figurinismos da treta. Não; são, quase sempre, aquilo a que eu chamo de retardados morais. Os requentados palhadinos da pretérita e putativa vítima. Requentados e escantados, sobretudo. Com escarépio na mioleira infectada pelas redacções a reclamar zaragatoa da grossa. Agora que já não há nazis, que o nazismo foi pulverizado e terraplenado até ao entulho e cinza, é que eles vêem nazis por toda a parte, como se de um misto de bolor e gambozino se tratasse. Agora que já passou, que está morto e enterrado, é que eles montam guarda, nocturna, diurna e mediurna! É que eles espiolham, esquadrinham, farejam e plantam cruzes suásticas ao desbarato! Plantam, que é como quem diz: colam a cuspo. Agora que o assunto já é presunto é que eles patrulham, policiam e zumbem, à maneira das varejeiras, de roda do assunto. É que ruminam e regurgitam a matéria. Agora é que eles gritam: "agarrem-me! segurem-me! senão eu desgraço-me!..." Podem chacinar, genocidar e sarrafaçalar à fartazana no presente, que eles não vêem, não estão, já deram e, acima de tudo, estão de plantão ao massacre excepcionalíssimo, granfiníssimo, alambicadérrimo do passado. Não pensam porque estão ocupadíssimos a não esquecer. Entenda-se: bobis a bobinar e rebobinar a cassete. A ladrar ao passante incauto: "Nunca mais!"
Nunca mais, o caralho! É todos os dias, se preciso for. O mesmo Caim de roda dum qualquer Abel, a mesma filha-da-putice ultra-estanhada e entranhada até à quinta casa. A mesma crueldade viçosa e javarda. Especialmente vigorosa para com o indefeso. Especialmente imaculada se exercida em nome do Santo Mercado. Só que doravante, e com uma frequência bem pouco edificante, a vítima profissional emula o carrasco-fetiche. Copia-lhe os tiques, os ademanes necrobióticos. Calça-lhe as luvas, as botas e o chicote. Triste amostra de humanidade. Digna de inveja? Só se for às hienas e às ratazanas.
No circo fariseu em que descambou o mundo, estas focas apenas empinam a bola ética no alto do focinho habilidoso porque acreditam, pavlovianamente, que vão ganhar um qualquer peixe com isso.

sábado, fevereiro 12, 2011

Em bom Português - II. Para acabar de vez com a Questiúncula

Em oito anos de existência houve um colectivo que, mais que nenhum outro, padeceu a minha crítica feroz: os portugueses. O meu próprio povo, a minha própria tribo, a minha própria gente. Nunca vi ninguém enxofrar-se ou arrepiar-se todo por causa disso. Até é catita. Ou não constituísse desporto nacional: a auto-flagelação. Dou outro exemplo: Gil Vicente. Naquele seu famoso auto das barcas. Pois bem, o homem corre a sociedade portuguesa da época de alto a baixo: malha em clérigos venais, malha na nobreza arrogante, malha na magistratura corrupta, malha na plebe manhosa, malha na agiotagem gentia, e tudo muito bem. Muito artístico e louvável. Mas quando refere o judeu à toa, de bolsa e bode à ilharga, aqui d'el rei que não se admite, é anti-semitismo, é brutal preconceito, rasure-se e descafeíne-se a obra!... E isto não sei quantos séculos depois. Como aquela cena necrófaga do holocausto dos anõezinhos que já custou aos munícipes lisboetas mais um mamarracho de péssimo gosto no Largo de S.Domingos. Ou esta "petição" perfeitamente anedótica do mesmo crono-jaez. (Note-se o poli-requinte: "judeus sefarditas portugueses". Mas "nacionalidade portuguesa a que título? Israel, já não serve?...)
Tudo isto é exactamente o quê? Já chegámos onde?...
Quer dizer, eu posso vociferar "os portugueses, essa resma de gastrópodes ranhosos e rastejantes, de casa às costas e corninhos retrácteis a fazer de antenas de telemóvel" e nenhum português se ofende por aí além, porque além da generalidade dos leitores não se sentir essencialmente identificado com a definição, usa o sentido de auto-crítica para reconhecer alguma verdade em relação ao acessório e conjuntural. Mas se eu refiro os judeus em termos que não sejam apologéticos e encomiásticos, rompam de pronto, e por turnos, uma série de energúmenos, entre osmóticos, híbridos ou puros sangue de corridas, num basqueiro de alarvidades e palermices que só visto.
Repito e sublinho: Significa isto o quê? Que os judeus estão acima da crítica, da ironia, dos sarcasmo? Mas porque carga d'água estariam? Porque são santos à nascença? De pau carunchoso, todos somos. Porque foram massacrados às carradas? Bem, os portugueses também foram, no século XX, e à catanada. Os ruandeses idem. Os congoleses ainda andam nisso (o contador já vai nos milhões). Se vamos por aí, pelo horror do massacre, a tiro e a gás sempre foi menos asselvajado e atroz do que por obra e desgraça de alfaia agrícola. Ou preferiam a sachola ao chuveiro? A indústria, fazendo fé em Hollywood, sempre usou de cuidados e suavizações absolutamente impensáveis à barbárie. Ninguém os violou e esquartejou de empreitada, entre urros escarros e vitupérios. Até porque para Suas Excelências um campismo selvagem desses seria inadmissível: a coisa, necessariamente, e ainda que sob a cobertura de engodo perverso, teria que meter vagon-lit, serviços de hotelaria, com pensão completa, sauna e actividades lúdicas, e tudo isso, claro, em ambiente ultra-pasteurizado. Foi a qualidade dos serviço que defraudou monumentalmente as expectativas? Ah, não, a excepcionalidade única dos metagnominhos, a distinção bizarra, foi a intenção de extermínio étnico planificado. Quer isso então dizer que o extermínio à bruta e de improviso é menos digno de honraria, já que menos doloroso não parece? Mas mesmo admitindo que sim, mesmo dando de barato tamanha frescura, em que é que se distinguiram as vítimas XPTO dos ciganos ou dos deficientes mentais? Na mera aritmética? No campeonato do genocídio,a medalha é ao quilo? Mas estamos a falar de frangos, de formigas ou de pessoas? E, já agora, sempre adianto: nada tenho contra a atribuição dum país por decreto a coitadinhos. Mas fico sinceramente à espera de idêntica gorjeta indemnizatória aos ciganos e aos mongolóides. E não me venham certos maldosos com a solércia de que aquilo já é o três em um, dado que o judeu já acumula e refina as outras duas espécies, porque eu não embarco nessa. Embora se fosse a fazer fé nas patranhas da Esther Mitzschlrfsdr ou lá o que é, papagueadas ad nausea por não sei quantos tartufos de ocasião - a saber, de que a população portuguesa tem uma percentagem enorme de sangue hebraico (como se o carácter dum povo fosse medido a cabidelas e papas de sarrabulho) -, me sentisse tentado a acreditar nesse género de culinárias: estaria até explicada, duma vez por todas, a nossa estupidez atávica, a nossa tendência para a imbecilidade congénita, para a toinice desenfreada, para a velhacaria hipócrita, e o lugar exuberante, profissional e renitente que ocupamos na cauda dos povos europeus.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Em bom português - I

É claro que isso dos judeus como se todos os judeus fossem iguais, por atacado, não existe. Ou existe tanto, enquanto forma de enunciação, como existe "os portugueses", "os "ingleses", "os americanos", "os alemães", "os espanhóis", "os ciganos" ou "os esquimós", entre uma miríade de outros povos, etnias ou meros grupos excursionistas, musicais ou recreativos.
Mesmo os Beatles, que eram apenas quatro, não coincidiam nas personalidades nem nas idiossincrasias ou singularidades de cada um deles. A começar pelo instrumento... No entanto, em conjunto, produziam determinado produto característico. E quando dizemos os Beatles isto, ou os Beatles aquilo, pró bem ou pró mal, estamos pura e simplesmente a estabelecer uma crítica, elogiosa ou depreciativa, a um determinado conjunto. Um conjunto de indivíduos não significa que os indivíduos são todos iguais: quer dizer apenas que partilham determinada característica.
Tudo isto para explicar uma coisa muito óbvia e simples; quando referimos em género, ou em espécie, quer dizer isso mesmo - género ou espécie. Não significa indivíduo. Desde Aristóteles que o critério está bem delineado e exposto, pelo menos para todo aquele que não se contente com o ser papagaio e procure ser algo mais: humano, por exemplo. Aliás, esse é precisamente, desde o livro Zeta da Metafísica, há 24 séculos, o limite da própria ciência humana: não alcança o indivíduo. E era bom, para variar, que o indivíduo se capacitasse disso. Poupava-o a muitos amargos de boca e figuras tristes. E dispensava-o, ainda mais, de cada vez que ouve falar em espécie, de ir a correr enfiar-se lá dentro, como se lá coubesse por inteiro e absoluto. Não cabe. E é extremamente estúpido meter-se, clamando para que não o metam. Não verdade, não metem: apenas lhe abrem a cancela e estendem a passadeira. O resto ele executa sozinho. Enfia cabeça no balde e brada ó da guarda que o querem afogar.
Pode parecer que esta elementar noção da diferença entre género, espécie e indivíduo é um mero bizantinismo académico. Não é. Houve um tipo que disse que a ignorância é o mal. Se não é, imita-o - ou, no mínimo, aduba-o e faculta-o - muito bem. Pode parecer que o principal foi uns terem metido outros feitos gado em vagões de comboio. Pode parecer que o algoz reúne toda a factura e deve pagar o preço inteiro, com juros e sobretaxas. Mas, de facto, tanto ou mais grave que haver uns prontos para fazerem dos outros insectos (que sempre os há, ainda hoje para aí zanzam sob os mais diversos, insuspeitos, coloridos e melífluos trajes) é o facto de haverem outros a pensarem-se como gadeza ou como insectos colectivos. Isto é, pior, realmente pior que haver gente a querer enfiar outra gente em comboios, é haver gente predisposta a entrar neles. E gente a treinar e adestrar gente para esse efeito.
Não sei quantos judeus foram massacrados durante o III Reich. Assim, assado, desta ou daquela forma. Essa contabilidade não me seduz nem excita muito. Tudo aquilo foi um descalabro, esse episódio e a própria guerra onde decorreu. Um puro hino à impiedade, agora na sua forma industrial. Tenho por Hitler a mesma consideração que tenho por Staline, Churchill e Rooseveld: Quatro hienas de alto coturno que, se vistas do céu como representantes da nossa espécie, hão-de causar nojo e vómito à galáxia inteira. Todavia, no que às específicas atrocidades cometidas pelos alemães sobre judeus concerne, em Nuremberga (e até hoje em imarcescível patíbulo) foram julgados, demonizados e banidos da raça humana os culpados? Julgo que não. Os Nazis - no seu departamento especializado - foram apenas os carrascos, os executores. Portanto, condenou-se o carrasco, o imolador. Falta julgar quem conduziu as ovelhinhas ao sacrifício, quem entregou as rezes nas mãos do carrasco. Os mentores (mentecaptores) do carrasco? Bem, continuam por aí na maior; Darwin já é santo e Hegel, só para citar os mais emblemáticos, para lá caminha. Apenas o pobre Nietzsche, que continua pau para toda a obra, padece no pelourinho. Ah, e, claro, Céline. Foi depois de ler as Bagatelles que o Himler entendeu a chacina asséptica como imperativo categórico.
Então e os mentores da ovelhinha? Os pastores e seleccionadores da dita? Foi el-rei Dinheiro, o tal deus profano, que joeirou? Quem teve dinheiro para pagar a portagem safou-se, quem não teve foi para o calvário? Para meu grande espanto, o Rothschild austríaco safou-se com uma perna às costas. Quando até era suposto simbolizar o judeu na sua máxima perfídia e malfeitoria. Era suposto e merecido, reconheça-se. E no entanto... ei-lo feliz e contente nos Estados Unidos, depois de passar pelas mãos das SS. Amáveis que eles foram, os da caveira. Dá cá parte da massa e vai-te lá embora.
Bem, quanto aos mentores da ovelhinha, há quem diga que saíram altamente gratificados de todo aquele imbróglio. Andam por aí, arrotantes e pesporrentes, a tentar limpar as mãos ao anti-semitismo e a não sei mais quantos mil gambosinos de ocasião. Suspeito até que nisto, como em tudo, se cumprem atavismos ancestrais. Tal qual se referia no tempo de Herodes: "a maior parte dos animais oferecidos para os sacrifícios são cegos, coxos ou doentes".
Cegos, digo agora eu, porque não vêem para onde vão; coxos, porque não conseguiram fugir a tempo; e doentes, porque já nem oferecem resistência ao seu destino.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Também tu, Brutus?!...

«Cristo não tem inimigos mais venenosos, mais encarniçados, mais amargos que os judeus.»(...)
«Quando Judas se enforcou, os judeus talvez tenham enviado os seus servos, com pratos de prata e jarros de ouro, para recolher a sua urina com os outros tesouros, e em seguida comeram e beberam essa merda, e desse modo adquiriram olhos tão penetrantes que descobrem nas escrituras glosas que ali não encontraram nem Mateus, nem o próprio Isaísas (...)»
«Quando Deus e os anjos ouvem peidar um judeu, quantas gargalhadas e quantas cabriolas!(...)»
«são usurários, parasitas, estrangeiros que nada deveriam possuir (...), mas que se tornaram nossos patrões no nosso próprio país (...)»
«Observai tudo o que os judeus sofreram desde cerca de mil e quinhentos anos, e bem pior lhes acontecerá no inferno (...)»
«filhos do diabo (...) feiticeiros (...)»
«Seria preciso, para fazer desaparecer essa doutrina de blasfémia, atear fogo em todas as suas sinagogas e, se delas restasse alguma coisa após o incêndio, recobri-la de areia e de lama a fim de que não se pudesse mais ver a menor telha e a menor pedra de seus templos (...). Que se proíbam os judeus entre nós e no nosso solo, sob pena de morte, de louvar a Deus, de orar, de ensinar, de cantar. »

- Martinho Lutero, "Contra os judeus e suas mentiras" / "Shem Hamephoras"

«No entanto há muito mais exemplos de meninas e meninos sacrificados que de meninas e meninos comidos. Quase todas as nações conhecidas sacrificaram crianças. Os judeus imolavam-nas. Era o que se chamava condenar ao anátema e constituía um verdadeiro sacrifício. Ordena-se no capítulo 27 do Levítico não se pouparem as almas viventes prometidas, porém em ponto algum se prescreve que sejam comidas. Isto era outro caso: tratava-se exclusivamente de uma ameaça. Como vimos, disse Moisés aos judeus que caso não observassem as cerimónias, não só teriam sarna, como as mães comeriam os próprios filhos. Positivamente, no tempo de Ezequiel os judeus deviam comer carne humana, pois diz esse profeta no capítulo 39 que Deus os faria comer não apenas os cavalos dos seus inimigos, mas ainda os cavaleiros e os outros guerreiros. De facto, por que não teriam os judeus sido antropófagos? Seria a última coisa a faltar ao povo de Deus para ser a mais abominável nação da terra.»

- Voltaire, "Dicionário Filosófico"

Olha, o Grande Reformador e o Grande Iluminador também andaram a inspirar o Adolfo!... A este, espero que o banam imediatamente das celebrações francesas!...

PS: Detalhe nada desprezível: o termo anti-semitismo foi apenas cunhado no século XIX. Imagino que o controlo de uma certa imprensa nada tenha a ver com isso. Mas o que é certo é que, rapidamente, cobrou retroactivos (que, diga-se, remontam à antiguidade clássica europeia).


Contra o anti-semita Marxar, Marxar!...

«Consideremos o Judeu real, não o judeu do sabat, como o faz Bauer, mas o Judeu de todos os dias.
Não procuremos o segredo do Judeu na sua religião; procuremos o segredo da religião no Judeu real.
Qual é o fundo profano do judaísmo? A necessidade prática, a utilidade pessoal. Qual o culto profano do Judeu? O tráfico. Qual é o seu Deus profano? O dinheiro. Pois bem, a época actual só poderá emancipar-se a si própria emancipando-se do tráfico e do dinheiro, logo do judaísmo real e prático.
(...)
Reconhecemos pois, no judaísmo, um elemento anti-social geral e actual que foi levado pelo desenvolvimento histórico (no qual os Judeus, sob este aspecto negativo, participaram activamente) ao seu ponto culminante do tempo presente, a um nível em que terá necessariamente que se desagregar.
No seu significado último, a emancipação judaica consiste em emancipar a humanidade em relação ao judaísmo.
(...)
Não se trata de um facto isolado. O Judeu emancipou-se de uma maneira judaica, não só tornando-se senhor do mercado financeiro, mas porque, graças a ele e por ele, o dinheiro se tornou uma potência mundial e o espírito prático judeu, o espírito prático dos povos cristãos. Os judeus emanciparam-se na mesma medida em que os cristãos se tornaram Judeus.»

- Karl Marx, "A Questão Judaica"

Olha, o Karl Marx, afinal, também era nazi!...

domingo, fevereiro 06, 2011

Génios, Nuvens e Quimeras, Parte II

Ah, bem, pois... obstar-me-ão os manhosos do costume, mas Pessoa apenas queria metralhar portugueses avulsos, pelas ruas, o que é compreensível - e até desculpável, se pensarmos que se trataria, muito provavelmente, de pobres, velhos e desocupados. Aliás, bem vistas as coisas, descontada a violência e alguns estragos de somenos, até resultaria num contributo generoso para o "bem comum" no seu totem actual, vulgo "redução do défice".
Agora anti-semitismo é outra louça. Um trem de cozinha completo, com serviço de chá e tudo. Detestar judeus e, por alguma forma, intenção ou sequer pensamento, beliscá-los, melindrá-los ou amesquinhá-los na sua incomensurável virtude, isso, no mínimo, além de lesa-majestade, é associação criminosa, holocausto na forma tentada, conspiração para genocídio, pogrom de terceiro grau e mais não sei quantas contravenções gravíssimas. E, aí, Céline estará condenado ao fogo eterno da danação. Arreou forte e feio, sem meias-tintas nem contemplações, ainda mais numa época tenebrosa, de paroxismos germanoides e seiscentos diabos à solta. Em contrapartida, o nosso Pessoa seria anti-democrático, nos seus delírios mais excêntricos, mas não seria anti-semita (até porque alguns até sugerem que ele, como todos os grandes génios do mundo, seria de sangue judaico - só assim sendo, de resto, explicável tamanha inteligência e talento).
Pois bem, Céline granjeou notória e famigerada reputação graças, em especial, àquela obra - dita panfletária - intitulada "Bagatelles pour un Massacre". Nela, o seu móbil-mor de execração e alvo de artilharia é o enlace íntimo que, durante a sua viagem à União Soviética, vislumbra entre o judeu e o comunista russo. Passo a transcrever algumas passagens eloquentes. De Céline, mas também de Pessoa sobre o mesmíssimo assunto...

«O russo é um carcereiro de nascença, um chinês falhado, torcionário; o judeu enquadra-se-lhe na perfeição. Escória da Ásia, escória de África... foram feitos para casar... é o mais belo casamento que alguma vez terá saído dos infernos... não me aflige nada dizê-lo... de pois de uma semana de passeios tenho as minhas opiniões bem formadas..»
- Céline, "Bagatelles pour un Massacre"

«São por isso os judeus orientais, e maximamente os judeus russos, que albergam, nutrem e espalham o igualitarismo como doutrina. Fazem-no sobretudo, como é natural, onde encontram para isso ambiente, e esse ambiente é fácil entre os povos meio selvagens como o russo, ou entre as camadas meio selvagens como são, pela barbárie da semi-ignorância, os operários de todo o mundo. O comunismo de hoje - que, como ideia, só os idiotas sabem o que é - é o produto híbrido, e por isso estéril, do misticismo judaico e da estupidez europeia. Não esqueçamos: da estupidez europeia.»
- Fernando Pessoa, "Do Judaísmo" in Ultimatum e Páginas de Sociologia Política,pp 362

«No momento actual, a única coisa verdadeiramente grave para um grande homem, escritor sábio, cineasta, administrador de finanças, industrial, político (então aqui, a coisa é gravíssima!) é estar de más relações com os judeus. Os judeus são os nossos patrões... aqui, além, na Rússia, em Inglaterra, na América, por todo o lado! Fazei de bobo, de insurrecto, de intrépido, de anti-burguês, de enraivecido cavaleiro andante... que o judeu se está cagando! Galhofices... Tagarelices! Mas não ouseis tocar na questão judaica, se não quiserdes que vos lixem o coiro... Veloz como uma bala, eliminar-vos-ão, de uma maneira ou doutra... O judeu é o rei do ouro da banca e da justiça... através de um testa de ferro ou ao quadrado. Ele possui tudo... Imprensa... Teatro... Rádio... Câmara... Senado... polícia... Aqui ou além..»
- Céline, "Bagatelles pour un Massacre"

«(...)Não se trata da acção política dos judeus. Essa é evidente e natural; tem-se aproveitado, não só da Maçonaria e da ideologia igualitária, mas de tudo quanto, de origem judaica e não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilização tradicional, greco-romana e cristã, da Europa e do mundo europeizado.»
- Fernando Pessoa, "Do Judaísmo", idem.


Pois é, caros amigos... Afinal, pelo critério actual, tão exaustivamente exercido e do qual eu também já comi por tabela, Pessoa não era apenas anti-democrático: era também anti-semita. Fico a aguardar petições de despejo dos Jerónimos e protestos contra toda e qualquer celebração pública e oficial do poeta da Mensagem. Antigamente, a coisa chegava de Paris aqui com, pelo menos, 20 anos de atraso. Mas agora com as redes sociais e a internet, nunca se sabe. O saloio, doravante, é turbo.

Mas não esqueçamos, nunca esqueçamos: A ESTUPIDEZ EUROPEIA!





Génios, Nuvens e Quimeras




Antes de falarmos de Céline em espécie, recordemos um pouco do nosso Fernando Pessoa. Até porque o que eu aqui escrevi há anos, e que transcrevo de seguida, acerca do génio português é praticamente extensível ao francês, como
, de resto, ponderarei num futuro postal.



« Os que querem um Portugal honesto, feliz, rico e honrado, querem a negação da acção civilizacional portuguesa, querem que desçamos ao burguesismo nacional duma pseudo-nação como a Suiça ou a Bélgica, querem que abandonemos o nosso grande papel na construção do novo mundo, que abdiquemos de realizar em espírito aquilo que realizámos outrora em corpo – o alargamento do mundo e a descoberta de novas terras, de novos mares, de novos céus. Mais alta é a missão portuguesa do que tudo quanto pode sugerir a barriga dos portugueses, nessa pervertida teoria política que toda a chusma de traidores e de idiotas que são os nossos políticos e os nossos jornalistas querem impôr a Portugal. Mais alta é a obra, e ela, a ser feita, terá de ser feita, terá de ser feita quebrando aos pés toda a longa podridão humanitária, democrática, organizando uma aristocracia forte, dominando completamente a nossa plebe ineficaz salvo escravizada. (...)
Criar em Portugal o sentimento duma missão civilizadora! Esse deve ser o nosso ideal. O resto não importa. Que para chegar aí seja preciso varrer à metralha as ruas, calcar aos pés a felicidade e a liberdade do povo, arremessá-lo como um ariete de encontro às barreiras do nosso espírito – Que importa isso, se só assim, podemos deixar ficar Portugal no mundo depois de ele desaparecer?
Grande e difícil é a obra! Grande e difícil o varrer dos ideiais democráticos, humanitários e utilitários. Mas a grande obra anti-cristã (anti-cristã em tudo, anti-democrática, anti-católica, anti-monárquica) deve ser feita. Tristes de nós se faltarmos à missão divina que Aquele que nos pôs ao Ocidente da Europa e tais nos fez quais somos, nos impôs quando nos deu este nosso acesso e trancendido espírito aventureiro. Depois da conquista dos mares deve vir a conquista das almas. »
- Fernando Pessoa, “Páginas de Sociologia Política”

Imaginem que o maior poeta português era vivo e escrevia num blogue. Talvez se chamasse “Heteronimia”, “Heterografia”, ou coisa que o valesse. Imaginem que ele postava o texto em epígrafe. Calculem a gritaria, o alarido que se não levantava: Nazi! Nazi!! Estou em crer que a “esquerda lacoste” levantaria barricadas; a “esquerda pink”, lavraria protestos e apelaria ao índex. A direita quéque faria coro com e “esquerda pink”, clamando “nada de confusões, somos democratas”. O PR faria uma das suas redondas alocuções ao país. Em suma: chovia granizo, chuva zangada de todo o lado. Disparando em todas as direcções, o poeta da “Mensagem” tornava-se alvo de todas as partes.
E, todavia, o homem era um génio. Um daqueles raros que visitaram aqui o rincão. Como explicar esta tempestade furiosa? Habitava um monstro dentro dele? Um psicopata? Na sua múltipla personalidade estava incluído um Adolfo qualquer coisa? Acometiam-no delírios em que se fantasiava de tirano louco subjugando uma Europa fumegante, em escombros, a seus pés?
Verificado tão tenebroso depoimento, atestados os seus ignóbeis propósitos anti-democráticos – saliento: mais anti-democrático é difícil! – deviam ser as suas ossadas despejadas dos Jerónimos e substituídos pela dona Amália? Deviam ser os seus livros proibidos e varridos para fora das livrarias e bibliotecas? Devia ser o seu nome lançado ao opróbrio e a sua efígie queimada em praça pública? As ruas e alamedas com o seu nome deviam ser rebaptizadas? O quê?...
Enquanto as autoridades ponderam e cozinham a sentença, eu ouso ir divagando o seguinte:
É evidente que o nosso Fernando andara a ler Nietzsche. Ora, os efeitos inebriantes do filósofo alemão são por demais conhecidos, eu que o diga. É, pois, um Fernando Pessoa alterado, fora de si, heteroposto, que se imagina correndo a saloiada cá do bairro a pontapé e à metralha por amor duma louvável quimera que, num instante fugaz, o desinquietou. Não é que eu próprio, às vezes, não comungue de sonhos desses; simplesmente, uma coisa é a ficção, a fantasia filosófica, outra, bem diversa, é a realidadezinha e o “malhão, malhão”. Dir-me-ão: pífia justificativa, ó Dragão! E se algum exaltado avulso, desses símios de imitação que não podem ver ideia nenhuma que não queiram logo macaqueá-la, desata a exercitar-se nesses propósitos pelas avenidas?...Sim, o que vai ser das pessoas que forem por ali a passar?!...”
Concedo que a justificação não é das melhores. De facto, metralhar as ruas em tese, nada tem que ver com metralhá-las em sede própria. Não muito tempo depois do nosso Fernando ter escrito isto, houve até uns folgazões de gosto mais que duvidoso que sonegaram as metralhadoras da tese e foram experimentá-las na rua. Os resultados foram trágicos. Ora, isso é tão aberrante como pegar nas metralhadoras da rua e ir metralhar na tese; ou então chamar os polícias de ronda, para virem com os cassetetes da rua bater ao filósofo por causa da tese. (Tudo isto, nunca esquecendo que colocar uma tese explosiva nas mãos dum macaco é tão perigoso como colocar uma granada, admito-o).
Mas continuo na minha: o que era mesmo importante, higiénico, edificante era que, como dizia Baudelaire, se deixasse a cada qual a sua quimera. Que deixássemos de meter o naríz nas quimeras dos outros, e as quimeras dos outros na nossa cabeça. Não são inalações que se recomendem, sem as devidas precauções. Apreciemo-las, por cortesia, ou por fruição artísticas. Ninguém pode dizer que “Esse deve ser o nosso ideal. O resto não importa. Que para chegar aí seja preciso varrer à metralha as ruas, calcar aos pés a felicidade e a liberdade do povo, arremessá-lo como um ariete de encontro às barreiras do nosso espírito – Que importa isso, se só assim, podemos deixar ficar Portugal no mundo depois de ele desaparecer?”, não é bonito, mesmo sublime, enquanto literatura. Eu, pelo menos, não digo.
E mais sublime ainda se pensarmos nos efeitos devastadores que seguramente causará nas carinhas sonsas dos filisteus cá do burgo. Mas livrem-se de atrelar ficção tão garbosa à carroça trafulha da política: perde-se a genialidade e não se logra benefício nenhum. Pelo contrário, garimpa-se imundície pegada.
Por conseguinte, e em conclusão: Respeitemos os desabafos e telhas dos génios, pois é um direito exclusivo que lhes assiste. Guardemo-nos de interferir com eles, quando passeiam entre as nuvens o bando trovejante das suas quimeras. Velemos-lhes as jornadas, mas devidamente abrigados dos seus raios, sempre prontos a fulminar o basbaque incauto.
Quanto aos coletes de forças, coleiras, trelas e açaimes que a prudência recomenda, são arreios, na verdade, indispensáveis, não aos génios, seres inexpugnáveis por natureza, mas aos políticos, essa matilha acéfala, tumultuosa, que em tempo ou modo algum convém ser deixada à solta!... Para que, sobretudo, não conspurque nem perturbe com as suas badalhoquices e macacadas – nem, pior ainda, armadilhe de porcarias – a digressão nefelibata dos outros.

E quando, em dias de festa, virdes o povo entusiasmado, atrás dos políticos, em animadas e turbulentas caçadas, desviai-vos para bem longe. O povo tem uma tara: perseguir desilusões.